Resistência ao Infundir Pelo Cateter: O que fazer?

Cateter venoso periférico resistente

Quando existe resistência ao infundir pelo cateter, pense primeiro em patência do acesso e segurança do paciente. Uma obstrução, dobra do cateter ou equipo, posição do membro, conexão inadequada, precipitação de medicamentos ou complicação no local de inserção podem dificultar o fluxo. A avaliação deve considerar o tipo de cateter e o contexto clínico.

O que a resistência pode estar mostrando?

Antes de tentar infundir novamente, observe o acesso. Há edema? Dor? Vermelhidão? Endurecimento? Vazamento? O curativo está pressionando o dispositivo? O membro está dobrado? Existe alguma pinça fechada ou conexão desconectada?

Esses sinais ajudam a diferenciar problemas mecânicos de complicações como infiltração, extravasamento ou flebite. A avaliação do sítio de inserção faz parte da manutenção segura dos cateteres, justamente porque complicações locais podem comprometer a infusão e causar dano ao paciente.

Em uma situação típica de plantão, o acesso parece estar funcionando, mas, ao iniciar a medicação, o êmbolo oferece resistência e o paciente imediatamente refere ardência no local. Esse conjunto de sinais merece uma pausa: continuar pressionando a seringa pode aumentar a infiltração ou o extravasamento, dependendo do medicamento envolvido.

Nunca tente vencer a resistência na força

Esse é um daqueles momentos em que a força pode transformar um problema pequeno em uma complicação maior. Se existe resistência significativa, não force a infusão. Primeiro investigue a causa e siga o protocolo do serviço para avaliação da permeabilidade e manejo do acesso.

Também não é adequado manipular ou utilizar técnicas improvisadas para tentar desobstruir o cateter. A técnica de manutenção deve respeitar o dispositivo, as recomendações do fabricante e o protocolo institucional.

Quando pensar em obstrução?

Se não existem sinais locais de infiltração ou extravasamento e o problema parece estar relacionado ao fluxo, considere causas mecânicas, como dobra do equipo ou cateter, conexão inadequada, clamp fechado ou obstrução do lúmen.

A posição do membro também pode interferir. Um cateter localizado próximo a uma articulação pode apresentar dificuldade de fluxo quando o membro é movimentado ou mantido em determinada posição. Nesses casos, corrigir a posição e verificar o sistema pode esclarecer o problema.

Uma cena bastante comum é o acesso funcionar normalmente com o braço estendido e apresentar resistência quando o paciente dobra o cotovelo. Antes de descartar imediatamente o cateter, é preciso verificar se a dificuldade está relacionada à posição, sem deixar de avaliar o sítio e a permeabilidade conforme o protocolo.

E se houver dor, edema ou vazamento?

Aqui a atenção precisa aumentar. Resistência associada a edema, dor, alteração da pele ou vazamento no local do acesso não deve ser ignorada. Esses achados podem indicar infiltração ou extravasamento, e a conduta depende da solução ou medicamento que está sendo administrado.

No caso de suspeita de extravasamento, a infusão deve ser interrompida e o protocolo específico do medicamento e da instituição deve ser seguido. Dependendo da substância, pode haver necessidade de medidas específicas antes da retirada do dispositivo, por isso não existe uma única conduta que sirva para todos os casos.

Cuidados de enfermagem

Na prática, diante da resistência:

  • interrompa ou não inicie a infusão;
  • observe o sítio do cateter;
  • verifique dobras, clamps, conexões e posição do membro;
  • avalie dor, edema, vermelhidão, endurecimento e vazamento;
  • não force o êmbolo;
  • se houver suspeita de infiltração ou extravasamento, siga imediatamente o protocolo específico;
  • registre a avaliação e comunique alterações relevantes.

A manutenção adequada dos cateteres exige técnica asséptica e profissionais treinados, além da avaliação periódica do dispositivo e do sítio de inserção.

Para guardar no plantão

Resistência ao infundir = pare e investigue.

Não é simplesmente “empurrar mais forte”. Primeiro descubra se existe problema mecânico, obstrução ou complicação no local. Se houver dor, edema, vazamento ou alteração da pele, trate o achado como um sinal de alerta e siga o protocolo correspondente.

Uma seringa difícil de empurrar pode estar avisando algo que o olho ainda não percebeu.

Resumo para salvar

Resistência ao Infundir Pelo Cateter

  • Pare a infusão e investigue
  • Observe o sítio do cateter
  • Nunca force o êmbolo
  • Siga o protocolo diante de infiltração ou extravasamento

Referências:

  1. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Summary of Recommendations: Guidelines for the Prevention of Intravascular Catheter-Related Infections. Atlanta: CDC, 2024. Disponível em: CDC – Intravascular Catheter-Related Infections.
  2. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Background Information: Strategies for Prevention of Catheter-Related Infections in Adult and Pediatric Patients. Atlanta: CDC, 2024. Disponível em: CDC – Prevention Strategies.
  3. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Basic Infection Control and Prevention Plan for Outpatient Oncology Settings. Atlanta: CDC, 2024. Disponível em: CDC – Oncology Infection Prevention. 

Antídotos em Intoxicações O Que Administrar?

antídotos

O antídoto certo depende do agente, da dose, do tempo desde a exposição e da condição clínica. Por isso, decorar uma lista não substitui reconhecer o quadro. Alguns antídotos precisam ser administrados rapidamente, enquanto outros só têm indicação em situações específicas. A Organização Mundial da Saúde destaca que a disponibilidade e a escolha dos antídotos devem considerar o tipo de intoxicação e os recursos locais.

Os principais antídotos para lembrar

Algumas associações aparecem com frequência na emergência e nas provas:

Opioides → naloxona
Paracetamol → N-acetilcisteína
Organofosforados e carbamatos → atropina
Metanol e etilenoglicol → fomepizol
Metemoglobinemia → azul de metileno
Cianeto → hidroxocobalamina
Intoxicação por ferro → deferoxamina
Benzodiazepínicos → flumazenil, em situações selecionadas

O Protocolo SAMU também relaciona agentes específicos a seus respectivos tratamentos, como naloxona para opioides, atropina para organofosforados e carbamatos e hidroxocobalamina para cianeto.

O detalhe que muda a conduta

Não basta reconhecer o nome do antídoto. É necessário saber quando ele realmente deve ser usado.

Um exemplo clássico é o flumazenil. Ele antagoniza os benzodiazepínicos, porém não deve ser utilizado indiscriminadamente em toda suspeita de intoxicação por essa classe, pois pode aumentar o risco de convulsões em determinadas intoxicações mistas ou em pacientes com uso crônico.

Em uma situação típica de emergência, pode chegar um paciente sonolento, com pupilas puntiformes e depressão respiratória após possível uso de opioide. Nesse cenário, a equipe precisa reconhecer rapidamente a síndrome, priorizar via aérea e ventilação e considerar naloxona conforme avaliação e protocolo. O antídoto entra como parte do atendimento, não como substituto do suporte básico.

Nem toda intoxicação tem uma “ampola salvadora”

Essa é uma das ideias mais importantes para quem está estudando toxicologia. Existem intoxicações em que o tratamento é predominantemente suporte clínico, monitorização e medidas específicas de descontaminação ou eliminação, quando indicadas.

O carvão ativado, por exemplo, não é um antídoto universal e sua utilização depende do agente, tempo da exposição e condições clínicas, incluindo a capacidade de proteger a via aérea. Da mesma forma, determinadas medidas podem ser indicadas apenas para intoxicações específicas.

