Tempo Porta Agulha no AVC Isquêmico

porta agulha avc

No atendimento ao AVC isquêmico agudo, existe um tempo que a equipe precisa conhecer quase tão bem quanto a escala de Glasgow ou a NIHSS: o tempo porta-agulha. Ele corresponde ao intervalo entre a chegada do paciente ao serviço de referência e o início da infusão do trombolítico intravenoso, quando o paciente é elegível para trombólise. A meta tradicional é iniciar o tratamento em até 60 minutos, porque o benefício da terapia é tempo-dependente.

Isso significa que não se deve esperar terminar toda a burocracia para depois começar a organizar o atendimento. Desde a chegada, a equipe precisa trabalhar em paralelo: identificar sinais de AVC, estabelecer o horário do início dos sintomas ou último momento em que o paciente foi visto bem, avaliar a condição neurológica, verificar glicemia, providenciar acesso venoso, encaminhar rapidamente para neuroimagem e preparar as etapas necessárias para a trombólise. O PCDT brasileiro do AVC isquêmico agudo está atualmente disponível pelo Ministério da Saúde e orienta a organização desse atendimento.

De onde começa a contagem?

O relógio do porta-agulha começa na chegada do paciente ao serviço, não quando ele entra na tomografia, quando o neurologista chega ou quando o medicamento é preparado. Por isso, registrar corretamente o horário de admissão é uma informação operacional importante.

Um exemplo prático: o paciente chega com dificuldade súbita para falar e perda de força em um lado do corpo. Enquanto a equipe realiza a avaliação inicial, outro profissional já pode providenciar o acesso venoso, verificar a glicemia e organizar o transporte para a tomografia, evitando que cada etapa fique esperando a anterior terminar. É justamente essa atuação simultânea que ajuda a reduzir atrasos evitáveis.

O Ministério da Saúde estabelece como parâmetros assistenciais tempo porta-tomografia inferior a 25 minutos e tempo porta-agulha inferior a 60 minutos nos serviços habilitados para atendimento ao AVC.

O que acontece antes da trombólise?

A rapidez não significa pular etapas de segurança. O paciente precisa ser avaliado quanto à possibilidade de AVC isquêmico, realizar neuroimagem para excluir hemorragia intracraniana e passar pela avaliação dos critérios de elegibilidade para trombólise.

A equipe também precisa considerar horário de início dos sintomas ou último momento conhecido sem déficit, pressão arterial, glicemia, uso de anticoagulantes e outros fatores clínicos relevantes. A decisão pela trombólise é médica e deve seguir o protocolo vigente do serviço.

Na prática, é comum perceber como pequenos atrasos se acumulam. Se o acesso venoso demora, a coleta atrasa; se o transporte para a tomografia demora, a avaliação também atrasa. O paciente não precisa de uma sequência lenta de tarefas, mas de uma equipe coordenada, com funções bem definidas.

Onde a enfermagem faz diferença

A enfermagem participa de praticamente todas as etapas críticas do fluxo. Na triagem, reconhecer rapidamente sinais compatíveis com AVC e comunicar a equipe é fundamental. Durante a avaliação, o enfermeiro pode organizar monitorização, glicemia capilar, acesso venoso, coleta de exames quando indicada, transporte seguro e preparo do paciente para a sequência do protocolo.

Também existe uma função que parece simples, mas evita erros: controlar e registrar os horários. Horário de chegada, avaliação, início da tomografia, resultado da imagem e início da infusão precisam estar claramente documentados conforme o protocolo institucional.

Imagine agora uma situação típica de emergência: o paciente já está na sala de tomografia, a equipe aguarda a definição da imagem e o acesso venoso ainda não foi providenciado. Esse tipo de atraso mostra por que o fluxo precisa ser pensado antes mesmo de o paciente chegar. A enfermagem pode antecipar materiais, monitorização e acesso quando isso for seguro e permitido pelo protocolo, reduzindo minutos que, no AVC, têm relevância clínica.

A American Heart Association utiliza o door-to-needle ≤60 minutos como importante indicador de qualidade para pacientes elegíveis à trombólise intravenosa e acompanha também metas ainda mais rápidas em programas de melhoria da assistência ao AVC.

Tempo porta-agulha não é apenas um número

O indicador serve para avaliar o funcionamento de todo o processo, e não para responsabilizar isoladamente um profissional. Quando o tempo está elevado, vale investigar onde o fluxo está parando: triagem, acionamento da equipe, transporte, tomografia, interpretação da imagem, decisão terapêutica, preparo ou administração do trombolítico.

A lógica é simples: cada etapa precisa acontecer com segurança e sem espera desnecessária. Reduzir o porta-agulha significa melhorar o processo inteiro.

Cuidados de enfermagem

Na assistência ao paciente com suspeita de AVC, a enfermagem deve priorizar reconhecimento rápido, registro preciso dos horários, avaliação neurológica conforme protocolo, glicemia capilar, monitorização dos sinais vitais, acesso venoso quando indicado, transporte rápido e seguro para neuroimagem e preparo para a terapia conforme prescrição e protocolo institucional.

Após o início do trombolítico, a vigilância continua. É necessário observar nível de consciência, sinais neurológicos, pressão arterial, sinais de sangramento e qualquer deterioração clínica, comunicando imediatamente alterações à equipe responsável. A administração e o monitoramento devem seguir rigorosamente o protocolo institucional e a terapia prescrita.

Resumo para salvar

Tempo Porta-Agulha no AVC

  • Porta-agulha é o tempo entre a chegada e o início do trombolítico
  • A meta tradicional é iniciar a trombólise em até 60 minutos nos pacientes elegíveis
  • Enfermagem atua no reconhecimento monitorização acesso transporte e organização do fluxo
  • Registrar horários e eliminar atrasos evitáveis melhora o atendimento ao AVC

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. PCDT – Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 29, de 12 de dezembro de 2023. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo. Portaria Conjunta nº 29/2023
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Rotinas para Atenção ao AVC. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Manual de Rotinas para Atenção ao AVC
  4. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Get With The Guidelines – Stroke Recognition Criteria. Dallas: American Heart Association. Stroke Recognition Criteria
  5. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Target: Stroke – When Seconds Count. Dallas: American Heart Association. Target: Stroke

Protocolo de Transfusão Maciça (PTM): quando cada minuto importa e por que não basta “dar sangue”

Protocolo Transfusão Maciça

Vá direto ao ponto!

Em uma hemorragia grave, existe um momento em que a pergunta deixa de ser “qual hemocomponente o paciente precisa?” e passa a ser outra, muito mais urgente:

“Como fazer essa reposição de forma rápida, organizada e segura antes que o paciente entre em uma espiral de choque, coagulopatia, hipotermia e acidose?”

É justamente nesse cenário que entra o Protocolo de Transfusão Maciça (PTM).

O PTM não é simplesmente uma autorização para transfundir grandes quantidades de sangue. É uma estratégia organizada de atendimento ao paciente com hemorragia potencialmente fatal, envolvendo identificação precoce do sangramento, controle da fonte hemorrágica, reposição de hemocomponentes, monitorização laboratorial e clínica e prevenção das complicações relacionadas à própria hemorragia e à transfusão.

Em outras palavras, não se trata apenas de repor volume. Trata-se de tentar interromper uma cadeia fisiológica que pode levar rapidamente à morte.

Este ponto é especialmente importante para quem está estudando enfermagem. Em uma situação de hemorragia maciça, a equipe precisa trabalhar de maneira sincronizada. Enquanto alguém identifica a necessidade de ativação do protocolo, outra pessoa pode estar providenciando acesso venoso adequado, outra coletando exames, outra conferindo os hemocomponentes e outra monitorizando o paciente.

É uma situação em que organização também é cuidado.

O que é o Protocolo de Transfusão Maciça?

O Protocolo de Transfusão Maciça (PTM) é um conjunto de medidas previamente organizado pela instituição para atender pacientes com hemorragia grave e risco de morte, nos quais existe necessidade de reposição rápida e coordenada de sangue e seus componentes. O protocolo procura evitar que a transfusão aconteça de maneira fragmentada, especialmente quando a perda sanguínea é muito rápida.

Em vez de esperar a deterioração progressiva do paciente para solicitar cada hemocomponente separadamente, o serviço estabelece previamente uma estratégia de comunicação, liberação, transporte e administração dos componentes sanguíneos.

Protocolos desse tipo costumam envolver concentrado de hemácias, plasma e plaquetas, podendo incluir crioprecipitado ou concentrado de fibrinogênio, conforme a situação clínica, os exames disponíveis e o protocolo institucional.

As recomendações atuais para hemorragia grave ressaltam que a reposição deve ser acompanhada de avaliação da coagulação e adaptada à resposta do paciente, em vez de manter indefinidamente uma estratégia empírica fixa.

Por que a transfusão maciça é tão diferente de uma transfusão convencional?

Imagine um paciente que apresenta uma hemorragia intensa após um trauma. O problema não é apenas que ele perdeu hemácias.

Ele também está perdendo:

  • plasma;
  • plaquetas;
  • fatores de coagulação;
  • fibrinogênio;
  • volume circulante.

Ao mesmo tempo, o organismo está tentando compensar a perda sanguínea aumentando a frequência cardíaca e redistribuindo o fluxo sanguíneo para órgãos vitais. Se a hemorragia continua, a situação pode evoluir para choque hemorrágico.

Quando a reposição é feita apenas com grandes volumes de cristaloides ou concentrado de hemácias, sem considerar a coagulação, a temperatura e outros fatores fisiológicos, pode ocorrer agravamento da coagulopatia.

Por isso, o conceito moderno de ressuscitação da hemorragia grave não é simplesmente “colocar volume”. É controlar o sangramento e restaurar a capacidade do organismo de transportar oxigênio e formar coágulos adequadamente.

O que é considerado transfusão maciça?

Historicamente, a transfusão maciça foi definida como a administração de aproximadamente 10 unidades de concentrado de hemácias em 24 horas em um adulto. Essa definição, entretanto, possui uma limitação importante: esperar que o paciente receba dez unidades para reconhecer uma hemorragia grave significa esperar demais.

Atualmente, a avaliação é muito mais dinâmica , o profissional precisa reconhecer a possibilidade de hemorragia maciça antes que a perda sanguínea atinja números extremos. Também são utilizados conceitos como necessidade de grandes volumes de sangue em poucas horas e indicadores clínicos de sangramento persistente.

