NANDA agora é INKA

Em maio de 2026, a antiga NANDA International concluiu a transição para International Nursing Knowledge Association (INKA). A mudança foi construída durante anos: os membros aprovaram essa direção em 2016, quando mais de 80% votaram favoravelmente à evolução do nome institucional. A justificativa está relacionada à ampliação do trabalho da organização, que passou a abranger não somente diagnósticos, mas também avaliação, raciocínio clínico, processo de enfermagem, informática e desenvolvimento do conhecimento próprio da enfermagem.

NANDA acabou?

Não.

Essa é provavelmente a informação mais importante para quem está estudando enfermagem. A NANDA continua existindo como nome da classificação de diagnósticos de enfermagem, enquanto INKA é o nome da associação profissional responsável pela governança, desenvolvimento, revisão e disseminação dessas classificações.

Na prática, portanto, podemos pensar assim:

INKA = associação

NANDA = classificação de diagnósticos de enfermagem

NANDA 360 = proposta ampliada de classificação integrada e raciocínio clínico

Essa distinção também ajuda a entender por que você continuará encontrando o termo NANDA em livros, artigos, aulas e materiais acadêmicos.

Por que trocar NANDA por INKA?

A sigla NANDA ficou historicamente associada à expressão North American Nursing Diagnosis Association, nome utilizado quando a organização foi criada em 1982. Em 2002, passou a se chamar NANDA International, acompanhando sua expansão global. Com o tempo, porém, sua atuação ficou mais ampla do que a classificação de diagnósticos.

O novo nome, International Nursing Knowledge Association, procura representar justamente essa expansão: o foco passa a ser o desenvolvimento do conhecimento de enfermagem, incluindo avaliação, julgamento clínico, diagnóstico, resultados, intervenções e utilização desse conhecimento na prática, educação, pesquisa e sistemas informatizados.

E o diagnóstico de enfermagem?

Continua sendo fundamental. A própria INKA afirma que os diagnósticos de enfermagem permanecem no centro de sua missão. O que muda é a perspectiva: o diagnóstico não é tratado isoladamente, mas como parte de um processo maior de raciocínio clínico, começando pela avaliação e chegando às ações e aos resultados esperados.

Isso tem uma consequência interessante para quem está na graduação. Ao estudar um diagnóstico da classificação NANDA, vale cada vez mais compreender qual dado da avaliação sustenta o julgamento clínico, quais resultados podem ser estabelecidos e quais ações de enfermagem fazem sentido para aquela situação.

NANDA 360 entra nessa história

A mudança institucional também acompanha o desenvolvimento do NANDA 360, que amplia a visão tradicional das classificações e procura integrar avaliação, diagnóstico, objetivos, resultados e ações dentro de uma estrutura voltada ao raciocínio clínico. A organização esclarece que NANDA 360 não é simplesmente uma troca de nome para sistemas anteriores de linguagem padronizada, mas uma proposta própria que está sendo desenvolvida e apresentada à comunidade científica.

Isso significa que o estudante pode encontrar, daqui para frente, três expressões diferentes nos materiais: INKA, quando o assunto for a associação; NANDA, quando estiver falando da classificação de diagnósticos; e NANDA 360, quando o conteúdo estiver relacionado à estrutura ampliada de conhecimento e raciocínio clínico.

! Atenção na Prova Um detalhe que pode aparecer em provas

Se uma questão perguntar “qual é o novo nome da NANDA International?”, a resposta atual é: International Nursing Knowledge Association — INKA.

Se perguntar “a NANDA deixou de existir?”, a resposta é não. NANDA permanece como nome associado à classificação de diagnósticos de enfermagem.

Esse detalhe pode parecer apenas uma atualização de nomenclatura, porém tem impacto direto nos trabalhos acadêmicos. Um aluno pode escrever “NANDA International” em uma referência antiga sem problema quando estiver contextualizando uma publicação daquele período, mas, ao falar da organização atualmente, deve reconhecer a denominação INKA.

O nome muda, o raciocínio permanece

Em uma discussão de caso clínico, é comum o aluno chegar rapidamente ao diagnóstico depois de identificar alguns sinais e sintomas. O que faz diferença na prática é voltar aos dados coletados, verificar se eles realmente sustentam o julgamento e então construir o plano de cuidados. A evolução da INKA acompanha justamente essa necessidade de conectar avaliação, diagnóstico, resultados e ações.

Em outro cenário, durante a elaboração de uma anotação ou evolução de enfermagem, uma informação aparentemente simples, como uma mudança no padrão respiratório ou na resposta do paciente ao cuidado, pode alterar a interpretação clínica. É nesse ponto que uma classificação padronizada ganha valor: ela ajuda a transformar observações clínicas em conhecimento de enfermagem organizado.

Esses dois exemplos representam situações práticas de raciocínio clínico e não devem ser apresentados como relatos pessoais do autor sem uma experiência específica fornecida por ele.

Cuidados de enfermagem

Para a enfermagem, a principal recomendação é não decorar somente os nomes dos diagnósticos. Registre dados objetivos, faça avaliação adequada, identifique respostas humanas, utilize linguagem padronizada quando indicada e relacione o diagnóstico ao planejamento, às intervenções e aos resultados.

Também é importante utilizar a edição e classificação oficialmente adotadas pela instituição ou pelo curso, porque classificações e terminologias passam por revisões periódicas.

O que você precisa lembrar

A mudança pode ser resumida em uma frase: NANDA International mudou institucionalmente para INKA, mas NANDA continua sendo o nome da classificação de diagnósticos de enfermagem.

A atualização representa uma tentativa de deixar mais claro que o conhecimento da enfermagem vai muito além de nomear diagnósticos. Avaliar, raciocinar, julgar clinicamente, planejar, agir e avaliar resultados fazem parte da mesma construção profissional.

Resumo para salvar

NANDA agora é INKA

  • NANDA International passou a se chamar International Nursing Knowledge Association (INKA)
  • NANDA continua sendo o nome da classificação de diagnósticos de enfermagem
  • INKA representa uma atuação mais ampla sobre conhecimento e raciocínio clínico em enfermagem
  • NANDA 360 amplia a integração entre avaliação, diagnóstico, resultados e ações de enfermagem

Referências:

  1. INTERNATIONAL NURSING KNOWLEDGE ASSOCIATION (INKA). Our Story. Oconto Falls: INKA, 2026. Disponível em: INKA – Our Story.
  2. INTERNATIONAL NURSING KNOWLEDGE ASSOCIATION (INKA). About INKA. Oconto Falls: INKA, 2026. Disponível em: About INKA.
  3. INTERNATIONAL NURSING KNOWLEDGE ASSOCIATION (INKA). NANDA® 360, NNN, and the Evolution of Nursing Knowledge. Oconto Falls: INKA, 2026. Disponível em: NANDA 360 e evolução do conhecimento de enfermagem.
  4. INTERNATIONAL NURSING KNOWLEDGE ASSOCIATION (INKA). Despite Organizational Name Change, Nursing Diagnoses Remain Central to Our Mission. Oconto Falls: INKA, 2025. Disponível em: Diagnósticos de enfermagem continuam centrais

Metalyse: o que a enfermagem precisa saber

Em uma emergência cardiovascular, alguns medicamentos precisam ser preparados com tanta atenção quanto rapidez. O Metalyse® é um deles. Quando o tempo está correndo, não basta saber que se trata de um “trombolítico”: é preciso reconhecer a apresentação correta, entender a indicação, conferir o peso do paciente quando aplicável e acompanhar de perto o risco de sangramento.

O que é o Metalyse?

O Metalyse® tem como princípio ativo a tenecteplase, um agente trombolítico fibrinoespecífico derivado do ativador do plasminogênio tecidual (t-PA). Sua função é favorecer a conversão do plasminogênio em plasmina, contribuindo para a degradação da fibrina presente no trombo.

No contexto do infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST), a tenecteplase pode ser utilizada como terapia fibrinolítica quando a estratégia indicada é a trombólise. O Ministério da Saúde inclui a tenecteplase entre os trombolíticos fibrinoespecíficos e apresenta o seu uso no manejo do IAMCSST.

As apresentações do Metalyse

Aqui existe uma atualização que merece atenção. O Metalyse passou a contar também com a apresentação de 25 mg, além das apresentações de 40 mg e 50 mg encontradas nas informações anteriores do produto.

A apresentação de 25 mg contém 5.000 U de tenecteplase e, após reconstituição com 5 mL de água para injetáveis, produz uma solução com 5 mg/mL, ou 1.000 U/mL. Essa apresentação de 25 mg tem uma particularidade importante: nas informações europeias atuais do produto, ela é destinada ao tratamento trombolítico do acidente vascular cerebral isquêmico agudo, com dose baseada no peso e máximo de 25 mg. Portanto, não se deve simplesmente assumir que a apresentação de 25 mg possui a mesma indicação e esquema de utilização das apresentações destinadas ao IAM.

As apresentações de 40 mg e 50 mg possuem, respectivamente, 8.000 U e 10.000 U de tenecteplase. Após reconstituição, também resultam em concentração de 5 mg/mL. No material profissional consultado para essas apresentações, o medicamento é apresentado para uso intravenoso e tratamento trombolítico do infarto agudo do miocárdio.

Apresentação Tenecteplase Diluente Concentração após reconstituição
Metalyse 25 mg 5.000 U 5 mL 5 mg/mL
Metalyse 40 mg 8.000 U 8 mL 5 mg/mL
Metalyse 50 mg 10.000 U 10 mL 5 mg/mL

Um detalhe importante para provas e para a prática: as unidades (U) do tenecteplase são específicas para esse medicamento e não podem ser comparadas diretamente com as unidades utilizadas para outros trombolíticos.

Metalyse no infarto: a dose depende do peso

Para o tratamento trombolítico do IAMCSST, a dose de tenecteplase é administrada em bólus intravenoso único, com dose ajustada ao peso. O protocolo do Ministério da Saúde apresenta o seguinte esquema: até 30 mg para pacientes com menos de 60 kg; 35 mg para 60 a menos de 70 kg; 40 mg para 70 a menos de 80 kg; 45 mg para 80 a menos de 90 kg; e 50 mg para pacientes com 90 kg ou mais.

Isso explica por que a conferência do peso é tão importante antes da administração. Para um paciente de 74 kg, por exemplo, a dose prevista nesse esquema é 40 mg. Para alguém com 86 kg, seria 45 mg. A dose máxima indicada para o IAM nesse protocolo é 50 mg.

E a apresentação de 25 mg?

Aqui está uma das novidades mais importantes da neurologia vascular brasileira nos últimos meses: em dezembro de 2025, a ANVISA aprovou oficialmente o Metalyse 25 mg para o tratamento do AVC isquêmico agudo (AVCi) no Brasil. O medicamento chegou aos hospitais brasileiros em abril de 2026, e a primeira trombólise sistêmica com essa apresentação específica já foi realizada no país, em Ribeirão Preto, sob supervisão de uma neurologista vascular.

Isso significa que a indicação deixou de ser “só uma possibilidade em bulas europeias” e passou a ser uma realidade concreta da prática nacional. Para o profissional de enfermagem, isso é relevante tanto na teoria (cai em prova) quanto na prática (já está circulando em hospitais que atendem AVC agudo).

A dose para AVCi é calculada por peso, 0,25 mg/kg, com dose máxima de 25 mg — independente do paciente pesar mais que 100 kg, o teto é sempre 25 mg. A administração é em bolus único intravenoso, aplicado em 5 a 10 segundos.

Um ponto que merece destaque redobrado: as apresentações de 40 mg e 50 mg são de uso exclusivo para o protocolo de Infarto Agudo do Miocárdio. Já a apresentação de 25 mg é a única indicada para o AVC isquêmico. Trocar essas apresentações não é um detalhe burocrático — é um erro que compromete diretamente a margem de segurança terapêutica do paciente.

A janela de tempo que define tudo no AVC

Diferente do IAM, no AVC isquêmico o fator mais decisivo antes mesmo de pensar em dose ou apresentação é o tempo desde o início dos sintomas. A trombólise intravenosa só é indicada para pacientes elegíveis tratados em até 4,5 horas após o início do quadro, conforme reconhecido pela European Stroke Organisation e por sociedades médicas internacionais.

Isso muda a lógica da triagem: antes de qualquer cálculo de peso ou preparo do medicamento, a primeira pergunta da equipe precisa ser “que horas exatamente os sintomas começaram?” — e não “quantos quilos o paciente pesa?”. Na prática de urgência, é comum que essa informação venha de um familiar, e nem sempre com precisão; por isso, documentar o horário relatado com clareza no atendimento inicial é parte do cuidado, não um detalhe administrativo.

O impacto do tempo é medido em neurônios: durante os primeiros 60 minutos após o início dos sintomas — a chamada “Hora de Ouro” — o cérebro pode perder até 1,9 milhão de neurônios por minuto sem tratamento.

Por que o Metalyse chama tanta atenção na emergência?

Uma das características práticas da tenecteplase é a possibilidade de administração em bólus intravenoso único, o que simplifica a administração em comparação com esquemas trombolíticos que exigem infusão prolongada. No cenário do IAM, essa característica também é relevante para sistemas de atendimento em que cada minuto influencia a estratégia de reperfusão.

O Ministério da Saúde inclui a tenecteplase entre as opções fibrinolíticas e estabelece critérios para avaliação da reperfusão após a trombólise. A redução significativa da dor e uma redução superior a 50% do supradesnivelamento de ST são exemplos de sinais utilizados para avaliar resposta; um novo ECG deve ser realizado entre 60 e 90 minutos após a trombólise, conforme a Linha de Cuidado do IAM.

Cuidados de enfermagem antes da administração

Antes de preparar o medicamento, a equipe precisa confirmar indicação, prescrição, peso do paciente quando necessário, apresentação disponível, concentração, validade, integridade do frasco e condições de armazenamento. Também é fundamental verificar contraindicações à fibrinólise e investigar história de sangramento, AVC, cirurgia recente, trauma e outras condições previstas no protocolo.

No IAMCSST, a decisão pela trombólise não deve ser baseada apenas na presença de dor torácica. O diagnóstico, o ECG, o tempo de início dos sintomas, as contraindicações e a possibilidade de reperfusão mecânica precisam ser considerados pela equipe responsável.

Depois da administração, a vigilância deve ser contínua. Sangramentos em locais de punção, hematúria, hematêmese, melena, epistaxe, sangramento gengival e alterações neurológicas precisam ser valorizados. Cefaleia intensa, alteração súbita do nível de consciência, déficit neurológico ou qualquer suspeita de hemorragia intracraniana exigem avaliação imediata.

Também é importante minimizar procedimentos invasivos desnecessários durante o período de maior risco hemorrágico, seguindo o protocolo institucional.

Cuidados de enfermagem específicos no AVC isquêmico

Os cuidados após a trombólise no AVC têm particularidades que não se aplicam da mesma forma ao protocolo de infarto: O controle rigoroso da pressão arterial é ainda mais crítico aqui — a PA deve estar controlada (geralmente abaixo de 185×110 mmHg) antes da administração, conforme o protocolo institucional, já que hipertensão não controlada aumenta o risco de transformação hemorrágica.

A avaliação neurológica precisa ser seriada e frequente, não pontual: reavaliações a cada 15 minutos nas primeiras horas são comuns em protocolos de AVC, observando nível de consciência, força muscular e fala. Uma piora neurológica súbita durante esse período pode ser o primeiro sinal de sangramento intracraniano e exige comunicação imediata à equipe médica.

Assim como no protocolo de IAM, anticoagulantes e antiagregantes plaquetários devem ser evitados nas primeiras 24 horas após a trombólise, salvo orientação médica específica.

Uma situação que muda tudo no plantão

Na prática de terapia intensiva, existe uma diferença enorme entre preparar um medicamento de rotina e preparar um trombolítico enquanto a equipe está aguardando a decisão de reperfusão. Em uma situação de IAMCSST, lembro de como a conferência do peso, da prescrição e da apresentação do frasco precisa acontecer praticamente em paralelo com o restante do atendimento; enquanto alguém monitoriza o paciente, outro profissional organiza o medicamento e a equipe confirma o acesso venoso.

Esse tipo de situação mostra por que decorar apenas “Metalyse é trombolítico” é insuficiente. A segurança está nos detalhes da conferência.

O acesso venoso também merece atenção

Nas informações do produto, o Metalyse reconstituído pode ser administrado por uma linha intravenosa existente quando essa linha contém cloreto de sódio 0,9%. A apresentação de 25 mg, por exemplo, não deve ser administrada em uma linha contendo solução de glicose, devido à incompatibilidade descrita nas informações do produto. Após a administração, a linha deve ser lavada conforme as instruções para garantir a entrega adequada do medicamento.

Na rotina, esse é exatamente o tipo de detalhe que pode passar despercebido quando a equipe está concentrada na urgência. Por isso, antes de conectar qualquer medicamento em uma via existente, vale conferir qual solução está sendo infundida e o protocolo institucional.

Acompanhar a reperfusão faz parte do cuidado

A administração do trombolítico não encerra o atendimento. O paciente continua precisando de monitorização cardíaca, avaliação dos sinais vitais, acompanhamento da dor e realização de ECG conforme protocolo.

No IAMCSST, quando a reperfusão não é adequada, a persistência da dor intensa, instabilidade hemodinâmica ou redução insuficiente do supradesnivelamento de ST pode indicar necessidade de encaminhamento precoce para uma unidade com hemodinâmica para ICP de resgate.

Esse acompanhamento é uma parte essencial da assistência de enfermagem. Não basta registrar “Metalyse administrado”; é preciso acompanhar e registrar a evolução clínica do paciente.

O que o profissional de enfermagem precisa guardar

O ponto principal é simples: Metalyse é tenecteplase, um trombolítico de alto risco, e sua utilização exige conferência rigorosa da indicação, apresentação, dose, peso, contraindicações, via e resposta clínica.

E existe uma atualização importante: a apresentação de 25 mg existe e não deve ser confundida automaticamente com as apresentações de 40 mg e 50 mg utilizadas nos esquemas de IAM. A indicação da apresentação precisa ser conferida na bula e no protocolo vigente do serviço.

Em uma emergência, rapidez é fundamental. Só que rapidez segura não significa pular etapas; significa saber exatamente quais etapas não podem ser esquecidas.

Resumo para salvar

Metalyse: apresentações e cuidados essenciais

  • Metalyse é o nome comercial da tenecteplase, um trombolítico fibrinoespecífico
  • No IAMCSST, a dose é ajustada pelo peso, com máximo de 50 mg (apresentações de 40 mg e 50 mg)
  • A apresentação de 25 mg foi aprovada pela ANVISA para AVC isquêmico agudo, com dose de 0,25 mg/kg (máximo 25 mg) em até 4,5h do início dos sintomas
  • Após a trombólise, a enfermagem deve monitorar reperfusão, sinais vitais e principalmente sinais de sangramento

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Infarto Agudo do Miocárdio: manejo inicial – Linha de Cuidado. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Habilitação da Administração Pré-Hospitalar Tenecteplase – SAMU 192. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: Manual de Tenecteplase – Ministério da Saúde.
  3. EUROPEAN MEDICINES AGENCY. Metalyse 5 000 units (25 mg): product information. Amsterdam: EMA. Disponível em: EMA – Metalyse 25 mg.
  4. ELECTRONIC MEDICINES COMPENDIUM. Metalyse 5 000 units (25 mg) powder for solution for injection – Summary of Product Characteristics. Disponível em: Metalyse 25 mg – SmPC.
  5. BOEHRINGER INGELHEIM. Metalyse® (tenecteplase): informações profissionais do medicamento. Informações técnicas do produto. Disponível em: Informações profissionais sobre Metalyse
  6. PANORAMA FARMACÊUTICO. Anvisa aprova tratamento para o AVC isquêmico agudo. Disponível em: https://panoramafarmaceutico.com.br/anvisa-aprova-medicamento-para-o-tratamento-do-avc-isquemico-agudo/.
  7. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DOENÇAS CEREBROVASCULARES (SBAVC). Primeira Trombólise com Tenecteplase 25mg no Brasil. Disponível em: https://avc.org.br/blog/2026/04/29/primeira-trombolise-com-tenecteplase-25mg-no-brasil/.

Seringa de Insulina: Guia Prático

A seringa de insulina é um daqueles materiais que parecem simples até aparecer uma prescrição de 18 UI, uma seringa diferente da habitual ou um frasco com concentração que não bate com a graduação. É justamente aí que pequenos detalhes podem virar grandes erros de dose. Para quem está na enfermagem, entender capacidade, graduação, concentração e conversão é tão importante quanto saber fazer a aplicação.

O que significa UI na insulina?

A insulina é dosada em Unidades Internacionais (UI ou U). Uma apresentação muito comum é a U-100, que contém 100 UI em cada 1 mL. Portanto, nessa concentração, podemos estabelecer uma relação simples:

100 UI = 1 mL
50 UI = 0,5 mL
20 UI = 0,2 mL
10 UI = 0,1 mL
1 UI = 0,01 mL

Essa relação é fundamental para transformar uma dose prescrita em unidades no volume correspondente quando a administração é feita com uma seringa convencional.

Tipos e tamanhos de seringas

As seringas próprias para insulina podem ser encontradas, entre outras apresentações, em 0,3 mL, 0,5 mL e 1 mL. Considerando a concentração U-100, isso corresponde respectivamente a 30 UI, 50 UI e 100 UI de capacidade. Existem modelos com diferentes graduações, por isso é indispensável observar a escala impressa na própria seringa antes de aspirar.

Uma seringa de 0,3 mL (30 UI) costuma ser interessante para doses menores, enquanto a de 0,5 mL (50 UI) comporta doses intermediárias. Já a de 1 mL (100 UI) permite aspirar até 100 UI quando utilizada com insulina U-100. O importante é não escolher apenas pelo tamanho: a graduação e a concentração da insulina precisam ser compatíveis com a dose prescrita.

