Paciente Instável, o que avaliar primeiro?

paciente instável

Antes do diagnóstico, procure o que ameaça a vida

Diante de um paciente instável, a primeira avaliação deve seguir uma sequência estruturada: A — via aérea, B — respiração, C — circulação, D — estado neurológico e E — exposição. O método ABCDE permite identificar problemas potencialmente fatais e tratá-los conforme aparecem, sem esperar concluir toda a avaliação para depois intervir. A recomendação também é reavaliar o paciente após cada intervenção e solicitar ajuda precocemente quando necessário.

A primeira pergunta é sobre a via aérea

Comece observando o paciente. Ele consegue falar? Há roncos, estridor, secreções, vômitos ou sinais de obstrução? Alteração do nível de consciência pode comprometer a proteção da via aérea, principalmente em pacientes muito sonolentos ou inconscientes. Uma via aérea obstruída é uma emergência porque a hipóxia pode evoluir rapidamente para deterioração grave e parada cardiorrespiratória.

Em uma situação típica de plantão, um paciente que estava conversando passa a ficar sonolento e começa a apresentar respiração ruidosa. Antes de procurar a causa daquela alteração neurológica, a equipe precisa olhar para a via aérea e para a respiração. Esse pequeno detalhe muda a prioridade da assistência.

Depois vem a respiração

Com a via aérea avaliada, observe frequência e padrão respiratório, expansibilidade torácica, esforço para respirar, presença de cianose, ausculta pulmonar e saturação de oxigênio. Uma frequência respiratória elevada ou progressivamente crescente pode ser um sinal precoce de deterioração, mesmo antes de ocorrer queda importante da pressão arterial.

É aqui que a avaliação precisa ir além do número mostrado no oxímetro. Um paciente com SpO₂ aparentemente aceitável, mas com esforço respiratório intenso, alteração do nível de consciência ou fadiga progressiva, continua sendo um paciente preocupante. O contexto clínico importa tanto quanto o valor isolado do monitor.

Circulação: não espere a pressão despencar

Na avaliação circulatória, verifique frequência cardíaca, pressão arterial, perfusão periférica, temperatura e coloração da pele, pulsos e tempo de enchimento capilar, além de procurar sinais de sangramento. Um paciente em choque pode inicialmente manter a pressão arterial por mecanismos compensatórios, portanto, pressão normal não exclui deterioração circulatória.

Imagine um paciente pálido, sudorético, taquicárdico e com extremidades frias, mas ainda apresentando pressão arterial dentro do valor habitual. Se a equipe olhar apenas para a pressão, pode subestimar a gravidade. Quando os sinais são analisados em conjunto, a alteração da perfusão ganha outro significado e exige investigação e escalonamento rápidos.

O estado neurológico também conta

Depois de garantir A, B e C, avalie o nível de consciência, resposta a estímulos, pupilas e glicemia. Uma alteração neurológica pode estar relacionada à hipóxia, hipoperfusão, hipoglicemia, medicamentos, intoxicações ou outras causas, por isso a avaliação precisa considerar o quadro inteiro. Escalas como Glasgow ou AVPU podem ajudar a acompanhar a evolução.

A glicemia capilar merece atenção especial porque a hipoglicemia é uma causa potencialmente reversível de alteração do nível de consciência. Ao mesmo tempo, uma queda do estado neurológico em um paciente previamente consciente deve ser comunicada e investigada rapidamente, principalmente quando representa uma mudança em relação ao padrão anterior.

Exposição sem esquecer a segurança

Na etapa E, examine o paciente de maneira direcionada para procurar sangramentos, lesões, alterações cutâneas, edema, sinais de trauma ou outras pistas que ajudem a explicar a instabilidade. A exposição deve preservar a dignidade do paciente e evitar perda desnecessária de calor.

Um ponto importante é que o ABCDE não termina no E. Depois de uma intervenção, a avaliação volta ao início. Se a respiração melhorou após uma intervenção, por exemplo, é preciso confirmar se a frequência respiratória, saturação, esforço e estado geral também evoluíram. A avaliação do paciente instável é dinâmica.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem deve reconhecer precocemente a deterioração, iniciar a avaliação sistematizada, monitorizar sinais vitais, verificar glicemia quando indicada, garantir acesso e equipamentos necessários conforme a condição clínica e acionar ajuda sem demora diante de sinais de gravidade.

Também é fundamental registrar tendências, e não apenas números isolados. Comparar pressão, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação e nível de consciência com medidas anteriores pode revelar uma deterioração que ainda não atingiu valores extremos. A comunicação objetiva com a equipe e a reavaliação após as intervenções fazem parte da segurança do paciente.

Resumo para salvar

Paciente Instável O Que Avaliar Primeiro

  • Comece pelo ABCDE e trate ameaças imediatas à vida
  • Avalie via aérea e respiração antes de buscar o diagnóstico
  • Não descarte choque apenas porque a pressão ainda está normal
  • Reavalie o paciente após cada intervenção e comunique a deterioração

Referências: 

  1. RESUSCITATION COUNCIL UK. The ABCDE Approach. London: Resuscitation Council UK, atualizado em 2024. Resuscitation Council UK – ABCDE Approach
  2. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Part 7: Adult Basic Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas: American Heart Association, 2025. AHA – Adult Basic Life Support 2025
  3. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Part 9: Adult Advanced Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas: American Heart Association, 2025. AHA – Adult Advanced Life Support 2025

Tempo Porta Agulha no AVC Isquêmico

porta agulha avc

No atendimento ao AVC isquêmico agudo, existe um tempo que a equipe precisa conhecer quase tão bem quanto a escala de Glasgow ou a NIHSS: o tempo porta-agulha. Ele corresponde ao intervalo entre a chegada do paciente ao serviço de referência e o início da infusão do trombolítico intravenoso, quando o paciente é elegível para trombólise. A meta tradicional é iniciar o tratamento em até 60 minutos, porque o benefício da terapia é tempo-dependente.

Isso significa que não se deve esperar terminar toda a burocracia para depois começar a organizar o atendimento. Desde a chegada, a equipe precisa trabalhar em paralelo: identificar sinais de AVC, estabelecer o horário do início dos sintomas ou último momento em que o paciente foi visto bem, avaliar a condição neurológica, verificar glicemia, providenciar acesso venoso, encaminhar rapidamente para neuroimagem e preparar as etapas necessárias para a trombólise. O PCDT brasileiro do AVC isquêmico agudo está atualmente disponível pelo Ministério da Saúde e orienta a organização desse atendimento.

De onde começa a contagem?

O relógio do porta-agulha começa na chegada do paciente ao serviço, não quando ele entra na tomografia, quando o neurologista chega ou quando o medicamento é preparado. Por isso, registrar corretamente o horário de admissão é uma informação operacional importante.

Um exemplo prático: o paciente chega com dificuldade súbita para falar e perda de força em um lado do corpo. Enquanto a equipe realiza a avaliação inicial, outro profissional já pode providenciar o acesso venoso, verificar a glicemia e organizar o transporte para a tomografia, evitando que cada etapa fique esperando a anterior terminar. É justamente essa atuação simultânea que ajuda a reduzir atrasos evitáveis.

O Ministério da Saúde estabelece como parâmetros assistenciais tempo porta-tomografia inferior a 25 minutos e tempo porta-agulha inferior a 60 minutos nos serviços habilitados para atendimento ao AVC.

O que acontece antes da trombólise?

A rapidez não significa pular etapas de segurança. O paciente precisa ser avaliado quanto à possibilidade de AVC isquêmico, realizar neuroimagem para excluir hemorragia intracraniana e passar pela avaliação dos critérios de elegibilidade para trombólise.

A equipe também precisa considerar horário de início dos sintomas ou último momento conhecido sem déficit, pressão arterial, glicemia, uso de anticoagulantes e outros fatores clínicos relevantes. A decisão pela trombólise é médica e deve seguir o protocolo vigente do serviço.

Na prática, é comum perceber como pequenos atrasos se acumulam. Se o acesso venoso demora, a coleta atrasa; se o transporte para a tomografia demora, a avaliação também atrasa. O paciente não precisa de uma sequência lenta de tarefas, mas de uma equipe coordenada, com funções bem definidas.

Onde a enfermagem faz diferença

A enfermagem participa de praticamente todas as etapas críticas do fluxo. Na triagem, reconhecer rapidamente sinais compatíveis com AVC e comunicar a equipe é fundamental. Durante a avaliação, o enfermeiro pode organizar monitorização, glicemia capilar, acesso venoso, coleta de exames quando indicada, transporte seguro e preparo do paciente para a sequência do protocolo.

Também existe uma função que parece simples, mas evita erros: controlar e registrar os horários. Horário de chegada, avaliação, início da tomografia, resultado da imagem e início da infusão precisam estar claramente documentados conforme o protocolo institucional.

Imagine agora uma situação típica de emergência: o paciente já está na sala de tomografia, a equipe aguarda a definição da imagem e o acesso venoso ainda não foi providenciado. Esse tipo de atraso mostra por que o fluxo precisa ser pensado antes mesmo de o paciente chegar. A enfermagem pode antecipar materiais, monitorização e acesso quando isso for seguro e permitido pelo protocolo, reduzindo minutos que, no AVC, têm relevância clínica.

A American Heart Association utiliza o door-to-needle ≤60 minutos como importante indicador de qualidade para pacientes elegíveis à trombólise intravenosa e acompanha também metas ainda mais rápidas em programas de melhoria da assistência ao AVC.

Tempo porta-agulha não é apenas um número

O indicador serve para avaliar o funcionamento de todo o processo, e não para responsabilizar isoladamente um profissional. Quando o tempo está elevado, vale investigar onde o fluxo está parando: triagem, acionamento da equipe, transporte, tomografia, interpretação da imagem, decisão terapêutica, preparo ou administração do trombolítico.

A lógica é simples: cada etapa precisa acontecer com segurança e sem espera desnecessária. Reduzir o porta-agulha significa melhorar o processo inteiro.

Cuidados de enfermagem

Na assistência ao paciente com suspeita de AVC, a enfermagem deve priorizar reconhecimento rápido, registro preciso dos horários, avaliação neurológica conforme protocolo, glicemia capilar, monitorização dos sinais vitais, acesso venoso quando indicado, transporte rápido e seguro para neuroimagem e preparo para a terapia conforme prescrição e protocolo institucional.

Após o início do trombolítico, a vigilância continua. É necessário observar nível de consciência, sinais neurológicos, pressão arterial, sinais de sangramento e qualquer deterioração clínica, comunicando imediatamente alterações à equipe responsável. A administração e o monitoramento devem seguir rigorosamente o protocolo institucional e a terapia prescrita.

Resumo para salvar

Tempo Porta-Agulha no AVC

  • Porta-agulha é o tempo entre a chegada e o início do trombolítico
  • A meta tradicional é iniciar a trombólise em até 60 minutos nos pacientes elegíveis
  • Enfermagem atua no reconhecimento monitorização acesso transporte e organização do fluxo
  • Registrar horários e eliminar atrasos evitáveis melhora o atendimento ao AVC

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. PCDT – Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 29, de 12 de dezembro de 2023. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo. Portaria Conjunta nº 29/2023
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Rotinas para Atenção ao AVC. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Manual de Rotinas para Atenção ao AVC
  4. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Get With The Guidelines – Stroke Recognition Criteria. Dallas: American Heart Association. Stroke Recognition Criteria
  5. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Target: Stroke – When Seconds Count. Dallas: American Heart Association. Target: Stroke

Assistência de Enfermagem na Crise Convulsiva

crise convulsiva

O primeiro erro é perder a noção do tempo

Durante uma crise convulsiva, a equipe pode se concentrar tanto nos movimentos do paciente que acaba esquecendo uma informação fundamental: quanto tempo a crise está durando? Cronometrar desde o início ajuda a reconhecer rapidamente uma situação que exige intervenção imediata.