Por isso, os protocolos institucionais podem utilizar critérios próprios de ativação. Um protocolo hospitalar brasileiro atualizado, por exemplo, orienta o reconhecimento precoce do sangramento agudo grave e diferencia situações de ativação do Protocolo de Transfusão Maciça e do protocolo de emergência, de acordo com critérios clínicos e institucionais.

Em quais situações o PTM pode ser necessário?

O PTM é particularmente importante em situações nas quais existe hemorragia intensa, rápida e potencialmente fatal. Entre os cenários possíveis estão:

Trauma grave

Acidentes automobilísticos, atropelamentos, ferimentos penetrantes, traumas pélvicos e grandes lesões vasculares podem provocar perdas sanguíneas importantes. O trauma é um dos cenários mais associados à utilização de protocolos de transfusão maciça.

A hemorragia não controlada continua sendo uma das principais causas potencialmente evitáveis de morte precoce no paciente gravemente traumatizado.

Hemorragia obstétrica

Hemorragias obstétricas graves também podem exigir ativação rápida de protocolos de transfusão, especialmente em situações como hemorragia pós-parto, descolamento prematuro de placenta, placenta acreta/espectro de acretismo e outras condições associadas a perda sanguínea importante.

Sangramento gastrointestinal

Hemorragias digestivas graves podem provocar instabilidade hemodinâmica e necessidade de reposição rápida.

Cirurgias de grande porte

Alguns procedimentos cirúrgicos apresentam risco elevado de sangramento e podem exigir um protocolo previamente estruturado.

Hemorragias vasculares

Rupturas de aneurismas e outras lesões vasculares podem provocar hemorragia extremamente rápida.

Como reconhecer um paciente que pode precisar do PTM?

Um dos maiores desafios é perceber a gravidade antes que a pressão arterial caia dramaticamente. Isso é importante porque a hipotensão pode ser um sinal tardio, um paciente com hemorragia significativa pode inicialmente apresentar:

  • taquicardia;
  • palidez;
  • sudorese fria;
  • extremidades frias;
  • alteração do estado mental;
  • agitação ou ansiedade;
  • enchimento capilar aumentado;
  • taquipneia;
  • queda da pressão arterial;
  • redução da diurese;
  • sinais de hipoperfusão.

O contexto também é fundamental, um paciente com sangramento externo evidente e instabilidade é muito diferente de um paciente com pressão aparentemente normal, mas com sangramento interno progressivo. Por isso, a avaliação deve ser contínua.

Uma situação que muda completamente o plantão

Na prática de terapia intensiva, uma das situações mais marcantes é receber um paciente que chega aparentemente “conversando”, mas apresenta sinais que não combinam com estabilidade real. Ele está pálido, frio, taquicárdico, inquieto e começa a apresentar piora progressiva.

É muito fácil olhar somente para a pressão arterial e pensar: “ainda está 100 por 60”, mas o conjunto da avaliação conta outra história. Quando existe suspeita de hemorragia importante, esperar a hipotensão profunda pode significar perder um tempo precioso.

É por isso que, na rotina, a observação contínua e a comunicação rápida entre enfermagem, equipe médica, banco de sangue e demais profissionais fazem tanta diferença.

O que acontece quando o PTM é ativado?

A sequência exata depende do protocolo de cada instituição, mas geralmente envolve uma série de ações coordenadas, a ativação comunica ao serviço de hemoterapia que existe um paciente com necessidade potencial de reposição rápida de sangue. Ao mesmo tempo, a equipe assistencial inicia ou intensifica:

  • controle da hemorragia;
  • monitorização contínua;
  • acesso vascular adequado;
  • coleta de exames;
  • ressuscitação hemostática;
  • administração dos hemocomponentes;
  • avaliação da resposta clínica;
  • correção das alterações de coagulação e metabólicas.

O objetivo é evitar que a equipe fique esperando um componente terminar para só então solicitar o próximo, o protocolo cria uma logística organizada.

Quais hemocomponentes podem fazer parte do PTM?

A composição depende do protocolo institucional e das características do paciente. Os principais componentes são:

Concentrado de hemácias

Tem como principal objetivo aumentar a capacidade de transporte de oxigênio do sangue. Em uma hemorragia grave, sua administração é essencial para substituir a massa eritrocitária perdida.

Plasma fresco congelado

Fornece múltiplos fatores de coagulação e pode ser utilizado quando existe deficiência de fatores associada à hemorragia.

Concentrado de plaquetas

É utilizado para reposição de plaquetas quando há trombocitopenia ou necessidade de suporte hemostático, de acordo com a situação clínica e os protocolos.

Crioprecipitado ou concentrado de fibrinogênio

Possuem importância particularmente relevante quando existe hipofibrinogenemia, pois o fibrinogênio é fundamental para a formação e estabilidade do coágulo. Nas hemorragias graves, níveis baixos de fibrinogênio podem aparecer precocemente e estão associados a pior prognóstico.

Existe uma proporção fixa entre hemácias, plasma e plaquetas?

Esse é um ponto que gera muita dúvida, protocolos de transfusão maciça tradicionalmente utilizaram estratégias com proporções balanceadas, como 1:1:1, relacionando concentrado de hemácias, plasma e plaquetas.

O estudo PROPPR, realizado em pacientes com trauma grave, comparou estratégias 1:1:1 e 1:1:2. A mortalidade global não foi significativamente diferente, mas a estratégia 1:1:1 apresentou melhor controle da hemostasia e menor mortalidade relacionada à exsanguinação.

Entretanto, isso não significa que todo paciente, em qualquer hospital e em qualquer situação, deva receber automaticamente uma proporção fixa. As recomendações atuais destacam a importância de adaptar a reposição aos resultados laboratoriais e/ou métodos de monitorização viscoelástica, como TEG e ROTEM, quando disponíveis.

Portanto: proporções iniciais podem fazer parte do protocolo institucional, mas a reposição precisa evoluir para uma estratégia orientada pela resposta do paciente.

O papel do fibrinogênio

O fibrinogênio merece atenção especial:  Durante uma hemorragia grave, ele pode cair rapidamente. Além da perda sanguínea, existe consumo, diluição e alterações da coagulação. Um nível baixo de fibrinogênio compromete a formação do coágulo.

A diretriz europeia de manejo da hemorragia traumática considera concentração de fibrinogênio abaixo de aproximadamente 1,5 g/L um sinal de hipofibrinogenemia que pode exigir tratamento, de acordo com a avaliação clínica e laboratorial.

Por isso, em um PTM, não basta pensar apenas: “Quantas bolsas de sangue já foram administradas?”

Também é necessário perguntar:

  • Como está o fibrinogênio?
  • Como está a coagulação?
  • O paciente continua sangrando?
  • O coágulo está sendo formado adequadamente?

A importância do cálcio durante a transfusão maciça

Esse é um detalhe que muitas vezes passa despercebido pelos estudantes: o sangue armazenado contém citrato, utilizado como anticoagulante. O citrato se liga ao cálcio. Durante uma transfusão maciça, especialmente quando grandes volumes são administrados rapidamente, pode ocorrer hipocalcemia relacionada ao citrato.

O cálcio participa de diversas etapas da coagulação e também é fundamental para a função cardiovascular, e a hipocalcemia pode contribuir para:

  • redução da contratilidade cardíaca;
  • hipotensão;
  • alterações da coagulação;
  • instabilidade elétrica cardíaca.

Por isso, a concentração de cálcio ionizado deve ser monitorada e, quando indicada, a reposição deve ser realizada conforme protocolo e prescrição. Para a enfermagem, isso significa que o profissional precisa ficar atento aos exames e ao plano terapêutico, principalmente quando o paciente está recebendo grandes quantidades de hemocomponentes.

A tríade letal: hipotermia, acidose e coagulopatia

Em hemorragias graves, existe uma combinação fisiológica especialmente perigosa: hipotermia + acidose + coagulopatia.

Esses três problemas podem se reforçar mutuamente. O paciente perde sangue, entra em choque, apresenta má perfusão tecidual e desenvolve acidose. Ao mesmo tempo, recebe grandes volumes de fluidos e hemocomponentes frios, podendo desenvolver hipotermia.

A hipotermia prejudica a coagulação, e a coagulopatia favorece mais sangramento, e mais sangramento leva a mais choque. E o ciclo continua.

É por isso que a ressuscitação moderna da hemorragia grave procura interromper esse processo o mais cedo possível. A diretriz europeia descreve justamente essa interação entre hemorragia, coagulopatia, hipotermia e acidose no contexto do trauma grave.

Por que aquecer o paciente é tão importante?

Quando pensamos em emergência hemorrágica, é comum imaginar que o problema principal é apenas a perda de sangue. Mas manter a temperatura corporal também faz parte do cuidado.

O paciente deve ser protegido contra perda excessiva de calor, e os hemocomponentes podem ser administrados com sistemas apropriados de aquecimento quando indicados pelo protocolo institucional, e a enfermagem tem um papel importante na prevenção da hipotermia, observando:

  • temperatura corporal;
  • condições ambientais;
  • exposição desnecessária do paciente;
  • utilização adequada de cobertores e dispositivos de aquecimento;
  • temperatura dos fluidos e hemocomponentes quando houver equipamento específico.

E o ácido tranexâmico?

Em determinados cenários de hemorragia traumática, o ácido tranexâmico (TXA) pode fazer parte do tratamento. Ele atua inibindo a fibrinólise e pode contribuir para preservar o coágulo, entretanto, o benefício depende do contexto, do tempo e da indicação clínica.

Na hemorragia traumática, recomendações internacionais destacam que o ácido tranexâmico deve ser administrado precocemente quando indicado, sem esperar resultados de testes viscoelásticos, e a enfermagem deve conhecer a indicação institucional, a prescrição, a via de administração, a dose definida pelo protocolo e o horário de administração.

Em uma emergência, registrar corretamente o horário em que o medicamento foi administrado pode ser tão importante quanto registrar a própria administração.

O controle da hemorragia é tão importante quanto a transfusão

Essa é uma das mensagens mais importantes deste assunto:

transfusão não substitui controle da fonte do sangramento.

Se o paciente está perdendo sangue continuamente, simplesmente administrar mais sangue não resolve o problema, e pode ser necessário:

  • compressão;
  • cirurgia;
  • endoscopia;
  • embolização;
  • controle vascular;
  • tamponamento;
  • intervenção obstétrica;

ou outra estratégia específica para interromper a hemorragia. As diretrizes de trauma enfatizam que o controle rápido da fonte de sangramento é fundamental e pode envolver cirurgia de controle de danos, embolização e outras medidas.

