
O cuidado com feridas é uma das áreas mais técnicas e sensíveis da enfermagem. Escolher a cobertura correta para cada tipo e estágio de ferida não é apenas uma decisão clínica, mas também um passo essencial para acelerar a cicatrização, reduzir a dor e evitar infecções. Cada fase da ferida requer um tipo diferente de manejo, e entender essa lógica faz toda a diferença na qualidade do cuidado.
Este artigo tem o objetivo de guiar o estudante de enfermagem na identificação dos estágios e fases das feridas e na escolha apropriada das coberturas, com explicações claras, exemplos práticos e orientações de cuidados.
Entendendo os estágios das feridas
Antes de falarmos sobre os curativos, é crucial lembrarmos os três principais estágios da cicatrização, pois é a partir deles que tomamos nossas decisões:
- Fase Inflamatória: É o início do processo. A ferida está avermelhada, inchada, com dor e calor. Há a presença de exsudato (o líquido que a ferida produz). O objetivo aqui é controlar a inflamação, limpar e proteger.
- Fase Proliferativa (ou de Granulação): A ferida começa a se reconstruir. Aparece o tecido de granulação, que é aquele tecido vermelho, brilhante e com aspecto granuloso, rico em vasos sanguíneos. O exsudato diminui, mas ainda está presente. O objetivo é manter um ambiente úmido e proteger o novo tecido.
- Fase de Maturação (ou de Remodelação): O tecido de granulação se transforma em uma cicatriz. O objetivo é proteger a pele nova e garantir que a cicatriz se desenvolva da melhor forma possível.
Além dessas fases, as feridas por pressão (escaras) são classificadas em estágios, de I a IV, além de feridas não classificáveis e lesão de tecido profundo.
Coberturas indicadas para cada fase ou estágio da ferida
Estágio I – Eritema não branqueável
- Características: Pele íntegra, com vermelhidão persistente, geralmente sobre proeminência óssea.
- Objetivo do tratamento: Proteger a pele e evitar evolução para ferida aberta.
- Coberturas indicadas:
- Filmes transparentes (como poliuretano)
- Hidrocoloides finos
Essas coberturas atuam como barreiras protetoras e permitem visualização da pele sem remoção constante.
Estágio II – Perda parcial da derme
- Características: Lesão superficial, pode ter aparência de abrasão, bolha ou úlcera rasa.
- Objetivo do tratamento: Manter o ambiente úmido e proteger contra infecção.
- Coberturas indicadas:
- Hidrocolóides
- Hidrogéis com gaze secundária
- Espumas de poliuretano finas
Estas coberturas ajudam a manter a umidade ideal para cicatrização sem agredir o leito da ferida.
Estágio III – Perda total da pele (epiderme e derme) com exposição de tecido subcutâneo
- Características: Ferida profunda, com possível presença de exsudato moderado a intenso e tecido de granulação.
- Objetivo do tratamento: Controlar exsudato, favorecer granulação e proteger o tecido.
- Coberturas indicadas:
- Espumas absorventes (com ou sem prata)
- Alginatos de cálcio
- Hidrofibras
- Carvão ativado com prata (em caso de odor e infecção)
O uso de coberturas com maior poder de absorção é fundamental para controlar o excesso de exsudato e evitar maceração da pele ao redor.
Estágio IV – Perda total com exposição de músculo, osso ou tendão
- Características: Ferida extensa, profunda, com alto risco de infecção e presença frequente de necrose ou túnel.
- Objetivo do tratamento: Desbridamento, controle da infecção, absorção do exsudato e estímulo à granulação.
- Coberturas indicadas:
- Alginatos
- Hidrofibras com prata
- Espumas espessas
- Hidrogéis (em áreas necróticas secas)
- Terapia por pressão negativa (quando indicada)
Nessa fase, o cuidado multidisciplinar é ainda mais importante, pois há risco real de complicações sistêmicas.
Feridas não classificáveis e lesão de tecido profundo
- Características: Cobertas por esfacelo ou necrose, impossibilitando a visualização do leito da ferida.
- Objetivo do tratamento: Remover tecido desvitalizado e expor o leito para avaliação e cuidado adequado.
- Coberturas indicadas:
- Hidrogéis (desbridamento autolítico)
- Carvão ativado com prata
- Papaina (quando disponível, sob prescrição)
- Desbridamento enzimático ou cirúrgico (quando indicado)
Essas lesões exigem avaliação contínua e, muitas vezes, intervenção médica direta.
Fase Inflamatória (ou Exsudativa)
Duração: Primeiros dias após a lesão (até 3 a 5 dias).
Características da ferida: Presença de exsudato (secreção), edema, dor, sinais de inflamação, possível infecção.