Na abordagem inicial, a prioridade é proteger o paciente contra traumas, manter a permeabilidade das vias aéreas, avaliar respiração e circulação e monitorizar os sinais vitais. Também é importante verificar a glicemia capilar, porque a hipoglicemia pode desencadear convulsões e precisa ser identificada rapidamente.

Imagine uma situação comum no atendimento: o paciente começa a apresentar movimentos tônico-clônicos, alguém tenta segurá-lo pelos braços e outra pessoa procura alguma coisa para colocar entre os dentes. É justamente nesse momento que a equipe precisa organizar a cena: afastar objetos, proteger a cabeça, não restringir os movimentos e não colocar nada na boca. A proteção adequada reduz o risco de lesões sem transformar a própria assistência em uma nova fonte de trauma.

O que fazer durante a convulsão

Durante a crise, não se deve tentar conter fisicamente os movimentos nem introduzir objetos, dedos, compressas ou dispositivos na boca do paciente. Também não é indicado oferecer água, alimentos ou medicamentos por via oral enquanto houver alteração da consciência.

Se for possível com segurança, deve-se proteger a cabeça, afastar objetos próximos e afrouxar roupas apertadas no pescoço. A equipe deve permanecer ao lado do paciente e observar características importantes da crise, como início, duração, padrão dos movimentos, presença de cianose, secreções, perda urinária ou fecal e resposta após o episódio.

Uma situação que merece atenção acontece quando a crise termina: o paciente pode permanecer sonolento, confuso ou com respiração alterada. É nessa fase que alguns profissionais podem interpretar a ausência dos movimentos como resolução completa do problema. A assistência continua sendo necessária, com avaliação das vias aéreas, respiração, saturação, sinais vitais e nível de consciência.

Depois da crise: o período pós-ictal

Após o término dos movimentos convulsivos, o paciente pode apresentar sonolência, confusão, agitação, cefaleia ou redução do tônus muscular. A equipe deve manter vigilância até que haja recuperação adequada da consciência e estabilidade clínica.

Quando o paciente estiver respirando espontaneamente e sem contraindicação, o posicionamento lateral pode ajudar a manter a via aérea protegida. Se houver secreções, a aspiração deve ser realizada quando indicada, sempre avaliando a necessidade real do procedimento.

Também é importante investigar o contexto: histórico de epilepsia, uso ou suspensão de anticonvulsivantes, febre, trauma, intoxicação, alterações metabólicas, gestação, diabetes e outras condições que possam estar relacionadas ao episódio.

Quando a crise vira uma emergência ainda maior

Uma convulsão que ultrapassa 5 minutos, ou crises repetidas sem recuperação da consciência entre elas, deve ser tratada como uma emergência. Nessa situação, não basta aguardar que o episódio termine espontaneamente. É necessário acionar o atendimento de emergência e seguir o protocolo institucional para controle da crise.

No ambiente hospitalar, a equipe deve preparar acesso venoso, monitorização, avaliação da glicemia e suporte ventilatório conforme necessidade. As medicações anticonvulsivantes, especialmente benzodiazepínicos como primeira linha no estado de mal convulsivo, devem ser administradas conforme prescrição, protocolo institucional e competência profissional.

No Brasil, o protocolo do SAMU também orienta avaliação primária, manutenção da permeabilidade das vias aéreas, monitorização, glicemia capilar e proteção contra traumas, além do registro das características da crise.

Cuidados de enfermagem

A assistência de enfermagem deve priorizar segurança e reconhecimento precoce da gravidade. Entre os principais cuidados estão:

  • Cronometrar a crise desde o início.
  • Proteger cabeça e corpo contra traumas.
  • Não restringir os movimentos e não colocar objetos na boca.
  • Avaliar vias aéreas, respiração, SpO₂ e sinais vitais.
  • Verificar glicemia capilar.
  • Manter monitorização conforme condição clínica.
  • Observar e registrar características e duração da crise.
  • Avaliar o período pós-ictal e o nível de consciência.
  • Preparar acesso venoso e medicações quando indicados pelo protocolo.
  • Comunicar imediatamente crise prolongada, recorrente ou associada à instabilidade clínica.

O registro também tem valor clínico: horário de início, duração, características dos movimentos, alterações respiratórias, intervenções realizadas, medicamentos administrados e resposta do paciente ajudam a equipe médica e de enfermagem a entender a evolução do episódio.

O que a enfermagem nunca deve fazer

Não segure o paciente à força. Não coloque colher, gaze, cânula, dedo ou qualquer outro objeto entre os dentes. Não tente interromper mecanicamente os movimentos e não ofereça líquidos ou medicamentos pela boca enquanto houver alteração da consciência.

A prioridade é proteger, observar, cronometrar, avaliar e agir conforme a gravidade e o protocolo. Essa sequência evita condutas impulsivas justamente no momento em que a equipe mais precisa trabalhar de forma organizada.

Resumo para salvar

Assistência na Crise Convulsiva

  • Cronometre a crise e proteja o paciente contra traumas
  • Avalie vias aéreas respiração sinais vitais e glicemia
  • Não contenha os movimentos nem coloque objetos na boca
  • Reconheça crises prolongadas ou repetidas como emergência

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Suporte Básico de Vida: BC16 – Crise convulsiva no adulto. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Ministério da Saúde – Protocolo de Suporte Básico de Vida
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. SAMU 192 – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília, DF: Ministério da Saúde. SAMU 192 – Ministério da Saúde
  3. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. First Aid for Seizures. Atlanta: CDC, 2024. CDC – First Aid for Seizures
  4. AMERICAN COLLEGE OF EMERGENCY PHYSICIANS. Clinical Policy: Critical Issues in the Management of Adult Patients Presenting to the Emergency Department With Seizures. Annals of Emergency Medicine, 2024. ACEP – Clinical Policy on Seizures

Hipoglicemia Grave Como Reconhecer e Tratar

Hipoglicemia Grave

Na hipoglicemia grave, o relógio importa tanto quanto o valor do HGT. Uma glicemia abaixo de 70 mg/dL merece atenção, mas o quadro é classificado como nível 3 quando existe alteração física ou mental que exige ajuda de outra pessoa para a recuperação, independentemente do valor exato da glicemia. Confusão, sonolência intensa, convulsão, perda de consciência e incapacidade de ingerir carboidrato pela boca são sinais de emergência.

Primeiro passo: reconhecer e avaliar

Diante de suspeita, verifique a glicemia capilar imediatamente, avalie nível de consciência, respiração e sinais vitais e acione o protocolo institucional. Se o resultado aparecer como “LO” ou não for compatível com o quadro clínico, repita a medição conforme o protocolo, sem atrasar o atendimento de uma pessoa claramente sintomática.

Se o paciente estiver consciente, colaborativo e conseguir engolir com segurança, a conduta inicial é glicose ou carboidrato de absorção rápida por via oral. A SBD recomenda 15–30 g de glicose para hipoglicemias hospitalares níveis 1 e 2, com nova avaliação da glicemia após 15 minutos e repetição do tratamento quando necessário.

Agora muda tudo se houver rebaixamento de consciência. Não ofereça água, açúcar, suco ou qualquer alimento pela boca a uma pessoa inconsciente, convulsionando ou sem capacidade segura de deglutir, porque existe risco de aspiração. Nessa situação, a SBD recomenda correção por via endovenosa; se não houver acesso venoso, pode-se utilizar glucagon 1 mg por via intramuscular ou subcutânea.

Glicose intravenosa: atenção à concentração

Nos casos graves, a glicose intravenosa deve ser administrada conforme o protocolo institucional e com atenção rigorosa ao acesso venoso. A Diretriz SBD 2026 recomenda, em acesso periférico, soluções de glicose a 25–50%, totalizando aproximadamente 10–30 g, em administração lenta, com nova avaliação da glicemia a cada 15 minutos até a correção. Uma solução de glicose 50% contém 5 g de glicose a cada 10 mL.

Esse é um daqueles momentos em que a rotina da enfermagem precisa ser muito precisa: antes de administrar glicose hipertônica, confirme a permeabilidade do acesso e observe o local durante a infusão. Extravasamento pode provocar lesão tecidual importante, além de flebite, isquemia e outras complicações.

Em uma situação de plantão, por exemplo, o paciente pode apresentar sudorese intensa, alteração do comportamento e depois evoluir rapidamente para sonolência. Enquanto uma pessoa da equipe confirma a glicemia, outra já pode providenciar acesso venoso e material para a correção, evitando que todos esperem uma única etapa terminar para começar a próxima. Essa organização é especialmente importante quando há alteração do nível de consciência.

Sem acesso venoso? Pense no glucagon

Quando a hipoglicemia é grave e não existe acesso venoso disponível, o glucagon 1 mg IM ou SC é uma alternativa recomendada pela SBD. Ao mesmo tempo, a equipe deve continuar tentando obter acesso venoso e monitorar a resposta clínica e glicêmica.

Depois da correção inicial, não basta olhar apenas para o número que apareceu no glicosímetro. É necessário verificar se houve recuperação do estado de consciência e investigar por que a hipoglicemia aconteceu. Insulina administrada em horário inadequado, redução da ingestão alimentar, vômitos, interrupção de dieta enteral, alteração da infusão de glicose e alguns medicamentos estão entre os fatores que podem favorecer novos episódios hospitalares.

É comum, na prática hospitalar, a hipoglicemia aparecer depois de uma mudança aparentemente pequena, como uma dieta que foi interrompida enquanto a insulinoterapia permaneceu programada. Por isso, depois de estabilizar o paciente, revisar o que aconteceu nas horas anteriores pode ser tão importante quanto corrigir a glicemia naquele momento.

Reavalie, documente e previna a recorrência

A glicemia deve ser reavaliada após o tratamento e a correção repetida quando o valor continua baixo, seguindo o protocolo institucional. Quando o paciente estiver consciente e puder se alimentar com segurança, a oferta de alimentação adequada ajuda a reduzir o risco de nova queda, especialmente quando ainda existe efeito de insulina ou de outros medicamentos hipoglicemiantes.

Todo episódio deve ser registrado, incluindo valor da glicemia, sinais apresentados, horário, intervenção realizada, resposta ao tratamento e possíveis fatores desencadeantes. A ocorrência de hipoglicemia nível 2 ou 3 também deve levar à revisão do plano terapêutico para reduzir o risco de recorrência.

Cuidados de enfermagem

Na assistência, alguns pontos merecem atenção especial: reconhecer rapidamente a alteração neurológica, confirmar a glicemia sem atrasar o atendimento, manter acesso venoso seguro quando indicado, nunca oferecer alimentos ou líquidos a pacientes sem deglutição segura, monitorar a resposta após a correção e observar cuidadosamente o local durante a administração de glicose hipertônica.

Também é importante identificar o possível motivo do episódio: horário e dose de insulina, aceitação da dieta, jejum, vômitos, interrupção de dieta enteral, alteração de infusão de glicose ou uso de medicamentos associados à hipoglicemia. A prevenção começa justamente nessa investigação.

