Encostar no Êmbolo Contamina a Medicação?

êmbolo seringa

Durante anos, muitos profissionais aprenderam que tocar no êmbolo da seringa automaticamente contaminaria a medicação. A ciência mais recente pede um pouco mais de precisão nessa afirmação.

Um estudo brasileiro publicado em 2025 avaliou 160 seringas hipodérmicas descartáveis, utilizando testes microbiológicos, estruturais, de vazamento por gravidade e de pressão. Nas condições experimentais avaliadas, os pesquisadores não identificaram contaminação ou vazamento associado ao toque nas hastes do êmbolo e concluíram que as seringas testadas mantiveram segurança para o medicamento aspirado.

Isso não significa que o profissional esteja autorizado a tocar livremente em qualquer parte da seringa. Técnica asséptica continua sendo fundamental, principalmente porque diferentes modelos de seringa possuem estruturas diferentes e porque a contaminação depende de como, onde e quantas vezes o dispositivo é manipulado.

Então tocar no êmbolo contamina ou não?

A melhor resposta atualmente é: não é correto afirmar que um simples toque na haste do êmbolo, por si só, contamina automaticamente a medicação dentro de toda seringa descartável moderna.

Por outro lado, existem estudos experimentais demonstrando que contaminantes presentes no êmbolo, nas mãos ou no interior do cilindro podem alcançar o líquido em determinadas condições. Um estudo publicado na Scientific Reports mostrou que bactérias colocadas experimentalmente sobre o êmbolo, no cilindro ou nas luvas do operador conseguiram penetrar no líquido dentro da seringa durante movimentos repetidos de aspiração e injeção.

É justamente por isso que a orientação de evitar tocar nas partes estéreis da seringa continua fazendo sentido: a ausência de contaminação demonstrada em um modelo experimental específico não transforma o toque em uma prática recomendada.

O que acontece dentro da seringa?

A questão fica mais interessante quando observamos a estrutura do dispositivo. O êmbolo possui uma haste externa e uma parte de vedação que permanece em contato com o interior do cilindro. Dependendo do modelo, movimentos repetidos podem favorecer a passagem de contaminantes da região externa para áreas internas.

Estudos anteriores já demonstraram esse mecanismo. Em experimentos microbiológicos, o contato de microrganismos com o êmbolo foi capaz de produzir contaminação interna após movimentos repetidos, enquanto modificações no desenho da seringa reduziram esse fenômeno.

Portanto, não é apenas a pergunta “tocou ou não tocou?”. É preciso considerar qual parte foi tocada, como ocorreu o contato, se houve movimentação do êmbolo, se a seringa foi manipulada repetidamente e qual modelo de dispositivo estava sendo utilizado.

E quando falamos de medicamentos perigosos?

Aqui a discussão muda bastante. Em medicamentos perigosos, como determinados quimioterápicos, existe evidência de contaminação do êmbolo durante o preparo e risco ocupacional para os profissionais.

Uma pesquisa publicada em 2025 avaliou seringas utilizadas no preparo de seis medicamentos perigosos e encontrou contaminação nas paredes internas e nos êmbolos após o preparo. Por esse motivo, os pesquisadores evitaram o contato com a haste do êmbolo durante o estudo e utilizaram somente a parte externa destinada à manipulação.

Nesse cenário, a preocupação não é apenas contaminar a solução. O medicamento pode atingir o êmbolo e posteriormente ser transferido para as luvas, superfícies e outros materiais, aumentando a exposição ocupacional.

O que isso significa na prática?

Imagine uma situação comum durante o preparo: o profissional está aspirando uma medicação e toca rapidamente a haste do êmbolo para estabilizar a seringa. O novo estudo brasileiro não permite afirmar que aquela medicação ficou automaticamente contaminada. Seria exagero transformar um toque isolado em uma certeza microbiológica.

Porém, se durante o procedimento a mesma seringa for manipulada diversas vezes, houver contato com superfícies não estéreis ou o êmbolo for movimentado repetidamente depois desse contato, o cenário muda. Estudos experimentais mostram que a manipulação pode favorecer a passagem de contaminantes para o interior.

É uma diferença importante para quem está aprendendo: não precisamos ensinar um mito para ensinar uma técnica segura.

E se eu encostar sem querer?

Não é necessário afirmar automaticamente que a medicação está contaminada e deve ser descartada em qualquer situação. Primeiro é preciso avaliar onde ocorreu o contato, se a parte tocada participa do caminho estéril, se houve comprometimento da esterilidade e qual é o medicamento envolvido, além de seguir o protocolo institucional.

O mais seguro é evitar deliberadamente o contato com a haste do êmbolo e com outras partes críticas da seringa. Materiais de ensino de administração parenteral continuam recomendando manter estéreis a ponta, o conector e as partes relevantes do dispositivo, evitando tocar a extensão do êmbolo.

Cuidados de enfermagem

Na prática, mantenha a técnica asséptica durante todo o preparo, faça higiene das mãos, utilize seringa e agulha estéreis e de uso único e evite tocar desnecessariamente no êmbolo, ponta, conexão Luer e demais partes críticas.

Também não reutilize seringas entre pacientes e tenha atenção especial durante o preparo de medicamentos perigosos, seguindo rigorosamente os protocolos específicos de segurança ocupacional. Se houver dúvida real sobre a manutenção da esterilidade, não improvise: siga o protocolo da instituição e as orientações do serviço de farmácia ou responsável técnico.

Afinal, encostar no êmbolo contamina a medicação?

Não dá para afirmar que um simples toque na haste do êmbolo automaticamente contamina a medicação em uma seringa descartável moderna. A pesquisa brasileira de 2025 não encontrou essa contaminação nas condições estudadas.

Mas também não é correto concluir que tocar no êmbolo é uma prática segura e recomendável. Existem evidências experimentais de que contaminantes podem alcançar o interior da seringa em determinadas condições, principalmente com manipulação e movimentos repetidos. Por isso, a orientação mais segura continua sendo evitar tocar nas partes críticas e preservar a técnica asséptica.

A diferença é importante: uma recomendação de técnica asséptica não precisa ser sustentada por uma afirmação científica absoluta que os estudos não comprovam.

Resumo para salvar

Encostar no Êmbolo Contamina a Medicação?

  • Um toque no êmbolo não demonstrou contaminar automaticamente toda medicação em seringas modernas
  • Estudos mostram que contaminantes podem alcançar o interior em determinadas condições
  • Manipulação repetida pode aumentar o risco de contaminação
  • A técnica asséptica e o cuidado com partes críticas da seringa continuam essenciais

Referências: 

  1. SOUZA, Jorge Guimarães de; CANESE, Emiliano Joel Stigarribia. Avaliação técnica, microbiológica e estrutural de seringas hipodérmicas descartáveis durante aspiração de fármacos. Journal of Human Growth and Development, v. 35, n. 3, p. 412-418, 2025. Disponível em: Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano.
  2. YOSHIDA, et al. Pumping infusions with a syringe may cause contamination of the fluid in the syringe. Scientific Reports, 2021. Disponível em: Scientific Reports — Nature.
  3. SESSINK, Paul J. M.; TANS, Birgit; DEVOLDER, David. Contamination on inner walls of syringes used for compounding and administration of hazardous drugs. Journal of Oncology Pharmacy Practice, 2025. Disponível em: Journal of Oncology Pharmacy Practice.
  4. PERCEVAL, A. Consequence of syringe-plunger contamination. Medical Journal of Australia, v. 1, n. 10, p. 487-489, 1980. Disponível em: PubMed. 
  5. BACCA, Lucas Faccin da Rosa; GOUVEA, Pollyana Bortholazzi. Contaminação por contato no êmbolo durante o preparo de soluções parenterais: estudo caso-controle. Anais do Seminário de Iniciação Científica da Universidade do Vale do Itajaí, v. 24, 2025. DOI: 10.14210/asic2421757. Disponível em: https://periodicos.univali.br/index.php/asic/article/view/21757

Anafilaxia Como Reconhecer e O Que Fazer

anafilaxia

Anafilaxia é uma reação de hipersensibilidade sistêmica, grave e potencialmente fatal. Pode surgir rapidamente após medicamentos, alimentos, venenos de insetos, vacinas ou outros desencadeantes, comprometendo pele e mucosas, sistema respiratório e circulação. Urticária, angioedema, rouquidão, estridor, falta de ar, chiado, queda da pressão, tontura, síncope e alterações gastrointestinais podem aparecer em diferentes combinações.

A grande armadilha é esperar a queda da pressão para considerar a situação grave. Anafilaxia pode estar evoluindo antes do choque aparecer, principalmente quando há comprometimento de via aérea ou dificuldade respiratória. Por isso, diante de uma suspeita clínica compatível, o tratamento deve ser iniciado rapidamente.

O que fazer primeiro?

A prioridade é adrenalina por via intramuscular, preferencialmente na região anterolateral da coxa, seguindo dose e protocolo aplicáveis ao paciente. A adrenalina é a medicação de primeira escolha e não deve ser substituída inicialmente por anti-histamínicos ou corticosteroides. Se a resposta for insuficiente, a dose pode ser repetida conforme o protocolo, geralmente em intervalos de 5 a 15 minutos.

Enquanto a adrenalina é administrada, a equipe deve avaliar vias aéreas, respiração e circulação, acionar suporte de emergência e manter monitorização. O paciente deve ser colocado adequadamente, geralmente em decúbito dorsal com pernas elevadas quando tolerado; se houver vômitos ou comprometimento da consciência, a posição deve ser adaptada para reduzir o risco de aspiração.