Cuidados de enfermagem durante o PTM

A enfermagem ocupa uma posição central no protocolo. Não é exagero dizer que uma transfusão maciça depende de uma equipe de enfermagem muito organizada.

Antes da administração

Sempre que a condição clínica permitir, devem ser realizadas as conferências e verificações previstas no protocolo institucional. É fundamental confirmar a identificação do paciente, conferir os hemocomponentes, observar validade, integridade da bolsa, compatibilidade e demais informações exigidas pelo serviço de hemoterapia.

Em emergência extrema, existem fluxos específicos para liberação de hemocomponentes de emergência. A equipe deve conhecer previamente esse fluxo.

Durante a transfusão

O paciente deve permanecer sob monitorização adequada. A enfermagem precisa observar sinais de:

  • reação transfusional;
  • alterações hemodinâmicas;
  • dispneia;
  • dor;
  • calafrios;
  • febre;
  • alterações cutâneas;
  • ansiedade ou alteração do estado mental.

Qualquer suspeita de reação transfusional deve ser comunicada imediatamente e conduzida conforme o protocolo institucional. Não se deve simplesmente “esperar para ver se passa”.

Um cuidado que parece simples, mas faz muita diferença

Em uma situação de transfusão maciça, existe uma enorme quantidade de informações acontecendo ao mesmo tempo:

  • Bolsas chegando.
  • Exames sendo coletados.
  • Medicamentos sendo administrados.
  • Cirurgia sendo preparada.
  • Pressão arterial mudando.
  • Novas bolsas sendo solicitadas.

Por isso, uma prática muito importante é manter registro cronológico e organizado. Registrar horário de início e término da transfusão, identificação dos hemocomponentes, sinais vitais, intercorrências, medicamentos administrados, exames coletados e respostas observadas permite reconstruir exatamente o que aconteceu.

Na prática de UTI, esse tipo de registro faz diferença. Em um plantão com uma emergência hemorrágica, depois que a situação estabiliza, é justamente a anotação que permite saber o que foi feito, em que horário e qual foi a resposta do paciente.

Coleta de exames: não deixe para depois

Durante o PTM, exames laboratoriais são fundamentais para direcionar a terapia. Dependendo do protocolo e da situação clínica, podem ser acompanhados:

  • hemoglobina e hematócrito;
  • contagem de plaquetas;
  • TP/INR;
  • TTPa;
  • fibrinogênio;
  • gasometria;
  • lactato;
  • cálcio ionizado;
  • potássio;
  • temperatura;
  • outros parâmetros definidos pelo serviço.

Quando disponível, a monitorização viscoelástica, como TEG ou ROTEM, pode fornecer informações rápidas sobre a formação e a estabilidade do coágulo e auxiliar na terapia direcionada.

Não espere apenas a hemoglobina cair para agir

Outro ponto importante para estudantes: Em uma hemorragia aguda, a hemoglobina inicial pode não refletir imediatamente toda a extensão da perda sanguínea. O paciente pode estar perdendo sangue rapidamente antes que a concentração de hemoglobina demonstre a dimensão real da hemorragia.

Por isso, a avaliação deve integrar:

  • história clínica;
  • estimativa de perda sanguínea;
  • sinais vitais;
  • perfusão periférica;
  • estado mental;
  • diurese;
  • lactato;
  • hemoglobina;
  • coagulação;
  • resposta à ressuscitação.

Não existe um único número capaz de descrever sozinho a gravidade de uma hemorragia maciça.

O papel da diurese

A diurese é um importante indicador de perfusão renal, pois em um paciente com hemorragia grave, uma redução importante da produção urinária pode indicar comprometimento da perfusão. Por isso, quando o paciente está com monitorização rigorosa e indicação de controle de diurese, a enfermagem deve acompanhar e registrar adequadamente o débito urinário.

Não se trata apenas de preencher uma folha de balanço hídrico, é uma informação clínica que ajuda a equipe a entender como o organismo está respondendo à ressuscitação.

Acesso venoso e administração rápida

A administração rápida de hemocomponentes exige acesso vascular adequado. Em situações críticas, podem ser utilizados acessos venosos periféricos de grande calibre, acesso intraósseo em situações específicas ou acesso venoso central, conforme indicação clínica e recursos disponíveis.

O importante é que a via escolhida permita uma administração segura e compatível com a necessidade de fluxo, e a enfermagem também deve verificar a permeabilidade do acesso e observar sinais de infiltração, extravasamento ou outras complicações. Em uma emergência hemorrágica, perder um acesso que estava sendo utilizado para reposição rápida pode comprometer seriamente a dinâmica da ressuscitação.

O aquecedor de sangue também faz parte da estratégia

Quando grandes quantidades de sangue são administradas rapidamente, existe risco de contribuir para hipotermia. Por isso, sistemas específicos de aquecimento de fluidos e hemocomponentes podem ser utilizados conforme disponibilidade e protocolo. É importante lembrar: não se deve improvisar métodos de aquecimento.

O serviço deve utilizar equipamentos apropriados e seguir as orientações institucionais e do fabricante.

O que acontece quando o PTM não é organizado?

Uma das maiores dificuldades não está necessariamente na falta de sangue, e sim pode estar na falta de comunicação. Imagine:

  • o médico solicita o protocolo, mas o banco de sangue não é acionado adequadamente;
  • a primeira remessa chega, mas não há equipe preparada para administrar;
  • os exames não são coletados;
  • o próximo ciclo não é solicitado;
  • ninguém sabe exatamente quantas unidades foram administradas;
  • o paciente permanece hipotérmico;
  • o cálcio não é acompanhado;
  • e a equipe continua trabalhando de maneira improvisada.

Esse tipo de situação mostra por que o PTM precisa ser protocolizado, treinado e simulado. As recomendações internacionais destacam a importância da implementação local de protocolos baseados em evidências e do treinamento das equipes envolvidas.

Uma experiência prática que resume o que é um bom protocolo

Em situações de emergência, é possível perceber rapidamente a diferença entre uma equipe que conhece o protocolo e uma equipe que precisa descobrir tudo naquele momento. Quando o processo está bem organizado, cada profissional sabe qual é sua função:

  • Um comunica o banco de sangue.
  • Outro monitora o paciente.
  • Outro coleta exames.
  • Outro administra os hemocomponentes.
  • Outro acompanha a documentação.
  • A equipe médica concentra-se no controle da hemorragia e na condução clínica.

Essa divisão de tarefas não é burocracia. É segurança.

Em uma hemorragia maciça, segundos e minutos podem fazer diferença, e uma equipe treinada tende a reduzir atrasos desnecessários.

Quais complicações podem ocorrer durante uma transfusão maciça?

Quanto maior o volume transfundido e mais grave o quadro clínico, maior a necessidade de vigilância, entre as possíveis complicações estão:

  • hipotermia;
  • hipocalcemia;
  • hipercalemia;
  • distúrbios ácido-base;
  • coagulopatia;
  • sobrecarga circulatória;
  • reações transfusionais;
  • lesão pulmonar relacionada à transfusão;
  • reações hemolíticas;
  • alterações metabólicas.

Isso não significa que essas complicações ocorrerão em todos os pacientes. Significa que a equipe precisa estar preparada para reconhecê-las.

Reação transfusional: o que a enfermagem precisa observar?

Durante a administração de hemocomponentes, alterações como febre, calafrios, dor lombar, dispneia, hipotensão, urticária, náuseas, dor torácica, alterações na coloração da urina ou deterioração clínica devem ser valorizadas.

Diante de suspeita de reação transfusional, a conduta deve seguir rigorosamente o protocolo institucional e as orientações do serviço de hemoterapia. Uma reação transfusional nunca deve ser banalizada. O profissional deve comunicar imediatamente a intercorrência e realizar os procedimentos previstos pelo serviço.

A importância da rastreabilidade

Em uma transfusão convencional, a rastreabilidade já é fundamental. No PTM, ela se torna ainda mais importante, e é necessário conseguir identificar:

  • qual paciente recebeu;
  • qual hemocomponente foi administrado;
  • qual unidade foi utilizada;
  • em que horário;
  • quem realizou a conferência;
  • quem administrou;
  • quais sinais vitais foram observados;
  • quais intercorrências ocorreram.

Isso protege o paciente e também garante segurança para a equipe.

PTM não é sinônimo de “transfundir o máximo possível”

Esse conceito merece ser reforçado: A palavra “maciça” pode dar a impressão de que quanto mais sangue for administrado, melhor, não é assim. A transfusão deve ser proporcional à necessidade clínica, acompanhada de controle da hemorragia e monitorização da resposta.

À medida que o paciente melhora, a estratégia pode ser modificada. Quando os resultados laboratoriais ficam disponíveis, a reposição pode ser direcionada, e as diretrizes atuais recomendam uma abordagem orientada por resultados laboratoriais e/ou métodos viscoelásticos quando disponíveis, justamente para evitar uma estratégia empírica prolongada.

Quando o protocolo deve ser encerrado?

O encerramento depende dos critérios definidos pela instituição e da avaliação clínica. Em geral, o PTM pode ser desativado quando:

  • a hemorragia foi controlada;
  • a necessidade de transfusão maciça cessou;
  • a estabilidade hemodinâmica foi alcançada ou está em processo de recuperação;
  • os parâmetros de coagulação e perfusão estão sendo adequadamente corrigidos;
  • a equipe não necessita mais da logística emergencial do protocolo.

O encerramento também deve ser comunicado ao serviço de hemoterapia. Essa comunicação evita que unidades de sangue continuem sendo preparadas ou liberadas desnecessariamente.

! Atenção na Prova O que o estudante de enfermagem precisa memorizar?

Se você estiver estudando para uma prova ou começando sua prática profissional, pense no PTM como uma sequência lógica:

  1. Reconhecer a hemorragia grave.
  2. Acionar rapidamente o protocolo institucional.
  3. Controlar a fonte do sangramento.
  4. Garantir acesso vascular e monitorização.
  5. Administrar hemocomponentes conforme protocolo e prescrição.
  6. Monitorar coagulação, perfusão, temperatura, cálcio e outros parâmetros.
  7. Prevenir e tratar complicações.
  8. Reavaliar continuamente.
  9. Adaptar a reposição aos resultados e à resposta clínica.
  10. Registrar tudo de forma completa e cronológica.

O verdadeiro “segredo” do PTM

Se existe uma coisa que eu gostaria que todo estudante de enfermagem entendesse sobre transfusão maciça, é esta: o sangue não é o único tratamento.

