Disfagia: Como Identificar o Risco de Aspiração

Disfagia

A disfagia é uma alteração da deglutição que pode comprometer a passagem segura de alimentos, líquidos ou até mesmo saliva. O problema é que o paciente pode aspirar sem apresentar um engasgo evidente. Por isso, identificar fatores de risco e sinais durante a alimentação é fundamental para evitar complicações respiratórias.

Os sinais que merecem atenção

Durante ou logo após a alimentação, observe tosse, engasgo, voz molhada ou “gorgolejante”, alteração vocal, escape de alimento pela boca, dificuldade para mastigar, sensação de alimento parado na garganta, sialorreia e acúmulo de resíduos na cavidade oral. Cansaço durante a refeição, refeições muito prolongadas e desconforto respiratório associado à alimentação também podem indicar risco.

Uma situação clínica bastante comum é o paciente terminar alguns goles de água, não tossir imediatamente e, minutos depois, apresentar voz diferente e necessidade de pigarrear repetidamente. Esse tipo de mudança merece atenção, principalmente quando se repete durante as refeições. Ausência de tosse não garante que não houve aspiração, porque existem situações de aspiração silenciosa.

Quem precisa de atenção redobrada?

Alterações neurológicas, redução do nível de consciência, histórico de AVC, doenças de cabeça e pescoço, idade avançada, alterações do reflexo de tosse, presença de sonda, sialorreia e histórico de disfagia aumentam a necessidade de avaliação. Pacientes críticos, especialmente após períodos de ventilação mecânica e extubação, também podem apresentar maior risco.

Imagine um paciente recém-extubado que recebe dieta por via oral. Durante os primeiros minutos, ele consegue iniciar a deglutição, mas começa a tossir repetidamente, fica cansado e apresenta alteração da voz. Nesse momento, insistir na oferta para “ver se melhora” não é uma boa estratégia. A alteração precisa ser comunicada e a alimentação deve seguir o protocolo e a avaliação definida pela equipe, com participação da fonoaudiologia quando indicada.

O que a enfermagem deve observar

A avaliação começa antes mesmo da primeira colherada. Observe nível de consciência, capacidade de manter postura adequada, controle de secreções, higiene oral, presença de tosse e condições respiratórias. Durante a alimentação, acompanhe ritmo, mastigação, deglutição, presença de engasgos, alterações da voz e sinais de fadiga.

Também é importante lembrar que teste de deglutição à beira-leito não substitui uma avaliação especializada quando existe suspeita de disfagia. Protocolos de triagem ajudam a identificar quem precisa de investigação, mas nenhum teste isolado deve ser usado como garantia de ausência de aspiração.

Cuidados de enfermagem

Na prática, alguns cuidados são essenciais: manter o paciente em posição adequada durante a alimentação, seguir a consistência prescrita ou definida no plano terapêutico, supervisionar a oferta quando indicada, observar sinais de intolerância e registrar alterações encontradas.

Pacientes identificados como de risco devem ser sinalizados conforme protocolo institucional, e medidas como elevação do decúbito, adequação da dieta e avaliação da disfagia podem fazer parte da estratégia de prevenção da broncoaspiração.

Se houver suspeita de disfagia, não modifique por conta própria a consistência da dieta nem libere líquidos ou alimentos fora da orientação estabelecida. O cuidado deve ser articulado com a equipe responsável e, quando indicado, com o fonoaudiólogo.

Uma regra prática para lembrar

Tossiu? Voz mudou? Engasgou? Ficou cansado? Acumulou alimento na boca? Apresentou desconforto respiratório durante a alimentação?

Não trate esses sinais como detalhes da refeição. Eles podem ser o primeiro alerta de que a deglutição não está acontecendo com segurança.

Em pacientes com AVC agudo, por exemplo, recomenda-se realizar triagem da deglutição por profissional treinado antes da oferta de alimentos, líquidos ou medicamentos por via oral. A identificação precoce permite estabelecer uma forma de alimentação mais segura e reduzir complicações relacionadas à aspiração.

Resumo para salvar

Disfagia Como Identificar Risco de Aspiração

  • Reconhecer sinais de disfagia
  • Observar tosse e alteração da voz
  • Identificar pacientes de maior risco
  • Prevenir broncoaspiração durante a alimentação

Referências:

  1. AMERICAN SPEECH-LANGUAGE-HEARING ASSOCIATION. Swallowing screening. Rockville: ASHA, (s.d.). Disponível em: ASHA – Swallowing Screening. 
  2. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde: práticas seguras para prevenção da broncoaspiração. Brasília: Anvisa, 2024. Disponível em: Anvisa – Prevenção de broncoaspiração. 
  3. BRASIL. Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Protocolo assistencial: prevenção da broncoaspiração no adulto. Belo Horizonte: HC-UFMG/Ebserh, 2025. Disponível em: Protocolo HC-UFMG – Prevenção da broncoaspiração no adulto. 
  4. INTERCOLLEGIATE STROKE WORKING PARTY. National Clinical Guideline for Stroke: swallowing. London: Royal College of Physicians, 2023. Disponível em: National Clinical Guideline for Stroke – Swallowing. 

