Metalyse: o que a enfermagem precisa saber

Em uma emergência cardiovascular, alguns medicamentos precisam ser preparados com tanta atenção quanto rapidez. O Metalyse® é um deles. Quando o tempo está correndo, não basta saber que se trata de um “trombolítico”: é preciso reconhecer a apresentação correta, entender a indicação, conferir o peso do paciente quando aplicável e acompanhar de perto o risco de sangramento.

O que é o Metalyse?

O Metalyse® tem como princípio ativo a tenecteplase, um agente trombolítico fibrinoespecífico derivado do ativador do plasminogênio tecidual (t-PA). Sua função é favorecer a conversão do plasminogênio em plasmina, contribuindo para a degradação da fibrina presente no trombo.

No contexto do infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST), a tenecteplase pode ser utilizada como terapia fibrinolítica quando a estratégia indicada é a trombólise. O Ministério da Saúde inclui a tenecteplase entre os trombolíticos fibrinoespecíficos e apresenta o seu uso no manejo do IAMCSST.

As apresentações do Metalyse

Aqui existe uma atualização que merece atenção. O Metalyse passou a contar também com a apresentação de 25 mg, além das apresentações de 40 mg e 50 mg encontradas nas informações anteriores do produto.

A apresentação de 25 mg contém 5.000 U de tenecteplase e, após reconstituição com 5 mL de água para injetáveis, produz uma solução com 5 mg/mL, ou 1.000 U/mL. Essa apresentação de 25 mg tem uma particularidade importante: nas informações europeias atuais do produto, ela é destinada ao tratamento trombolítico do acidente vascular cerebral isquêmico agudo, com dose baseada no peso e máximo de 25 mg. Portanto, não se deve simplesmente assumir que a apresentação de 25 mg possui a mesma indicação e esquema de utilização das apresentações destinadas ao IAM.

As apresentações de 40 mg e 50 mg possuem, respectivamente, 8.000 U e 10.000 U de tenecteplase. Após reconstituição, também resultam em concentração de 5 mg/mL. No material profissional consultado para essas apresentações, o medicamento é apresentado para uso intravenoso e tratamento trombolítico do infarto agudo do miocárdio.

Apresentação Tenecteplase Diluente Concentração após reconstituição
Metalyse 25 mg 5.000 U 5 mL 5 mg/mL
Metalyse 40 mg 8.000 U 8 mL 5 mg/mL
Metalyse 50 mg 10.000 U 10 mL 5 mg/mL

Um detalhe importante para provas e para a prática: as unidades (U) do tenecteplase são específicas para esse medicamento e não podem ser comparadas diretamente com as unidades utilizadas para outros trombolíticos.

Metalyse no infarto: a dose depende do peso

Para o tratamento trombolítico do IAMCSST, a dose de tenecteplase é administrada em bólus intravenoso único, com dose ajustada ao peso. O protocolo do Ministério da Saúde apresenta o seguinte esquema: até 30 mg para pacientes com menos de 60 kg; 35 mg para 60 a menos de 70 kg; 40 mg para 70 a menos de 80 kg; 45 mg para 80 a menos de 90 kg; e 50 mg para pacientes com 90 kg ou mais.

Isso explica por que a conferência do peso é tão importante antes da administração. Para um paciente de 74 kg, por exemplo, a dose prevista nesse esquema é 40 mg. Para alguém com 86 kg, seria 45 mg. A dose máxima indicada para o IAM nesse protocolo é 50 mg.

E a apresentação de 25 mg?

Aqui está uma das novidades mais importantes da neurologia vascular brasileira nos últimos meses: em dezembro de 2025, a ANVISA aprovou oficialmente o Metalyse 25 mg para o tratamento do AVC isquêmico agudo (AVCi) no Brasil. O medicamento chegou aos hospitais brasileiros em abril de 2026, e a primeira trombólise sistêmica com essa apresentação específica já foi realizada no país, em Ribeirão Preto, sob supervisão de uma neurologista vascular.

Isso significa que a indicação deixou de ser “só uma possibilidade em bulas europeias” e passou a ser uma realidade concreta da prática nacional. Para o profissional de enfermagem, isso é relevante tanto na teoria (cai em prova) quanto na prática (já está circulando em hospitais que atendem AVC agudo).

A dose para AVCi é calculada por peso, 0,25 mg/kg, com dose máxima de 25 mg — independente do paciente pesar mais que 100 kg, o teto é sempre 25 mg. A administração é em bolus único intravenoso, aplicado em 5 a 10 segundos.