Uma cena bastante comum no atendimento é alguém perguntar rapidamente “qual é o antídoto?” diante de um paciente intoxicado, enquanto ainda não se sabe exatamente qual substância foi utilizada. Nesse momento, a informação mais importante pode ser justamente descobrir o que foi ingerido, quanto, quando e por qual via, além de avaliar sinais vitais e nível de consciência.

Na intoxicação por agrotóxicos, atenção redobrada

Nas intoxicações por agrotóxicos, a escolha do tratamento depende do princípio ativo e da síndrome apresentada. Nas intoxicações por organofosforados e carbamatos, por exemplo, a atropina tem papel importante, mas o manejo exige reconhecimento do quadro clínico e medidas de suporte adequadas. O Ministério da Saúde mantém diretrizes específicas para diagnóstico e tratamento dessas intoxicações.

Outro ponto importante é que os estoques e a disponibilidade dos antídotos podem variar conforme a região e a organização da rede. Em 2026, por exemplo, o CIATox do Espírito Santo publicou informações específicas sobre distribuição e disponibilidade de medicamentos utilizados em intoxicações, mostrando como o acesso ao antídoto também faz parte da organização da assistência toxicológica.

Cuidados de enfermagem

Na prática, a enfermagem deve priorizar avaliação inicial, monitorização dos sinais vitais, nível de consciência, oxigenação, acesso venoso quando indicado, identificação do possível agente e preparação/administração do tratamento prescrito conforme protocolo.

Também é fundamental verificar nome do agente, concentração, via, dose, horário, indicação e resposta clínica, além de observar efeitos adversos e alterações após a administração. Em suspeita de intoxicação, o contato com um Centro de Informação e Assistência Toxicológica pode orientar a equipe sobre medidas específicas.

A segurança também passa por levar informações confiáveis sobre o produto envolvido: embalagem, nome comercial, princípio ativo, concentração e circunstâncias da exposição, quando disponíveis. Centros de toxicologia existem justamente para oferecer suporte especializado diante da variedade de agentes e manifestações possíveis.

Para memorizar

Opioide → naloxona
Paracetamol → N-acetilcisteína
Organofosforado/carbamato → atropina
Metanol/etilenoglicol → fomepizol
Metemoglobinemia → azul de metileno
Cianeto → hidroxocobalamina

Mas existe uma regra que vale mais do que decorar a lista: primeiro reconheça o agente e estabilize o paciente; depois determine se existe indicação de antídoto.

Resumo para salvar

Antídotos em Intoxicações

  • Identificar o agente intoxicante
  • Priorizar suporte e avaliação inicial
  • Conhecer os principais antídotos
  • Administrar tratamento específico conforme indicação

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de suporte avançado de vida: SAMU 192 — protocolos de intoxicações. Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde. 
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Diagnóstico e tratamento de intoxicações por agrotóxicos: Capítulo 1. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: Ministério da Saúde – PCDT Intoxicações por Agrotóxicos.
  3. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines for establishing a poison centre. 2. ed. Geneva: WHO, 2021. Disponível em: WHO – Guidelines for establishing a poison centre.
  4. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines for establishing a poison centre: Annex 5 – Antidotes and other agents used in the management of poisoning. Geneva: WHO. Disponível em: WHO – Antidotes and other agents.
  5. ESPÍRITO SANTO. Centro de Informação e Assistência Toxicológica. Profissionais de Saúde – Publicações. Vitória: CIATox-ES, 2026. Disponível em: CIATox-ES. 

Medicamento Sem Identificação? O Que Fazer

medicamento sem identificação

Na administração de medicamentos, existe um momento em que a pressa precisa parar: quando você não consegue identificar com segurança o que está prestes a administrar. Se uma seringa, frasco, cuba ou solução está sem identificação adequada, o medicamento não deve ser administrado até que sua identidade possa ser confirmada de forma segura e rastreável.

O protocolo nacional de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos estabelece a identificação correta do medicamento como uma das barreiras para prevenir erros. O Cofen também reforça a necessidade de conferência dos elementos relacionados à administração segura e à rastreabilidade do cuidado.

Não tente descobrir pelo aspecto

Cor, volume, cheiro ou aparência não são métodos confiáveis para confirmar a identidade de um medicamento. Uma solução transparente pode ser confundida com outra, e duas preparações visualmente semelhantes podem ter princípios ativos completamente diferentes.

Imagine uma seringa encontrada na bancada durante a troca de plantão, sem nome do medicamento, concentração ou horário de preparo. Mesmo que alguém diga “é aquele medicamento que estava sendo usado no leito”, essa informação verbal não substitui a identificação adequada. Sem possibilidade de confirmar a origem e o conteúdo, a administração deve ser interrompida.

A segurança medicamentosa depende de processos sistemáticos de conferência, registro e monitoramento, justamente para reduzir a possibilidade de que uma preparação sem rastreabilidade chegue ao paciente.

E se eu souber qual medicamento é?

Saber ou suspeitar qual é o medicamento não é suficiente. É necessário conseguir confirmar sua identidade, concentração, apresentação, validade e correspondência com a prescrição, de acordo com o processo adotado pelo serviço.

Se a identificação original foi perdida e não existe uma forma segura de confirmar o conteúdo, não é adequado simplesmente escrever o nome posteriormente e considerar o problema resolvido. A conduta deve seguir o protocolo institucional e envolver o enfermeiro responsável e, quando necessário, a farmácia.

O Cofen relaciona entre os itens de segurança da administração a conferência do medicamento, forma/apresentação, validade, compatibilidade, registro e resposta, reforçando que a administração segura envolve mais do que apenas saber o nome do fármaco.

O erro pode começar antes da administração

Outro cenário comum acontece quando uma medicação é preparada para vários pacientes e uma das seringas permanece sobre a bancada sem identificação. Na hora de administrar, alguém reconhece a seringa pela posição ou pelo volume e assume que sabe o conteúdo. É justamente nesse momento que uma barreira de segurança foi perdida.

A identificação deve acompanhar o medicamento preparado conforme as regras do serviço, permitindo saber o que foi preparado, para quem, em qual concentração e em que momento, quando aplicável. A rastreabilidade faz parte da segurança do processo, não é apenas uma formalidade.

O que fazer na prática?

Se encontrar um medicamento sem identificação adequada:

não administre; interrompa o processo; não tente identificar apenas pela aparência; confira a prescrição e os registros disponíveis; comunique o enfermeiro responsável; siga o protocolo institucional para confirmação, descarte ou novo preparo; e registre a intercorrência quando indicado.

Se houver suspeita de que um medicamento não identificado já foi administrado, a situação muda de gravidade: a equipe responsável deve ser comunicada imediatamente para avaliação do paciente e adoção das medidas previstas no protocolo institucional.

O princípio é simples: se você não consegue provar com segurança o que está dentro, não deve administrar.

Cuidados de enfermagem

A prevenção começa no preparo. Identifique corretamente as preparações conforme o protocolo institucional, mantenha medicamentos de diferentes pacientes separados, evite deixar seringas ou soluções sem identificação e faça a conferência antes da administração.

Além disso, o registro não deve ser tratado como uma etapa secundária. O Cofen orienta que o registro de enfermagem seja claro, completo, cronológico e realizado em tempo oportuno, contribuindo para a continuidade e a rastreabilidade da assistência.

Para lembrar no plantão

Medicamento sem identificação = medicamento que não deve ser administrado até ser devidamente confirmado.

Não confie na cor. Não confie no volume. Não confie no “eu sei o que é”.

Na dúvida, pare, confirme e mantenha a segurança do paciente como a próxima etapa do cuidado.

