<p>Uma história vivida por mim e por meus colegas de trabalho, um pouco peculiar, conto uma história de uma paciente jovem, 25 anos, que já era mãe de 3 filhos, e estava gestante de seu quarto, de aproximadamente 20 semanas, estava com suspeita de H1N1.</p>
<p>Deu entrada em nossa UTI com suspeita de tuberculose também. Pela história contada por conhecidos, ela deixou seus 3 filhos com sua mãe e foi morar nas ruas. Era usuária de drogas, e bebia, mesmo grávida em sua situação atual. Não tinha um marido, sequer mantinha contato com sua mãe e seus filhos, todos pequenos.</p>
<p>Veio para nós consciente, sofria muito com tosses constantes, e estava tendo uma febre alta. Emagrecida, porém muito falante, de uma maneira exaustiva, tentava conversar com a gente sobre diversos tipos de assunto ao mesmo tempo, e ficava ofegante, devido ao seu quadro. Pedia para ela se acalmar, que o médico iria lhe atender e examinar. Mas a coitada, gostava mesmo de falar. A fisioterapeuta lhe colocou uma máscara chamada CPAP*, para que a cliente possa fazer exercícios respiratórios por um período.</p>
<p>Depois de um período, foi retirado para que a cliente possa se alimentar, ainda que, ela tinha dificuldades para respirar, estava liberado uma dieta leve, pastosa, que vinha sopa e um copo de suco. A moça olhava com aqueles olhos arregalados para a comida, e mal a copeira colocava sua comida na mesa, a moça saiu puxando a bandeja para comer, rapidamente. Olhei para aquilo e achei estranho, e perguntei, qual foi a última refeição que ela fez, e ela me respondeu &#8220;faz uns dias..!&#8221;. Entendi o porque disso. A moça morria de fome, e mesmo que ela estivesse debilitada, comeu com a maior rapidez aquele prato de sopa, e tomou o suco, num gole só. Até pedi para a moça da copa se poderia trazer mais um copo de suco, pois a moça estava me implorando para que trouxesse pois morria de sede.</p>
<p>Passava-se alguns minutos, a moça apresentava piora. Estava muito cansada, e o plantonista achou melhor entubá-la, para que possa melhorar sua parte respiratória. Fomos preparar todos os materiais para o procedimento, e aquela moça, mesmo estando numa situação complicada, puxou minha mão e me pediu para que guardasse aquele copo de suco que tinha conseguido para ela. &#8220;Eu irei tomar esse copo assim que acordar&#8221;, repetiu ela. Ficamos intrigados, pois apesar de todo seu histórico, a moça só pensava em se alimentar. Imagino o tanto tempo que ficou sem comer, passando frio nas ruas, e ainda grávida. É uma situação delicada. Não sei que escolhas da vida que ela tomou, para chegar neste ponto. Não pensei neste caso naquele momento, somente ao que ela falou.</p>
<p>Passava-se alguns dias, e foi diagnosticada com pneumonia, sendo descartado as duas hipóteses faladas anteriormente. Apresentava melhoras, tiraram-lhe a sedação, até um dia, depois de todo o tratamento, conseguiram extubá-la com sucesso sem problemas, e a primeira coisa que lhe perguntei quando ela estava em condições de falar era &#8220;a senhora ainda quer aquele copo de suco?&#8221;, e a moça, com um sorriso no rosto, mesmo com poucas dificuldades da fala, depois de um longo processo invasivo, me responde &#8220;você não esqueceu mesmo do que eu pedi! Muito obrigada! Quero tomar sim, estou com muita vontade&#8221;, e lhe trouxe, depois de liberarem novamente a dieta, dois copos de suco de uva, na qual ela tinha tomado naquele dia. A moça ficou muito satisfeita e agradeceu muito a equipe pela lembrança, menos que seja simples, de ter guardado (sabendo que pegamos o suco novo da copeira, risos). Pequenos atos, grandes lembranças. Mesmo que seja insignificante para alguns, é um ato de humanismo para outros.</p>
<hr />
<p>*<strong>CPAP &#8211; Contiunous Positive Airway Pressure</strong></p>


Guarde meu suco, por favor!