Graduação de 1 UI ou 2 UI

Nem toda seringa apresenta a mesma divisão entre os traços. Há modelos cuja graduação permite identificar 1 UI por marcação e outros nos quais cada marcação representa 2 UI. Para doses pequenas ou que exigem maior precisão, a graduação de 1 em 1 UI facilita a leitura e reduz a possibilidade de erro.

Por isso, nunca assuma que “cada risquinho vale 1 UI”. Olhe a escala da seringa utilizada.

E a seringa de resíduo zero?

O termo resíduo zero está relacionado ao desenho do dispositivo, especialmente ao espaço residual existente no bico da seringa. Nos modelos comercializados como “resíduo zero”, o êmbolo foi projetado para avançar mais próximo do bico, reduzindo a quantidade de solução que permanece dentro da seringa após a administração. Isso diminui desperdícios e pode ser particularmente relevante quando se trabalha com medicamentos de pequenas quantidades.

Na prática, vale uma atenção importante: “resíduo zero” não significa que a dose prescrita possa ser alterada. A dose continua sendo determinada pela prescrição, pela concentração da insulina e pela escala do dispositivo.

! Atenção na Prova Conversão de UI para mL

Quando temos uma insulina U-100 e precisamos utilizar uma seringa convencional, a regra de três resolve o cálculo.

Exemplo: foram prescritas 25 UI de insulina U-100.

100 UI — 1 mL
25 UI — X

X = 25 × 1 ÷ 100
X = 0,25 mL

Portanto, seriam 0,25 mL.

O mesmo raciocínio pode ser utilizado para qualquer dose, desde que a concentração esteja corretamente identificada. O material do Cofen sobre cálculo e diluição de medicamentos utiliza justamente essa lógica para transformar unidades de insulina em volume quando não há seringa própria disponível.

Atenção: U-100 não é igual a qualquer insulina

Essa é uma das informações que mais merece atenção durante o cálculo. U-100 significa 100 UI/mL, mas existem apresentações de insulina com outras concentrações. Há, por exemplo, produtos U-300, nos quais 1 mL contém 300 UI.

Assim, não se deve pegar uma insulina de concentração diferente, aplicar automaticamente a relação 100 UI = 1 mL e utilizar a escala como se fosse U-100. Antes de calcular, confira sempre nome da insulina, concentração, via, dose prescrita e dispositivo utilizado.

E quando não existe seringa de insulina?

Imagine uma prescrição de 20 UI de insulina U-100, mas a unidade dispõe apenas de uma seringa convencional de 3 mL.

A relação será:

100 UI — 1 mL
20 UI — X

X = 20 × 1 ÷ 100
X = 0,2 mL

Nesse caso, o volume correspondente é 0,2 mL. É exatamente por isso que a regra de três continua sendo uma ferramenta importante na formação e na prática da enfermagem.

Cinco exercícios de cálculo de insulina

Todos os exercícios abaixo consideram insulina U-100, ou seja, 100 UI/mL.

Prescrição de 15 UI

Paciente com prescrição de 15 UI de insulina U-100. Quantos mL devem ser aspirados em uma seringa convencional?

100 UI — 1 mL
15 UI — X

X = 15 × 1 ÷ 100
X = 0,15 mL

Resposta: 0,15 mL.

Prescrição de 35 UI

Foram prescritas 35 UI de insulina U-100.

100 UI — 1 mL
35 UI — X

X = 35 × 1 ÷ 100
X = 0,35 mL

Resposta: 0,35 mL.

Prescrição de 48 UI

Prescrição: 48 UI de insulina U-100.

100 UI — 1 mL
48 UI — X

X = 48 × 1 ÷ 100
X = 0,48 mL

Resposta: 0,48 mL.

Prescrição de 72 UI

Prescrição: 72 UI de insulina U-100.

100 UI — 1 mL
72 UI — X

X = 72 × 1 ÷ 100
X = 0,72 mL

Resposta: 0,72 mL.

Frasco com 100 UI/mL e prescrição de 8 UI

Paciente deverá receber 8 UI de insulina U-100 utilizando seringa convencional.

100 UI — 1 mL
8 UI — X

X = 8 × 1 ÷ 100
X = 0,08 mL

Resposta: 0,08 mL.

Perceba como o cálculo permanece o mesmo: a dose prescrita fica de um lado, a concentração disponível do outro, e o volume procurado é obtido pela regra de três. O cuidado maior está em confirmar a concentração antes de começar a conta.

Cuidados de enfermagem

Antes da administração, confira a prescrição e faça a conferência dos chamados certos da administração de medicamentos, principalmente paciente, medicamento, concentração, dose, via e horário. Verifique também a validade, integridade da embalagem, aspecto da insulina e compatibilidade entre a seringa e a concentração utilizada.

Na prática, uma situação muito comum é encontrar uma prescrição de 6 UI ou 8 UI e perceber que a seringa disponível possui uma graduação pouco precisa para aquela dose. Nessa situação, trocar o dispositivo por um modelo com graduação adequada pode fazer diferença na precisão da administração. Materiais educativos sobre insulinoterapia recomendam atenção especial à graduação da seringa justamente porque doses pequenas podem ser difíceis de medir com precisão.

Outra situação frequente durante o plantão é a prescrição em UI acompanhada de uma seringa convencional porque a seringa específica de insulina não está disponível. É nesse momento que a regra de três deixa de ser apenas conteúdo de prova: 100 UI/mL, prescrição em UI e seringa graduada em mL precisam ser convertidos corretamente antes da administração.

Também é essencial lembrar que seringas são dispositivos de uso único e devem ser descartadas adequadamente após utilização, conforme as normas e o protocolo institucional.

Decore para a Prova O que realmente precisa ficar na memória

Para U-100:

100 UI = 1 mL
50 UI = 0,5 mL
25 UI = 0,25 mL
10 UI = 0,1 mL
1 UI = 0,01 mL

E a fórmula mais importante para quem está começando é: Dose prescrita × volume disponível ÷ dose disponível

Quando a concentração for 100 UI/mL, usando 1 mL como referência: UI prescritas × 1 ÷ 100 = mL a administrar.

O cálculo é simples. O que não pode ser simples demais é a conferência: concentração diferente, seringa diferente ou graduação diferente podem mudar completamente a resposta.

Resumo para salvar

Seringa de Insulina: Guia Prático

  • Insulina U-100 contém 100 UI por mL
  • Seringas podem ter capacidades de 0,3 mL, 0,5 mL e 1 mL
  • Resíduo zero reduz o volume residual no dispositivo
  • Na U-100, a regra de três permite converter UI em mL

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Práticas de cuidado com o uso de insulina por usuários com Diabetes Mellitus tipo 2. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Biblioteca do Cofen – documento sobre uso de insulina
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Boas práticas: cálculo seguro – volume 2: cálculo e diluição de medicamentos. Brasília, DF: Cofen. Cofen – Cálculo e diluição de medicamentos
  3. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Seringas descartáveis para insulina – registros e especificações de dispositivos médicos. Brasília, DF: Anvisa. Anvisa – Biblioteca de documentos
  4. SÃO PAULO (Estado). Bolsa Eletrônica de Compras. Seringa descartável graduada em 1 em 1 UI para insulina. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo. BEC/SP – especificação de seringa para insulina

Cansaço aos Mínimos Esforços: o que pode causar esse sintoma e quando ele merece atenção?

Subir poucos degraus, tomar banho ou caminhar até outro cômodo e precisar parar para recuperar o fôlego não deveria ser automaticamente colocado na conta da “falta de condicionamento”. Quando o corpo começa a tolerar cada vez menos esforço, essa mudança merece ser investigada.

Quando o cansaço deixa de ser normal

Cansaço aos mínimos esforços pode aparecer como fadiga intensa, fraqueza, falta de ar ou uma combinação desses sintomas. Entre as possibilidades estão anemia, doenças cardíacas e pulmonares, alterações da tireoide, infecções, distúrbios metabólicos, descondicionamento físico, efeitos de medicamentos e problemas do sono, entre outras causas.

Na insuficiência cardíaca, por exemplo, fadiga, dispneia e intolerância ao exercício estão entre as manifestações mais importantes. A falta de ar pode aparecer inclusive aos mínimos esforços, especialmente quando existe piora do quadro.

Um detalhe da rotina que merece atenção

Em uma avaliação de enfermagem, é diferente ouvir “estou cansado” de ouvir “há duas semanas eu conseguia tomar banho sozinho e agora preciso sentar no meio do banho”. A segunda informação mostra uma mudança funcional concreta e ajuda a dimensionar a evolução do sintoma.

Na prática, perguntar o que o paciente conseguia fazer antes e o que consegue fazer agora pode revelar uma deterioração que não aparece apenas pela observação em repouso. A avaliação clínica da insuficiência cardíaca, por exemplo, considera justamente a limitação provocada pelas atividades habituais e a evolução da capacidade funcional.

Nem sempre o coração é o culpado

Anemia pode reduzir a capacidade de transporte de oxigênio e contribuir para fadiga e intolerância ao esforço. Doenças respiratórias também podem provocar falta de ar durante atividades que anteriormente eram bem toleradas. Alterações metabólicas, deficiência nutricional, distúrbios hormonais e condições pós-infecciosas também entram na investigação dependendo do contexto.

Por isso, não é adequado concluir que “cansaço aos mínimos esforços é insuficiência cardíaca” sem avaliação. O sintoma é inespecífico e precisa ser interpretado junto com história clínica, exame físico e, quando indicados, exames complementares.

Quando o sinal fica preocupante

Atenção especial deve ser dada quando o cansaço aparece de forma nova ou progressiva, principalmente se vier acompanhado de falta de ar, dor ou pressão no peito, palpitações, tontura, desmaio, palidez, sudorese, edema nas pernas ou queda importante da capacidade para realizar atividades habituais.

Falta de ar intensa, síncope, dor torácica ou piora rápida do estado geral exigem avaliação de urgência. Em pacientes com suspeita de insuficiência cardíaca aguda, a presença de dispneia aos mínimos esforços associada a sinais de hipoperfusão ou congestão pode indicar necessidade de atendimento emergencial.

Cuidados de enfermagem

Na avaliação de Enfermagem, é importante observar o início e a evolução do cansaço, investigar quais atividades desencadeiam o sintoma e verificar sinais vitais, frequência respiratória, saturação de oxigênio, frequência cardíaca e estado geral. Também devem ser observados edema, alterações da perfusão, padrão respiratório e tolerância à atividade.

Se o paciente apresentar piora durante a mobilização, a atividade deve ser interrompida e ele reavaliado. Em situações de suspeita de descompensação cardíaca, a equipe deve reconhecer rapidamente sinais como taquipneia, taquicardia, estertores, edema e alteração do nível de consciência, comunicando a equipe responsável.

Uma cena que o profissional de enfermagem conhece

Um paciente que chega dizendo “estou bem, só estou muito cansado” pode parecer estável enquanto permanece sentado. Quando tenta caminhar até o banheiro, porém, começa a respirar rapidamente, fica pálido e precisa parar. Essa mudança durante o esforço é uma informação clínica valiosa; observar o paciente apenas em repouso poderia esconder a limitação.

Em outra situação, o relato pode ser ainda mais sutil: “antes eu subia dois lances de escada sem parar, agora preciso descansar no primeiro”. Para quem trabalha na assistência, esse tipo de comparação entre a capacidade funcional anterior e a atual pode ser mais útil do que simplesmente perguntar se existe cansaço.

O corpo está avisando

Cansaço aos mínimos esforços não é um diagnóstico. É um sinal que pode ter causas simples, mas também pode indicar uma condição que precisa de investigação rápida.

Quando existe uma mudança persistente na capacidade de realizar atividades comuns, especialmente acompanhada de falta de ar ou outros sintomas cardiovasculares, respiratórios ou neurológicos, vale procurar avaliação profissional. O importante é não normalizar uma perda progressiva de capacidade funcional sem descobrir por quê.

Resumo para salvar

Cansaço aos mínimos esforços: quando investigar

  • Cansaço progressivo pode indicar alteração clínica e merece investigação
  • Insuficiência cardíaca pode causar fadiga, dispneia e intolerância ao esforço
  • A avaliação deve considerar a mudança da capacidade funcional do paciente
  • Dor no peito, desmaio ou falta de ar intensa exigem avaliação de urgência

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado: Insuficiência Cardíaca (IC) no adulto – definição. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Insuficiência Cardíaca.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado: Insuficiência Cardíaca (IC) no adulto – manejo inicial. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Manejo inicial da insuficiência cardíaca.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado: Insuficiência Cardíaca (IC) no adulto – avaliação inicial. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Avaliação inicial da insuficiência cardíaca.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Deficiência de tiamina (vitamina B1): sinais e sintomas. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Deficiência de tiamina.
  5. NATIONAL HEALTH SERVICE. Heart failure. NHS. Disponível em: NHS – Heart failure

Anotação de Enfermagem: A arma secreta que nenhum plantão te ensina a usar

Vá direto ao ponto!

Uma anotação mal feita pode esconder um cuidado que realmente aconteceu

Existe uma situação bastante comum na enfermagem: o procedimento foi realizado, o medicamento foi administrado, o paciente foi reposicionado, uma intercorrência foi percebida e comunicada… mas, quando alguém olha o prontuário, quase nada disso aparece de forma clara.

E aqui está um dos problemas mais importantes da anotação de enfermagem.

Aquilo que foi feito, mas não foi adequadamente registrado, pode deixar de ser demonstrado no prontuário.

Isso não significa que o registro de enfermagem tenha como objetivo “proteger o profissional” acima de tudo. O objetivo principal é documentar o cuidado prestado, permitir a continuidade da assistência e comunicar à equipe o que aconteceu com o paciente. O próprio Cofen destaca que os registros são essenciais ao processo do cuidar, à comunicação entre profissionais, à avaliação da qualidade da assistência e também podem ter implicações éticas e judiciais.

Por isso, aprender a fazer uma boa anotação não é apenas aprender a escrever bonito.

É aprender a transformar aquilo que você observou e fez durante o plantão em uma informação clínica clara, objetiva, cronológica e útil para quem continuará cuidando daquele paciente.

E essa diferença é enorme.

O que é anotação de enfermagem?

A anotação de enfermagem é o registro das informações relacionadas ao paciente e dos cuidados realizados pela equipe de enfermagem, de acordo com as atribuições profissionais, o processo de trabalho e as normas institucionais.

Na prática, ela funciona como uma espécie de “memória escrita” da assistência. O paciente pode mudar de setor, trocar de plantão, receber outro profissional, ser transferido para outra unidade ou apresentar uma intercorrência horas depois. O registro permite que essas informações não dependam exclusivamente da memória de quem estava presente.

O Cofen ressalta que os registros devem contribuir para a continuidade e a qualidade da assistência.

Por isso, uma boa anotação precisa responder, sempre que aplicável:

  • O que aconteceu?
  • Quando aconteceu?
  • O que foi observado?
  • O que foi feito?
  • Qual foi a resposta do paciente?
  • Quem foi comunicado?
  • Qual foi a conduta adotada após a comunicação?

Nem toda anotação precisa responder todas essas perguntas ao mesmo tempo. Mas, quando existe uma alteração ou intercorrência, esse raciocínio ajuda muito.

Anotação de enfermagem não é simplesmente “contar o plantão”

Esse é um erro comum entre estudantes. Uma anotação não deve ser escrita como se fosse uma história:

“Paciente passou bem durante o plantão, ficou tranquilo, recebeu medicação e depois dormiu.”

O problema é que essa frase praticamente não oferece informação clínica suficiente.

O que significa “passou bem”? Quais sinais vitais? Estava consciente? Aceitou alimentação? Apresentou dor? Eliminou? Recebeu quais cuidados? Houve alguma intercorrência?

A anotação precisa ser objetiva e clinicamente útil.

Uma alternativa mais adequada seria:

“08h00 – Paciente em leito, consciente, orientado, comunicativo, em ar ambiente, sem sinais aparentes de desconforto respiratório. Aceitou dieta por via oral, aproximadamente 80% da refeição. Refere ausência de dor no momento. Realizada higiene corporal e mudança de decúbito, mantendo pele íntegra. Segue sob cuidados de enfermagem.”

Perceba a diferença. Não ficou necessariamente mais “bonita”. Ficou mais informativa.

Por que a anotação de enfermagem é tão importante?

Imagine uma unidade de terapia intensiva durante uma troca de plantão. O paciente está intubado, recebendo drogas vasoativas, com acesso venoso central, sonda enteral e monitorização contínua. Durante o plantão anterior, houve uma alteração importante da pressão arterial. A equipe ajustou uma infusão conforme prescrição, realizou medidas de suporte e comunicou o enfermeiro.

Se isso não estiver adequadamente registrado, o profissional que assume o próximo plantão terá de reconstruir a história por meio de informações fragmentadas. Agora imagine o contrário.

O registro informa horário, alteração observada, intervenção realizada, resposta apresentada e comunicação à equipe. A diferença na segurança do cuidado é enorme. O Cofen destaca justamente essa função dos registros: favorecer a comunicação entre os profissionais e garantir a continuidade da assistência.

O que uma boa anotação precisa ter?

Não existe uma única frase mágica que sirva para todos os pacientes. Mas alguns princípios são fundamentais.

Data e horário

O registro precisa permitir identificar quando aquela informação ocorreu. Isso é particularmente importante em situações como:

  • administração de medicamentos;
  • alterações de sinais vitais;
  • intercorrências;
  • procedimentos;
  • mudança do estado clínico;
  • transferência;
  • comunicação com outros profissionais.

Uma informação sem horário perde parte de seu valor.

Compare:

“Paciente apresentou hipotensão.”

com:

14h20 – PA 86/52 mmHg, paciente referindo tontura e apresentando palidez cutânea. Enfermeiro comunicado imediatamente.

A segunda anotação permite compreender melhor a sequência dos acontecimentos.

Identificação do paciente

O registro deve estar associado corretamente ao paciente. Em sistemas eletrônicos, isso normalmente ocorre por meio da identificação vinculada ao prontuário. Em registros físicos, devem ser observadas rigorosamente as normas da instituição. Um erro de identificação pode transformar um registro correto em um registro perigoso.

Condição do paciente

A anotação deve registrar informações relevantes sobre o estado do paciente. Dependendo da situação, podem ser incluídos:

  • nível de consciência;
  • orientação;
  • comunicação;
  • mobilidade;
  • padrão respiratório;
  • oxigenoterapia;
  • presença de dor;
  • estado da pele;
  • alimentação;
  • hidratação;
  • eliminações;
  • dispositivos;
  • comportamento;
  • alterações clínicas.

Mas existe uma diferença importante entre registrar tudo e registrar o que é relevante. Uma anotação enorme não é necessariamente uma anotação boa.

Registre fatos, não interpretações vagas

Esse talvez seja um dos maiores “pulos do gato” para quem está começando. Evite escrever:

“Paciente está mal.”

Mas registre o que você realmente observou:

Paciente sonolento, responde ao chamado verbal, apresenta FR 28 irpm, SpO₂ 89% em ar ambiente, uso de musculatura acessória e queixa de dispneia. Enfermeiro comunicado.

Agora existe informação clínica. Outro exemplo:

Evite:

“Paciente muito agitado.”

Prefira:

Paciente inquieto, retirando repetidamente o lençol e tentando levantar-se do leito, verbalizando desejo de ir para casa. Mantém-se desorientado em tempo e espaço. Enfermeiro comunicado.

A segunda forma permite que outro profissional compreenda exatamente o que foi observado.

“Paciente está bem” é uma anotação suficiente?

Na maioria das situações, não. “Bem” é uma expressão subjetiva, o que significa estar bem para você pode ser diferente do que significa para outro profissional. Uma anotação mais útil descreve sinais observáveis.

Por exemplo:

Paciente consciente, orientado, comunicativo, eupneico em ar ambiente, afebril, sem queixas álgicas no momento, aceitando dieta por via oral e sem intercorrências durante o período.

Agora o leitor consegue compreender o que você quis dizer com “está bem”.

Como registrar sinais vitais?

Os sinais vitais devem ser registrados com seus respectivos valores e unidades, conforme o sistema ou protocolo institucional.

Por exemplo:

“10h00 – PA 118/72 mmHg, FC 82 bpm, FR 18 irpm, SpO₂ 97% em ar ambiente, T 36,5 °C.”

Se houver alteração, é importante registrar também a resposta da equipe. Exemplo:

“16h10 – PA 84/50 mmHg, FC 112 bpm, paciente consciente, referindo tontura. Enfermeiro comunicado imediatamente; paciente mantido em leito e realizada nova aferição conforme orientação, apresentando PA 96/60 mmHg às 16h20.”

Essa sequência é muito mais útil do que simplesmente escrever:

“Paciente apresentou pressão baixa.”

Como registrar administração de medicamentos?

A administração do medicamento deve ser registrada conforme o sistema institucional e as normas vigentes, incluindo as informações necessárias para garantir rastreabilidade. Não basta escrever:

“Medicação administrada.”

Qual medicação? Qual horário? Qual via? Houve alguma intercorrência? O paciente apresentou reação?

Em registros relacionados à administração de medicamentos, a documentação precisa permitir compreender o que efetivamente foi realizado. O Cofen destaca a importância da rastreabilidade dos cuidados e dos registros no prontuário.

Exemplo:

“08h00 – Administrado medicamento prescrito por via intravenosa, conforme prescrição médica e protocolo institucional, sem intercorrências durante a administração. Paciente mantido em observação.”

Quando houver reação:

“14h00 – Após administração do medicamento prescrito, paciente apresentou prurido e eritema em tronco. Medicação suspensa conforme orientação/protocolo institucional e enfermeiro comunicado imediatamente. Paciente mantido sob monitorização.”

O registro precisa refletir o que realmente aconteceu.

Como registrar uma intercorrência?

Uma intercorrência merece ainda mais atenção. Uma estrutura simples pode ajudar:

O que aconteceu → quando → sinais apresentados → providências → comunicação → resposta.

Imagine um paciente que apresentou queda. Uma anotação inadequada seria:

“Paciente caiu. Médico avisado.”