Resumo para salvar

Medicamento Sem Identificação O Que Fazer

  • Não administrar medicamento sem identificação
  • Não identificar pela aparência
  • Confirmar medicamento e prescrição
  • Comunicar e registrar a intercorrência

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde; Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. Atualizado em 2026. Disponível em: Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos.
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Parecer nº 11/2026/Câmaras Técnicas de Enfermagem. Brasília: Cofen, 2026. Disponível em: Parecer Cofen nº 11/2026. 
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Recomendações para registros de enfermagem no exercício da profissão. Brasília: Cofen. Disponível em: Recomendações para Registros de Enfermagem. 

Balanço Hídrico Rigoroso: O Que Estou Esquecendo?

balanço hídrico

Quando o paciente está com balanço hídrico rigoroso, não basta olhar para a bolsa de soro e para a diurese. O que realmente importa é conseguir reconstruir, ao final do período, quanto entrou, quanto saiu e como o organismo respondeu a essa movimentação.

O que entra também merece atenção

Na entrada, muita gente lembra do soro e esquece o restante. Devem ser considerados, conforme o protocolo institucional, líquidos por via oral, dieta enteral, água administrada pela sonda, soluções utilizadas em medicamentos, hemoderivados e outras infusões que efetivamente representem volume.

Uma cena bastante comum no plantão é a dieta enteral estar corretamente registrada, enquanto os volumes de água administrados pela sonda ficam fora da anotação. Algumas horas depois, o balanço parece negativo, quando parte da entrada simplesmente não foi contabilizada. Protocolos institucionais reforçam justamente a necessidade de registrar as diferentes fontes de entrada e saída de forma rastreável.

E as saídas que costumam passar despercebidas?

A diurese é importante, mas não é a única saída. É preciso observar vômitos, evacuações líquidas quando mensuráveis, drenagens de drenos, débito de sondas, aspirações e outras perdas quantificáveis.

Em uma situação prática de UTI, imagine um paciente com sonda vesical, dreno torácico e sonda nasogástrica. Se a diurese foi anotada corretamente, mas o débito do dreno e o volume aspirado da sonda ficaram para depois, o cálculo final já começa comprometido. O registro deve acompanhar o evento, e não depender exclusivamente da memória no final do plantão.

Outro detalhe importante: existem perdas que não conseguimos medir diretamente, chamadas de perdas insensíveis, relacionadas principalmente à pele, respiração e trato gastrointestinal. Por isso, o balanço registrado não representa necessariamente toda a água que o organismo perdeu.

Balanço positivo ou negativo não é diagnóstico sozinho

A conta é simples:

Balanço hídrico = volume de entradas − volume de saídas

Se entram 2.500 mL e saem 1.800 mL:

2.500 − 1.800 = +700 mL

O resultado é positivo em 700 mL.

Mas o número isolado não deve ser interpretado fora do contexto. O significado de um balanço positivo ou negativo depende do quadro clínico, da função renal, da condição cardíaca, das perdas, das metas terapêuticas e da evolução do paciente. Peso, edema, pressão arterial, frequência cardíaca, ausculta pulmonar, estado mental e débito urinário ajudam a interpretar o resultado.

Um estudo brasileiro com pacientes de UTI ilustra bem por que esse número precisa ser lido em conjunto com o quadro clínico, e não isoladamente: entre pacientes que apresentaram balanço hídrico negativo superior a 1 litro nas 48 horas após a extubação, apenas 12% tiveram falha na extubação — contra 34,2% entre aqueles com balanço negativo menor que 1 litro no mesmo período. O dado não significa que “quanto mais negativo, melhor” em qualquer situação; significa que o mesmo número (balanço negativo) pode ter peso clínico muito diferente dependendo do contexto em que aparece, reforçando por que a interpretação isolada do valor raramente conta a história toda.

Um número merece atenção especial

Em adultos, uma diurese inferior a 0,5 mL/kg/h é um parâmetro utilizado para identificar redução importante do débito urinário, embora a interpretação precise considerar o contexto clínico e os critérios adotados pelo serviço. Em um paciente de 70 kg, por exemplo, isso corresponde a menos de aproximadamente 35 mL/h.

Cuidados de enfermagem

No balanço hídrico rigoroso, a enfermagem precisa:

  • registrar entradas e saídas no momento em que acontecem;
  • conferir os volumes administrados por diferentes vias;
  • mensurar corretamente diurese e demais eliminações quantificáveis;
  • acompanhar débitos de drenos e sondas;
  • realizar a soma parcial e final conforme rotina institucional;
  • observar tendência do balanço, e não somente o resultado de um período;
  • correlacionar o balanço com sinais vitais, edema, ausculta pulmonar, peso e estado clínico;
  • comunicar alterações relevantes e registrar as condutas adotadas.

O peso também pode ser uma informação valiosa. Mudanças rápidas de peso podem acompanhar alterações importantes no volume de líquidos e devem ser avaliadas junto aos demais dados clínicos.

Antes de fechar o balanço, faça esta pergunta

“Eu registrei tudo que entrou e tudo que saiu ou apenas aquilo que era mais fácil de lembrar?”

Essa pergunta evita um dos principais problemas do balanço rigoroso: transformar uma informação clínica importante em uma simples conta de enfermagem.

No final, o objetivo não é apenas chegar a um número positivo ou negativo. É produzir um dado confiável para acompanhar a evolução do paciente e ajudar a equipe a tomar decisões com mais segurança.

Resumo para salvar

Balanço Hídrico Rigoroso

  • Registrar todas as entradas
  • Mensurar corretamente as saídas
  • Acompanhar diurese e tendências
  • Relacionar o balanço ao quadro clínico

Referências

  1. ERNSTMEYER, K.; CHRISTMAN, E. (ed.). Nursing Fundamentals. 2. ed. Eau Claire: Chippewa Valley Technical College, 2024. Disponível em: NCBI Bookshelf. 
  2. SANTOS, Priscila Albrecht dos; RIBAS, Alexandre; QUADROS, Thiele Cabral Coelho; BLATTNER, Clarissa Netto; BONIATTI, Márcio Manozzo. O balanço hídrico pós-extubação se associa com falha da extubação: um estudo de coorte. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2021. DOI: 10.5935/0103-507X.20210057. Disponível em: Balanço Hídrico Pós-Extubação — RBTI.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de cuidado: insuficiência cardíaca no adulto. Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: Linha de Cuidado da Insuficiência Cardíaca. 
  4. COFEN. Assistência de enfermagem na realização do balanço hídrico do paciente hospitalizado. Anais do CBCENF. Disponível em: Anais do CBCENF. 

Medidas de Conforto, cuidados que Fazem Diferença

Medidas de Conforto

Conforto não é um detalhe colocado no fim da assistência. Muitas vezes, é justamente uma pequena intervenção da enfermagem — ajustar o travesseiro, diminuir um ruído, reposicionar um membro ou explicar o que será feito — que muda completamente a maneira como o paciente vivencia a internação. O conforto envolve dimensões físicas, ambientais, psicológicas, sociais e até espirituais, devendo ser considerado dentro do cuidado individualizado.

O que são medidas de conforto?

São ações realizadas pela equipe de saúde para reduzir desconfortos, aliviar sintomas, favorecer o repouso, preservar a dignidade e melhorar o bem-estar do paciente. Elas podem incluir higiene corporal, mudança de posição, organização do leito, controle de temperatura e iluminação, redução de ruídos, auxílio na alimentação, hidratação conforme indicação, controle da dor e apoio emocional.

Um paciente restrito ao leito, por exemplo, pode estar com os sinais vitais estáveis e ainda assim apresentar dor nas costas porque permanece muito tempo na mesma posição. Ajustar o decúbito, alinhar o corpo, acomodar os membros e verificar se há pressão excessiva em proeminências ósseas são medidas simples que podem proporcionar alívio e, ao mesmo tempo, contribuir para a prevenção de lesões por pressão.

