Plaquetas por Aférese: Conceito, Indicações e Cuidados de Enfermagem

plaquetas por aferese

A transfusão de plaquetas é uma prática essencial na assistência a pacientes com risco de sangramento ou com distúrbios da coagulação. Entre as diferentes formas de obtenção desse hemocomponente, destaca-se a plaqueta por aférese, considerada um produto de alta qualidade e amplamente utilizada em ambientes hospitalares, especialmente em unidades de oncologia, hematologia e terapia intensiva.

Para a enfermagem, compreender o que são as plaquetas por aférese, quando são indicadas e quais cuidados devem ser adotados durante sua administração é fundamental para garantir segurança ao paciente e eficácia terapêutica.

O que são plaquetas por aférese?

A palavra aférese tem origem grega e significa “retirar” ou “separar”. Na prática da hemoterapia, isso ocorre por meio de uma máquina de fluxo contínuo ou descontínuo. O doador é conectado ao equipamento através de um acesso venoso calibroso.

O sangue sai do doador, passa por uma centrífuga dentro da máquina que separa os componentes por densidade e retira apenas as plaquetas. O restante do sangue, incluindo glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e a maior parte do plasma, é devolvido ao doador pelo mesmo acesso ou por um segundo braço.

Todo esse processo dura entre 60 a 90 minutos. A grande vantagem para o sistema de saúde é que uma única doação por aférese pode fornecer uma quantidade de plaquetas equivalente a seis ou oito doações de sangue total comuns. Isso significa que o paciente receptor será exposto a apenas um doador, o que reduz drasticamente diversos riscos imunológicos.

Por que Optar pelas Plaquetas por Aférese?

A principal indicação clínica para o uso de plaquetas por aférese é o suporte a pacientes que necessitam de transfusões frequentes ou que já apresentam refratariedade plaquetária. Pacientes em tratamento de quimioterapia agressiva, transplantados de medula óssea ou com aplasia medular são os maiores beneficiados.

Quando utilizamos plaquetas de um único doador (aférese), reduzimos o risco de aloimunização HLA. Isso acontece porque o sistema imunológico do receptor tem menos “estranhos” para reconhecer. Se usássemos plaquetas de seis doadores diferentes, o risco de o paciente desenvolver anticorpos contra um desses doadores seria muito maior, o que tornaria as transfusões futuras ineficazes.

Além disso, o risco de transmissão de doenças infecciosas é estatisticamente menor, simplesmente por envolver menos indivíduos no processo para uma mesma dose terapêutica.

Importância clínica das plaquetas

As plaquetas desempenham papel essencial no processo de hemostasia. Elas atuam na formação do tampão plaquetário inicial, participam da ativação da cascata de coagulação e ajudam a conter sangramentos.

Quando há redução importante no número de plaquetas (trombocitopenia) ou disfunção plaquetária, o paciente apresenta risco aumentado de hemorragias espontâneas ou associadas a procedimentos invasivos.

Nessas situações, a transfusão de plaquetas torna-se uma medida terapêutica fundamental.

Indicações das plaquetas por aférese

As plaquetas por aférese são indicadas principalmente em pacientes com trombocitopenia grave ou com distúrbios da função plaquetária associados a risco de sangramento.

São frequentemente utilizadas em pacientes onco-hematológicos submetidos à quimioterapia, que apresentam queda acentuada da produção de plaquetas pela medula óssea. Também são indicadas em casos de aplasia medular, leucemias, linfomas e mielodisplasias.

Em ambiente hospitalar, podem ser utilizadas na prevenção de sangramentos antes de procedimentos invasivos, como cirurgias, biópsias e punções, quando o nível de plaquetas está abaixo do recomendado.

Outra indicação importante ocorre em pacientes com sangramentos ativos associados à trombocitopenia, como hemorragias digestivas, sangramentos gengivais ou epistaxe persistente.

Diferença entre plaquetas por aférese e concentrado de plaquetas

A principal diferença está na origem do produto. As plaquetas por aférese vêm de um único doador, enquanto o concentrado de plaquetas tradicional é obtido a partir do sangue total de vários doadores.

Isso faz com que as plaquetas por aférese apresentem menor risco imunológico, menor chance de aloimunização e melhor compatibilidade em pacientes que necessitam de transfusões repetidas, como os pacientes com câncer.

Além disso, as plaquetas por aférese podem ser filtradas (leucorreduzidas) e compatibilizadas com maior precisão para pacientes específicos.

Conservação e validade

As plaquetas devem ser armazenadas entre 20°C e 24°C, sob agitação constante, para manter sua viabilidade. Seu prazo de validade é curto, geralmente de 5 dias após a coleta, devido ao risco de contaminação bacteriana.

Esse fator torna o controle rigoroso de armazenamento e transporte essencial para garantir a segurança transfusional.

Riscos e reações transfusionais

Embora seja um produto seguro, a transfusão de plaquetas por aférese não é isenta de riscos. As reações mais comuns incluem febre, calafrios, urticária e reações alérgicas leves. Podem ocorrer reações mais graves, como sobrecarga circulatória associada à transfusão, reações hemolíticas e, raramente, infecções bacterianas.

Pacientes politransfundidos podem desenvolver anticorpos contra antígenos plaquetários, o que reduz a eficácia da transfusão futura. Por isso, a indicação deve ser criteriosa e o acompanhamento do paciente deve ser contínuo durante todo o processo transfusional.

Cuidados de enfermagem

O Papel da Enfermagem na Coleta e na Administração

O enfermeiro é a peça central tanto no hemocentro, cuidando do doador, quanto na beira do leito, cuidando do receptor. No momento da doação, precisamos garantir um acesso venoso periférico impecável, geralmente utilizando agulhas de calibre 16G ou 18G, já que o fluxo de sangue na máquina é intenso.

Durante a coleta, um dos cuidados mais importantes é o monitoramento da toxicidade pelo citrato. O citrato é um anticoagulante usado na máquina que pode “sequestrar” o cálcio do doador, causando formigamento nos lábios, mãos e pés. A enfermagem deve estar pronta para intervir, geralmente oferecendo reposição de cálcio ou ajustando a velocidade do equipamento.

Já na administração ao paciente, o cuidado se volta para a segurança transfusional. Antes de iniciar, é obrigatória a dupla checagem dos dados do paciente e da bolsa. As plaquetas por aférese devem ser infundidas logo que chegam à unidade, pois não podem ser refrigeradas e devem ser mantidas sob agitação constante para não perderem sua função. O tempo de infusão costuma ser rápido, entre 30 a 60 minutos, mas os primeiros 15 minutos exigem a presença constante do enfermeiro para identificar precocemente reações agudas como febre, calafrios, urticária ou dispneia.

Na transfusão de plaquetas por aférese

A enfermagem tem papel central na segurança do paciente que recebe plaquetas por aférese. Antes da transfusão, é fundamental conferir a prescrição médica, a identificação do paciente, o tipo sanguíneo, a compatibilidade e o rótulo da bolsa. Deve-se verificar o aspecto da bolsa, observando se há alterações de cor, presença de coágulos ou vazamentos.

É importante avaliar sinais vitais antes do início da transfusão e registrar os dados no prontuário. Durante a transfusão, o paciente deve ser monitorado continuamente quanto a sinais de reação transfusional, como febre, calafrios, dispneia, prurido, dor lombar ou hipotensão. Qualquer alteração deve ser comunicada imediatamente à equipe médica e a transfusão deve ser interrompida até avaliação.

A administração deve ocorrer em tempo adequado, geralmente entre 30 e 60 minutos, conforme protocolo institucional, utilizando equipo apropriado com filtro. Após a transfusão, a enfermagem deve reavaliar os sinais vitais, observar o paciente por pelo menos 30 minutos e registrar todas as informações no prontuário. Também é importante observar sinais de sangramento ou melhora clínica do quadro hemorrágico.

Cuidados Específicos e Vigilância Pós-Transfusional

A monitorização não termina quando o equipo é desconectado. É nossa função avaliar o rendimento da transfusão. Isso é feito através do controle laboratorial (hemograma) após o procedimento, mas também pela observação clínica. Verificamos se houve melhora em sangramentos gengivais, se novas petéquias pararam de surgir ou se episódios de epistaxe cessaram.

Vale lembrar que o enfermeiro deve estar atento à integridade do acesso venoso do paciente. Como o concentrado de plaquetas é um produto viscoso, a lavagem do acesso com soro fisiológico 0,9% antes e depois da transfusão é essencial para manter a patência do cateter. Nunca devemos administrar medicamentos na mesma via durante a infusão das plaquetas, para evitar interações físico-químicas que possam inativar o componente ou causar danos ao paciente.

Papel educativo da enfermagem

Além da assistência direta, a enfermagem exerce papel educativo junto ao paciente e à família, explicando a finalidade da transfusão, possíveis reações adversas e a importância de relatar qualquer sintoma durante o procedimento.

Em pacientes que recebem transfusões frequentes, a orientação sobre sinais de alerta e acompanhamento ambulatorial é essencial para prevenir complicações.

As plaquetas por aférese representam um avanço importante na terapia transfusional, oferecendo maior segurança, qualidade e eficácia no tratamento de pacientes com risco de sangramento. Seu uso é especialmente relevante em pacientes imunossuprimidos e politransfundidos.

O conhecimento técnico da enfermagem sobre esse hemocomponente, associado à prática baseada em protocolos e vigilância constante, contribui diretamente para a segurança do paciente e para o sucesso do tratamento.

Compreender o processo de obtenção, as indicações clínicas e os cuidados durante a transfusão é parte essencial da formação do profissional de enfermagem que atua em ambientes hospitalares.