O que guardar para a prática

  • HGT baixo + paciente consciente e com deglutição segura: glicose/carboidrato de absorção rápida e reavaliação.
  • HGT baixo + alteração do nível de consciência ou impossibilidade de via oral: correção por via endovenosa conforme protocolo institucional.
  • Hipoglicemia grave sem acesso venoso: considerar glucagon 1 mg IM ou SC, conforme protocolo, enquanto se busca acesso.
  • Paciente inconsciente: nada por via oral.
  • Após corrigir: repetir a glicemia, avaliar recuperação clínica, investigar a causa, documentar e prevenir nova ocorrência.

O protocolo exato de diluição, concentração e apresentação da glicose deve sempre seguir a padronização do serviço e a prescrição/protocolo vigente, porque as apresentações disponíveis e as rotinas institucionais podem variar.

Resumo para salvar

Hipoglicemia Grave: Protocolo Passo a Passo

  • Reconheça a hipoglicemia e avalie o nível de consciência
  • Não ofereça nada por via oral se houver risco de aspiração
  • Use glicose EV ou glucagon conforme a situação e protocolo institucional
  • Reavalie a glicemia e investigue a causa para evitar recorrência

Referências: 

  1. AMERICAN DIABETES ASSOCIATION PROFESSIONAL PRACTICE COMMITTEE. 6. Glycemic Goals, Hypoglycemia, and Hyperglycemic Crises: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care, v. 49, Supplement 1, p. S132-S149, 2026. DOI: 10.2337/dc26-S006. Diabetes Care – ADA
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Hiperglicemia hospitalar no paciente não crítico – Diretriz SBD 2026. São Paulo: SBD. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Hipoglicemia – Unidade Hospitalar. Linhas de Cuidado. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Ministério da Saúde – Linhas de Cuidado
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Hipoglicemia – SAMU. Linhas de Cuidado. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Ministério da Saúde – Hipoglicemia no SAMU

Como Interpretar o qSOFA na Enfermagem

O erro mais comum com o qSOFA é transformá-lo em um “teste para dizer se o paciente tem sepse”. Ele não foi criado para isso. O escore serve para identificar, rapidamente, pacientes com suspeita de infecção que apresentam sinais associados a maior risco de desfecho ruim e que precisam de avaliação clínica mais aprofundada.

Os 3 critérios do qSOFA

O qSOFA possui apenas três critérios, cada um valendo 1 ponto:

  • Frequência respiratória ≥ 22 irpm: 1 ponto.
  • Pressão arterial sistólica ≤ 100 mmHg: 1 ponto.
  • Alteração do estado mental: 1 ponto.

Assim, o resultado varia de 0 a 3 pontos. Na definição original, 2 pontos ou mais em um paciente com suspeita de infecção indicam maior risco de evolução desfavorável e devem levar a uma investigação rápida de disfunção orgânica e intensificação da monitorização.

Como interpretar na prática

Um paciente com suspeita de infecção e qSOFA 0 ou 1 não está automaticamente fora de risco. Da mesma forma, um qSOFA ≥2 não confirma sepse. O resultado precisa ser interpretado junto com a história, exame físico, sinais vitais, perfusão, diurese, exames laboratoriais e evolução clínica.

Essa distinção é fundamental porque as diretrizes atuais da Surviving Sepsis Campaign recomendam não utilizar o qSOFA isoladamente como ferramenta de triagem para sepse. Em pacientes adultos agudamente enfermos no hospital, NEWS/NEWS2, MEWS ou SIRS são preferidos ao qSOFA como ferramenta única de rastreamento.

Imagine, por exemplo, um paciente com pneumonia que apresenta FR de 25 irpm, pressão sistólica de 105 mmHg e está orientado. O qSOFA é 1 ponto. Isso não significa “sem sepse”; significa que ele não atingiu o ponto de corte de 2 critérios do qSOFA. A equipe ainda precisa acompanhar a tendência dos sinais vitais e procurar sinais de deterioração.

Alteração mental merece atenção

No qSOFA, alteração do estado mental corresponde à alteração do nível de consciência, tradicionalmente operacionalizada como Glasgow Coma Scale <15 na formulação original. Uma mudança recente em relação ao comportamento habitual do paciente deve ser valorizada, principalmente quando aparece junto a sinais de infecção e instabilidade fisiológica.

Na rotina de enfermagem, uma situação bastante concreta seria encontrar um paciente que estava conversando normalmente pela manhã e, algumas horas depois, apresentar desorientação, FR de 28 irpm e pressão sistólica de 92 mmHg. Nesse cenário, o qSOFA chega a 3 pontos, mas o mais importante não é apenas registrar “qSOFA 3”: é reconhecer a deterioração e comunicar imediatamente a equipe para investigação e tratamento de possível sepse.

qSOFA não substitui avaliação clínica

O escore não considera temperatura, frequência cardíaca, saturação, diurese, lactato ou contagem de leucócitos. Por isso, um paciente pode estar gravemente doente mesmo com qSOFA baixo. A própria definição Sepsis-3 estabeleceu que sepse corresponde à disfunção orgânica potencialmente fatal causada por uma resposta desregulada à infecção, e não simplesmente a uma pontuação de qSOFA.

Em outra situação prática, um paciente com infecção pode manter pressão sistólica de 118 mmHg e estar orientado, mas apresentar FR progressivamente elevada, queda da diurese, extremidades frias e piora do estado geral. O qSOFA pode não atingir 2 pontos, porém a trajetória clínica já é preocupante e não deve ser ignorada.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem deve realizar e registrar corretamente frequência respiratória, pressão arterial e nível de consciência, além de acompanhar saturação, frequência cardíaca, temperatura, perfusão, diurese e evolução clínica. Se houver suspeita de sepse, a comunicação deve ser rápida e seguir o protocolo institucional.

Também é importante repetir a avaliação quando houver mudança no estado do paciente. As diretrizes atuais reforçam que sepse e choque séptico são emergências médicas e que o tratamento e a ressuscitação devem começar imediatamente quando indicados.

Para guardar de vez

qSOFA = FR ≥22 + PAS ≤100 + alteração mental.

Cada critério vale 1 ponto, totalizando de 0 a 3. qSOFA ≥2 chama atenção para maior risco, mas não diagnostica sepse e não deve ser usado sozinho para triagem. Para a enfermagem, o valor maior está em perceber a combinação dos sinais e, principalmente, a piora do paciente ao longo do tempo.

Resumo para salvar

Escore qSOFA

  • FR ≥22, PAS ≤100 e alteração mental valem 1 ponto cada
  • O escore varia de 0 a 3 pontos
  • qSOFA ≥2 indica maior risco, mas não confirma sepse
  • Não utilize qSOFA isoladamente para triagem de sepse

Referências:

  1. SINGER, Mervyn et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA, v. 315, n. 8, p. 801–810, 2016. JAMA — Sepsis-3
  2. EVANS, Laura et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Intensive Care Medicine, 2021. SCCM — Surviving Sepsis Campaign
  3. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE. Surviving Sepsis Campaign Adult Guidelines. SCCM. SCCM — Adult Guidelines

Como Reconhecer Choque Séptico Rapidamente

Choque Séptico

No choque séptico, esperar a pressão arterial “cair muito” pode significar perder um tempo precioso. O reconhecimento começa antes disso: infecção suspeita ou confirmada associada a sinais de hipoperfusão e disfunção orgânica, especialmente quando o paciente apresenta alteração do estado mental, respiração acelerada, extremidades mal perfundidas, oligúria ou deterioração clínica rápida. Choque séptico é uma forma grave de sepse, associada a alterações circulatórias e metabólicas importantes.

Os primeiros 5 minutos

A avaliação inicial precisa ser rápida e organizada. Observe o paciente como um todo: nível de consciência, frequência respiratória, pressão arterial, frequência cardíaca, temperatura, saturação, perfusão periférica, débito urinário e evolução dos sintomas. Uma frequência respiratória elevada, confusão mental ou pressão sistólica ≤100 mmHg são critérios utilizados no qSOFA, mas o qSOFA não deve ser usado isoladamente para descartar ou confirmar sepse.

O segundo passo é procurar hipoperfusão. Extremidades frias, tempo de enchimento capilar prolongado, pele moteada, alteração do sensório e redução da diurese podem indicar comprometimento da perfusão. O lactato também é importante na avaliação, embora deva ser interpretado dentro do contexto clínico, porque sua elevação não é exclusiva da sepse.

Em uma situação típica de pronto atendimento, um paciente com suspeita de pneumonia pode chegar consciente, porém taquipneico, com extremidades frias e pressão em queda. Mesmo antes do resultado dos exames, essa combinação deve chamar atenção para possível deterioração circulatória e acelerar a comunicação com a equipe e o protocolo institucional.

Quando pensar em choque séptico?

Pela definição de Sepsis-3, o choque séptico é identificado em um paciente com sepse que necessita de vasopressor para manter pressão arterial média ≥65 mmHg e apresenta lactato >2 mmol/L, apesar de adequada reposição volêmica e na ausência de hipovolemia como explicação. Esses critérios ajudam a definir o choque, mas a assistência não deve esperar que todos estejam presentes para reconhecer um paciente em deterioração.

Outro sinal importante é a resposta ao tratamento inicial. Se, mesmo após avaliação e reposição de volume quando indicada, o paciente permanece hipotenso ou com sinais de hipoperfusão, a possibilidade de choque séptico torna-se ainda mais preocupante. A avaliação deve ser contínua, porque o quadro pode mudar rapidamente.

O que fazer enquanto a equipe atua?

A enfermagem tem papel central no reconhecimento precoce. Deve monitorizar sinais vitais, garantir acesso venoso conforme protocolo, coletar exames e culturas quando solicitados, acompanhar lactato e diurese, administrar antimicrobianos e fluidos prescritos com segurança e observar continuamente a resposta clínica.

Nas diretrizes da Surviving Sepsis Campaign, para adultos com possível choque séptico ou alta probabilidade de sepse, recomenda-se iniciar antimicrobianos imediatamente, idealmente dentro de uma hora do reconhecimento. Quando há necessidade de vasopressor, a noradrenalina é o agente de primeira escolha, com alvo inicial de PAM em torno de 65 mmHg.

Um detalhe que faz diferença na rotina é não atrasar o vasopressor apenas pela ausência momentânea de acesso venoso central: as diretrizes admitem seu início periférico por curto período, em veia adequada e com vigilância rigorosa, quando necessário para restaurar a pressão. Isso exige protocolo institucional, avaliação do acesso e acompanhamento do local de infusão.

Cuidados de enfermagem

A prioridade é reconhecer a deterioração e comunicar rapidamente. Reavalie pressão arterial, frequência cardíaca e respiratória, saturação, consciência, perfusão periférica e diurese; acompanhe tendências, e não apenas valores isolados.

Também é fundamental controlar rigorosamente entradas e saídas, observar resposta à reposição volêmica, conferir acessos e bombas de infusão, administrar antimicrobianos no tempo prescrito e vigiar sinais de extravasamento quando houver vasopressor periférico. A resposta clínica deve ser documentada e comunicada imediatamente diante de piora.

A regra prática

Para memorizar: suspeitou de infecção + paciente está piorando + há sinais de disfunção orgânica ou hipoperfusão = pense em sepse e aja rapidamente. Se existe hipotensão persistente, necessidade de vasopressor e lactato elevado após adequada reposição volêmica, o quadro preenche os critérios clínicos de choque séptico.

