
As hepatites virais são um importante problema de saúde pública mundial, especialmente por sua alta incidência, potencial de cronificação e complicações graves, como cirrose e câncer de fígado (carcinoma hepatocelular).
Para o estudante e o profissional de enfermagem, compreender os tipos, as formas de transmissão, diagnóstico e manejo é fundamental para garantir um cuidado seguro, humanizado e baseado em evidências.
O Que São e Como Agem? A Inflamação Silenciosa
Hepatite significa, literalmente, “inflamação do fígado” (hepar: fígado, ite: inflamação). No contexto viral, a inflamação é causada pela resposta imune do corpo à presença do vírus nas células hepáticas (hepatócitos).
- Formas Agudas (Geralmente Autolimitadas): As hepatites A e E são, na maioria dos casos, agudas. O vírus é eliminado pelo corpo em semanas ou meses.
- Formas Crônicas (Perigo Silencioso): As hepatites B, C e D podem se tornar crônicas. O vírus permanece ativo no fígado por anos ou décadas, causando inflamação contínua e silenciosa, que lentamente leva à fibrose, cirrose e, em estágios finais, ao carcinoma hepatocelular (câncer de fígado).
Essas infecções comprometem as células hepáticas, alterando funções essenciais do fígado, como metabolismo de nutrientes, síntese de proteínas e desintoxicação do organismo.
Tipos de Hepatites Virais
Hepatite A (HAV)
Causada pelo vírus da hepatite A (HAV), é uma doença aguda e autolimitada, sem evolução para cronicidade.
A transmissão ocorre por via fecal-oral, geralmente através de água ou alimentos contaminados.
- Sintomas: febre, mal-estar, icterícia, urina escura, fezes esbranquiçadas e dor abdominal.
- Prevenção: saneamento básico, higienização das mãos e vacinação (duas doses).
Hepatite B (HBV)
É uma das formas mais graves devido ao risco de cronificação. O vírus da hepatite B (HBV) pode ser transmitido por sangue, fluidos corporais, relações sexuais desprotegidas, uso de seringas compartilhadas e transmissão vertical (mãe para filho).
- Evolução: pode ser aguda ou crônica, levando a complicações como cirrose e câncer hepático.
- Prevenção: vacinação (três doses), uso de preservativos, materiais esterilizados e não compartilhamento de objetos pessoais cortantes.
- Tratamento: antivirais, acompanhamento médico e monitoramento laboratorial.
Hepatite C (HCV)
Transmitida principalmente por contato com sangue contaminado, é uma das principais causas de doença hepática crônica no mundo.
Antes da triagem rigorosa em bancos de sangue, muitas pessoas foram infectadas através de transfusões.
- Evolução: geralmente assintomática na fase inicial, mas pode progredir lentamente para cirrose e câncer.
- Tratamento: atualmente, há cura em mais de 95% dos casos, graças aos antivirais de ação direta (DAAs), que possuem alta eficácia e poucos efeitos colaterais.
- Prevenção: não existe vacina, portanto o foco é a prevenção da exposição ao sangue contaminado.
Hepatite D (HDV)
Causada pelo vírus delta, só ocorre em pessoas já infectadas pelo vírus da hepatite B, pois o HDV depende dele para se replicar. A coinfecção (HBV + HDV) tende a causar quadros mais graves e acelerar o dano hepático.
- Prevenção: a vacinação contra hepatite B também protege contra a D.
Hepatite E (HEV)
Semelhante à hepatite A, é transmitida por via fecal-oral, geralmente através de água contaminada. Comum em regiões com saneamento precário, geralmente é autolimitada, mas pode ser grave em gestantes, com risco aumentado de insuficiência hepática.
- Prevenção: saneamento básico, consumo de água potável e higiene alimentar.
Diagnóstico
O diagnóstico é feito por exames laboratoriais, que incluem:
- Sorologia específica (detecção de antígenos e anticorpos);
- Carga viral (quantificação do DNA/RNA do vírus);
- Avaliação de enzimas hepáticas (TGO, TGP, bilirrubina).
A identificação precoce é essencial para o controle da transmissão e início do tratamento adequado.
Os Sinais de Alerta: O Que a Enfermagem Deve Observar
Na fase aguda (especialmente A e B), os sintomas incluem:
- Icterícia: Coloração amarelada da pele e dos olhos.
- Colúria: Urina escura (“cor de Coca-Cola”).
- Acolia Fecal: Fezes claras.
- Fadiga Extrema e Mal-estar.
Na fase crônica (B e C), a paciente é geralmente assintomática por anos, o que ressalta a importância do rastreio sorológico.
Cuidados de Enfermagem
O papel da enfermagem nas hepatites virais é amplo e inclui ações de educação, prevenção, assistência direta e vigilância epidemiológica.
Principais cuidados:
- Orientar sobre importância da vacinação contra hepatites A e B;
- Reforçar o uso de preservativos e não compartilhamento de objetos cortantes;
- Garantir biossegurança e uso de EPI durante procedimentos com sangue;
- Acompanhar sinais e sintomas de icterícia, fadiga e alterações digestivas;
- Apoiar o paciente no tratamento medicamentoso e na adesão ao acompanhamento ambulatorial;
- Notificar casos suspeitos e confirmados conforme protocolos de vigilância.
Prevenção e Vacinação
A vacinação é uma das estratégias mais eficazes de combate às hepatites virais.
- Hepatite A: disponível no calendário vacinal infantil e para grupos de risco;
- Hepatite B: obrigatória no Brasil desde 1998, oferecida gratuitamente pelo SUS a todas as idades;
- Hepatite C: ainda sem vacina, reforçando a importância do rastreio e diagnóstico precoce.
Rastreio e Testagem
Incentivar e realizar o rastreio sorológico para Hepatites B e C (Testes Rápidos) em grupos de risco (pessoas transfundidas antes de 1993, usuários de drogas injetáveis, profissionais de saúde).
Educação em Prevenção
Orientar sobre o uso de preservativos, a não-compartilhamento de seringas, escovas de dente, lâminas de barbear e a exigência de materiais esterilizados em estúdios de tatuagem e piercing.
Adesão ao Tratamento
Pacientes com Hepatite C têm tratamento com alta taxa de cura (mais de 95% em poucos meses). Na Hepatite B, o tratamento é para controlar a replicação viral. O enfermeiro deve orientar sobre o regime de medicamentos, os efeitos colaterais e a importância de não interromper o tratamento.
Cuidados em Hepatite Aguda
Se o paciente estiver ictérico, nosso foco é no conforto, hidratação e orientação sobre repouso.
As hepatites virais continuam sendo um desafio global, mas o diagnóstico precoce, a prevenção e a vacinação têm reduzido significativamente a morbimortalidade.
O enfermeiro tem papel central nesse processo, atuando desde a educação em saúde até o monitoramento clínico de pacientes infectados.
Com conhecimento técnico e olhar humanizado, é possível transformar o cuidado e contribuir para o controle dessa importante condição de saúde pública.
Referências:
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim Epidemiológico: Hepatites Virais. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hepatites-virais.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE HEPATOLOGIA (SBH). Recomendações para o Diagnóstico e Tratamento das Hepatites Virais B e C. Disponível em: http://sbhepatologia.org.br/.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatites Virais. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Global Hepatitis Report. Geneva: WHO, 2023. Disponível em: https://www.who.int
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA. Hepatites Virais: diagnóstico, tratamento e prevenção. São Paulo, 2021. Disponível em: https://infectologia.org.br
-
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Hepatites Virais: prevenção e controle. Rio de Janeiro, 2020. Disponível em: https://portal.fiocruz.br










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