Resumo para salvar

Plaquetas por Aférese: O Guia Definitivo

  • Obtenção por equipamento automatizado que coleta plaquetas de um único doador e devolve os demais componentes sanguíneos
  • Menor risco de aloimunização e reações transfusionais por envolver apenas um doador em comparação às plaquetas de sangue total
  • Indicação principal para pacientes com trombocitopenia grave, neoplasias hematológicas e necessidade de transfusões frequentes
  • Condições estritas de armazenamento entre 20°C e 24°C sob agitação constante, com validade reduzida de até 5 dias

Referências:

  1. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução RDC nº 34, de 11 de junho de 2014. Dispõe sobre as boas práticas no ciclo do sangue. Brasília: ANVISA, 2014. Disponível em: gov.br/anvisa — Sangue.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes (Manual de Hemoterapia). 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. Disponível em: Manual de Hemoterapia — PDF.
  3. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO (COREN-SP). Atuação da Enfermagem em Hemoterapia. São Paulo: COREN-SP, 2020. Disponível em: portal.coren-sp.gov.br.
  4. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE HEMATOLOGIA, HEMOTERAPIA E TERAPIA CELULAR (ABHH). Acesse as diretrizes da AABB sobre transfusão de plaquetas. São Paulo: ABHH. Disponível em: abhh.org.br — Diretrizes AABB sobre transfusão de plaquetas.
  5. HOFFBRAND, A. V.; MOSS, P. A. H. Hematologia essencial. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  6. ZAGO, M. A.; FALCÃO, R. P.; PASQUINI, R. Tratado de Hematologia. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2013.
  7. AMERICAN ASSOCIATION OF BLOOD BANKS (AABB). Standards for Blood Banks and Transfusion Services. 32. ed. Bethesda: AABB, 2020. Disponível em: aabb.org.
  8. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Blood transfusion safety. Geneva: WHO, 2022. Disponível em: who.int — Blood transfusion.

Protocolo de Transfusão Maciça (PTM): quando cada minuto importa e por que não basta “dar sangue”

Protocolo Transfusão Maciça

Vá direto ao ponto!

Em uma hemorragia grave, existe um momento em que a pergunta deixa de ser “qual hemocomponente o paciente precisa?” e passa a ser outra, muito mais urgente:

“Como fazer essa reposição de forma rápida, organizada e segura antes que o paciente entre em uma espiral de choque, coagulopatia, hipotermia e acidose?”

É justamente nesse cenário que entra o Protocolo de Transfusão Maciça (PTM).

O PTM não é simplesmente uma autorização para transfundir grandes quantidades de sangue. É uma estratégia organizada de atendimento ao paciente com hemorragia potencialmente fatal, envolvendo identificação precoce do sangramento, controle da fonte hemorrágica, reposição de hemocomponentes, monitorização laboratorial e clínica e prevenção das complicações relacionadas à própria hemorragia e à transfusão.

Em outras palavras, não se trata apenas de repor volume. Trata-se de tentar interromper uma cadeia fisiológica que pode levar rapidamente à morte.

Este ponto é especialmente importante para quem está estudando enfermagem. Em uma situação de hemorragia maciça, a equipe precisa trabalhar de maneira sincronizada. Enquanto alguém identifica a necessidade de ativação do protocolo, outra pessoa pode estar providenciando acesso venoso adequado, outra coletando exames, outra conferindo os hemocomponentes e outra monitorizando o paciente.

É uma situação em que organização também é cuidado.

O que é o Protocolo de Transfusão Maciça?

O Protocolo de Transfusão Maciça (PTM) é um conjunto de medidas previamente organizado pela instituição para atender pacientes com hemorragia grave e risco de morte, nos quais existe necessidade de reposição rápida e coordenada de sangue e seus componentes. O protocolo procura evitar que a transfusão aconteça de maneira fragmentada, especialmente quando a perda sanguínea é muito rápida.

Em vez de esperar a deterioração progressiva do paciente para solicitar cada hemocomponente separadamente, o serviço estabelece previamente uma estratégia de comunicação, liberação, transporte e administração dos componentes sanguíneos.

Protocolos desse tipo costumam envolver concentrado de hemácias, plasma e plaquetas, podendo incluir crioprecipitado ou concentrado de fibrinogênio, conforme a situação clínica, os exames disponíveis e o protocolo institucional.

As recomendações atuais para hemorragia grave ressaltam que a reposição deve ser acompanhada de avaliação da coagulação e adaptada à resposta do paciente, em vez de manter indefinidamente uma estratégia empírica fixa.

Por que a transfusão maciça é tão diferente de uma transfusão convencional?

Imagine um paciente que apresenta uma hemorragia intensa após um trauma. O problema não é apenas que ele perdeu hemácias.

Ele também está perdendo:

  • plasma;
  • plaquetas;
  • fatores de coagulação;
  • fibrinogênio;
  • volume circulante.

Ao mesmo tempo, o organismo está tentando compensar a perda sanguínea aumentando a frequência cardíaca e redistribuindo o fluxo sanguíneo para órgãos vitais. Se a hemorragia continua, a situação pode evoluir para choque hemorrágico.

Quando a reposição é feita apenas com grandes volumes de cristaloides ou concentrado de hemácias, sem considerar a coagulação, a temperatura e outros fatores fisiológicos, pode ocorrer agravamento da coagulopatia.

Por isso, o conceito moderno de ressuscitação da hemorragia grave não é simplesmente “colocar volume”. É controlar o sangramento e restaurar a capacidade do organismo de transportar oxigênio e formar coágulos adequadamente.

O que é considerado transfusão maciça?

Historicamente, a transfusão maciça foi definida como a administração de aproximadamente 10 unidades de concentrado de hemácias em 24 horas em um adulto. Essa definição, entretanto, possui uma limitação importante: esperar que o paciente receba dez unidades para reconhecer uma hemorragia grave significa esperar demais.

Atualmente, a avaliação é muito mais dinâmica , o profissional precisa reconhecer a possibilidade de hemorragia maciça antes que a perda sanguínea atinja números extremos. Também são utilizados conceitos como necessidade de grandes volumes de sangue em poucas horas e indicadores clínicos de sangramento persistente.

Por isso, os protocolos institucionais podem utilizar critérios próprios de ativação. Um protocolo hospitalar brasileiro atualizado, por exemplo, orienta o reconhecimento precoce do sangramento agudo grave e diferencia situações de ativação do Protocolo de Transfusão Maciça e do protocolo de emergência, de acordo com critérios clínicos e institucionais.

Em quais situações o PTM pode ser necessário?

O PTM é particularmente importante em situações nas quais existe hemorragia intensa, rápida e potencialmente fatal. Entre os cenários possíveis estão:

Trauma grave

Acidentes automobilísticos, atropelamentos, ferimentos penetrantes, traumas pélvicos e grandes lesões vasculares podem provocar perdas sanguíneas importantes. O trauma é um dos cenários mais associados à utilização de protocolos de transfusão maciça.

A hemorragia não controlada continua sendo uma das principais causas potencialmente evitáveis de morte precoce no paciente gravemente traumatizado.

Hemorragia obstétrica

Hemorragias obstétricas graves também podem exigir ativação rápida de protocolos de transfusão, especialmente em situações como hemorragia pós-parto, descolamento prematuro de placenta, placenta acreta/espectro de acretismo e outras condições associadas a perda sanguínea importante.

Sangramento gastrointestinal

Hemorragias digestivas graves podem provocar instabilidade hemodinâmica e necessidade de reposição rápida.

Cirurgias de grande porte

Alguns procedimentos cirúrgicos apresentam risco elevado de sangramento e podem exigir um protocolo previamente estruturado.

Hemorragias vasculares

Rupturas de aneurismas e outras lesões vasculares podem provocar hemorragia extremamente rápida.

Como reconhecer um paciente que pode precisar do PTM?

Um dos maiores desafios é perceber a gravidade antes que a pressão arterial caia dramaticamente. Isso é importante porque a hipotensão pode ser um sinal tardio, um paciente com hemorragia significativa pode inicialmente apresentar:

  • taquicardia;
  • palidez;
  • sudorese fria;
  • extremidades frias;
  • alteração do estado mental;
  • agitação ou ansiedade;
  • enchimento capilar aumentado;
  • taquipneia;
  • queda da pressão arterial;
  • redução da diurese;
  • sinais de hipoperfusão.

O contexto também é fundamental, um paciente com sangramento externo evidente e instabilidade é muito diferente de um paciente com pressão aparentemente normal, mas com sangramento interno progressivo. Por isso, a avaliação deve ser contínua.

Uma situação que muda completamente o plantão

Na prática de terapia intensiva, uma das situações mais marcantes é receber um paciente que chega aparentemente “conversando”, mas apresenta sinais que não combinam com estabilidade real. Ele está pálido, frio, taquicárdico, inquieto e começa a apresentar piora progressiva.

É muito fácil olhar somente para a pressão arterial e pensar: “ainda está 100 por 60”, mas o conjunto da avaliação conta outra história. Quando existe suspeita de hemorragia importante, esperar a hipotensão profunda pode significar perder um tempo precioso.

É por isso que, na rotina, a observação contínua e a comunicação rápida entre enfermagem, equipe médica, banco de sangue e demais profissionais fazem tanta diferença.

O que acontece quando o PTM é ativado?

A sequência exata depende do protocolo de cada instituição, mas geralmente envolve uma série de ações coordenadas, a ativação comunica ao serviço de hemoterapia que existe um paciente com necessidade potencial de reposição rápida de sangue. Ao mesmo tempo, a equipe assistencial inicia ou intensifica:

  • controle da hemorragia;
  • monitorização contínua;
  • acesso vascular adequado;
  • coleta de exames;
  • ressuscitação hemostática;
  • administração dos hemocomponentes;
  • avaliação da resposta clínica;
  • correção das alterações de coagulação e metabólicas.

O objetivo é evitar que a equipe fique esperando um componente terminar para só então solicitar o próximo, o protocolo cria uma logística organizada.

Quais hemocomponentes podem fazer parte do PTM?

A composição depende do protocolo institucional e das características do paciente. Os principais componentes são:

Concentrado de hemácias

Tem como principal objetivo aumentar a capacidade de transporte de oxigênio do sangue. Em uma hemorragia grave, sua administração é essencial para substituir a massa eritrocitária perdida.

Plasma fresco congelado

Fornece múltiplos fatores de coagulação e pode ser utilizado quando existe deficiência de fatores associada à hemorragia.

Concentrado de plaquetas

É utilizado para reposição de plaquetas quando há trombocitopenia ou necessidade de suporte hemostático, de acordo com a situação clínica e os protocolos.

Crioprecipitado ou concentrado de fibrinogênio

Possuem importância particularmente relevante quando existe hipofibrinogenemia, pois o fibrinogênio é fundamental para a formação e estabilidade do coágulo. Nas hemorragias graves, níveis baixos de fibrinogênio podem aparecer precocemente e estão associados a pior prognóstico.

Existe uma proporção fixa entre hemácias, plasma e plaquetas?

Esse é um ponto que gera muita dúvida, protocolos de transfusão maciça tradicionalmente utilizaram estratégias com proporções balanceadas, como 1:1:1, relacionando concentrado de hemácias, plasma e plaquetas.

O estudo PROPPR, realizado em pacientes com trauma grave, comparou estratégias 1:1:1 e 1:1:2. A mortalidade global não foi significativamente diferente, mas a estratégia 1:1:1 apresentou melhor controle da hemostasia e menor mortalidade relacionada à exsanguinação.