Muito pouco. Uma anotação mais completa poderia ser:

“18h35 – Paciente encontrado sentado no chão ao lado do leito, após tentativa de levantar-se sem auxílio. Consciente, orientado, referindo dor em região de quadril direito, sem sangramento aparente. Sinais vitais aferidos: PA 126/78 mmHg, FC 88 bpm, SpO₂ 96% em ar ambiente. Enfermeiro comunicado imediatamente; paciente não foi mobilizado até avaliação. Equipe médica acionada conforme protocolo institucional. Mantido em observação.”

Observe que o registro não tenta “culpar” ninguém. Ele documenta os fatos.

Nunca escreva uma anotação para proteger alguém

Essa orientação é muito importante: O registro não deve ser utilizado para construir uma narrativa favorável ao profissional ou para esconder uma falha. O prontuário deve refletir a assistência real.

Se algo não foi realizado, não registre como se tivesse sido. Se houve uma intercorrência, ela deve ser comunicada e registrada de acordo com os fatos. A função do prontuário é documentar o cuidado e permitir sua rastreabilidade; o Cofen destaca inclusive sua relevância para questões éticas, legais, auditoria, ensino e avaliação da qualidade assistencial.

Uma situação muito comum na prática

Em plantões movimentados, existe uma tendência de deixar a anotação para o final. É compreensível.

Na UTI, por exemplo, podem acontecer simultaneamente uma admissão, uma intercorrência hemodinâmica, transporte para exame, troca de acesso, administração de medicamentos e atendimento a outro paciente. O problema é que, quando chega o final do plantão, algumas informações podem ser esquecidas.

Na rotina de assistência intensiva, uma prática que ajuda muito é registrar os eventos relevantes o mais próximo possível do momento em que acontecem, em vez de tentar reconstruir seis ou oito horas de assistência de uma só vez.

Isso melhora a precisão do registro e reduz o risco de omissões. A documentação em tempo oportuno é também destacada nas recomendações do Cofen para registros de enfermagem.

Experiência prática: quando uma anotação aparentemente simples faz diferença

Em uma rotina de UTI, já é possível perceber como uma pequena informação pode mudar a interpretação do plantão seguinte. Imagine um paciente que apresenta queda progressiva da saturação.

Se alguém registra apenas: “Paciente apresentou dessaturação.” quem assume o próximo turno sabe que houve uma alteração, mas não sabe praticamente nada além disso.

Agora imagine:

“03h15 – SpO₂ 88%, paciente em ventilação mecânica, com aumento de secreção traqueal e necessidade de aspiração. Realizada aspiração conforme protocolo, com retirada de secreção em quantidade moderada. Após procedimento, SpO₂ 94%. Enfermeiro ciente.”

Essa anotação conta uma história clínica muito mais útil. Quem assume o plantão consegue perceber que houve uma alteração, que havia aumento de secreções, que uma intervenção foi realizada e que houve resposta. É exatamente esse tipo de registro que transforma a anotação em ferramenta de continuidade do cuidado.

Como registrar procedimentos?

Ao registrar um procedimento, procure demonstrar: o procedimento realizado, o local quando relevante, condições observadas, intercorrências e resposta do paciente.

Por exemplo, em um curativo:

“09h30 – Realizado curativo em lesão localizada em região sacral, conforme protocolo institucional. Lesão com aproximadamente 3 cm de diâmetro, leito com tecido de granulação, sem presença de secreção purulenta e sem odor. Pele adjacente íntegra. Cobertura aplicada conforme prescrição. Paciente tolerou procedimento sem intercorrências.”

Isso é muito mais útil do que: “Curativo realizado.”

O segundo registro prova pouco sobre o que realmente aconteceu.

Exemplo de anotação de acesso venoso periférico

“11h20 – Realizada punção venosa periférica em membro superior esquerdo, em veia cefálica, com cateter nº 20G, conforme técnica institucional. Apresentou refluxo sanguíneo e fluxo adequado após instalação. Fixado e identificado conforme protocolo. Paciente tolerou o procedimento sem intercorrências.”

Novamente, o objetivo não é escrever um texto enorme  É fornecer as informações relevantes.

Exemplo de anotação de sonda nasoenteral

“07h40 – Sonda nasoenteral mantida conforme avaliação e protocolo institucional, fixação íntegra, sem sinais aparentes de deslocamento externo. Dieta administrada conforme prescrição e velocidade programada. Paciente sem náuseas ou vômitos durante o período.”

Em situações que exigem confirmação de posicionamento, o registro deve seguir rigorosamente o protocolo institucional e a prescrição, sem presumir que um método é suficiente quando não estiver indicado.

Exemplo de paciente com dor

Evite: “Paciente com muita dor.” Prefira:

“15h10 – Paciente refere dor em região abdominal, intensidade 8/10, segundo escala numérica, com início há aproximadamente 30 minutos. Apresenta expressão facial de desconforto. Enfermeiro comunicado e analgesia administrada conforme prescrição. Reavaliado às 16h00, referindo dor 3/10.”

Aqui existe algo muito importante: a resposta ao cuidado. Não basta registrar que a intervenção foi realizada. Sempre que possível, registre o resultado.

A resposta do paciente é uma parte que muita gente esquece

Esse é um detalhe que diferencia uma anotação comum de um registro realmente útil, Imagine:

“Realizada mudança de decúbito.”

Está correto como informação básica. Mas podemos ter:

“14h00 – Realizada mudança de decúbito para posição lateral direita, com auxílio da equipe, utilizando medidas de proteção da pele. Paciente tolerou procedimento, sem queixas álgicas no momento.”

Ou:

“14h00 – Realizada mudança de decúbito; paciente apresentou dor durante mobilização, intensidade 6/10. Enfermeiro comunicado e medidas de conforto adotadas.”

A segunda situação é muito diferente. O procedimento foi o mesmo, mas a resposta do paciente mudou completamente o significado clínico do cuidado.

Como registrar recusa de cuidado?

O paciente pode recusar um procedimento, medicamento, alimentação, higiene ou outro cuidado. Isso também precisa ser registrado de maneira objetiva.

Evite: “Paciente teimoso, não quis tomar banho.” Esse registro contém julgamento.

Prefira:

“09h00 – Ofertado banho no leito, porém paciente recusou o cuidado neste momento, referindo cansaço. Enfermeiro comunicado. Reofertado cuidado posteriormente, conforme avaliação.”

A diferença está no respeito, O prontuário não é lugar para julgamento moral do paciente.

Como registrar quando o paciente não aceita alimentação?

Exemplo:

“12h30 – Paciente recusou aproximadamente 90% da dieta oferecida, referindo náusea. Ingeriu apenas pequena quantidade de líquidos. Enfermeiro comunicado. Mantido em observação e realizada nova avaliação conforme orientação.”

Isso é muito diferente de: “Paciente não quis comer.” A segunda frase não explica o contexto.

Como registrar eliminações?

Sempre que relevante para a condição clínica, registre de maneira objetiva. Por exemplo:

“10h40 – Evacuação em fralda, fezes de consistência pastosa, coloração castanha, sem presença aparente de sangue. Realizada higiene íntima e troca de fralda.”

Ou:

“06h30 – Diurese espontânea, aproximadamente 350 mL, coloração amarelo-clara, sem alterações aparentes.”

Em pacientes críticos, a mensuração adequada do débito urinário pode ser especialmente importante.

Evite termos vagos

Algumas expressões aparecem com frequência nos prontuários, mas podem transmitir pouca informação:

  • “Paciente bem.”
  • “Sem alterações.”
  • “Passou bem.”
  • “Estável.”
  • “Normal.”
  • “Tudo certo.”
  • “Sem intercorrências.”

Essas frases não são necessariamente proibidas em todos os contextos, mas, isoladamente, são pobres em informação. Se você escrever “sem intercorrências”, tente entender: sem quais intercorrências?

Se for importante para a assistência, descreva. Por exemplo:

“Durante o período, paciente permaneceu consciente, orientado, hemodinamicamente estável, sem queixas álgicas, sem episódios de vômitos e sem alterações respiratórias observadas.”

Agora “sem intercorrências” ganhou significado.

Não use julgamento ou rótulos

Evite expressões como:

  • “Paciente preguiçoso.”
  • “Paciente difícil.”
  • “Paciente nervoso.”
  • “Paciente exagerado.”
  • “Paciente teimoso.”
  • “Família problemática.”

Essas expressões não descrevem comportamento de forma objetiva. Se o paciente está agitado, descreva o comportamento.

“Paciente apresenta inquietação, eleva o tom de voz e tenta retirar acesso venoso periférico repetidamente.”

Isso é uma informação, “Paciente difícil” é apenas um julgamento.

Não registre algo que você não observou

Se você não viu o procedimento, não presuma que ele aconteceu. Se outro profissional realizou determinado cuidado e você precisa registrar algo relacionado à assistência, o registro deve corresponder ao que efetivamente foi observado ou realizado por você, respeitando as normas da instituição e a responsabilidade profissional.

A rastreabilidade é fundamental. O Cofen reforça que o registro deve documentar as ações profissionais e informações necessárias à continuidade da assistência.

Como corrigir um erro na anotação?

Nunca utilize recursos que apaguem ou escondam a informação registrada de forma inadequada. Em registro físico, a correção deve seguir a norma institucional e os princípios de integridade documental. Em prontuário eletrônico, devem ser utilizadas as ferramentas próprias do sistema para correção, preservando a rastreabilidade.

É importante não simplesmente apagar uma informação para substituí-la por outra como se o registro anterior nunca tivesse existido, o prontuário é um documento.

A forma de corrigir deve respeitar as normas institucionais e profissionais.

E no prontuário eletrônico?

A realidade mudou, muitos profissionais atualmente fazem praticamente todos os registros em sistemas informatizados.

A Resolução Cofen nº 754/2024 normatiza o uso do prontuário eletrônico e de plataformas digitais no âmbito da Enfermagem. A norma estabelece que é dever dos profissionais registrar no prontuário e em outros documentos próprios da área as informações inerentes ao processo de cuidar e ao gerenciamento dos processos de trabalho necessárias à continuidade e qualidade da assistência.

Isso significa que trocar papel por computador não diminui a responsabilidade, pelo contrário.

No sistema eletrônico, é fundamental utilizar login e senha individuais e intransferíveis e preservar o sigilo das informações do paciente. A Resolução também relaciona os registros às normas do Processo de Enfermagem e à proteção das informações de saúde.

Nunca compartilhe login e senha

Esse cuidado parece óbvio, mas merece ser reforçado, se o registro é realizado com seu acesso, ele fica associado à sua identidade profissional. Portanto, não é adequado emprestar login, senha ou deixar o sistema aberto para que outra pessoa registre em seu nome.

Além da segurança da informação, existe a questão da rastreabilidade. A Resolução Cofen nº 754/2024 determina que, quando aplicável, o acesso ao prontuário eletrônico utilize credenciais individuais e intransferíveis.

Cuidado com informações do paciente fora do prontuário

Uma anotação de enfermagem contém informações de saúde, que são dados sensíveis, não se deve fotografar prontuário, compartilhar tela, enviar informações em grupos pessoais ou comentar dados identificáveis de pacientes em redes sociais.

Mesmo que o nome não apareça, outros detalhes podem permitir identificação. A proteção do sigilo faz parte da responsabilidade profissional e também está relacionada à legislação de proteção de dados.

Anotação de enfermagem na UTI

Na UTI, o volume de informações é muito maior.

O paciente pode possuir:

  • ventilação mecânica;
  • cateter venoso central;
  • acesso arterial;
  • sondas;
  • drenos;
  • infusões contínuas;
  • drogas vasoativas;
  • monitorização invasiva;
  • dispositivos de suporte renal;
  • curativos complexos.

A anotação precisa acompanhar a complexidade do paciente, mas isso não significa escrever páginas e páginas sem organização. O ideal é registrar informações relevantes, objetivas e cronológicas.

Experiência prática: o registro precisa acompanhar a mudança do paciente

Na assistência intensiva, existe uma diferença enorme entre registrar: “Paciente em ventilação mecânica, estável.” e registrar:

“07h00 – Paciente em ventilação mecânica, modo conforme parâmetros prescritos, mantendo SpO₂ 96%. Sedado, sem resposta a estímulo verbal no momento. Secreção traqueal em pequena quantidade durante aspiração, sem intercorrências. Acessos e dispositivos mantidos pérvios e fixados.”

A segunda anotação não é simplesmente mais longa. Ela é mais útil porque mostra o estado do paciente naquele momento. E isso é particularmente importante na UTI, onde o quadro pode mudar em questão de minutos.

Cuidados de enfermagem para uma anotação segura

Uma boa anotação começa antes de você sentar para escrever:

  • Durante o cuidado, observe.
  • Durante o procedimento, observe.
  • Depois do procedimento, observe novamente.
  • Depois, registre.

Essa sequência parece simples, mas faz muita diferença.

Observe o paciente

Não registre apenas o que foi prescrito, e sim registre o que você encontrou.

Registre no momento adequado

Evite depender exclusivamente da memória no final do plantão.

Seja objetivo

Retire opiniões e mantenha fatos observáveis.

Seja completo quando houver intercorrência

Quanto mais importante a ocorrência, maior a necessidade de contextualização.

Registre a resposta

Sempre que possível, demonstre o resultado da intervenção.

Comunique alterações

Anotar uma alteração não substitui comunicar uma situação que exige intervenção imediata.

Registrar e comunicar são coisas diferentes.

Se um paciente apresenta uma alteração grave, primeiro deve ser adotada a conduta necessária e feita a comunicação pertinente; o registro documenta o ocorrido e as providências tomadas.

Uma regra prática: “Observe, faça, reavalie e registre”

Para quem está começando na enfermagem, uma sequência simples pode ajudar:

  • Observe: como o paciente está?
  • Faça: qual cuidado ou intervenção foi realizado?
  • Reavalie: o paciente respondeu como?
  • Registre: o que aconteceu, o que foi feito e qual foi a resposta?

Essa lógica evita anotações automáticas e estimula o raciocínio clínico.

! Atenção na Prova Exemplo completo de anotação de um plantão

Veja um exemplo fictício, apenas para fins educacionais:

“07h00 – Paciente em leito, consciente, orientado, comunicativo, em ar ambiente, SpO₂ 97%, sem sinais aparentes de desconforto respiratório. Refere dor abdominal 4/10. Acesso venoso periférico em membro superior direito, pérvio, sem sinais aparentes de flebite. Aceitou aproximadamente 70% da dieta oferecida. Diurese espontânea em volume não mensurado. Realizada higiene corporal e mudança de decúbito.

10h15 – Paciente refere aumento da dor abdominal para 7/10, associado a náusea. Enfermeiro comunicado. Medicação administrada conforme prescrição. Mantido em observação.

11h00 – Reavaliado após intervenção, referindo dor 3/10 e melhora da náusea. Sem episódios de vômitos.

13h30 – Paciente aceitou aproximadamente 80% da dieta do almoço. Mantém-se consciente e orientado, sem novas queixas.

18h50 – Paciente permanece em leito, hemodinamicamente estável, sem novas intercorrências observadas durante o período. Segue aos cuidados da equipe de enfermagem.”

Perceba que não é necessário transformar cada horário em um relatório gigantesco. O segredo é registrar as mudanças importantes e os cuidados relevantes.

Pegadinha de Prova Anotação de enfermagem x evolução de enfermagem

Esses termos não devem ser tratados como sinônimos automaticamente, de maneira simplificada, a anotação está muito relacionada ao registro objetivo das ações realizadas, observações e ocorrências do cuidado de enfermagem.

A evolução de enfermagem, por sua vez, possui caráter próprio dentro do Processo de Enfermagem e envolve análise da resposta do paciente aos cuidados, conforme as atribuições profissionais. A Resolução Cofen nº 736/2024 regulamenta a implementação do Processo de Enfermagem e estabelece a organização das etapas e responsabilidades profissionais.

Por isso, é importante que estudantes aprendam a diferenciar os conceitos e também conheçam o protocolo adotado pela instituição onde realizam estágio ou trabalham.

Sim. O registro de enfermagem integra a documentação da assistência prestada e pode ser utilizado para demonstrar a sequência dos cuidados realizados. O próprio Cofen destaca que os registros possuem importância ética e legal, além de contribuírem para auditoria, ensino, pesquisa e avaliação da qualidade da assistência.

Mas existe uma forma errada de entender isso, não devemos registrar pensando apenas: “Vou escrever para me defender.”

O pensamento correto é: “Vou registrar de maneira fiel porque o prontuário precisa mostrar o cuidado que foi prestado.” Quando a assistência é bem registrada, o benefício é para o paciente, para a equipe e também para o profissional.

O que mais costuma cair em provas?

Para estudantes de enfermagem, alguns princípios aparecem com frequência. A anotação deve ser:

! Atenção na Prova clara, objetiva, precisa, cronológica, legível quando manuscrita, sem rasuras inadequadas, baseada em fatos e compatível com o cuidado efetivamente realizado.

Também é importante lembrar:

  • não registrar algo que não foi realizado;
  • não omitir intercorrências relevantes;
  • não utilizar termos pejorativos;
  • preservar o sigilo;
  • registrar identificação profissional conforme as regras institucionais;
  • realizar o registro em tempo oportuno;
  • registrar a resposta do paciente quando pertinente.

O Guia de Recomendações do Cofen foi desenvolvido justamente para orientar a prática dos registros de enfermagem e reforçar sua importância para a qualidade da assistência.

Uma anotação boa não precisa ser enorme

Essa talvez seja uma das melhores conclusões para quem está aprendendo.

  • Uma anotação de dez linhas pode ser ruim.
  • Uma anotação de três linhas pode ser excelente.
  • O tamanho não determina a qualidade.

O que determina é a capacidade de transmitir informação relevante, verdadeira, objetiva e útil para a continuidade do cuidado.

A pergunta que vale a pena fazer antes de finalizar é:

“Se outro profissional assumir este paciente agora, minha anotação ajudará essa pessoa a entender o que aconteceu?” Se a resposta for sim, você provavelmente está no caminho certo, anotar não é simplesmente escrever.

Anotar é documentar o cuidado

É transformar observações, procedimentos, respostas e intercorrências em informações que possam ser compreendidas por outro profissional.

Uma boa anotação não precisa utilizar palavras difíceis, frases excessivamente formais ou termos complicados. Ela precisa ser clara, objetiva e fiel ao que realmente aconteceu.

Na prática, principalmente em ambientes de maior complexidade como pronto-socorro e UTI, o prontuário acompanha a evolução do paciente quase como uma linha do tempo. Uma pressão que caiu, uma saturação que piorou, uma medicação administrada, uma reação apresentada, uma intervenção realizada e uma resposta observada podem parecer informações isoladas; quando registradas corretamente, porém, elas ajudam a formar a história clínica do paciente.

E existe uma diferença importante entre “eu fiz” e “está documentado que eu fiz”.

O registro não substitui o cuidado. Mas ele faz parte do cuidado.

Por isso, para estudantes e profissionais de enfermagem, aprender a fazer uma boa anotação não é uma tarefa burocrática. É uma competência profissional diretamente relacionada à segurança do paciente, à comunicação da equipe, à continuidade da assistência e à qualidade do trabalho de enfermagem.

No fim do plantão, uma boa anotação deveria permitir que outro profissional consiga olhar para o prontuário e compreender, com clareza, como o paciente estava, o que aconteceu, o que foi feito e como ele respondeu.

Esse é o verdadeiro propósito do registro.

Resumo para salvar

Anotação de Enfermagem: 4 regras para registrar o cuidado com segurança

  • Registre fatos observáveis, evitando julgamentos e expressões vagas como paciente está bem ou paciente difícil
  • Em uma intercorrência, registre o que aconteceu, os sinais apresentados, as providências adotadas, a comunicação realizada e a resposta do paciente
  • Registre os cuidados em tempo oportuno e demonstre, sempre que pertinente, como o paciente respondeu à intervenção
  • O prontuário é parte da documentação da assistência e deve ser claro, objetivo, verdadeiro, rastreável e compatível com o cuidado realmente realizado

Referências:

  1. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Recomendações para registros de enfermagem no exercício da profissão. Brasília, DF: Cofen, 2023. Disponível em: Cofen – Recomendações para Registros de Enfermagem
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Recomendações para registros de enfermagem no exercício da profissão. Brasília, DF: Cofen, 2023. Disponível em: Guia de Registros de Enfermagem – PDF
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 514, de 5 de maio de 2016. Aprova o Guia de Recomendações para os registros de enfermagem no prontuário do paciente e outros documentos de enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2016. Disponível em: Resolução Cofen nº 514/2016
  4. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 736, de 17 de janeiro de 2024. Dispõe sobre a implementação do Processo de Enfermagem em todo contexto socioambiental onde ocorre o cuidado de enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2024. Disponível em: Resolução Cofen nº 736/2024.
  5. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 754, de 16 de maio de 2024. Normatiza o uso do prontuário eletrônico e plataformas digitais no âmbito da Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2024. Disponível em: Resolução Cofen nº 754/2024
  6. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Parecer nº 14/2024/COFEN/CAMTEC/CTLNENF. Brasília, DF: Cofen, 2024. Disponível em: Parecer Cofen nº 14/2024.
  7. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 564/2017. Aprova o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2017. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-5642017_59145.html
  8. POTTER, Patricia A. et al. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/
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Delirium em UTI: como reconhecer precocemente com o CAM-ICU e quais são os principais cuidados de Enfermagem

Vá direto ao ponto!

O delirium é uma das alterações neurológicas mais comuns e, ao mesmo tempo, mais subestimadas dentro de uma Unidade de Terapia Intensiva.

Para quem trabalha na UTI, é relativamente fácil perceber quando um paciente está hipotenso, dessaturando ou apresentando uma alteração importante no eletrocardiograma. Já o delirium pode começar de maneira muito mais discreta: o paciente fica um pouco mais desatento, confunde horários, demora para responder, passa a olhar fixamente para algum ponto, apresenta um comportamento diferente ou começa a alternar períodos de agitação com momentos de sonolência.

