
Vá direto ao ponto!
A diferença entre SNG e SNE não está apenas no nome. O destino da ponta da sonda muda a finalidade, os cuidados e a segurança da terapia enteral. É justamente nesse detalhe que muitos estudantes confundem os dois dispositivos.
Sonda nasogástrica: ponta no estômago
A sonda nasogástrica (SNG) é introduzida pela narina e conduzida até o estômago. Pode ser utilizada para administração de dieta e medicamentos, além de drenagem ou descompressão gástrica, conforme o tipo de sonda, indicação clínica e protocolo institucional.
Já a sonda nasoenteral (SNE) percorre a mesma entrada nasal, mas sua extremidade é posicionada além do estômago, geralmente no duodeno ou jejuno. O posicionamento pós-pilórico pode ser escolhido em determinadas situações, especialmente quando existe alto risco de aspiração ou intolerância à administração gástrica.
A diferença que realmente importa
| SNG | SNE |
| Ponta no estômago | Ponta além do piloro |
| Pode ser usada para dieta | Usada para nutrição enteral conforme indicação |
| Pode permitir drenagem/descompressão | Geralmente destinada à nutrição e administração de medicamentos |
| Mais simples de posicionar no trato gastrointestinal | Pode exigir confirmação e técnicas adicionais para posicionamento pós-pilórico |
A escolha entre posição gástrica e pós-pilórica depende da condição clínica, tolerância gastrointestinal, risco de aspiração e estrutura disponível no serviço. Em pacientes críticos, a via pós-pilórica não precisa ser utilizada rotineiramente, sendo especialmente considerada quando há alto risco de aspiração ou intolerância à nutrição gástrica.
O ponto crítico: confirmar antes de usar
Uma das informações mais importantes para quem trabalha com sonda enteral é esta: não se deve confiar apenas na ausculta epigástrica para confirmar o posicionamento. É possível ouvir ruídos na região do estômago mesmo quando a sonda está em localização inadequada.
Na passagem de uma sonda enteral às cegas, a radiografia é considerada o método de referência para confirmar sua localização antes da utilização, especialmente para a confirmação inicial de sondas nasoenterais. Métodos como avaliação do pH do aspirado podem atuar como ferramentas auxiliares conforme protocolo, mas a ausculta isolada não é considerada suficientemente segura.
E a enfermagem, quem pode passar?
No Brasil, a Resolução Cofen nº 619/2019 estabelece que a inserção de sonda oro/nasogástrica e nasoentérica é procedimento de maior complexidade técnica e, no âmbito da equipe de enfermagem, é privativa do enfermeiro. Ao técnico e ao auxiliar de enfermagem compete auxiliar o enfermeiro, realizar os cuidados prescritos, comunicar intercorrências e registrar as ações executadas, sob supervisão e orientação do enfermeiro.
A norma também destaca que o procedimento pode apresentar complicações importantes, incluindo lesões de mucosa, perfuração, posicionamento no trato respiratório e pneumonia aspirativa. O risco é especialmente relevante em pacientes críticos, com alterações neurológicas, rebaixamento do nível de consciência ou outras condições que dificultem a proteção das vias aéreas.
Dois exemplos da rotina assistencial
Situação 1: um paciente de UTI intubado necessita iniciar nutrição enteral. Após a passagem da sonda, alguém sugere administrar a dieta porque “deu para ouvir o ar no estômago”. Esse achado isolado não confirma a localização. A conduta segura é seguir o protocolo institucional para confirmação e aguardar a validação necessária antes de iniciar dieta ou medicamentos.
Situação 2: um paciente apresenta intolerância persistente à dieta gástrica e elevado risco de aspiração. A equipe discute a possibilidade de posicionamento pós-pilórico. Nesse cenário, a escolha da SNE não ocorre simplesmente porque ela seria “mais segura”; deve considerar avaliação clínica, risco de aspiração, tolerância gastrointestinal e recursos disponíveis para posicionamento e confirmação.
Cuidados de enfermagem
Antes de utilizar a sonda, confirme tipo, posição, marcação externa e condição do dispositivo, seguindo o protocolo do serviço. Observe sinais como tosse intensa, dispneia, dessaturação, dor, resistência ou alterações durante a passagem e comunique imediatamente qualquer intercorrência.
Durante a administração da dieta, mantenha o paciente na posição recomendada pelo protocolo, monitore tolerância gastrointestinal e observe náuseas, vômitos, distensão abdominal, refluxo e sinais respiratórios. A sonda também deve ser fixada e monitorada para identificar deslocamentos.
Um detalhe que faz diferença na prática: se a marca externa da sonda mudou, não presuma que ela continua corretamente posicionada. A alteração deve ser avaliada antes de administrar dieta ou medicamentos.
SNG ou SNE: Você Sabe a Diferença?
- SNG termina no estômago e pode ser utilizada para dieta, medicamentos ou descompressão conforme indicação
- SNE tem a ponta posicionada além do piloro, geralmente no duodeno ou jejuno
- A ausculta epigástrica isolada não confirma o posicionamento da sonda
- Antes de utilizar a sonda, confirme sua posição conforme protocolo e método indicado
Referências:
- BRASIL. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Resolução RDC nº 503, de 27 de maio de 2021. Dispõe sobre os requisitos mínimos exigidos para a Terapia de Nutrição Enteral. Brasília, DF: Anvisa, 2021. Acessar a RDC nº 503/2021
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 619/2019. Normatiza a atuação da Equipe de Enfermagem na Sondagem Oro/nasogástrica e Nasoentérica. Brasília, DF: Cofen, 2019. Acessar a Resolução Cofen nº 619/2019
- BOULLATA, Joseph I. et al. ASPEN Safe Practices for Enteral Nutrition Therapy. Journal of Parenteral and Enteral Nutrition, v. 41, n. 1, p. 15–103, 2017. Consultar a publicação da ASPEN
- BRASPEN. Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional Oral, Enteral e Parenteral. BRASPEN Journal, v. 36, Supl. 3, 2021. Consultar a Diretriz BRASPEN
- BRASPEN. Diretriz Brasileira de Terapia Nutricional no Paciente Grave. BRASPEN Journal, v. 33, Supl. 1, 2018. Consultar a diretriz
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva. Une a vivência clínica à inovação digital e criativa, atuando na produção de conteúdos educacionais, ilustração digital e no desenvolvimento web de ferramentas e recursos interativos (PHP, CSS e JavaScript).
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.


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