Entretanto, isso não significa que todo paciente, em qualquer hospital e em qualquer situação, deva receber automaticamente uma proporção fixa. As recomendações atuais destacam a importância de adaptar a reposição aos resultados laboratoriais e/ou métodos de monitorização viscoelástica, como TEG e ROTEM, quando disponíveis.

Portanto: proporções iniciais podem fazer parte do protocolo institucional, mas a reposição precisa evoluir para uma estratégia orientada pela resposta do paciente.

O papel do fibrinogênio

O fibrinogênio merece atenção especial:  Durante uma hemorragia grave, ele pode cair rapidamente. Além da perda sanguínea, existe consumo, diluição e alterações da coagulação. Um nível baixo de fibrinogênio compromete a formação do coágulo.

A diretriz europeia de manejo da hemorragia traumática considera concentração de fibrinogênio abaixo de aproximadamente 1,5 g/L um sinal de hipofibrinogenemia que pode exigir tratamento, de acordo com a avaliação clínica e laboratorial.

Por isso, em um PTM, não basta pensar apenas: “Quantas bolsas de sangue já foram administradas?”

Também é necessário perguntar:

  • Como está o fibrinogênio?
  • Como está a coagulação?
  • O paciente continua sangrando?
  • O coágulo está sendo formado adequadamente?

A importância do cálcio durante a transfusão maciça

Esse é um detalhe que muitas vezes passa despercebido pelos estudantes: o sangue armazenado contém citrato, utilizado como anticoagulante. O citrato se liga ao cálcio. Durante uma transfusão maciça, especialmente quando grandes volumes são administrados rapidamente, pode ocorrer hipocalcemia relacionada ao citrato.

O cálcio participa de diversas etapas da coagulação e também é fundamental para a função cardiovascular, e a hipocalcemia pode contribuir para:

  • redução da contratilidade cardíaca;
  • hipotensão;
  • alterações da coagulação;
  • instabilidade elétrica cardíaca.

Por isso, a concentração de cálcio ionizado deve ser monitorada e, quando indicada, a reposição deve ser realizada conforme protocolo e prescrição. Para a enfermagem, isso significa que o profissional precisa ficar atento aos exames e ao plano terapêutico, principalmente quando o paciente está recebendo grandes quantidades de hemocomponentes.

A tríade letal: hipotermia, acidose e coagulopatia

Em hemorragias graves, existe uma combinação fisiológica especialmente perigosa: hipotermia + acidose + coagulopatia.

Esses três problemas podem se reforçar mutuamente. O paciente perde sangue, entra em choque, apresenta má perfusão tecidual e desenvolve acidose. Ao mesmo tempo, recebe grandes volumes de fluidos e hemocomponentes frios, podendo desenvolver hipotermia.

A hipotermia prejudica a coagulação, e a coagulopatia favorece mais sangramento, e mais sangramento leva a mais choque. E o ciclo continua.

É por isso que a ressuscitação moderna da hemorragia grave procura interromper esse processo o mais cedo possível. A diretriz europeia descreve justamente essa interação entre hemorragia, coagulopatia, hipotermia e acidose no contexto do trauma grave.

Por que aquecer o paciente é tão importante?

Quando pensamos em emergência hemorrágica, é comum imaginar que o problema principal é apenas a perda de sangue. Mas manter a temperatura corporal também faz parte do cuidado.

O paciente deve ser protegido contra perda excessiva de calor, e os hemocomponentes podem ser administrados com sistemas apropriados de aquecimento quando indicados pelo protocolo institucional, e a enfermagem tem um papel importante na prevenção da hipotermia, observando:

  • temperatura corporal;
  • condições ambientais;
  • exposição desnecessária do paciente;
  • utilização adequada de cobertores e dispositivos de aquecimento;
  • temperatura dos fluidos e hemocomponentes quando houver equipamento específico.

E o ácido tranexâmico?

Em determinados cenários de hemorragia traumática, o ácido tranexâmico (TXA) pode fazer parte do tratamento. Ele atua inibindo a fibrinólise e pode contribuir para preservar o coágulo, entretanto, o benefício depende do contexto, do tempo e da indicação clínica.

Na hemorragia traumática, recomendações internacionais destacam que o ácido tranexâmico deve ser administrado precocemente quando indicado, sem esperar resultados de testes viscoelásticos, e a enfermagem deve conhecer a indicação institucional, a prescrição, a via de administração, a dose definida pelo protocolo e o horário de administração.

Em uma emergência, registrar corretamente o horário em que o medicamento foi administrado pode ser tão importante quanto registrar a própria administração.

O controle da hemorragia é tão importante quanto a transfusão

Essa é uma das mensagens mais importantes deste assunto:

transfusão não substitui controle da fonte do sangramento.

Se o paciente está perdendo sangue continuamente, simplesmente administrar mais sangue não resolve o problema, e pode ser necessário:

  • compressão;
  • cirurgia;
  • endoscopia;
  • embolização;
  • controle vascular;
  • tamponamento;
  • intervenção obstétrica;

ou outra estratégia específica para interromper a hemorragia. As diretrizes de trauma enfatizam que o controle rápido da fonte de sangramento é fundamental e pode envolver cirurgia de controle de danos, embolização e outras medidas.

Cuidados de enfermagem durante o PTM

A enfermagem ocupa uma posição central no protocolo. Não é exagero dizer que uma transfusão maciça depende de uma equipe de enfermagem muito organizada.

Antes da administração

Sempre que a condição clínica permitir, devem ser realizadas as conferências e verificações previstas no protocolo institucional. É fundamental confirmar a identificação do paciente, conferir os hemocomponentes, observar validade, integridade da bolsa, compatibilidade e demais informações exigidas pelo serviço de hemoterapia.

Em emergência extrema, existem fluxos específicos para liberação de hemocomponentes de emergência. A equipe deve conhecer previamente esse fluxo.

Durante a transfusão

O paciente deve permanecer sob monitorização adequada. A enfermagem precisa observar sinais de:

  • reação transfusional;
  • alterações hemodinâmicas;
  • dispneia;
  • dor;
  • calafrios;
  • febre;
  • alterações cutâneas;
  • ansiedade ou alteração do estado mental.

Qualquer suspeita de reação transfusional deve ser comunicada imediatamente e conduzida conforme o protocolo institucional. Não se deve simplesmente “esperar para ver se passa”.

Um cuidado que parece simples, mas faz muita diferença

Em uma situação de transfusão maciça, existe uma enorme quantidade de informações acontecendo ao mesmo tempo:

  • Bolsas chegando.
  • Exames sendo coletados.
  • Medicamentos sendo administrados.
  • Cirurgia sendo preparada.
  • Pressão arterial mudando.
  • Novas bolsas sendo solicitadas.

Por isso, uma prática muito importante é manter registro cronológico e organizado. Registrar horário de início e término da transfusão, identificação dos hemocomponentes, sinais vitais, intercorrências, medicamentos administrados, exames coletados e respostas observadas permite reconstruir exatamente o que aconteceu.

Na prática de UTI, esse tipo de registro faz diferença. Em um plantão com uma emergência hemorrágica, depois que a situação estabiliza, é justamente a anotação que permite saber o que foi feito, em que horário e qual foi a resposta do paciente.

Coleta de exames: não deixe para depois

Durante o PTM, exames laboratoriais são fundamentais para direcionar a terapia. Dependendo do protocolo e da situação clínica, podem ser acompanhados:

  • hemoglobina e hematócrito;
  • contagem de plaquetas;
  • TP/INR;
  • TTPa;
  • fibrinogênio;
  • gasometria;
  • lactato;
  • cálcio ionizado;
  • potássio;
  • temperatura;
  • outros parâmetros definidos pelo serviço.

Quando disponível, a monitorização viscoelástica, como TEG ou ROTEM, pode fornecer informações rápidas sobre a formação e a estabilidade do coágulo e auxiliar na terapia direcionada.

Não espere apenas a hemoglobina cair para agir

Outro ponto importante para estudantes: Em uma hemorragia aguda, a hemoglobina inicial pode não refletir imediatamente toda a extensão da perda sanguínea. O paciente pode estar perdendo sangue rapidamente antes que a concentração de hemoglobina demonstre a dimensão real da hemorragia.

Por isso, a avaliação deve integrar:

  • história clínica;
  • estimativa de perda sanguínea;
  • sinais vitais;
  • perfusão periférica;
  • estado mental;
  • diurese;
  • lactato;
  • hemoglobina;
  • coagulação;
  • resposta à ressuscitação.

Não existe um único número capaz de descrever sozinho a gravidade de uma hemorragia maciça.

O papel da diurese

A diurese é um importante indicador de perfusão renal, pois em um paciente com hemorragia grave, uma redução importante da produção urinária pode indicar comprometimento da perfusão. Por isso, quando o paciente está com monitorização rigorosa e indicação de controle de diurese, a enfermagem deve acompanhar e registrar adequadamente o débito urinário.

Não se trata apenas de preencher uma folha de balanço hídrico, é uma informação clínica que ajuda a equipe a entender como o organismo está respondendo à ressuscitação.

Acesso venoso e administração rápida

A administração rápida de hemocomponentes exige acesso vascular adequado. Em situações críticas, podem ser utilizados acessos venosos periféricos de grande calibre, acesso intraósseo em situações específicas ou acesso venoso central, conforme indicação clínica e recursos disponíveis.

O importante é que a via escolhida permita uma administração segura e compatível com a necessidade de fluxo, e a enfermagem também deve verificar a permeabilidade do acesso e observar sinais de infiltração, extravasamento ou outras complicações. Em uma emergência hemorrágica, perder um acesso que estava sendo utilizado para reposição rápida pode comprometer seriamente a dinâmica da ressuscitação.

O aquecedor de sangue também faz parte da estratégia

Quando grandes quantidades de sangue são administradas rapidamente, existe risco de contribuir para hipotermia. Por isso, sistemas específicos de aquecimento de fluidos e hemocomponentes podem ser utilizados conforme disponibilidade e protocolo. É importante lembrar: não se deve improvisar métodos de aquecimento.

O serviço deve utilizar equipamentos apropriados e seguir as orientações institucionais e do fabricante.

O que acontece quando o PTM não é organizado?

Uma das maiores dificuldades não está necessariamente na falta de sangue, e sim pode estar na falta de comunicação. Imagine:

  • o médico solicita o protocolo, mas o banco de sangue não é acionado adequadamente;
  • a primeira remessa chega, mas não há equipe preparada para administrar;
  • os exames não são coletados;
  • o próximo ciclo não é solicitado;
  • ninguém sabe exatamente quantas unidades foram administradas;
  • o paciente permanece hipotérmico;
  • o cálcio não é acompanhado;
  • e a equipe continua trabalhando de maneira improvisada.