É justamente aí que está um dos maiores desafios.

Delirium não é simplesmente “confusão mental”. É uma síndrome neuropsiquiátrica aguda, geralmente de início rápido e curso flutuante, que pode ser consequência de uma alteração clínica subjacente, efeito de medicamentos, infecção, distúrbios metabólicos, privação de sono, dor, hipóxia, abstinência e diversos outros fatores.

Em pacientes críticos, a identificação pode ser ainda mais difícil porque muitos estão intubados, sedados, em ventilação mecânica ou impossibilitados de falar. Por isso foram desenvolvidos instrumentos específicos para a UTI, entre eles o CAM-ICU — Confusion Assessment Method for the Intensive Care Unit. Estudos brasileiros demonstraram que a versão em português do CAM-ICU é um instrumento válido e confiável para avaliação de delirium em pacientes críticos.

E existe uma diferença importante entre perceber que “o paciente está estranho” e avaliar sistematicamente se ele apresenta delirium.

O que é delirium?

Delirium é uma alteração aguda e flutuante da atenção e da cognição.

O paciente pode apresentar alterações de:

  • atenção;
  • consciência;
  • percepção;
  • pensamento;
  • memória;
  • orientação;
  • comportamento;
  • ciclo sono-vigília.

Uma característica muito importante é a flutuação. O paciente pode estar conversando normalmente às 10 horas da manhã e, algumas horas depois, apresentar desorientação, dificuldade de manter a atenção ou comportamento incomum.

Depois pode melhorar novamente. Isso não significa necessariamente que “ele está fingindo” ou que “está apenas nervoso”. A flutuação é uma característica típica do delirium. Estudos brasileiros descrevem o início abrupto e a variação da intensidade dos sintomas ao longo do dia como características importantes dessa síndrome.

Delirium não é sinônimo de demência

Essa confusão aparece bastante entre estudantes. Embora possam existir alterações cognitivas nas duas condições, elas são diferentes. A demência costuma apresentar evolução progressiva e mais prolongada, enquanto o delirium geralmente surge de forma aguda, em horas ou dias, e apresenta flutuação.

Além disso, o delirium caracteriza-se especialmente pela alteração da atenção. Um paciente pode ter demência e também desenvolver delirium. Por isso, encontrar um histórico de comprometimento cognitivo não deve fazer a equipe descartar automaticamente a possibilidade de delirium.

Delirium também não é simplesmente “agitação”

Esse é outro erro bastante comum.

Existe uma forma de delirium chamada hiperativa, em que o paciente pode ficar:

  • agitado;
  • inquieto;
  • agressivo;
  • tentando retirar cateteres;
  • tentando sair do leito;
  • apresentando alucinações.

Essa é a forma que geralmente chama mais atenção.

Mas existe também o delirium hipoativo.

Nesse caso, o paciente pode ficar:

  • sonolento;
  • apático;
  • lentificado;
  • pouco responsivo;
  • com pouca interação;
  • aparentemente “tranquilo”.

E esse paciente pode passar despercebido. Por isso, um dos grandes perigos na UTI é associar delirium somente ao paciente que está tentando arrancar o tubo.

Um paciente quieto demais também merece avaliação.

Por que o delirium é tão importante na UTI?

Porque ele não é apenas um problema comportamental. O delirium em pacientes críticos está associado a consequências clínicas importantes. A literatura aponta relação com maior comprometimento cognitivo após a alta da UTI, e a atualização de 2025 das diretrizes PADIS da Society of Critical Care Medicine destaca que um rastreio positivo para delirium está fortemente associado a comprometimento cognitivo em três e 12 meses após a alta da UTI.

Além disso, o delirium pode dificultar:

  • desmame da ventilação mecânica;
  • comunicação com a equipe;
  • participação na fisioterapia;
  • mobilização;
  • sono;
  • tratamento;
  • segurança do paciente.

Por isso, reconhecer precocemente é muito mais importante do que simplesmente controlar a agitação.

Por que o paciente da UTI desenvolve delirium?

Na maioria das vezes, não existe uma única causa. O delirium costuma resultar da combinação de diversos fatores. O paciente internado em UTI pode estar simultaneamente enfrentando:

doença grave + dor + inflamação + medicamentos + privação de sono + imobilidade + alterações metabólicas + ambiente desconhecido.

Isso cria um cenário extremamente favorável ao desenvolvimento da síndrome.

Principais fatores de risco

Alguns fatores aparecem frequentemente na prática de terapia intensiva. Entre eles estão:

  • idade avançada, especialmente quando associada a fragilidade ou comprometimento cognitivo prévio;
  • doença grave, principalmente em pacientes com disfunção de múltiplos órgãos;
  • sepse e infecções;
  • ventilação mecânica;
  • uso de sedativos e determinados medicamentos;
  • dor inadequadamente controlada;
  • distúrbios metabólicos e eletrolíticos;
  • hipóxia;
  • desidratação;
  • insuficiência renal ou hepática;
  • imobilidade prolongada;
  • privação do sono;
  • ausência de estímulos durante o dia e excesso de estímulos à noite;
  • alterações visuais ou auditivas;
  • abstinência de álcool ou determinadas substâncias.

O importante é entender que nem sempre conseguimos eliminar todos os fatores de risco. Mas podemos reduzir vários deles.

O ambiente da UTI pode contribuir para o delirium

Imagine passar vários dias em um ambiente onde:

  • não existe diferença clara entre dia e noite;
  • alarmes tocam constantemente;
  • pessoas conversam durante toda a madrugada;
  • há iluminação artificial contínua;
  • procedimentos interrompem o sono;
  • o paciente não sabe que horas são;
  • não consegue utilizar seus óculos;
  • não consegue ouvir adequadamente;
  • não reconhece as pessoas ao redor.

Para o paciente, isso pode ser extremamente desorientador. Uma revisão brasileira sobre cuidados multiprofissionais em delirium destaca justamente estratégias como redução de ruídos, reorientação cognitiva, objetos familiares, preservação do sono, mobilização precoce e participação estruturada da família.

Por isso, prevenção do delirium não é apenas uma questão de medicamento. O ambiente também faz parte do cuidado.

Como reconhecer precocemente?

Uma das melhores estratégias é não esperar o paciente ficar completamente desorientado. A equipe deve observar mudanças em relação ao comportamento habitual.

Pergunte:

“Esse paciente está igual ao que estava ontem?”

Essa pergunta aparentemente simples pode ser extremamente útil. Observe se ele:

  • perdeu a capacidade de manter uma conversa;
  • está mais distraído;
  • demora mais para responder;
  • não consegue acompanhar comandos;
  • apresenta comportamento incomum;
  • está alternando agitação e sonolência;
  • apresenta alterações na percepção;
  • confunde pessoas ou situações;
  • está acordado, mas parece “não estar presente”.

Quando existe mudança aguda ou flutuante, deve-se pensar em delirium.

O CAM-ICU: o que é?

O CAM-ICU é uma adaptação do Confusion Assessment Method desenvolvida especificamente para pacientes internados em terapia intensiva, inclusive aqueles que não conseguem se comunicar verbalmente.

Essa característica é muito importante. Um paciente intubado não consegue simplesmente responder:

“Você sabe onde está?”

Por isso, o CAM-ICU utiliza comandos, estímulos visuais e auditivos e avaliação objetiva da atenção e do pensamento. O instrumento foi desenvolvido justamente para tornar possível a avaliação de delirium em pacientes críticos, incluindo pacientes incapazes de falar.

Antes do CAM-ICU: avalie o nível de consciência

Aqui está uma parte que costuma causar confusão:

RASS e CAM-ICU não são a mesma escala.

A RASS — Richmond Agitation-Sedation Scale avalia o nível de agitação e sedação. O CAM-ICU avalia delirium.

Por isso, na prática, os dois instrumentos trabalham juntos. O primeiro passo é verificar se o paciente apresenta nível de consciência suficiente para que a avaliação de delirium possa ser realizada. A literatura descreve o método em duas etapas: primeiro avaliar o nível de consciência, frequentemente utilizando a RASS; depois, quando possível, aplicar o CAM-ICU.

RASS e CAM-ICU: qual a diferença?

Uma forma fácil de memorizar:

RASS = “quão acordado, sedado ou agitado está o paciente?”

CAM-ICU = “há características compatíveis com delirium?”

A RASS varia de +4 a -5.

No extremo positivo, temos agitação intensa, já no extremo negativo, temos sedação profunda.

O paciente com RASS -4 ou -5 não consegue ser adequadamente avaliado pelo CAM-ICU naquele momento.

Isso não significa:

“RASS -4 = delirium.”

Significa: não foi possível avaliar delirium naquele momento devido ao nível de consciência.

Essa diferença é fundamental.

Como funciona o CAM-ICU?

O algoritmo tradicional do CAM-ICU trabalha com quatro características principais.

Característica 1: início agudo ou curso flutuante

Pergunta-se:

Houve uma mudança aguda no estado mental?

Ou:

O comportamento/estado mental do paciente apresentou flutuação?

Pode ser uma alteração percebida nas últimas horas ou dias.

Exemplo:

“Ontem o paciente conversava adequadamente. Hoje está alternando períodos de lucidez com momentos de desorientação e dificuldade de atenção. Isso levanta a possibilidade de delirium.”

Característica 2: desatenção

Essa é uma das partes mais importantes do CAM-ICU. O paciente com delirium frequentemente apresenta dificuldade de manter ou direcionar a atenção. Uma forma de avaliação é utilizar estímulos padronizados, como pedir que o paciente acompanhe determinada sequência de letras ou realize uma tarefa de atenção conforme o treinamento do instrumento.

No paciente que não fala, isso pode ser realizado por meio de respostas visuais ou motoras. O objetivo não é simplesmente saber se ele “entendeu”.

É avaliar se consegue sustentar a atenção.

Característica 3: pensamento desorganizado

Depois, avalia-se se o pensamento está organizado. O paciente pode apresentar respostas incoerentes, contraditórias ou sem relação com a pergunta. Por exemplo, quando perguntado algo simples, pode responder algo completamente desconectado do contexto. Em pacientes intubados, podem ser utilizadas formas não verbais de avaliação.

Por isso, o profissional precisa ser treinado para aplicar corretamente o instrumento.

Característica 4: alteração do nível de consciência

Aqui entram alterações diferentes do estado de alerta normal.

O paciente pode estar:

  • hiperalerta;
  • sonolento;
  • estuporoso;
  • agitado;
  • excessivamente sedado.

O importante é relacionar essa alteração ao algoritmo do CAM-ICU.

Quando o CAM-ICU é considerado positivo?

A lógica clássica é:

Característica 1 + Característica 2 + (Característica 3 ou Característica 4).

Ou seja: início agudo/flutuação + desatenção + pensamento desorganizado ou alteração do nível de consciência.

Essa combinação é o que caracteriza uma avaliação positiva para delirium pelo CAM-ICU. Esse esquema é excelente para memorizar para provas:

1 + 2 + (3 ou 4) = CAM-ICU positivo.

Um exemplo prático

Imagine um paciente internado há três dias na UTI. Ontem estava conversando adequadamente. Hoje começou a apresentar períodos em que parece não reconhecer a equipe e, em outros momentos, volta a interagir. Durante a avaliação:

Característica 1: houve mudança aguda/flutuação?
Sim.

Característica 2: apresenta desatenção?
Sim.

Característica 3: pensamento desorganizado?
Não.

Característica 4: alteração do nível de consciência?
Sim.

Temos:

1 + 2 + 4 = CAM-ICU positivo.

Esse paciente precisa ser comunicado e investigado pela equipe.

CAM-ICU positivo não significa “dar haloperidol”

Essa é uma associação que precisa ser desconstruída. Encontrar delirium significa que a equipe precisa procurar e tratar fatores precipitantes, além de implementar medidas de suporte e segurança. A atualização PADIS de 2025 não encontrou evidência suficiente para recomendar a favor ou contra o uso de antipsicóticos em comparação ao cuidado habitual para tratamento do delirium em adultos na UTI.

Isso é importante porque ainda existe a ideia de que:

“Paciente delirou? Dá haloperidol.”

A abordagem atual é muito mais ampla. O medicamento pode ter papel em situações selecionadas, conforme avaliação médica e protocolo, especialmente quando há agitação importante e risco para o paciente ou para a equipe. Mas tratar delirium não significa simplesmente sedar o paciente.

E o que a Enfermagem deve fazer quando identifica delirium?

Aqui começa uma parte extremamente importante. A identificação do delirium não encerra a avaliação. Ela é o início de uma investigação. O profissional deve comunicar a alteração e observar possíveis fatores precipitantes.

É necessário pensar:

  • O paciente está com dor?
  • Está hipóxico?
  • Apresenta febre ou sinais de infecção?
  • Está desidratado?
  • Existe alteração glicêmica?
  • Há distúrbio eletrolítico?
  • Houve mudança recente de medicamentos?
  • Recebeu sedação em excesso?
  • Está dormindo durante o dia e acordado durante toda a noite?
  • Está imobilizado há muito tempo?
  • Está sem os óculos ou aparelho auditivo?
  • Está apresentando retenção urinária ou constipação?

Essas perguntas ajudam a direcionar o cuidado.

Cuidados de Enfermagem para prevenção do delirium

A prevenção é tão importante quanto o reconhecimento, e muitas medidas não dependem de equipamentos sofisticados.

Preservar o ciclo sono-vigília

Durante o dia, sempre que possível, favorecer iluminação natural e interação. Durante a noite, reduzir ruídos, luminosidade e interrupções desnecessárias. Isso não significa deixar o paciente sem monitorização, significa organizar os cuidados de forma racional para evitar perturbações desnecessárias do sono.

As diretrizes PADIS recomendam um protocolo multicomponente voltado à promoção do sono e estratégias que reduzam fatores modificáveis relacionados ao delirium.

Reorientação frequente

Conversar com o paciente pode ser uma intervenção de enfermagem. Dizer:

“Bom dia, senhor João. O senhor está na UTI do Hospital X. Hoje é sexta-feira. Eu sou a enfermeira Ana e estou cuidando do senhor.” pode parecer simples.

Mas para um paciente desorientado, essas informações ajudam a reconstruir referências. Relógio e calendário também podem ser úteis. A atualização de 2025 das diretrizes PADIS cita reorientação e estimulação cognitiva, incluindo uso de relógios, entre as estratégias de intervenções não farmacológicas multicomponentes.

Corrigir alterações visuais e auditivas

Um paciente que normalmente utiliza óculos e passa vários dias sem eles pode ter dificuldade para interpretar o ambiente. O mesmo pode acontecer com um paciente que utiliza aparelho auditivo. Sempre que clinicamente possível e seguro, facilitar o acesso a esses dispositivos pode ajudar na orientação. A recomendação atual inclui justamente a otimização da visão e da audição como parte das estratégias multicomponentes para reduzir fatores modificáveis de delirium.

Mobilização precoce

A imobilidade prolongada não é neutra. Sempre que houver condições clínicas e autorização da equipe, a mobilização deve ser estimulada. Isso pode variar desde:

  • mudança de decúbito;
  • exercícios ativos ou passivos;
  • sentar no leito;
  • sentar à beira-leito;
  • transferência para poltrona;
  • ortostatismo;
  • deambulação.

Tudo depende da condição clínica. A atualização PADIS de 2025 sugere mobilização/reabilitação intensificada em relação ao cuidado habitual para adultos internados em UTI. Importante: mobilização precoce não significa mobilizar qualquer paciente indiscriminadamente.

É necessário avaliar estabilidade clínica, dispositivos, suporte ventilatório, hemodinâmica e segurança.

Avaliação e controle da dor

Dor também pode contribuir para alterações comportamentais e pior experiência do paciente. O paciente intubado pode não conseguir dizer:

“Estou com dor.”

Por isso, escalas apropriadas para pacientes que não conseguem se comunicar verbalmente podem ser utilizadas conforme protocolo da instituição. O objetivo não é simplesmente administrar analgésico. É avaliar a dor, tratar adequadamente e reavaliar a resposta.

Cuidado com a sedação

Existe uma tendência histórica de manter pacientes críticos profundamente sedados para facilitar o cuidado. Mas sedação excessiva pode dificultar a avaliação neurológica, prolongar a ventilação mecânica e contribuir para problemas associados à terapia intensiva.

As diretrizes PADIS atualizadas em 2025 sugerem o uso de dexmedetomidina em vez de propofol em determinados pacientes adultos em ventilação mecânica quando a prioridade é sedação leve e/ou redução do delirium. Isso não significa que dexmedetomidina seja “o medicamento para prevenir delirium”. A recomendação é específica para determinadas estratégias de sedação, e o medicamento deve sempre ser administrado conforme prescrição, indicação e monitorização.

Evitar benzodiazepínicos quando não forem necessários

Alguns medicamentos podem aumentar o risco de delirium. Os benzodiazepínicos são um exemplo particularmente importante em pacientes críticos. Isso não significa que sejam absolutamente proibidos. Existem situações clínicas específicas em que podem ser necessários, mas o uso deve ter indicação e ser reavaliado.

O princípio é: usar a menor exposição necessária e adequada à situação clínica do paciente.

Família também pode ajudar

A família pode ser uma importante fonte de orientação e reorientação. Uma pessoa conhecida pode ajudar o paciente a reconhecer:

  • quem ele é;
  • onde está;
  • o que aconteceu;
  • quem está cuidando dele.

Além disso, objetos familiares, fotografias e comunicação com pessoas significativas podem ajudar na orientação.

Uma pesquisa brasileira recente sobre manejo não farmacológico do delirium em UTI identificou justamente a participação dos familiares como uma das estratégias relevantes, embora sua implementação ainda enfrente dificuldades em muitos serviços.

O que NÃO fazer com o paciente delirante

Algumas atitudes podem piorar a situação. Evite discutir com o paciente tentando “provar” que ele está errado. Se ele disser:

“Preciso ir para casa porque meu filho está esperando na porta.”

Responder agressivamente:

“Seu filho não está aqui! Você está delirando!” provavelmente não ajudará. Uma abordagem mais adequada pode ser:

“Entendo que você está preocupado com seu filho. Você está no hospital e nós estamos cuidando do senhor. Vou ficar aqui com você.”

O objetivo é reduzir ansiedade, oferecer segurança e reorientar.

Contenção física deve ser tratada com muita cautela

Um paciente delirante pode tentar retirar:

  • tubo orotraqueal;
  • cateter venoso;
  • sonda;
  • drenos;
  • outros dispositivos.

A reação automática pode ser “amarrar”. Mas contenção física não deve ser encarada como primeira solução para o delirium. É necessário avaliar a causa da agitação e utilizar medidas de segurança e estratégias menos restritivas sempre que possível, de acordo com a legislação, prescrição/protocolo e avaliação da equipe.

A própria atualização PADIS de 2025 aborda o tema das restrições físicas entre os tópicos de manejo do paciente crítico.

Delirium e segurança do paciente

Um paciente delirante pode apresentar risco aumentado de:

  • quedas;
  • retirada de dispositivos;
  • lesões;
  • interrupção de terapias;
  • dificuldade de cooperação;
  • acidentes durante mobilização.

Por isso, a identificação precisa resultar em um plano de segurança. Isso pode incluir:

  • ambiente organizado;
  • leito seguro;
  • monitorização adequada;
  • comunicação clara;
  • acompanhamento mais próximo;
  • retirada de obstáculos;
  • avaliação do risco de queda;
  • participação da família quando apropriado.

CAM-ICU deve ser aplicado uma única vez?

Não. Essa é outra característica importante. Como o delirium é flutuante, uma avaliação isolada pode não representar o estado do paciente durante todo o dia. Por isso, os protocolos de UTI devem estabelecer avaliação periódica e sistemática. A literatura brasileira destaca a importância da avaliação contínua com instrumentos específicos para permitir identificação precoce.

Na prática:

Não espere o paciente ficar agitado para repetir a avaliação.

O paciente pode estar em delirium hipoativo e apresentar poucos sinais externos.

O CAM-ICU substitui a avaliação clínica?

Não. Ele é uma ferramenta de rastreamento/avaliação estruturada. O resultado precisa ser interpretado dentro do contexto clínico. Um CAM-ICU positivo deve fazer a equipe pensar:

“Por que esse paciente desenvolveu delirium?”

E não apenas:

“Qual medicamento posso administrar?”

A causa pode ser potencialmente reversível.

Delirium pode ser o primeiro sinal de deterioração clínica

Essa é uma das experiências que o profissional de UTI aprende com o tempo. Às vezes, antes de aparecer uma grande alteração hemodinâmica, o paciente muda o comportamento. Aquele paciente que normalmente responde adequadamente começa a apresentar desatenção. Aquele que conversava começa a ficar excessivamente sonolento.

Aquele que estava orientado passa a tentar retirar dispositivos. Essas alterações não devem ser automaticamente classificadas como “coisa da idade”, “ansiedade” ou “birra”. Uma alteração aguda do estado mental merece investigação.

Estudos brasileiros ressaltam que o delirium pode ser manifestação de uma condição física subjacente mais grave ou de toxicidade medicamentosa.

Um roteiro prático para o estudante de Enfermagem

Durante o estágio, uma forma simples de organizar o raciocínio é:

  1. Observe

O paciente está diferente do habitual?

  1. Avalie a sedação

Qual é o RASS?

  1. Se puder ser avaliado, aplique o CAM-ICU

Verifique as quatro características.

  1. Se positivo, comunique

Delirium não deve ficar apenas registrado como “paciente confuso”.

  1. Procure fatores precipitantes

Dor, infecção, hipóxia, alterações metabólicas, medicamentos, privação do sono, retenção urinária, constipação, desidratação, imobilidade e outros.

  1. Implemente medidas não farmacológicas

Reorientação, sono, mobilidade, visão, audição, comunicação e ambiente.

  1. Reavalie

Delirium flutua.

Um exemplo que acontece na rotina da UTI

Imagine um paciente de 72 anos internado por pneumonia. Durante o primeiro dia, está acordado, responde adequadamente e reconhece os profissionais. Na segunda noite, começa a dizer que existem pessoas dentro do quarto.