Um ponto que merece destaque redobrado: as apresentações de 40 mg e 50 mg são de uso exclusivo para o protocolo de Infarto Agudo do Miocárdio. Já a apresentação de 25 mg é a única indicada para o AVC isquêmico. Trocar essas apresentações não é um detalhe burocrático — é um erro que compromete diretamente a margem de segurança terapêutica do paciente.

A janela de tempo que define tudo no AVC

Diferente do IAM, no AVC isquêmico o fator mais decisivo antes mesmo de pensar em dose ou apresentação é o tempo desde o início dos sintomas. A trombólise intravenosa só é indicada para pacientes elegíveis tratados em até 4,5 horas após o início do quadro, conforme reconhecido pela European Stroke Organisation e por sociedades médicas internacionais.

Isso muda a lógica da triagem: antes de qualquer cálculo de peso ou preparo do medicamento, a primeira pergunta da equipe precisa ser “que horas exatamente os sintomas começaram?” — e não “quantos quilos o paciente pesa?”. Na prática de urgência, é comum que essa informação venha de um familiar, e nem sempre com precisão; por isso, documentar o horário relatado com clareza no atendimento inicial é parte do cuidado, não um detalhe administrativo.

O impacto do tempo é medido em neurônios: durante os primeiros 60 minutos após o início dos sintomas — a chamada “Hora de Ouro” — o cérebro pode perder até 1,9 milhão de neurônios por minuto sem tratamento.

Por que o Metalyse chama tanta atenção na emergência?

Uma das características práticas da tenecteplase é a possibilidade de administração em bólus intravenoso único, o que simplifica a administração em comparação com esquemas trombolíticos que exigem infusão prolongada. No cenário do IAM, essa característica também é relevante para sistemas de atendimento em que cada minuto influencia a estratégia de reperfusão.

O Ministério da Saúde inclui a tenecteplase entre as opções fibrinolíticas e estabelece critérios para avaliação da reperfusão após a trombólise. A redução significativa da dor e uma redução superior a 50% do supradesnivelamento de ST são exemplos de sinais utilizados para avaliar resposta; um novo ECG deve ser realizado entre 60 e 90 minutos após a trombólise, conforme a Linha de Cuidado do IAM.

Cuidados de enfermagem antes da administração

Antes de preparar o medicamento, a equipe precisa confirmar indicação, prescrição, peso do paciente quando necessário, apresentação disponível, concentração, validade, integridade do frasco e condições de armazenamento. Também é fundamental verificar contraindicações à fibrinólise e investigar história de sangramento, AVC, cirurgia recente, trauma e outras condições previstas no protocolo.

No IAMCSST, a decisão pela trombólise não deve ser baseada apenas na presença de dor torácica. O diagnóstico, o ECG, o tempo de início dos sintomas, as contraindicações e a possibilidade de reperfusão mecânica precisam ser considerados pela equipe responsável.

Depois da administração, a vigilância deve ser contínua. Sangramentos em locais de punção, hematúria, hematêmese, melena, epistaxe, sangramento gengival e alterações neurológicas precisam ser valorizados. Cefaleia intensa, alteração súbita do nível de consciência, déficit neurológico ou qualquer suspeita de hemorragia intracraniana exigem avaliação imediata.

Também é importante minimizar procedimentos invasivos desnecessários durante o período de maior risco hemorrágico, seguindo o protocolo institucional.

Cuidados de enfermagem específicos no AVC isquêmico

Os cuidados após a trombólise no AVC têm particularidades que não se aplicam da mesma forma ao protocolo de infarto: O controle rigoroso da pressão arterial é ainda mais crítico aqui — a PA deve estar controlada (geralmente abaixo de 185×110 mmHg) antes da administração, conforme o protocolo institucional, já que hipertensão não controlada aumenta o risco de transformação hemorrágica.

A avaliação neurológica precisa ser seriada e frequente, não pontual: reavaliações a cada 15 minutos nas primeiras horas são comuns em protocolos de AVC, observando nível de consciência, força muscular e fala. Uma piora neurológica súbita durante esse período pode ser o primeiro sinal de sangramento intracraniano e exige comunicação imediata à equipe médica.

Assim como no protocolo de IAM, anticoagulantes e antiagregantes plaquetários devem ser evitados nas primeiras 24 horas após a trombólise, salvo orientação médica específica.