Esse tipo de situação mostra por que o PTM precisa ser protocolizado, treinado e simulado. As recomendações internacionais destacam a importância da implementação local de protocolos baseados em evidências e do treinamento das equipes envolvidas.

Uma experiência prática que resume o que é um bom protocolo

Em situações de emergência, é possível perceber rapidamente a diferença entre uma equipe que conhece o protocolo e uma equipe que precisa descobrir tudo naquele momento. Quando o processo está bem organizado, cada profissional sabe qual é sua função:

  • Um comunica o banco de sangue.
  • Outro monitora o paciente.
  • Outro coleta exames.
  • Outro administra os hemocomponentes.
  • Outro acompanha a documentação.
  • A equipe médica concentra-se no controle da hemorragia e na condução clínica.

Essa divisão de tarefas não é burocracia. É segurança.

Em uma hemorragia maciça, segundos e minutos podem fazer diferença, e uma equipe treinada tende a reduzir atrasos desnecessários.

Quais complicações podem ocorrer durante uma transfusão maciça?

Quanto maior o volume transfundido e mais grave o quadro clínico, maior a necessidade de vigilância, entre as possíveis complicações estão:

  • hipotermia;
  • hipocalcemia;
  • hipercalemia;
  • distúrbios ácido-base;
  • coagulopatia;
  • sobrecarga circulatória;
  • reações transfusionais;
  • lesão pulmonar relacionada à transfusão;
  • reações hemolíticas;
  • alterações metabólicas.

Isso não significa que essas complicações ocorrerão em todos os pacientes. Significa que a equipe precisa estar preparada para reconhecê-las.

Reação transfusional: o que a enfermagem precisa observar?

Durante a administração de hemocomponentes, alterações como febre, calafrios, dor lombar, dispneia, hipotensão, urticária, náuseas, dor torácica, alterações na coloração da urina ou deterioração clínica devem ser valorizadas.

Diante de suspeita de reação transfusional, a conduta deve seguir rigorosamente o protocolo institucional e as orientações do serviço de hemoterapia. Uma reação transfusional nunca deve ser banalizada. O profissional deve comunicar imediatamente a intercorrência e realizar os procedimentos previstos pelo serviço.

A importância da rastreabilidade

Em uma transfusão convencional, a rastreabilidade já é fundamental. No PTM, ela se torna ainda mais importante, e é necessário conseguir identificar:

  • qual paciente recebeu;
  • qual hemocomponente foi administrado;
  • qual unidade foi utilizada;
  • em que horário;
  • quem realizou a conferência;
  • quem administrou;
  • quais sinais vitais foram observados;
  • quais intercorrências ocorreram.

Isso protege o paciente e também garante segurança para a equipe.

PTM não é sinônimo de “transfundir o máximo possível”

Esse conceito merece ser reforçado: A palavra “maciça” pode dar a impressão de que quanto mais sangue for administrado, melhor, não é assim. A transfusão deve ser proporcional à necessidade clínica, acompanhada de controle da hemorragia e monitorização da resposta.

À medida que o paciente melhora, a estratégia pode ser modificada. Quando os resultados laboratoriais ficam disponíveis, a reposição pode ser direcionada, e as diretrizes atuais recomendam uma abordagem orientada por resultados laboratoriais e/ou métodos viscoelásticos quando disponíveis, justamente para evitar uma estratégia empírica prolongada.

Quando o protocolo deve ser encerrado?

O encerramento depende dos critérios definidos pela instituição e da avaliação clínica. Em geral, o PTM pode ser desativado quando:

  • a hemorragia foi controlada;
  • a necessidade de transfusão maciça cessou;
  • a estabilidade hemodinâmica foi alcançada ou está em processo de recuperação;
  • os parâmetros de coagulação e perfusão estão sendo adequadamente corrigidos;
  • a equipe não necessita mais da logística emergencial do protocolo.

O encerramento também deve ser comunicado ao serviço de hemoterapia. Essa comunicação evita que unidades de sangue continuem sendo preparadas ou liberadas desnecessariamente.

! Atenção na Prova O que o estudante de enfermagem precisa memorizar?

Se você estiver estudando para uma prova ou começando sua prática profissional, pense no PTM como uma sequência lógica:

  1. Reconhecer a hemorragia grave.
  2. Acionar rapidamente o protocolo institucional.
  3. Controlar a fonte do sangramento.
  4. Garantir acesso vascular e monitorização.
  5. Administrar hemocomponentes conforme protocolo e prescrição.
  6. Monitorar coagulação, perfusão, temperatura, cálcio e outros parâmetros.
  7. Prevenir e tratar complicações.
  8. Reavaliar continuamente.
  9. Adaptar a reposição aos resultados e à resposta clínica.
  10. Registrar tudo de forma completa e cronológica.

O verdadeiro “segredo” do PTM

Se existe uma coisa que eu gostaria que todo estudante de enfermagem entendesse sobre transfusão maciça, é esta: o sangue não é o único tratamento.

O paciente precisa de uma abordagem integrada, e é  necessário controlar a hemorragia, manter perfusão, corrigir coagulopatia, evitar hipotermia, acompanhar cálcio e outros distúrbios metabólicos, administrar os hemocomponentes adequadamente e reavaliar continuamente.

A transfusão é uma parte da ressuscitação, não é a ressuscitação inteira. O Protocolo de Transfusão Maciça representa uma estratégia organizada para uma das situações mais críticas encontradas na emergência, no centro cirúrgico, na terapia intensiva e em outros ambientes hospitalares.

Para a enfermagem, conhecer o PTM vai muito além de decorar a sequência “hemácias, plasma e plaquetas”.

É necessário compreender quando suspeitar de uma hemorragia grave, como o protocolo é acionado, quais cuidados devem ser realizados antes e durante a transfusão, quais complicações precisam ser reconhecidas e por que o registro de enfermagem é tão importante.

Na prática, uma equipe preparada não espera a situação ficar caótica para começar a se organizar, ela conhece o protocolo antes da emergência acontecer. E esse talvez seja o maior ensinamento do PTM: em uma hemorragia maciça, organização, comunicação e tempo são partes do tratamento.

Importante: os critérios de ativação, composição dos pacotes transfusionais, doses, velocidade de infusão, uso de cálcio, fibrinogênio, ácido tranexâmico e demais condutas devem seguir o protocolo institucional, a prescrição e a avaliação da equipe responsável. Este conteúdo é educacional e não substitui o protocolo do serviço ou a avaliação clínica do paciente.

Resumo para salvar

Protocolo de Transfusão Maciça: quando cada minuto pode salvar uma vida

  • PTM é uma estratégia organizada para tratar hemorragias graves e potencialmente fatais
  • A transfusão deve ser associada ao controle rápido da fonte do sangramento e à ressuscitação hemostática
  • Enfermagem deve monitorar sinais vitais, hemocomponentes, coagulação, temperatura, cálcio e possíveis reações transfusionais
  • Protocolos institucionais, comunicação rápida, equipe treinada e registros completos são fundamentais para uma transfusão maciça segura

Referências:

  1. ROSSAINT, R. et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: sixth edition. Critical Care, v. 27, n. 80, 2023. Disponível em: PMC – European Guideline on Major Bleeding and Coagulopathy Following Trauma.

  2. ROSSAINT, R. et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: fifth edition. Critical Care, 2019. Disponível em: Critical Care – European Guideline, Fifth Edition.
  3. HOLCOMB, J. B. et al. Transfusion of Plasma, Platelets, and Red Blood Cells in a 1:1:1 vs. a 1:1:2 Ratio and Mortality in Patients With Severe Trauma: The PROPPR Randomized Clinical Trial. JAMA, 2015. Referenciado na diretriz europeia de manejo da hemorragia traumática. Disponível em: European Guideline – discussão do estudo PROPPR.
  4. HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (HC-UFMG/EBSERH). Transfusão de hemocomponentes em situações de emergência – PRT.UHO.307. Belo Horizonte: HC-UFMG, 2026. Disponível em: Protocolo assistencial HC-UFMG/Ebserh – Transfusão de hemocomponentes em situações de emergência.
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_uso_hemocomponentes_2ed.pdf.
  6. SPAHN, D. R. et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: sixth edition. Critical Care, v. 23, n. 1, p. 98-135, 2019. Disponível em: https://ccforum.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13054-019-2347-7.
  7. BRILL, J. B.; BADIEE, J.; ZARZAUR, B. L. et al. The Role of TEG and ROTEM in Damage Control Resuscitation. Shock, v. 56, n. 1S, p. 52-61, 2021. DOI: 10.1097/SHK.0000000000001686.

INR (Razão Normalizada Internacional): o que é, para que serve e sua importância na prática da enfermagem

A INR, ou Razão Normalizada Internacional, é um dos exames laboratoriais mais importantes na avaliação da coagulação sanguínea. Seu principal uso está no acompanhamento de pacientes que fazem uso de anticoagulantes orais, especialmente a varfarina, mas sua interpretação vai muito além disso.

Para a enfermagem, compreender o significado da INR, seus valores de referência, o que significa um “INR alargado” e quais cuidados devem ser adotados é essencial para garantir a segurança do paciente e prevenir eventos graves como hemorragias ou tromboses.

O Que é o INR e Por Que Ele Foi Criado?

Antes da década de 1980, monitorar a coagulação de pacientes em diferentes hospitais era um desafio caótico. Cada laboratório utilizava um reagente diferente para o teste de Tempo de Protrombina (TP), o que gerava resultados inconsistentes. O mesmo paciente poderia ter um tempo de coagulação considerado “seguro” em um hospital e “perigoso” em outro.

Para resolver isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) padronizou o processo através do INR. O INR não é um teste novo, mas sim um cálculo matemático que ajusta o resultado do Tempo de Protrombina do paciente de acordo com a sensibilidade do reagente utilizado pelo laboratório, chamado de ISI (Índice de Sensibilidade Internacional).

Basicamente, a fórmula aplicada é o Tempo de Protrombina do paciente dividido pelo Tempo de Protrombina médio normal, elevado à potência do ISI. O resultado é um número adimensional que pode ser comparado em qualquer lugar do mundo, garantindo que um INR de 2,5 no Brasil signifique exatamente a mesma coisa que um de 2,5 no Japão.