Conforto começa pelo ambiente

Temperatura adequada, iluminação confortável, privacidade, roupa de cama limpa e seca e redução de ruídos fazem parte da assistência. Em unidades como UTI, onde alarmes, conversas e procedimentos acontecem continuamente, organizar o ambiente para favorecer períodos de descanso pode ser especialmente importante.

Imagine um paciente consciente em pós-operatório reclamando que não consegue dormir porque a luz permanece acesa e há movimentação constante no quarto. Quando possível, reduzir a iluminação, organizar os cuidados para evitar interrupções desnecessárias e explicar previamente os procedimentos são intervenções simples que respeitam o descanso e diminuem a ansiedade. A literatura sobre conforto em enfermagem destaca justamente a influência de temperatura, iluminação, ruídos, odores e comunicação na experiência de hospitalização.

Posicionamento também é cuidado

O posicionamento deve considerar a condição clínica, limitações de mobilidade, presença de dispositivos, dor e risco de lesão por pressão. A mudança de posição não deve ser feita de maneira automática e igual para todos; é preciso avaliar o paciente, utilizar recursos de apoio quando indicados e proteger pele e proeminências ósseas.

Em um paciente acamado com mobilidade reduzida, por exemplo, a equipe pode perceber vermelhidão persistente na região sacral durante a higiene. Esse achado precisa gerar uma resposta: reavaliar o posicionamento, reduzir pressão e implementar as medidas preventivas previstas no protocolo institucional. A prevenção de lesões por pressão é uma prática de segurança do paciente e envolve avaliação sistemática do risco e cuidados preventivos individualizados.

Higiene, dor e necessidades básicas

Banho, higiene oral, troca de roupas e roupas de cama, cuidado com cabelos, hidratação da pele e auxílio para eliminação não são apenas tarefas rotineiras. Quando realizados com privacidade, comunicação e respeito, também promovem conforto e preservam a autoestima.

A dor merece atenção especial. Avaliar intensidade, localização, características e resposta às intervenções permite direcionar melhor o cuidado. Quando houver prescrição, a enfermagem deve administrar os medicamentos com segurança e reavaliar a resposta; medidas não farmacológicas, como posicionamento, ambiente tranquilo e aplicação de recursos previstos no plano de cuidados, podem complementar a assistência.

O cuidado também é emocional

Chamar o paciente pelo nome, explicar o procedimento antes de realizá-lo, permitir que ele faça perguntas e escutar suas preocupações são medidas de conforto. Em situações de medo, dor ou terminalidade, a comunicação pode ser tão importante quanto uma intervenção física.

O Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem estabelece a assistência com promoção da qualidade de vida e, nos casos de doenças graves incuráveis e terminais, prevê cuidados que assegurem conforto físico, psíquico, social e espiritual, respeitando a vontade da pessoa ou de seu representante legal.

Cuidados de enfermagem

Na prática, a equipe deve avaliar continuamente dor, posição, pele, higiene, temperatura, ruído, iluminação, sono, mobilidade, ansiedade e necessidades básicas, adaptando as medidas à condição clínica.

Também é importante manter o leito organizado e seguro, proteger dispositivos e acessos durante mudanças de posição, evitar exposição corporal desnecessária, utilizar técnicas adequadas de mobilização e registrar alterações relevantes e respostas às intervenções. Confortar não significa apenas fazer algo pelo paciente; significa perceber o que está causando desconforto e agir de forma segura, individualizada e respeitosa.

Resumo para salvar

Medidas de Conforto do Paciente

  • Reduzem dor, ansiedade e desconfortos durante a assistência
  • Incluem higiene, posicionamento, ambiente adequado e controle da dor
  • Devem considerar necessidades físicas e emocionais individuais
  • Conforto também envolve segurança, dignidade e humanização

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Prevenção de Úlcera por Pressão. Brasília, DF: Ministério da Saúde/Anvisa/Fiocruz, 2013. Disponível em: Protocolo de Prevenção de Úlcera por Pressão — Ministério da Saúde.
  2. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023: Práticas de Segurança do Paciente em Serviços de Saúde: Prevenção de Lesão por Pressão. Brasília, DF: Anvisa, 2023. Anvisa — Prevenção de Lesão por Pressão
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 564/2017: Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2017. Cofen — Resolução nº 564/2017
  4. PONTE, Keila Maria de Azevedo et al. Teoria do conforto no cuidado clínico de enfermagem pelo método de pesquisa-cuidado. Biblioteca Virtual do Cofen. Biblioteca Digital do Cofen — Teoria do Conforto

13 Certos da Enfermagem: O Que Mudou

13 certos da enfermagem

O número mudou, mas a ideia principal continua a mesma: criar barreiras antes, durante e depois da administração de um medicamento. É por isso que ainda aparecem conteúdos falando em 5, 9 ou 13 certos; eles pertencem a diferentes momentos da evolução das práticas de segurança. O modelo dos 13 certos não surgiu de uma única atualização oficial nacional, e sim da ampliação dos itens de verificação utilizados na literatura e em protocolos educacionais.

De onde vieram os 13 certos?

Historicamente, a administração segura de medicamentos começou sendo ensinada com os 5 certos, relacionados principalmente a paciente, medicamento, dose, via e horário. Com o fortalecimento das políticas de segurança do paciente, outros pontos passaram a ser incorporados às listas de conferência.

No Brasil, o Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos, publicado pelo Ministério da Saúde/Anvisa em 2013, trabalha com um conjunto de verificações que ficou conhecido no ensino como os 9 certos. Já a literatura e diferentes instituições passaram a utilizar listas ampliadas, chegando aos 13 certos. Uma questão de concurso de 2019, por exemplo, já registrava explicitamente que o protocolo trabalhava com 9 certos enquanto alguns autores consideravam 13.

Então quando os 13 certos foram atualizados?

Aqui está o detalhe que costuma gerar confusão: não existe uma data única de “atualização dos 13 certos”.

Materiais brasileiros já apresentavam os 13 certos pelo menos desde 2018, e a Universidade Federal Fluminense publicou em 2022 um e-book específico sobre o tema. Em 2023, também foi desenvolvido e validado um instrumento educativo com os 13 certos. Mais recentemente, em 2025 e 2026, novos materiais educacionais e o próprio Cofen passaram a utilizar e discutir explicitamente essa abordagem ampliada.

Portanto, dizer que “em determinado ano a enfermagem passou oficialmente de 9 para 13 certos” simplifica demais a história. O mais correto é falar em ampliação progressiva das barreiras de segurança.

Quais são os 13 certos?

A lista pode apresentar pequenas diferenças conforme a instituição ou a referência utilizada. No Parecer Cofen nº 11/2026, aparecem os seguintes:

  1. Prescrição certa
  2. Paciente certo
  3. Medicamento certo
  4. Dose certa
  5. Via certa
  6. Horário certo
  7. Forma/apresentação certa
  8. Validade certa
  9. Compatibilidade certa
  10. Registro certo
  11. Orientação certa
  12. Tempo de administração certo
  13. Resposta certa

Essa organização mostra por que a lista foi ampliada: não basta conferir o medicamento antes de administrá-lo. É necessário considerar também preparo, administração, orientação, registro e resposta do paciente.

O que realmente mudou na prática?

Imagine uma situação comum no plantão: a prescrição indica um medicamento intravenoso, mas a apresentação disponível na unidade possui concentração diferente da habitual. Conferir apenas “medicamento certo” não resolve o problema. É preciso verificar forma/apresentação, dose, compatibilidade e prescrição, antes que a medicação chegue ao paciente.

