Paciente Instável, o que avaliar primeiro?

paciente instável

Antes do diagnóstico, procure o que ameaça a vida

Diante de um paciente instável, a primeira avaliação deve seguir uma sequência estruturada: A — via aérea, B — respiração, C — circulação, D — estado neurológico e E — exposição. O método ABCDE permite identificar problemas potencialmente fatais e tratá-los conforme aparecem, sem esperar concluir toda a avaliação para depois intervir. A recomendação também é reavaliar o paciente após cada intervenção e solicitar ajuda precocemente quando necessário.

A primeira pergunta é sobre a via aérea

Comece observando o paciente. Ele consegue falar? Há roncos, estridor, secreções, vômitos ou sinais de obstrução? Alteração do nível de consciência pode comprometer a proteção da via aérea, principalmente em pacientes muito sonolentos ou inconscientes. Uma via aérea obstruída é uma emergência porque a hipóxia pode evoluir rapidamente para deterioração grave e parada cardiorrespiratória.

Em uma situação típica de plantão, um paciente que estava conversando passa a ficar sonolento e começa a apresentar respiração ruidosa. Antes de procurar a causa daquela alteração neurológica, a equipe precisa olhar para a via aérea e para a respiração. Esse pequeno detalhe muda a prioridade da assistência.

Depois vem a respiração

Com a via aérea avaliada, observe frequência e padrão respiratório, expansibilidade torácica, esforço para respirar, presença de cianose, ausculta pulmonar e saturação de oxigênio. Uma frequência respiratória elevada ou progressivamente crescente pode ser um sinal precoce de deterioração, mesmo antes de ocorrer queda importante da pressão arterial.

É aqui que a avaliação precisa ir além do número mostrado no oxímetro. Um paciente com SpO₂ aparentemente aceitável, mas com esforço respiratório intenso, alteração do nível de consciência ou fadiga progressiva, continua sendo um paciente preocupante. O contexto clínico importa tanto quanto o valor isolado do monitor.

Circulação: não espere a pressão despencar

Na avaliação circulatória, verifique frequência cardíaca, pressão arterial, perfusão periférica, temperatura e coloração da pele, pulsos e tempo de enchimento capilar, além de procurar sinais de sangramento. Um paciente em choque pode inicialmente manter a pressão arterial por mecanismos compensatórios, portanto, pressão normal não exclui deterioração circulatória.

Imagine um paciente pálido, sudorético, taquicárdico e com extremidades frias, mas ainda apresentando pressão arterial dentro do valor habitual. Se a equipe olhar apenas para a pressão, pode subestimar a gravidade. Quando os sinais são analisados em conjunto, a alteração da perfusão ganha outro significado e exige investigação e escalonamento rápidos.

O estado neurológico também conta

Depois de garantir A, B e C, avalie o nível de consciência, resposta a estímulos, pupilas e glicemia. Uma alteração neurológica pode estar relacionada à hipóxia, hipoperfusão, hipoglicemia, medicamentos, intoxicações ou outras causas, por isso a avaliação precisa considerar o quadro inteiro. Escalas como Glasgow ou AVPU podem ajudar a acompanhar a evolução.

A glicemia capilar merece atenção especial porque a hipoglicemia é uma causa potencialmente reversível de alteração do nível de consciência. Ao mesmo tempo, uma queda do estado neurológico em um paciente previamente consciente deve ser comunicada e investigada rapidamente, principalmente quando representa uma mudança em relação ao padrão anterior.

Exposição sem esquecer a segurança

Na etapa E, examine o paciente de maneira direcionada para procurar sangramentos, lesões, alterações cutâneas, edema, sinais de trauma ou outras pistas que ajudem a explicar a instabilidade. A exposição deve preservar a dignidade do paciente e evitar perda desnecessária de calor.

Um ponto importante é que o ABCDE não termina no E. Depois de uma intervenção, a avaliação volta ao início. Se a respiração melhorou após uma intervenção, por exemplo, é preciso confirmar se a frequência respiratória, saturação, esforço e estado geral também evoluíram. A avaliação do paciente instável é dinâmica.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem deve reconhecer precocemente a deterioração, iniciar a avaliação sistematizada, monitorizar sinais vitais, verificar glicemia quando indicada, garantir acesso e equipamentos necessários conforme a condição clínica e acionar ajuda sem demora diante de sinais de gravidade.

Também é fundamental registrar tendências, e não apenas números isolados. Comparar pressão, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação e nível de consciência com medidas anteriores pode revelar uma deterioração que ainda não atingiu valores extremos. A comunicação objetiva com a equipe e a reavaliação após as intervenções fazem parte da segurança do paciente.