Valores de Referência e Alvos Terapêuticos

Em uma pessoa saudável, que não utiliza medicamentos anticoagulantes, o valor do INR costuma estar próximo de 1,0. Quando um paciente inicia a terapia com anticoagulantes orais, como a Varfarina (Marevan ou Coumadin), o objetivo é “esticar” propositalmente o tempo que o sangue leva para coagular para evitar a formação de coágulos em válvulas cardíacas mecânicas, fibrilação atrial ou após uma trombose venosa profunda.

Na maioria das indicações clínicas, o alvo terapêutico gira em torno de 2,0 a 3,0. Em casos de maior risco embólico, como em algumas próteses valvares metálicas, esse alvo pode ser mais alto, entre 2,5 e 3,5. Abaixo desses valores, o paciente está em risco de sofrer um evento isquêmico (trombose ou AVC); acima deles, o risco é de sangramento.

O Que Significa o Termo “INR Alargado”?

Durante o seu plantão ou em discussões de caso clínico, você ouvirá frequentemente o termo INR alargado. Na linguagem técnica da saúde, “alargar” um tempo de coagulação significa que o sangue está levando muito mais tempo do que o normal (ou do que o desejado) para formar um coágulo.

Um INR alargado ocorre quando o valor ultrapassa o limite superior do alvo terapêutico. Se o alvo do paciente é até 3,0 e o resultado chega em 5,0 ou 6,0, dizemos que o INR está perigosamente alargado. Isso coloca o paciente em um estado crítico de risco hemorrágico, onde pequenos traumas ou até mesmo a pressão arterial elevada podem causar sangramentos espontâneos em órgãos vitais, como o cérebro.

As causas para um INR alargado são variadas e a enfermagem deve estar atenta a elas: erros de dosagem do medicamento, interações medicamentosas (como o uso de alguns antibióticos que potencializam a varfarina), consumo reduzido de alimentos ricos em vitamina K (que ajudam na coagulação) ou disfunção hepática severa, já que a maioria dos fatores de coagulação é produzida no fígado.

O que significa INR baixo?

Quando a INR está abaixo do valor terapêutico esperado, o sangue coagula mais rápido do que deveria. Isso aumenta o risco de trombose, podendo resultar em:

  • Trombose venosa profunda;
  • Embolia pulmonar;
  • AVC isquêmico;
  • Oclusão de próteses valvares

Esse cenário também exige atenção imediata, pois pode indicar subdose do anticoagulante ou falha no tratamento.

Relação entre INR, TP e TTPa

A INR é derivada do Tempo de Protrombina (TP) e avalia principalmente a via extrínseca da coagulação. Já o TTPa (Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada) avalia a via intrínseca.

Na prática, a INR é o parâmetro principal para monitorar varfarina, enquanto o TTPa é usado para monitorar heparina não fracionada.

Cuidados de enfermagem relacionados à INR

O papel da enfermagem no manejo do INR é multifacetado e exige proatividade. Não basta apenas comunicar o valor ao médico; é preciso avaliar o paciente como um todo.

Monitorização de Sinais de Sangramento

O enfermeiro deve realizar um exame físico minucioso em busca de sinais de sangramento, mesmo que o paciente não apresente queixas. Devemos observar a presença de petéquias, equimoses (manchas roxas) sem causa traumática, sangramento gengival durante a higiene oral e epistaxe (sangramento nasal). Além disso, é fundamental orientar o paciente a observar a cor da urina (hematúria) e das fezes (melena ou sangue vivo).

Cuidados com a Segurança no Leito

Para pacientes com INR alargado, o risco de queda torna-se uma emergência potencial. Uma queda simples que causaria apenas um hematoma em uma pessoa comum pode causar uma hemorragia intracraniana fatal em um paciente anticoagulado. Portanto, as grades do leito devem estar sempre elevadas, o ambiente livre de obstáculos e o paciente orientado a não se levantar sem auxílio.

Educação em Saúde: A Dieta e os Medicamentos

A orientação sobre a vitamina K é talvez o ponto onde a enfermagem mais brilha. Não se deve proibir o paciente de comer folhas verdes (como brócolis, espinafre e couve), mas sim orientá-lo a manter uma ingestão constante. Mudanças bruscas na dieta — como comer muita salada em uma semana e nada na outra — causam oscilações violentas no INR. Além disso, o paciente deve ser alertado sobre o uso de automedicação, especialmente anti-inflamatórios e aspirina, que podem aumentar drasticamente o risco de sangramento.

A importância da INR na segurança do paciente

A INR é um exame simples, mas com impacto direto na prevenção de eventos graves. Seu controle adequado reduz o risco tanto de trombose quanto de hemorragias, sendo um verdadeiro indicador de equilíbrio terapêutico.

Para a enfermagem, compreender o significado da INR e saber agir diante de valores alterados é uma competência essencial para a prática segura e baseada em evidências.

A INR é um parâmetro fundamental na avaliação da coagulação sanguínea, especialmente em pacientes em uso de anticoagulantes orais. O termo “INR alargado” indica aumento do risco de sangramento e exige vigilância clínica constante.

O domínio desse conhecimento permite à enfermagem atuar de forma preventiva, identificar precocemente complicações e contribuir para a segurança e qualidade da assistência.

Mais do que um número no exame, a INR representa um dado clínico que precisa ser interpretado com responsabilidade e visão integral do paciente.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Manual de Vigilância Sanitária sobre Eventos Adversos a Medicamentos. Brasília: Anvisa, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br. 
  2. BRUNTON, Laurence L.; HILAL-DANDAN, Randa; KNOLLMANN, Björn C. As Bases Farmacológicas da Terapêutica de Goodman & Gilman. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 2019.
  3. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO (COREN-SP). Guia de Bolso de Farmacologia para Enfermagem. São Paulo: COREN-SP, 2021. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br. 
  4. GUYTON, Arthur C.; HALL, John E. Tratado de Fisiologia Médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  5. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Standardization of Prothrombin Time and INR. 2024. Disponível em: https://www.who.int/bloodproducts/publications/en/
  6. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de anticoagulação oral. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br 
  7. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
  8. HOFFBRAND, A. V.; MOSS, P. A. H. Fundamentos de hematologia. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
  9. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Diretriz de anticoagulação oral. Disponível em: https://www.cardiol.br
  10. MAYO CLINIC. INR test: What it is and why it’s done. Disponível em: https://www.mayoclinic.org

Eritrócitos

Os eritrócitos, também conhecidos como glóbulos vermelhos ou hemácias, são as células mais abundantes do nosso sangue e desempenham um papel crucial para a nossa sobrevivência.

Para nós, estudantes de enfermagem, compreender a estrutura, a função e as alterações dessas minúsculas células é fundamental para entender uma vasta gama de condições clínicas e para prestar cuidados eficazes aos nossos pacientes. Vamos mergulhar no fascinante mundo dos nossos pequenos heróis vermelhos?

A Missão Primordial: O Transporte de Oxigênio e Dióxido de Carbono

A principal função dos eritrócitos é o transporte de oxigênio dos pulmões para todos os tecidos do corpo e o transporte de dióxido de carbono (um produto residual do metabolismo celular) dos tecidos de volta aos pulmões para ser eliminado. Essa troca gasosa é essencial para a manutenção da vida e para o funcionamento adequado de todos os órgãos e sistemas do nosso organismo.

Essa tarefa vital é realizada graças a uma proteína especializada presente no interior dos eritrócitos: a hemoglobina. Cada molécula de hemoglobina contém quatro átomos de ferro, e é a esses átomos que as moléculas de oxigênio se ligam de forma reversível nos pulmões.

Nos tecidos com baixa concentração de oxigênio, a hemoglobina libera o oxigênio, permitindo que as células o utilizem para produzir energia. Da mesma forma, a hemoglobina também se liga ao dióxido de carbono, facilitando seu transporte de volta aos pulmões para ser expirado.

Uma Forma Perfeita para a Função: A Anatomia Singular dos Eritrócitos

Os eritrócitos possuem uma forma única: um disco bicôncavo, achatado no centro e mais espesso nas bordas. Essa forma peculiar confere diversas vantagens importantes:

  • Aumento da Área de Superfície: A forma bicôncava aumenta a área de superfície da célula em relação ao seu volume, facilitando a difusão rápida e eficiente do oxigênio e do dióxido de carbono através da membrana celular.
  • Flexibilidade e Deformabilidade: Os eritrócitos precisam passar por capilares sanguíneos muito estreitos, por vezes com um diâmetro menor que o seu próprio. Sua forma e a presença de proteínas específicas no citoesqueleto da membrana celular conferem grande flexibilidade e deformabilidade, permitindo que eles se espremam através desses vasos minúsculos sem se romper.
  • Ausência de Núcleo e Organelas: Os eritrócitos maduros não possuem núcleo nem organelas como mitocôndrias e retículo endoplasmático. Essa característica maximiza o espaço disponível dentro da célula para a hemoglobina, otimizando a capacidade de transporte de gases. A ausência de mitocôndrias significa que os eritrócitos não consomem o oxigênio que transportam.

Uma Vida Efêmera, uma Produção Constante: O Ciclo de Vida dos Eritrócitos

Os eritrócitos têm uma vida útil relativamente curta, em torno de 120 dias. Após esse período, tornam-se menos flexíveis e mais propensos a serem removidos da circulação pelo baço, fígado e medula óssea, onde seus componentes são reciclados.

A produção de novos eritrócitos, um processo chamado eritropoiese, ocorre principalmente na medula óssea vermelha. Esse processo é finamente regulado por um hormônio chamado eritropoetina (EPO), produzido principalmente pelos rins em resposta à diminuição da concentração de oxigênio no sangue (hipóxia). Quando os níveis de oxigênio estão baixos, os rins liberam mais EPO, estimulando a medula óssea a produzir mais eritrócitos.

Para a eritropoiese ocorrer de forma adequada, são necessários diversos nutrientes, incluindo ferro (essencial para a síntese da hemoglobina), vitamina B12 e ácido fólico (importantes para a divisão celular e a maturação dos eritrócitos). A deficiência desses nutrientes pode levar a diferentes tipos de anemia, caracterizadas por uma diminuição no número ou na função dos eritrócitos.