É nesse momento que uma situação prática pode acontecer muito rápido: uma pessoa recebe um medicamento e, poucos minutos depois, começa com urticária disseminada, edema de lábios, voz abafada e dificuldade para respirar. Não é hora de aguardar a evolução da pele ou preparar primeiro um anti-histamínico. A prioridade é reconhecer a anafilaxia, administrar adrenalina IM conforme protocolo e iniciar o suporte necessário.

E depois da adrenalina?

A assistência continua. Oxigênio pode ser utilizado quando indicado, especialmente diante de hipoxemia ou comprometimento respiratório importante. Em pacientes com hipotensão ou choque, pode ser necessária expansão volêmica com cristaloide, além de outras medidas avançadas conforme a resposta clínica. Broncoespasmo persistente pode exigir broncodilatador como tratamento complementar.

Anti-histamínicos e corticosteroides não substituem a adrenalina na fase inicial. Eles podem ter papel complementar em situações específicas, mas não devem atrasar a administração da medicação de primeira linha. A adrenalina intravenosa, por sua vez, não é a conduta inicial habitual e envolve maior risco, sendo reservada a cenários apropriados, com monitorização e profissionais habilitados.

Outro momento que merece atenção é aquele paciente que melhora rapidamente depois da primeira dose e parece estar “bem”. A melhora não encerra o atendimento. Existe possibilidade de recorrência dos sintomas, por isso o paciente precisa permanecer sob observação e receber avaliação adequada antes de ser liberado.

Como a enfermagem reconhece rapidamente?

Na prática, pense em uma combinação de início súbito + manifestações sistêmicas. Coceira, urticária ou angioedema associados a dificuldade respiratória, alteração circulatória ou outros sinais de comprometimento sistêmico devem aumentar imediatamente a suspeita.

Também é importante observar sinais menos óbvios: mudança da voz, sensação de garganta fechando, estridor, tosse persistente, chiado, palidez, sudorese, tontura, confusão, síncope, dor abdominal, vômitos ou diarreia. A ausência de lesões cutâneas não exclui anafilaxia, especialmente quando existe comprometimento respiratório ou cardiovascular importante.

Cuidados de enfermagem

Durante o atendimento, a enfermagem deve priorizar:

  • Reconhecimento imediato e acionamento da equipe de emergência.
  • Avaliação contínua de vias aéreas, respiração e circulação.
  • Administração da adrenalina IM conforme prescrição, protocolo e dose adequada.
  • Monitorização de pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória e saturação.
  • Manutenção de acesso venoso quando indicado e preparo para expansão volêmica.
  • Disponibilização de oxigênio e materiais para suporte ventilatório.
  • Registro do horário, dose, via, resposta clínica e evolução do paciente.
  • Observação após a melhora inicial, devido ao risco de recorrência.

O Cofen também reforça que, no contexto de anafilaxia pós-vacinação em ações extramuros, a adrenalina IM é a primeira linha e que a atuação da enfermagem deve estar respaldada por protocolo institucional, treinamento e condições adequadas de segurança.

Para guardar na emergência

! Atenção na Prova

Se houver uma suspeita consistente de anafilaxia, não espere a evolução para agir.

A sequência essencial é:

Reconhecer → avaliar ABC → adrenalina IM → suporte respiratório e circulatório → monitorizar → encaminhar e observar.

O detalhe que salva tempo — e pode salvar uma vida — é lembrar que adrenalina é o tratamento de primeira linha; anti-histamínico e corticoide não devem ocupar o lugar dela.

Resumo para salvar

Anafilaxia: O Que Fazer Primeiro?

  • Adrenalina IM é o tratamento de primeira linha
  • Avalie rapidamente vias aéreas, respiração e circulação
  • Anti-histamínicos e corticoides não substituem a adrenalina
  • Mesmo após melhora, o paciente precisa de monitorização e avaliação

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais: condutas diante de anafilaxia. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde — Manual dos CRIE.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde — Manual de Vigilância de Eventos Adversos Pós-Vacinação.
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Parecer nº 47/2025/Câmaras Técnicas de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2026. Disponível em: Cofen — Parecer nº 47/2025.
  4. SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal da Saúde. Protocolo de Assistência em Anafilaxia para enfermeiros da Atenção Básica. São Paulo: SMS. Disponível em: Prefeitura de São Paulo — Protocolo de Anafilaxia. 

Noripurum Não é Mais Administrado por Via Intramuscular

noripurum IM

Quem começou na enfermagem mais recentemente pode estranhar quando alguém pergunta sobre “Noripurum IM”. A apresentação existia, vinha em solução injetável para uso intramuscular e fazia parte da rotina de administração de ferro. O ponto é que essa apresentação não é mais fabricada: o Noripurum IM foi descontinuado definitivamente, enquanto outras apresentações da família Noripurum permaneceram disponíveis, incluindo a formulação endovenosa.

O que aconteceu com o Noripurum IM?

A descontinuação não ocorreu porque a via intramuscular foi simplesmente “proibida”. Em documento analisado pela Anvisa, a empresa informou que a fabricante Vifor Pharma decidiu descontinuar mundialmente o produto na forma de solução injetável intramuscular, deixando de fabricá-lo. A notificação brasileira da descontinuação definitiva havia sido apresentada em 1º de abril de 2019.

A própria Anvisa diferencia descontinuação de retirada por problemas de qualidade. Um medicamento pode deixar de ser encontrado porque o laboratório interrompe sua fabricação, por questões comerciais, logísticas ou relacionadas à produção; isso não significa automaticamente que o produto tenha sido proibido por apresentar risco sanitário.

E o Noripurum EV?

Aqui está uma confusão bastante comum: Noripurum IM e Noripurum EV não são a mesma apresentação. O Noripurum EV contém sacarato de hidróxido férrico e é uma solução injetável destinada à via endovenosa, com apresentação de 100 mg/5 mL. Sua bula profissional mantém indicações para situações específicas de anemia ferropriva, conforme avaliação clínica e prescrição.

Portanto, não se deve pegar a apresentação EV e simplesmente decidir administrá-la por via IM. A via de administração deve corresponder à apresentação registrada, à prescrição e à bula do medicamento.

O que mudou na prática da enfermagem?

Para quem aprendeu a administrar o antigo Noripurum IM, a mudança é principalmente de atualização profissional: aquela apresentação deixou de fazer parte do mercado brasileiro. A documentação histórica mostra inclusive que, na época da descontinuação, ainda havia estoque suficiente para determinado período, o que explica por que alguns profissionais podem ter continuado encontrando o produto durante a transição.

É justamente nesse ponto que uma situação de rotina pode gerar erro. Imagine um profissional recebendo uma prescrição antiga escrita apenas como “Noripurum IM” e encontrando atualmente uma ampola de Noripurum EV no estoque. O correto não é adaptar a via por conta própria; é conferir apresentação, concentração, prescrição e protocolo institucional antes da administração.

Outro cenário frequente na prática é o estudante ouvir de um profissional mais antigo que “Noripurum era IM” e concluir que qualquer apresentação atual de ferro injetável pode ser aplicada dessa forma. A informação histórica está correta para a antiga apresentação, mas não deve ser usada para definir a via de uma apresentação atualmente disponível.

Então nunca mais existe ferro por via intramuscular?

Essa conclusão também seria incorreta. O que foi descontinuado foi a apresentação específica do Noripurum IM, e não todos os medicamentos de ferro injetável nem toda possibilidade terapêutica existente. A escolha entre ferro oral e diferentes formulações parenterais depende do medicamento disponível, indicação, condição clínica, tolerância, absorção e prescrição médica.

A bula histórica do Noripurum IM descrevia a formulação de ferripolimaltose 50 mg/mL, em ampolas de 2 mL, destinada ao uso intramuscular. Já a apresentação Noripurum EV possui outra formulação, concentração e via registrada.

Cuidados de enfermagem

Antes de administrar qualquer ferro parenteral, confira nome do medicamento, apresentação, concentração, via prescrita, paciente, dose, validade e condições do produto. No caso do Noripurum EV, a administração deve seguir a bula vigente, a prescrição e o protocolo institucional, incluindo os cuidados relacionados à administração intravenosa e à observação do paciente.

Também é importante não transformar informação antiga em prática atual. Se aparecer uma prescrição de “Noripurum IM”, a conduta segura é não substituir a apresentação ou alterar a via por iniciativa própria. A dúvida deve ser esclarecida com o prescritor e conforme as normas do serviço.

O Cofen já publicou parecer específico sobre a administração de sacarato de hidróxido férrico, destacando a competência técnica do enfermeiro para administração do medicamento em determinadas situações, sempre considerando a apresentação, a prescrição e as condições previstas para o procedimento.

Para guardar de uma vez

Noripurum IM foi descontinuado definitivamente. A apresentação intramuscular deixou de ser fabricada após decisão do fabricante, que informou a descontinuação mundial do produto. Isso não significa que o Noripurum tenha desaparecido completamente: existe a apresentação Noripurum EV, destinada à administração endovenosa, além de outras apresentações da família.

Na enfermagem, a regra é simples: não adapte a via porque o nome comercial é parecido. Confira sempre a apresentação específica do medicamento.

Resumo para salvar

Noripurum IM: Por Que Sumiu?

