
Vá direto ao ponto!
Na adrenalina, uma diferença que parece apenas matemática pode mudar completamente a segurança da administração. O problema é que 1:1000 e 1:10000 não representam a mesma concentração: 1:1000 corresponde a 1 mg/mL, enquanto 1:10000 corresponde a 0,1 mg/mL. Antes de pensar na seringa, é fundamental saber qual situação clínica está sendo tratada e qual concentração o protocolo determina.
O que significa cada concentração?
A adrenalina 1:1000 corresponde a 1 mg/mL. Já a adrenalina 1:10000 corresponde a 0,1 mg/mL, portanto dez vezes menos concentrada.
Essa diferença precisa ser traduzida para miligramas e mililitros durante o preparo, porque a nomenclatura em proporção pode favorecer erros. Sempre confira a concentração escrita na ampola ou seringa, e não apenas a aparência do medicamento. A Anvisa registra apresentações injetáveis de adrenalina na concentração de 1 mg/mL.
Adrenalina 1:1000 na anafilaxia
Na anafilaxia, a adrenalina intramuscular é o tratamento de primeira linha. A concentração de 1 mg/mL (1:1000) é utilizada por via IM, preferencialmente na região anterolateral da coxa.
Em adultos, uma referência utilizada em protocolos brasileiros é 0,5 mg, equivalente a 0,5 mL da solução de 1 mg/mL. A dose pode ser repetida conforme a resposta clínica e o protocolo adotado. Em crianças, a dose é calculada pelo peso.
Durante um atendimento de emergência, é justamente nessa conversão que um erro pode acontecer: alguém ouve “0,5 mg de adrenalina” e pensa imediatamente em “0,5 mL”, sem antes verificar a concentração disponível. Se a solução não for 1 mg/mL, essa equivalência muda. Por isso, a concentração deve ser conferida antes do cálculo.
E a adrenalina 1:10000?
Na ressuscitação cardiopulmonar do adulto, a adrenalina é utilizada por via intravenosa ou intraóssea na dose de 1 mg a cada 3 a 5 minutos, de acordo com o algoritmo de suporte avançado de vida. Quando se utiliza uma solução de 0,1 mg/mL (1:10000), isso corresponde a 10 mL para fornecer 1 mg.
O ponto mais importante para a enfermagem é não transformar essa informação em uma regra de que “1:1000 serve para uma situação e 1:10000 para outra”. O que determina a administração é a dose, concentração, via e indicação clínica, sempre conforme o protocolo vigente. Em situações de PCR, a equipe deve seguir o algoritmo de ressuscitação e a apresentação disponível no serviço.
Onde está o maior risco?
O maior risco está em confundir mg com mL ou interpretar a proporção sem conferir a concentração real.
Uma ampola de 1 mL contendo adrenalina 1 mg/mL possui 1 mg em 1 mL. Uma solução de 0,1 mg/mL precisa de 10 mL para totalizar 1 mg. São volumes diferentes para entregar a mesma quantidade de princípio ativo.
Em uma PCR, já acompanhei situações em que a atenção da equipe estava concentrada na sequência do atendimento e alguém verbalizava apenas “adrenalina”, sem dizer concentração e dose. É justamente nesse ambiente de urgência que a comunicação precisa ser objetiva: medicamento, concentração, dose, via e horário devem ficar claros para quem prepara e para quem administra.
Adrenalina IV exige atenção especial
A adrenalina intravenosa não deve ser tratada como uma simples alternativa à via IM na anafilaxia. Na maioria dos casos de anafilaxia, a via IM é a primeira escolha. A administração IV, especialmente em bolus, envolve maior risco cardiovascular e deve ficar restrita a situações específicas, com diluição adequada, monitorização e equipe capacitada, conforme protocolo. Em anafilaxia refratária, pode ser necessária infusão intravenosa titulada em ambiente apropriado.
Isso também explica por que a frase “adrenalina 1:1000 nunca pode ser administrada por via IV” é simplista demais. A solução concentrada não deve ser administrada por via IV de forma inadvertida ou sem preparo adequado, mas existem situações críticas em que a adrenalina IV é utilizada sob protocolos específicos e com concentração/diluição apropriadas.
Cuidados de enfermagem
Antes de preparar a adrenalina, confira a prescrição ou indicação do protocolo, concentração disponível, dose calculada, via, paciente e validade. Em medicamentos de alto risco, a dupla checagem independente, quando prevista pelo serviço, é uma barreira importante.
Na administração IM para anafilaxia, confirme o local recomendado e acompanhe continuamente resposta clínica, pressão arterial, frequência cardíaca, ritmo, saturação e evolução respiratória. Na PCR, siga o algoritmo vigente de ressuscitação e registre dose, horário e resposta do paciente conforme a rotina institucional.
Também vale atenção à conservação. A solução deve ser protegida conforme as orientações do fabricante e descartada quando apresentar alteração de aspecto compatível com deterioração. O preparo deve ocorrer de maneira que a seringa fique claramente identificada quando houver risco de confusão entre concentrações.
Para não errar no plantão
Guarde esta relação:
Adrenalina 1:1000 = 1 mg/mL
Adrenalina 1:10000 = 0,1 mg/mL
Portanto, 1 mL de 1:1000 contém 1 mg, enquanto 1 mL de 1:10000 contém 0,1 mg.
O mais seguro não é decorar apenas “qual adrenalina usar”, e sim conferir a concentração, calcular a dose em mg, converter para o volume necessário e confirmar a via antes da administração. Em uma emergência, essa sequência simples pode representar uma barreira decisiva contra um erro de medicação.
Adrenalina 1:1000 ou 1:10000
- 1:1000 corresponde a 1 mg/mL
- 1:10000 corresponde a 0,1 mg/mL
- Anafilaxia: adrenalina IM é primeira escolha
- PCR: confira dose, concentração e via
Referências:
- AMERICAN HEART ASSOCIATION. 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care: Part 9 — Adult Advanced Life Support. Circulation, 2025, v. 152, supl. 2, p. S538-S577. Disponível em: AHA — Adult Advanced Life Support 2025.
- AMERICAN HEART ASSOCIATION. 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Dallas: American Heart Association, 2025. Disponível em: Diretrizes AHA 2025.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Manual do Ministério da Saúde.
- BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Adrenalina/epinefrina: informações sobre apresentações registradas. Brasília, DF: Anvisa. Disponível em: Anvisa.
- RESUSCITATION COUNCIL UK. Special Circumstances Guidelines 2025. London: Resuscitation Council UK, 2025. Disponível em: Resuscitation Council UK — Guidelines 2025.
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva. Une a vivência clínica à inovação digital e criativa, atuando na produção de conteúdos educacionais, ilustração digital e no desenvolvimento web de ferramentas e recursos interativos (PHP, CSS e JavaScript).
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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