O Olhar da Enfermagem: Implicações Clínicas e Cuidados Essenciais

Entender os eritrócitos e suas funções tem implicações diretas em nossa prática de enfermagem:

  • Avaliação da Oxigenação: A avaliação da coloração da pele e mucosas (palidez, cianose), da frequência respiratória, da frequência cardíaca e da saturação de oxigênio (SpO2) nos fornece informações indiretas sobre a capacidade dos eritrócitos de transportar oxigênio de forma eficaz.
  • Interpretação de Exames Laboratoriais: Exames como o hemograma completo fornecem informações detalhadas sobre o número de eritrócitos (contagem de glóbulos vermelhos), a concentração de hemoglobina e o hematócrito (a porcentagem do volume sanguíneo ocupada pelos eritrócitos). Alterações nesses parâmetros podem indicar anemias, policitemia (aumento anormal do número de eritrócitos) ou outras condições.
  • Identificação de Sinais de Anemia: Estar atento aos sinais e sintomas de anemia, como fadiga, palidez, falta de ar, tontura, cefaleia e taquicardia, é crucial para a identificação precoce e o manejo adequado.
  • Administração de Hemotransfusão: Em situações de anemia grave ou perda sanguínea aguda, a administração de concentrado de eritrócitos (hemotransfusão) pode ser necessária para restaurar a capacidade de transporte de oxigênio. A enfermagem desempenha um papel fundamental na verificação da compatibilidade sanguínea, na monitorização do paciente durante e após a transfusão e na identificação de possíveis reações transfusionais.
  • Cuidados em Pacientes com Policitemia: Em pacientes com policitemia, que apresentam um risco aumentado de trombose devido ao sangue mais viscoso, os cuidados de enfermagem podem incluir a orientação sobre a importância da hidratação adequada e a monitorização de sinais de eventos tromboembólicos.
  • Orientação Nutricional: Fornecer orientações sobre a importância de uma dieta rica em ferro, vitamina B12 e ácido fólico para a produção saudável de eritrócitos, especialmente em grupos de risco como gestantes, crianças e idosos.
  • Monitorização de Pacientes com Insuficiência Renal Crônica: Pacientes com doença renal crônica frequentemente apresentam anemia devido à produção reduzida de eritropoetina pelos rins. A enfermagem monitora os níveis de hemoglobina e administra eritropoetina sintética conforme a prescrição médica.

Compreender a fisiologia dos eritrócitos é essencial para fornecer um cuidado holístico e informado aos nossos pacientes, permitindo-nos reconhecer as manifestações clínicas de alterações na sua função e participar ativamente do plano de tratamento.

Referências:

  1. GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  2. ABBAS, A. K.; LICHTMAN, A. H.; PILLAI, S. Imunologia Celular e Molecular. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019.
  3. HOFFBRAND, A. V.; MOSS, P. A. H.; PETTIT, J. E. Hematologia Essencial. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. 

Entendendo sobre o Fator RH

No vasto universo da hematologia, um conceito se destaca pela sua importância clínica, especialmente quando falamos sobre transfusões sanguíneas e a saúde materno-fetal: o Fator Rh.

Embora possa parecer um tanto técnico à primeira vista, entender o Fator Rh é crucial para nós, profissionais e futuros profissionais de enfermagem, pois ele influencia diretamente a compatibilidade sanguínea e pode ter implicações significativas na prática clínica.

Vamos desmistificar esse tema de forma clara e detalhada.

O Que Raios é o Fator Rh? Uma Proteína na Membrana Vermelha

Imagine nossas células vermelhas do sangue, os glóbulos vermelhos, como pequenos veículos transportando oxigênio pelo corpo. Na superfície desses “veículos”, existem diversas proteínas, como se fossem “bandeirinhas” que identificam o tipo sanguíneo de cada pessoa (sistema ABO, por exemplo). O Fator Rh é justamente uma dessas “bandeirinhas”, uma proteína específica chamada antígeno D.

Se uma pessoa possui essa proteína D na superfície de suas hemácias, dizemos que ela é Rh positiva (Rh+). É como se o “veículo” tivesse essa “bandeirinha” do Rh. Por outro lado, se essa proteína está ausente, a pessoa é classificada como Rh negativa (Rh-), ou seja, o “veículo” não possui essa “bandeirinha” específica.

Essa simples presença ou ausência dessa proteína tem implicações importantes, principalmente quando se trata de misturar sangue de diferentes pessoas, como em transfusões, ou durante a gestação, quando o sangue da mãe e do bebê podem entrar em contato.

A Genética por Trás do Rh: Uma Herança Familiar

A presença ou ausência do Fator Rh é determinada geneticamente, sendo herdada dos nossos pais. O gene responsável pelo Fator Rh pode apresentar duas formas principais, ou alelos: o alelo D (dominante) e o alelo d (recessivo).

Uma pessoa será Rh positiva (Rh+) se herdar pelo menos um alelo D (podendo ter as combinações DD ou Dd). Já para ser Rh negativa (Rh-), a pessoa precisa herdar dois alelos d (combinação dd). Essa herança genética explica por que pais Rh+ podem ter filhos Rh- e vice-versa, dependendo das combinações genéticas que eles possuem.

A Importância Clínica: Transfusões Sanguíneas e a Incompatibilidade Rh

A principal relevância do Fator Rh reside na compatibilidade sanguínea durante as transfusões. Assim como no sistema ABO, onde é crucial transfundir sangue compatível para evitar reações transfusionais graves, o mesmo se aplica ao Fator Rh.

  • Receptor Rh+: Uma pessoa Rh positiva pode receber sangue tanto de doadores Rh+ quanto Rh-, pois seu organismo já reconhece a proteína D como “própria” e não irá atacá-la.
  • Receptor Rh-: Uma pessoa Rh negativa, por outro lado, não possui a proteína D. Se receber sangue Rh+, seu sistema imunológico reconhecerá essa proteína como “estranha” e poderá desenvolver anticorpos anti-D. Em uma transfusão subsequente com sangue Rh+, essa pessoa poderá apresentar uma reação hemolítica transfusional, uma complicação grave. Portanto, receptores Rh- devem idealmente receber apenas sangue Rh-.

Essa necessidade de compatibilidade Rh é fundamental na prática transfusional para garantir a segurança do paciente.

A Incompatibilidade Rh na Gestação: Um Risco para o Bebê

A incompatibilidade Rh também assume um papel crucial durante a gestação, quando uma mãe Rh negativa (Rh-) carrega um feto Rh positivo (Rh+), herdando o fator Rh do pai. Essa situação, conhecida como incompatibilidade Rh materno-fetal, pode levar a complicações sérias para o bebê.

Durante a primeira gestação de um feto Rh+ por uma mãe Rh-, geralmente não há problemas significativos, pois o sangue da mãe e do feto normalmente não se misturam em grande quantidade. No entanto, durante o parto ou em procedimentos invasivos durante a gravidez (como amniocentese), pode ocorrer uma pequena passagem de sangue fetal Rh+ para a circulação materna Rh-.

O sistema imunológico da mãe Rh- reconhecerá as hemácias Rh+ do feto como “estranhas” e começará a produzir anticorpos anti-D. Esses anticorpos são como “soldados” de defesa. Na primeira gestação, a produção desses anticorpos geralmente é lenta e em quantidade insuficiente para causar grandes problemas ao feto.

O problema surge em gestações subsequentes de fetos Rh+. Os anticorpos anti-D já produzidos na primeira gestação (a “memória” imunológica) podem atravessar a placenta e atacar as hemácias Rh+ do novo feto. Essa destruição das hemácias fetais leva à Doença Hemolítica do Recém-Nascido (DHRN), também conhecida como eritroblastose fetal.

A DHRN pode variar de leve a grave, causando anemia, icterícia (pele e olhos amarelados), hidropisia fetal (inchaço generalizado) e, em casos extremos, levar ao óbito do feto ou do recém-nascido.

A Prevenção é a Chave: A Imunoglobulina Anti-Rh (Matergam)

Felizmente, existe uma forma eficaz de prevenir a DHRN: a administração de imunoglobulina anti-Rh (IgG anti-D), popularmente conhecida como Matergam. Essa imunoglobulina é uma solução contendo anticorpos anti-D prontos.

A administração da IgG anti-D à mãe Rh- em momentos estratégicos da gravidez (geralmente por volta da 28ª semana de gestação) e dentro de 72 horas após o parto de um bebê Rh+ impede que o sistema imunológico materno seja sensibilizado e comece a produzir seus próprios anticorpos anti-D. A IgG anti-D age como uma “capa” nas hemácias fetais que possam ter entrado na circulação materna, “escondendo-as” do sistema imune da mãe.

A administração da IgG anti-D também é recomendada após eventos que possam levar à mistura de sangue materno e fetal, como aborto, gravidez ectópica, amniocentese ou sangramento vaginal durante a gestação.

Cuidados de Enfermagem Essenciais Relacionados ao Fator Rh

Como profissionais de enfermagem, precisamos estar atentos aos aspectos relacionados ao Fator Rh em diversas situações:

  • Na assistência pré-natal: Identificar gestantes Rh- e verificar o fator Rh do parceiro. Realizar o Coombs indireto na gestante para verificar a presença de anticorpos anti-D. Administrar a imunoglobulina anti-Rh profilaticamente conforme o protocolo.
  • Durante o trabalho de parto e parto: Estar atento ao fator Rh da mãe e do recém-nascido. Administrar a imunoglobulina anti-Rh à mãe Rh- com recém-nascido Rh+ dentro do prazo recomendado.
  • Em transfusões sanguíneas: Garantir a compatibilidade Rh entre doador e receptor, seguindo rigorosamente os protocolos de segurança transfusional.
  • Na coleta de amostras: Identificar corretamente o fator Rh do paciente nos exames laboratoriais.
  • Na educação do paciente e da família: Explicar a importância do Fator Rh, especialmente para gestantes Rh- e pacientes que necessitam de transfusão.

A nossa atenção e conhecimento sobre o Fator Rh são cruciais para prevenir complicações graves e garantir a segurança e o bem-estar dos nossos pacientes.

O Fator Rh, embora seja uma característica simples das nossas células sanguíneas, possui implicações profundas na prática clínica da enfermagem. Compreender sua genética, sua importância na compatibilidade sanguínea e seu papel na gestação nos capacita a prestar um cuidado mais seguro, informado e humanizado.

Ao longo da nossa jornada como estudantes e futuros profissionais, o conhecimento sobre o Fator Rh será um aliado indispensável em diversas situações de cuidado.

Referências:

  1. ABO Blood Group System. (2023, December 1). In Wikipedia. https://en.wikipedia.org/wiki/ABO_blood_group_system
  2. Rh blood group system. (2024, March 28). In Wikipedia. https://en.wikipedia.org/wiki/Rh_blood_group_system
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Manual de atenção à mulher no ciclo gravídico-puerperal. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_atencao_mulher_ciclo_gravidico_puerperal.pdf
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual Técnico de Hemoterapia. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude.
  5. AMERICAN PREGNANCY ASSOCIATION. Rh Factor. 2023. Disponível em: https://americanpregnancy.org.
  6. SOCIEDADE BRASILEIRA DE HEMOTERAPIA. Diretrizes para Transfusão Sanguínea. 2022. Disponível em: https://www.sbht.org.br.