  • Noripurum IM foi descontinuado definitivamente
  • A descontinuação ocorreu por decisão do fabricante e não por uma proibição da via IM pela Anvisa
  • Noripurum EV é uma apresentação diferente e destinada à via endovenosa
  • A enfermagem deve conferir sempre a apresentação e a via antes da administração

Referências:

  1. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Descontinuação de medicamentos. Brasília, DF: Anvisa. Disponível em: Anvisa — Descontinuação de medicamentos.
  2. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Voto do Circuito Deliberativo nº 1165/2021. Brasília, DF: Anvisa, 2021. Disponível em: Anvisa — Voto sobre descontinuação do Noripurum IM.
  3. TAKEDA PHARMA. Noripurum® EV: bula profissional. São Paulo: Takeda Pharma. Disponível em: Noripurum EV — Bula profissional.
  4. TAKEDA PHARMA. Noripurum® IM: bula profissional. São Paulo: Takeda Pharma. Disponível em: Noripurum IM — Bula profissional histórica.
  5. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Parecer de Câmara Técnica nº 0043/2022 – CTLN/Cofen. Brasília, DF: Cofen, 2022. Disponível em: Cofen — Parecer sobre administração de sacarato de hidróxido férrico. 

Sarampo, como Reconhecer os Primeiros Sinais

Sarampo

No sarampo, o detalhe que mais importa para a enfermagem pode aparecer antes mesmo das manchas: a capacidade de transmissão começa dias antes do exantema. Uma pessoa pode circular, tossir e conversar normalmente enquanto já transmite o vírus, o que torna a identificação precoce e a organização do atendimento fundamentais.

O que é o sarampo?

O sarampo é uma doença viral aguda, altamente contagiosa, causada pelo vírus do sarampo. A transmissão ocorre principalmente pelo ar, durante tosse, espirro, fala ou respiração. A pessoa infectada pode transmitir o vírus desde aproximadamente 6 dias antes até 4 dias depois do aparecimento do exantema.

Essa característica explica por que um caso suspeito não deve simplesmente aguardar em uma sala de espera cheia. A suspeita precisa ser reconhecida rapidamente, com medidas para reduzir a exposição de outras pessoas.

Como reconhecer os sinais?

O quadro geralmente começa com febre alta, tosse, coriza e conjuntivite não purulenta. Depois surge o exantema maculopapular, que costuma começar na face e região da cabeça e avançar em direção ao restante do corpo. As manchas de Koplik, pequenos pontos esbranquiçados na mucosa oral, também podem aparecer e são um achado clássico.

Um ponto que merece atenção na assistência é a evolução da febre. A persistência da febre depois do aparecimento das manchas pode indicar maior risco de gravidade, especialmente em crianças pequenas.

Imagine, por exemplo, uma criança chegando à unidade com febre alta, tosse, olhos avermelhados e exantema começando no rosto. Enquanto a equipe procura um diagnóstico, o cuidado mais importante já começou: evitar que ela permaneça junto de outras crianças na recepção, comunicar a suspeita e organizar o fluxo conforme o protocolo do serviço.

Complicações que não podem passar despercebidas

Sarampo não é apenas uma doença com manchas na pele. Entre as complicações estão pneumonia, otite média e encefalite, além de desidratação e comprometimento nutricional. Em crianças pequenas, a pneumonia é uma das principais causas de morte relacionada à doença.

Por isso, alterações respiratórias, redução do nível de consciência, dificuldade para manter hidratação, piora do estado geral e febre persistente exigem avaliação cuidadosa e rápida.

Na prática assistencial, uma criança com sarampo suspeito que começa a apresentar aumento do esforço respiratório não deve ser avaliada apenas pela presença ou ausência das manchas. A enfermagem precisa observar frequência respiratória, saturação, temperatura, estado de hidratação, nível de consciência e evolução clínica, comunicando alterações imediatamente.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico pode ser suspeitado clinicamente, mas a confirmação laboratorial é fundamental para a vigilância epidemiológica. Podem ser utilizados exames sorológicos e métodos de biologia molecular, com coleta de sangue, secreções nasofaríngeas/orofaríngeas e urina conforme o momento da doença e orientação da vigilância.

Não existe tratamento antiviral específico para o sarampo. A assistência envolve hidratação, suporte nutricional, controle da febre e acompanhamento das possíveis complicações. O Ministério da Saúde também recomenda vitamina A para crianças com suspeita de sarampo, mediante avaliação clínica e/ou nutricional e conforme a faixa etária. Antibióticos não são utilizados rotineiramente, sendo indicados quando existe suspeita ou confirmação de infecção bacteriana secundária.

Vacinação continua sendo a principal proteção

A prevenção depende principalmente da vacinação. No Calendário Nacional de Vacinação de 2026, a vacina tríplice viral faz parte da rotina, com primeira dose aos 12 meses e segunda dose aos 15 meses, respeitando as orientações vigentes para cada faixa etária e situação epidemiológica.

Adolescentes e adultos com esquema incompleto devem atualizar a vacinação conforme o calendário. Para trabalhadores da saúde, o calendário prevê duas doses da tríplice viral, independentemente da idade, conforme histórico vacinal e orientações do PNI. Em situações específicas de surto ou risco epidemiológico, podem existir estratégias adicionais, inclusive vacinação de crianças menores de 1 ano.

Um detalhe importante para quem trabalha em saúde: a recomendação não deve ser baseada apenas na lembrança de ter tomado vacina. O histórico vacinal precisa ser conferido e atualizado conforme as normas vigentes.

Cuidados de enfermagem

Na suspeita de sarampo, a enfermagem deve priorizar:

  • Reconhecimento rápido dos sinais e sintomas.
  • Separação do paciente dos demais usuários e adoção das medidas de prevenção de transmissão respiratória conforme protocolo institucional.
  • Uso adequado dos equipamentos de proteção indicados pelo serviço.
  • Monitorização de temperatura, frequência respiratória, saturação, hidratação e nível de consciência.
  • Observação de sinais de pneumonia, encefalite e deterioração clínica.
  • Comunicação imediata da suspeita à equipe responsável e à vigilância conforme o fluxo local.
  • Orientação para evitar contato com pessoas vulneráveis e manter o isolamento recomendado.

Em ambientes de saúde, o isolamento de casos suspeitos ou confirmados é uma medida importante para reduzir a dispersão do vírus. O Ministério da Saúde orienta que a pessoa com suspeita ou confirmação evite trabalho ou escola por pelo menos quatro dias a partir do início do exantema.

O ponto que o profissional de enfermagem precisa guardar

Febre alta + tosse + coriza + conjuntivite + exantema que começa na face = pense em sarampo e aja rapidamente.

Não espere que o quadro fique evidente para começar as medidas de controle. Em setembro de 2026, o próprio Ministério da Saúde publicou alerta para intensificação da identificação de casos suspeitos diante do cenário epidemiológico nacional e internacional, reforçando que a doença continua exigindo vigilância ativa.

Resumo para salvar

Sarampo: Reconheça Antes que Espalhe

  • Febre alta, tosse, coriza, conjuntivite e exantema são sinais importantes
  • O sarampo é altamente contagioso e exige medidas rápidas de controle
  • Pneumonia e encefalite estão entre as principais complicações
  • A vacinação é a principal forma de prevenção

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Sarampo. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde — Sarampo. 
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Calendário Nacional de Vacinação. 
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Tríplice Viral. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Vacina Tríplice Viral — Ministério da Saúde. 
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Outras orientações: isolamento e medidas de controle do sarampo. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Orientações sobre isolamento e controle do sarampo. 

Seringa de Insulina: Guia Prático

A seringa de insulina é um daqueles materiais que parecem simples até aparecer uma prescrição de 18 UI, uma seringa diferente da habitual ou um frasco com concentração que não bate com a graduação. É justamente aí que pequenos detalhes podem virar grandes erros de dose. Para quem está na enfermagem, entender capacidade, graduação, concentração e conversão é tão importante quanto saber fazer a aplicação.

O que significa UI na insulina?

A insulina é dosada em Unidades Internacionais (UI ou U). Uma apresentação muito comum é a U-100, que contém 100 UI em cada 1 mL. Portanto, nessa concentração, podemos estabelecer uma relação simples:

100 UI = 1 mL
50 UI = 0,5 mL
20 UI = 0,2 mL
10 UI = 0,1 mL
1 UI = 0,01 mL

Essa relação é fundamental para transformar uma dose prescrita em unidades no volume correspondente quando a administração é feita com uma seringa convencional.

Tipos e tamanhos de seringas

As seringas próprias para insulina podem ser encontradas, entre outras apresentações, em 0,3 mL, 0,5 mL e 1 mL. Considerando a concentração U-100, isso corresponde respectivamente a 30 UI, 50 UI e 100 UI de capacidade. Existem modelos com diferentes graduações, por isso é indispensável observar a escala impressa na própria seringa antes de aspirar.

Uma seringa de 0,3 mL (30 UI) costuma ser interessante para doses menores, enquanto a de 0,5 mL (50 UI) comporta doses intermediárias. Já a de 1 mL (100 UI) permite aspirar até 100 UI quando utilizada com insulina U-100. O importante é não escolher apenas pelo tamanho: a graduação e a concentração da insulina precisam ser compatíveis com a dose prescrita.

Graduação de 1 UI ou 2 UI

Nem toda seringa apresenta a mesma divisão entre os traços. Há modelos cuja graduação permite identificar 1 UI por marcação e outros nos quais cada marcação representa 2 UI. Para doses pequenas ou que exigem maior precisão, a graduação de 1 em 1 UI facilita a leitura e reduz a possibilidade de erro.

Por isso, nunca assuma que “cada risquinho vale 1 UI”. Olhe a escala da seringa utilizada.

E a seringa de resíduo zero?