Objetivos do curativo:
- Controlar o exsudato
- Reduzir o risco de infecção
- Manter o ambiente úmido adequado
- Promover desbridamento autolítico, se necessário
Coberturas indicadas:
- Espumas de poliuretano: absorvem o exsudato e protegem mecanicamente
- Alginato de cálcio: excelente para feridas muito exsudativas
- Carvão ativado com prata: quando há suspeita ou risco de infecção
- Hidrogel: em feridas secas ou com crostas, para auxiliar na hidratação e desbridamento
- Curativos com prata, PHMB ou iodo: com ação antimicrobiana
Fase Proliferativa
Duração: De 4 a 21 dias, dependendo do tipo de ferida.
Características da ferida: Formação de tecido de granulação, redução do exsudato, início da epitelização.
Objetivos do curativo:
- Proteger o novo tecido
- Manter ambiente úmido
- Estimular a migração celular
- Evitar trauma na troca de curativo
Coberturas indicadas:
- Hidrocolóides: mantêm o meio úmido e são indicados para feridas com pouco exsudato
- Espumas com baixa aderência: para absorver exsudato moderado e proteger o leito
- Membranas de poliuretano transparentes (filmes): para feridas superficiais ou em epitelização
- Curativos com colágeno: favorecem a proliferação celular
- Hidrofibras: se ainda houver exsudato, ajudam a manter o equilíbrio da umidade
Fase de Remodelação (ou Maturação)
Duração: Pode durar semanas ou meses.
Características da ferida: Epitelização completa, redução da vascularização, cicatriz formada.
Objetivos do curativo:
- Proteger o tecido novo
- Prevenir traumas
- Evitar hipertrofia ou quelóides
Coberturas indicadas:
- Filmes de poliuretano: proteção e visualização sem remoção
- Silicone em gel ou placas de silicone: para prevenção de cicatrizes hipertróficas
- Curativos finos não aderentes: proteção mecânica até cicatrização total
Cuidados de enfermagem no manejo de coberturas
O enfermeiro ou técnico de enfermagem deve sempre observar aspectos importantes na escolha e no uso das coberturas:
- Avaliação da Ferida: Antes de cada troca, avalie a ferida por completo (tamanho, profundidade, tipo de tecido, quantidade e tipo de exsudato, odor, sinais de infecção, estado da pele ao redor).
- Limpeza Adequada: Limpar a ferida com soro fisiológico 0,9% é a regra de ouro, a não ser que haja outra prescrição.
- Preparação da Pele Perilesional: Proteger a pele ao redor da ferida é tão importante quanto cuidar da ferida em si. Use cremes de barreira para evitar maceração.
- Troca no Momento Certo: Não trocar o curativo mais do que o necessário. Trocas frequentes podem traumatizar o novo tecido.
- Educação do Paciente: Explicar para o paciente e sua família o tipo de curativo que está sendo usado, por que ele foi escolhido e como ele funciona. Isso os tranquiliza e os torna parceiros no tratamento.
- Registro Preciso: Documentar cada troca de curativo, descrevendo a ferida, o curativo usado e a resposta do paciente. Isso permite acompanhar a evolução e ajustar o plano de cuidados.
Além disso, o uso racional de coberturas evita desperdícios e reduz custos sem comprometer o cuidado.
Escolher a cobertura certa para cada estágio da ferida é um passo gigantesco para um tratamento eficaz. Com conhecimento, observação e um toque de humanidade, nós, profissionais de enfermagem, somos os verdadeiros catalisadores da cicatrização, trazendo alívio e bem-estar para os nossos pacientes.
Referências:
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de uso de coberturas para o tratamento de feridas. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. Disponível em:
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_feridas.pdf - SILVA, M. A.; SANTOS, L. C. Tratamento de Feridas: Guia Prático de Coberturas. São Paulo: Atheneu, 2019.
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTOMATERAPIA (SOBEST). Prática clínica em estomaterapia: feridas, estomias e incontinências. 2. ed. São Paulo: Manole, 2020.
- SOUZA, N. L.; LOPES, C. M. “Feridas: avaliação e escolha adequada da cobertura.” Revista de Enfermagem Atual, v. 88, n. 2, 2021.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Hospitalar e de Urgência. Manual de Curativos: Normas Técnicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_curativos_normas_tecnicas.pdf.
-
SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. (Consultar os capítulos sobre tratamento de feridas e coberturas).
MONTOYA, V. M. G.; et al. As melhores evidências no cuidado de feridas. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 45, n. 4, p. 950-955, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reeusp/a/Bv8y76yY7zSg4tPz9wWkMvD/?lang=pt.