Marcha atópica

A marcha atópica é um conceito que descreve a progressão natural das doenças alérgicas ao longo da vida de um indivíduo. Geralmente começando na infância, essa sequência de condições pode incluir dermatite atópica, rinite alérgica e asma.

Nesta publicação, vamos explorar o que é a marcha atópica, suas fases, fatores de risco e estratégias para prevenir ou controlar essas condições.

O Que é a Marcha Atópica?

A marcha atópica refere-se à tendência de doenças alérgicas se desenvolverem em uma sequência previsível, começando na infância e podendo persistir até a idade adulta. Essa progressão é caracterizada por uma resposta imunológica hiperativa a alérgenos comuns, como pólen, ácaros e alimentos.

Fases da Marcha Atópica

Dermatite Atópica (Eczema)

  • Idade de Início: Geralmente nos primeiros meses de vida.
  • Sintomas: Pele seca, coceira intensa e erupções cutâneas.
  • Importância: A dermatite atópica é frequentemente o primeiro sinal da marcha atópica e pode aumentar o risco de desenvolver outras condições alérgicas.

Alergias Alimentares

  • Idade de Início: Nos primeiros anos de vida.
  • Sintomas: Reações alérgicas a alimentos como leite, ovos, amendoim e frutos do mar.
  • Importância: As alergias alimentares podem ser um precursor para o desenvolvimento de asma e rinite alérgica.

Asma

  • Idade de Início: Geralmente entre 3 e 5 anos.
  • Sintomas: Dificuldade para respirar, chiado no peito e tosse.
  • Importância: A asma é uma condição crônica que pode persistir na idade adulta.

Rinite Alérgica

  • Idade de Início: Pode começar na infância ou adolescência.
  • Sintomas: Espirros, coriza, coceira no nariz e olhos lacrimejantes.
  • Importância: A rinite alérgica é comum em indivíduos com histórico de outras condições atópicas.

Fatores de Risco para a Marcha Atópica

Vários fatores podem contribuir para o desenvolvimento da marcha atópica, incluindo:

Genética

Histórico familiar de doenças alérgicas.

Exposição a Alérgenos

Contato precoce com ácaros, pólen ou alimentos alergênicos.

Poluição e Tabagismo

Ambientes poluídos e exposição ao fumo podem agravar as condições alérgicas.

Alterações na Microbiota Intestinal

Desequilíbrios na flora intestinal podem influenciar o sistema imunológico.

Prevenção e Controle da Marcha Atópica

Embora a marcha atópica tenha um componente genético, algumas estratégias podem ajudar a prevenir ou controlar suas manifestações:

Amamentação

A amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida pode reduzir o risco de dermatite atópica e alergias alimentares.

Introdução de Alimentos Sólidos

A introdução de alimentos potencialmente alergênicos, como amendoim e ovos, deve ser feita de forma gradual e sob orientação médica.

Controle Ambiental

Reduzir a exposição a alérgenos comuns, como ácaros e pólen, pode ajudar a prevenir crises alérgicas.

Tratamento Precoce

O manejo adequado da dermatite atópica e das alergias alimentares pode reduzir o risco de progressão para asma e rinite alérgica.

Imunoterapia

Em alguns casos, a imunoterapia com alérgenos pode ser usada para dessensibilizar o sistema imunológico.

Cuidados de Enfermagem no Manejo da Marcha Atópica

A equipe de enfermagem desempenha um papel crucial no suporte a pacientes com marcha atópica. Aqui estão os principais cuidados:

Educação do Paciente e Familiares

Explique sobre a marcha atópica e a importância do controle ambiental e do tratamento precoce.

Acompanhamento Nutricional

Oriente sobre a introdução de alimentos e o manejo de alergias alimentares.

Monitoramento de Sintomas

Observe e registre os sintomas do paciente para ajustar o tratamento conforme necessário.

Apoio Emocional

Ofereça suporte emocional, especialmente para crianças e famílias que lidam com múltiplas condições alérgicas.

A marcha atópica é uma sequência de condições alérgicas que pode impactar significativamente a qualidade de vida. Compreender suas fases e fatores de risco é essencial para prevenir e controlar essas doenças.

