Infarto Agudo do Miocárdio (IAM): cada minuto muda o desfecho

Há uma pergunta que pode ser mais importante do que “onde dói?” diante de uma suspeita de infarto: “Que horas exatamente essa dor começou?”

Na prática, o tempo de início dos sintomas ajuda a orientar decisões que podem definir a quantidade de músculo cardíaco preservada. O infarto agudo do miocárdio (IAM) ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma região do coração é interrompido, levando à isquemia e, se não houver reperfusão, à morte das células cardíacas. Por isso, não é uma situação para “esperar passar”. O Ministério da Saúde destaca que o atendimento nos primeiros minutos é fundamental para reduzir o risco de morte.

Nem todo infarto começa com aquela dor clássica

A apresentação mais conhecida é uma dor ou pressão no peito, geralmente intensa e prolongada, podendo irradiar para braço, ombro, costas, pescoço ou mandíbula. Sudorese fria, palidez, náuseas, vômitos, falta de ar, tontura e sensação de desmaio também podem aparecer. Em idosos e pessoas com diabetes, entretanto, o quadro pode ser menos típico; falta de ar ou um mal-estar súbito podem ser os principais sinais.

Por isso, durante o acolhimento, não basta perguntar simplesmente “está com dor?”. É importante investigar quando começou, como começou, quanto tempo dura, onde está localizada, para onde irradia, qual sua intensidade e quais sintomas vieram junto.

O ECG não pode ficar esperando

Na suspeita de síndrome coronariana aguda, o eletrocardiograma de 12 derivações deve ser realizado idealmente em até 10 minutos após a apresentação do paciente. Um primeiro ECG normal também não exclui completamente a possibilidade de síndrome coronariana; dependendo da evolução clínica, podem ser necessários ECGs seriados.

Na rotina de um setor de emergência, esse detalhe muda completamente a dinâmica. Um paciente que chega dizendo “estou com uma pressão no peito desde cedo” não deveria ficar aguardando tranquilamente a fila de atendimento enquanto a equipe tenta descobrir depois o horário de início. A história precisa ser valorizada desde o primeiro contato.

Uma situação que fica na memória

Em um plantão, é fácil lembrar daqueles pacientes que chegam andando, conversando e até fazendo piada, apesar de estarem com uma queixa potencialmente grave. Já presenciei situações em que a aparência relativamente tranquila contrastava com a informação de que a dor havia começado havia pouco tempo.

É justamente nesses momentos que a equipe precisa evitar a falsa sensação de segurança. O paciente pode estar conversando normalmente e, ainda assim, precisar de uma avaliação imediata, monitorização e investigação cardíaca.

Cuidados de enfermagem fazem diferença

Na suspeita de IAM, a Enfermagem participa ativamente da avaliação inicial, classificação de risco, monitorização e organização do atendimento. É importante verificar sinais vitais, avaliar a intensidade e características da dor, investigar sintomas associados, conferir medicamentos em uso e alergias, realizar glicemia quando indicada, providenciar acesso venoso e acompanhar continuamente a condição clínica.

O paciente deve permanecer em repouso, com posicionamento adequado conforme seu estado clínico, e o oxigênio não deve ser administrado indiscriminadamente: a Linha de Cuidado do Ministério da Saúde recomenda oxigenoterapia quando a saturação está abaixo de 94%, considerando particularidades como doença pulmonar obstrutiva crônica. A equipe também deve agilizar ECG, exames e encaminhamento conforme o protocolo institucional.

Outro ponto essencial é não perder a informação sobre o horário de início dos sintomas. Esse dado deve ser registrado de maneira clara, porque interfere na avaliação das estratégias de reperfusão.

A reperfusão não pode esperar

Nos casos de IAM com supradesnivelamento do segmento ST, a reperfusão miocárdica precisa ser realizada o mais rapidamente possível, por intervenção coronariana percutânea primária ou, quando indicada e conforme disponibilidade e critérios clínicos, por terapia trombolítica. O objetivo é diminuir o tempo total de isquemia.

É por isso que expressões como “tempo é músculo” fazem tanto sentido no atendimento ao infarto. Cada etapa do fluxo, desde a identificação da dor até o ECG, diagnóstico, medicação, transferência e reperfusão, precisa funcionar de maneira coordenada.

Outra cena comum na prática

Em ambiente hospitalar, uma das coisas que mais chama atenção é como a situação pode mudar rapidamente. Um paciente que estava conversando com a equipe pode começar a apresentar sudorese intensa, palidez, queda da pressão ou alteração do ritmo cardíaco em poucos minutos.

Nesses momentos, não existe espaço para uma assistência fragmentada. Enquanto alguém monitora o paciente, outro profissional organiza acesso e medicações conforme prescrição e protocolo, outro providencia exames e a equipe médica é acionada. A comunicação rápida deixa de ser apenas uma característica desejável e passa a fazer parte da segurança do atendimento.

O que o profissional de enfermagem precisa guardar

Diante de uma suspeita de infarto, dor torácica ou equivalente não deve ser banalizada. O horário de início dos sintomas precisa ser conhecido e registrado; sinais vitais e características da dor devem ser avaliados; o ECG deve ser agilizado; o paciente deve ser monitorizado conforme sua condição; e alterações clínicas precisam ser comunicadas imediatamente.

Se uma pessoa estiver apresentando dor súbita no peito, falta de ar, suor frio, palidez, desmaio ou outros sinais sugestivos de infarto, a orientação é procurar atendimento de emergência imediatamente. No Brasil, o SAMU 192 atende situações como suspeita de infarto e dor torácica súbita.

Infarto não é uma situação para observar em casa para ver se melhora. Quanto mais cedo a equipe reconhecer o problema e iniciar o fluxo adequado, maior a possibilidade de reduzir o dano cardíaco e melhorar o desfecho.

Resumo para salvar

Infarto: reconheça os sinais antes que seja tarde

  • Dor torácica e sintomas associados exigem avaliação imediata
  • O ECG deve ser realizado idealmente em até 10 minutos
  • Registrar o horário de início dos sintomas é fundamental
  • Na suspeita de IAM, cada minuto pode influenciar o desfecho

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Infarto. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Infarto
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio: manejo inicial. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Linha de Cuidado – Manejo inicial do IAM.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio: acolhimento e triagem. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Linha de Cuidado – Acolhimento e triagem.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio e o Protocolo de Síndromes Coronarianas Agudas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: Protocolo de Síndromes Coronarianas Agudas.
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. SAMU 192. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: SAMU 192 – Ministério da Saúde
  6. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). V Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Tratamento do Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnível do Segmento ST. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 105, n. 2, supl. 1, p. 1-121, ago. 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/a/FhxV98nFLWL38yZhHYwxp6F/?lang=pt
  7. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 713, de 22 de julho de 2022. Atualiza as normas para a atuação da Equipe de Enfermagem em Urgência e Emergência. Brasília, DF: Cofen, 2022. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-713-2022/

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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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