O paciente precisa de uma abordagem integrada, e é  necessário controlar a hemorragia, manter perfusão, corrigir coagulopatia, evitar hipotermia, acompanhar cálcio e outros distúrbios metabólicos, administrar os hemocomponentes adequadamente e reavaliar continuamente.

A transfusão é uma parte da ressuscitação, não é a ressuscitação inteira. O Protocolo de Transfusão Maciça representa uma estratégia organizada para uma das situações mais críticas encontradas na emergência, no centro cirúrgico, na terapia intensiva e em outros ambientes hospitalares.

Para a enfermagem, conhecer o PTM vai muito além de decorar a sequência “hemácias, plasma e plaquetas”.

É necessário compreender quando suspeitar de uma hemorragia grave, como o protocolo é acionado, quais cuidados devem ser realizados antes e durante a transfusão, quais complicações precisam ser reconhecidas e por que o registro de enfermagem é tão importante.

Na prática, uma equipe preparada não espera a situação ficar caótica para começar a se organizar, ela conhece o protocolo antes da emergência acontecer. E esse talvez seja o maior ensinamento do PTM: em uma hemorragia maciça, organização, comunicação e tempo são partes do tratamento.

Importante: os critérios de ativação, composição dos pacotes transfusionais, doses, velocidade de infusão, uso de cálcio, fibrinogênio, ácido tranexâmico e demais condutas devem seguir o protocolo institucional, a prescrição e a avaliação da equipe responsável. Este conteúdo é educacional e não substitui o protocolo do serviço ou a avaliação clínica do paciente.

Resumo para salvar

Protocolo de Transfusão Maciça: quando cada minuto pode salvar uma vida

  • PTM é uma estratégia organizada para tratar hemorragias graves e potencialmente fatais
  • A transfusão deve ser associada ao controle rápido da fonte do sangramento e à ressuscitação hemostática
  • Enfermagem deve monitorar sinais vitais, hemocomponentes, coagulação, temperatura, cálcio e possíveis reações transfusionais
  • Protocolos institucionais, comunicação rápida, equipe treinada e registros completos são fundamentais para uma transfusão maciça segura

Referências:

  1. ROSSAINT, R. et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: sixth edition. Critical Care, v. 27, n. 80, 2023. Disponível em: PMC – European Guideline on Major Bleeding and Coagulopathy Following Trauma.

  2. ROSSAINT, R. et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: fifth edition. Critical Care, 2019. Disponível em: Critical Care – European Guideline, Fifth Edition.
  3. HOLCOMB, J. B. et al. Transfusion of Plasma, Platelets, and Red Blood Cells in a 1:1:1 vs. a 1:1:2 Ratio and Mortality in Patients With Severe Trauma: The PROPPR Randomized Clinical Trial. JAMA, 2015. Referenciado na diretriz europeia de manejo da hemorragia traumática. Disponível em: European Guideline – discussão do estudo PROPPR.
  4. HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (HC-UFMG/EBSERH). Transfusão de hemocomponentes em situações de emergência – PRT.UHO.307. Belo Horizonte: HC-UFMG, 2026. Disponível em: Protocolo assistencial HC-UFMG/Ebserh – Transfusão de hemocomponentes em situações de emergência.
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_uso_hemocomponentes_2ed.pdf.
  6. SPAHN, D. R. et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: sixth edition. Critical Care, v. 23, n. 1, p. 98-135, 2019. Disponível em: https://ccforum.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13054-019-2347-7.
  7. BRILL, J. B.; BADIEE, J.; ZARZAUR, B. L. et al. The Role of TEG and ROTEM in Damage Control Resuscitation. Shock, v. 56, n. 1S, p. 52-61, 2021. DOI: 10.1097/SHK.0000000000001686.

O que é Termo de Consentimento Informado do Paciente?

Vá direto ao ponto!

O Termo de Consentimento Informado do Paciente é um documento que representa muito mais do que uma simples assinatura antes de um procedimento. Ele está relacionado diretamente ao direito do paciente de receber informações, compreender sua situação e participar das decisões sobre o próprio cuidado.

Na prática, o consentimento informado materializa um dos princípios mais importantes da assistência em saúde: a autonomia do paciente.

Para quem está começando na Enfermagem, é comum surgir a dúvida: “Se o paciente assinou o termo, significa que o profissional está protegido de qualquer responsabilidade?” A resposta é não.

A assinatura, sozinha, não transforma um procedimento inadequado em procedimento correto, não autoriza negligência ou imprudência e não substitui uma comunicação adequada com o paciente.

O consentimento é, antes de tudo, um processo de informação e decisão, e o documento serve como registro desse processo.

No Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, o Cofen determina que o profissional respeite a autonomia da pessoa na tomada de decisão livre e esclarecida sobre sua saúde, segurança, tratamento, conforto e bem-estar. O mesmo Código estabelece a necessidade de consentimento prévio para a prática profissional, ressalvadas situações previstas na própria norma, como incapacidade decisória sem representante ou responsável legal e outras situações legalmente estabelecidas.

O que é o Termo de Consentimento Informado?

O Termo de Consentimento Informado, também encontrado como Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) ou simplesmente consentimento informado, é um instrumento utilizado para registrar que o paciente recebeu informações adequadas sobre determinado procedimento, tratamento ou intervenção e teve oportunidade de decidir de maneira livre e esclarecida.

É importante diferenciar duas coisas:

Consentimento informado é o processo.

Termo de consentimento é o documento que registra esse processo.

Essa diferença é fundamental. Imagine que um paciente receba um formulário de várias páginas e simplesmente escute:

“Assine aqui.”

Ele pode ter assinado o documento, mas isso não significa necessariamente que tenha ocorrido um consentimento verdadeiramente informado.

Para que exista consentimento válido, o paciente precisa ter recebido informações compreensíveis e ter tido oportunidade de fazer perguntas e tomar sua decisão sem coerção.

A Recomendação CFM nº 1/2016, por exemplo, estabelece que a informação deve ser correta, suficiente, adequada e capaz de esclarecer as dúvidas do paciente, utilizando linguagem acessível e sem induzi-lo ao erro sobre natureza, características, riscos, consequências ou outros aspectos do procedimento.

Por que o consentimento informado é tão importante?

Imagine que uma pessoa precise realizar uma cirurgia.

Ela pode pensar que o procedimento é simples, mas desconhecer:

  • qual é exatamente o procedimento;
  • por que ele é necessário;
  • quais benefícios são esperados;
  • quais riscos podem ocorrer;
  • quais alternativas existem;
  • o que pode acontecer se não realizar o procedimento;
  • como será o período de recuperação.

Sem essas informações, a pessoa não consegue participar verdadeiramente da decisão. O consentimento informado procura justamente evitar que o paciente seja tratado como alguém que simplesmente “recebe ordens”. Ele reconhece que o paciente é sujeito ativo do próprio cuidado.

Isso está diretamente relacionado aos princípios de autonomia, dignidade, liberdade e respeito aos direitos humanos. O próprio Código de Ética da Enfermagem afirma que o profissional deve atuar respeitando a autonomia da pessoa e sua participação em decisões relacionadas à própria saúde.

Consentimento informado não é apenas uma burocracia

Um dos maiores erros é enxergar o termo apenas como um documento necessário para “liberar” uma cirurgia, exame ou procedimento. Na realidade, ele faz parte de uma relação de comunicação entre profissional e paciente. O documento deve ser consequência de uma conversa adequada. Por exemplo, imagine um paciente que receberá determinado procedimento invasivo.

Não basta entregar o papel. É necessário que ele tenha condições de compreender:

  • O que será feito?
  • Por que será feito?
  • Quais benefícios podem ser esperados?
  • Quais riscos existem?
  • Existem alternativas?
  • O que pode acontecer se ele não fizer?
  • Como será o cuidado depois?

Quando necessário, também devem ser explicados desconfortos, limitações, possibilidade de complicações e outras informações relevantes. A Recomendação CFM nº 1/2016 apresenta justamente elementos que devem compor o consentimento, incluindo justificativa, objetivos, descrição do procedimento, duração, possíveis desconfortos, benefícios, riscos, alternativas, consequências da não realização e cuidados posteriores.

Consentimento informado e autonomia do paciente

A autonomia significa, de maneira simplificada, o direito que uma pessoa capaz possui de participar das decisões sobre sua própria vida e saúde. Isso significa que o paciente não é obrigado a aceitar determinado tratamento simplesmente porque o profissional acredita que aquela seja a melhor opção.

Depois de receber informações adequadas, o paciente pode:

  • aceitar o procedimento;
  • recusar o procedimento;
  • fazer perguntas;
  • pedir esclarecimentos;
  • solicitar tempo para pensar, quando a situação permitir;
  • buscar uma segunda opinião.

O profissional deve respeitar a decisão dentro dos limites éticos e legais aplicáveis. Isso é particularmente importante porque uma decisão diferente daquela desejada pela equipe não significa necessariamente que o paciente “não sabe o que está fazendo”. A autonomia pressupõe justamente que pessoas capazes possam tomar decisões diferentes das que o profissional tomaria.

O paciente pode mudar de ideia depois de assinar?

Sim. Esse é um ponto muito importante. A assinatura do termo não significa que o paciente tenha perdido o direito de mudar sua decisão. O consentimento deve permanecer livre e voluntário.

Se, antes do procedimento, o paciente disser:

“Eu não quero mais fazer.” a equipe não deve simplesmente responder:

“Mas você já assinou.”

É necessário avaliar a situação, compreender o motivo da mudança, comunicar a equipe responsável e registrar adequadamente a decisão. A assinatura não transforma o consentimento em uma obrigação irrevogável.

O que deve constar em um Termo de Consentimento?

O conteúdo pode variar conforme o procedimento, instituição e legislação aplicável. Entretanto, de maneira geral, um termo adequado deve apresentar informações suficientes para que o paciente compreenda aquilo que está autorizando. Entre os elementos importantes estão:

Identificação

Deve haver identificação adequada do paciente e, quando aplicável, de seu representante legal. Também podem constar os profissionais envolvidos e informações de contato, conforme o modelo utilizado.

Descrição do procedimento

O paciente precisa saber o que será realizado. Evitar termos excessivamente técnicos é essencial. Em vez de simplesmente escrever:

“Realização de procedimento invasivo sob sedação.” é importante explicar, de forma compreensível, o que efetivamente acontecerá.

Finalidade

Deve ficar claro por que o procedimento está sendo proposto.