  • Tenta retirar o acesso venoso.
  • Fala frases desconectadas.

Depois de alguns minutos, fica extremamente sonolento. No dia seguinte, parece melhor. Um profissional poderia dizer:

“Ele está confuso por causa da idade.” Mas essa não deveria ser a conclusão. Existe:

  • mudança aguda/flutuação;
  • alteração da atenção;
  • pensamento desorganizado;
  • alteração do nível de consciência.

O CAM-ICU pode ser positivo. A partir daí, a equipe precisa investigar o que está desencadeando o quadro. Pode ser infecção, hipóxia, medicamentos, alteração metabólica, privação do sono ou uma combinação de fatores.

E o paciente intubado?

O fato de estar intubado não impede automaticamente a avaliação pelo CAM-ICU. Essa é justamente uma das vantagens da ferramenta. O CAM-ICU foi desenvolvido para pacientes críticos, inclusive aqueles que não conseguem se comunicar verbalmente.

O paciente pode responder utilizando:

  • olhar;
  • movimentos da cabeça;
  • movimentos das mãos;
  • comandos motores padronizados.

Mas existe um detalhe: é necessário treinamento para aplicar corretamente o instrumento. Não basta conhecer o nome CAM-ICU. O profissional precisa conhecer o algoritmo e a forma padronizada de aplicação. O site oficial do CAM-ICU disponibiliza manual de treinamento, fluxograma, folha de avaliação, casos clínicos e outros materiais para capacitação.

Erros comuns na avaliação do delirium

Confundir agitação com delirium

Nem todo paciente agitado está delirante. É necessário avaliar sistematicamente.

Confundir sedação profunda com delirium

RASS -5 não significa CAM-ICU positivo. Significa que o paciente não está em condições de ser avaliado naquele momento.

Avaliar apenas pacientes agitados

Isso faz com que muitos casos hipoativos sejam perdidos.

Fazer o CAM-ICU sem avaliar o nível de consciência

RASS e CAM-ICU precisam ser entendidos conjuntamente.

Aplicar a escala de qualquer maneira

O CAM-ICU depende de aplicação padronizada.

Achar que o resultado resolve a causa

CAM-ICU identifica a síndrome; não explica sozinho por que ela aconteceu.

O papel da Enfermagem no delirium é muito maior do que aplicar uma escala

Essa talvez seja a principal mensagem para quem está aprendendo terapia intensiva. A escala é apenas uma ferramenta. O profissional de Enfermagem permanece ao lado do paciente durante grande parte do tempo e, por isso, pode perceber pequenas alterações que talvez passem despercebidas durante uma avaliação médica pontual.

É a Enfermagem que frequentemente percebe:

“Ele não estava assim ontem.” Essa informação tem valor clínico. Registrar a mudança, comunicar a equipe e acompanhar sua evolução pode contribuir para que uma causa reversível seja identificada mais rapidamente.

O que dizem as recomendações mais atuais?

As recomendações internacionais continuam reforçando a importância de avaliar sistematicamente delirium em pacientes críticos.

A atualização PADIS publicada pela Society of Critical Care Medicine em 2025 reforça uma abordagem que não se limita a medicamentos. Para prevenção e manejo, recomenda-se uma intervenção multicomponente e não farmacológica, envolvendo redução de fatores de risco modificáveis, melhora da cognição, sono, mobilidade, audição e visão.

A mesma atualização sugere mobilização/reabilitação intensificada e, em determinadas circunstâncias, preferência pela dexmedetomidina sobre propofol quando a prioridade é sedação leve e/ou redução do delirium em pacientes adultos sob ventilação mecânica.

Já em relação aos antipsicóticos, a diretriz de 2025 afirma que a evidência disponível não permite recomendar a favor ou contra seu uso em comparação ao cuidado habitual para tratamento do delirium em adultos de UTI.

Isso mostra como o manejo do delirium mudou.

Menos foco em simplesmente “acalmar o paciente” e mais foco em identificar causas, reduzir fatores modificáveis, preservar função e manter o paciente orientado e acordado quando clinicamente possível.

Delirium na UTI: o que o estudante precisa guardar

Se você estiver começando a trabalhar em terapia intensiva, memorize estas ideias:

  • Delirium é agudo e flutuante.
  • A desatenção é uma característica central.
  • Pode ser hiperativo, hipoativo ou misto.
  • Paciente intubado também pode apresentar delirium.
  • RASS avalia sedação/agitação; CAM-ICU avalia delirium.
  • RASS -4/-5 impede uma avaliação adequada pelo CAM-ICU naquele momento.
  • CAM-ICU positivo = característica 1 + característica 2 + característica 3 ou 4.
  • Não espere o paciente ficar agitado para investigar.
  • Procure causas reversíveis.
  • Sono, mobilização, reorientação, visão e audição fazem parte da prevenção.
  • A contenção física e os medicamentos não devem ser utilizados como resposta automática ao delirium.

E talvez a mais importante:

Na UTI, uma mudança súbita de comportamento também pode ser um sinal clínico.

O delirium é uma condição extremamente relevante na terapia intensiva e que exige atenção contínua da equipe. Para o estudante de Enfermagem, aprender a reconhecer delirium significa muito mais do que decorar o significado da sigla CAM-ICU.

É aprender a perceber mudanças sutis no comportamento, entender a diferença entre sedação e delirium, reconhecer que o paciente hipoativo também pode estar delirante e compreender que a síndrome frequentemente representa a manifestação de algum problema clínico subjacente.

O CAM-ICU é uma ferramenta importante para estruturar essa avaliação, inclusive em pacientes que não conseguem falar. Estudos brasileiros demonstraram validade e confiabilidade da versão em português para pacientes críticos.

Mas a escala não substitui o raciocínio clínico. Um resultado positivo deve desencadear uma pergunta:

“O que está acontecendo com esse paciente?”

A resposta pode estar na dor, na infecção, na hipóxia, nos medicamentos, na privação do sono, em alterações metabólicas, na imobilidade ou na combinação de vários fatores. E é justamente nesse ponto que a Enfermagem exerce um papel fundamental.

Reconhecer cedo, comunicar, investigar, prevenir fatores modificáveis e acompanhar a evolução do paciente são atitudes que fazem parte de um cuidado intensivo mais seguro e humanizado.

Resumo para salvar

Avaliação do Delirium em UTI com o CAM-ICU

  • Reconhecimento precoce e sistemático do delirium em pacientes críticos, indo além da simples impressão de confusão mental
  • Aplicação do CAM-ICU adaptado para pacientes intubados ou incapazes de se comunicar verbalmente por meio de estímulos objetivos
  • Verificação inicial do nível de consciência utilizando a escala RASS antes de prosseguir com a avaliação estruturada
  • Identificação baseada nos 4 critérios essenciais: início agudo/flutuante, desatenção, pensamento desorganizado ou alteração da consciência

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  5. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE (SCCM). Guidelines for the Prevention and Management of Pain, Agitation/Sedation, Delirium, Immobility, and Sleep Disruption in Adult Patients in the ICU. Disponível em: SCCM – PADIS Guidelines
  6. LEWIS, K.; BALAS, M. C.; STOLLINGS, J. L. et al. A focused update to the clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, anxiety, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Critical Care Medicine, v. 53, n. 3, p. e711-e727, 2025. Disponível em: SCCM – Focused Update PADIS 2025
  7. ICU DELIRIUM AND COGNITIVE IMPAIRMENT STUDY GROUP. CAM-ICU Training Manual. Vanderbilt University Medical Center. Disponível em: CAM-ICU Training Manual
  8. Cuidados multiprofissionais para pacientes em delirium em terapia intensiva: revisão integrativa. Revista Gaúcha de Enfermagem. Disponível em: SciELO – Revista Gaúcha de Enfermagem.
  9. Desafios na avaliação e manejo não farmacológico do delirium por enfermeiros em Unidade de Terapia Intensiva. Cogitare Enfermagem, 2025. Disponível em: SciELO – Cogitare Enfermagem
  10. MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasil). Protocolos de segurança do paciente em terapia intensiva: manejo do delirium. Brasília: Anvisa, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/seguranca-do-paciente
  11. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Atuação do enfermeiro na avaliação neurológica e prevenção de delirium em pacientes críticos. Brasília, 2023. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/
  12. PASA, F. B.; SILVA, R. M. Validação e uso da escala CAM-ICU na prática diária da enfermagem em terapia intensiva. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, v. 35, n. 1, p. 45-52, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/.

Confirmação do Posicionamento da Sonda Antes da Dieta: qual é o padrão-ouro e quais métodos não devem mais ser usados sozinhos?

A passagem de uma sonda nasogástrica ou nasoenteral pode parecer um procedimento simples para quem já está acostumado com a rotina hospitalar. Mas existe um momento particularmente importante — e que não deveria ser tratado como mera formalidade: confirmar onde a ponta da sonda realmente está antes de administrar dieta, água ou medicamento.

Esse cuidado é fundamental porque uma sonda introduzida pela narina pode, inadvertidamente, seguir para o trato respiratório. Em determinadas situações, o paciente pode não apresentar sinais muito evidentes de que isso aconteceu. Se a dieta for administrada através de uma sonda mal posicionada, o resultado pode ser uma aspiração pulmonar grave, pneumonia, pneumotórax e outras complicações potencialmente fatais. O próprio Cofen classifica a sondagem oro/nasoenteral como procedimento invasivo e destaca o risco de complicações graves, especialmente em pacientes críticos.

É por isso que alguns métodos que durante muito tempo foram ensinados nas escolas de Enfermagem — como “colocar ar e auscultar a barriga” ou colocar a ponta da sonda dentro de um copo com água — precisam ser revistos.

E aqui está o ponto mais importante deste artigo:

Ouvir um “borbulhar” no epigástrio não comprova que a sonda está no estômago.

Para a sonda nasoenteral (SNE) inserida às cegas, especialmente quando se pretende uma localização pós-pilórica, a radiografia é considerada o método de referência/padrão-ouro para confirmar o posicionamento antes da utilização, conforme diretrizes e documentos brasileiros.

Mas existe uma nuance importante: em alguns protocolos internacionais para sonda nasogástrica, a avaliação do pH do aspirado gástrico é utilizada como método inicial à beira-leito, com radiografia indicada quando o pH não confirma a posição ou não há aspirado. Portanto, não devemos simplesmente dizer que “pH nunca serve”. O método recomendado depende do tipo de sonda, objetivo da terapia e protocolo institucional.

Vamos entender isso de maneira prática.

Por que é tão importante confirmar a posição da sonda?

Imagine a seguinte situação:

Um paciente precisa receber dieta enteral. A sonda é introduzida pela narina e aparentemente está bem fixada.

O profissional injeta ar e escuta um ruído no abdome.

Parece tudo certo.

Mas existe um problema: o som produzido pela entrada de ar não consegue garantir que a extremidade distal da sonda esteja dentro do estômago.

A sonda pode estar no esôfago, no estômago ou até mesmo no trato respiratório e ainda produzir um som que seja interpretado equivocadamente como “ruído gástrico”.

O Cofen, por meio da Resolução nº 619/2019, destaca que a sondagem oro/nasoenteral pode apresentar complicações como inserção em brônquios, pneumonia aspirativa, pneumotórax e lesões de estruturas do trato digestivo. A mesma resolução estabelece que cabe ao enfermeiro realizar os testes para confirmação do trajeto e, no caso da sondagem nasoenteral, solicitar o exame radiológico para confirmação da localização.

Portanto, a confirmação não é uma etapa burocrática.

É uma barreira de segurança do paciente.

Primeiro: precisamos diferenciar SNG de SNE

Essa distinção é importante porque os termos muitas vezes são utilizados como se fossem sinônimos.

Sonda nasogástrica

A SNG é introduzida pela narina e tem como objetivo chegar ao estômago. Pode ser utilizada para alimentação, administração de medicamentos, drenagem gástrica, descompressão, lavagem e outras finalidades, dependendo do tipo de sonda e indicação clínica.

Sonda nasoenteral

A SNE é introduzida pela narina e busca uma localização além do estômago, geralmente no duodeno ou jejuno, dependendo da finalidade e do dispositivo utilizado. Isso muda completamente a discussão sobre confirmação. Uma coisa é demonstrar que existe conteúdo gástrico. Outra é demonstrar que a ponta da sonda está realmente pós-pilórica.

Por isso, não basta encontrar um método que indique “parece estar no estômago” quando o objetivo é uma localização intestinal.

O padrão-ouro: radiografia

Para a SNE recém-passada, a radiografia é considerada o padrão de referência para confirmar o posicionamento. A Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional afirma que a radiografia é o padrão de referência porque permite visualizar a sonda em relação às estruturas anatômicas. Estudos brasileiros e protocolos publicados na literatura também classificam o raio-X como padrão-ouro para a confirmação da SNE.

Isso acontece porque o exame não tenta simplesmente “adivinhar” onde a sonda está por meio de sinais indiretos. Ele permite visualizar o trajeto da sonda e a localização de sua extremidade.

Como funciona essa confirmação?

Depois da passagem da SNE, o paciente deve ser encaminhado para o exame de imagem conforme o protocolo do serviço. A imagem deve permitir avaliar o trajeto da sonda e sua extremidade distal. O exame precisa ser adequadamente interpretado e documentado antes de a sonda ser liberada para utilização, de acordo com o fluxo institucional.

Um protocolo brasileiro publicado na Revista Gaúcha de Enfermagem, por exemplo, estabelece a solicitação de radiografia para conferência da SNE e orienta aguardar a confirmação antes da liberação para dieta ou medicamento.

“Mas se a radiografia é o padrão-ouro, por que ainda fazem ausculta?”

Porque a ausculta foi, durante muitos anos, ensinada como um método prático de confirmação.

A técnica tradicional era mais ou menos assim:

  1. conectar uma seringa à sonda;
  2. injetar ar;
  3. colocar o estetoscópio sobre a região epigástrica;
  4. ouvir um “borbulhamento”;
  5. concluir que a sonda estava no estômago.

O problema é que o som não demonstra a localização anatômica da ponta da sonda.

A própria documentação técnica do Coren-AL ressalta que a ausculta epigástrica após a introdução de ar não é um método confiável: ela não consegue diferenciar adequadamente uma sonda no estômago de uma sonda no esôfago ou em estruturas respiratórias.

Uma pesquisa brasileira também encontrou baixa concordância entre a ausculta epigástrica e a radiografia e concluiu que a ausculta não deveria ser utilizada como método de confirmação isolado.

Então a ausculta está proibida?

É preciso ter cuidado com essa afirmação. Não é correto transformar a discussão em:

“Ausculta é proibida.”

O problema é outro: a ausculta não deve ser considerada um método confiável para confirmar sozinha o posicionamento da SNE. Ela pode fazer parte da avaliação clínica geral, mas não deve ser usada como justificativa isolada para liberar a dieta quando a confirmação radiológica é necessária.

Esse detalhe é muito importante para o estudante de Enfermagem.

O famoso “teste do copo com água”

Outro método que muitos estudantes aprenderam é colocar a extremidade da sonda em um recipiente com água e observar se aparecem bolhas. A lógica ensinada era:

“Se borbulhar, está no pulmão.”

Mas isso também não é seguro. O Coren-AL descreve limitações desse método e destaca inclusive o risco de aspiração de água caso a sonda esteja localizada no trato respiratório.

Portanto: não coloque a ponta da sonda em um copo com água para decidir se pode iniciar a dieta. Esse método não substitui uma confirmação adequada.

E observar a cor do aspirado?

Também não é suficiente sozinho. Pode-se tentar aspirar conteúdo pela sonda e observar suas características. O problema é que:

  • nem sempre é possível obter aspirado;
  • o aspecto pode variar;
  • secreções gástricas e respiratórias podem ser confundidas;
  • sangue, dieta, medicamentos e outras condições podem modificar a aparência.

O parecer técnico do Coren-AL destaca justamente essa limitação: a avaliação visual do aspirado pode apresentar dificuldade para diferenciar secreções de diferentes origens.

Portanto:

“parece conteúdo gástrico” não é sinônimo de “tenho certeza da posição”.

E o pH do aspirado?

Aqui temos uma diferença importante em relação aos métodos antigos. A mensuração do pH do aspirado gástrico possui utilidade e é recomendada em alguns protocolos, principalmente para confirmação de sondas nasogástricas.

Por exemplo, uma diretriz do NHS recomenda pH do aspirado como uma das duas formas aceitas para confirmação inicial de uma sonda nasogástrica fina, sendo a radiografia a outra opção. Quando não há aspirado ou o pH não confirma a localização, recomenda-se radiografia. Portanto, não devemos ensinar ao aluno:

“pH não serve.”

O mais correto é:

O pH pode ser útil, mas sua utilização depende do tipo de sonda e do protocolo; ele não deve ser tratado como substituto universal da radiografia para confirmar uma SNE pós-pilórica.

Por que o pH pode apresentar limitações?

Porque o pH gástrico não é absolutamente constante.

Ele pode ser influenciado por:

  • alimentação;
  • medicamentos que reduzem a acidez gástrica;
  • antiácidos;
  • inibidores da bomba de prótons;
  • bloqueadores H2;
  • determinadas condições clínicas.

O parecer técnico do Coren-AL também chama atenção para essa limitação. Além disso, não conseguir aspirar conteúdo não significa automaticamente que a sonda está no lugar errado, mas também não permite assumir que está certa. É justamente por isso que protocolos precisam estabelecer o que fazer quando o aspirado não é obtido.

E a medida externa da sonda?

Essa é uma ferramenta extremamente útil. Depois de confirmar a posição inicial, deve-se registrar a marca ou comprimento externo da sonda junto à narina.

Por exemplo:

“SNE posicionada, marca externa em 55 cm.”

Depois, nas avaliações subsequentes, verifica-se se essa medida permanece semelhante àquela registrada. Se antes estava em 55 cm e agora está em 48 cm, alguma coisa mudou.

Pode ter ocorrido deslocamento. Mas existe uma ressalva importante: a medida externa não confirma sozinha a localização interna.

Ela serve principalmente para detectar uma possível mudança em relação à posição previamente documentada. Um protocolo brasileiro de administração segura de nutrição enteral recomenda verificar a medida externa da SNE antes da administração de dieta ou medicamento e reavaliar radiologicamente se ocorrer tração acidental significativa.

“Se a sonda não saiu, posso confiar na medida externa?”

Não necessariamente. Uma sonda pode sofrer deslocamento interno sem que a mudança externa seja imediatamente evidente. Por isso, a medida externa é uma barreira complementar de segurança, não uma substituta universal da confirmação inicial.

A lógica é:

posição inicialmente confirmada + fixação adequada + monitoramento da marca externa + avaliação clínica + reavaliação quando houver suspeita de deslocamento.

E se o paciente tossiu muito ou vomitou?

Essa situação merece atenção.

Episódios de:

  • vômitos;
  • tosse intensa;
  • engasgos;
  • manipulação da sonda;
  • tração acidental;
  • desconexão;
  • mudança da marca externa;
  • piora respiratória inesperada;

podem levantar suspeita de deslocamento. Nessas situações, não se deve simplesmente assumir que a sonda continua posicionada porque “estava certa antes”. Protocolos internacionais recomendam nova avaliação quando há suspeita de deslocamento ou eventos clínicos que possam alterar a posição.

Um detalhe muito importante: “a sonda estava certa ontem”

Essa frase pode ser perigosa. Uma sonda corretamente posicionada às 8 horas da manhã não necessariamente estará na mesma posição às 20 horas. Por isso, a segurança não termina depois do primeiro raio-X. A equipe precisa continuar observando:

  • fixação;
  • comprimento externo;
  • integridade do sistema;
  • sinais respiratórios;
  • tolerância à dieta;
  • eventuais episódios de vômito ou tosse;
  • qualquer alteração que sugira deslocamento.

Quando NÃO iniciar a dieta?

Essa é uma das mensagens mais importantes para o estudante. Não inicie a dieta se houver dúvida sobre a posição da sonda. Se a confirmação necessária ainda não foi realizada, se o resultado não está disponível, se existe divergência entre a posição registrada e a observada ou se houve suspeita de deslocamento, a conduta segura é interromper a administração e comunicar o enfermeiro/médico conforme o protocolo institucional.

  • Não tente “resolver a dúvida” apenas colocando ar e auscultando.
  • Não utilize o copo com água como confirmação.
  • Não confie somente na aparência do aspirado.
  • Não diga: “Deve estar no lugar.”

Quando estamos falando de uma via que pode levar diretamente ao trato respiratório, “deve estar” não é confirmação.

O que fazer antes de liberar a dieta?

Uma forma prática de pensar é utilizar uma sequência de segurança.

  1. Confirme a identificação do paciente

Antes de qualquer procedimento, confirme corretamente o paciente de acordo com o protocolo institucional. A identificação correta é uma das estratégias básicas de segurança do paciente estabelecidas pelo Ministério da Saúde.

  1. Verifique qual é a sonda

Identifique:

  • SNG?
  • SNE?
  • Gastrostomia?
  • Jejunostomia?

O método de confirmação pode variar conforme o dispositivo e o objetivo.

  1. Confira a documentação

Verifique se existe registro da passagem e da confirmação da posição.

  1. Confira a marca externa

Compare com a medida registrada após a confirmação inicial.

  1. Procure sinais de deslocamento

Observe fixação, comprimento externo, desconexões, tração, vômitos e alterações respiratórias.

  1. Confirme se a sonda está liberada para uso

Não basta a sonda estar presente.

É necessário que esteja confirmada e liberada conforme o protocolo institucional.

  1. Só então administre a dieta

A dieta deve ser iniciada somente depois que os critérios de segurança forem atendidos.

E a cabeceira do paciente?

Mesmo com a sonda corretamente posicionada, existe outro cuidado importante: o posicionamento do paciente durante a dieta.

Em geral, a cabeceira deve permanecer elevada, conforme prescrição e protocolo institucional, frequentemente em torno de 30° a 45°, especialmente durante a administração da nutrição enteral e por período posterior conforme orientação do serviço.