Resumo para salvar

Paciente Instável O Que Avaliar Primeiro

  • Comece pelo ABCDE e trate ameaças imediatas à vida
  • Avalie via aérea e respiração antes de buscar o diagnóstico
  • Não descarte choque apenas porque a pressão ainda está normal
  • Reavalie o paciente após cada intervenção e comunique a deterioração

Referências: 

  1. RESUSCITATION COUNCIL UK. The ABCDE Approach. London: Resuscitation Council UK, atualizado em 2024. Resuscitation Council UK – ABCDE Approach
  2. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Part 7: Adult Basic Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas: American Heart Association, 2025. AHA – Adult Basic Life Support 2025
  3. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Part 9: Adult Advanced Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas: American Heart Association, 2025. AHA – Adult Advanced Life Support 2025

Tempo Porta Agulha no AVC Isquêmico

porta agulha avc

No atendimento ao AVC isquêmico agudo, existe um tempo que a equipe precisa conhecer quase tão bem quanto a escala de Glasgow ou a NIHSS: o tempo porta-agulha. Ele corresponde ao intervalo entre a chegada do paciente ao serviço de referência e o início da infusão do trombolítico intravenoso, quando o paciente é elegível para trombólise. A meta tradicional é iniciar o tratamento em até 60 minutos, porque o benefício da terapia é tempo-dependente.

Isso significa que não se deve esperar terminar toda a burocracia para depois começar a organizar o atendimento. Desde a chegada, a equipe precisa trabalhar em paralelo: identificar sinais de AVC, estabelecer o horário do início dos sintomas ou último momento em que o paciente foi visto bem, avaliar a condição neurológica, verificar glicemia, providenciar acesso venoso, encaminhar rapidamente para neuroimagem e preparar as etapas necessárias para a trombólise. O PCDT brasileiro do AVC isquêmico agudo está atualmente disponível pelo Ministério da Saúde e orienta a organização desse atendimento.

De onde começa a contagem?

O relógio do porta-agulha começa na chegada do paciente ao serviço, não quando ele entra na tomografia, quando o neurologista chega ou quando o medicamento é preparado. Por isso, registrar corretamente o horário de admissão é uma informação operacional importante.

Um exemplo prático: o paciente chega com dificuldade súbita para falar e perda de força em um lado do corpo. Enquanto a equipe realiza a avaliação inicial, outro profissional já pode providenciar o acesso venoso, verificar a glicemia e organizar o transporte para a tomografia, evitando que cada etapa fique esperando a anterior terminar. É justamente essa atuação simultânea que ajuda a reduzir atrasos evitáveis.

O Ministério da Saúde estabelece como parâmetros assistenciais tempo porta-tomografia inferior a 25 minutos e tempo porta-agulha inferior a 60 minutos nos serviços habilitados para atendimento ao AVC.

O que acontece antes da trombólise?

A rapidez não significa pular etapas de segurança. O paciente precisa ser avaliado quanto à possibilidade de AVC isquêmico, realizar neuroimagem para excluir hemorragia intracraniana e passar pela avaliação dos critérios de elegibilidade para trombólise.

A equipe também precisa considerar horário de início dos sintomas ou último momento conhecido sem déficit, pressão arterial, glicemia, uso de anticoagulantes e outros fatores clínicos relevantes. A decisão pela trombólise é médica e deve seguir o protocolo vigente do serviço.

Na prática, é comum perceber como pequenos atrasos se acumulam. Se o acesso venoso demora, a coleta atrasa; se o transporte para a tomografia demora, a avaliação também atrasa. O paciente não precisa de uma sequência lenta de tarefas, mas de uma equipe coordenada, com funções bem definidas.

Onde a enfermagem faz diferença

A enfermagem participa de praticamente todas as etapas críticas do fluxo. Na triagem, reconhecer rapidamente sinais compatíveis com AVC e comunicar a equipe é fundamental. Durante a avaliação, o enfermeiro pode organizar monitorização, glicemia capilar, acesso venoso, coleta de exames quando indicada, transporte seguro e preparo do paciente para a sequência do protocolo.

Também existe uma função que parece simples, mas evita erros: controlar e registrar os horários. Horário de chegada, avaliação, início da tomografia, resultado da imagem e início da infusão precisam estar claramente documentados conforme o protocolo institucional.

Imagine agora uma situação típica de emergência: o paciente já está na sala de tomografia, a equipe aguarda a definição da imagem e o acesso venoso ainda não foi providenciado. Esse tipo de atraso mostra por que o fluxo precisa ser pensado antes mesmo de o paciente chegar. A enfermagem pode antecipar materiais, monitorização e acesso quando isso for seguro e permitido pelo protocolo, reduzindo minutos que, no AVC, têm relevância clínica.

A American Heart Association utiliza o door-to-needle ≤60 minutos como importante indicador de qualidade para pacientes elegíveis à trombólise intravenosa e acompanha também metas ainda mais rápidas em programas de melhoria da assistência ao AVC.

Tempo porta-agulha não é apenas um número

O indicador serve para avaliar o funcionamento de todo o processo, e não para responsabilizar isoladamente um profissional. Quando o tempo está elevado, vale investigar onde o fluxo está parando: triagem, acionamento da equipe, transporte, tomografia, interpretação da imagem, decisão terapêutica, preparo ou administração do trombolítico.