Benefícios esperados

O paciente deve saber quais resultados são esperados. É importante evitar promessas de resultados garantidos quando eles não podem ser assegurados.

Riscos e possíveis complicações

Os riscos relevantes devem ser apresentados de maneira compreensível. Não é necessário assustar o paciente, mas também não se deve esconder informações importantes.

Alternativas

Quando existirem alternativas razoáveis, elas devem ser apresentadas conforme a situação clínica.

Consequências da recusa

O paciente também precisa compreender o que pode acontecer caso decida não realizar o procedimento.

Cuidados posteriores

Quando aplicável, o documento deve informar cuidados necessários após o procedimento. A Recomendação CFM nº 1/2016 inclui esses elementos entre aqueles que devem constar no consentimento livre e esclarecido.

Linguagem simples é fundamental

Um termo de consentimento não deve ser escrito como se tivesse sido produzido exclusivamente para profissionais de saúde. Imagine entregar a um paciente:

“Consentimento para realização de procedimento com possibilidade de intercorrências hemodinâmicas, eventos tromboembólicos e complicações inerentes à abordagem invasiva.”

Para um profissional de saúde, a frase pode parecer relativamente compreensível, para muitos pacientes, não. Por isso, o ideal é explicar os termos técnicos.

Por exemplo:

  • Trombose: formação de um coágulo dentro de um vaso sanguíneo.
  • Hemorragia: sangramento que pode ser significativo dependendo da situação.
  • Sedação: uso de medicamentos para reduzir ansiedade, desconforto ou nível de consciência durante determinado procedimento.

A informação precisa ser adequada ao nível de compreensão do paciente.

Quem deve explicar o procedimento?

Essa é uma questão que merece bastante atenção. O profissional responsável pela realização ou indicação do procedimento deve cumprir as responsabilidades que lhe cabem na obtenção do consentimento, conforme o tipo de intervenção e as normas institucionais e profissionais.

A enfermagem também possui responsabilidades importantes. O profissional de Enfermagem deve garantir que sua atuação respeite a autonomia e o consentimento do paciente. O Código de Ética estabelece que a prática profissional deve ocorrer mediante consentimento prévio do paciente, representante ou responsável legal, ou decisão judicial, ressalvadas as situações previstas na própria norma.

Isso não significa, entretanto, que o técnico de enfermagem deva assumir a responsabilidade de explicar aspectos médicos de um procedimento para os quais não possui competência.

E se o paciente disser que não entendeu?

Esse é um momento em que a equipe precisa parar e esclarecer. Nunca é adequado pensar:

“Ele já assinou.”

Se o paciente demonstra dúvida, o consentimento precisa ser revisto e as informações novamente explicadas pelo profissional competente.

Um paciente que pergunta:

-“Mas existe risco de eu morrer?”; não deve receber simplesmente dizer:

– “Está tudo explicado no papel.”

Essa pergunta demonstra que existe uma preocupação que precisa ser acolhida e esclarecida.

Consentimento e capacidade de decisão

Nem toda pessoa possui capacidade para tomar decisões de saúde de forma autônoma em todas as situações. É necessário avaliar a capacidade de compreensão e decisão de acordo com o contexto.

Uma pessoa pode estar consciente e conversar normalmente, mas ainda assim apresentar alterações que comprometam sua capacidade de compreender determinada decisão. Por isso, estar acordado não é sinônimo de estar automaticamente apto a consentir sobre qualquer procedimento.

Quando o paciente não possui capacidade para decidir, a situação deve ser conduzida conforme a legislação, as normas profissionais e os protocolos institucionais, incluindo a participação de representante ou responsável legal quando aplicável.

Crianças e adolescentes

A situação envolvendo crianças e adolescentes exige atenção especial. Em determinadas circunstâncias, o consentimento é obtido do responsável legal, enquanto a criança ou adolescente pode participar do processo de decisão de acordo com sua capacidade de compreensão.

No contexto de pesquisa com seres humanos, por exemplo, a legislação brasileira diferencia consentimento do responsável e assentimento do participante menor ou legalmente incapaz, considerando sua capacidade de compreensão. A Lei nº 14.874/2024 estabelece regras específicas para pesquisas envolvendo seres humanos.

É importante não confundir automaticamente as regras de pesquisa científica com as regras aplicáveis à assistência clínica cotidiana: cada situação possui normas próprias.

E quando o paciente está inconsciente?

Em uma situação de emergência, o atendimento não pode simplesmente ser interrompido porque não foi possível obter uma assinatura. Existem situações em que o paciente está incapaz de manifestar sua vontade e não há representante disponível, enquanto a intervenção é necessária para preservar sua vida ou evitar dano grave.

Nessas circunstâncias, aplicam-se as exceções previstas na legislação, normas profissionais e protocolos institucionais. O próprio Código de Ética da Enfermagem prevê ressalvas ao consentimento prévio nos casos em que não haja capacidade de decisão e esteja ausente representante ou responsável legal, entre outras situações previstas.

Isso é diferente de simplesmente realizar um procedimento eletivo sem consentimento.

O consentimento informado protege o profissional?

Sim, o documento pode possuir importante valor documental, ético e jurídico. Mas existe uma diferença enorme entre documentar o consentimento e usar o termo como uma espécie de “blindagem” profissional. Imagine que um profissional cometa uma falha técnica durante um procedimento e depois tente justificar:

“Mas o paciente assinou o termo.” Isso não elimina automaticamente a responsabilidade pelo erro.

O consentimento significa que o paciente autorizou determinado procedimento depois de receber informações adequadas. Ele não autoriza o profissional a agir com negligência, imprudência ou imperícia.

O Código de Ética da Enfermagem estabelece responsabilidade profissional por faltas cometidas no exercício das atividades quando caracterizadas as condições previstas no próprio Código.

Portanto:

  • Consentimento não significa autorização para causar dano.
  • O termo também protege o paciente

Essa talvez seja uma das funções mais importantes do documento. O termo não deve ser encarado somente como proteção para o hospital ou para o profissional. Ele também protege o paciente porque documenta que determinadas informações deveriam ter sido apresentadas e que houve participação na decisão. Mais importante ainda: o próprio processo de consentimento ajuda o paciente a compreender melhor aquilo que acontecerá.

Consentimento informado e sigilo

O consentimento também se relaciona com privacidade e confidencialidade. Informações relacionadas à saúde do paciente são dados sensíveis e devem ser protegidas. O Código de Ética da Enfermagem determina o dever de manter sigilo sobre fatos conhecidos em razão da atividade profissional, ressalvadas as situações previstas em lei ou nas normas éticas.

Por isso, documentos de consentimento, prontuários e informações clínicas devem ser manejados de acordo com as normas de segurança e confidencialidade da instituição e da legislação aplicável.

Qual é o papel da Enfermagem?

A enfermagem está muito próxima do paciente durante todo o processo assistencial. Por isso, frequentemente é o profissional de enfermagem quem percebe primeiro que o paciente:

  • não entendeu o procedimento;
  • está inseguro;
  • apresenta dúvidas;
  • mudou de opinião;
  • está com medo;
  • não compreendeu os riscos;
  • acredita que está assinando outra coisa.

Nessas situações, a equipe de enfermagem deve acolher o paciente e comunicar o profissional responsável, evitando ultrapassar seus limites de competência. O Código de Ética também estabelece que o profissional de Enfermagem deve atuar de maneira autônoma e respeitar os direitos humanos, incluindo liberdade, dignidade, segurança pessoal e livre escolha.

Cuidados de enfermagem relacionados ao consentimento informado

Antes de um procedimento, a enfermagem pode contribuir para que o processo seja mais seguro verificando se o paciente está adequadamente identificado e se a documentação necessária está disponível, de acordo com o protocolo institucional. Também é importante observar se existe alguma situação que possa comprometer a compreensão ou a segurança do paciente.

Por exemplo, um paciente muito sedado, confuso ou com alteração importante do nível de consciência não deve ser tratado da mesma maneira que um paciente plenamente orientado.

Outro cuidado importante é não induzir a resposta do paciente.

Perguntar:

-“Você vai assinar, não é?”; é diferente de perguntar:

-“Você entendeu o procedimento e gostaria que eu chamasse o profissional responsável para esclarecer alguma dúvida?”

A segunda abordagem respeita muito mais a autonomia.

O que a enfermagem deve fazer se o paciente se recusar?

A recusa deve ser tratada com seriedade. O profissional não deve ameaçar, constranger ou ridicularizar o paciente. Uma abordagem adequada é compreender o motivo:

-“Você poderia me explicar o que está deixando você inseguro?”

Talvez o paciente tenha medo da dor. Talvez não tenha entendido o procedimento, talvez tenha recebido uma informação diferente de outro profissional ou talvez simplesmente não queira realizar o procedimento. Depois disso, a situação deve ser comunicada à equipe responsável e documentada conforme os protocolos institucionais.

O direito à autonomia não desaparece simplesmente porque a decisão do paciente é diferente daquela desejada pela equipe.

Termo de consentimento e prontuário

O termo normalmente integra a documentação assistencial e deve ser arquivado conforme as regras da instituição. A documentação precisa permitir identificar:

  • quem consentiu;
  • para qual procedimento;
  • quando;
  • em quais condições;
  • quem prestou as informações;
  • e quais documentos foram utilizados.

A Recomendação CFM nº 1/2016, por exemplo, prevê a existência de vias do termo, com uma destinada ao paciente e outra para arquivamento no prontuário médico. Os detalhes podem variar conforme o procedimento, instituição e regulamentação aplicável.

Consentimento informado não é o mesmo que autorização genérica

Essa diferença é muito importante. Um documento dizendo:

“Autorizo todos os procedimentos necessários.” é muito mais genérico do que um consentimento específico e esclarecido para determinada intervenção.

O paciente precisa saber o que está autorizando. Quanto mais relevante, invasivo ou complexo for o procedimento, maior é a importância de uma comunicação adequada e específica.

Consentimento para procedimentos de enfermagem

A relação entre consentimento e enfermagem não se limita a cirurgias. A assistência de enfermagem também envolve procedimentos que podem exigir consentimento conforme sua natureza, riscos, normas profissionais e protocolos institucionais.

Exemplos podem incluir determinados procedimentos invasivos, coleta de materiais, inserção de dispositivos, administração de determinados tratamentos ou participação em procedimentos específicos. O profissional precisa conhecer as normas institucionais e profissionais relacionadas à sua atividade.