O termo resíduo zero está relacionado ao desenho do dispositivo, especialmente ao espaço residual existente no bico da seringa. Nos modelos comercializados como “resíduo zero”, o êmbolo foi projetado para avançar mais próximo do bico, reduzindo a quantidade de solução que permanece dentro da seringa após a administração. Isso diminui desperdícios e pode ser particularmente relevante quando se trabalha com medicamentos de pequenas quantidades.

Na prática, vale uma atenção importante: “resíduo zero” não significa que a dose prescrita possa ser alterada. A dose continua sendo determinada pela prescrição, pela concentração da insulina e pela escala do dispositivo.

! Atenção na Prova Conversão de UI para mL

Quando temos uma insulina U-100 e precisamos utilizar uma seringa convencional, a regra de três resolve o cálculo.

Exemplo: foram prescritas 25 UI de insulina U-100.

100 UI — 1 mL
25 UI — X

X = 25 × 1 ÷ 100
X = 0,25 mL

Portanto, seriam 0,25 mL.

O mesmo raciocínio pode ser utilizado para qualquer dose, desde que a concentração esteja corretamente identificada. O material do Cofen sobre cálculo e diluição de medicamentos utiliza justamente essa lógica para transformar unidades de insulina em volume quando não há seringa própria disponível.

Atenção: U-100 não é igual a qualquer insulina

Essa é uma das informações que mais merece atenção durante o cálculo. U-100 significa 100 UI/mL, mas existem apresentações de insulina com outras concentrações. Há, por exemplo, produtos U-300, nos quais 1 mL contém 300 UI.

Assim, não se deve pegar uma insulina de concentração diferente, aplicar automaticamente a relação 100 UI = 1 mL e utilizar a escala como se fosse U-100. Antes de calcular, confira sempre nome da insulina, concentração, via, dose prescrita e dispositivo utilizado.

E quando não existe seringa de insulina?

Imagine uma prescrição de 20 UI de insulina U-100, mas a unidade dispõe apenas de uma seringa convencional de 3 mL.

A relação será:

100 UI — 1 mL
20 UI — X

X = 20 × 1 ÷ 100
X = 0,2 mL

Nesse caso, o volume correspondente é 0,2 mL. É exatamente por isso que a regra de três continua sendo uma ferramenta importante na formação e na prática da enfermagem.

Cinco exercícios de cálculo de insulina

Todos os exercícios abaixo consideram insulina U-100, ou seja, 100 UI/mL.

Prescrição de 15 UI

Paciente com prescrição de 15 UI de insulina U-100. Quantos mL devem ser aspirados em uma seringa convencional?

100 UI — 1 mL
15 UI — X

X = 15 × 1 ÷ 100
X = 0,15 mL

Resposta: 0,15 mL.

Prescrição de 35 UI

Foram prescritas 35 UI de insulina U-100.

100 UI — 1 mL
35 UI — X

X = 35 × 1 ÷ 100
X = 0,35 mL

Resposta: 0,35 mL.

Prescrição de 48 UI

Prescrição: 48 UI de insulina U-100.

100 UI — 1 mL
48 UI — X

X = 48 × 1 ÷ 100
X = 0,48 mL

Resposta: 0,48 mL.

Prescrição de 72 UI

Prescrição: 72 UI de insulina U-100.

100 UI — 1 mL
72 UI — X

X = 72 × 1 ÷ 100
X = 0,72 mL

Resposta: 0,72 mL.

Frasco com 100 UI/mL e prescrição de 8 UI

Paciente deverá receber 8 UI de insulina U-100 utilizando seringa convencional.

100 UI — 1 mL
8 UI — X

X = 8 × 1 ÷ 100
X = 0,08 mL

Resposta: 0,08 mL.

Perceba como o cálculo permanece o mesmo: a dose prescrita fica de um lado, a concentração disponível do outro, e o volume procurado é obtido pela regra de três. O cuidado maior está em confirmar a concentração antes de começar a conta.

Cuidados de enfermagem

Antes da administração, confira a prescrição e faça a conferência dos chamados certos da administração de medicamentos, principalmente paciente, medicamento, concentração, dose, via e horário. Verifique também a validade, integridade da embalagem, aspecto da insulina e compatibilidade entre a seringa e a concentração utilizada.

Na prática, uma situação muito comum é encontrar uma prescrição de 6 UI ou 8 UI e perceber que a seringa disponível possui uma graduação pouco precisa para aquela dose. Nessa situação, trocar o dispositivo por um modelo com graduação adequada pode fazer diferença na precisão da administração. Materiais educativos sobre insulinoterapia recomendam atenção especial à graduação da seringa justamente porque doses pequenas podem ser difíceis de medir com precisão.

Outra situação frequente durante o plantão é a prescrição em UI acompanhada de uma seringa convencional porque a seringa específica de insulina não está disponível. É nesse momento que a regra de três deixa de ser apenas conteúdo de prova: 100 UI/mL, prescrição em UI e seringa graduada em mL precisam ser convertidos corretamente antes da administração.

Também é essencial lembrar que seringas são dispositivos de uso único e devem ser descartadas adequadamente após utilização, conforme as normas e o protocolo institucional.

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Para U-100:

100 UI = 1 mL
50 UI = 0,5 mL
25 UI = 0,25 mL
10 UI = 0,1 mL
1 UI = 0,01 mL

E a fórmula mais importante para quem está começando é: Dose prescrita × volume disponível ÷ dose disponível

Quando a concentração for 100 UI/mL, usando 1 mL como referência: UI prescritas × 1 ÷ 100 = mL a administrar.

O cálculo é simples. O que não pode ser simples demais é a conferência: concentração diferente, seringa diferente ou graduação diferente podem mudar completamente a resposta.

Resumo para salvar

Seringa de Insulina: Guia Prático

  • Insulina U-100 contém 100 UI por mL
  • Seringas podem ter capacidades de 0,3 mL, 0,5 mL e 1 mL
  • Resíduo zero reduz o volume residual no dispositivo
  • Na U-100, a regra de três permite converter UI em mL

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Práticas de cuidado com o uso de insulina por usuários com Diabetes Mellitus tipo 2. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Biblioteca do Cofen – documento sobre uso de insulina
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Boas práticas: cálculo seguro – volume 2: cálculo e diluição de medicamentos. Brasília, DF: Cofen. Cofen – Cálculo e diluição de medicamentos
  3. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Seringas descartáveis para insulina – registros e especificações de dispositivos médicos. Brasília, DF: Anvisa. Anvisa – Biblioteca de documentos
  4. SÃO PAULO (Estado). Bolsa Eletrônica de Compras. Seringa descartável graduada em 1 em 1 UI para insulina. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo. BEC/SP – especificação de seringa para insulina

Enfermagem Offshore: você está preparado?

No ambiente offshore, a enfermagem pode estar literalmente a quilômetros de distância do hospital mais próximo. É justamente essa distância que muda a forma de trabalhar: uma intercorrência que, em terra, poderia ser encaminhada rapidamente para outro serviço precisa ser inicialmente avaliada, estabilizada e conduzida pela equipe de saúde disponível a bordo.

É por isso que trabalhar como profissional de enfermagem offshore vai muito além de “embarcar para trabalhar”. Exige preparo técnico, autonomia dentro das atribuições profissionais, capacidade de reconhecer situações de emergência e familiaridade com um ambiente de trabalho bastante diferente do hospital convencional. A NR-37 estabelece requisitos específicos de segurança, saúde e condições de vivência para trabalhadores a bordo de plataformas de petróleo nas Águas Jurisdicionais Brasileiras.

O que é enfermagem offshore?

A enfermagem offshore é a atuação do profissional de Enfermagem em plataformas de petróleo, unidades marítimas e outros ambientes de trabalho embarcado relacionados às operações offshore.

Nesse cenário, o profissional pode participar de atividades assistenciais, atendimento de urgências, primeiros socorros, promoção da saúde, prevenção de agravos, treinamentos, controle de materiais e medicamentos, registros e ações relacionadas à saúde ocupacional.

Estudos sobre a atuação do enfermeiro offshore descrevem justamente essa combinação entre assistência, gerenciamento, educação em saúde e preparação para situações previsíveis e inesperadas.

A rotina é diferente da enfermagem hospitalar

Em uma plataforma, o profissional de saúde está inserido em um ambiente industrial, com riscos próprios da atividade, espaços confinados, operações com máquinas e equipamentos, movimentação de pessoas e cargas e, principalmente, distância geográfica dos grandes centros de atendimento.

A NR-37 determina que a plataforma habitada disponha de profissional de saúde registrado no respectivo conselho profissional e estabelece critérios relacionados ao número de trabalhadores a bordo e à composição da equipe de saúde. Para determinados contingentes, pode haver técnico de enfermagem sob supervisão de enfermeiro, enfermeiro ou médico; a norma também prevê enfermaria e sistema de telemedicina para apoio especializado em terra.

Isso muda bastante a percepção de responsabilidade. Uma dor torácica, uma queda, uma queimadura ou um trauma durante o trabalho não podem ser encarados apenas como mais um atendimento da rotina.

Quando o treinamento deixa de ser certificado e vira prática

Imagine um trabalhador chegando à enfermaria após um acidente, com dor intensa e uma lesão aparentemente localizada. Naquele momento, o profissional precisa controlar a ansiedade, avaliar o paciente de forma sistemática, identificar sinais de gravidade e organizar o atendimento disponível.

É nesse tipo de situação que treinamentos de suporte à vida e trauma deixam de ser apenas certificados guardados em uma pasta.

A NR-37 determina que profissionais de saúde de nível médio lotados em plataformas tenham treinamento em suporte básico de vida e trauma pré-hospitalar, enquanto profissionais de nível superior devem possuir treinamentos avançados em suporte cardiológico e trauma pré-hospitalar, conforme as exigências previstas na norma.