Uma situação que muda tudo no plantão

Na prática de terapia intensiva, existe uma diferença enorme entre preparar um medicamento de rotina e preparar um trombolítico enquanto a equipe está aguardando a decisão de reperfusão. Em uma situação de IAMCSST, lembro de como a conferência do peso, da prescrição e da apresentação do frasco precisa acontecer praticamente em paralelo com o restante do atendimento; enquanto alguém monitoriza o paciente, outro profissional organiza o medicamento e a equipe confirma o acesso venoso.

Esse tipo de situação mostra por que decorar apenas “Metalyse é trombolítico” é insuficiente. A segurança está nos detalhes da conferência.

O acesso venoso também merece atenção

Nas informações do produto, o Metalyse reconstituído pode ser administrado por uma linha intravenosa existente quando essa linha contém cloreto de sódio 0,9%. A apresentação de 25 mg, por exemplo, não deve ser administrada em uma linha contendo solução de glicose, devido à incompatibilidade descrita nas informações do produto. Após a administração, a linha deve ser lavada conforme as instruções para garantir a entrega adequada do medicamento.

Na rotina, esse é exatamente o tipo de detalhe que pode passar despercebido quando a equipe está concentrada na urgência. Por isso, antes de conectar qualquer medicamento em uma via existente, vale conferir qual solução está sendo infundida e o protocolo institucional.

Acompanhar a reperfusão faz parte do cuidado

A administração do trombolítico não encerra o atendimento. O paciente continua precisando de monitorização cardíaca, avaliação dos sinais vitais, acompanhamento da dor e realização de ECG conforme protocolo.

No IAMCSST, quando a reperfusão não é adequada, a persistência da dor intensa, instabilidade hemodinâmica ou redução insuficiente do supradesnivelamento de ST pode indicar necessidade de encaminhamento precoce para uma unidade com hemodinâmica para ICP de resgate.

Esse acompanhamento é uma parte essencial da assistência de enfermagem. Não basta registrar “Metalyse administrado”; é preciso acompanhar e registrar a evolução clínica do paciente.

O que o profissional de enfermagem precisa guardar

O ponto principal é simples: Metalyse é tenecteplase, um trombolítico de alto risco, e sua utilização exige conferência rigorosa da indicação, apresentação, dose, peso, contraindicações, via e resposta clínica.

E existe uma atualização importante: a apresentação de 25 mg existe e não deve ser confundida automaticamente com as apresentações de 40 mg e 50 mg utilizadas nos esquemas de IAM. A indicação da apresentação precisa ser conferida na bula e no protocolo vigente do serviço.

Em uma emergência, rapidez é fundamental. Só que rapidez segura não significa pular etapas; significa saber exatamente quais etapas não podem ser esquecidas.

Resumo para salvar

Metalyse: apresentações e cuidados essenciais

  • Metalyse é o nome comercial da tenecteplase, um trombolítico fibrinoespecífico
  • No IAMCSST, a dose é ajustada pelo peso, com máximo de 50 mg (apresentações de 40 mg e 50 mg)
  • A apresentação de 25 mg foi aprovada pela ANVISA para AVC isquêmico agudo, com dose de 0,25 mg/kg (máximo 25 mg) em até 4,5h do início dos sintomas
  • Após a trombólise, a enfermagem deve monitorar reperfusão, sinais vitais e principalmente sinais de sangramento

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Infarto Agudo do Miocárdio: manejo inicial – Linha de Cuidado. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Habilitação da Administração Pré-Hospitalar Tenecteplase – SAMU 192. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: Manual de Tenecteplase – Ministério da Saúde.
  3. EUROPEAN MEDICINES AGENCY. Metalyse 5 000 units (25 mg): product information. Amsterdam: EMA. Disponível em: EMA – Metalyse 25 mg.
  4. ELECTRONIC MEDICINES COMPENDIUM. Metalyse 5 000 units (25 mg) powder for solution for injection – Summary of Product Characteristics. Disponível em: Metalyse 25 mg – SmPC.
  5. BOEHRINGER INGELHEIM. Metalyse® (tenecteplase): informações profissionais do medicamento. Informações técnicas do produto. Disponível em: Informações profissionais sobre Metalyse
  6. PANORAMA FARMACÊUTICO. Anvisa aprova tratamento para o AVC isquêmico agudo. Disponível em: https://panoramafarmaceutico.com.br/anvisa-aprova-medicamento-para-o-tratamento-do-avc-isquemico-agudo/.
  7. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DOENÇAS CEREBROVASCULARES (SBAVC). Primeira Trombólise com Tenecteplase 25mg no Brasil. Disponível em: https://avc.org.br/blog/2026/04/29/primeira-trombolise-com-tenecteplase-25mg-no-brasil/.

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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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