Um protocolo brasileiro de administração segura de nutrição enteral recomenda cabeceira elevada a pelo menos 30° durante a infusão. Isso é importante porque a prevenção da aspiração não depende de uma única medida.

É um conjunto de barreiras.

Quais métodos antigos não devem ser usados sozinhos?

Podemos resumir assim:

Método Pode ajudar? Deve ser usado sozinho para liberar dieta?
Radiografia Sim É o método de referência para SNE recém-passada
pH do aspirado Sim, em situações/protocolos específicos Não universalmente
Avaliação do aspirado Pode fornecer informações Não
Ausculta após injetar ar Não é confiável para confirmar posição Não
Borbulhamento no copo com água Não é confiável Não
Apenas observar a marca externa Ajuda no monitoramento Não
Sintomas clínicos isolados Podem levantar suspeita Não
Ultrassom à beira-leito Promissor em mãos treinadas e contextos específicos Depende de protocolo/competência; não substitui automaticamente o padrão de referência

E a ultrassonografia?

A ultrassonografia à beira-leito é uma área interessante e vem sendo estudada como alternativa para avaliação do posicionamento de sondas. Ela apresenta vantagens como ausência de radiação e possibilidade de realização à beira-leito.

Entretanto, isso não significa que qualquer profissional possa simplesmente pegar um aparelho de ultrassom e “confirmar a sonda”. É necessária capacitação, equipamento adequado e protocolo.

Estudos brasileiros apontam que a ultrassonografia pode ser uma alternativa em determinadas situações, mas ainda existem limitações relacionadas à acurácia e à disponibilidade de profissionais treinados.

Portanto, atualmente, para o estudante: ultrassom não deve ser tratado automaticamente como substituto do raio-X para todas as situações.

E se o paciente estiver em UTI?

Na UTI, a atenção deve ser ainda maior. Pacientes críticos podem apresentar:

  • alteração do nível de consciência;
  • sedação;
  • intubação;
  • traqueostomia;
  • ausência de reflexos protetores;
  • ventilação mecânica;
  • alterações anatômicas;
  • maior risco de aspiração.

O próprio Cofen destaca que pacientes neurológicos, inconscientes, idosos e traqueostomizados apresentam maior risco de mau posicionamento. Além disso, o paciente pode não conseguir comunicar que está sentindo dor, tosse ou desconforto durante a passagem.

Por isso, não espere que o paciente apresente sinais dramáticos para desconfiar de uma posição inadequada.

Uma experiência prática que vale para o estágio

Uma das situações que mais confundem estudantes é quando alguém da equipe diz: “Pode passar a dieta, eu já escutei.”

Nesse momento, o estudante precisa entender que a prática do setor não substitui o protocolo institucional nem a evidência científica. Se você está no estágio e encontra uma situação assim, não é necessário confrontar ninguém.

Pergunte:

“A posição já foi confirmada e liberada no prontuário?”

É uma pergunta simples, profissional e voltada para a segurança.

Se houver dúvida:

“Vou confirmar com o enfermeiro antes de iniciar a dieta.”

Essa postura demonstra responsabilidade, não insegurança.

O papel do técnico e do enfermeiro

A Resolução Cofen nº 619/2019 estabelece as competências da equipe de Enfermagem relacionadas à sondagem oro/nasoenteral.

Segundo a norma, a inserção da SNG/SOG e SNE é privativa do enfermeiro, enquanto técnicos e auxiliares podem auxiliar no procedimento e executar cuidados de manutenção e monitoramento conforme suas atribuições, prescrição e supervisão.

Ao enfermeiro compete, entre outras responsabilidades previstas na resolução:

  • estabelecer o acesso;
  • realizar os testes para confirmação do trajeto;
  • solicitar exame radiológico para confirmação da SNE;
  • garantir a manutenção do acesso;
  • prescrever cuidados;
  • registrar as ocorrências e dados relacionados ao procedimento.

Isso não significa que o técnico de enfermagem seja um mero “executor”. Na manutenção da terapia enteral, a observação do paciente e a comunicação de qualquer alteração são fundamentais. Se o técnico percebe que a sonda estava marcada em determinado ponto e agora está diferente, por exemplo, essa informação precisa ser comunicada.

O que fazer se houver suspeita de mau posicionamento?

A primeira regra é simples: não administrar a dieta até esclarecer a situação.

Depois:

  1. interromper a administração, se já estiver ocorrendo;
  2. manter o paciente em posição segura;
  3. comunicar imediatamente o enfermeiro;
  4. avaliar sinais respiratórios e condições clínicas;
  5. conferir a marca externa e a fixação;
  6. seguir o protocolo institucional para confirmação;
  7. documentar a ocorrência conforme rotina do serviço.

Se houver sinais como: dispneia, tosse intensa, dessaturação, cianose, desconforto respiratório ou alteração súbita do estado clínico, a situação deve ser tratada com prioridade.

Por que administrar dieta em uma sonda pulmonar é tão perigoso?

Porque a dieta enteral não foi feita para entrar nas vias respiratórias. Se a sonda estiver em uma estrutura respiratória e a dieta for administrada, pode ocorrer aspiração pulmonar, com consequências que variam de irritação e inflamação até pneumonia aspirativa e insuficiência respiratória.

A Resolução Cofen nº 619/2019 cita especificamente a possibilidade de inserção em brônquios e desenvolvimento de pneumonia aspirativa e infecção broncopulmonar. É por isso que o momento da confirmação da posição merece tanta atenção.

“Mas eu sempre aprendi que era só auscultar”

Essa talvez seja uma das frases mais importantes deste tema. Na Enfermagem, existem procedimentos que foram ensinados durante muitos anos e que continuam sendo repetidos simplesmente porque:

“sempre foi feito assim.”

Mas a prática profissional precisa acompanhar a evolução das evidências. O fato de determinado método ter sido ensinado no curso técnico, na faculdade ou por profissionais experientes não significa automaticamente que ele seja o método mais seguro atualmente.

A ausculta epigástrica é um excelente exemplo, e ela pode parecer convincente porque produz um som. O problema é que um som não é uma imagem anatômica, e essa diferença é fundamental.

Resumo para guardar para a prova

Se você estiver estudando para uma prova de Enfermagem e aparecer a pergunta:

“Qual é o padrão-ouro para confirmar o posicionamento da sonda nasoenteral?”

A resposta esperada, no contexto brasileiro tradicional e das diretrizes citadas, é:

Radiografia.

Se aparecer:

“Ausculta epigástrica após insuflação de ar confirma o posicionamento?”

A resposta é:

Não. Não é um método confiável para confirmar isoladamente a localização da sonda.

Se aparecer:

“Colocar a ponta da sonda em um copo com água confirma se ela está no pulmão?”

Não. Esse método não é confiável e pode oferecer risco.

Se aparecer:

“O pH do aspirado pode ser utilizado?”

A resposta mais completa é:

Pode ser útil em determinados protocolos, especialmente para SNG, mas possui limitações e não substitui automaticamente a radiografia para confirmação de uma SNE pós-pilórica.

Checklist rápido antes de liberar a dieta

Antes de conectar a dieta, pense:

  • Paciente correto?
  • Sonda correta?
  • Posição inicial confirmada?
  • Há registro da confirmação?
  • A sonda foi liberada para uso?
  • Marca externa está de acordo com o registro?
  • Fixação está íntegra?
  • Houve vômito, tosse intensa ou tração desde a última confirmação?
  • Existe alguma dúvida sobre o posicionamento?

Se a última resposta for sim, pare.

Não iniciar a dieta se houver dúvida sobre a posição da sonda. Essa é uma frase simples, mas que pode evitar um evento adverso grave. A confirmação do posicionamento da sonda antes da dieta é um daqueles assuntos em que a experiência prática precisa caminhar junto com a atualização científica.

Durante muito tempo, técnicas como auscultar o epigástrio após injetar ar, observar o aspirado ou colocar a extremidade da sonda em um copo com água foram ensinadas como formas de verificar a posição.

Hoje, sabemos que esses métodos apresentam limitações importantes e não devem ser utilizados isoladamente para confirmar uma SNE e liberar sua utilização. Para a SNE recém-inserida, a radiografia permanece o padrão de referência/padrão-ouro na literatura brasileira, pois permite visualizar o trajeto e a localização da sonda.

Ao mesmo tempo, o pH do aspirado tem papel relevante em determinados protocolos, especialmente para SNG, e pode funcionar como ferramenta de avaliação à beira-leito quando utilizado dentro de critérios bem definidos.

O mais importante é não transformar um método auxiliar em uma falsa certeza.

  • Auscultar não é visualizar.
  • Aspirar não é necessariamente confirmar.
  • Ver a marca externa não é comprovar a localização interna.

E, principalmente: se houver dúvida sobre a posição da sonda, a dieta não deve ser iniciada até que a situação seja esclarecida conforme o protocolo institucional.

Esse é o tipo de cuidado que transforma conhecimento técnico em segurança real para o paciente.

Referências:

  1. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 619, de 4 de novembro de 2019. Normatiza a atuação da Equipe de Enfermagem na Sondagem Oro/Nasogástrica e Nasoentérica. Brasília, DF: Cofen, 2019. Disponível em: Resolução Cofen nº 619/2019
  2. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE ALAGOAS (COREN-AL). Parecer Técnico nº 04/2022: posicionamento de sonda nasoenteral e confirmação radiológica. Maceió: Coren-AL, 2022. Disponível em: Parecer Técnico nº 04/2022
  3. MACEDO, A. B. T. et al. Elaboração e validação de protocolo para administração segura de nutrição enteral em pacientes hospitalizados. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre. Disponível em: Artigo na Revista Gaúcha de Enfermagem
  4. BRASPEN. Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional Oral, Enteral e Parenteral. São Paulo: BRASPEN. Disponível em: Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional
  5. RIGOBELLO, M. C. G. Acurácia e custo de métodos utilizados por enfermeiros na confirmação do posicionamento de sondas nasoenterais recém-inseridas às cegas à beira leito. Tese (Doutorado em Enfermagem) – Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto. Disponível em: Repositório da Universidade de São Paulo
  6. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos de Segurança do Paciente. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Protocolos de Segurança do Paciente – Ministério da Saúde
  7. NHS AYRSHIRE & ARRAN. Insertion and care of fine bore nasogastric tubes for enteral feeding and medication in adults. Clinical Guideline G081. Disponível em: NHS – Nasogastric tube position confirmation guideline.
  8. BISCHOFF, S. C. et al. ESPEN practical guideline: Home enteral nutrition. Clinical Nutrition, v. 41, p. 468–488, 2022. Disponível em: ESPEN Practical Guidelines.
  9. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Protocolo de prática segura na administração de medicamentos, sangue e tecidos: prevenção de erros na administração de dietas enterais. Brasília: Anvisa, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/seguranca-do-paciente
  10. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Parecer Cofen nº 003/2021: Atuação da equipe de enfermagem na passagem e confirmação de sondas enterais e gástricas. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/
  11. SILVA, M. R.; SOUZA, A. C. Segurança do paciente em terapia nutricional enteral: evidências atuais sobre a confirmação do posicionamento de sondas. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 77, n. 2, p. 112-118, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/

Onde colocar a etiqueta do frasco de hemocultura? Forma correta, informações e cuidados de enfermagem

Vá direto ao ponto!

A coleta de hemocultura é um procedimento muito importante para identificar microrganismos presentes na corrente sanguínea e auxiliar no diagnóstico de infecções, como bacteremia e sepse. Porém, não basta coletar o sangue corretamente. A identificação do frasco também faz parte da segurança do exame.

Ao longo da minha trajetória na enfermagem, já vi mais de uma vez uma coleta perfeitamente executada perder valor porque a etiqueta foi colada no lugar errado — cobrindo o código de barras ou a validade do frasco. O resultado quase sempre é o mesmo: uma ligação do laboratório pedindo esclarecimento, ou, em casos mais graves, a necessidade de repetir toda a coleta. É um detalhe pequeno, mas que pode gerar bastante dor de cabeça — tanto para a equipe quanto para o paciente, que precisa ser puncionado novamente.

Um frasco corretamente coletado, mas identificado de maneira inadequada, pode gerar dúvidas sobre a origem da amostra, dificultar a interpretação do resultado e até levar à necessidade de uma nova coleta. Uma das dúvidas mais comuns entre estudantes e profissionais de enfermagem é justamente esta: onde colocar a etiqueta no frasco de hemocultura?

A resposta é simples, mas existe um detalhe que faz toda a diferença: a etiqueta deve ser colocada no corpo do frasco, sem cobrir o código de barras, a identificação original do fabricante ou a validade do produto, e nunca na tampa ou no fundo do frasco.

As orientações específicas podem variar de acordo com o fabricante e o protocolo do laboratório ou da instituição. Por isso, sempre deve ser seguido o POP institucional quando houver alguma orientação diferente.

O que é a hemocultura?

A hemocultura é um exame microbiológico realizado a partir de uma amostra de sangue para pesquisar a presença de microrganismos na corrente sanguínea. É particularmente importante na investigação de suspeita de bacteremia, fungemia, sepse e outras infecções sistêmicas.

O resultado pode auxiliar na identificação do agente causador e, posteriormente, na definição do tratamento antimicrobiano mais adequado. Mas existe um ponto importante: a qualidade da hemocultura começa antes de o sangue chegar ao laboratório.

A escolha do local de coleta, a higienização das mãos, a antissepsia da pele, a desinfecção da tampa do frasco, o volume coletado, a identificação e o transporte são etapas que interferem diretamente na qualidade do exame. A própria Anvisa destaca que a antissepsia adequada da pele é um dos fatores fundamentais para reduzir a possibilidade de uma hemocultura positiva ser interpretada como contaminação.

Onde colocar a etiqueta do frasco de hemocultura?

A etiqueta deve ser colocada na lateral/corpo do frasco, em uma área que não prejudique as informações originais do fabricante.

O princípio é:

ETIQUETA NO CORPO DO FRASCO.

Não se deve colocar a etiqueta:

  • sobre o código de barras;
  • sobre a data de validade;
  • sobre informações importantes do fabricante;
  • na tampa;
  • no fundo do frasco.

Manuais de microbiologia do Ministério da Saúde orientam que a identificação seja colocada no frasco de coleta e nunca na tampa ou sobre os rótulos originais. Protocolos hospitalares mais recentes também reforçam que a etiqueta não deve cobrir o código de barras do frasco.

Por que não colocar a etiqueta sobre o código de barras?

O código de barras faz parte da identificação e rastreabilidade do frasco. Dependendo do sistema utilizado pelo laboratório, ele pode ser necessário para leitura automatizada, identificação do recipiente e processamento da amostra. Se a etiqueta do paciente for colocada por cima, o código pode ficar ilegível ou oculto.

Por isso, uma regra prática para memorizar é:

Nunca cubra o código de barras do frasco de hemocultura.

Também é importante não cobrir a data de validade. Alguns serviços utilizam etiquetas próprias que já possuem dimensões e posicionamento definidos. Nesses casos, deve-se seguir o padrão estabelecido pelo laboratório.

E se o frasco já tiver uma etiqueta do fabricante?

Essa é uma situação que exige atenção. O frasco de hemocultura possui informações próprias do fabricante, como código de barras, lote, validade e identificação do meio de cultura. A identificação do paciente não deve simplesmente apagar ou esconder essas informações. O manual de microbiologia do Ministério da Saúde reforça que a identificação deve ser feita no frasco e que não se deve colocar a identificação sobre rótulos ou na tampa.

Portanto, antes de colar a etiqueta, procure a área adequada do frasco indicada pelo protocolo institucional ou pelo fabricante.

O que deve conter na etiqueta?

As informações podem variar de acordo com o sistema de identificação utilizado pelo serviço, mas a identificação precisa permitir que a amostra seja relacionada de forma inequívoca ao paciente e à coleta. Nas orientações da Anvisa para coleta de hemocultura, são citados como dados de identificação:

nome do paciente, leito, data, hora e local de coleta (sítio anatômico).

Na prática, o protocolo institucional pode exigir também outros identificadores, como número do prontuário, registro hospitalar ou código da amostra. Uma etiqueta adequadamente identificada pode conter, conforme o padrão do serviço:

  • Nome completo do paciente
  • Número do prontuário/registro
  • Data da coleta
  • Horário da coleta
  • Local ou sítio anatômico da coleta
  • Identificação da amostra ou sequência da coleta, quando exigida

O importante é que o profissional não improvise os dados. A instituição deve possuir um padrão de identificação.

A data e o horário da coleta são importantes?

Sim, e o horário merece bastante atenção. O momento em que a amostra foi coletada é uma informação importante para o laboratório e para a equipe assistencial.

Além de fazer parte da rastreabilidade da amostra, o horário pode ser relevante para a interpretação clínica, principalmente quando são coletadas várias amostras ou quando o paciente já recebeu antimicrobianos. Por isso, a etiqueta deve registrar o horário real da coleta, conforme o padrão institucional.

Não é adequado preencher posteriormente “de memória”.

Precisa colocar o local da coleta?

Sim. O sítio anatômico da coleta é uma informação muito importante, principalmente quando são obtidas amostras de locais diferentes. Por exemplo:

1ª amostra – veia periférica direita

2ª amostra – veia periférica esquerda

Quando existe suspeita de infecção relacionada a cateter, a identificação do local torna-se ainda mais importante. Um protocolo do Hospital Universitário Walter Cantídio/Ebserh orienta que, quando houver coleta pelo cateter para investigação de infecção relacionada ao dispositivo, essa amostra seja acompanhada por uma ou duas amostras periféricas e que os frascos sejam corretamente identificados quanto ao local de punção.

Portanto, simplesmente escrever “hemocultura 1” e “hemocultura 2” pode não ser suficiente quando o protocolo exige a identificação do sítio.

Como identificar duas ou mais amostras?

Quando são coletados diferentes conjuntos de hemocultura, é importante diferenciá-los conforme o protocolo do serviço. Uma identificação pode seguir um padrão como:

1ª coleta – periférica – MSD – 08:30

2ª coleta – periférica – MSE – 08:35

O exemplo acima é apenas ilustrativo. O padrão oficial deve ser aquele adotado pela instituição. Alguns laboratórios utilizam códigos específicos, como HEMC1, HEMC2, HEMC3 e HEMC4, para identificar a sequência das amostras.

E se forem coletados frascos aeróbio e anaeróbio?

Quando uma coleta compreende um conjunto de frascos aeróbio e anaeróbio, ambos precisam estar corretamente associados àquela coleta. O importante é não criar uma identificação que permita confundir os frascos entre diferentes punções. Por exemplo, se forem realizados dois conjuntos de hemocultura, deve ser possível identificar quais frascos pertencem à primeira coleta e quais pertencem à segunda.

Isso é particularmente importante quando diferentes sítios anatômicos são utilizados.

Posso escrever diretamente no frasco?

Isso depende do protocolo e do fabricante. Algumas instituições utilizam etiquetas próprias; outras podem determinar o uso de caneta específica em determinadas situações. Por isso, não existe uma recomendação universal para simplesmente escrever qualquer informação diretamente no frasco. A orientação mais segura é utilizar o sistema de identificação padronizado pela instituição.

O mais importante é que a identificação seja legível, completa e não prejudique as informações originais do frasco.

Posso colocar a etiqueta na tampa?

Não. Essa é uma das informações mais importantes para memorizar. A tampa do frasco é utilizada durante o procedimento de coleta e possui uma superfície que precisa ser submetida à desinfecção. Além disso, a identificação na tampa pode ser perdida ou dificultar a identificação adequada da amostra. As orientações do Ministério da Saúde estabelecem que a identificação seja feita no frasco e não na tampa.

Portanto:

Etiqueta no corpo do frasco.

Nunca na tampa.

Posso colocar a etiqueta no fundo do frasco?

Também não. Além de dificultar a leitura e a identificação, o fundo do recipiente não é o local recomendado para a identificação. Há serviços laboratoriais que especificam expressamente que não deve haver etiqueta ou anotação no fundo do frasco.

Posso cobrir a data de validade?

Não. A validade do frasco precisa permanecer visível.  Antes da coleta, o profissional deve conferir se o frasco está dentro da validade e em condições adequadas para utilização. Depois da identificação, essa informação deve continuar acessível. Alguns serviços inclusive orientam expressamente que a etiqueta seja posicionada de forma que não cubra a data de validade.

Posso cobrir o código de barras?

Não. Essa é provavelmente a regra mais importante relacionada ao posicionamento da etiqueta. O código de barras deve permanecer livre e legível. Uma forma simples de lembrar é:

  • Não cubra o código de barras.
  • Não cubra a validade.
  • Não cubra as informações originais importantes.

O que fazer antes de coletar a hemocultura?

A identificação deve fazer parte do preparo do procedimento. O profissional deve conferir a identificação do paciente e preparar os frascos conforme o protocolo. A Anvisa recomenda que, antes da coleta, o profissional prepare o material e disponha a etiqueta de identificação no frasco com os dados necessários, incluindo paciente, leito, data, hora e local de coleta.

Isso ajuda a reduzir o risco de trocar frascos ou tentar identificar a amostra posteriormente.

Identificar antes ou depois de coletar?

A orientação deve seguir o protocolo institucional, mas há protocolos que recomendam deixar os frascos identificados antes da coleta. Essa prática reduz o risco de manipulação posterior e de troca entre amostras. Um protocolo da Ebserh orienta explicitamente preparar o material e dispor a etiqueta de identificação no frasco antes de iniciar as demais etapas da coleta. Independentemente do momento adotado pelo serviço, existe um princípio que não deve ser esquecido:

a identificação deve ser realizada de forma segura e imediatamente relacionada à coleta correta.

A identificação do paciente deve ser conferida?

Sim. A identificação correta do paciente é uma das principais barreiras contra erros. O profissional deve utilizar os identificadores definidos pela instituição e conferir o paciente antes da coleta. Quando possível, a confirmação deve ser realizada de forma ativa, solicitando que o próprio paciente informe seus dados, em vez de simplesmente perguntar “Você é fulano?”.