O ponto mais importante para a enfermagem é não esperar o paciente entrar em colapso hemodinâmico para agir. No choque séptico, reconhecer a trajetória de piora pode ser tão importante quanto reconhecer o número da pressão arterial.

Resumo para salvar

Choque Séptico em 5 Minutos

  • Suspeite diante de infecção associada à deterioração clínica
  • Observe perfusão, consciência, respiração, pressão e diurese
  • Lactato e necessidade de vasopressor ajudam a identificar choque séptico
  • Reconhecimento e tratamento precoces são fundamentais

Referências: 

  1. EVANS, Laura et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Intensive Care Medicine, 2021. SCCM — Surviving Sepsis Campaign Guidelines
  2. SINGER, Mervyn et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA, v. 315, n. 8, p. 801–810, 2016. JAMA — Sepsis-3
  3. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE. Surviving Sepsis Campaign Adult Guidelines. SCCM. SCCM — Adult Guidelines

Protocolo de Transfusão Maciça (PTM): quando cada minuto importa e por que não basta “dar sangue”

Protocolo Transfusão Maciça

Vá direto ao ponto!

Em uma hemorragia grave, existe um momento em que a pergunta deixa de ser “qual hemocomponente o paciente precisa?” e passa a ser outra, muito mais urgente:

“Como fazer essa reposição de forma rápida, organizada e segura antes que o paciente entre em uma espiral de choque, coagulopatia, hipotermia e acidose?”

É justamente nesse cenário que entra o Protocolo de Transfusão Maciça (PTM).

O PTM não é simplesmente uma autorização para transfundir grandes quantidades de sangue. É uma estratégia organizada de atendimento ao paciente com hemorragia potencialmente fatal, envolvendo identificação precoce do sangramento, controle da fonte hemorrágica, reposição de hemocomponentes, monitorização laboratorial e clínica e prevenção das complicações relacionadas à própria hemorragia e à transfusão.

Em outras palavras, não se trata apenas de repor volume. Trata-se de tentar interromper uma cadeia fisiológica que pode levar rapidamente à morte.

Este ponto é especialmente importante para quem está estudando enfermagem. Em uma situação de hemorragia maciça, a equipe precisa trabalhar de maneira sincronizada. Enquanto alguém identifica a necessidade de ativação do protocolo, outra pessoa pode estar providenciando acesso venoso adequado, outra coletando exames, outra conferindo os hemocomponentes e outra monitorizando o paciente.

É uma situação em que organização também é cuidado.

O que é o Protocolo de Transfusão Maciça?

O Protocolo de Transfusão Maciça (PTM) é um conjunto de medidas previamente organizado pela instituição para atender pacientes com hemorragia grave e risco de morte, nos quais existe necessidade de reposição rápida e coordenada de sangue e seus componentes. O protocolo procura evitar que a transfusão aconteça de maneira fragmentada, especialmente quando a perda sanguínea é muito rápida.

Em vez de esperar a deterioração progressiva do paciente para solicitar cada hemocomponente separadamente, o serviço estabelece previamente uma estratégia de comunicação, liberação, transporte e administração dos componentes sanguíneos.

Protocolos desse tipo costumam envolver concentrado de hemácias, plasma e plaquetas, podendo incluir crioprecipitado ou concentrado de fibrinogênio, conforme a situação clínica, os exames disponíveis e o protocolo institucional.

As recomendações atuais para hemorragia grave ressaltam que a reposição deve ser acompanhada de avaliação da coagulação e adaptada à resposta do paciente, em vez de manter indefinidamente uma estratégia empírica fixa.

Por que a transfusão maciça é tão diferente de uma transfusão convencional?

Imagine um paciente que apresenta uma hemorragia intensa após um trauma. O problema não é apenas que ele perdeu hemácias.

Ele também está perdendo:

  • plasma;
  • plaquetas;
  • fatores de coagulação;
  • fibrinogênio;
  • volume circulante.

Ao mesmo tempo, o organismo está tentando compensar a perda sanguínea aumentando a frequência cardíaca e redistribuindo o fluxo sanguíneo para órgãos vitais. Se a hemorragia continua, a situação pode evoluir para choque hemorrágico.

Quando a reposição é feita apenas com grandes volumes de cristaloides ou concentrado de hemácias, sem considerar a coagulação, a temperatura e outros fatores fisiológicos, pode ocorrer agravamento da coagulopatia.

Por isso, o conceito moderno de ressuscitação da hemorragia grave não é simplesmente “colocar volume”. É controlar o sangramento e restaurar a capacidade do organismo de transportar oxigênio e formar coágulos adequadamente.

O que é considerado transfusão maciça?

Historicamente, a transfusão maciça foi definida como a administração de aproximadamente 10 unidades de concentrado de hemácias em 24 horas em um adulto. Essa definição, entretanto, possui uma limitação importante: esperar que o paciente receba dez unidades para reconhecer uma hemorragia grave significa esperar demais.

Atualmente, a avaliação é muito mais dinâmica , o profissional precisa reconhecer a possibilidade de hemorragia maciça antes que a perda sanguínea atinja números extremos. Também são utilizados conceitos como necessidade de grandes volumes de sangue em poucas horas e indicadores clínicos de sangramento persistente.

Por isso, os protocolos institucionais podem utilizar critérios próprios de ativação. Um protocolo hospitalar brasileiro atualizado, por exemplo, orienta o reconhecimento precoce do sangramento agudo grave e diferencia situações de ativação do Protocolo de Transfusão Maciça e do protocolo de emergência, de acordo com critérios clínicos e institucionais.

Em quais situações o PTM pode ser necessário?

O PTM é particularmente importante em situações nas quais existe hemorragia intensa, rápida e potencialmente fatal. Entre os cenários possíveis estão:

Trauma grave

Acidentes automobilísticos, atropelamentos, ferimentos penetrantes, traumas pélvicos e grandes lesões vasculares podem provocar perdas sanguíneas importantes. O trauma é um dos cenários mais associados à utilização de protocolos de transfusão maciça.

A hemorragia não controlada continua sendo uma das principais causas potencialmente evitáveis de morte precoce no paciente gravemente traumatizado.

Hemorragia obstétrica

Hemorragias obstétricas graves também podem exigir ativação rápida de protocolos de transfusão, especialmente em situações como hemorragia pós-parto, descolamento prematuro de placenta, placenta acreta/espectro de acretismo e outras condições associadas a perda sanguínea importante.

Sangramento gastrointestinal

Hemorragias digestivas graves podem provocar instabilidade hemodinâmica e necessidade de reposição rápida.

Cirurgias de grande porte

Alguns procedimentos cirúrgicos apresentam risco elevado de sangramento e podem exigir um protocolo previamente estruturado.

Hemorragias vasculares

Rupturas de aneurismas e outras lesões vasculares podem provocar hemorragia extremamente rápida.

Como reconhecer um paciente que pode precisar do PTM?

Um dos maiores desafios é perceber a gravidade antes que a pressão arterial caia dramaticamente. Isso é importante porque a hipotensão pode ser um sinal tardio, um paciente com hemorragia significativa pode inicialmente apresentar:

  • taquicardia;
  • palidez;
  • sudorese fria;
  • extremidades frias;
  • alteração do estado mental;
  • agitação ou ansiedade;
  • enchimento capilar aumentado;
  • taquipneia;
  • queda da pressão arterial;
  • redução da diurese;
  • sinais de hipoperfusão.

O contexto também é fundamental, um paciente com sangramento externo evidente e instabilidade é muito diferente de um paciente com pressão aparentemente normal, mas com sangramento interno progressivo. Por isso, a avaliação deve ser contínua.

Uma situação que muda completamente o plantão

Na prática de terapia intensiva, uma das situações mais marcantes é receber um paciente que chega aparentemente “conversando”, mas apresenta sinais que não combinam com estabilidade real. Ele está pálido, frio, taquicárdico, inquieto e começa a apresentar piora progressiva.

É muito fácil olhar somente para a pressão arterial e pensar: “ainda está 100 por 60”, mas o conjunto da avaliação conta outra história. Quando existe suspeita de hemorragia importante, esperar a hipotensão profunda pode significar perder um tempo precioso.

É por isso que, na rotina, a observação contínua e a comunicação rápida entre enfermagem, equipe médica, banco de sangue e demais profissionais fazem tanta diferença.

O que acontece quando o PTM é ativado?

A sequência exata depende do protocolo de cada instituição, mas geralmente envolve uma série de ações coordenadas, a ativação comunica ao serviço de hemoterapia que existe um paciente com necessidade potencial de reposição rápida de sangue. Ao mesmo tempo, a equipe assistencial inicia ou intensifica:

  • controle da hemorragia;
  • monitorização contínua;
  • acesso vascular adequado;
  • coleta de exames;
  • ressuscitação hemostática;
  • administração dos hemocomponentes;
  • avaliação da resposta clínica;
  • correção das alterações de coagulação e metabólicas.

O objetivo é evitar que a equipe fique esperando um componente terminar para só então solicitar o próximo, o protocolo cria uma logística organizada.

Quais hemocomponentes podem fazer parte do PTM?

A composição depende do protocolo institucional e das características do paciente. Os principais componentes são:

Concentrado de hemácias

Tem como principal objetivo aumentar a capacidade de transporte de oxigênio do sangue. Em uma hemorragia grave, sua administração é essencial para substituir a massa eritrocitária perdida.

Plasma fresco congelado

Fornece múltiplos fatores de coagulação e pode ser utilizado quando existe deficiência de fatores associada à hemorragia.

Concentrado de plaquetas

É utilizado para reposição de plaquetas quando há trombocitopenia ou necessidade de suporte hemostático, de acordo com a situação clínica e os protocolos.

Crioprecipitado ou concentrado de fibrinogênio

Possuem importância particularmente relevante quando existe hipofibrinogenemia, pois o fibrinogênio é fundamental para a formação e estabilidade do coágulo. Nas hemorragias graves, níveis baixos de fibrinogênio podem aparecer precocemente e estão associados a pior prognóstico.

Existe uma proporção fixa entre hemácias, plasma e plaquetas?

Esse é um ponto que gera muita dúvida, protocolos de transfusão maciça tradicionalmente utilizaram estratégias com proporções balanceadas, como 1:1:1, relacionando concentrado de hemácias, plasma e plaquetas.

O estudo PROPPR, realizado em pacientes com trauma grave, comparou estratégias 1:1:1 e 1:1:2. A mortalidade global não foi significativamente diferente, mas a estratégia 1:1:1 apresentou melhor controle da hemostasia e menor mortalidade relacionada à exsanguinação.

Entretanto, isso não significa que todo paciente, em qualquer hospital e em qualquer situação, deva receber automaticamente uma proporção fixa. As recomendações atuais destacam a importância de adaptar a reposição aos resultados laboratoriais e/ou métodos de monitorização viscoelástica, como TEG e ROTEM, quando disponíveis.

Portanto: proporções iniciais podem fazer parte do protocolo institucional, mas a reposição precisa evoluir para uma estratégia orientada pela resposta do paciente.

O papel do fibrinogênio

O fibrinogênio merece atenção especial:  Durante uma hemorragia grave, ele pode cair rapidamente. Além da perda sanguínea, existe consumo, diluição e alterações da coagulação. Um nível baixo de fibrinogênio compromete a formação do coágulo.