Outro momento frequente ocorre depois da administração. O medicamento foi administrado corretamente e registrado, mas o paciente apresenta uma resposta inesperada. É justamente aí que entra o “certo da resposta”: a assistência não termina no momento em que a medicação é administrada; é necessário observar efeitos terapêuticos e possíveis reações e registrar as intercorrências pertinentes. O Cofen reforça, inclusive, que o registro deve ser claro, completo e realizado em tempo oportuno.

Por que acrescentaram tantos itens?

Porque os erros de medicação não acontecem somente quando alguém escolhe o medicamento errado. Eles podem estar relacionados a identificação, prescrição, dose, apresentação, via, velocidade, compatibilidade, comunicação, registro e monitoramento da resposta.

A ampliação dos certos tenta transformar essas etapas em barreiras de segurança, tornando a conferência mais abrangente. Um guia educacional publicado em 2025, por exemplo, foi elaborado justamente com o objetivo de orientar estudantes e profissionais e prevenir erros durante o processo de administração.

E o direito de recusa?

Aqui aparece outra fonte de confusão. Alguns materiais encontrados na internet apresentam “direito de recusa do paciente” ou até “direito de recusa do profissional” dentro dos 13 certos. Porém, essa não é uma composição universal. O Parecer Cofen nº 11/2026 apresenta outra lista, formada por prescrição, paciente, medicamento, dose, via, horário, forma/apresentação, validade, compatibilidade, registro, orientação, tempo e resposta.

Por isso, para prova ou protocolo institucional, o estudante deve verificar qual referência a banca, instituição de ensino ou serviço está utilizando. Não existe uma única lista universal de 13 itens que substitua todas as demais.

5, 9 ou 13 certos: qual estudar?

A resposta depende da fonte.

Os 5 certos representam uma abordagem histórica e mais básica. Os 9 certos aparecem associados ao protocolo nacional de segurança de medicamentos e continuam sendo encontrados em materiais baseados nessa referência. Já os 13 certos são amplamente utilizados atualmente em materiais educacionais e institucionais como uma abordagem ampliada de segurança.

Para o profissional, entretanto, o mais importante não é decorar simplesmente o número. É entender que cada conferência funciona como uma oportunidade de interromper um erro antes que ele alcance o paciente.

Cuidados de enfermagem

Conferir a prescrição, identificar corretamente o paciente, verificar medicamento, dose, via, apresentação, validade, compatibilidade e horário, respeitar o tempo de administração, orientar o paciente, observar sua resposta e realizar o registro adequado. Em caso de dúvida ou inconsistência, a administração deve ser interrompida até que a situação seja esclarecida conforme o protocolo institucional e as normas profissionais.

Para guardar na prova

! Atenção na Prova

5 certos → modelo histórico básico.

9 certos → associados ao protocolo nacional de segurança de medicamentos de 2013.

13 certos → ampliação progressiva das verificações, já documentada em materiais brasileiros desde pelo menos 2018 e utilizada atualmente em diferentes materiais institucionais e educacionais.

O ponto mais importante é este: não houve uma “virada” oficial em uma única data de 9 para 13 certos. A evolução aconteceu gradualmente, acompanhando a necessidade de tornar a administração de medicamentos uma barreira de segurança cada vez mais completa.

Resumo para salvar

13 Certos da Enfermagem O Que Mudou

  • Os 13 certos não surgiram de uma única atualização oficial nacional
  • O protocolo brasileiro de 2013 ficou associado aos 9 certos na administração segura de medicamentos
  • Os 13 certos já aparecem em materiais brasileiros pelo menos desde 2018 e foram ampliados progressivamente
  • A versão apresentada pelo Cofen em 2026 inclui prescrição paciente medicamento dose via horário forma validade compatibilidade registro orientação tempo e resposta

13 certos

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde; ANVISA; FIOCRUZ; FUNDAÇÃO HOSPITALAR DO ESTADO DE MINAS GERAIS. Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos. Brasília, DF, 2013. Disponível em: Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos.
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Parecer nº 11/2026/Câmaras Técnicas de Enfermagem. Brasília, DF, 2026. Disponível em: Cofen – Parecer nº 11/2026.
  3. UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE. E-book: descrição das práticas seguras na administração de medicamentos – os 13 certos da medicação. Niterói, 2022. Disponível em: eduCapes – Os 13 certos da medicação.
  4. SILVA, Mayara Pryscilla Santos et al. Elaboração do guia segurança do paciente na administração de medicamentos: os 13 certos. Cadernos Cajuína, v. 11, n. 3, 2026. DOI: 10.52641/cadcajv11i3.2131. Disponível em: Cadernos Cajuína – artigo sobre os 13 certos. 

Cuidados de Enfermagem no Cateterismo Cardíaco

cateterismo cardiaco

O cuidado após o cateterismo cardíaco não termina quando o paciente sai da hemodinâmica. Para a enfermagem, o acesso vascular vira um verdadeiro “ponto de vigilância”: é preciso acompanhar sangramento, hematoma, perfusão distal e sinais de complicação, além das condições clínicas do paciente.

Acesso radial: olhe além do curativo

No acesso radial, o cateter é introduzido pela artéria radial, geralmente no punho. Uma das vantagens é permitir mobilização mais precoce, já que não existe a mesma necessidade de manter o paciente em repouso prolongado no leito que pode ocorrer após o acesso femoral. Mesmo assim, isso não significa deixar de observar o membro.

Depois do procedimento, avalie o local da punção e observe sangramento, hematoma, dor, edema, temperatura e coloração da mão, além do pulso distal e da perfusão. Alterações como mão fria, mudança de coloração, déficit sensitivo ou motor e dor importante precisam ser comunicadas rapidamente.

Uma situação prática fácil de imaginar acontece quando o paciente chega da hemodinâmica com um dispositivo de compressão no punho. A mão pode estar aparentemente normal, mas uma avaliação comparativa mostra alteração de temperatura ou coloração em relação ao outro membro. É justamente esse tipo de comparação que ajuda a perceber uma alteração vascular precocemente.

Acesso femoral exige outra atenção

No acesso femoral, a punção ocorre na região da virilha e o risco de complicações vasculares e sangramento no local de acesso é maior do que no acesso radial. Por isso, a avaliação precisa ser cuidadosa, incluindo inspeção do local, controle de sangramento e acompanhamento da perfusão do membro.

Após a retirada do introdutor, a hemostasia pode ser obtida por compressão manual ou dispositivo de fechamento, conforme a técnica utilizada e o protocolo do serviço. O tempo de repouso e mobilização não deve ser tratado como um número universal, porque depende do procedimento, método de hemostasia, condição clínica e protocolo institucional.

É nesse acesso que uma avaliação aparentemente simples pode fazer muita diferença. Imagine o paciente algumas horas após o procedimento, ainda em decúbito, relatando dor lombar ou desconforto abdominal enquanto o curativo femoral parece seco. A enfermagem não deve olhar apenas para o curativo: alteração hemodinâmica, dor abdominal/lombar ou queda de hemoglobina podem levantar suspeita de sangramento oculto e precisam de avaliação imediata.

O que comparar nos dois acessos

Independentemente do local, o raciocínio é parecido: olhe, palpe quando indicado, compare os membros e acompanhe a evolução.

No radial, dê atenção especial à mão e ao antebraço. No femoral, observe principalmente a região da punção, o membro inferior e sinais sistêmicos de sangramento. Hematoma crescente, sangramento persistente, dor desproporcional, alteração de temperatura ou coloração e redução da perfusão são sinais que não devem ser banalizados.

Radial ou femoral: não confunda os cuidados

Uma maneira simples de memorizar:

  • Radial → punho, mão e perfusão distal.
  • Femoral → virilha, membro inferior e risco de sangramento oculto.