Uma situação que mostra a diferença

Em um ambiente hospitalar, diante de uma alteração clínica inesperada, existe uma estrutura relativamente próxima: laboratório, radiologia, centro cirúrgico, especialistas e equipes de apoio.

No offshore, a lógica é outra.

Uma alteração súbita dos sinais vitais durante o turno pode exigir avaliação imediata, monitorização, estabilização e comunicação com a equipe médica em terra. O profissional precisa conhecer muito bem os recursos disponíveis na unidade e saber exatamente como acionar os fluxos de emergência.

Relatos publicados sobre enfermeiros embarcados descrevem uma rotina que envolve atendimento assistencial, treinamento de equipes de resgate, orientação de saúde, fiscalização e gerenciamento, além de períodos de sobreaviso para situações emergenciais.

Cuidados de enfermagem no ambiente offshore

Os cuidados começam antes mesmo de uma emergência acontecer. Organização da enfermaria, conferência de materiais, medicamentos e equipamentos, controle dos registros, verificação das condições dos recursos destinados ao atendimento e conhecimento dos protocolos locais fazem parte de uma assistência segura.

Durante o atendimento, a avaliação sistemática do paciente é fundamental. Sinais vitais, nível de consciência, dor, padrão respiratório, circulação, mecanismo do trauma e evolução clínica precisam ser acompanhados e registrados adequadamente.

Outro ponto importante é reconhecer os limites da atuação profissional. A NR-37 determina que os profissionais de saúde lotados na plataforma implementem as medidas de prevenção, promoção e atendimento à saúde previstas na própria norma e nas demais aplicáveis, sendo vedado o desvio ou desvirtuamento dessas funções.

E como é a experiência de quem trabalha embarcado?

Um aspecto interessante dos relatos de profissionais offshore é que a atuação não se resume ao atendimento de pacientes. O enfermeiro também pode exercer funções de liderança, gerenciamento, educação em saúde, treinamento e organização da assistência em um ambiente no qual a equipe de saúde é relativamente pequena diante da quantidade de trabalhadores.

Em um relato publicado na revista Texto & Contexto – Enfermagem, profissionais descreveram atividades que incluíam análise de água, inspeções, treinamentos da equipe de resgate, palestras e instruções de saúde para trabalhadores antes do embarque.

Na prática, isso significa que o profissional precisa estar preparado para trabalhar de maneira preventiva. Esperar o acidente acontecer para então pensar em segurança não combina com a realidade offshore.

Enfermagem Offshore exige preparo

Quem pretende entrar nessa área precisa entender que o ambiente embarcado cobra conhecimentos que vão além dos procedimentos tradicionais.

Experiência em urgência e emergência, atendimento ao paciente crítico, suporte básico ou avançado de vida conforme a categoria profissional, trauma, saúde ocupacional, primeiros socorros, organização de materiais e comunicação em situações críticas são conhecimentos que podem fazer diferença.

Também é importante conhecer as exigências da empresa, da unidade marítima e das normas aplicáveis ao embarque. A própria NR-37 possui requisitos específicos relacionados à capacitação, saúde, segurança e organização dos serviços a bordo.

Uma última cena para imaginar

Pense em um trabalhador chegando à enfermaria no final de um turno, reclamando de tontura e dizendo que “não é nada”. Em terra, talvez ele fosse encaminhado rapidamente para uma unidade de atendimento. Em uma plataforma, a equipe precisa primeiro avaliar aquele trabalhador e decidir, com os recursos disponíveis e os protocolos estabelecidos, qual é a conduta mais segura.

Esse é um dos grandes diferenciais da enfermagem offshore: a capacidade de reconhecer rapidamente o que pode esperar e aquilo que não pode esperar.

Não é apenas uma oportunidade de trabalhar em um setor diferente. É uma área que exige preparo, responsabilidade, disciplina e capacidade de atuar em um cenário no qual distância e tempo podem modificar completamente uma emergência.

Resumo para salvar

Enfermagem Offshore: o que você precisa saber

  • A enfermagem offshore atua em plataformas e unidades marítimas, com características diferentes do ambiente hospitalar
  • A NR-37 estabelece requisitos específicos para saúde e segurança nas plataformas de petróleo
  • Treinamento em suporte à vida e trauma é essencial para a atuação conforme a categoria profissional
  • O profissional precisa estar preparado para avaliar, estabilizar e conduzir emergências com recursos disponíveis a bordo

Referências:

  1. BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 37 – Segurança e Saúde em Plataformas de Petróleo. Brasília, DF: Ministério do Trabalho e Emprego. Disponível em: NR-37 – Ministério do Trabalho e Emprego.
  2. BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. NR-37 – Segurança e Saúde em Plataformas de Petróleo: texto atualizado. Brasília, DF. Disponível em: Texto atualizado da NR-37.
  3. AMORIM, Guilherme Henrique et al. Enfermeiro embarcado em plataforma petrolífera: um relato de experiência offshore. Texto & Contexto – Enfermagem, Florianópolis, v. 22, n. 1, p. 257-265, 2013. Disponível em: SciELO – Enfermeiro embarcado em plataforma petrolífera.
  4. GUEDES, Carolina Cristina Pereira; AGUIAR, Beatriz Gerbassi Costa. Discutindo e refletindo sobre a competência do enfermeiro offshore. Revista Enfermagem UERJ, v. 20, n. 1, p. 61-66, 2012. Disponível em: Revista Enfermagem UERJ – Competência do enfermeiro offshore.
  5. PEREIRA, Isabella Graziani et al. As principais competências do enfermeiro no serviço offshore: plataformas de petróleo e gás. Global Academic Nursing Journal, v. 4, Supl. 1, e357, 2023. Disponível em: Global Academic Nursing Journal – Competências do enfermeiro offshore. 

Classificação de Child-Pugh

A Classificação de Child-Pugh, também conhecida como Escore de Child-Turcotte-Pugh (CTP), é uma das ferramentas mais utilizadas na hepatologia para avaliar a gravidade da doença hepática crônica, especialmente da cirrose. Ela permite estimar a capacidade funcional do fígado, prever o prognóstico do paciente, auxiliar na tomada de decisões terapêuticas e avaliar o risco de complicações e de mortalidade.

Na prática clínica, esse escore é utilizado por médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde para acompanhar pacientes com doenças hepáticas avançadas, orientar a indicação de transplante hepático e estimar os riscos antes de procedimentos cirúrgicos.

Embora atualmente existam outros escores, como o MELD (Model for End-stage Liver Disease), a Classificação de Child-Pugh continua sendo extremamente importante por ser simples, rápida e baseada em informações facilmente obtidas durante a avaliação clínica.

Hoje você entenderá como funciona esse escore, como calcular sua pontuação, quais parâmetros são avaliados, suas vantagens, limitações e quais são os cuidados de enfermagem mais importantes.

O que é a Classificação de Child-Pugh?

A Classificação de Child-Pugh é um sistema de pontuação criado para avaliar o grau de comprometimento da função hepática em pacientes com cirrose.

Ela foi desenvolvida inicialmente por Child e Turcotte, em 1964, para estimar o risco cirúrgico em pacientes submetidos a cirurgias para hipertensão portal. Posteriormente, em 1973, Pugh e colaboradores modificaram a classificação, substituindo o estado nutricional pelo valor da Razão Normalizada Internacional (INR), tornando-a mais objetiva e amplamente utilizada.

Hoje, ela é empregada para:

  • avaliar a gravidade da cirrose;
  • estimar a sobrevida do paciente;
  • orientar decisões terapêuticas;
  • avaliar o risco de cirurgias;
  • auxiliar na indicação de transplante hepático;
  • prever complicações relacionadas à insuficiência hepática.

O que a Classificação de Child-Pugh avalia?

O escore avalia cinco parâmetros: Dois deles são clínicos, três são laboratoriais. Cada parâmetro recebe uma pontuação de 1 a 3 pontos.

Ao final, a soma define a classe do paciente. Os cinco critérios são:

  • Bilirrubina total;
  • Albumina sérica;
  • INR (Razão Normalizada Internacional);
  • Ascite;
  • Encefalopatia hepática.

Como funciona a pontuação?

Cada variável recebe uma pontuação conforme sua gravidade.

Critério 1 ponto 2 pontos 3 pontos
Bilirrubina total < 2 mg/dL 2–3 mg/dL > 3 mg/dL
Albumina > 3,5 g/dL 2,8–3,5 g/dL < 2,8 g/dL
INR < 1,7 1,7–2,3 > 2,3
Ascite Ausente Leve ou controlada Moderada/grave ou refratária
Encefalopatia hepática Ausente Graus I-II Graus III-IV

Ao somar os cinco critérios, obtém-se a pontuação total.

Como interpretar o resultado?

Após calcular os pontos, o paciente é classificado em uma das três categorias.

Child-Pugh A (5 a 6 pontos)

Representa doença hepática compensada. O fígado ainda consegue realizar grande parte de suas funções.

Esses pacientes apresentam:

  • melhor prognóstico;
  • menor mortalidade;
  • menor risco cirúrgico;
  • maior sobrevida.

A sobrevida estimada em um ano costuma ser superior a 95%.

Child-Pugh B (7 a 9 pontos)

Representa comprometimento funcional moderado. Nessa fase, já podem surgir complicações importantes da cirrose.

Entre elas:

  • ascite;
  • varizes esofágicas;
  • encefalopatia hepática;
  • edema;
  • alterações da coagulação.

A sobrevida diminui quando comparada ao estágio A. Esses pacientes exigem acompanhamento mais próximo.