A diretriz europeia de manejo da hemorragia traumática considera concentração de fibrinogênio abaixo de aproximadamente 1,5 g/L um sinal de hipofibrinogenemia que pode exigir tratamento, de acordo com a avaliação clínica e laboratorial.

Por isso, em um PTM, não basta pensar apenas: “Quantas bolsas de sangue já foram administradas?”

Também é necessário perguntar:

  • Como está o fibrinogênio?
  • Como está a coagulação?
  • O paciente continua sangrando?
  • O coágulo está sendo formado adequadamente?

A importância do cálcio durante a transfusão maciça

Esse é um detalhe que muitas vezes passa despercebido pelos estudantes: o sangue armazenado contém citrato, utilizado como anticoagulante. O citrato se liga ao cálcio. Durante uma transfusão maciça, especialmente quando grandes volumes são administrados rapidamente, pode ocorrer hipocalcemia relacionada ao citrato.

O cálcio participa de diversas etapas da coagulação e também é fundamental para a função cardiovascular, e a hipocalcemia pode contribuir para:

  • redução da contratilidade cardíaca;
  • hipotensão;
  • alterações da coagulação;
  • instabilidade elétrica cardíaca.

Por isso, a concentração de cálcio ionizado deve ser monitorada e, quando indicada, a reposição deve ser realizada conforme protocolo e prescrição. Para a enfermagem, isso significa que o profissional precisa ficar atento aos exames e ao plano terapêutico, principalmente quando o paciente está recebendo grandes quantidades de hemocomponentes.

A tríade letal: hipotermia, acidose e coagulopatia

Em hemorragias graves, existe uma combinação fisiológica especialmente perigosa: hipotermia + acidose + coagulopatia.

Esses três problemas podem se reforçar mutuamente. O paciente perde sangue, entra em choque, apresenta má perfusão tecidual e desenvolve acidose. Ao mesmo tempo, recebe grandes volumes de fluidos e hemocomponentes frios, podendo desenvolver hipotermia.

A hipotermia prejudica a coagulação, e a coagulopatia favorece mais sangramento, e mais sangramento leva a mais choque. E o ciclo continua.

É por isso que a ressuscitação moderna da hemorragia grave procura interromper esse processo o mais cedo possível. A diretriz europeia descreve justamente essa interação entre hemorragia, coagulopatia, hipotermia e acidose no contexto do trauma grave.

Por que aquecer o paciente é tão importante?

Quando pensamos em emergência hemorrágica, é comum imaginar que o problema principal é apenas a perda de sangue. Mas manter a temperatura corporal também faz parte do cuidado.

O paciente deve ser protegido contra perda excessiva de calor, e os hemocomponentes podem ser administrados com sistemas apropriados de aquecimento quando indicados pelo protocolo institucional, e a enfermagem tem um papel importante na prevenção da hipotermia, observando:

  • temperatura corporal;
  • condições ambientais;
  • exposição desnecessária do paciente;
  • utilização adequada de cobertores e dispositivos de aquecimento;
  • temperatura dos fluidos e hemocomponentes quando houver equipamento específico.

E o ácido tranexâmico?

Em determinados cenários de hemorragia traumática, o ácido tranexâmico (TXA) pode fazer parte do tratamento. Ele atua inibindo a fibrinólise e pode contribuir para preservar o coágulo, entretanto, o benefício depende do contexto, do tempo e da indicação clínica.

Na hemorragia traumática, recomendações internacionais destacam que o ácido tranexâmico deve ser administrado precocemente quando indicado, sem esperar resultados de testes viscoelásticos, e a enfermagem deve conhecer a indicação institucional, a prescrição, a via de administração, a dose definida pelo protocolo e o horário de administração.

Em uma emergência, registrar corretamente o horário em que o medicamento foi administrado pode ser tão importante quanto registrar a própria administração.

O controle da hemorragia é tão importante quanto a transfusão

Essa é uma das mensagens mais importantes deste assunto:

transfusão não substitui controle da fonte do sangramento.

Se o paciente está perdendo sangue continuamente, simplesmente administrar mais sangue não resolve o problema, e pode ser necessário:

  • compressão;
  • cirurgia;
  • endoscopia;
  • embolização;
  • controle vascular;
  • tamponamento;
  • intervenção obstétrica;

ou outra estratégia específica para interromper a hemorragia. As diretrizes de trauma enfatizam que o controle rápido da fonte de sangramento é fundamental e pode envolver cirurgia de controle de danos, embolização e outras medidas.

Cuidados de enfermagem durante o PTM

A enfermagem ocupa uma posição central no protocolo. Não é exagero dizer que uma transfusão maciça depende de uma equipe de enfermagem muito organizada.

Antes da administração

Sempre que a condição clínica permitir, devem ser realizadas as conferências e verificações previstas no protocolo institucional. É fundamental confirmar a identificação do paciente, conferir os hemocomponentes, observar validade, integridade da bolsa, compatibilidade e demais informações exigidas pelo serviço de hemoterapia.

Em emergência extrema, existem fluxos específicos para liberação de hemocomponentes de emergência. A equipe deve conhecer previamente esse fluxo.

Durante a transfusão

O paciente deve permanecer sob monitorização adequada. A enfermagem precisa observar sinais de:

  • reação transfusional;
  • alterações hemodinâmicas;
  • dispneia;
  • dor;
  • calafrios;
  • febre;
  • alterações cutâneas;
  • ansiedade ou alteração do estado mental.

Qualquer suspeita de reação transfusional deve ser comunicada imediatamente e conduzida conforme o protocolo institucional. Não se deve simplesmente “esperar para ver se passa”.

Um cuidado que parece simples, mas faz muita diferença

Em uma situação de transfusão maciça, existe uma enorme quantidade de informações acontecendo ao mesmo tempo:

  • Bolsas chegando.
  • Exames sendo coletados.
  • Medicamentos sendo administrados.
  • Cirurgia sendo preparada.
  • Pressão arterial mudando.
  • Novas bolsas sendo solicitadas.

Por isso, uma prática muito importante é manter registro cronológico e organizado. Registrar horário de início e término da transfusão, identificação dos hemocomponentes, sinais vitais, intercorrências, medicamentos administrados, exames coletados e respostas observadas permite reconstruir exatamente o que aconteceu.

Na prática de UTI, esse tipo de registro faz diferença. Em um plantão com uma emergência hemorrágica, depois que a situação estabiliza, é justamente a anotação que permite saber o que foi feito, em que horário e qual foi a resposta do paciente.

Coleta de exames: não deixe para depois

Durante o PTM, exames laboratoriais são fundamentais para direcionar a terapia. Dependendo do protocolo e da situação clínica, podem ser acompanhados:

  • hemoglobina e hematócrito;
  • contagem de plaquetas;
  • TP/INR;
  • TTPa;
  • fibrinogênio;
  • gasometria;
  • lactato;
  • cálcio ionizado;
  • potássio;
  • temperatura;
  • outros parâmetros definidos pelo serviço.

Quando disponível, a monitorização viscoelástica, como TEG ou ROTEM, pode fornecer informações rápidas sobre a formação e a estabilidade do coágulo e auxiliar na terapia direcionada.

Não espere apenas a hemoglobina cair para agir

Outro ponto importante para estudantes: Em uma hemorragia aguda, a hemoglobina inicial pode não refletir imediatamente toda a extensão da perda sanguínea. O paciente pode estar perdendo sangue rapidamente antes que a concentração de hemoglobina demonstre a dimensão real da hemorragia.

Por isso, a avaliação deve integrar:

  • história clínica;
  • estimativa de perda sanguínea;
  • sinais vitais;
  • perfusão periférica;
  • estado mental;
  • diurese;
  • lactato;
  • hemoglobina;
  • coagulação;
  • resposta à ressuscitação.

Não existe um único número capaz de descrever sozinho a gravidade de uma hemorragia maciça.

O papel da diurese

A diurese é um importante indicador de perfusão renal, pois em um paciente com hemorragia grave, uma redução importante da produção urinária pode indicar comprometimento da perfusão. Por isso, quando o paciente está com monitorização rigorosa e indicação de controle de diurese, a enfermagem deve acompanhar e registrar adequadamente o débito urinário.

Não se trata apenas de preencher uma folha de balanço hídrico, é uma informação clínica que ajuda a equipe a entender como o organismo está respondendo à ressuscitação.

Acesso venoso e administração rápida

A administração rápida de hemocomponentes exige acesso vascular adequado. Em situações críticas, podem ser utilizados acessos venosos periféricos de grande calibre, acesso intraósseo em situações específicas ou acesso venoso central, conforme indicação clínica e recursos disponíveis.

O importante é que a via escolhida permita uma administração segura e compatível com a necessidade de fluxo, e a enfermagem também deve verificar a permeabilidade do acesso e observar sinais de infiltração, extravasamento ou outras complicações. Em uma emergência hemorrágica, perder um acesso que estava sendo utilizado para reposição rápida pode comprometer seriamente a dinâmica da ressuscitação.

O aquecedor de sangue também faz parte da estratégia

Quando grandes quantidades de sangue são administradas rapidamente, existe risco de contribuir para hipotermia. Por isso, sistemas específicos de aquecimento de fluidos e hemocomponentes podem ser utilizados conforme disponibilidade e protocolo. É importante lembrar: não se deve improvisar métodos de aquecimento.

O serviço deve utilizar equipamentos apropriados e seguir as orientações institucionais e do fabricante.

O que acontece quando o PTM não é organizado?

Uma das maiores dificuldades não está necessariamente na falta de sangue, e sim pode estar na falta de comunicação. Imagine:

  • o médico solicita o protocolo, mas o banco de sangue não é acionado adequadamente;
  • a primeira remessa chega, mas não há equipe preparada para administrar;
  • os exames não são coletados;
  • o próximo ciclo não é solicitado;
  • ninguém sabe exatamente quantas unidades foram administradas;
  • o paciente permanece hipotérmico;
  • o cálcio não é acompanhado;
  • e a equipe continua trabalhando de maneira improvisada.

Esse tipo de situação mostra por que o PTM precisa ser protocolizado, treinado e simulado. As recomendações internacionais destacam a importância da implementação local de protocolos baseados em evidências e do treinamento das equipes envolvidas.

Uma experiência prática que resume o que é um bom protocolo

Em situações de emergência, é possível perceber rapidamente a diferença entre uma equipe que conhece o protocolo e uma equipe que precisa descobrir tudo naquele momento. Quando o processo está bem organizado, cada profissional sabe qual é sua função:

  • Um comunica o banco de sangue.
  • Outro monitora o paciente.
  • Outro coleta exames.
  • Outro administra os hemocomponentes.
  • Outro acompanha a documentação.
  • A equipe médica concentra-se no controle da hemorragia e na condução clínica.

Essa divisão de tarefas não é burocracia. É segurança.

Em uma hemorragia maciça, segundos e minutos podem fazer diferença, e uma equipe treinada tende a reduzir atrasos desnecessários.

Quais complicações podem ocorrer durante uma transfusão maciça?

Quanto maior o volume transfundido e mais grave o quadro clínico, maior a necessidade de vigilância, entre as possíveis complicações estão:

  • hipotermia;
  • hipocalcemia;
  • hipercalemia;
  • distúrbios ácido-base;
  • coagulopatia;
  • sobrecarga circulatória;
  • reações transfusionais;
  • lesão pulmonar relacionada à transfusão;
  • reações hemolíticas;
  • alterações metabólicas.

Isso não significa que essas complicações ocorrerão em todos os pacientes. Significa que a equipe precisa estar preparada para reconhecê-las.