Para a equipe de enfermagem, a educação e o suporte ao paciente são fundamentais para garantir um manejo eficaz.

Referência:

  1. Hill DA, Spergel JM. The atopic march: Critical evidence and clinical relevance. Ann Allergy Asthma Immunol. 2018 Feb;120(2):131-137. doi: 10.1016/j.anai.2017.10.037. Erratum in: Ann Allergy Asthma Immunol. 2018 Apr;120(4):451. doi: 10.1016/j.anai.2018.02.033. PMID: 29413336; PMCID: PMC5806141.

A obesidade e o índice de massa corporal (IMC)

Como profissionais, deparamo-nos constantemente com a obesidade, uma condição de saúde complexa e multifatorial que impacta milhões de pessoas em todo o mundo.

Para compreendermos sua extensão e gravidade, uma ferramenta simples e amplamente utilizada é o Índice de Massa Corporal (IMC).

Embora não seja uma medida perfeita, o IMC nos oferece uma visão geral do peso de um indivíduo em relação à sua altura, permitindo classificar diferentes graus de obesidade e, consequentemente, direcionar nossos cuidados de forma mais eficaz. Vamos explorar juntos essa classificação e suas implicações para a nossa prática.

O Que é o IMC e Como Ele nos Ajuda a Entender o Peso Corporal?

O Índice de Massa Corporal (IMC) é calculado dividindo o peso de uma pessoa em quilogramas (kg) pelo quadrado de sua altura em metros (m²). A fórmula é simples:

IMC = Peso (kg) / Altura (m)²

O resultado desse cálculo nos fornece um número que pode ser interpretado de acordo com categorias predefinidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Essas categorias nos ajudam a classificar se o peso de um adulto está dentro da faixa considerada normal, acima do peso ou em diferentes graus de obesidade.

É importante ressaltar que o IMC é uma ferramenta de rastreamento e avaliação populacional, e sua interpretação individual deve ser feita com cautela, considerando outros fatores como composição corporal (massa muscular, massa gorda), idade e etnia.

A Escala do IMC: Do Peso Normal à Obesidade Mórbida (em Graus)

A classificação do IMC estabelecida pela OMS é a seguinte:

Peso Normal: Um Equilíbrio Saudável

Um IMC entre 18,5 e 24,9 kg/m² é geralmente considerado dentro da faixa de peso normal para adultos. Nessa faixa, o peso corporal é proporcional à altura, associando-se a um menor risco de desenvolvimento de diversas doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer.

Implicações para o Cuidado de Enfermagem: Nos pacientes com IMC dentro da faixa normal, nosso foco é a promoção e a manutenção de hábitos de vida saudáveis, incluindo uma alimentação equilibrada, a prática regular de atividade física, o sono adequado e a prevenção de fatores de risco para outras condições de saúde.

Sobrepeso: O Sinal de Alerta

Um IMC entre 25,0 e 29,9 kg/m² indica sobrepeso. Nessa faixa, o peso corporal está acima do considerado saudável para a altura, aumentando o risco de desenvolvimento de DCNT. Muitas vezes, o sobrepeso é o primeiro estágio antes da obesidade e representa um momento crucial para intervenções que visem a mudança de estilo de vida.

Implicações para o Cuidado de Enfermagem: Nesses pacientes, a nossa atuação envolve a identificação dos fatores de risco individuais, a educação sobre os benefícios da perda de peso (mesmo que modesta), o aconselhamento sobre alimentação saudável e atividade física, e o apoio na implementação de mudanças comportamentais. O monitoramento regular do peso e de outros indicadores de saúde é fundamental.

Obesidade Grau I: O Primeiro Nível da Complexidade

Um IMC entre 30,0 e 34,9 kg/m² caracteriza a obesidade grau I. Nesse estágio, o excesso de peso já representa um risco significativo para a saúde, aumentando a probabilidade de desenvolvimento de diversas comorbidades.

Implicações para o Cuidado de Enfermagem: O cuidado nesses pacientes requer uma abordagem mais intensiva, incluindo a avaliação das comorbidades existentes, o desenvolvimento de um plano de cuidados individualizado com metas realistas de perda de peso, o suporte na adesão a dietas específicas e programas de exercícios, e o acompanhamento regular para monitorar o progresso e identificar possíveis dificuldades. A educação sobre o manejo das comorbidades e a prevenção de complicações é essencial.

Obesidade Grau II: Um Risco Elevado à Saúde

Um IMC entre 35,0 e 39,9 kg/m² define a obesidade grau II. Nesse estágio, o risco de desenvolver ou agravar problemas de saúde é ainda maior, impactando significativamente a qualidade de vida do paciente.