No radial, também é importante observar sinais relacionados à compressão excessiva, como dor, alteração de perfusão ou mudanças na coloração e temperatura da mão. A chamada hemostasia patente, quando indicada pelo dispositivo e protocolo utilizado, busca controlar o sangramento preservando o fluxo arterial.

No femoral, a mobilização deve respeitar o protocolo do serviço e a forma como a hemostasia foi realizada. Não é adequado simplesmente retirar a restrição de movimento porque o paciente está se sentindo bem.

A enfermagem precisa acompanhar o paciente inteiro

Além do acesso, monitore pressão arterial, frequência cardíaca, ritmo cardíaco, dor, nível de consciência e sinais de sangramento conforme o procedimento e a condição clínica. A observação do sítio vascular deve fazer parte da avaliação pós-procedimento, e não ser uma checagem isolada do curativo.

Também confira informações importantes na passagem de plantão: qual foi o acesso utilizado, qual procedimento foi realizado, se houve intercorrências, como foi feita a hemostasia, quais medicamentos antitrombóticos foram utilizados e quais são as orientações para mobilização.

Cuidados de enfermagem

Após o cateterismo, a enfermagem deve monitorar o sítio de punção, identificar precocemente sangramento e hematoma, avaliar perfusão distal, acompanhar sinais vitais e dor, manter o membro conforme orientação do procedimento e protocolo institucional, observar alterações neurológicas ou vasculares e comunicar imediatamente sinais de complicação.

No acesso radial, lembre-se principalmente de mão e perfusão. No femoral, pense em virilha, sangramento e perfusão do membro inferior.

O detalhe mais importante é não olhar somente para o curativo. Um curativo seco não exclui uma complicação vascular. A avaliação precisa considerar o local da punção, o membro e o estado clínico do paciente como um conjunto.

Resumo para salvar

Cateterismo Cardíaco Cuidados no Acesso

  • Acesso radial exige atenção à mão perfusão distal dor hematoma e coloração
  • Acesso femoral exige vigilância do local da punção sangramento e perfusão do membro inferior
  • Monitorização deve incluir sítio vascular sinais vitais dor e condição clínica
  • Curativo seco não exclui complicação vascular e a avaliação deve ser sistematizada

Referências:

  1. MASON, Patrick J. et al. An update on radial artery access and best practices for transradial coronary angiography and intervention in acute coronary syndrome: a scientific statement from the American Heart Association. Circulation: Cardiovascular Interventions, 2018. Disponível em: American Heart Association – Scientific Statement.
  2. GLADDEN, James D.; GULATI, Rajiv; SANDOVAL, Yader. Contemporary techniques for femoral and radial arterial access in the cardiac catheterization laboratory. Reviews in Cardiovascular Medicine, v. 23, n. 9, p. 316, 2022. DOI: 10.31083/j.rcm2309316. Disponível em: PMC — Contemporary Techniques for Femoral and Radial Arterial Access.
  3. SHEA, J. B. et al. Patient management following percutaneous coronary intervention. Journal of Clinical Medicine, 2024. Disponível em: PMC – Patient Management Following PCI.
  4. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Percutaneous coronary intervention: recommendations for good practice. Disponível em: PMC – Postprocedural care and monitoring. 

Infiltração ou Extravasamento, como Diferenciar?

extravasamento, infiltração

Nem todo edema ao redor do cateter significa a mesma coisa. O primeiro ponto para diferenciar infiltração de extravasamento é descobrir o que estava sendo infundido e para onde essa solução foi. Na infiltração, uma solução não vesicante sai do vaso e alcança o tecido ao redor; no extravasamento, ocorre a saída de uma solução vesicante, capaz de provocar lesão tecidual que pode variar de irritação até necrose.

Infiltração: o líquido foi para o tecido

Na infiltração, podem aparecer edema, palidez, pele fria, desconforto e redução ou interrupção do fluxo. O edema costuma acompanhar o trajeto ou a região próxima ao cateter, e o local pode ficar com aspecto diferente do membro contralateral. A avaliação frequente do sítio do cateter é fundamental para reconhecer essas alterações precocemente.

Um cenário muito comum é o paciente avisar que o braço começou a “inchar” durante a infusão. Ao retirar a cobertura para observar o acesso, você encontra edema ao redor do sítio e percebe que o líquido não está mais entrando adequadamente. Nesse momento, insistir na infusão para “ver se o acesso volta” pode aumentar o volume que está chegando ao tecido.

Extravasamento: aqui o risco muda

No extravasamento, a preocupação é maior porque a solução envolvida possui potencial de causar dano ao tecido. A gravidade depende da substância, concentração, volume extravasado, local e tempo de exposição. Alguns medicamentos podem provocar bolhas, ulceração, necrose e comprometimento funcional. Por isso, reconhecer precocemente o extravasamento é parte essencial da segurança durante a terapia intravenosa.

Um detalhe que merece atenção na prática é que nem todo extravasamento acontece com quimioterápicos. A literatura atual destaca que medicamentos não antineoplásicos também podem apresentar risco de lesão quando extravasados. Por isso, saber qual medicamento está sendo administrado é tão importante quanto observar o aspecto do acesso.

Como diferenciar rapidamente

A forma mais simples de raciocinar é:

! Atenção na Prova

Infiltração → solução não vesicante → edema e desconforto, geralmente sem destruição tecidual importante.

Extravasamento → solução vesicante → risco de lesão tecidual, podendo evoluir para bolhas, ulceração ou necrose.

Em ambos os casos, podem existir dor, edema, alteração da temperatura e mudança no funcionamento do acesso. Portanto, o aspecto do braço sozinho não é suficiente para definir o problema; é necessário considerar a solução ou medicamento administrado.

O que fazer diante da suspeita

Ao identificar suspeita de infiltração ou extravasamento, a infusão deve ser interrompida e o local avaliado. No extravasamento, existe uma diferença importante: não se deve simplesmente retirar o cateter antes de verificar o protocolo específico da substância, porque alguns protocolos recomendam manter o acesso temporariamente para aspiração do medicamento residual e, quando indicado, administração de um antídoto. A conduta varia conforme o agente envolvido.

Por isso, diante de um possível extravasamento, é importante identificar imediatamente qual medicamento estava sendo administrado, concentração, volume estimado, horário e características do local, além de seguir o protocolo institucional para compressas, antídotos, avaliação e acompanhamento.

Cuidados de enfermagem

A prevenção começa pela escolha adequada do acesso, avaliação do sítio antes e durante a infusão e valorização das queixas do paciente, especialmente dor, ardência, pressão ou desconforto. Em pacientes sedados, com alteração cognitiva ou em terapia intensiva, a observação direta ganha ainda mais importância porque o paciente pode não conseguir comunicar os primeiros sinais.

Na prática, vale incorporar uma pergunta simples durante a infusão: “Está sentindo ardência, dor ou pressão nesse local?” Essa informação, somada à inspeção e palpação conforme permitido, pode fazer a equipe perceber uma complicação antes que o edema se torne evidente.

Também devem ser registrados o aspecto do local, sintomas relatados, medicamento ou solução envolvida, medidas adotadas, evolução e comunicação à equipe responsável. No extravasamento, a documentação detalhada é especialmente importante devido ao potencial de lesão tecidual.