Reação transfusional: o que a enfermagem precisa observar?

Durante a administração de hemocomponentes, alterações como febre, calafrios, dor lombar, dispneia, hipotensão, urticária, náuseas, dor torácica, alterações na coloração da urina ou deterioração clínica devem ser valorizadas.

Diante de suspeita de reação transfusional, a conduta deve seguir rigorosamente o protocolo institucional e as orientações do serviço de hemoterapia. Uma reação transfusional nunca deve ser banalizada. O profissional deve comunicar imediatamente a intercorrência e realizar os procedimentos previstos pelo serviço.

A importância da rastreabilidade

Em uma transfusão convencional, a rastreabilidade já é fundamental. No PTM, ela se torna ainda mais importante, e é necessário conseguir identificar:

  • qual paciente recebeu;
  • qual hemocomponente foi administrado;
  • qual unidade foi utilizada;
  • em que horário;
  • quem realizou a conferência;
  • quem administrou;
  • quais sinais vitais foram observados;
  • quais intercorrências ocorreram.

Isso protege o paciente e também garante segurança para a equipe.

PTM não é sinônimo de “transfundir o máximo possível”

Esse conceito merece ser reforçado: A palavra “maciça” pode dar a impressão de que quanto mais sangue for administrado, melhor, não é assim. A transfusão deve ser proporcional à necessidade clínica, acompanhada de controle da hemorragia e monitorização da resposta.

À medida que o paciente melhora, a estratégia pode ser modificada. Quando os resultados laboratoriais ficam disponíveis, a reposição pode ser direcionada, e as diretrizes atuais recomendam uma abordagem orientada por resultados laboratoriais e/ou métodos viscoelásticos quando disponíveis, justamente para evitar uma estratégia empírica prolongada.

Quando o protocolo deve ser encerrado?

O encerramento depende dos critérios definidos pela instituição e da avaliação clínica. Em geral, o PTM pode ser desativado quando:

  • a hemorragia foi controlada;
  • a necessidade de transfusão maciça cessou;
  • a estabilidade hemodinâmica foi alcançada ou está em processo de recuperação;
  • os parâmetros de coagulação e perfusão estão sendo adequadamente corrigidos;
  • a equipe não necessita mais da logística emergencial do protocolo.

O encerramento também deve ser comunicado ao serviço de hemoterapia. Essa comunicação evita que unidades de sangue continuem sendo preparadas ou liberadas desnecessariamente.

! Atenção na Prova O que o estudante de enfermagem precisa memorizar?

Se você estiver estudando para uma prova ou começando sua prática profissional, pense no PTM como uma sequência lógica:

  1. Reconhecer a hemorragia grave.
  2. Acionar rapidamente o protocolo institucional.
  3. Controlar a fonte do sangramento.
  4. Garantir acesso vascular e monitorização.
  5. Administrar hemocomponentes conforme protocolo e prescrição.
  6. Monitorar coagulação, perfusão, temperatura, cálcio e outros parâmetros.
  7. Prevenir e tratar complicações.
  8. Reavaliar continuamente.
  9. Adaptar a reposição aos resultados e à resposta clínica.
  10. Registrar tudo de forma completa e cronológica.

O verdadeiro “segredo” do PTM

Se existe uma coisa que eu gostaria que todo estudante de enfermagem entendesse sobre transfusão maciça, é esta: o sangue não é o único tratamento.

O paciente precisa de uma abordagem integrada, e é  necessário controlar a hemorragia, manter perfusão, corrigir coagulopatia, evitar hipotermia, acompanhar cálcio e outros distúrbios metabólicos, administrar os hemocomponentes adequadamente e reavaliar continuamente.

A transfusão é uma parte da ressuscitação, não é a ressuscitação inteira. O Protocolo de Transfusão Maciça representa uma estratégia organizada para uma das situações mais críticas encontradas na emergência, no centro cirúrgico, na terapia intensiva e em outros ambientes hospitalares.

Para a enfermagem, conhecer o PTM vai muito além de decorar a sequência “hemácias, plasma e plaquetas”.

É necessário compreender quando suspeitar de uma hemorragia grave, como o protocolo é acionado, quais cuidados devem ser realizados antes e durante a transfusão, quais complicações precisam ser reconhecidas e por que o registro de enfermagem é tão importante.

Na prática, uma equipe preparada não espera a situação ficar caótica para começar a se organizar, ela conhece o protocolo antes da emergência acontecer. E esse talvez seja o maior ensinamento do PTM: em uma hemorragia maciça, organização, comunicação e tempo são partes do tratamento.

Importante: os critérios de ativação, composição dos pacotes transfusionais, doses, velocidade de infusão, uso de cálcio, fibrinogênio, ácido tranexâmico e demais condutas devem seguir o protocolo institucional, a prescrição e a avaliação da equipe responsável. Este conteúdo é educacional e não substitui o protocolo do serviço ou a avaliação clínica do paciente.

Resumo para salvar

Protocolo de Transfusão Maciça: quando cada minuto pode salvar uma vida

  • PTM é uma estratégia organizada para tratar hemorragias graves e potencialmente fatais
  • A transfusão deve ser associada ao controle rápido da fonte do sangramento e à ressuscitação hemostática
  • Enfermagem deve monitorar sinais vitais, hemocomponentes, coagulação, temperatura, cálcio e possíveis reações transfusionais
  • Protocolos institucionais, comunicação rápida, equipe treinada e registros completos são fundamentais para uma transfusão maciça segura

Referências:

  1. ROSSAINT, R. et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: sixth edition. Critical Care, v. 27, n. 80, 2023. Disponível em: PMC – European Guideline on Major Bleeding and Coagulopathy Following Trauma.

  2. ROSSAINT, R. et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: fifth edition. Critical Care, 2019. Disponível em: Critical Care – European Guideline, Fifth Edition.
  3. HOLCOMB, J. B. et al. Transfusion of Plasma, Platelets, and Red Blood Cells in a 1:1:1 vs. a 1:1:2 Ratio and Mortality in Patients With Severe Trauma: The PROPPR Randomized Clinical Trial. JAMA, 2015. Referenciado na diretriz europeia de manejo da hemorragia traumática. Disponível em: European Guideline – discussão do estudo PROPPR.
  4. HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (HC-UFMG/EBSERH). Transfusão de hemocomponentes em situações de emergência – PRT.UHO.307. Belo Horizonte: HC-UFMG, 2026. Disponível em: Protocolo assistencial HC-UFMG/Ebserh – Transfusão de hemocomponentes em situações de emergência.
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_uso_hemocomponentes_2ed.pdf.
  6. SPAHN, D. R. et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: sixth edition. Critical Care, v. 23, n. 1, p. 98-135, 2019. Disponível em: https://ccforum.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13054-019-2347-7.
  7. BRILL, J. B.; BADIEE, J.; ZARZAUR, B. L. et al. The Role of TEG and ROTEM in Damage Control Resuscitation. Shock, v. 56, n. 1S, p. 52-61, 2021. DOI: 10.1097/SHK.0000000000001686.

Protocolo de Manchester, você sabe classificar?

Protocolo de Manchester

Na classificação de risco, a cor da pulseira não é apenas uma forma de organizar a fila: ela representa uma decisão clínica sobre quem precisa ser atendido primeiro. É justamente por isso que um paciente que chegou depois pode entrar antes de outro que estava aguardando há mais tempo. O Protocolo de Manchester organiza a prioridade conforme a gravidade identificada na triagem, e não pela ordem de chegada.

Como funciona o Protocolo de Manchester?

O Sistema de Triagem de Manchester utiliza a queixa principal, sinais e sintomas e critérios clínicos chamados de discriminadores para direcionar o profissional por um fluxograma. O resultado é uma das cinco categorias de prioridade: vermelho, laranja, amarelo, verde ou azul.

É importante lembrar: classificação de risco não é diagnóstico médico. Ela determina a prioridade do atendimento naquele momento e pode precisar ser revista se o quadro clínico mudar durante a espera.

As 5 cores e seus tempos

Vermelho — Emergência

Atendimento imediato (tempo-alvo: 0 minuto). É utilizado quando existe risco imediato à vida, como parada cardiorrespiratória, choque, insuficiência respiratória grave ou outras situações críticas.

Laranja — Muito urgente

Atendimento em até 10 minutos. Indica uma situação grave, com potencial de deterioração e necessidade de avaliação rápida.

Amarelo — Urgente

Atendimento em até 60 minutos. O paciente apresenta uma condição que exige avaliação, mas possui menor prioridade em relação às categorias vermelha e laranja.

Verde — Pouco urgente

Tempo-alvo de até 120 minutos. São situações de menor gravidade, nas quais existe necessidade de atendimento, porém o paciente pode aguardar com segurança, desde que permaneça estável.

Azul — Não urgente

Tempo-alvo de até 240 minutos. Corresponde aos casos de menor prioridade, geralmente sem sinais de gravidade ou risco imediato. Dependendo da organização da rede, pode haver encaminhamento para outro ponto de atenção.

Uma situação prática ajuda a entender a lógica: imagine dois pacientes aguardando na recepção. Um chegou primeiro com dor leve e está estável; poucos minutos depois chega outro apresentando dispneia importante e alteração do estado geral. A prioridade não será determinada pelo relógio da chegada, e sim pela avaliação clínica. É justamente essa mudança de lógica que faz a classificação de risco funcionar como ferramenta de segurança.

O que o enfermeiro precisa observar?

Durante a classificação, é fundamental valorizar a queixa principal, início e evolução dos sintomas, sinais vitais, nível de consciência, intensidade da dor, presença de sangramento, alterações respiratórias, perfusão e outros discriminadores previstos no protocolo institucional.

Outro ponto importante é não transformar a classificação em uma fotografia definitiva. Um paciente inicialmente classificado como verde pode apresentar piora enquanto aguarda e precisar de nova avaliação. A prioridade deve acompanhar a condição clínica.

Em uma situação típica de pronto atendimento, por exemplo, um paciente classificado inicialmente como amarelo pode retornar alguns minutos depois relatando piora importante da dor, sudorese e sensação de desmaio. Nesse momento, simplesmente manter a mesma classificação porque “a pulseira já foi colocada” seria um erro de segurança: a alteração clínica exige nova avaliação.

Cuidados de enfermagem

O profissional deve realizar a classificação conforme o protocolo institucional, registrar adequadamente os achados, conferir sinais vitais quando indicados, observar sinais de deterioração e orientar o paciente sobre a necessidade de comunicar qualquer piora durante a espera.

Também é essencial respeitar os fluxos e protocolos adotados pelo serviço. No Brasil, o Cofen destaca que a classificação de risco deve ser realizada por profissional de saúde de nível superior, treinado especificamente para essa atividade e utilizando protocolo previamente estabelecido.

O ponto que mais confunde

A classificação de Manchester não garante que o paciente será atendido exatamente naquele minuto. Os tempos são referências-alvo da metodologia, e a dinâmica do serviço pode sofrer alterações diante de intercorrências, chegada de pacientes mais graves ou mudanças no estado clínico de quem já está aguardando.

Por isso, a pergunta mais importante durante a espera não é apenas “qual é a minha cor?”, mas “meu estado de saúde mudou?”. Se mudou, a equipe precisa ser comunicada para que uma nova avaliação seja realizada.