O princípio geral permanece:

“o paciente não deve ser submetido a uma intervenção contra sua vontade, salvo as situações excepcionais previstas em lei e nas normas aplicáveis.”

Termo de consentimento e pesquisa científica

É importante fazer uma distinção. O consentimento para assistência à saúde não é exatamente a mesma coisa que o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido utilizado em pesquisas com seres humanos. A pesquisa possui regras próprias.

A Lei nº 14.874/2024 dispõe sobre pesquisas com seres humanos e institui o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, estabelecendo princípios e regras específicas para essa atividade.

Em pesquisas, o consentimento precisa abordar aspectos específicos relacionados à participação do indivíduo, riscos, benefícios, voluntariedade, proteção e demais exigências previstas nas normas aplicáveis.

Um exemplo prático para o estudante de enfermagem

Imagine que um paciente esteja internado e será submetido a um procedimento. Antes de encaminhá-lo, o técnico de enfermagem percebe que ele pergunta:

-“Mas o que exatamente vão fazer comigo?” Esse momento é um sinal de alerta.

A resposta não deve ser:

-“Está tudo no termo que você assinou.”

O profissional pode acolher a dúvida e verificar se o paciente recebeu as informações necessárias, acionando o enfermeiro e/ou profissional responsável pelo procedimento para esclarecimento. Isso é segurança do paciente.

O objetivo não é simplesmente conferir se existe uma assinatura no papel e sim verificar se o processo de cuidado está acontecendo de forma segura, ética e respeitosa.

Principais erros relacionados ao consentimento informado

Um dos erros mais comuns é transformar o termo em uma mera formalidade administrativa. Outro erro é entregar o documento sem explicar seu conteúdo. Também é inadequado utilizar linguagem excessivamente técnica, omitir riscos relevantes, pressionar o paciente para assinar ou tratar a assinatura como autorização para qualquer procedimento futuro.

Outro problema é não registrar adequadamente situações em que o paciente demonstra dúvida, recusa ou mudança de decisão. A enfermagem deve estar atenta a esses sinais.

O que o estudante de enfermagem precisa memorizar?

Se você estiver estudando para uma prova ou começando a trabalhar, pense em cinco palavras:

Informação.

O paciente precisa receber informações adequadas.

Compreensão.

Não basta entregar o documento; é necessário que a informação seja compreensível.

Liberdade.

A decisão não deve ser obtida por ameaça ou coerção.

Autonomia.

O paciente participa da decisão sobre seu próprio cuidado.

Registro.

O processo deve ser documentado adequadamente. Esses cinco pontos ajudam a entender a essência do consentimento informado.

Consentimento informado: não é apenas uma assinatura

O Termo de Consentimento Informado representa uma mudança importante na relação entre profissional e paciente. Durante muito tempo, o modelo de assistência foi fortemente baseado na ideia de que o profissional decidiria e o paciente simplesmente seguiria as orientações. Hoje, a assistência ética valoriza cada vez mais a autonomia, a informação e a participação do paciente.

Para a Enfermagem, isso significa compreender que cuidar não é apenas executar procedimentos. Cuidar também é informar, ouvir, respeitar, orientar, proteger e reconhecer o direito do paciente de participar das decisões sobre sua própria saúde. O Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem é bastante claro ao estabelecer o respeito à autonomia da pessoa e ao consentimento prévio para a prática profissional, dentro das situações e exceções previstas.

Portanto, quando você encontrar um Termo de Consentimento Informado no ambiente hospitalar, não pense apenas:

“Preciso conferir se está assinado.”

Pense:

“O paciente sabe o que está acontecendo? Entendeu? Teve oportunidade de perguntar? Está decidindo livremente? E sua decisão está sendo respeitada?” Essa é a essência do consentimento informado.

Referências:

  1. BRASIL. Lei nº 14.874, de 28 de maio de 2024. Dispõe sobre a pesquisa com seres humanos e institui o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos. Brasília, DF: Presidência da República, 2024. Lei nº 14.874/2024 – Planalto
  2.  

    CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 564/2017. Aprova o novo Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2017. Resolução Cofen nº 564/2017

  3. CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Recomendação CFM nº 1/2016. Dispõe sobre o processo de obtenção de consentimento livre e esclarecido para assistência médica. Brasília, DF: CFM, 2016. Recomendação CFM nº 1/2016
  4. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 556/2017, alterada pelas Resoluções Cofen nº 700/2022 e nº 757/2024. Regulamenta a atividade do enfermeiro forense e apresenta modelo de Termo de Consentimento Informado no âmbito de suas disposições. Brasília, DF: Cofen. Resolução Cofen nº 556/2017 e alterações
  5. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Entra em vigor novo Código de Ética da Enfermagem brasileira. Brasília, DF: Cofen, 2018. Cofen – Novo Código de Ética da Enfermagem
  6. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.

Retirada de Pontos pela Enfermagem

A retirada de pontos, também chamada de remoção de sutura, é um procedimento simples, mas que requer técnica, atenção e responsabilidade por parte da equipe de enfermagem. Após a realização de uma sutura, seja por procedimento cirúrgico ou por fechamento de feridas traumáticas, chega o momento de avaliar a cicatrização e decidir pelo momento ideal de retirada desses fios.

Nesta publicação, vamos explicar de forma clara como esse procedimento é realizado, quando ele deve ser feito, os principais cuidados de enfermagem e as orientações ao paciente.

Por que os pontos são usados?

A sutura é uma técnica que visa unir bordas de uma ferida ou incisão cirúrgica, facilitando a cicatrização por aproximação dos tecidos. O uso de fios de sutura (não absorvíveis) ou grampos permite estabilizar a pele e estruturas mais profundas durante o processo inflamatório e regenerativo.

Quando a ferida já passou pelas fases iniciais da cicatrização e a epiderme está reconstituída, os pontos se tornam desnecessários e sua permanência pode aumentar o risco de infecção ou provocar marcas mais evidentes na pele.

Quando os pontos devem ser retirados?

A decisão de quando remover os pontos não é arbitrária. Depende de vários fatores:

  • Local da Ferida: Áreas com mais movimento (como joelhos e cotovelos) ou mais tensão (como as costas) geralmente precisam de mais tempo para cicatrização e, consequentemente, os pontos ficam por mais tempo.
  • Tipo de Ferida: Incisões cirúrgicas limpas cicatrizam mais rápido do que feridas com bordas irregulares ou mais profundas.
  • Idade e Saúde do Paciente: Pessoas mais jovens e saudáveis tendem a cicatrizar mais rapidamente. Pacientes com diabetes, desnutrição, imunidade baixa ou que usam certos medicamentos (como corticoides) podem ter uma cicatrização mais lenta e os pontos podem precisar ficar por mais tempo.
  • Tensão na Ferida: Se a ferida está sob muita tensão, os pontos podem ficar por mais tempo para evitar que ela se abra.
  • Material do Ponto: Alguns pontos são absorvíveis (caem sozinhos ou são absorvidos pelo corpo), outros são não absorvíveis (precisam ser retirados). Estamos falando aqui dos pontos não absorvíveis.

Em geral, os pontos podem ser retirados entre 7 a 15 dias após a sua colocação. Feridas no rosto, por exemplo, podem ter os pontos retirados em 5 a 7 dias para evitar cicatrizes. Já em áreas de maior movimento, como o joelho, pode-se esperar 14 dias ou mais. A equipe médica sempre deixará uma prescrição ou orientação sobre o tempo ideal.

Quem pode retirar os pontos?

De acordo com a legislação brasileira, o enfermeiro pode realizar a remoção de pontos desde que seja respaldado por prescrição médica ou protocolo institucional, além de possuir conhecimento técnico sobre o procedimento.

Técnicos e auxiliares de enfermagem também podem ser responsáveis pela execução do procedimento, sob supervisão do enfermeiro, desde que o protocolo da instituição permita e a conduta esteja prescrita.

Etapas do procedimento: como retirar os pontos corretamente

A retirada de pontos deve ser feita com técnica asséptica, material esterilizado e muita atenção para evitar complicações, como abertura da ferida ou dor ao paciente.

Passo a passo geral:

  1. Higienização das mãos e paramentação com luvas de procedimento.
  2. Avaliação da ferida: verificar se há sinais de infecção, deiscência (abertura da sutura), vermelhidão ou dor.
  3. Reunião do material necessário, como:
    • Pinça anatômica estéril
    • Tesoura de ponta curva ou removedor de sutura
    • Gaze estéril
    • Antisséptico (geralmente clorexidina aquosa ou PVPI)
  4. Antissepsia do local da ferida com gaze embebida em antisséptico.
  5. Retirada do ponto, cortando o fio próximo à pele e puxando cuidadosamente a outra extremidade com a pinça. Isso evita arrastar a parte externa do fio por dentro da ferida.
  6. Contagem e registro do número de pontos removidos.
  7. Curativo, se necessário, com gaze estéril e micropore.
  8. Orientações ao paciente sobre sinais de alerta e cuidados domiciliares.

Cuidados de enfermagem antes, durante e após a retirada dos pontos

O procedimento em si é rápido, mas o cuidado da enfermagem vai muito além da técnica. É preciso uma avaliação contínua do processo de cicatrização e orientação ao paciente.

Antes da remoção:

  • Verificar a prescrição médica e o prazo adequado
  • Explicar o procedimento ao paciente, promovendo segurança
  • Avaliar se o local apresenta sinais de infecção (pus, dor, rubor, calor)

Durante a remoção:

  • Utilizar técnica asséptica rigorosa
  • Manter o conforto do paciente durante o procedimento
  • Ter atenção para não causar trauma à pele ou sangramentos

Após a remoção:

  • Observar se os bordos permanecem unidos
  • Registrar o procedimento no prontuário
  • Orientar o paciente sobre cuidados com o local da sutura, como:
    • Evitar exposição ao sol por algumas semanas
    • Manter a região limpa e seca
    • Observar sinais de abertura da ferida ou infecção

Quando não remover os pontos?

Existem situações em que a retirada dos pontos deve ser adiada, como:

  • Presença de infecção local
  • Bordos da ferida não aproximados
  • Secreção purulenta ou sangramento persistente
  • Dor intensa à palpação
  • Febre sem causa aparente

Nesses casos, a equipe deve reavaliar com o médico e registrar no prontuário os motivos da não realização do procedimento.

A remoção de pontos, apesar de ser considerada um procedimento simples, envolve responsabilidade, conhecimento técnico e atenção aos detalhes. O profissional de enfermagem tem um papel essencial, tanto na avaliação da ferida quanto no cuidado com o paciente antes, durante e após o procedimento.