Os 7 Certos da Transfusão Sanguínea

A transfusão sanguínea é um procedimento essencial para salvar vidas, mas requer cuidados específicos para garantir a segurança do paciente. A prática dos 7 Certos da Transfusão é fundamental para evitar erros e garantir a eficácia do tratamento.

Neste artigo, vamos detalhar cada um desses certos e sua importância.

1. Paciente Certo

  • Identificação precisa: É essencial confirmar a identidade do paciente por meio de dois métodos de identificação, como nome completo e data de nascimento, antes de iniciar a transfusão.
  • Compatibilidade sanguínea: O grupo sanguíneo e o fator Rh do paciente devem ser compatíveis com o hemocomponente a ser transfundido.

2. Hemocomponente Certo

  • Tipo de hemocomponente: O hemocomponente a ser transfundido (concentrado de hemácias, plaquetas, plasma fresco congelado, etc.) deve estar de acordo com a prescrição médica e a necessidade clínica do paciente.
  • Compatibilidade individual: Além da compatibilidade ABO e Rh, outros testes podem ser necessários para garantir a compatibilidade individual do paciente com o hemocomponente.

3. Volume Certo

  • Cálculo preciso: O volume de hemocomponente a ser transfundido deve ser calculado com base no peso do paciente, na indicação clínica e na concentração do hemocomponente.
  • Taxa de infusão: A taxa de infusão deve ser adequada para evitar sobrecarga circulatória e outras complicações.

4. Via Certa

  • Acesso venoso adequado: A transfusão deve ser realizada por via venosa, preferencialmente por um cateter de calibre adequado.
  • Local de infusão: A veia escolhida para a infusão deve ser adequada e livre de complicações, como flebite ou infiltração.

5. Tempo de Infusão Certo

  • Respeito aos protocolos: O tempo de infusão de cada hemocomponente deve seguir os protocolos estabelecidos, variando de acordo com o tipo de hemocomponente e a condição clínica do paciente.
  • Monitoramento contínuo: O paciente deve ser monitorado durante toda a transfusão para identificar qualquer reação adversa.

6. Monitoramento Certo

  • Sinais vitais: A pressão arterial, frequência cardíaca, temperatura e saturação de oxigênio devem ser monitorados antes, durante e após a transfusão.
  • Reações transfusionais: É fundamental estar atento a sinais de reações transfusionais, como febre, calafrios, urticária, dor torácica e dispneia.

7. Registro Certo

  • Documentação completa: Todos os detalhes da transfusão, incluindo o tipo de hemocomponente, volume transfundido, tempo de infusão, reações adversas e assinatura do profissional responsável, devem ser registrados no prontuário do paciente.

A importância de seguir os 7 Certos da Transfusão

Ao seguir rigorosamente os 7 Certos da Transfusão, é possível reduzir significativamente o risco de erros e complicações relacionadas à transfusão sanguínea, garantindo a segurança e o bem-estar do paciente.

Outras medidas importantes

Além dos 7 Certos, outras medidas são importantes para garantir a segurança da transfusão, como:

  • Treinamento dos profissionais: Todos os profissionais envolvidos na transfusão devem receber treinamento adequado.
  • Verificação dupla: A verificação dupla dos componentes sanguíneos antes da transfusão é fundamental.
  • Hemovigilância: A hemovigilância é um sistema de monitoramento contínuo da segurança da transfusão, que permite identificar e investigar eventos adversos.

A transfusão sanguínea é um procedimento complexo que exige atenção e cuidado. Ao seguir os 7 Certos da Transfusão e adotar as medidas de segurança recomendadas, é possível garantir a eficácia do tratamento e minimizar os riscos para o paciente.

Referências:

  1. HEMOCENTRO DE BRASÍLIA. Cartilha de transfusão segura. Brasília: Hemocentro de Brasília, 2021. Disponível em: <https://www.hemocentro.df.gov.br/wp-content/uploads/2021/04/cartilha-transfusao-segura-032021.pdf&gt;. 
  2. Biblioteca Virtual em Saúde

Tempo de Infusão dos Hemocomponentes

A transfusão de sangue é um procedimento médico fundamental que salva vidas, sendo utilizada para tratar diversas condições médicas, como anemia grave, hemorragias e distúrbios da coagulação.

No entanto, para garantir a segurança e a eficácia desse procedimento, é essencial que todos os profissionais envolvidos compreendam os aspectos técnicos da transfusão, incluindo o tempo de infusão dos hemocomponentes.

O que são Hemocomponentes?

Hemocomponentes são componentes sanguíneos obtidos a partir do sangue doado. Eles podem ser concentrados de hemácias, plaquetas, plasma fresco congelado, entre outros. Cada um desses componentes possui funções específicas no organismo e requer cuidados específicos durante a transfusão.

A Importância do Tempo de Infusão

O tempo de infusão de um hemocomponente é o período durante o qual ele é administrado ao paciente. Esse fator é crucial por diversos motivos:

  • Eficácia da transfusão: Cada hemocomponente possui um tempo ideal de infusão para garantir a máxima eficácia da transfusão. Infusões muito rápidas ou muito lentas podem comprometer os resultados esperados.
  • Reações adversas: A velocidade de infusão pode influenciar a ocorrência de reações adversas à transfusão, como febre, calafrios e reações alérgicas.
  • Sobrecarga circulatória: A infusão rápida de grandes volumes de sangue pode sobrecarregar o sistema cardiovascular, especialmente em pacientes com condições cardíacas preexistentes.
  • Risco de coagulação: A formação de coágulos dentro da bolsa de sangue ou no cateter pode ocorrer se a infusão for muito lenta, comprometendo a qualidade do produto.

O Guia para Uso de Hemocomponentes do Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde, em seu guia para uso de hemocomponentes, estabelece diretrizes claras sobre o tempo de infusão de cada tipo de hemocomponente. Essas diretrizes são fundamentadas em evidências científicas e visam garantir a segurança e a qualidade da transfusão sanguínea no Brasil.

Tempo de Infusão dos Principais Hemocomponentes

  • Concentrado de Hemácias: O tempo de infusão geralmente varia entre 1 hora e 30 minutos e 4 horas. No entanto, em situações específicas, como em pacientes com sobrecarga volêmica ou doença cardíaca grave, o tempo de infusão pode ser mais prolongado, sempre respeitando o limite máximo de 4 horas.
  • Concentrado de Plaquetas: O tempo de infusão costuma ser mais curto, variando entre 5 e 30 minutos.
  • Plasma Fresco Congelado: O tempo de infusão é de aproximadamente 30 minutos em adultos e crianças, não excedendo a velocidade de infusão de 20-30mL/kg/hora.

É importante ressaltar que esses são valores médios e que o tempo de infusão ideal para cada paciente pode variar de acordo com diversos fatores, como idade, peso, condição clínica e tipo de hemocomponente.

O conhecimento do tempo de infusão dos hemocomponentes é fundamental para garantir a segurança e a eficácia da transfusão sanguínea. O guia para uso de hemocomponentes do Ministério da Saúde oferece orientações valiosas para os profissionais de saúde, mas é essencial que cada caso seja avaliado individualmente.

Ao seguir as recomendações do guia e realizar um acompanhamento rigoroso do paciente durante a transfusão, é possível minimizar os riscos e otimizar os resultados do tratamento.

Referência:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. 64 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_uso_hemocomponentes_2ed.pdf

Mielograma: Saiba tudo sobre este exame!

O mielograma, também conhecido como punção aspirativa da medula óssea, é um exame que permite analisar a medula óssea, o tecido responsável pela produção das células do sangue. Através dele, é possível identificar diversas doenças que afetam a medula óssea, como leucemias, linfomas e mieloma múltiplo.

Quem coleta o material para o mielograma?

O mielograma é um procedimento médico realizado por um profissional de saúde especializado, geralmente um hematologista ou oncologista. A coleta é feita em um ambiente hospitalar ou em um centro de diagnóstico por imagem.

Como é feito o mielograma?

O procedimento consiste em uma pequena punção em um osso, geralmente o ilíaco (osso do quadril), o esterno ou a tíbia. O local da punção é anestesiado com um medicamento local, para garantir o conforto do paciente. Em seguida, o médico insere uma agulha especial para coletar uma pequena amostra da medula óssea. A coleta pode causar um leve desconforto durante e logo após o procedimento, mas a dor é geralmente tolerável.

Que tubo de amostra é utilizado?

O material coletado no mielograma é geralmente colocado em um tubo com anticoagulante (EDTA), que impede a coagulação do sangue e permite a análise das células da medula óssea. O tipo de tubo utilizado pode variar de acordo com os exames que serão realizados.

Para que exames o mielograma é indicado?

  • Diagnosticar: diversas doenças que afetam a medula óssea, como leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, anemia aplástica, síndromes mielodisplásicas e outras.
  • Acompanhar o tratamento: avaliar a resposta ao tratamento de doenças hematológicas e monitorar a recuperação da medula óssea após quimioterapia ou radioterapia.
  • Identificar a causa de: anemia, alterações nas plaquetas ou leucócitos, e outras alterações sanguíneas.

É importante ressaltar que o mielograma é um procedimento seguro e eficaz, mas como qualquer procedimento médico, apresenta alguns riscos, como:

  • Sangramento no local da punção
  • Infecção
  • Dor
  • Reações alérgicas ao anestésico

Referências:

  1. Lavoisier: https://lavoisier.com.br/saude/mielograma
  2. Grupo Oncoclínicas: https://grupooncoclinicas.com/servicos/mielograma-biopsia-de-medula-ossea

Crioglobulinemia

A Crioglobulinemia é um distúrbio caracterizado pela presença de crioglobulinas no sangue.

As crioglobulinas são imunoglobulinas, ou anticorpos, dos tipos IgM e IgG que se aglomeram e se tornam insolúveis nas regiões do organismo onde a temperatura é fria, ou seja, onde a temperatura fica abaixo de 36,5ºC.

Sendo assim, nas regiões periféricas do corpo e nas regiões que atingem tal temperatura inferior, as crioglobulinas se aglomeram, podendo portanto, impedir a circulação sanguínea causando vasculites, por esse motivo, manchas arroxeadas podem aparecer na pele e apresentar o que chamamos de púrpura.