Child-Pugh C (10 a 15 pontos)

É o estágio mais grave. Indica insuficiência hepática avançada e o risco de complicações e mortalidade é elevado. São pacientes que frequentemente apresentam:

  • ascite volumosa;
  • encefalopatia recorrente;
  • icterícia intensa;
  • alterações importantes da coagulação;
  • insuficiência renal associada.

Muitos tornam-se candidatos ao transplante hepático.

Entendendo cada parâmetro

Bilirrubina

A bilirrubina é um pigmento produzido pela degradação das hemácias. O fígado saudável consegue metabolizá-la e eliminá-la pela bile e quando o fígado perde essa capacidade, ocorre aumento da bilirrubina no sangue, provocando icterícia. Quanto maior a bilirrubina, maior tende a ser a gravidade da doença hepática.

Albumina

A albumina é uma proteína produzida exclusivamente pelo fígado. Ela possui diversas funções importantes:

  • manter a pressão oncótica;
  • transportar hormônios;
  • transportar medicamentos;
  • transportar vitaminas.

Na insuficiência hepática sua produção diminui. Consequentemente surgem:

  • edema;
  • ascite;
  • desnutrição.

INR

O INR mede a capacidade do sangue coagular. Como o fígado produz praticamente todos os fatores de coagulação, sua falência leva ao aumento do INR. Quanto maior o INR, menor é a capacidade de coagulação.

É importante lembrar que pacientes em uso de anticoagulantes podem apresentar INR elevado por causa da medicação, e não apenas pela função hepática. Nesses casos, a interpretação deve ser individualizada.

Ascite

A ascite corresponde ao acúmulo de líquido na cavidade abdominal e é uma das complicações mais frequentes da cirrose. Sua presença indica piora da hipertensão portal e redução da função hepática.

A avaliação considera:

  • ausência;
  • leve e controlada;
  • importante ou refratária ao tratamento.

Encefalopatia hepática

É uma alteração neurológica causada pelo acúmulo de substâncias tóxicas, principalmente amônia, que deixam de ser metabolizadas pelo fígado, podendo variar desde pequenas alterações cognitivas até coma.

Os principais sintomas incluem:

  • sonolência;
  • inversão do ciclo sono-vigília;
  • confusão mental;
  • fala lenta;
  • tremor tipo asterix;
  • desorientação;
  • coma.

Exemplo prático de cálculo

Imagine um paciente com:

  • Bilirrubina: 3,8 mg/dL → 3 pontos
  • Albumina: 2,9 g/dL → 2 pontos
  • INR: 2,0 → 2 pontos
  • Ascite leve → 2 pontos
  • Encefalopatia grau I → 2 pontos

Total:

3 + 2 + 2 + 2 + 2 = 11 pontos

Resultado:

Child-Pugh Classe C

Isso indica doença hepática avançada, alto risco de complicações e necessidade de avaliação especializada.

Quais doenças utilizam esse escore?

Principalmente:

  • cirrose alcoólica;
  • cirrose por hepatites virais;
  • esteato-hepatite associada à síndrome metabólica (MASH, anteriormente NASH);
  • hepatite autoimune;
  • colangite biliar primária;
  • colangite esclerosante primária;
  • hemocromatose;
  • doença de Wilson;
  • outras hepatopatias crônicas.

Qual a diferença entre Child-Pugh e MELD?

Embora ambos avaliem pacientes com cirrose, possuem objetivos diferentes.

Child-Pugh

  • avalia função hepática;
  • utiliza parâmetros clínicos e laboratoriais;
  • simples;
  • muito utilizado na prática clínica.

MELD

  • utiliza fórmula matemática;
  • baseia-se em creatinina, bilirrubina, INR e, na versão MELD-Na, sódio sérico;
  • estima mortalidade em curto prazo;
  • é utilizado para priorização na fila de transplante hepático em muitos países, incluindo o Brasil.

Na prática, ambos são frequentemente utilizados de forma complementar.

Limitações da Classificação de Child-Pugh

Apesar de muito útil, ela apresenta algumas limitações.

A avaliação da ascite e da encefalopatia depende da interpretação clínica, podendo haver variações entre observadores.

Além disso, não considera outros fatores importantes, como:

  • função renal;
  • sódio sérico;
  • pressão portal;
  • idade;
  • outras doenças associadas.

Mesmo assim, continua sendo um dos escores mais utilizados mundialmente.

Você sabia?

A Classificação de Child-Pugh é utilizada há mais de cinco décadas e permanece como uma das ferramentas mais conhecidas na hepatologia. Ela é recomendada em diversas diretrizes internacionais para avaliar a gravidade da cirrose e auxiliar na escolha de tratamentos.

Pacientes classificados como Child-Pugh C apresentam risco significativamente maior de complicações pós-operatórias, razão pela qual o escore também é amplamente empregado na avaliação do risco cirúrgico. Diversos medicamentos têm sua dose ajustada ou são contraindicados em pacientes com comprometimento hepático grave (Child-Pugh B ou C), devido ao risco aumentado de acúmulo e toxicidade.

Cuidados de enfermagem

A equipe de enfermagem desempenha papel fundamental no acompanhamento de pacientes com cirrose e insuficiência hepática. Entre os principais cuidados estão:

  • Realizar avaliação clínica diária, observando sinais de piora da função hepática.
  • Monitorar nível de consciência, identificando precocemente alterações compatíveis com encefalopatia hepática.
  • Avaliar diariamente a presença de ascite, edema periférico e aumento da circunferência abdominal.
  • Controlar rigorosamente o balanço hídrico.
  • Monitorar peso corporal diariamente, preferencialmente no mesmo horário.
  • Observar sinais de sangramento, como hematêmese, melena, equimoses, petéquias e sangramento gengival.
  • Monitorar resultados laboratoriais, incluindo hemograma, bilirrubina, albumina, INR, creatinina e eletrólitos.
  • Administrar medicamentos conforme prescrição, como diuréticos, lactulose, rifaximina, albumina humana e outros.
  • Orientar dieta conforme recomendação médica e nutricional, controlando sódio em pacientes com ascite e garantindo ingestão proteica adequada, salvo contraindicações específicas.
  • Manter vigilância para sinais de infecção, já que pacientes cirróticos apresentam maior susceptibilidade a infecções bacterianas.
  • Orientar paciente e familiares sobre adesão ao tratamento, abstinência de álcool quando aplicável, vacinação e necessidade de acompanhamento regular.

A Classificação de Child-Pugh permanece como uma ferramenta simples, prática e extremamente útil para avaliar a gravidade da cirrose hepática. Ao combinar parâmetros clínicos e laboratoriais, ela permite estimar o prognóstico, orientar condutas terapêuticas e auxiliar na avaliação do risco cirúrgico e da necessidade de transplante hepático.

Para os profissionais e estudantes de enfermagem, compreender esse escore é essencial, pois muitos pacientes internados em enfermarias, unidades de terapia intensiva e ambulatórios de hepatologia são classificados por meio dele. Conhecer seus critérios facilita a interpretação do estado clínico, contribui para um cuidado mais seguro e permite identificar precocemente sinais de descompensação hepática.

Referências:

  1. PUGH, R. N. H. et al. Transection of the oesophagus for bleeding oesophageal varices. British Journal of Surgery, v. 60, n. 8, p. 646-649, 1973. Disponível em: https://bjssjournals.onlinelibrary.wiley.com 
  2. KUMAR, V. et al. Robbins & Cotran: Bases Patológicas das Doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. KASPER, D. L. et al. Medicina Interna de Harrison. 21. ed. Porto Alegre: AMGH, 2022.
  4. EASL. EASL Clinical Practice Guidelines on the management of decompensated cirrhosis. Journal of Hepatology, 2018. Disponível em: https://easl.eu
  5. AASLD. Practice Guidance on Cirrhosis and Portal Hypertension. Disponível em: https://www.aasld.org
  6. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Cirrose Hepática e suas Complicações. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  7. POTTER, P. A.; PERRY, A. G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2022.
  8. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos clínicos em hepatologia. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br. 

Desvendando o Hemograma: Um Guia Prático para o Estudante de Enfermagem

O hemograma completo é um dos exames laboratoriais mais solicitados na prática clínica. Seja em um atendimento de rotina, na emergência, durante uma internação hospitalar ou em uma unidade de terapia intensiva (UTI), esse exame fornece informações extremamente valiosas sobre o estado de saúde do paciente.

Apesar de parecer complexo à primeira vista, interpretar um hemograma não significa decorar dezenas de valores de referência. Na realidade, basta compreender a função de cada grupo de células do sangue e seguir uma sequência lógica de análise.

Para estudantes de enfermagem, essa organização facilita muito o aprendizado. Em vez de tentar memorizar tudo de uma vez, é possível interpretar o exame passo a passo, entendendo o que cada alteração pode indicar.

Aqui você aprenderá uma forma simples e didática de interpretar um hemograma completo, compreendendo o significado das hemácias, hemoglobina, hematócrito, índices hematimétricos, leucócitos, plaquetas e outras informações importantes que fazem parte desse exame.

O que é um hemograma completo?

O hemograma completo é um exame de sangue que avalia quantitativa e qualitativamente os principais elementos celulares do sangue.

Seu objetivo é identificar alterações relacionadas à produção das células sanguíneas, infecções, inflamações, alergias, distúrbios hematológicos, anemias, alterações da coagulação e diversas outras doenças.

Basicamente, o hemograma é dividido em três grandes partes:

  • Eritrograma (hemácias)
  • Leucograma (leucócitos)
  • Plaquetas

Se você aprender essas três etapas, conseguirá interpretar a maioria dos hemogramas.