Resumo para salvar

Protocolo de Manchester

  • Vermelho: emergência e atendimento imediato
  • Laranja: muito urgente, até 10 minutos
  • Amarelo: urgente, até 60 minutos
  • Verde: pouco urgente, até 120 minutos
  • Azul: não urgente, até 240 minutos

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Sistema Manchester de Classificação de Risco. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Ministério da Saúde — Sistema Manchester de Classificação de Risco
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Parecer de Câmara Técnica nº 041/2020/CTAS. Brasília, DF: Cofen, 2020. Cofen — Parecer nº 041/2020
  3. FUNDAÇÃO HOSPITALAR DR. AFONSO PAVIE. Você conhece o protocolo de Manchester? Minas Gerais, 2023. Fundação Hospitalar Dr. Afonso Pavie

Metalyse: o que a enfermagem precisa saber

Em uma emergência cardiovascular, alguns medicamentos precisam ser preparados com tanta atenção quanto rapidez. O Metalyse® é um deles. Quando o tempo está correndo, não basta saber que se trata de um “trombolítico”: é preciso reconhecer a apresentação correta, entender a indicação, conferir o peso do paciente quando aplicável e acompanhar de perto o risco de sangramento.

O que é o Metalyse?

O Metalyse® tem como princípio ativo a tenecteplase, um agente trombolítico fibrinoespecífico derivado do ativador do plasminogênio tecidual (t-PA). Sua função é favorecer a conversão do plasminogênio em plasmina, contribuindo para a degradação da fibrina presente no trombo.

No contexto do infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST), a tenecteplase pode ser utilizada como terapia fibrinolítica quando a estratégia indicada é a trombólise. O Ministério da Saúde inclui a tenecteplase entre os trombolíticos fibrinoespecíficos e apresenta o seu uso no manejo do IAMCSST.

As apresentações do Metalyse

Aqui existe uma atualização que merece atenção. O Metalyse passou a contar também com a apresentação de 25 mg, além das apresentações de 40 mg e 50 mg encontradas nas informações anteriores do produto.

A apresentação de 25 mg contém 5.000 U de tenecteplase e, após reconstituição com 5 mL de água para injetáveis, produz uma solução com 5 mg/mL, ou 1.000 U/mL. Essa apresentação de 25 mg tem uma particularidade importante: nas informações europeias atuais do produto, ela é destinada ao tratamento trombolítico do acidente vascular cerebral isquêmico agudo, com dose baseada no peso e máximo de 25 mg. Portanto, não se deve simplesmente assumir que a apresentação de 25 mg possui a mesma indicação e esquema de utilização das apresentações destinadas ao IAM.

As apresentações de 40 mg e 50 mg possuem, respectivamente, 8.000 U e 10.000 U de tenecteplase. Após reconstituição, também resultam em concentração de 5 mg/mL. No material profissional consultado para essas apresentações, o medicamento é apresentado para uso intravenoso e tratamento trombolítico do infarto agudo do miocárdio.

Apresentação Tenecteplase Diluente Concentração após reconstituição
Metalyse 25 mg 5.000 U 5 mL 5 mg/mL
Metalyse 40 mg 8.000 U 8 mL 5 mg/mL
Metalyse 50 mg 10.000 U 10 mL 5 mg/mL

Um detalhe importante para provas e para a prática: as unidades (U) do tenecteplase são específicas para esse medicamento e não podem ser comparadas diretamente com as unidades utilizadas para outros trombolíticos.

Metalyse no infarto: a dose depende do peso

Para o tratamento trombolítico do IAMCSST, a dose de tenecteplase é administrada em bólus intravenoso único, com dose ajustada ao peso. O protocolo do Ministério da Saúde apresenta o seguinte esquema: até 30 mg para pacientes com menos de 60 kg; 35 mg para 60 a menos de 70 kg; 40 mg para 70 a menos de 80 kg; 45 mg para 80 a menos de 90 kg; e 50 mg para pacientes com 90 kg ou mais.

Isso explica por que a conferência do peso é tão importante antes da administração. Para um paciente de 74 kg, por exemplo, a dose prevista nesse esquema é 40 mg. Para alguém com 86 kg, seria 45 mg. A dose máxima indicada para o IAM nesse protocolo é 50 mg.

E a apresentação de 25 mg?

Aqui está uma das novidades mais importantes da neurologia vascular brasileira nos últimos meses: em dezembro de 2025, a ANVISA aprovou oficialmente o Metalyse 25 mg para o tratamento do AVC isquêmico agudo (AVCi) no Brasil. O medicamento chegou aos hospitais brasileiros em abril de 2026, e a primeira trombólise sistêmica com essa apresentação específica já foi realizada no país, em Ribeirão Preto, sob supervisão de uma neurologista vascular.

Isso significa que a indicação deixou de ser “só uma possibilidade em bulas europeias” e passou a ser uma realidade concreta da prática nacional. Para o profissional de enfermagem, isso é relevante tanto na teoria (cai em prova) quanto na prática (já está circulando em hospitais que atendem AVC agudo).

A dose para AVCi é calculada por peso, 0,25 mg/kg, com dose máxima de 25 mg — independente do paciente pesar mais que 100 kg, o teto é sempre 25 mg. A administração é em bolus único intravenoso, aplicado em 5 a 10 segundos.

Um ponto que merece destaque redobrado: as apresentações de 40 mg e 50 mg são de uso exclusivo para o protocolo de Infarto Agudo do Miocárdio. Já a apresentação de 25 mg é a única indicada para o AVC isquêmico. Trocar essas apresentações não é um detalhe burocrático — é um erro que compromete diretamente a margem de segurança terapêutica do paciente.

A janela de tempo que define tudo no AVC

Diferente do IAM, no AVC isquêmico o fator mais decisivo antes mesmo de pensar em dose ou apresentação é o tempo desde o início dos sintomas. A trombólise intravenosa só é indicada para pacientes elegíveis tratados em até 4,5 horas após o início do quadro, conforme reconhecido pela European Stroke Organisation e por sociedades médicas internacionais.

Isso muda a lógica da triagem: antes de qualquer cálculo de peso ou preparo do medicamento, a primeira pergunta da equipe precisa ser “que horas exatamente os sintomas começaram?” — e não “quantos quilos o paciente pesa?”. Na prática de urgência, é comum que essa informação venha de um familiar, e nem sempre com precisão; por isso, documentar o horário relatado com clareza no atendimento inicial é parte do cuidado, não um detalhe administrativo.

O impacto do tempo é medido em neurônios: durante os primeiros 60 minutos após o início dos sintomas — a chamada “Hora de Ouro” — o cérebro pode perder até 1,9 milhão de neurônios por minuto sem tratamento.

Por que o Metalyse chama tanta atenção na emergência?

Uma das características práticas da tenecteplase é a possibilidade de administração em bólus intravenoso único, o que simplifica a administração em comparação com esquemas trombolíticos que exigem infusão prolongada. No cenário do IAM, essa característica também é relevante para sistemas de atendimento em que cada minuto influencia a estratégia de reperfusão.

O Ministério da Saúde inclui a tenecteplase entre as opções fibrinolíticas e estabelece critérios para avaliação da reperfusão após a trombólise. A redução significativa da dor e uma redução superior a 50% do supradesnivelamento de ST são exemplos de sinais utilizados para avaliar resposta; um novo ECG deve ser realizado entre 60 e 90 minutos após a trombólise, conforme a Linha de Cuidado do IAM.

Cuidados de enfermagem antes da administração

Antes de preparar o medicamento, a equipe precisa confirmar indicação, prescrição, peso do paciente quando necessário, apresentação disponível, concentração, validade, integridade do frasco e condições de armazenamento. Também é fundamental verificar contraindicações à fibrinólise e investigar história de sangramento, AVC, cirurgia recente, trauma e outras condições previstas no protocolo.

No IAMCSST, a decisão pela trombólise não deve ser baseada apenas na presença de dor torácica. O diagnóstico, o ECG, o tempo de início dos sintomas, as contraindicações e a possibilidade de reperfusão mecânica precisam ser considerados pela equipe responsável.

Depois da administração, a vigilância deve ser contínua. Sangramentos em locais de punção, hematúria, hematêmese, melena, epistaxe, sangramento gengival e alterações neurológicas precisam ser valorizados. Cefaleia intensa, alteração súbita do nível de consciência, déficit neurológico ou qualquer suspeita de hemorragia intracraniana exigem avaliação imediata.

Também é importante minimizar procedimentos invasivos desnecessários durante o período de maior risco hemorrágico, seguindo o protocolo institucional.

Cuidados de enfermagem específicos no AVC isquêmico

Os cuidados após a trombólise no AVC têm particularidades que não se aplicam da mesma forma ao protocolo de infarto: O controle rigoroso da pressão arterial é ainda mais crítico aqui — a PA deve estar controlada (geralmente abaixo de 185×110 mmHg) antes da administração, conforme o protocolo institucional, já que hipertensão não controlada aumenta o risco de transformação hemorrágica.

A avaliação neurológica precisa ser seriada e frequente, não pontual: reavaliações a cada 15 minutos nas primeiras horas são comuns em protocolos de AVC, observando nível de consciência, força muscular e fala. Uma piora neurológica súbita durante esse período pode ser o primeiro sinal de sangramento intracraniano e exige comunicação imediata à equipe médica.

Assim como no protocolo de IAM, anticoagulantes e antiagregantes plaquetários devem ser evitados nas primeiras 24 horas após a trombólise, salvo orientação médica específica.

Uma situação que muda tudo no plantão

Na prática de terapia intensiva, existe uma diferença enorme entre preparar um medicamento de rotina e preparar um trombolítico enquanto a equipe está aguardando a decisão de reperfusão. Em uma situação de IAMCSST, lembro de como a conferência do peso, da prescrição e da apresentação do frasco precisa acontecer praticamente em paralelo com o restante do atendimento; enquanto alguém monitoriza o paciente, outro profissional organiza o medicamento e a equipe confirma o acesso venoso.

Esse tipo de situação mostra por que decorar apenas “Metalyse é trombolítico” é insuficiente. A segurança está nos detalhes da conferência.

O acesso venoso também merece atenção

Nas informações do produto, o Metalyse reconstituído pode ser administrado por uma linha intravenosa existente quando essa linha contém cloreto de sódio 0,9%. A apresentação de 25 mg, por exemplo, não deve ser administrada em uma linha contendo solução de glicose, devido à incompatibilidade descrita nas informações do produto. Após a administração, a linha deve ser lavada conforme as instruções para garantir a entrega adequada do medicamento.

Na rotina, esse é exatamente o tipo de detalhe que pode passar despercebido quando a equipe está concentrada na urgência. Por isso, antes de conectar qualquer medicamento em uma via existente, vale conferir qual solução está sendo infundida e o protocolo institucional.

Acompanhar a reperfusão faz parte do cuidado

A administração do trombolítico não encerra o atendimento. O paciente continua precisando de monitorização cardíaca, avaliação dos sinais vitais, acompanhamento da dor e realização de ECG conforme protocolo.

No IAMCSST, quando a reperfusão não é adequada, a persistência da dor intensa, instabilidade hemodinâmica ou redução insuficiente do supradesnivelamento de ST pode indicar necessidade de encaminhamento precoce para uma unidade com hemodinâmica para ICP de resgate.

Esse acompanhamento é uma parte essencial da assistência de enfermagem. Não basta registrar “Metalyse administrado”; é preciso acompanhar e registrar a evolução clínica do paciente.