Resumo para salvar

Infiltração ou Extravasamento: Saiba Diferenciar

  • Infiltração envolve solução não vesicante fora do vaso
  • Extravasamento envolve solução vesicante e pode causar lesão tecidual
  • Observe edema dor temperatura e funcionamento do acesso
  • No extravasamento identifique a substância e siga o protocolo específico

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Cartilha para avaliação de modos de falhas de bombas de infusão. Brasília, DF: Anvisa. Anvisa – Cartilha sobre bombas de infusão
  2. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Caderno 4: prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde e assistência segura. Brasília, DF: Anvisa, 2024. Anvisa – Segurança do paciente e cateter periférico
  3. GORSKI, Lisa A. et al. Development of an Evidence-Based List of Non-Antineoplastic Vesicants: 2024 Update. Journal of Infusion Nursing, v. 47, n. 5, 2024. DOI: 10.1097/NAN.0000000000000568. PubMed – Non-Antineoplastic Vesicants
  4. BARTON, Andrew. Extravasation and infiltration: under-recognised complications of intravenous therapy. British Journal of Nursing, v. 33, n. 7, 2024. DOI: 10.12968/bjon.2024.33.7.S18. PubMed – Extravasation and infiltration
  5. THOMPSON, Judy et al. Standards of care for peripheral intravenous catheters: evidence-based expert consensus. British Journal of Nursing, v. 33, n. 21, 2024. DOI: 10.12968/bjon.2024.0422. PubMed – Standards of care for peripheral IV catheters

Assistência de Enfermagem na Crise Convulsiva

crise convulsiva

O primeiro erro é perder a noção do tempo

Durante uma crise convulsiva, a equipe pode se concentrar tanto nos movimentos do paciente que acaba esquecendo uma informação fundamental: quanto tempo a crise está durando? Cronometrar desde o início ajuda a reconhecer rapidamente uma situação que exige intervenção imediata.

Na abordagem inicial, a prioridade é proteger o paciente contra traumas, manter a permeabilidade das vias aéreas, avaliar respiração e circulação e monitorizar os sinais vitais. Também é importante verificar a glicemia capilar, porque a hipoglicemia pode desencadear convulsões e precisa ser identificada rapidamente.

Imagine uma situação comum no atendimento: o paciente começa a apresentar movimentos tônico-clônicos, alguém tenta segurá-lo pelos braços e outra pessoa procura alguma coisa para colocar entre os dentes. É justamente nesse momento que a equipe precisa organizar a cena: afastar objetos, proteger a cabeça, não restringir os movimentos e não colocar nada na boca. A proteção adequada reduz o risco de lesões sem transformar a própria assistência em uma nova fonte de trauma.

O que fazer durante a convulsão

Durante a crise, não se deve tentar conter fisicamente os movimentos nem introduzir objetos, dedos, compressas ou dispositivos na boca do paciente. Também não é indicado oferecer água, alimentos ou medicamentos por via oral enquanto houver alteração da consciência.

Se for possível com segurança, deve-se proteger a cabeça, afastar objetos próximos e afrouxar roupas apertadas no pescoço. A equipe deve permanecer ao lado do paciente e observar características importantes da crise, como início, duração, padrão dos movimentos, presença de cianose, secreções, perda urinária ou fecal e resposta após o episódio.

Uma situação que merece atenção acontece quando a crise termina: o paciente pode permanecer sonolento, confuso ou com respiração alterada. É nessa fase que alguns profissionais podem interpretar a ausência dos movimentos como resolução completa do problema. A assistência continua sendo necessária, com avaliação das vias aéreas, respiração, saturação, sinais vitais e nível de consciência.

Depois da crise: o período pós-ictal

Após o término dos movimentos convulsivos, o paciente pode apresentar sonolência, confusão, agitação, cefaleia ou redução do tônus muscular. A equipe deve manter vigilância até que haja recuperação adequada da consciência e estabilidade clínica.

Quando o paciente estiver respirando espontaneamente e sem contraindicação, o posicionamento lateral pode ajudar a manter a via aérea protegida. Se houver secreções, a aspiração deve ser realizada quando indicada, sempre avaliando a necessidade real do procedimento.

Também é importante investigar o contexto: histórico de epilepsia, uso ou suspensão de anticonvulsivantes, febre, trauma, intoxicação, alterações metabólicas, gestação, diabetes e outras condições que possam estar relacionadas ao episódio.

Quando a crise vira uma emergência ainda maior

Uma convulsão que ultrapassa 5 minutos, ou crises repetidas sem recuperação da consciência entre elas, deve ser tratada como uma emergência. Nessa situação, não basta aguardar que o episódio termine espontaneamente. É necessário acionar o atendimento de emergência e seguir o protocolo institucional para controle da crise.

No ambiente hospitalar, a equipe deve preparar acesso venoso, monitorização, avaliação da glicemia e suporte ventilatório conforme necessidade. As medicações anticonvulsivantes, especialmente benzodiazepínicos como primeira linha no estado de mal convulsivo, devem ser administradas conforme prescrição, protocolo institucional e competência profissional.

No Brasil, o protocolo do SAMU também orienta avaliação primária, manutenção da permeabilidade das vias aéreas, monitorização, glicemia capilar e proteção contra traumas, além do registro das características da crise.

Cuidados de enfermagem

A assistência de enfermagem deve priorizar segurança e reconhecimento precoce da gravidade. Entre os principais cuidados estão:

  • Cronometrar a crise desde o início.
  • Proteger cabeça e corpo contra traumas.
  • Não restringir os movimentos e não colocar objetos na boca.
  • Avaliar vias aéreas, respiração, SpO₂ e sinais vitais.
  • Verificar glicemia capilar.
  • Manter monitorização conforme condição clínica.
  • Observar e registrar características e duração da crise.
  • Avaliar o período pós-ictal e o nível de consciência.
  • Preparar acesso venoso e medicações quando indicados pelo protocolo.
  • Comunicar imediatamente crise prolongada, recorrente ou associada à instabilidade clínica.

O registro também tem valor clínico: horário de início, duração, características dos movimentos, alterações respiratórias, intervenções realizadas, medicamentos administrados e resposta do paciente ajudam a equipe médica e de enfermagem a entender a evolução do episódio.

O que a enfermagem nunca deve fazer

Não segure o paciente à força. Não coloque colher, gaze, cânula, dedo ou qualquer outro objeto entre os dentes. Não tente interromper mecanicamente os movimentos e não ofereça líquidos ou medicamentos pela boca enquanto houver alteração da consciência.

A prioridade é proteger, observar, cronometrar, avaliar e agir conforme a gravidade e o protocolo. Essa sequência evita condutas impulsivas justamente no momento em que a equipe mais precisa trabalhar de forma organizada.

Resumo para salvar

Assistência na Crise Convulsiva

  • Cronometre a crise e proteja o paciente contra traumas
  • Avalie vias aéreas respiração sinais vitais e glicemia
  • Não contenha os movimentos nem coloque objetos na boca
  • Reconheça crises prolongadas ou repetidas como emergência

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Suporte Básico de Vida: BC16 – Crise convulsiva no adulto. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Ministério da Saúde – Protocolo de Suporte Básico de Vida
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. SAMU 192 – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília, DF: Ministério da Saúde. SAMU 192 – Ministério da Saúde
  3. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. First Aid for Seizures. Atlanta: CDC, 2024. CDC – First Aid for Seizures
  4. AMERICAN COLLEGE OF EMERGENCY PHYSICIANS. Clinical Policy: Critical Issues in the Management of Adult Patients Presenting to the Emergency Department With Seizures. Annals of Emergency Medicine, 2024. ACEP – Clinical Policy on Seizures

Encostar no Êmbolo Contamina a Medicação?

êmbolo seringa

Durante anos, muitos profissionais aprenderam que tocar no êmbolo da seringa automaticamente contaminaria a medicação. A ciência mais recente pede um pouco mais de precisão nessa afirmação.