Antes de começar: valores de referência podem variar

Uma das primeiras coisas que todo estudante deve saber é que os valores de referência não são exatamente iguais em todos os laboratórios.

Eles podem variar conforme:

  • idade;
  • sexo;
  • gravidez;
  • método utilizado pelo laboratório;
  • equipamentos empregados.

Por isso, sempre utilize os valores de referência fornecidos pelo laboratório responsável pelo exame. Mais importante do que decorar números é compreender o significado das alterações.

Primeira etapa: avaliando o eritrograma

O eritrograma avalia as células vermelhas do sangue. Essas células são responsáveis principalmente pelo transporte de oxigênio para todos os tecidos do organismo.

Os principais parâmetros são:

  • Hemácias (eritrócitos)
  • Hemoglobina (Hb)
  • Hematócrito (Ht)
  • VCM
  • HCM
  • CHCM
  • RDW

Hemácias (eritrócitos)

As hemácias são as células vermelhas do sangue. Sua principal função é transportar oxigênio por meio da hemoglobina.

Quando estão diminuídas, podem indicar:

  • anemia;
  • sangramento;
  • doenças da medula óssea;
  • deficiência nutricional.

Quando estão aumentadas:

  • desidratação;
  • tabagismo;
  • doenças pulmonares crônicas;
  • policitemia.

Hemoglobina (Hb)

A hemoglobina é a proteína presente dentro das hemácias responsável pelo transporte do oxigênio. Na prática clínica, é o principal parâmetro utilizado para avaliar anemia. Quanto menor a hemoglobina, maior tende a ser a gravidade da anemia.

Por outro lado, valores elevados podem ocorrer em situações como:

  • desidratação;
  • policitemia;
  • doenças pulmonares.

Hematócrito (Ht)

O hematócrito representa o percentual do sangue ocupado pelas hemácias. Uma maneira simples de entender: Imagine uma proveta contendo sangue.

Após centrifugação:

  • as hemácias ficam no fundo;
  • acima delas permanece o plasma.

O hematócrito corresponde justamente à proporção ocupada pelas hemácias, costuma acompanhar a hemoglobina.

Índices hematimétricos

Aqui está uma das partes que mais confundem os estudantes. Na verdade, basta lembrar que eles “descrevem” como são as hemácias.

VCM (Volume Corpuscular Médio)

Mostra o tamanho das hemácias. É utilizado principalmente para classificar as anemias. Quando está baixo: Hemácias pequenas (Anemia microcítica).

As principais causas são:

  • deficiência de ferro;
  • talassemias.

Quando está elevado: Hemácias grandes (Anemia macrocítica).

Pode ocorrer por:

  • deficiência de vitamina B12;
  • deficiência de ácido fólico;
  • alcoolismo;
  • doenças hepáticas.

Quando normal: Anemia normocítica.

Pode ocorrer em:

  • hemorragias;
  • doenças crônicas;
  • insuficiência renal.

HCM (Hemoglobina Corpuscular Média)

Indica a quantidade média de hemoglobina presente em cada hemácia. Quando reduzido: Hemácias mais “claras”. Chamamos isso de hipocromia. É muito comum na anemia ferropriva.

CHCM (Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média)

Avalia a concentração de hemoglobina dentro das hemácias. Na prática, costuma acompanhar o HCM.

RDW

O RDW mede a variação do tamanho das hemácias. Quanto maior o RDW, maior é a diferença entre o tamanho das células. É um parâmetro muito útil para diferenciar alguns tipos de anemia.

Como identificar rapidamente uma anemia?

Existe uma sequência bastante simples.

Primeiro:

Observe a hemoglobina.

Está baixa?

Provavelmente há anemia.

Depois observe:

VCM.

  • baixo → anemia microcítica
  • normal → anemia normocítica
  • alto → anemia macrocítica

Depois avalie:

HCM e CHCM.

Assim é possível saber se existe hipocromia.

Por último:

Observe o RDW.

Ele ajuda a confirmar algumas causas.

Segunda etapa: avaliando o leucograma

Agora vamos analisar as células de defesa.

Os leucócitos são responsáveis pela resposta imunológica.

São divididos em:

  • neutrófilos;
  • linfócitos;
  • monócitos;
  • eosinófilos;
  • basófilos.

Leucócitos totais

É o número total de células de defesa.

Quando elevados: Leucocitose.

Pode indicar:

  • infecção;
  • inflamação;
  • uso de corticoides;
  • leucemias;
  • estresse fisiológico.

Quando diminuídos: Leucopenia.

Pode ocorrer em:

  • infecções virais;
  • quimioterapia;
  • doenças autoimunes;
  • alterações da medula óssea.

Neutrófilos

São as primeiras células que combatem bactérias. Sempre que você pensar em infecção bacteriana, lembre-se dos neutrófilos.

Quando aumentam:

  • infecção bacteriana;
  • inflamação aguda;
  • trauma;
  • pós-operatório.

Desvio à esquerda

Esse é um dos termos mais conhecidos do hemograma. O desvio à esquerda significa aumento das formas jovens dos neutrófilos, principalmente bastonetes. Na prática, indica que a medula óssea está produzindo neutrófilos rapidamente para combater uma infecção ou inflamação importante.

Quanto maior o desvio à esquerda, maior costuma ser a resposta inflamatória.

Linfócitos

São os principais responsáveis pela defesa contra vírus. Também participam da produção de anticorpos.

Quando aumentam:

  • infecções virais;
  • mononucleose;
  • algumas leucemias.

Quando diminuem:

  • uso de corticoides;
  • imunossupressão;
  • HIV;
  • quimioterapia.

Monócitos

Funcionam como “faxineiros” do organismo. Removem restos celulares e auxiliam na resposta inflamatória.

Podem aumentar em:

  • infecções crônicas;
  • tuberculose;
  • recuperação de infecções.

Eosinófilos

São facilmente lembrados por duas situações: Alergia e Parasitas.

Também podem aumentar em algumas doenças autoimunes.

Basófilos

São os leucócitos menos frequentes. Participam principalmente das reações alérgicas e da liberação de histamina.

Terceira etapa: avaliando as plaquetas

As plaquetas participam da coagulação sanguínea. Sua função é interromper sangramentos formando o tampão plaquetário.

Plaquetas baixas

Recebem o nome de trombocitopenia.

Podem ocorrer em:

  • dengue;
  • sepse;
  • leucemias;
  • quimioterapia;
  • doenças autoimunes;
  • cirrose.

Quanto menor a contagem, maior o risco de sangramento.

Plaquetas elevadas

Recebem o nome de trombocitose.

Podem ocorrer em:

  • inflamações;
  • deficiência de ferro;
  • pós-cirúrgico;
  • doenças mieloproliferativas.

Como interpretar um hemograma em apenas cinco passos?

Uma forma prática é seguir sempre a mesma ordem:

Primeiro: hemoglobina.

Existe anemia?

Segundo: VCM.

Qual o tipo da anemia?

Terceiro: leucócitos.

Existe infecção?

Quarto: diferencial dos leucócitos.

Quem aumentou?

Neutrófilos?

Linfócitos?

Eosinófilos?

Quinto: plaquetas.

Existe risco aumentado de sangramento ou trombose?

Seguindo essa sequência, a interpretação torna-se muito mais simples.

Exemplos práticos

Exemplo 1

  • Hemoglobina baixa.
  • VCM baixo.
  • HCM baixo.
  • Provável anemia ferropriva.

Exemplo 2

  • Leucócitos elevados.
  • Neutrófilos elevados.
  • Desvio à esquerda.
  • Provável infecção bacteriana.

Exemplo 3

  • Leucócitos normais.
  • Linfócitos elevados.
  • Provável infecção viral.

Exemplo 4

  • Plaquetas muito baixas.
  • Maior risco de sangramentos.
  • Necessidade de investigação imediata.

O hemograma sozinho fecha um diagnóstico?

Não. Esse é um dos erros mais comuns.

O hemograma fornece pistas importantes, mas sempre deve ser interpretado juntamente com:

  • história clínica;
  • exame físico;
  • sinais e sintomas;
  • outros exames laboratoriais;
  • exames de imagem, quando indicados.

Por exemplo, uma anemia pode ser causada por deficiência de ferro, vitamina B12, sangramento, insuficiência renal, doenças inflamatórias ou doenças da medula óssea. O hemograma sugere a direção da investigação, mas não determina sozinho a causa.

Cuidados de enfermagem relacionados ao hemograma

O profissional de enfermagem participa ativamente tanto da coleta quanto da interpretação clínica inicial dos resultados. Antes da coleta, confirme a identificação correta do paciente e do tubo de coleta, seguindo os protocolos de segurança. Oriente o paciente quanto ao exame, verificando se há necessidade de jejum ou outras recomendações específicas solicitadas pelo serviço.

Após a coleta, observe o local da punção para prevenir hematomas e registre qualquer intercorrência.

Ao receber o resultado, comunique prontamente à equipe médica valores críticos, como hemoglobina muito baixa, leucocitose ou leucopenia importantes e trombocitopenia grave. Esses achados podem indicar situações que exigem intervenção rápida.

Além disso, monitore sinais clínicos compatíveis com as alterações laboratoriais, como palidez, fadiga, dispneia, febre, sangramentos espontâneos, petéquias ou equimoses, correlacionando sempre o hemograma com o quadro clínico do paciente.

Curiosidades sobre o hemograma

O hemograma é um dos exames laboratoriais mais antigos e continua sendo um dos mais importantes da medicina. Os analisadores hematológicos modernos conseguem avaliar milhares de células por segundo, oferecendo resultados rápidos e precisos.

