
A pele é considerada o maior órgão do corpo humano e representa a primeira linha de defesa contra microrganismos, agentes químicos, traumas e perda excessiva de água. Quando essa barreira natural é comprometida, aumenta significativamente o risco de infecções, lesões por pressão, dermatites e outras complicações que podem dificultar a recuperação do paciente.
Dentro desse contexto, a barreira protetora de pele tornou-se um produto indispensável na assistência de enfermagem. Seja em pacientes acamados, ostomizados, com incontinência urinária ou fecal, em uso de adesivos médicos ou portadores de feridas, sua utilização auxilia na preservação da integridade cutânea e melhora a qualidade do cuidado.
Embora muitas pessoas conheçam esse produto apenas como um “spray protetor” ou “creme barreira”, ele possui diversas apresentações, indicações e características que fazem toda a diferença na prática clínica.
Nesta publicação, você conhecerá tudo sobre a barreira protetora de pele, desde seu mecanismo de ação até os cuidados de enfermagem durante sua utilização.
O que é uma barreira protetora de pele?
A barreira protetora de pele é um produto desenvolvido para formar uma película protetora sobre a superfície cutânea. Essa película cria uma barreira física invisível ou semivisível que protege a pele contra agentes externos capazes de causar irritação ou lesão.
Ela não substitui a pele, mas funciona como um reforço temporário da sua função protetora. Dependendo da formulação, essa película pode permanecer íntegra por até 24 a 72 horas, mesmo após contato com umidade.
Como funciona?
Após aplicada, a barreira cria uma camada fina e resistente que reduz o contato direto da pele com agentes agressivos, como:
- urina;
- fezes;
- suor;
- exsudato de feridas;
- secreções;
- adesivos médicos;
- fricção;
- umidade excessiva.
Essa proteção reduz o risco de maceração, irritação e rompimento da pele.
Quais são os principais tipos de barreira protetora?
Existem diversas apresentações disponíveis no mercado.
Spray
Muito utilizado em hospitais, forma uma película uniforme rapidamente. É indicado principalmente em áreas extensas ou de difícil acesso.
Lenço impregnado
Prático para uso domiciliar e hospitalar, permite aplicação controlada sem desperdício.
Creme barreira
Contém componentes hidratantes e protetores, muito utilizado na prevenção de dermatite associada à incontinência.
Gel
Alguns produtos apresentam textura em gel, facilitando a aplicação em regiões específicas.
Bastão ou stick
Menos comum, mas útil em áreas pequenas e bem delimitadas.
Em quais situações a barreira protetora é indicada?
A utilização é bastante ampla. Entre as principais indicações estão:
Dermatite associada à incontinência (DAI)
Uma das indicações mais frequentes. O contato contínuo da pele com urina e fezes provoca alterações do pH cutâneo, favorecendo inflamação e lesões. A barreira reduz esse contato e ajuda a preservar a pele.
Prevenção de lesão por pressão
Embora não substitua as mudanças de decúbito, a barreira auxilia na proteção da pele exposta à umidade e ao atrito. É considerada uma medida complementar dentro dos protocolos preventivos.
Pacientes ostomizados
As eliminações intestinais ou urinárias podem irritar intensamente a pele ao redor do estoma. A película protetora preserva essa região e melhora a aderência da placa coletora.
Feridas com muito exsudato
Quando há grande quantidade de secreção, a pele ao redor da lesão pode sofrer maceração. A barreira protege a pele perilesional, reduzindo esse risco.
Uso frequente de adesivos médicos
Curativos adesivos, eletrodos, filmes transparentes e fitas podem provocar lesões durante sua retirada. A barreira reduz a agressão causada pela remoção repetida desses dispositivos.
Pacientes em ventilação mecânica
Máscaras, tubos, fixadores e dispositivos respiratórios exercem pressão constante sobre a pele. A utilização da barreira ajuda a reduzir lesões relacionadas aos dispositivos médicos.
Quais substâncias podem estar presentes?
A composição varia conforme o fabricante.
Entre os componentes mais utilizados estão:
- polímeros acrílicos;
- silicone;
- dimeticona;
- copolímeros;
- solventes voláteis de rápida evaporação.
Algumas formulações não contêm álcool, sendo mais indicadas para peles sensíveis ou lesionadas.
Barreira com álcool e sem álcool: qual a diferença?
Essa é uma dúvida muito comum.
Produtos com álcool
Secam rapidamente. Entretanto, podem causar ardência quando aplicados sobre pele lesionada.
Produtos sem álcool
São mais confortáveis.Apresentam menor risco de irritação. Costumam ser preferidos em pacientes com lesões, queimaduras ou pele extremamente sensível.
A barreira substitui hidratantes?
Não. Embora alguns produtos possuam componentes hidratantes, sua principal função é proteger a pele contra agentes externos. Quando há ressecamento importante, pode ser necessário utilizar hidratantes específicos conforme avaliação clínica.
A barreira interfere na fixação dos curativos?
