
Vá direto ao ponto!
Em uma parada cardiorrespiratória, o erro mais perigoso pode acontecer antes mesmo da primeira compressão: olhar para um paciente que está “puxando o ar” e concluir que ele ainda está respirando normalmente. O gasping, ou respiração agônica, é uma respiração anormal e ineficaz que pode aparecer nos primeiros momentos da parada cardíaca.
Como reconhecer a respiração agônica
O gasping costuma aparecer como inspirações lentas, irregulares e espaçadas, podendo produzir sons semelhantes a engasgos, suspiros, roncos, gemidos ou respiração ofegante. Esses movimentos não devem ser interpretados como ventilação normal. Em uma pessoa inconsciente ou não responsiva, a presença desse padrão deve acelerar a avaliação para parada cardíaca, e não tranquilizar a equipe.
A respiração agônica é relativamente comum no início da parada cardiorrespiratória e tende a desaparecer conforme o tempo de parada aumenta. Justamente por poder dar a impressão de que existe respiração espontânea, ela está associada a atrasos no reconhecimento e no início da RCP.
Gasping e parada cardiorrespiratória
No adulto inconsciente e com respiração ausente ou anormal, o profissional de saúde deve verificar rapidamente o pulso por no máximo 10 segundos. Se não houver pulso definitivamente palpável, deve-se assumir parada cardíaca e iniciar a ressuscitação conforme o protocolo institucional, com acionamento da equipe de emergência e utilização do desfibrilador assim que disponível.
Isso também ajuda a diferenciar uma situação crítica de uma simples alteração do padrão respiratório: gasping não é um parâmetro para confirmar circulação. A avaliação deve considerar responsividade, respiração e pulso, sem prolongar a checagem a ponto de atrasar as compressões.
Quando ocorre no fim da vida
O gasping também pode aparecer durante o processo de morte, especialmente em pacientes com doença avançada e redução importante do nível de consciência. Nesse contexto, o significado clínico é diferente daquele observado em uma parada cardíaca e a conduta deve estar alinhada aos objetivos de cuidado, às decisões previamente estabelecidas e ao plano assistencial.
Nessas situações, a prioridade pode ser conforto, controle de sintomas e suporte à família, evitando transformar automaticamente uma manifestação do processo de morte em uma tentativa de ressuscitação incompatível com o plano terapêutico.
O que a enfermagem precisa perceber rapidamente
Na prática, a pergunta não deve ser apenas “ele está respirando?”. É preciso observar como ele está respirando. Uma pessoa não responsiva que apresenta apenas movimentos gasping deve ser tratada como uma situação potencial de parada cardíaca até que a circulação seja rapidamente avaliada.
Cuidados de enfermagem
Ao identificar um paciente não responsivo com respiração ausente ou anormal, acione imediatamente o protocolo de emergência, avalie rapidamente o pulso conforme treinamento e protocolo, inicie RCP quando indicada e providencie o desfibrilador. A ventilação com bolsa-válvula-máscara e oxigênio deve ser realizada por profissional treinado, dentro da sequência de ressuscitação e conforme os recursos e protocolos disponíveis.
Durante a ocorrência, a enfermagem também tem papel fundamental em organizar o ambiente, monitorizar o paciente, preparar materiais, registrar horários e intervenções e manter comunicação objetiva com a equipe. As diretrizes AHA 2025 reforçam o uso de recursos cognitivos durante eventos de ressuscitação por profissionais de saúde, justamente para reduzir falhas em situações de alta pressão.
Duas situações que ensinam muito na prática
Em uma situação típica de atendimento em UTI, um paciente monitorizado pode apresentar perda súbita de responsividade e, antes que alguém reconheça a parada, emitir duas ou três inspirações profundas e ruidosas, seguidas de pausas longas. Esse é exatamente o momento em que o profissional precisa reconhecer que aqueles movimentos não representam uma ventilação eficaz. Esperar “mais um pouco para ver se volta a respirar” pode consumir segundos importantes para o início da RCP.
Outra situação que merece atenção ocorre durante uma parada testemunhada: depois da perda de consciência, o paciente apresenta um padrão semelhante a um ronco, enquanto alguns membros da equipe inicialmente interpretam o som como respiração. A identificação correta do gasping muda imediatamente a prioridade: confirmar rapidamente a ausência de pulso, acionar a resposta à PCR, iniciar compressões e preparar o desfibrilador. O reconhecimento desse padrão respiratório é uma habilidade prática que precisa ser treinada, não apenas decorada para uma prova.
✓ Decore para a Prova Para lembrar na prova e na assistência
Paciente inconsciente + respiração ausente ou apenas gasping = suspeite de parada cardíaca.
O gasping não deve ser contado como respiração normal e não deve atrasar o início da ressuscitação quando os critérios para parada cardíaca estão presentes. As diretrizes internacionais de 2025 reforçam exatamente esse ponto porque reconhecer a respiração agônica rapidamente pode evitar um atraso crítico no atendimento.
Gasping: O Sinal Que Não Pode Esperar
- Gasping é uma respiração anormal e ineficaz
- Paciente inconsciente com apenas gasping pode estar em parada cardíaca
- O pulso deve ser avaliado rapidamente, sem atrasar a RCP
- Na terminalidade, a conduta deve considerar os objetivos de cuidado e conforto
Referências:
- AMERICAN HEART ASSOCIATION. Part 7: Adult Basic Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas: American Heart Association, 2025. Disponível em: AHA – Adult Basic Life Support 2025.
- AMERICAN HEART ASSOCIATION. Treatment of Cardiac Arrest. Dallas: American Heart Association, 2025. Disponível em: AHA – Treatment of Cardiac Arrest.
- EUROPEAN RESUSCITATION COUNCIL. European Resuscitation Council Guidelines 2025: Adult Basic Life Support. Brussels: ERC, 2025. Disponível em: ERC – Guidelines 2025.
- RESUSCITATION COUNCIL UK. Adult Basic Life Support Guidelines 2025. London: Resuscitation Council UK, 2025. Disponível em: Resuscitation Council UK – Adult Basic Life Support 2025.
- DEL RIOS, M. et al. Part 1: Executive Summary: 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation, v. 152, supl., p. S284-S312, 2025. Disponível em: AHA – 2025 CPR and ECC Guidelines.
Faltou algum tema ou procedimento?
Conta pra gente qual assunto você quer ver esmiuçado e transformado em ilustração no próximo post!
Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

Você precisa fazer login para comentar.