Para o estudante de enfermagem, aprender a realizar esse procedimento com segurança é mais do que dominar uma técnica — é compreender o processo de cicatrização, respeitar o tempo do corpo e garantir um cuidado humanizado.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Curativos: Normas Técnicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_curativos_normas_tecnicas.pdf. Acesso em: 17 jun. 2025.
  2. SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. (Consultar capítulo sobre cuidado com feridas e suturas).
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar capítulo sobre cuidado de feridas e pele).
  4. BRASIL. Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Resolução nº 564/2017. Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Disponível em:
    https://www.portalcofen.gov.br/resolucao-cofen-no-5642017_59145.html
  5. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015.

Complicações da Canalização do Acesso Venoso Periférico

A canalização do acesso venoso periférico, embora seja um procedimento comum na prática médica, pode apresentar diversas complicações, que variam em gravidade e frequência. É fundamental que tanto profissionais de saúde quanto pacientes estejam cientes dessas possíveis ocorrências para que possam ser identificadas precocemente e tratadas de forma adequada.

Complicações Locais

  • Infiltração: É a mais comum e ocorre quando o líquido infundido extravasa para os tecidos circunvizinhos, causando edema, dor e, em casos mais graves, necrose tecidual.
  • Flebite: Inflamação da veia, caracterizada por eritema, dor, calor e endurecimento ao longo do trajeto venoso. Pode evoluir para trombose venosa.
  • Trombose: Formação de um coágulo sanguíneo dentro da veia, podendo obstruir o fluxo sanguíneo e causar dor, edema e risco de embolia.
  • Infecção: Pode ocorrer na pele ao redor do local da punção ou na própria corrente sanguínea, causando febre, calafrios e eritema.
  • Extravasamento de medicamentos vesicantes: Ocorre quando medicamentos irritantes para os tecidos extravasam para fora da veia, causando lesões teciduais graves.

Complicações Sistêmicas

  • Embolia: Um fragmento do coágulo sanguíneo pode se desprender e migrar para outras partes do corpo, causando obstrução vascular em órgãos vitais.
  • Sepse: Infecção generalizada grave que pode levar a falência de múltiplos órgãos.
  • Sobrecarga hídrica: Ocorre quando o volume de líquido infundido excede a capacidade de eliminação do organismo, levando a edema pulmonar e outras complicações.
  • Reações alérgicas: Podem ocorrer em resposta a medicamentos ou componentes do equipo de infusão, manifestando-se por urticária, angioedema, broncoespasmo e choque anafilático.

Fatores de Risco

  • Condições da veia: Veias pequenas, tortuosas ou com histórico de trombose aumentam o risco de complicações.
  • Tipo de cateter: Cateteres de pequeno calibre ou com ponta afiada podem aumentar o risco de flebite e trombose.
  • Tempo de permanência do cateter: Quanto mais tempo o cateter permanecer na veia, maior o risco de infecção e trombose.
  • Tipo de solução infundida: Soluções hipertônicas ou medicamentos vesicantes aumentam o risco de extravasamento e irritação tecidual.
  • Técnicas de inserção: A técnica inadequada de inserção do cateter pode aumentar o risco de todas as complicações.

Prevenção

  • Seleção adequada do local de punção: Escolher veias de bom calibre, com bom fluxo sanguíneo e longe de articulações.
  • Técnica asséptica rigorosa: Utilizar luvas, anti-sepsia da pele e equipamentos estéreis.
  • Fixação segura do cateter: Evitar movimentos do cateter e reduzir o risco de infiltração.
  • Monitoramento regular do local de punção: Observar sinais de inflamação, edema ou extravasamento.
  • Rotatividade dos locais de punção: Evitar o uso prolongado do mesmo local.
  • Uso de dispositivos de segurança: Reduzir o risco de acidentes com agulhas.

Tratamento das Complicações após Canalização Venosa Periférica

O tratamento das complicações após a canalização venosa periférica varia de acordo com a gravidade e o tipo de complicação. É fundamental que o profissional de saúde avalie cada caso individualmente e inicie o tratamento de forma rápida e eficaz.

Complicações e seus respectivos tratamentos

  • Infiltração:
    • Leve: Elevar o membro, interromper a infusão, aplicar compressas frias e utilizar medicação anti-inflamatória.
    • Moderada a grave: Aplicar calor úmido, utilizar medicamentos vasoativos e, em casos extremos, realizar cirurgia.
  • Flebite:
    • Leve: Remover o cateter, aplicar compressas quentes e utilizar anti-inflamatórios não esteroides.
    • Moderada a grave: Utilizar antibióticos em casos de infecção, aplicar compressas quentes e utilizar anticoagulantes.
  • Trombose:
    • Leve: Remover o cateter, aplicar compressas quentes e utilizar anticoagulantes.
    • Moderada a grave: Utilizar anticoagulantes de ação prolongada e, em casos graves, realizar trombólise.
  • Infecção:
    • Local: Remover o cateter, limpar a ferida com antisséptico e utilizar antibióticos.
    • Sistêmica: Hospitalização, coleta de culturas para identificação do microrganismo e uso de antibióticos de amplo espectro.
  • Extravasamento de medicamentos vesicantes:
    • Leve: Interromper a infusão, elevar o membro e aplicar compressas frias.
    • Moderada a grave: Utilizar antídotos específicos, se disponíveis, e realizar tratamento cirúrgico em casos graves.

Medidas gerais para todas as complicações

  • Monitoramento: Acompanhar regularmente o local da punção e os sinais vitais do paciente.
  • Higiene: Manter o local da punção limpo e seco.
  • Elevação do membro: Facilitar o retorno venoso e reduzir o edema.
  • Analgesia: Utilizar medicamentos para aliviar a dor.
  • Prevenção de novas complicações: Trocar o cateter com frequência, utilizar técnicas assépticas e selecionar o local de punção de forma adequada.

Outras informações importantes

  • Prevenção: A melhor forma de tratar as complicações é preveni-las. A adoção de práticas seguras durante a canalização venosa periférica é fundamental.
  • Educação do paciente: É importante orientar o paciente sobre os sinais e sintomas das complicações, a fim de que ele possa procurar ajuda médica o mais rápido possível.
  • Registro: É fundamental registrar todas as complicações ocorridas, bem como as medidas terapêuticas adotadas.

Referências:

  1. 3M
  2. Complicações relacionadas ao uso do cateter venoso periférico: ensaio clínico randomizado
  3. https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistaenfermagem/article/download/6661/5908
  4. https://periodicos.ufms.br/index.php/pecibes/article/view/13332/9195

Manobra de Valsalva Modificada

A manobra de Valsalva modificada é uma técnica que visa melhorar a eficácia da manobra de Valsalva convencional na reversão de taquicardias supraventriculares (TSV).

Manobra de Valsalva Clássica

Antes de mergulharmos na versão modificada, vamos recapitular a manobra de Valsalva clássica:

  1. O paciente assume uma posição semi-reclinada.
  2. Ele deve produzir uma pressão de 40 mmHg por 15 segundos.
  3. Isso é feito soprando uma pequena mangueira ligada ao esfigmomanômetro.
  4. A pressão intra-abdominal aumenta, desencadeando o reflexo vagal.

Manobra de Valsalva Modificada

A manobra de Valsalva modificada foi proposta por um grupo inglês e demonstrou maior sucesso na reversão das TSV em comparação com a manobra clássica. Aqui está como ela funciona:

  1. O paciente também está em posição semi-reclinada.
  2. Ele produz a mesma pressão de 40 mmHg por 15 segundos, como na versão clássica.
  3. No entanto, em vez de soprar uma mangueira, o paciente pode usar uma seringa de 10 ml.
  4. Após os 15 segundos, o paciente é rapidamente colocado em posição supina com as pernas elevadas.
  5. Após este período, reposiciona-se o paciente a 45º e checa-se o ritmo.

Benefícios da Manobra Modificada

  • Taxa de sucesso: A manobra modificada reverteu as TSV em até 43% dos casos, em comparação com 17% na manobra clássica.
  • Segurança: Não há complicações associadas à manobra modificada.
  • Custo: Não requer custos adicionais.

Referências:

  1. Cardiopapers
  2. Pebmed

Manobra de Heimlich: O que você precisa saber!

A manobra de Heimlich ou manobra de desengasgo é um procedimento de primeiros socorros vital que pode salvar vidas em situações de engasgo. Quando um objeto estranho bloqueia as vias aéreas, é crucial agir rapidamente e com eficácia para restaurar a respiração normal.

Manobras

Bebês (menores de um ano)

    • Reconheça os sinais: Se o bebê estiver cianótico (com a boca roxa), sem respirar ou com muita dificuldade respiratória, é hora de agir.
    • Posicione o bebê: Coloque o bebê sobre sua perna, com a cabeça voltada para baixo.
    • Compressões nas costas: Dê cinco compressões firmes nas costas do bebê para tentar expelir o objeto estranho.
    • Abra a boca: Com um dedo, abra a boca do bebê e verifique se ele ainda está com dificuldades para respirar.
    • Compressões torácicas: Se necessário, aplique cinco compressões torácicas. Coloque dois dedos na linha entre os mamilos e empurre o tórax da criança.
    • Repetição: Se o bebê não se recuperar, repita a manobra.

Crianças, adolescentes e adultos

    • Posicione-se atrás da vítima: Enlace a pessoa com os braços ao redor do abdome (ajoelhe-se primeiro, se for uma criança).
    • Compressões abdominais: Aplique pressão firme para dentro, puxando os dois braços para trás. Repita rapidamente a compressão de 6 a 10 vezes conforme necessário.
    • Observação: Verifique se a pessoa consegue expelir o objeto estranho e se ela tem respiração normal.
    • Se não se recuperar: Leve a vítima imediatamente para um hospital. Se necessário, inicie manobras de reanimação cardiopulmonar.

Lembre-se de que todos nós podemos ajudar nos primeiros socorros.

Conhecer essas técnicas pode fazer a diferença em momentos críticos!

Referências:

  1. MSD Manuals
  2. Biblioteca Virtual em Saúde

 

Degermação Cirúrgica

A degermação cirúrgica é um procedimento que visa reduzir o risco de infecções nos sítios cirúrgicos, removendo a flora bacteriana e outros resíduos da pele.

Para isso, utiliza-se uma solução antisséptica degermante, como a clorexidina a 2%, e uma escovação mecânica das mãos e dos antebraços.

A degermação cirúrgica é uma medida importante de prevenção e controle de infecções hospitalares.