Pelo contrário. Diversas barreiras foram desenvolvidas justamente para melhorar a aderência de alguns dispositivos adesivos, além de facilitar sua retirada posterior. Por isso, são frequentemente utilizadas antes da aplicação de curativos, placas de ostomia e filmes transparentes.
Quanto tempo dura a proteção?
Isso depende da formulação. De maneira geral, a proteção pode durar entre 24 e 72 horas, desde que a região não seja submetida a limpeza intensa ou atrito excessivo. Em pacientes com incontinência frequente ou limpeza repetitiva, pode ser necessária nova aplicação conforme recomendação do fabricante.
A barreira pode ser utilizada em feridas abertas?
Em geral, não deve ser aplicada diretamente sobre o leito da ferida, salvo quando o fabricante indicar essa possibilidade. Seu uso é destinado principalmente à pele íntegra ou à pele ao redor da lesão (pele perilesional).
Vantagens da barreira protetora de pele
Entre seus principais benefícios destacam-se:
- proteção contra umidade;
- redução da maceração;
- prevenção da dermatite associada à incontinência;
- diminuição das lesões causadas por adesivos médicos (MARSI);
- melhora da aderência de curativos;
- redução do desconforto do paciente;
- auxílio na prevenção de lesões por pressão relacionadas à umidade;
- preservação da integridade cutânea.
Limitações
Apesar de extremamente útil, a barreira não substitui medidas básicas de prevenção.
Ela não elimina a necessidade de:
- higiene adequada;
- mudanças de decúbito;
- controle da umidade;
- avaliação diária da pele;
- uso correto de superfícies de alívio de pressão.
Ela deve fazer parte de um conjunto de medidas preventivas.
Curiosidades sobre a barreira protetora
Muitas películas protetoras são totalmente transparentes após a secagem. Algumas resistem à água sem perder sua eficácia. A tecnologia dos polímeros modernos permite que a pele continue respirando mesmo protegida.
Os produtos atuais são desenvolvidos para não interferir na troca gasosa da pele, diversos hospitais incorporaram a barreira protetora aos protocolos institucionais de prevenção de lesões por pressão e lesões relacionadas a adesivos médicos.
Cuidados de enfermagem
A enfermagem possui papel essencial na utilização correta desse produto. Os principais cuidados incluem:
- Avaliar diariamente a integridade da pele.
- Identificar fatores de risco para lesões cutâneas.
- Realizar higiene suave antes da aplicação.
- Secar completamente a pele.
- Aplicar uma camada fina e uniforme.
- Respeitar o tempo de secagem indicado pelo fabricante.
- Evitar excesso de produto.
- Reaplicar quando necessário.
- Observar sinais de irritação ou alergia.
- Registrar a avaliação da pele e as intervenções realizadas.
- Orientar pacientes e familiares quanto ao uso correto, especialmente na assistência domiciliar.
Erros mais comuns
Alguns equívocos ainda são observados na prática clínica.
Entre eles:
- aplicar sobre pele úmida;
- utilizar quantidade excessiva;
- substituir a higiene pela aplicação do produto;
- aplicar diretamente em feridas abertas sem indicação;
- não respeitar o tempo de secagem;
- acreditar que a barreira elimina a necessidade de mudanças de decúbito.
A barreira protetora de pele é uma importante aliada da enfermagem na prevenção de lesões cutâneas. Sua utilização correta contribui para preservar a integridade da pele, reduzir complicações relacionadas à umidade, diminuir lesões causadas por adesivos e melhorar a qualidade da assistência.
Entretanto, ela não deve ser vista como uma solução isolada. Seu uso precisa estar associado a uma avaliação criteriosa da pele, higiene adequada, controle da umidade, mudanças de posição e demais estratégias preventivas recomendadas pelos protocolos de segurança do paciente.
Conhecer suas indicações, limitações e formas de aplicação permite que estudantes e profissionais ofereçam um cuidado mais seguro, eficaz e baseado em evidências.
Referências:
- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Segurança do Paciente em Serviços de Saúde: Avaliação e prevenção de lesões de pele. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br.
- POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENFERMAGEM EM DERMATOLOGIA (SOBENDE). Guia de práticas para prevenção de lesões de pele. São Paulo: Sobende, 2022. Disponível em: https://sobende.org.br/.
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTOMATERAPIA (SOBEST). Diretrizes para prevenção e tratamento de lesões de pele. Disponível em: https://sobest.com.br
- EUROPEAN PRESSURE ULCER ADVISORY PANEL (EPUAP); NATIONAL PRESSURE INJURY ADVISORY PANEL (NPIAP); PAN PACIFIC PRESSURE INJURY ALLIANCE (PPPIA). Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Clinical Practice Guideline. Disponível em: https://www.internationalguideline.com
- BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
-
WOUND, OSTOMY AND CONTINENCE NURSES SOCIETY (WOCN). Guideline for Prevention and Management of Moisture-Associated Skin Damage (MASD). Disponível em: https://www.wocn.org










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