Além da pele, esses agregados podem aparecer em outros órgãos como no fígado e nos rins comprometendo o seu funcionamento.

Causas

Estudos recentes têm associado a crioglobulinemia a infecção crônica por Hepatite C. Sabe-se que está associada a doenças como leucemias e mielomas, doenças autoimunes como lúpus e artrite reumatóide, pneumonia por Mycoplasma ou glomerulonefrite causada por Streptococcus sp.

A crioglobulina, no entanto, é produto da ação do sistema imunológico em algumas doenças que causam danos aos tecidos do paciente. No caso da infecção crônica por Hepatite C, acontece uma proliferação exagerada de linfócitos B que leva uma expansão e clonagem de crioglobulinas produzidas por esses linfócitos.

Tipos de crioglobulinemias e doenças associadas:

 

  • Tipo 1: Formadas por imunoglobulinas monoclonais isoladas, geralmente formadas pela imunoglobulina do tipo M ou G (IgM ou IgG). Podem causar problemas renais associado principalmente a mieloma múltiplo e macroglobulinemia de Waldenström (doença caraterizada pela proliferação de linfócitos B que produzem imunoglobulinas do tipo M monoclonais, pode causar hepatoesplenomegalia com aumento da viscosidade sanguínea);
  • Tipo 2: Também conhecida como crioglobulinemia mista, formadas por imunocomplexos de imunoglobulina monoclonal IgM ou IgA com imunoglobulina policlonal IgG, apresenta atividade de fator reumatóide e é associada a infecções por Hepatite C e HIV;
  • Tipo 3: Também classificada como crioglobulinemia mista, formadas por imunocomplexos de imunoglobulinas policlonais apenas, sem a presença de monoclonais, são associadas a doenças autoimunes como lúpus, mas podem também aparecer em doenças infecciosas.

Qual é o exame específico para detecção da crioglobulina e outros achados laboratoriais?

O exame deve ser solicitado pelo médico como pesquisa de crioglobulina.

O sangue total deve ser colhido em tubo de vidro pré-aquecido em banho-maria a 37ºC sem qualquer aditivo ou anticoagulante, essa amostra deve ser transportada a 37ºC e deve ser colocada em banho-maria a 37ºC para coagular, após coagulação, deve-se centrifugar a amostra e separar o plasma, cerca de 1 mL para incubação a 37ºC e 1 mL para incubação a 4ºC durante 72 horas até no prazo máximo de uma semana.

Após esse período ao analisar macroscopicamente a amostra, deve-se observar a presença de um precipitado de coloração branca no tubo que foi incubado a 4ºC, esse precipitado portanto, indicada a presença de crioglobulinas.

Tratamento

 O tratamento é basicamente a administração de medicamentos imunossupressores. Porém o tratamento deve ser individualizado com estudo de caso de cada paciente.

O melhor tratamento para cada paciente é com base nos estudos das causas da crioglobulinemia, como por exemplo, nos casos onde o paciente apresenta uma hepatite C, deve-se tratar a infecção viral.

O rituximabe associado ao uso de interferon alfa pode ser indicado para o tratamento nos casos de manisfestação de crioglobulinas pós infecções virais.

Importante: Sempre procure um médico para realizar qualquer tipo de tratamento a doenças, no caso da crioglobulinemia procure um hematologista ou reumatologista.

Referências:

  1. Ramos-Casals M, Stone JH, Cid MC, Bosch X. The cryoglobulinaemias. Lancet. 2012;379(9813):348-60. http://dx.doi.org/10.1016/S0140- 6736(11)60242-0. PMid:21868085.
  2. Pramod Kerkar, MD. cryoglobulinaemia: epidemiology, causes, treatment, investigations http://www.epainassist.com/blood-diseases/cryoglobulinaemiaAccessed:April 2021
  3. SHACHAF, Shiber; YAIR, Molad. Correlação entre a síndrome antifosfolipídica e a crioglobulinemia: série de quatro casos e revisão da literatura. Rev. Bras. Reumatol., São Paulo , v. 56, n. 1, p. 2-7, Feb. 2016 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0482-50042016000100002&lng=en&nrm=iso&gt;. access on 13 Apr. 2021. https://doi.org/10.1016/j.rbr.2014.09.005.
  4. DENTI PIANA, Marjana Denti Piana et al. Crioglobulinemia: relação entre hepatite C e glomerulonefrite. Clinical & Biomedical Research, [S.l.], v. 38, n. 2, july 2018. ISSN 2357-9730. Available from < https://seer.ufrgs.br/hcpa/article/view/78671/pdf> 
  5. Dammacco F, Sansonno D. Therapy for Hepatitis C vírus-related cryoglobulinemic vasculitis. N Engl J Med. 2013;369(11):1035-45. http:// dx.doi.org/10.1056/NEJMra1208642. PMid:24024840.
  6. Binding of Hepatitis C Virus to CD81 BY PIERO PILERI, YASUSHI UEMATSU, SUSANNA CAMPAGNOLI, GIULIANO GALLI, FABIANA FALUGI, ROBERTO PETRACCA, AMY J. WEINER, MICHAEL HOUGHTON, DOMENICO ROSA, GUIDO GRANDI, SERGIO ABRIGNANI Science 30 Oct 1998: Vol. 282, Issue 5390, pp. 938-941 DOI: 10.1126/science.282.5390.938
  7. PIMENTA, Flavia C. F. et al . Macroglobulinemia de Waldenström – remissão completa após tratamento com rituximabe. Rev. Bras. Hematol. Hemoter., São Paulo , v. 30, n. 5, p. 426-429, Oct. 2008 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-84842008000500021&lng=en&nrm=iso&gt;. https://doi.org/10.1590/S1516-84842008000500021. https://askhematologist.com/cryoglobulinemia/#ixzz6rvaMkJEw

O que pode ser feito com seu sangue, após doado!

Os hemocentros são abastecidos apenas com doações, e quando elas não chegam a situação fica dramática, pois vidas podem ser perdidas pela falta de sangue.

Quem pode fazer uma doação de sangue?

Para fazer uma doação, é necessário estar em boas condições de saúde, ter entre 16 e 69 anos, pesar no mínimo 50 kg, estar descansado (ter dormido pelo menos 6 horas nas últimas 24 horas), estar alimentado (evitar alimentos gordurosos nas 4 horas que antecedem a doação).

Antes de acontecer a doação de sangue é realizada uma entrevista e triagem para verificar se o doador está apto.

O que é feito com o seu sangue doado?

Na doação é coletado no máximo 450 ml de sangue. Com o que foi coletado em tubos são realizados testes para classificar o seu tipo sanguíneo (Sistemas ABO e Rh) e testes sorológicos para identificar doenças infecciosas que são transmitidas pela transfusão de sangue como Sífilis, Doença de Chagas, Hepatite B, Hepatite C, Infecção pelo vírus HIV e HTLV.

O sangue coletado em bolsa é separado em até quatro componentes diferentes que são:

Concentrado de Hemácias

O objetivo da transfusão de concentrado de hemácias é melhorar a liberação de oxigênio, sendo útil principalmente nos casos de anemia aguda, crônica e em pacientes submetidos a radioterapia e/ou quimioterapia, perda aguda sanguínea, choque séptico, entre outros.

Concentrado de Plaquetas

É recomendado fazer uma transfusão de plaquetas em pacientes com disfunção plaquetária congênita ou adquirida, por meio de sangramento.

São pacientes com leucemias agudas ou que receberam transplante com células de sangue periférico, pacientes com hemorragia, febre alta e queda rápida na contagem de plaquetas, ou com tumores sólidos.

Plasma

É administrado para corrigir sangramentos, seja por anormalidade ou deficiência de um ou mais fatores de coagulação.

O plasma é utilizado para prevenção de hemorragias em doentes crônicos do fígado, para corrigir hemorragia causada pela deficiência de vitamina k, trombose por déficit de Antitrombina III, entre outros.

Crioprecipitado

Esta concentração sanguínea precipitada à frio contém fibrinogênio, que é um fator de coagulação (fator I), uma proteína necessária para a formação do coágulo, produzido no fígado e liberado junto a outros fatores.

É útil em casos de pacientes com hemorragias e déficits de fibrinogênio, sangramento pós terapêutica com drogas antifibrinolíticas. O crioprecipitado também compõe a cola de fibrina autóloga para uso tópico.

Estes “hemocomponentes” são armazenados e utilizados para transfusão somente após o resultado negativo dos testes sorológicos.

Todo cuidado é pouco com a compatibilidade

No momento da transfusão ainda há riscos de incompatibilidade, uma delas é na utilização do plasma, onde o paciente pode ter uma lesão pulmonar aguda associada à transfusão (TRALI). Isso ocorre quando acontece o encontro dos antígenos correspondentes (anti-HNA e anti-HLA) e há uma ruptura dos capilares pulmonares, iniciando um edema pulmonar.

No geral, a TRALI ocorre entre uma e duas horas após o recebimento do sangue. Porém, há casos em que os pacientes demoram até seis horas para apresentar os sintomas. Clinicamente, a pessoa acometida pela doença costuma ter um quadro agudo de falta de ar, queda de pressão e febre. No entanto, nem todas as pessoas desenvolvem a Lesão Pulmonar Aguda Relacionada à Transfusão. A incidência é maior em pacientes com algum tipo de infecção, que passaram por cirurgia cardíaca, de tórax, ou com câncer.

Existem exames que detectam estes anticorpos, como o LABScreen® Multi, que podem ser feitos antes da transfusão para evitar a TRALI.

Doador de sangue tem direito à folga no trabalho?

Sim, o doador tem direito a um dia de folga no trabalho em cada 12 meses trabalhados, desde que a doação esteja devidamente comprovada, de acordo com os termos previstos no Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943 (Consolidação das Leis do Trabalho). Esse direito também se estende ao funcionário público civil de autarquia ou militar.

Vale ressaltar que a doação de sangue é um gesto voluntário e altruísta e, portanto, não deve ser encarada como um benefício próprio.

Referências:

  1. https://epocanegocios.globo.com/Vida/noticia/2017/06/doar-sangue-da-direito-um-dia-de-folga-no-trabalho.htmlhttps://super.abril.com.br/blog/oraculo/qual-o-volume-maximo-de-sangue-que-alguem-pode-perder-e-ainda-sobreviver
  2. http://www.prosangue.sp.gov.br/duvidas/default.htmlhttp://www.saude.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=2985
  3. https://www.hospitalsiriolibanes.org.br/hospital/Documents/guia-conduta.pdf
  4. http://rmmg.org/artigo/detalhes/1684