Executor

A atividade pode ser realizada pelo enfermeiro, técnico de enfermagem, auxiliar de enfermagem, médicos, residentes, todos aqueles que forem participar do procedimento.

Materiais Necessários

  • Água corrente;
  • Clorexidina degermante a 2%;
  • Escova descartável (esponja) ou a escova descartável já impregnada com a clorexidina degermante a 2%;
  • Compressas cirúrgicas.

Passo a Passo

  • Retirar os adornos (anéis, pulseiras, relógios, etc.);
  • Abrir a torneira e molhar as mãos, antebraços e cotovelos;
  • Molhar as mãos e antebraços até os cotovelos, manter as mãos em altura superior aos cotovelos, a água deve fluir da área menos contaminada para a mais contaminada;
  • Friccionar a esponja da escova, contendo solução degermante antisséptica para uso individual por 5 (cinco) minutos para a primeira cirurgia do dia e por 3 (três) minutos para as cirurgias subsequentes, se realizadas dentro de 1 (uma) hora após a primeira escovação;
  • Escovar as mãos e antebraços, iniciando pela ponta dos dedos (cerda), seguindo com a esponja para os espaços interdigitais, face palmar, face dorsal das mãos, face anterior e posterior do antebraço e cotovelo, mantendo as mãos sempre em nível acima dos cotovelos;
  • Enxaguar as mãos e antebraços em água corrente, no sentindo das mãos para os cotovelos, retirando todo o resíduo do produto;
  • Fechar a torneira com o cotovelo;
  • Secar as mãos com compressas estéreis, realizando movimentos compressivos, iniciando pelas mãos e seguindo pelos antebraços e cotovelos, atentando para utilizar as diferentes dobras de compressas para regiões distintas;

Recomendações

  • Realizar a degermação no pré-operatório antes de qualquer procedimento cirúrgico;
  • Realizar a degermação antes da realização de procedimentos invasivos (inserção de cateter venoso central, punções, drenagens de cavidades, pequenas suturas, instalação de diálise, entre outros);
  • Manter as unhas naturais, limpas e curtas;
  • As cerdas da escova são utilizadas somente para limpeza das unhas. A parte macia da esponja é utilizada para todo restante do procedimento;
  • A escoriação das mãos por escovas de cerdas duras ou por reação alérgica a antissépticos pode facilitar o crescimento de bactérias gram negativas.

Ações em caso de não conformidade

  • Refazer o procedimento se contaminar as mãos.

Referências:

  1. ANVISA. AGENCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Segurança do Paciente em Serviços de Saúde: Higienização das Mãos. 2009.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 42 de 26 de outubro de 2010. Dispõe sobre a obrigatoriedade de disponibilização de preparação alcoólica para fricção antisséptica das mãos, pelos serviços de saúde do País, e dá outras providências. Disponível em: http://www20.anvisa.gov.br/segurancadopaciente/index.php/legislacao/item/rdc42-de-25-de-outubro-de-2010. 
  3. RITZMAN, L; KRAJEWSKI, L. J.. Administração da produção e operações. São Paulo: Prentice Hall, 2004. 

Retirada da Sonda Vesical de Demora (SVD)

A Retirada de Sonda Vesical de Demora é um procedimento de enfermagem diferente da Inserção do Cateter Vesical de Demora. É uma técnica de menor complexidade, que oferece menos riscos ao paciente em relação a inserção.

Objetivo

Permitir a retomada das funções fisiológicas normais do aparelho urinário.

Material

  • 01 Par de luvas de procedimento;
  • 05 unidades de gaze não esterilizadas;
  • 01 unidade de saco de lixo;
  • 01 seringa de 20ml sem rosca.

Passo a Passo

1º Explicar ao paciente sobre o procedimento e sua finalidade, se possível;
2º Preparar o ambiente: observar boa iluminação, colocar biombo e fechar portas e janelas;
3º Preparar o material e levar até a mesa de cabeceira do cliente;
4º Higienizar as mãos (PRT.CCIRAS.001);
5º Calçar as luvas;
6º Posicionar o paciente em decúbito dorsal e descobrir apenas a região genital, respeitando sua privacidade;
7º Retirar a fixação da sonda;
8º Adaptar a seringa na via do balonete e aspirar o seu conteúdo;
9º Pegar as gazes e segurar a sonda com as gazes;
10º Tracionar a sonda retirando-a lentamente e delicadamente, desprezando-a no saco de lixo;
11º Realizar a higienização da região genital;
12º Deixar o paciente confortável;
13º Deixar o ambiente em ordem;
14º Retirar as luvas e higienizar as mãos (PRT.CCIRAS.001);
15º Monitorar o paciente para verificar se conseguirá retomar suas eliminações sem auxílio de procedimentos, como: abertura de torneira, inserção de compressa morna na região
hipogástrica. Não realizar a manobra de Crede.
16º Realizar a anotação do procedimento no prontuário eletrônico AGHU, relatando a quantidade de diurese presente no coletor antes da retirada do cateter.

Observações

  • No que compete a equipe de enfermagem: este procedimento pode ser executado pelo enfermeiro e/ou técnico de enfermagem sob supervisão.
  • A manobra de Crede coloca em risco o paciente, visto que ocasiona uma pressão negativa intrabdominal, que favorece o refluxo vesicouretral, predispondo o paciente à infecções.
  • Monitorar o cliente para verificar se irá conseguir retomar a diurese espontaneamente.
  • Verificar se há presença de globo vesical na região hipogástrica e, se houver, discutir com o médico responsável sobre a necessidade de realizar cateterismo intermitente.
  • Para a retirada do cateter vesical, não se indica a realização de treinamento vesical. Apesar dessa prática ser comum na rotina dos serviços de saúde, não possui evidências científicas de benefício. A restauração do tônus vesical ocorre naturalmente após a retirada do cateter.
  • Caso isso não aconteça, sugere-se que o paciente possui algum comprometimento do músculo detrusor, como bexiga neurogênica. A disfunção vesical do trato urinário inferior pode ser sequela de diversas doenças neurológicas e dificulta o esvaziamento vesical sendo que para estes casos, é necessário realizar acompanhamento com urologista e uso de cateter vesical intermitente, conforme avaliação multiprofissional.

Referências:

  1. HU-UFGD. Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados. Ministério da Educação. EBSERH. PRT nº01 da CCIRAS – Higiene das Mãos. 10ª edição. Publicado no Boletim de Serviço nº 255 de 03/05/2021, Portaria nº 42 de 20/01/2021. Dourados, 2021.
  2. CRAVEN, R. F.; HIRNLE, C. J. Fundamentos de Enfermagem: saúde e função humanas. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006.
    TEIXEIRA, M.M.B. Fundação Centro de Controle de Oncologia do Amazonas. Governo do Estado do Amazonas. POP GA-TSVDH/03 – Troca de sonda vesical de demora (Homens). Versão 1. Manaus, 2017. Disponível em: http://www.fcecon.am.gov.br/wp-content/uploads/2018/05/POP-AMBULATORIO.pdf.

Passagem de Plantão na Enfermagem

A passagem de plantão é um momento importante para a comunicação entre os profissionais de enfermagem e para a continuidade da assistência aos pacientes.  Nela, são transmitidas informações sobre o estado clínico, as intervenções realizadas, as pendências e as orientações para o próximo turno.

SBAR e IPASS

 O Institute for Healthcare Improvement desenvolveu a SBAR (técnica de comunicação denominada Situation, Background, Assessment, Recommendation), que é recomendada para organizar o processo de passagem de plantão, consistindo em técnica estruturada, clara e precisa de fornecimento e registro de informações.

Já o modelo IPASS é composto por elementos como gravidade da doença, resumo do paciente, ações pendentes, avaliação da situação/planejamento e síntese.

Essas técnicas apoiam a passagem de plantão na enfermagem para que ela cumpra seu objetivo de oferecer uma visão geral da unidade que assumirá as atividades e dos assuntos institucionais. E, junto com elas, outras práticas também se fazem importantes.

A Passagem de Plantão

Comunique com objetividade

Durante a passagem de plantão na enfermagem, a comunicação deverá ser conduzida de forma clara e concisa. Atente-se a cada detalhe do cuidado que foi prestado ou deverá ser oferecido ao paciente. Através da captação dessas informações, o enfermeiro terá embasamento para mapear as demandas assistenciais, integrar e otimizar os recursos administrativos e humanos.

Atente-se ao tempo

Também é importante que essa interação aconteça em tempo controlado, para evitar horas extras. Por isso, mais uma vez, a objetividade é a chave, para transmitir o que precisa sem estender demais esse momento. Existem até limites preconizados por cada instituição.

Faça em local propício

A escolha de um ambiente reservado e livre de interrupções também se faz necessário durante a passagem de plantão na enfermagem, a fim de garantir a privacidade dos pacientes e colaboradores.

Lembrando que, segundo parecer do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), o profissional de enfermagem que não faz passagem de plantão comete uma infração ética disciplinar. Contudo, estes não estão isentos da ocorrência de imprevistos no seu cotidiano, sendo imperativo que haja normas e rotinas disciplinares na instituição.

Prepare a adequação da escala

Geralmente é nesse momento que as informações de faltas e atrasos são recebidas, e o enfermeiro que assumirá o plantão se responsabilizará em promover a adequação da escala. Para evitar alterações de última hora, contar com ferramentas de gestão de escalas pode fazer a diferença.

Como descrever passagem de plantão

De acordo com parecer do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP), os principais aspectos que devem ser abordados durante a passagem de plantão na enfermagem são:

  • condições gerais de saúde do paciente e/ou sua alteração e a conduta proposta;
  • realização de exames (e se o paciente está sob preparo para fazer algum);
  • presença de soros, drenos, sondas;
  • modo de transporte (maca, cadeira, deambulando);
  • materiais usados e a serem repostos, e as condições dos equipamentos.

A importância da passagem de plantão na enfermagem

A passagem de plantão na enfermagem é uma prática fundamental e indispensável nos diversos setores de atuação, com caráter estratégico para a continuidade dos cuidados e reflexos nos excelentes resultados.

Quanto mais recursos para colaborar com essa tarefa, mais efetiva ela será e, por consequência, maiores as chances de sucesso no cuidado assistencial e eficiência operacional.

Referência:

  1. https://www.gov.br/ebserh/pt-br/hospitais-universitarios/regiao-sudeste/hu-ufjf/saude/especialidades-1/PROTOCOLOPassagemdeplanto.pdf