
No nosso universo de ferramentas clínicas, existe um instrumento simples, mas incrivelmente poderoso, que é a marca registrada da avaliação neurológica: o Martelo de Buck.
Se você já viu um médico ou enfermeiro testando os joelhos de um paciente, sabe exatamente do que estamos falando.
Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, o Martelo de Buck não é apenas um peso com uma borracha; ele é a chave para acessar o sistema nervoso de forma não invasiva.
Saber como ele funciona, suas indicações e a forma correta de utilizá-lo é fundamental para identificar alterações nos reflexos, que são o primeiro sinal de problemas neurológicos ou ortopédicos. Vamos desvendar a anatomia e a aplicação correta deste instrumento essencial?
O Que É o Martelo de Buck?
O Martelo de Buck (ou Martelo de Reflexos de Buck) é um instrumento médico projetado especificamente para avaliar os reflexos tendíneos profundos (reflexos osteotendíneos) e, em algumas versões, realizar um rápido exame sensorial. Ele é um dos modelos de martelo de reflexos mais comuns no Brasil e em várias partes do mundo.
- Sua Anatomia: Ele geralmente possui um cabo de metal e duas cabeças de borracha de tamanhos diferentes. A parte mais interessante é que o Martelo de Buck muitas vezes contém ferramentas embutidas, tornando-o um kit de avaliação compacto:
- Ponta Romba: Na base do cabo, pode haver uma ponta fina, usada para testar a sensibilidade da pele (estímulo doloroso, por exemplo).
- Pincel: Em algumas versões, a parte oposta à ponta romba tem um pincel, usado para testar a sensibilidade tátil superficial.
Indicações de uso
A principal função do Martelo de Buck é testar a integridade do arco reflexo, que é a via nervosa responsável por um reflexo. Essa avaliação é crucial em diversas situações:
- Suspeita de Lesão Neurológica: Se o paciente apresentar sintomas como fraqueza muscular, dormência, ou histórico de trauma craniano/espinhal.
- Monitoramento de Condições Crônicas: Pacientes com Esclerose Múltipla, doença de Parkinson, ou neuropatias diabéticas precisam de monitoramento regular de seus reflexos.
- Avaliação Pediátrica: Usado para avaliar os reflexos primitivos e o desenvolvimento neurológico em crianças.
- Avaliação Ortopédica: Dor nas costas ou nos membros pode estar ligada a compressão de raízes nervosas (radiculopatias), e a alteração dos reflexos ajuda a localizar o nível da lesão.
Como Utilizar?
O segredo para um teste de reflexo bem-sucedido é garantir que o músculo esteja relaxado e que o golpe seja rápido e preciso. O martelo deve ser segurado pelo cabo, permitindo que a cabeça de borracha balance livremente.
Os Reflexos Mais Comumente Testados:
- Reflexo Patelar (Joelho):
- Como fazer: O paciente deve estar sentado com as pernas pendentes, ou deitado com o examinador apoiando as pernas. Localize o tendão patelar (logo abaixo da rótula). Bata levemente, mas com firmeza, no tendão.
- Resposta Esperada: Contração do músculo quadríceps e extensão da perna.
- Reflexo Aquileu (Tornozelo):
- Como fazer: Com o paciente sentado, apoie o pé em uma leve dorsiflexão (apontando para cima). Bata no tendão de Aquiles (na parte de trás do tornozelo).
- Resposta Esperada: Flexão plantar (o pé se move para baixo).
- Reflexo Bicipital (Braço):
- Como fazer: O paciente deve estar com o braço dobrado (em flexão) e relaxado. O examinador coloca o polegar sobre o tendão do bíceps (na parte interna do cotovelo) e bate com o martelo no seu próprio polegar.
- Resposta Esperada: Contração do bíceps e flexão do antebraço.
A Pontuação (Crucial para o Registro):
Os reflexos são classificados por um sistema de escore, que deve ser registrado por nós no prontuário:
- 0: Reflexo Ausente.
- 1+: Hiporreflexia (reflexo diminuído ou lento).
- 2+: Reflexo Normal (ativo e esperado).
- 3+: Hiperreflexia (reflexo exagerado ou mais vivo que o normal).
- 4+: Clônus (reflexo repetitivo e oscilatório, patológico).
Cuidados de Enfermagem
O enfermeiro é frequentemente o primeiro a notar uma alteração sutil nos reflexos, o que exige um cuidado meticuloso.
- Preparação do Paciente: Garantir que o paciente esteja relaxado. A ansiedade ou a tensão muscular inibem os reflexos. Se necessário, utilizar a Manobra de Jendrassik (pedir ao paciente para apertar os dentes ou entrelaçar os dedos e puxar) para distraí-lo e potencializar a resposta do reflexo.
- Documentação Rigorosa: Registrar o escore de cada reflexo testado, lado a lado (direito e esquerdo), no prontuário. Uma diferença entre os lados (assimetria) é um sinal de alerta neurológico.
- Higiene: Por ser um instrumento de contato com a pele, o Martelo de Buck deve ser limpo e desinfetado entre o uso em diferentes pacientes.
- Comunicação: Qualquer alteração (reflexo ausente, muito exagerado ou assimétrico) deve ser imediatamente comunicada à equipe médica para uma investigação mais aprofundada.
Importância clínica
O exame com o martelo de Buck não é invasivo e fornece dados valiosos sobre o funcionamento neurológico do paciente. A alteração nos reflexos pode indicar desde lesões nervosas periféricas até doenças graves, como esclerose múltipla, neuropatias, distúrbios metabólicos ou lesões medulares. Por isso, mesmo sendo um instrumento simples, seu uso adequado é determinante para a prática clínica.
O Martelo de Buck é um símbolo da avaliação neurológica. Dominar seu uso e interpretação nos permite ser profissionais mais eficazes na detecção precoce de problemas no sistema nervoso, contribuindo diretamente para um diagnóstico mais rápido e um tratamento mais direcionado.
Referências:
- BICKLEY, L. S.; SZILAGYI, P. G.; HOFFMAN, R. M. Bates: Guia de Bolso para Exame Físico e História Clínica. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. (Consultar os capítulos sobre o sistema nervoso).
- POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar os capítulos sobre exame físico neurológico).
- BRASIL. Ministério da Saúde. Exame neurológico: manual prático. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/exame_neurologico_manual_pratico.pdf.
- MACHADO, A. B. M. Neuroanatomia funcional. 4. ed. São Paulo: Atheneu, 2014.
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NETTER, F. H. Atlas de Anatomia Humana. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.