Em pacientes internados em UTI, o hemograma pode ser solicitado diariamente para acompanhar a evolução clínica. Uma pequena alteração isolada nem sempre indica doença. Por isso, os resultados devem ser interpretados por profissionais capacitados e sempre correlacionados com a avaliação clínica.

Interpretar um hemograma completo pode parecer difícil no início, mas torna-se muito mais simples quando seguimos uma sequência lógica. Primeiro analisamos o eritrograma para identificar possíveis anemias; depois o leucograma para avaliar infecções, inflamações e alterações do sistema imunológico; por fim, observamos as plaquetas para verificar o risco de sangramentos ou distúrbios da coagulação.

Para estudantes e profissionais de enfermagem, dominar essa interpretação básica é um diferencial importante, pois permite compreender melhor o estado clínico do paciente, reconhecer alterações relevantes e contribuir para uma assistência mais segura e baseada em evidências.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Interpretação de Exames Laboratoriais. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br. 
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. TORTORA, Gerard J.; DERRICKSON, Bryan. Princípios de Anatomia e Fisiologia. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.
  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PATOLOGIA CLÍNICA/MEDICINA LABORATORIAL (SBPC/ML). Recomendações para exames laboratoriais. Barueri: SBPC/ML. Disponível em: https://www.sbpc.org.br
  5. FAILACE, Renato; FERNANDES, Flávio. Hemograma: Manual de Interpretação. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015.
  6. HOFFBRAND, A. V.; MOSS, P. A. H. Fundamentos em Hematologia. 8. ed. Porto Alegre: Artmed, 2020.
  7. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
  8. SOCIEDADE BRASILEIRA DE HEMATOLOGIA, HEMOTERAPIA E TERAPIA CELULAR (ABHH). Conteúdos científicos em hematologia. Disponível em: https://abhh.org.br

Tudo sobre as Hepatites Virais: Entenda, Identifique e Cuide

As hepatites virais são um importante problema de saúde pública mundial, especialmente por sua alta incidência, potencial de cronificação e complicações graves, como cirrose e câncer de fígado (carcinoma hepatocelular).

Para o estudante e o profissional de enfermagem, compreender os tipos, as formas de transmissão, diagnóstico e manejo é fundamental para garantir um cuidado seguro, humanizado e baseado em evidências.

O Que São e Como Agem? A Inflamação Silenciosa

Hepatite significa, literalmente, “inflamação do fígado” (hepar: fígado, ite: inflamação). No contexto viral, a inflamação é causada pela resposta imune do corpo à presença do vírus nas células hepáticas (hepatócitos).

  • Formas Agudas (Geralmente Autolimitadas): As hepatites A e E são, na maioria dos casos, agudas. O vírus é eliminado pelo corpo em semanas ou meses.
  • Formas Crônicas (Perigo Silencioso): As hepatites B, C e D podem se tornar crônicas. O vírus permanece ativo no fígado por anos ou décadas, causando inflamação contínua e silenciosa, que lentamente leva à fibrose, cirrose e, em estágios finais, ao carcinoma hepatocelular (câncer de fígado).

Essas infecções comprometem as células hepáticas, alterando funções essenciais do fígado, como metabolismo de nutrientes, síntese de proteínas e desintoxicação do organismo.

Tipos de Hepatites Virais

Hepatite A (HAV)

Causada pelo vírus da hepatite A (HAV), é uma doença aguda e autolimitada, sem evolução para cronicidade.

A transmissão ocorre por via fecal-oral, geralmente através de água ou alimentos contaminados.

  • Sintomas: febre, mal-estar, icterícia, urina escura, fezes esbranquiçadas e dor abdominal.
  • Prevenção: saneamento básico, higienização das mãos e vacinação (duas doses).

Hepatite B (HBV)

É uma das formas mais graves devido ao risco de cronificação. O vírus da hepatite B (HBV) pode ser transmitido por sangue, fluidos corporais, relações sexuais desprotegidas, uso de seringas compartilhadas e transmissão vertical (mãe para filho).

  • Evolução: pode ser aguda ou crônica, levando a complicações como cirrose e câncer hepático.
  • Prevenção: vacinação (três doses), uso de preservativos, materiais esterilizados e não compartilhamento de objetos pessoais cortantes.
  • Tratamento: antivirais, acompanhamento médico e monitoramento laboratorial.

Hepatite C (HCV)

Transmitida principalmente por contato com sangue contaminado, é uma das principais causas de doença hepática crônica no mundo.
Antes da triagem rigorosa em bancos de sangue, muitas pessoas foram infectadas através de transfusões.

  • Evolução: geralmente assintomática na fase inicial, mas pode progredir lentamente para cirrose e câncer.
  • Tratamento: atualmente, há cura em mais de 95% dos casos, graças aos antivirais de ação direta (DAAs), que possuem alta eficácia e poucos efeitos colaterais.
  • Prevenção: não existe vacina, portanto o foco é a prevenção da exposição ao sangue contaminado.

Hepatite D (HDV)

Causada pelo vírus delta, só ocorre em pessoas já infectadas pelo vírus da hepatite B, pois o HDV depende dele para se replicar. A coinfecção (HBV + HDV) tende a causar quadros mais graves e acelerar o dano hepático.

  • Prevenção: a vacinação contra hepatite B também protege contra a D.

Hepatite E (HEV)

Semelhante à hepatite A, é transmitida por via fecal-oral, geralmente através de água contaminada. Comum em regiões com saneamento precário, geralmente é autolimitada, mas pode ser grave em gestantes, com risco aumentado de insuficiência hepática.

  • Prevenção: saneamento básico, consumo de água potável e higiene alimentar.

Diagnóstico

O diagnóstico é feito por exames laboratoriais, que incluem:

  • Sorologia específica (detecção de antígenos e anticorpos);
  • Carga viral (quantificação do DNA/RNA do vírus);
  • Avaliação de enzimas hepáticas (TGO, TGP, bilirrubina).

A identificação precoce é essencial para o controle da transmissão e início do tratamento adequado.

Os Sinais de Alerta: O Que a Enfermagem Deve Observar

Na fase aguda (especialmente A e B), os sintomas incluem:

  • Icterícia: Coloração amarelada da pele e dos olhos.
  • Colúria: Urina escura (“cor de Coca-Cola”).
  • Acolia Fecal: Fezes claras.
  • Fadiga Extrema e Mal-estar.

Na fase crônica (B e C), a paciente é geralmente assintomática por anos, o que ressalta a importância do rastreio sorológico.

Cuidados de Enfermagem

O papel da enfermagem nas hepatites virais é amplo e inclui ações de educação, prevenção, assistência direta e vigilância epidemiológica.

Principais cuidados:

  • Orientar sobre importância da vacinação contra hepatites A e B;
  • Reforçar o uso de preservativos e não compartilhamento de objetos cortantes;
  • Garantir biossegurança e uso de EPI durante procedimentos com sangue;
  • Acompanhar sinais e sintomas de icterícia, fadiga e alterações digestivas;
  • Apoiar o paciente no tratamento medicamentoso e na adesão ao acompanhamento ambulatorial;
  • Notificar casos suspeitos e confirmados conforme protocolos de vigilância.

Prevenção e Vacinação

A vacinação é uma das estratégias mais eficazes de combate às hepatites virais.

  • Hepatite A: disponível no calendário vacinal infantil e para grupos de risco;
  • Hepatite B: obrigatória no Brasil desde 1998, oferecida gratuitamente pelo SUS a todas as idades;
  • Hepatite C: ainda sem vacina, reforçando a importância do rastreio e diagnóstico precoce.

Rastreio e Testagem

 Incentivar e realizar o rastreio sorológico para Hepatites B e C (Testes Rápidos) em grupos de risco (pessoas transfundidas antes de 1993, usuários de drogas injetáveis, profissionais de saúde).

Educação em Prevenção

Orientar sobre o uso de preservativos, a não-compartilhamento de seringas, escovas de dente, lâminas de barbear e a exigência de materiais esterilizados em estúdios de tatuagem e piercing.

Adesão ao Tratamento

Pacientes com Hepatite C têm tratamento com alta taxa de cura (mais de 95% em poucos meses). Na Hepatite B, o tratamento é para controlar a replicação viral. O enfermeiro deve orientar sobre o regime de medicamentos, os efeitos colaterais e a importância de não interromper o tratamento.

Cuidados em Hepatite Aguda

 Se o paciente estiver ictérico, nosso foco é no conforto, hidratação e orientação sobre repouso.

As hepatites virais continuam sendo um desafio global, mas o diagnóstico precoce, a prevenção e a vacinação têm reduzido significativamente a morbimortalidade.
O enfermeiro tem papel central nesse processo, atuando desde a educação em saúde até o monitoramento clínico de pacientes infectados.

Com conhecimento técnico e olhar humanizado, é possível transformar o cuidado e contribuir para o controle dessa importante condição de saúde pública.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim Epidemiológico: Hepatites Virais. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hepatites-virais. 
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE HEPATOLOGIA (SBH). Recomendações para o Diagnóstico e Tratamento das Hepatites Virais B e C. Disponível em: http://sbhepatologia.org.br/. 
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatites Virais. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude 
  4.  ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Global Hepatitis Report. Geneva: WHO, 2023. Disponível em: https://www.who.int
  5.  SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA. Hepatites Virais: diagnóstico, tratamento e prevenção. São Paulo, 2021. Disponível em: https://infectologia.org.br
  6.  FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Hepatites Virais: prevenção e controle. Rio de Janeiro, 2020. Disponível em: https://portal.fiocruz.br

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