O que o profissional de enfermagem precisa guardar

O ponto principal é simples: Metalyse é tenecteplase, um trombolítico de alto risco, e sua utilização exige conferência rigorosa da indicação, apresentação, dose, peso, contraindicações, via e resposta clínica.

E existe uma atualização importante: a apresentação de 25 mg existe e não deve ser confundida automaticamente com as apresentações de 40 mg e 50 mg utilizadas nos esquemas de IAM. A indicação da apresentação precisa ser conferida na bula e no protocolo vigente do serviço.

Em uma emergência, rapidez é fundamental. Só que rapidez segura não significa pular etapas; significa saber exatamente quais etapas não podem ser esquecidas.

Resumo para salvar

Metalyse: apresentações e cuidados essenciais

  • Metalyse é o nome comercial da tenecteplase, um trombolítico fibrinoespecífico
  • No IAMCSST, a dose é ajustada pelo peso, com máximo de 50 mg (apresentações de 40 mg e 50 mg)
  • A apresentação de 25 mg foi aprovada pela ANVISA para AVC isquêmico agudo, com dose de 0,25 mg/kg (máximo 25 mg) em até 4,5h do início dos sintomas
  • Após a trombólise, a enfermagem deve monitorar reperfusão, sinais vitais e principalmente sinais de sangramento

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Infarto Agudo do Miocárdio: manejo inicial – Linha de Cuidado. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Habilitação da Administração Pré-Hospitalar Tenecteplase – SAMU 192. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: Manual de Tenecteplase – Ministério da Saúde.
  3. EUROPEAN MEDICINES AGENCY. Metalyse 5 000 units (25 mg): product information. Amsterdam: EMA. Disponível em: EMA – Metalyse 25 mg.
  4. ELECTRONIC MEDICINES COMPENDIUM. Metalyse 5 000 units (25 mg) powder for solution for injection – Summary of Product Characteristics. Disponível em: Metalyse 25 mg – SmPC.
  5. BOEHRINGER INGELHEIM. Metalyse® (tenecteplase): informações profissionais do medicamento. Informações técnicas do produto. Disponível em: Informações profissionais sobre Metalyse. 
  6. PANORAMA FARMACÊUTICO. Anvisa aprova tratamento para o AVC isquêmico agudo. Disponível em: https://panoramafarmaceutico.com.br/anvisa-aprova-medicamento-para-o-tratamento-do-avc-isquemico-agudo/.
  7. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DOENÇAS CEREBROVASCULARES (SBAVC). Primeira Trombólise com Tenecteplase 25mg no Brasil. Disponível em: https://avc.org.br/blog/2026/04/29/primeira-trombolise-com-tenecteplase-25mg-no-brasil/.

Enfermagem Offshore: você está preparado?

No ambiente offshore, a enfermagem pode estar literalmente a quilômetros de distância do hospital mais próximo. É justamente essa distância que muda a forma de trabalhar: uma intercorrência que, em terra, poderia ser encaminhada rapidamente para outro serviço precisa ser inicialmente avaliada, estabilizada e conduzida pela equipe de saúde disponível a bordo.

É por isso que trabalhar como profissional de enfermagem offshore vai muito além de “embarcar para trabalhar”. Exige preparo técnico, autonomia dentro das atribuições profissionais, capacidade de reconhecer situações de emergência e familiaridade com um ambiente de trabalho bastante diferente do hospital convencional. A NR-37 estabelece requisitos específicos de segurança, saúde e condições de vivência para trabalhadores a bordo de plataformas de petróleo nas Águas Jurisdicionais Brasileiras.

O que é enfermagem offshore?

A enfermagem offshore é a atuação do profissional de Enfermagem em plataformas de petróleo, unidades marítimas e outros ambientes de trabalho embarcado relacionados às operações offshore.

Nesse cenário, o profissional pode participar de atividades assistenciais, atendimento de urgências, primeiros socorros, promoção da saúde, prevenção de agravos, treinamentos, controle de materiais e medicamentos, registros e ações relacionadas à saúde ocupacional.

Estudos sobre a atuação do enfermeiro offshore descrevem justamente essa combinação entre assistência, gerenciamento, educação em saúde e preparação para situações previsíveis e inesperadas.

A rotina é diferente da enfermagem hospitalar

Em uma plataforma, o profissional de saúde está inserido em um ambiente industrial, com riscos próprios da atividade, espaços confinados, operações com máquinas e equipamentos, movimentação de pessoas e cargas e, principalmente, distância geográfica dos grandes centros de atendimento.

A NR-37 determina que a plataforma habitada disponha de profissional de saúde registrado no respectivo conselho profissional e estabelece critérios relacionados ao número de trabalhadores a bordo e à composição da equipe de saúde. Para determinados contingentes, pode haver técnico de enfermagem sob supervisão de enfermeiro, enfermeiro ou médico; a norma também prevê enfermaria e sistema de telemedicina para apoio especializado em terra.

Isso muda bastante a percepção de responsabilidade. Uma dor torácica, uma queda, uma queimadura ou um trauma durante o trabalho não podem ser encarados apenas como mais um atendimento da rotina.

Quando o treinamento deixa de ser certificado e vira prática

Imagine um trabalhador chegando à enfermaria após um acidente, com dor intensa e uma lesão aparentemente localizada. Naquele momento, o profissional precisa controlar a ansiedade, avaliar o paciente de forma sistemática, identificar sinais de gravidade e organizar o atendimento disponível.

É nesse tipo de situação que treinamentos de suporte à vida e trauma deixam de ser apenas certificados guardados em uma pasta.

A NR-37 determina que profissionais de saúde de nível médio lotados em plataformas tenham treinamento em suporte básico de vida e trauma pré-hospitalar, enquanto profissionais de nível superior devem possuir treinamentos avançados em suporte cardiológico e trauma pré-hospitalar, conforme as exigências previstas na norma.

Uma situação que mostra a diferença

Em um ambiente hospitalar, diante de uma alteração clínica inesperada, existe uma estrutura relativamente próxima: laboratório, radiologia, centro cirúrgico, especialistas e equipes de apoio.

No offshore, a lógica é outra.

Uma alteração súbita dos sinais vitais durante o turno pode exigir avaliação imediata, monitorização, estabilização e comunicação com a equipe médica em terra. O profissional precisa conhecer muito bem os recursos disponíveis na unidade e saber exatamente como acionar os fluxos de emergência.

Relatos publicados sobre enfermeiros embarcados descrevem uma rotina que envolve atendimento assistencial, treinamento de equipes de resgate, orientação de saúde, fiscalização e gerenciamento, além de períodos de sobreaviso para situações emergenciais.

Cuidados de enfermagem no ambiente offshore

Os cuidados começam antes mesmo de uma emergência acontecer. Organização da enfermaria, conferência de materiais, medicamentos e equipamentos, controle dos registros, verificação das condições dos recursos destinados ao atendimento e conhecimento dos protocolos locais fazem parte de uma assistência segura.

Durante o atendimento, a avaliação sistemática do paciente é fundamental. Sinais vitais, nível de consciência, dor, padrão respiratório, circulação, mecanismo do trauma e evolução clínica precisam ser acompanhados e registrados adequadamente.

Outro ponto importante é reconhecer os limites da atuação profissional. A NR-37 determina que os profissionais de saúde lotados na plataforma implementem as medidas de prevenção, promoção e atendimento à saúde previstas na própria norma e nas demais aplicáveis, sendo vedado o desvio ou desvirtuamento dessas funções.

E como é a experiência de quem trabalha embarcado?

Um aspecto interessante dos relatos de profissionais offshore é que a atuação não se resume ao atendimento de pacientes. O enfermeiro também pode exercer funções de liderança, gerenciamento, educação em saúde, treinamento e organização da assistência em um ambiente no qual a equipe de saúde é relativamente pequena diante da quantidade de trabalhadores.

Em um relato publicado na revista Texto & Contexto – Enfermagem, profissionais descreveram atividades que incluíam análise de água, inspeções, treinamentos da equipe de resgate, palestras e instruções de saúde para trabalhadores antes do embarque.

Na prática, isso significa que o profissional precisa estar preparado para trabalhar de maneira preventiva. Esperar o acidente acontecer para então pensar em segurança não combina com a realidade offshore.

Enfermagem Offshore exige preparo

Quem pretende entrar nessa área precisa entender que o ambiente embarcado cobra conhecimentos que vão além dos procedimentos tradicionais.

Experiência em urgência e emergência, atendimento ao paciente crítico, suporte básico ou avançado de vida conforme a categoria profissional, trauma, saúde ocupacional, primeiros socorros, organização de materiais e comunicação em situações críticas são conhecimentos que podem fazer diferença.

Também é importante conhecer as exigências da empresa, da unidade marítima e das normas aplicáveis ao embarque. A própria NR-37 possui requisitos específicos relacionados à capacitação, saúde, segurança e organização dos serviços a bordo.

Uma última cena para imaginar

Pense em um trabalhador chegando à enfermaria no final de um turno, reclamando de tontura e dizendo que “não é nada”. Em terra, talvez ele fosse encaminhado rapidamente para uma unidade de atendimento. Em uma plataforma, a equipe precisa primeiro avaliar aquele trabalhador e decidir, com os recursos disponíveis e os protocolos estabelecidos, qual é a conduta mais segura.

Esse é um dos grandes diferenciais da enfermagem offshore: a capacidade de reconhecer rapidamente o que pode esperar e aquilo que não pode esperar.

Não é apenas uma oportunidade de trabalhar em um setor diferente. É uma área que exige preparo, responsabilidade, disciplina e capacidade de atuar em um cenário no qual distância e tempo podem modificar completamente uma emergência.

Resumo para salvar

Enfermagem Offshore: o que você precisa saber

  • A enfermagem offshore atua em plataformas e unidades marítimas, com características diferentes do ambiente hospitalar
  • A NR-37 estabelece requisitos específicos para saúde e segurança nas plataformas de petróleo
  • Treinamento em suporte à vida e trauma é essencial para a atuação conforme a categoria profissional
  • O profissional precisa estar preparado para avaliar, estabilizar e conduzir emergências com recursos disponíveis a bordo

Referências:

  1. BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 37 – Segurança e Saúde em Plataformas de Petróleo. Brasília, DF: Ministério do Trabalho e Emprego. Disponível em: NR-37 – Ministério do Trabalho e Emprego.
  2. BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. NR-37 – Segurança e Saúde em Plataformas de Petróleo: texto atualizado. Brasília, DF. Disponível em: Texto atualizado da NR-37.
  3. AMORIM, Guilherme Henrique et al. Enfermeiro embarcado em plataforma petrolífera: um relato de experiência offshore. Texto & Contexto – Enfermagem, Florianópolis, v. 22, n. 1, p. 257-265, 2013. Disponível em: SciELO – Enfermeiro embarcado em plataforma petrolífera.
  4. GUEDES, Carolina Cristina Pereira; AGUIAR, Beatriz Gerbassi Costa. Discutindo e refletindo sobre a competência do enfermeiro offshore. Revista Enfermagem UERJ, v. 20, n. 1, p. 61-66, 2012. Disponível em: Revista Enfermagem UERJ – Competência do enfermeiro offshore.
  5. PEREIRA, Isabella Graziani et al. As principais competências do enfermeiro no serviço offshore: plataformas de petróleo e gás. Global Academic Nursing Journal, v. 4, Supl. 1, e357, 2023. Disponível em: Global Academic Nursing Journal – Competências do enfermeiro offshore.