Um estudo brasileiro publicado em 2025 avaliou 160 seringas hipodérmicas descartáveis, utilizando testes microbiológicos, estruturais, de vazamento por gravidade e de pressão. Nas condições experimentais avaliadas, os pesquisadores não identificaram contaminação ou vazamento associado ao toque nas hastes do êmbolo e concluíram que as seringas testadas mantiveram segurança para o medicamento aspirado.

Isso não significa que o profissional esteja autorizado a tocar livremente em qualquer parte da seringa. Técnica asséptica continua sendo fundamental, principalmente porque diferentes modelos de seringa possuem estruturas diferentes e porque a contaminação depende de como, onde e quantas vezes o dispositivo é manipulado.

Então tocar no êmbolo contamina ou não?

A melhor resposta atualmente é: não é correto afirmar que um simples toque na haste do êmbolo, por si só, contamina automaticamente a medicação dentro de toda seringa descartável moderna.

Por outro lado, existem estudos experimentais demonstrando que contaminantes presentes no êmbolo, nas mãos ou no interior do cilindro podem alcançar o líquido em determinadas condições. Um estudo publicado na Scientific Reports mostrou que bactérias colocadas experimentalmente sobre o êmbolo, no cilindro ou nas luvas do operador conseguiram penetrar no líquido dentro da seringa durante movimentos repetidos de aspiração e injeção.

É justamente por isso que a orientação de evitar tocar nas partes estéreis da seringa continua fazendo sentido: a ausência de contaminação demonstrada em um modelo experimental específico não transforma o toque em uma prática recomendada.

O que acontece dentro da seringa?

A questão fica mais interessante quando observamos a estrutura do dispositivo. O êmbolo possui uma haste externa e uma parte de vedação que permanece em contato com o interior do cilindro. Dependendo do modelo, movimentos repetidos podem favorecer a passagem de contaminantes da região externa para áreas internas.

Estudos anteriores já demonstraram esse mecanismo. Em experimentos microbiológicos, o contato de microrganismos com o êmbolo foi capaz de produzir contaminação interna após movimentos repetidos, enquanto modificações no desenho da seringa reduziram esse fenômeno.

Portanto, não é apenas a pergunta “tocou ou não tocou?”. É preciso considerar qual parte foi tocada, como ocorreu o contato, se houve movimentação do êmbolo, se a seringa foi manipulada repetidamente e qual modelo de dispositivo estava sendo utilizado.

E quando falamos de medicamentos perigosos?

Aqui a discussão muda bastante. Em medicamentos perigosos, como determinados quimioterápicos, existe evidência de contaminação do êmbolo durante o preparo e risco ocupacional para os profissionais.

Uma pesquisa publicada em 2025 avaliou seringas utilizadas no preparo de seis medicamentos perigosos e encontrou contaminação nas paredes internas e nos êmbolos após o preparo. Por esse motivo, os pesquisadores evitaram o contato com a haste do êmbolo durante o estudo e utilizaram somente a parte externa destinada à manipulação.

Nesse cenário, a preocupação não é apenas contaminar a solução. O medicamento pode atingir o êmbolo e posteriormente ser transferido para as luvas, superfícies e outros materiais, aumentando a exposição ocupacional.

O que isso significa na prática?

Imagine uma situação comum durante o preparo: o profissional está aspirando uma medicação e toca rapidamente a haste do êmbolo para estabilizar a seringa. O novo estudo brasileiro não permite afirmar que aquela medicação ficou automaticamente contaminada. Seria exagero transformar um toque isolado em uma certeza microbiológica.

Porém, se durante o procedimento a mesma seringa for manipulada diversas vezes, houver contato com superfícies não estéreis ou o êmbolo for movimentado repetidamente depois desse contato, o cenário muda. Estudos experimentais mostram que a manipulação pode favorecer a passagem de contaminantes para o interior.

É uma diferença importante para quem está aprendendo: não precisamos ensinar um mito para ensinar uma técnica segura.

E se eu encostar sem querer?

Não é necessário afirmar automaticamente que a medicação está contaminada e deve ser descartada em qualquer situação. Primeiro é preciso avaliar onde ocorreu o contato, se a parte tocada participa do caminho estéril, se houve comprometimento da esterilidade e qual é o medicamento envolvido, além de seguir o protocolo institucional.

O mais seguro é evitar deliberadamente o contato com a haste do êmbolo e com outras partes críticas da seringa. Materiais de ensino de administração parenteral continuam recomendando manter estéreis a ponta, o conector e as partes relevantes do dispositivo, evitando tocar a extensão do êmbolo.

Cuidados de enfermagem

Na prática, mantenha a técnica asséptica durante todo o preparo, faça higiene das mãos, utilize seringa e agulha estéreis e de uso único e evite tocar desnecessariamente no êmbolo, ponta, conexão Luer e demais partes críticas.

Também não reutilize seringas entre pacientes e tenha atenção especial durante o preparo de medicamentos perigosos, seguindo rigorosamente os protocolos específicos de segurança ocupacional. Se houver dúvida real sobre a manutenção da esterilidade, não improvise: siga o protocolo da instituição e as orientações do serviço de farmácia ou responsável técnico.

Afinal, encostar no êmbolo contamina a medicação?

Não dá para afirmar que um simples toque na haste do êmbolo automaticamente contamina a medicação em uma seringa descartável moderna. A pesquisa brasileira de 2025 não encontrou essa contaminação nas condições estudadas.

Mas também não é correto concluir que tocar no êmbolo é uma prática segura e recomendável. Existem evidências experimentais de que contaminantes podem alcançar o interior da seringa em determinadas condições, principalmente com manipulação e movimentos repetidos. Por isso, a orientação mais segura continua sendo evitar tocar nas partes críticas e preservar a técnica asséptica.

A diferença é importante: uma recomendação de técnica asséptica não precisa ser sustentada por uma afirmação científica absoluta que os estudos não comprovam.

Resumo para salvar

Encostar no Êmbolo Contamina a Medicação?

  • Um toque no êmbolo não demonstrou contaminar automaticamente toda medicação em seringas modernas
  • Estudos mostram que contaminantes podem alcançar o interior em determinadas condições
  • Manipulação repetida pode aumentar o risco de contaminação
  • A técnica asséptica e o cuidado com partes críticas da seringa continuam essenciais

Referências: 

  1. SOUZA, Jorge Guimarães de; CANESE, Emiliano Joel Stigarribia. Avaliação técnica, microbiológica e estrutural de seringas hipodérmicas descartáveis durante aspiração de fármacos. Journal of Human Growth and Development, v. 35, n. 3, p. 412-418, 2025. Disponível em: Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano.
  2. YOSHIDA, et al. Pumping infusions with a syringe may cause contamination of the fluid in the syringe. Scientific Reports, 2021. Disponível em: Scientific Reports — Nature.
  3. SESSINK, Paul J. M.; TANS, Birgit; DEVOLDER, David. Contamination on inner walls of syringes used for compounding and administration of hazardous drugs. Journal of Oncology Pharmacy Practice, 2025. Disponível em: Journal of Oncology Pharmacy Practice.
  4. PERCEVAL, A. Consequence of syringe-plunger contamination. Medical Journal of Australia, v. 1, n. 10, p. 487-489, 1980. Disponível em: PubMed. 
  5. BACCA, Lucas Faccin da Rosa; GOUVEA, Pollyana Bortholazzi. Contaminação por contato no êmbolo durante o preparo de soluções parenterais: estudo caso-controle. Anais do Seminário de Iniciação Científica da Universidade do Vale do Itajaí, v. 24, 2025. DOI: 10.14210/asic2421757. Disponível em: https://periodicos.univali.br/index.php/asic/article/view/21757