Implicações para o Cuidado de Enfermagem: O cuidado nesses pacientes muitas vezes envolve uma abordagem multidisciplinar, com a participação de nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas e, em alguns casos, endocrinologistas e cirurgiões bariátricos. Nosso papel inclui a coordenação do cuidado, o suporte emocional, a educação detalhada sobre as opções de tratamento (incluindo as cirúrgicas), o preparo pré e pós-operatório (em casos de cirurgia bariátrica) e o acompanhamento a longo prazo para garantir a manutenção da perda de peso e a adesão a um estilo de vida saudável.

Obesidade Grau III ou Obesidade Mórbida: O Limite da Severidade

Um IMC igual ou superior a 40,0 kg/m² caracteriza a obesidade grau III, também conhecida como obesidade mórbida ou obesidade severa. Nesse estágio, o excesso de peso representa um risco muito elevado para a saúde, com alta probabilidade de desenvolvimento de múltiplas comorbidades graves e impacto significativo na funcionalidade e na expectativa de vida.

Implicações para o Cuidado de Enfermagem: O cuidado desses pacientes é complexo e demanda uma abordagem integral e individualizada. Frequentemente, envolve o acompanhamento em unidades de terapia intensiva ou semi-intensiva no período pós-operatório de cirurgias bariátricas, o manejo de múltiplas comorbidades, o suporte para a mobilidade e a higiene, a prevenção de complicações como úlceras de pressão e trombose venosa profunda, o suporte emocional intensivo e a coordenação com uma equipe multidisciplinar experiente. A educação do paciente e da família sobre as mudanças radicais no estilo de vida e o acompanhamento a longo prazo são cruciais para o sucesso do tratamento.

O Cuidado de Enfermagem em Todas as Faixas do IMC: Uma Abordagem Holística

Independentemente da classificação do IMC, o cuidado de enfermagem na obesidade deve ser holístico e centrado no paciente. Nossa atuação vai além da simples medição do peso e do cálculo do IMC. Envolve:

  • Avaliação abrangente: Investigar os hábitos alimentares, o nível de atividade física, o histórico de tentativas de perda de peso, os fatores psicossociais, as comorbidades existentes e o impacto da obesidade na qualidade de vida do paciente.
  • Estabelecimento de vínculo terapêutico: Construir uma relação de confiança e empatia com o paciente, oferecendo apoio e motivação para as mudanças de estilo de vida.
  • Educação em saúde: Fornecer informações claras e acessíveis sobre os riscos da obesidade, os benefícios da perda de peso, as opções de tratamento disponíveis e as estratégias para uma alimentação saudável e a prática de atividade física.
  • Apoio na mudança de comportamento: Auxiliar o paciente a identificar metas realistas e a desenvolver um plano de ação para alcançar essas metas, oferecendo suporte para superar os obstáculos e manter a motivação.
  • Coordenação do cuidado: Trabalhar em colaboração com outros profissionais de saúde (médicos, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas) para garantir uma abordagem multidisciplinar e integrada.
  • Monitoramento e avaliação: Acompanhar regularmente o progresso do paciente, monitorar o peso, o IMC e outros indicadores de saúde, e ajustar o plano de cuidados conforme a necessidade.
  • Prevenção de complicações: Implementar medidas para prevenir as complicações associadas à obesidade e aos tratamentos utilizados.
  • Defesa dos direitos do paciente: Atuar como defensor do paciente, garantindo o acesso a informações e a tratamentos adequados e combatendo o estigma e o preconceito relacionados à obesidade.

A obesidade é um desafio de saúde pública complexo, e o enfermeiro desempenha um papel fundamental na prevenção, no tratamento e no cuidado das pessoas afetadas. Compreender a classificação do IMC é um ponto de partida importante para direcionarmos nossos cuidados de forma individualizada e eficaz, sempre lembrando que o foco deve estar no bem-estar integral do paciente.

Referências:

  1. World Health Organization. (2000). Obesity: preventing and managing the global epidemic: report of a WHO consultation. 1 World Health Organization. https://www.who.int/nutrition/publications/obesity/WHO_TRS_894/en/  
  2. National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. (2017). What Are the Health Risks of Overweight and Obesity? https://www.niddk.nih.gov/health-information/weight-management/health-risks-overweight-obesity
  3. Bray, G. A., Kim, K. K., & Wilding, J. P. H. (2016). The global burden of obesity. In Feingold, K. R., Anawalt, B., Boyce, A., Chrousos, G., Corpas, E., Goldfine, A. B., … & Hershman, J. M. (Eds.), Endotext [Internet]. MDText.com, Inc. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK279039/