Em pacientes impossibilitados de responder, devem ser utilizados os métodos institucionais de identificação.

Por que uma etiqueta errada pode comprometer o exame?

Já presenciei situações em que dois conjuntos de hemocultura foram coletados de pacientes diferentes no mesmo plantão, e a ausência de uma identificação clara do horário e do sítio de coleta gerou dúvida na hora de correlacionar os resultados com a evolução clínica de cada paciente.

Esse tipo de situação reforça por que a identificação não pode ser tratada como uma etapa “automática” — ela exige a mesma atenção que a técnica de coleta em si. O laboratório pode processar uma amostra perfeitamente, mas o resultado será associado ao paciente errado. Isso pode levar a decisões clínicas inadequadas. Outro problema é a ausência do sítio de coleta. Quando o laboratório identifica crescimento bacteriano, saber se a amostra veio de uma punção periférica ou de um cateter pode ter importância na interpretação clínica.

Por isso, identificar corretamente é parte da qualidade da hemocultura, e não apenas uma etapa burocrática.

Hemocultura e risco de contaminação

Uma das maiores preocupações durante a coleta é a contaminação da amostra. Uma hemocultura contaminada pode apresentar crescimento de microrganismos que não estavam realmente presentes na corrente sanguínea do paciente. Isso pode resultar em investigação adicional, prolongamento da internação e uso desnecessário de antimicrobianos. A Anvisa destaca que a antissepsia da pele é fundamental para reduzir a contaminação da hemocultura.

Por isso, a identificação correta precisa caminhar junto com uma técnica de coleta adequada.

Cuidados de enfermagem na coleta de hemocultura

Na minha rotina, sempre confiro a etiqueta antes de sair do posto de enfermagem em direção ao leito — nunca deixo esse passo para depois da punção. Esse pequeno hábito evita que, em meio à correria do plantão, a identificação seja feita “de memória” ou de forma apressada.

A enfermagem deve seguir rigorosamente o protocolo institucional:

Higienização das mãos

Realizar higiene das mãos antes do procedimento e conforme as etapas necessárias. A higiene das mãos é uma das medidas fundamentais para prevenção de infecções relacionadas à assistência.

Conferência do paciente

Confirmar corretamente a identidade do paciente utilizando os identificadores estabelecidos pelo serviço.

Conferência dos frascos

Antes da coleta, verificar:

  • validade;
  • integridade;
  • tipo de frasco;
  • condições do recipiente;
  • código de barras;
  • informações do fabricante.

Identificação dos frascos

Identificar corretamente os frascos antes ou conforme o momento estabelecido pelo protocolo. A etiqueta deve permanecer no corpo do frasco, sem cobrir código de barras, validade ou outras informações essenciais.

Assepsia da tampa

Após retirar o lacre, realizar a desinfecção da tampa de borracha conforme protocolo institucional e orientação do fabricante. Manuais de microbiologia recomendam a desinfecção da tampa antes da inoculação da amostra.

Antissepsia da pele

A antissepsia adequada do local da punção é uma das etapas mais importantes para reduzir contaminação. O produto utilizado e o tempo de contato devem seguir o protocolo institucional. A Anvisa apresenta recomendações específicas sobre antissépticos e ressalta a importância de permitir a ação adequada do produto antes da punção.

Volume adequado

O volume de sangue influencia diretamente a sensibilidade da hemocultura. Deve-se respeitar o volume recomendado pelo fabricante do frasco, considerando idade e condição clínica do paciente. Não se deve simplesmente “encher o frasco” sem observar a indicação de volume.

Local de coleta

Quando a coleta for periférica, registrar o sítio conforme o protocolo. Quando houver investigação de infecção relacionada a cateter, identificar claramente a origem de cada amostra.

Transporte

Após a coleta, os frascos devem ser encaminhados ao laboratório de acordo com o protocolo institucional. Manuais de microbiologia recomendam encaminhamento imediato, porque condições inadequadas podem interferir na recuperação dos microrganismos.

Um exemplo de etiqueta correta

Um modelo simplificado poderia apresentar:

Paciente: João da Silva
Registro: 123456
Data: 18/08/2026
Hora: 10:30
Local: MSD – punção periférica
Amostra: 1ª coleta

Esse é apenas um exemplo didático. O conteúdo real deve seguir o padrão definido pelo hospital ou laboratório.

Exemplo de identificação quando há coleta periférica e de cateter

Quando o objetivo é investigar possível infecção relacionada ao cateter, a identificação precisa deixar clara a origem da amostra.

Por exemplo:

Amostra 1 – periférica – MSE

Amostra 2 – cateter venoso central

A identificação do local permite ao laboratório e à equipe assistencial compreender a origem de cada amostra. Um protocolo da Ebserh destaca justamente a necessidade de identificar corretamente as amostras quanto ao local de punção nesses casos.

O que NÃO fazer com a etiqueta do frasco de hemocultura?

Para memorizar de maneira rápida:

  • Não cole na tampa.
  • Não cole no fundo.
  • Não cubra o código de barras.
  • Não cubra a validade.
  • Não cubra informações importantes do fabricante.
  • Não deixe o frasco sem identificação.
  • Não identifique posteriormente sem seguir o protocolo institucional.
  • Não misture a identificação de diferentes pacientes ou diferentes sítios de coleta.

Uma dica simples para estudantes de enfermagem

Essa é uma regra que costumo repassar para técnicos e estudantes que acompanho:

CORPO DO FRASCO + CÓDIGO DE BARRAS LIVRE + VALIDADE VISÍVEL.

Não é só um macete decorado — nasceu da necessidade real de evitar recoleta, que é desconfortável para o paciente e gera retrabalho para toda a equipe. Essa regra simples ajuda a evitar um dos erros mais comuns durante a identificação. Mas existe uma quarta regra ainda mais importante:

sempre siga o POP do seu serviço e as orientações do fabricante do frasco.

Isso acontece porque diferentes sistemas automatizados podem utilizar etiquetas, códigos e áreas de leitura específicas.

Etiqueta correta x etiqueta incorreta

Etiqueta correta

A etiqueta está no corpo do frasco, bem fixada, legível, contendo os dados exigidos pelo serviço e sem cobrir o código de barras ou a validade.

Etiqueta incorreta

A etiqueta está sobre o código de barras, cobre a validade, foi colocada na tampa ou no fundo do frasco, está ilegível ou não permite identificar adequadamente o paciente e o momento/local da coleta.

Por que esse cuidado é tão importante para a enfermagem?

A coleta de hemocultura parece um procedimento simples, mas envolve várias etapas críticas. Uma pequena falha na identificação pode comprometer todo o processo. O enfermeiro e o técnico de enfermagem precisam compreender que segurança do paciente também envolve a fase pré-analítica do exame.

Identificar corretamente o frasco significa garantir rastreabilidade, reduzir erros, facilitar a interpretação dos resultados e contribuir para que o paciente receba o tratamento adequado. Por isso, etiquetar corretamente não é apenas “colar uma etiqueta”. É uma etapa de segurança e qualidade assistencial.

A regra principal é bastante simples:

A etiqueta de identificação da hemocultura deve ser colocada no corpo do frasco, sem cobrir o código de barras, a data de validade ou informações importantes do fabricante. Nunca deve ser colocada na tampa ou no fundo do frasco.

Na identificação, devem constar os dados exigidos pelo serviço, incluindo, de acordo com o protocolo, nome do paciente, identificação do registro, data, horário e local/sítio de coleta, além da identificação da sequência da amostra quando aplicável.

E existe um último cuidado que merece ser reforçado: o protocolo institucional sempre deve ser consultado. O tipo de frasco, sistema automatizado, etiqueta utilizada, informações obrigatórias e forma de transporte podem variar entre instituições.

Uma hemocultura de qualidade começa com uma boa indicação e termina com uma amostra corretamente identificada, coletada, acondicionada e encaminhada ao laboratório.

Depois de anos atuando em terapia intensiva, aprendi que os detalhes que parecem “pequenos” — como o posicionamento correto de uma etiqueta — são frequentemente os que mais previnem erros graves. Cuidar bem da fase pré-analítica de um exame é, na prática, uma extensão direta do cuidado com o paciente.

Referências: 

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Microbiologia clínica para o controle de infecção relacionada à assistência à saúde: módulo 4 – procedimentos laboratoriais da requisição do exame à análise microbiológica e laudo final. Brasília, DF: Anvisa. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/modulo-4-procedimentos-laboratoriais-da-requisicao-do-exame-a-analise-microbiologica-e-laudo-final.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de procedimentos básicos em microbiologia clínica para o controle de infecção hospitalar: módulo I. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_procedimentos_microbiologiaclinica_controle_infechospitalar.pdf.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Microbiologia Clínica. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_microbiologia_completo.pdf.
  4. EMPRESA BRASILEIRA DE SERVIÇOS HOSPITALARES (EBSERH). Prevenção de infecção da corrente sanguínea (ICS). Hospital Universitário Walter Cantídio, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/ebserh-/pt-br/hospitais-universitarios/regiao-nordeste/ch-ufc/acesso-a-informacao/protocolos-e-pops/hospital-universitario-walter-cantidio/protocolos/servico-de-controle-de-infeccao-hospitalar/pro-scih-huwc-007-v1-prevencao-de-infeccao-da-corrente-sanguinea-ics.pdf.
  5. EMPRESA BRASILEIRA DE SERVIÇOS HOSPITALARES (EBSERH). Processamento de hemoculturas. Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados. Disponível em: https://www.gov.br/ebserh-intensifica-assistencia-a-distancia-como-estrategia-de-combate-a-cov/pt-br/hospitais-universitarios/regiao-centro-oeste/hu-ufgd/acesso-a-informacao/pops-protocolos-e-processos/gad/pop-ulacp-012-microbiologia__processamento-de-hemoculturas-2021_2023-_validado_svssp.pdf
  6. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Medidas de prevenção de infecção relacionada à assistência à saúde. Brasília: Anvisa, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br
  7. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  8. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PATOLOGIA CLÍNICA / MEDICINA LABORATORIAL (SBPC/ML). Boas práticas na coleta de sangue venoso e hemoculturas. São Paulo: SBPC/ML, 2022. Disponível em: https://www.sbpc.org.br/

Lesão por Dispositivo Médico: o que é, como identificar e quais são os cuidados de enfermagem

A assistência de enfermagem envolve o uso diário de inúmeros dispositivos médicos. Cateteres, sondas, máscaras de oxigênio, tubos, fixadores, talas, eletrodos, sensores e outros recursos são fundamentais para monitorar, tratar e manter a vida de muitos pacientes.

Mas existe um detalhe que não pode ser esquecido: um dispositivo criado para cuidar também pode causar uma lesão.

Quando determinado dispositivo permanece em contato com a pele ou com tecidos por tempo prolongado, especialmente quando exerce pressão, tração, fricção ou cisalhamento, pode provocar uma lesão relacionada a dispositivo médico. Essas lesões são particularmente importantes em pacientes críticos, idosos, pessoas com mobilidade reduzida e pacientes submetidos a terapias que exigem dispositivos continuamente.

As lesões por pressão relacionadas a dispositivos médicos são reconhecidas como um tipo específico de lesão por pressão. A diretriz internacional de 2025 define essas lesões como aquelas que ocorrem sob ou próximas a dispositivos utilizados para fins diagnósticos ou terapêuticos, como dispositivos de oxigenoterapia, tubos, talas, órteses e eletrodos.

Por isso, compreender esse problema é fundamental para quem trabalha ou estuda enfermagem.

O que é uma Lesão por Dispositivo Médico?

A Lesão por Dispositivo Médico (LDM) ocorre quando um dispositivo utilizado no cuidado do paciente provoca dano à pele ou aos tecidos subjacentes.

Na prática, imagine uma máscara de ventilação não invasiva que permanece pressionando continuamente a região do nariz. Se essa pressão não for adequadamente avaliada e aliviada, pode surgir inicialmente uma área avermelhada e dolorosa. Com a continuidade da pressão, a lesão pode evoluir para perda da integridade da pele e atingir tecidos mais profundos.

O mesmo princípio pode acontecer com uma sonda, um cateter, um tubo endotraqueal, uma tala, um colar cervical ou até mesmo um sensor de monitorização.

Portanto, o dispositivo não precisa estar “apertado demais” para causar uma lesão. Pressão contínua, fricção, cisalhamento, umidade, posicionamento inadequado e tempo prolongado de contato podem contribuir para o problema.

A literatura internacional considera as lesões relacionadas a dispositivos médicos uma preocupação relevante de segurança do paciente. Uma revisão sistemática publicada em 2023 encontrou estimativas de prevalência de aproximadamente 10% e incidência de 12% para esse tipo de lesão nos estudos analisados.

Por que o dispositivo médico pode machucar a pele?

Para entender a LDM, é interessante pensar em uma situação bastante simples. Imagine colocar um objeto sobre a pele e mantê-lo pressionado durante várias horas. Inicialmente, talvez não aconteça nada perceptível. Entretanto, se a pressão permanecer continuamente sobre a mesma região, a circulação local pode ser prejudicada.

A pressão pode comprimir pequenos vasos sanguíneos. Com isso, ocorre redução do fornecimento de oxigênio e nutrientes aos tecidos. Se essa situação persistir, o tecido pode sofrer hipóxia, isquemia e, posteriormente, necrose.

Quando acrescentamos outros fatores, como fricção, cisalhamento, umidade e fragilidade da pele, o risco aumenta ainda mais. É justamente por isso que um dispositivo corretamente instalado não significa necessariamente um dispositivo seguro durante todo o período de utilização.

O paciente muda de posição, apresenta edema, transpira, movimenta-se, perde ou ganha peso, desenvolve alterações circulatórias e pode apresentar mudanças na tolerância ao dispositivo. A enfermagem precisa acompanhar essas mudanças.

Quais dispositivos podem causar lesões?

Praticamente qualquer dispositivo que permaneça em contato prolongado com o organismo pode, dependendo das condições, contribuir para uma lesão. Entre os exemplos mais conhecidos estão:

Dispositivos respiratórios

São frequentemente envolvidos porque precisam permanecer posicionados durante longos períodos.

Podemos citar:

  • máscaras de ventilação não invasiva;
  • máscaras de oxigênio;
  • cateter nasal;
  • tubo endotraqueal;
  • fixadores de tubo;
  • cânulas e dispositivos de suporte respiratório.

Máscaras de CPAP e BiPAP, por exemplo, podem exercer pressão principalmente sobre a região nasal, malar e facial. O problema pode ser ainda maior quando o paciente necessita utilizar o dispositivo continuamente.

Sondas e cateteres

Sondas e cateteres também podem provocar lesões quando existe pressão, tração ou fixação inadequada. Entre eles estão:

  • Sonda nasogástrica e nasoenteral: podem provocar lesões nas narinas, no septo nasal e em regiões próximas ao local de fixação.
  • Cateter vesical: pode causar lesões por tração ou pressão, principalmente quando existe fixação inadequada ou movimentação excessiva.
  • Cateteres vasculares: podem contribuir para lesões relacionadas à pressão, fixação, dispositivos de estabilização ou curativos, especialmente quando permanecem sobre regiões vulneráveis.

Dispositivos utilizados para monitorização

Alguns equipamentos utilizados rotineiramente para monitorização também merecem atenção. Eletrodos, sensores de oximetria, manguitos de pressão arterial, cabos, sensores e outros dispositivos podem permanecer em contato com a pele durante horas. No caso do oxímetro, por exemplo, a atenção não deve estar apenas no funcionamento do aparelho. É necessário observar a pele e alternar o local quando isso for possível e seguro.

O mesmo raciocínio vale para eletrodos de monitorização cardíaca.

Talas, órteses e imobilizadores

Talas, órteses, colares cervicais, fixadores e outros dispositivos utilizados para imobilização também podem provocar pressão localizada. Nesses casos, a própria finalidade do dispositivo exige algum grau de contato ou contenção. Isso não significa que a lesão seja inevitável. A equipe precisa verificar se o dispositivo está corretamente ajustado, se existe pressão excessiva e se há áreas de contato particularmente vulneráveis.

Onde essas lesões aparecem com maior frequência?

A localização depende diretamente do dispositivo utilizado. Uma máscara facial, por exemplo, pode provocar lesões em regiões como nariz, dorso nasal, bochechas e áreas próximas à fixação. Um cateter nasal pode provocar alterações nas narinas e atrás das orelhas, dependendo do modelo e da forma de fixação. Uma sonda pode causar lesões nas regiões em que entra em contato com a pele ou permanece fixada.

Já uma tala ou órtese pode provocar lesões sobre proeminências ósseas. Portanto, uma regra muito útil para a enfermagem é:

onde existe contato contínuo entre dispositivo e pele, existe necessidade de avaliação.

Quem apresenta maior risco?

Embora qualquer paciente possa desenvolver uma lesão relacionada a dispositivo, alguns apresentam risco maior. Entre os principais fatores estão a idade avançada, imobilidade, alterações da perfusão, edema, desnutrição, alterações da sensibilidade, alteração do nível de consciência, incontinência, umidade excessiva e presença de doenças crônicas.

Pacientes críticos merecem atenção especial. Um paciente sedado, intubado, com edema, instabilidade hemodinâmica e múltiplos dispositivos pode não conseguir comunicar dor ou desconforto e pode permanecer por longos períodos na mesma posição.

Por isso, a avaliação da pele não pode depender exclusivamente da queixa do paciente. Estudos brasileiros realizados em unidades de terapia intensiva identificaram como medidas importantes de prevenção a atenção à fixação, reposicionamento frequente, proteção e acolchoamento das áreas de contato, escolha de materiais flexíveis quando disponíveis, cuidado para que dispositivos não permaneçam sob o paciente e remoção precoce quando clinicamente possível.

Como identificar uma Lesão por Dispositivo Médico?

A avaliação deve começar antes mesmo de aparecer uma ferida. Um dos primeiros sinais pode ser uma alteração na coloração da pele. Pode aparecer uma área avermelhada, arroxeada ou com outra alteração de coloração exatamente no local onde o dispositivo exerce pressão.

Também podem surgir:

  • dor;
  • ardência;
  • aumento da sensibilidade;
  • edema;
  • endurecimento;
  • alteração da temperatura local;
  • bolhas;
  • erosões;
  • perda da integridade da pele;
  • áreas de necrose.

É importante observar que a ausência de uma ferida aberta não significa ausência de lesão. Uma alteração persistente na pele já merece atenção.

A lesão pode surgir mesmo com a pele aparentemente normal?

Sim. Esse é um dos motivos pelos quais a avaliação frequente é tão importante. A lesão pode começar em tecidos mais profundos e apresentar sinais externos discretos. Além disso, pacientes com alterações de perfusão ou sensibilidade podem apresentar manifestações diferentes. Por isso, não se deve avaliar apenas a existência de uma “ferida”.

É necessário observar a pele antes, durante e depois da utilização do dispositivo.

Qual é a diferença entre lesão por pressão comum e lesão relacionada a dispositivo?

A principal diferença está no fator causador e na localização. Uma lesão por pressão tradicional geralmente está relacionada à pressão ou cisalhamento sobre uma região corporal, frequentemente uma proeminência óssea. Na lesão relacionada a dispositivo médico, o dano está relacionado ao contato com um dispositivo utilizado para assistência diagnóstica ou terapêutica.

Por exemplo:

  • Pressão prolongada do corpo contra o colchão na região sacral: lesão por pressão convencional.
  • Pressão prolongada de uma máscara de ventilação sobre o dorso do nariz: lesão por pressão relacionada a dispositivo médico.

As duas situações possuem mecanismos semelhantes, mas a segunda está diretamente relacionada ao dispositivo.

O tempo de permanência influencia?

Sim, mas não existe um único número de horas que determine quando uma lesão obrigatoriamente aparecerá. Isso é importante porque às vezes existe a ideia de que “se o dispositivo ficar menos de determinado tempo, não haverá risco”. Não é tão simples. A intensidade da pressão, o formato do dispositivo, o material utilizado, o estado da pele, a perfusão, a umidade, a mobilidade do paciente e outros fatores influenciam o risco.

Um paciente vulnerável pode desenvolver dano em um período relativamente curto. Por isso, a prevenção não deve ser baseada apenas em relógio, mas principalmente em avaliação clínica contínua.

A importância da fixação correta

Fixar um dispositivo não significa simplesmente deixá-lo “bem preso”. A fixação precisa ser suficientemente segura para evitar deslocamentos, mas não deve gerar compressão desnecessária. Uma fixação excessivamente apertada pode aumentar a pressão sobre a pele.

Por outro lado, uma fixação frouxa pode provocar movimentação repetitiva, fricção e tração. A enfermagem precisa encontrar um equilíbrio entre segurança do dispositivo e proteção dos tecidos. Esse cuidado é particularmente importante com tubos, sondas, cateteres e dispositivos respiratórios.

O acolchoamento pode ajudar?

Sim, quando indicado e realizado corretamente. Materiais apropriados podem ajudar a distribuir a pressão e proteger áreas vulneráveis. Entretanto, colocar qualquer tipo de gaze, espuma ou material improvisado entre o dispositivo e a pele não é necessariamente uma boa prática. O material utilizado deve ser compatível com o dispositivo e com a finalidade da proteção.

Além disso, o acolchoamento não deve criar novos pontos de pressão. A revisão sistemática sobre prevenção de lesões relacionadas a dispositivos identificou intervenções como curativos, materiais de proteção, dispositivos específicos de fixação, reposicionamento, educação da equipe e remoção precoce quando possível.

Cuidados de enfermagem para prevenir a Lesão por Dispositivo Médico

A prevenção começa na avaliação do paciente: Antes de instalar um dispositivo, sempre que possível, observe a condição da pele no local onde ele ficará. Depois da instalação, verifique se existe pressão excessiva, dobras, tração ou posicionamento inadequado.

Durante a assistência, a equipe deve realizar avaliações periódicas e documentar alterações relevantes. Outro cuidado fundamental é evitar que tubos, cabos ou dispositivos permaneçam pressionados sob o corpo do paciente. Essa situação pode ser facilmente esquecida durante mudanças de decúbito.

O estudo realizado com profissionais de enfermagem em UTI destacou justamente a importância de verificar se dispositivos não permanecem sob o paciente e de realizar reposicionamento frequente.

A enfermagem deve retirar o dispositivo para avaliar a pele?

Nem sempre. Esse é um ponto muito importante. Alguns dispositivos são essenciais para manter a vida ou garantir um tratamento seguro. Retirá-los sem avaliação médica ou sem indicação pode trazer riscos. A pergunta correta não é simplesmente “posso retirar?”.

É:

“Esse dispositivo ainda é necessário? Existe uma alternativa segura? É possível reposicioná-lo? Posso aliviar a pressão sem comprometer sua função?”

Quando clinicamente possível, a remoção precoce de dispositivos desnecessários é uma das estratégias preventivas destacadas na literatura.

O que fazer quando a lesão já apareceu?

Primeiramente, a equipe deve reconhecer e registrar a alteração. É importante avaliar localização, tamanho, aspecto da pele, presença de dor, exsudato, edema e outros sinais relevantes. Em seguida, deve-se investigar o dispositivo responsável e verificar se ele continua sendo necessário. Quando for possível e seguro, deve-se aliviar ou eliminar a fonte de pressão.

A conduta específica para tratamento dependerá do tipo e da gravidade da lesão, das condições clínicas do paciente e do protocolo institucional. Lesões mais profundas, áreas de necrose, sinais de infecção ou evolução rápida exigem avaliação especializada.

O papel da documentação de enfermagem

A documentação é parte importante da segurança do paciente. Ao identificar uma alteração relacionada a um dispositivo, o profissional deve registrar adequadamente o achado conforme as normas institucionais. É importante documentar, por exemplo, a localização, características da pele, dispositivo envolvido, medidas adotadas e evolução.

Isso permite acompanhar a resposta às intervenções e melhora a comunicação entre os profissionais. Além disso, a documentação ajuda a identificar padrões. Se uma determinada unidade começa a apresentar repetidamente lesões associadas ao mesmo dispositivo, isso pode indicar necessidade de revisão da técnica, do material, da fixação ou do protocolo.

Um exemplo prático para entender

Imagine um paciente internado na UTI utilizando ventilação não invasiva. A máscara precisa permanecer posicionada corretamente para que a terapia funcione. Após algumas horas, a enfermeira observa uma área avermelhada no dorso do nariz.

O erro seria pensar:

“É só uma vermelhidão, depois passa.” O correto é investigar.

  • A máscara está apertada demais?
  • Existe necessidade de ajustar a fixação?
  • O tamanho da máscara é adequado?
  • Existe algum ponto de pressão concentrada?
  • É possível utilizar uma proteção apropriada?
  • A terapia pode ser interrompida ou o dispositivo pode ser alternado com segurança?
  • A pele precisa ser reavaliada posteriormente?

Esse exemplo demonstra uma característica essencial da enfermagem: não esperar a ferida aparecer para começar a prevenção.

Lesão por dispositivo médico em pacientes críticos

O ambiente de terapia intensiva reúne muitos dos fatores que favorecem esse tipo de lesão. O paciente pode estar sedado, imobilizado, edemaciado, hemodinamicamente instável e conectado simultaneamente a diversos dispositivos. Além disso, alguns dispositivos precisam permanecer instalados continuamente.

Por isso, a prevenção precisa fazer parte da rotina da assistência. A equipe deve olhar para o paciente como um todo, e não apenas para cada equipamento individualmente.

Um tubo pode estar perfeitamente instalado, uma sonda pode estar corretamente fixada e um eletrodo pode estar funcionando adequadamente. Ainda assim, quando todos esses elementos são analisados em conjunto, pode existir uma grande quantidade de pontos de pressão sobre a pele.

A importância da avaliação durante o banho e a mudança de decúbito

O banho é uma excelente oportunidade para avaliação da pele. Quando o dispositivo puder ser temporariamente removido, reposicionado ou afastado com segurança, a equipe pode aproveitar esse momento para observar áreas que normalmente ficam escondidas. Durante a mudança de decúbito, também é importante verificar se cabos, tubos, sondas ou outros dispositivos ficaram presos ou posicionados sob o corpo.

Uma simples inspeção durante esses momentos pode evitar que uma pequena alteração evolua para uma lesão significativa.

Higiene da pele e controle da umidade

A pele excessivamente úmida pode ficar mais vulnerável ao dano. Suor, secreções, saliva, urina, fezes e outros líquidos podem permanecer em contato com a pele, principalmente em regiões cobertas por dispositivos. Por isso, a higiene adequada e o controle da umidade fazem parte da prevenção.

Quando houver indicação, produtos de proteção da barreira cutânea podem ser utilizados de acordo com o protocolo da instituição e as características do paciente. Entretanto, é importante evitar aplicar produtos de maneira indiscriminada sobre dispositivos, adesivos ou áreas nas quais possam prejudicar a fixação.

Cuidados de enfermagem: um resumo prático

Uma forma simples de lembrar a prevenção é pensar em cinco perguntas:

  • O dispositivo ainda é necessário?
  • Está bem posicionado?
  • Está exercendo pressão excessiva?
  • A pele abaixo ou ao redor está preservada?
  • É possível reposicionar, proteger ou substituir o dispositivo com segurança?

Essas perguntas podem transformar uma avaliação aparentemente simples em uma estratégia efetiva de prevenção.

O papel da educação da equipe

A prevenção da lesão relacionada a dispositivo médico não deve depender apenas de um profissional. Enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e demais profissionais envolvidos no cuidado precisam reconhecer os riscos.

A educação permanente é especialmente importante porque novos dispositivos e novas tecnologias são incorporados continuamente à assistência. Uma revisão sistemática identificou a educação da equipe, padronização da documentação, auditoria e desenvolvimento de protocolos entre as estratégias utilizadas para melhorar a prevenção.

Lesão por dispositivo médico também é uma questão de segurança do paciente

A prevenção dessas lesões está diretamente relacionada à qualidade da assistência. No Brasil, a Anvisa mantém orientações específicas relacionadas à prevenção de lesões por pressão e à segurança do paciente. A Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023 atualizou orientações sobre práticas de segurança para prevenção de lesão por pressão.

O Ministério da Saúde também mantém o protocolo nacional de prevenção de úlcera/lesão por pressão, cujo objetivo é promover medidas para evitar essas lesões e outros danos à pele. Portanto, prevenir uma lesão causada por um dispositivo não é apenas um cuidado dermatológico. É uma prática de segurança do paciente. A Lesão por Dispositivo Médico é um problema que pode passar despercebido porque o dispositivo está sendo utilizado justamente para tratar, monitorar ou proteger o paciente.

É importante lembrar que um dispositivo necessário não é automaticamente um dispositivo inofensivo. A enfermagem tem papel fundamental na prevenção porque permanece próxima do paciente e consegue identificar alterações precocemente.

Avaliar a pele, conferir a fixação, observar pontos de pressão, reposicionar quando possível, proteger áreas vulneráveis, controlar umidade, evitar tração e retirar dispositivos desnecessários são atitudes que podem fazer uma grande diferença.

Mais do que saber instalar um dispositivo, o profissional precisa aprender a olhar para o que acontece com a pele enquanto esse dispositivo permanece instalado.

Esse olhar preventivo é uma das características de uma assistência de enfermagem segura e de qualidade.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Documento de referência para o programa nacional de segurança do paciente. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. SOBRACEN. Diretrizes sobre prevenção e tratamento de lesões de pele. São Paulo: Sobracen, 2023. Disponível em: https://sobracen.com.br/
  4. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023: práticas de segurança do paciente em serviços de saúde: prevenção de lesão por pressão. Brasília, DF: Anvisa, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/notas-tecnicas/notas-tecnicas-vigentes/nota-tecnica-gvims-ggtes-anvisa-no-05-2023-praticas-de-seguranca-do-paciente-em-servicos-de-saude-prevencao-de-lesao-por-pressao/view

  5. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Prevenção de úlcera por pressão. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/seguranca-do-paciente/publicacoes/protocolos-de-seguranca-do-paciente/protocolo-ulcera-por-pressao.pdf/view

  6. GALETTO, S. G. da S. et al. Prevenção de lesões por pressão relacionadas a dispositivos médicos em pacientes críticos: cuidados de enfermagem. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 74, n. 2, e20200062, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/7Nvg3kfsfyNMqkMzvH8rh4D/?lang=pt

  7. LYU, C. et al. Interventions and strategies to prevent medical device-related pressure injury in adult patients: a systematic review. Journal of Clinical Nursing, v. 32, p. 6863-6878, 2023. DOI: 10.1111/jocn.16790. Disponível em: PubMed – Medical device-related pressure injury prevention

  8. NATIONAL PRESSURE INJURY ADVISORY PANEL; EUROPEAN PRESSURE ULCER ADVISORY PANEL; PAN PACIFIC PRESSURE INJURY ALLIANCE. Device-Related Pressure Injuries. In: HAESLER, E. (ed.). Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Clinical Practice Guideline. 4. ed. 2025. Disponível em: International Guideline – Device-Related Pressure Injuries

  9. SANTOS, C. N. S. et al. Lesão por pressão relacionada a dispositivos médicos: prevenção e fatores de risco associados. Nursing Edição Brasileira, v. 24, n. 282, p. 6480-6486, 2021. DOI: 10.36489/nursing.2021v24i282p6480-6486. Disponível em: Nursing Edição Brasileira – Lesão por pressão relacionada a dispositivos médicos

  10. GEFEN, A. et al. An international consensus on device-related pressure ulcers: SECURE prevention. British Journal of Nursing, v. 29, n. 5, p. S36-S38, 2020. DOI: 10.12968/bjon.2020.29.5.S36. Disponível em: PubMed – SECURE prevention

Carrinho de Banho Hospitalar: o que deve conter e o que a Enfermagem precisa saber

O banho no leito é muito mais do que um procedimento de higiene. Trata-se de um cuidado essencial da enfermagem, capaz de promover conforto, prevenir infecções, reduzir o risco de lesões por pressão, preservar a integridade da pele e proporcionar bem-estar físico e emocional ao paciente.

Para que esse procedimento seja realizado com segurança, organização e eficiência, um dos principais aliados da equipe é o carrinho de banho. Quando bem abastecido e organizado, ele evita interrupções durante o atendimento, reduz o risco de contaminação cruzada e garante que todos os materiais necessários estejam prontamente disponíveis.

Hoje você conhecerá em detalhes o que é o carrinho de banho, quais materiais devem fazer parte dele, como organizá-lo corretamente e quais são os principais cuidados de enfermagem durante sua utilização.

O que é o carrinho de banho?

O carrinho de banho é um equipamento utilizado pela equipe de enfermagem para transportar todos os materiais necessários à realização da higiene corporal do paciente.

Ele é amplamente utilizado em:

  • Unidades de Terapia Intensiva (UTI);
  • enfermarias;
  • unidades de internação;
  • clínicas médicas;
  • clínicas cirúrgicas;
  • unidades de cuidados prolongados;
  • instituições de longa permanência;
  • hospitais de reabilitação.

Sua principal finalidade é permitir que todo o procedimento seja realizado de maneira organizada, segura e eficiente.

Qual a importância do carrinho de banho?

A utilização adequada do carrinho proporciona diversas vantagens.

Entre elas:

  • maior agilidade durante o procedimento;
  • redução do tempo de exposição do paciente;
  • prevenção de esquecimentos de materiais;
  • menor circulação desnecessária da equipe;
  • diminuição do risco de contaminação;
  • melhor organização do setor;
  • maior conforto ao paciente;
  • otimização do trabalho da enfermagem.

Além disso, contribui diretamente para as metas de segurança do paciente.

Como deve ser organizado?

Idealmente, o carrinho deve permanecer:

  • limpo;
  • identificado;
  • abastecido;
  • seco;
  • protegido contra poeira;
  • organizado por categorias de materiais.

Materiais limpos nunca devem ficar misturados com materiais contaminados. Também é recomendado que haja uma rotina diária de conferência dos itens disponíveis.

O que deve conter no carrinho de banho?

Embora possa haver pequenas diferenças entre hospitais, alguns materiais são considerados praticamente indispensáveis.

Roupas de cama

Durante o banho, normalmente ocorre a troca completa da roupa do leito.

Por isso, o carrinho costuma conter:

  • lençol inferior;
  • lençol superior;
  • fronha;
  • cobertor ou manta, quando necessário.

Todos devem estar limpos, secos e devidamente dobrados.

Lençol móvel (lençol de meio)

Também conhecido como:

  • lençol móvel;
  • lençol para meio;
  • lençol intermediário.

É colocado na região do tronco e quadril.

Suas funções incluem:

  • facilitar mudanças de decúbito;
  • auxiliar mobilizações;
  • proteger o lençol inferior;
  • facilitar a movimentação do paciente;
  • reduzir atrito durante mudanças de posição.

É um dos itens mais utilizados nas UTIs.

Toalhas

Devem estar disponíveis:

  • toalha de banho;
  • toalha de rosto.

Em alguns hospitais utilizam-se toalhas descartáveis ou compressas específicas para higiene.

Cobertores e mantas

Dependendo do estado clínico do paciente, pode ser necessário manter cobertores extras para evitar perda de calor durante o banho.

Isso é especialmente importante em:

  • idosos;
  • recém-operados;
  • pacientes críticos;
  • recém-nascidos.

Bacias de inox

As bacias de aço inoxidável ainda são muito utilizadas em diversos serviços.

Podem ser empregadas para:

  • água limpa;
  • higiene corporal;
  • higiene íntima;
  • lavagem dos cabelos.

Seu material permite adequada desinfecção após o uso.

Baldes de inox

São utilizados para:

  • transporte de água;
  • descarte de água utilizada;
  • apoio durante procedimentos.

Assim como as bacias, devem ser higienizados após cada utilização.

Luvas de procedimento

Devem estar disponíveis em diferentes tamanhos.

São utilizadas principalmente durante:

  • higiene íntima;
  • troca de fraldas;
  • contato com secreções;
  • manipulação de curativos.

A higiene corporal geral nem sempre exige luvas, desde que não haja risco de contato com fluidos biológicos, conforme recomendações de biossegurança.

Avental descartável

Pode ser necessário quando existe risco de respingos ou contato com secreções.

Produtos para higiene corporal

Entre os principais produtos encontram-se:

Sabonete líquido

Preferencialmente com pH fisiológico, pois promove limpeza sem agredir a pele.

Sabonete antisséptico

É indicado apenas em situações específicas, como protocolos institucionais ou preparo pré-operatório. Não deve ser utilizado rotineiramente em todos os pacientes.

Shampoo

Utilizado quando houver lavagem dos cabelos. Alguns hospitais utilizam shampoo sem enxágue.

Condicionador

Quando indicado. Ajuda a preservar a integridade dos fios.

Espuma de limpeza corporal

Muito utilizada em pacientes críticos, pois permite higiene sem necessidade de enxágue.

Produtos para higiene oral

Dependendo do perfil do paciente, o carrinho pode conter:

  • escova dental;
  • creme dental;
  • solução para higiene oral;
  • clorexidina oral (quando prescrita);
  • espátulas com espuma;
  • gaze.

Pacientes em ventilação mecânica frequentemente seguem protocolos específicos de higiene oral.

Hidratantes corporais

Após o banho, muitos pacientes necessitam de hidratação da pele.

Especialmente:

  • idosos;
  • diabéticos;
  • pacientes desidratados;
  • pacientes com pele ressecada.

Cremes barreira

São fundamentais para prevenção da dermatite associada à incontinência.

Normalmente contêm:

  • óxido de zinco;
  • dimeticona;
  • polímeros protetores.

Devem ser aplicados conforme necessidade clínica.

Pomadas

Podem estar disponíveis conforme prescrição ou rotina institucional.

Exemplos:

  • pomadas barreira;
  • pomadas cicatrizantes;
  • hidratantes específicos.

Nunca devem ser utilizadas sem indicação adequada.

Fraldas descartáveis

O carrinho deve possuir diversos tamanhos. As fraldas devem permanecer protegidas da umidade e a troca deve ocorrer sempre que houver sujidade ou umidade.

Compressas

Podem ser utilizadas para:

  • higiene;
  • secagem;
  • limpeza de regiões específicas.

Algodão e gaze

Utilizados quando necessário para higiene delicada ou aplicação de produtos.

Sacos para descarte

Devem existir recipientes ou sacos destinados ao descarte de:

  • resíduos comuns;
  • roupas sujas;
  • materiais contaminados.

Nunca misturar roupas limpas com roupas utilizadas.

Álcool para higiene das mãos

O carrinho pode conter preparações alcoólicas para higiene das mãos entre os procedimentos. Entretanto, isso não substitui os dispensadores fixos da unidade.

Materiais adicionais

Alguns hospitais acrescentam:

  • escovas para cabelos;
  • pente;
  • barbeador descartável;
  • aparelho para tricotomia (quando indicado);
  • protetores absorventes;
  • lenços umedecidos;
  • lenços descartáveis;
  • recipientes para próteses dentárias;
  • sacos para pertences.

Como organizar o carrinho?

Uma organização bastante prática é dividir os materiais por setores. Na parte superior:

  • Materiais de uso imediato.

Na parte intermediária:

  • Produtos de higiene.

Na parte inferior:

  • Roupas limpas.

Compartimento separado:

  • Materiais contaminados até o descarte adequado.

Essa organização reduz o risco de contaminação cruzada.

Quando conferir o carrinho?

Idealmente:

  • no início do plantão;
  • após cada banho;
  • antes da reposição do setor;
  • sempre que houver consumo de materiais.

Essa rotina evita falta de insumos durante os cuidados.

O banho no leito é um momento de avaliação clínica

Além da higiene, o banho representa uma excelente oportunidade para avaliação do paciente.

Durante o procedimento, a enfermagem pode observar:

  • integridade da pele;
  • lesões por pressão;
  • áreas hiperemiadas;
  • hematomas;
  • equimoses;
  • edema;
  • icterícia;
  • cianose;
  • palidez;
  • sangramentos;
  • secreções;
  • presença de dispositivos;
  • curativos;
  • cateteres;
  • drenos;
  • ostomias;
  • sinais de dor.

Muitas alterações clínicas são identificadas justamente durante o banho.

Cuidados de enfermagem

Antes do banho:

  • Realizar higiene das mãos.
  • Confirmar a identificação do paciente.
  • Explicar o procedimento.
  • Preservar a privacidade utilizando biombo ou cortinas.
  • Verificar temperatura do ambiente.
  • Separar previamente todos os materiais.

Durante o banho:

  • Respeitar a individualidade do paciente.
  • Manter o corpo coberto sempre que possível, expondo apenas a região que está sendo higienizada.
  • Observar cuidadosamente a pele.
  • Evitar atrito excessivo.
  • Trocar a água sempre que necessário.
  • Realizar higiene íntima utilizando técnica adequada.
  • Secar completamente as dobras da pele.
  • Manter dispositivos fixados corretamente.

Após o banho:

  • Aplicar hidratantes ou cremes barreira quando indicados.
  • Trocar roupas de cama.
  • Reposicionar adequadamente o paciente.
  • Realizar mudança de decúbito quando indicada.
  • Descartar corretamente os resíduos.
  • Higienizar bacias, baldes e demais materiais reutilizáveis.
  • Registrar no prontuário alterações observadas durante o procedimento.
  • Reabastecer imediatamente o carrinho para o próximo atendimento.

Erros que devem ser evitados

Algumas falhas podem comprometer a segurança do paciente.

Entre elas:

  • utilizar materiais vencidos;
  • reutilizar água entre pacientes;
  • misturar materiais limpos e contaminados;
  • esquecer materiais durante o banho;
  • deixar fraldas ou roupas expostas à umidade;
  • realizar o banho sem preservar a privacidade;
  • não observar alterações da pele;
  • não higienizar o carrinho após o uso.

Você sabia?

Muitos diagnósticos de enfermagem relacionados à integridade da pele são identificados durante o banho. O banho no leito contribui para reduzir a ansiedade e proporcionar sensação de conforto, especialmente em pacientes críticos.

A troca do lençol móvel facilita significativamente a mudança de decúbito, reduzindo o esforço físico da equipe e o atrito sobre a pele do paciente. Em unidades de terapia intensiva, é comum que o carrinho de banho também disponha de materiais para higiene oral, prevenção de lesão por pressão e cuidados com dispositivos invasivos.

A organização padronizada do carrinho diminui o tempo de execução do procedimento, reduz deslocamentos desnecessários da equipe e melhora a segurança assistencial.

O carrinho de banho é muito mais do que um simples móvel para transporte de materiais. Ele representa uma ferramenta essencial para a qualidade da assistência de enfermagem, permitindo que o banho no leito seja realizado com organização, segurança e eficiência.

Manter o carrinho limpo, abastecido e organizado garante agilidade durante os cuidados, reduz o risco de contaminação cruzada e favorece uma assistência humanizada. Além disso, o momento do banho oferece uma oportunidade única para avaliação clínica completa do paciente, permitindo a identificação precoce de alterações que podem influenciar diretamente na evolução do tratamento.

Quando utilizado de forma adequada e associado às boas práticas assistenciais, o carrinho de banho torna-se um importante aliado na promoção da segurança do paciente e na excelência do cuidado de enfermagem.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Segurança do Paciente em Serviços de Saúde: Higienização e Cuidados. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENFERMAGEM EM DERMATOLOGIA (SOBENDE). Guia de boas práticas no banho no leito. São Paulo: Sobende, 2023. Disponível em: https://sobende.org.br/
  4. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Brasília: ANVISA. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br
  5. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
  6. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília: COFEN. Disponível em: https://www.cofen.gov.br
  7. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines on Core Components of Infection Prevention and Control Programmes. Genebra: WHO, 2016. Disponível em: https://www.who.int/publications