A lógica é simples: cada etapa precisa acontecer com segurança e sem espera desnecessária. Reduzir o porta-agulha significa melhorar o processo inteiro.

Cuidados de enfermagem

Na assistência ao paciente com suspeita de AVC, a enfermagem deve priorizar reconhecimento rápido, registro preciso dos horários, avaliação neurológica conforme protocolo, glicemia capilar, monitorização dos sinais vitais, acesso venoso quando indicado, transporte rápido e seguro para neuroimagem e preparo para a terapia conforme prescrição e protocolo institucional.

Após o início do trombolítico, a vigilância continua. É necessário observar nível de consciência, sinais neurológicos, pressão arterial, sinais de sangramento e qualquer deterioração clínica, comunicando imediatamente alterações à equipe responsável. A administração e o monitoramento devem seguir rigorosamente o protocolo institucional e a terapia prescrita.

Resumo para salvar

Tempo Porta-Agulha no AVC

  • Porta-agulha é o tempo entre a chegada e o início do trombolítico
  • A meta tradicional é iniciar a trombólise em até 60 minutos nos pacientes elegíveis
  • Enfermagem atua no reconhecimento monitorização acesso transporte e organização do fluxo
  • Registrar horários e eliminar atrasos evitáveis melhora o atendimento ao AVC

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. PCDT – Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 29, de 12 de dezembro de 2023. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo. Portaria Conjunta nº 29/2023
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Rotinas para Atenção ao AVC. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Manual de Rotinas para Atenção ao AVC
  4. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Get With The Guidelines – Stroke Recognition Criteria. Dallas: American Heart Association. Stroke Recognition Criteria
  5. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Target: Stroke – When Seconds Count. Dallas: American Heart Association. Target: Stroke

Assistência de Enfermagem na Crise Convulsiva

crise convulsiva

O primeiro erro é perder a noção do tempo

Durante uma crise convulsiva, a equipe pode se concentrar tanto nos movimentos do paciente que acaba esquecendo uma informação fundamental: quanto tempo a crise está durando? Cronometrar desde o início ajuda a reconhecer rapidamente uma situação que exige intervenção imediata.

Na abordagem inicial, a prioridade é proteger o paciente contra traumas, manter a permeabilidade das vias aéreas, avaliar respiração e circulação e monitorizar os sinais vitais. Também é importante verificar a glicemia capilar, porque a hipoglicemia pode desencadear convulsões e precisa ser identificada rapidamente.

Imagine uma situação comum no atendimento: o paciente começa a apresentar movimentos tônico-clônicos, alguém tenta segurá-lo pelos braços e outra pessoa procura alguma coisa para colocar entre os dentes. É justamente nesse momento que a equipe precisa organizar a cena: afastar objetos, proteger a cabeça, não restringir os movimentos e não colocar nada na boca. A proteção adequada reduz o risco de lesões sem transformar a própria assistência em uma nova fonte de trauma.

O que fazer durante a convulsão

Durante a crise, não se deve tentar conter fisicamente os movimentos nem introduzir objetos, dedos, compressas ou dispositivos na boca do paciente. Também não é indicado oferecer água, alimentos ou medicamentos por via oral enquanto houver alteração da consciência.

Se for possível com segurança, deve-se proteger a cabeça, afastar objetos próximos e afrouxar roupas apertadas no pescoço. A equipe deve permanecer ao lado do paciente e observar características importantes da crise, como início, duração, padrão dos movimentos, presença de cianose, secreções, perda urinária ou fecal e resposta após o episódio.

Uma situação que merece atenção acontece quando a crise termina: o paciente pode permanecer sonolento, confuso ou com respiração alterada. É nessa fase que alguns profissionais podem interpretar a ausência dos movimentos como resolução completa do problema. A assistência continua sendo necessária, com avaliação das vias aéreas, respiração, saturação, sinais vitais e nível de consciência.

Depois da crise: o período pós-ictal

Após o término dos movimentos convulsivos, o paciente pode apresentar sonolência, confusão, agitação, cefaleia ou redução do tônus muscular. A equipe deve manter vigilância até que haja recuperação adequada da consciência e estabilidade clínica.

Quando o paciente estiver respirando espontaneamente e sem contraindicação, o posicionamento lateral pode ajudar a manter a via aérea protegida. Se houver secreções, a aspiração deve ser realizada quando indicada, sempre avaliando a necessidade real do procedimento.

Também é importante investigar o contexto: histórico de epilepsia, uso ou suspensão de anticonvulsivantes, febre, trauma, intoxicação, alterações metabólicas, gestação, diabetes e outras condições que possam estar relacionadas ao episódio.

Quando a crise vira uma emergência ainda maior

Uma convulsão que ultrapassa 5 minutos, ou crises repetidas sem recuperação da consciência entre elas, deve ser tratada como uma emergência. Nessa situação, não basta aguardar que o episódio termine espontaneamente. É necessário acionar o atendimento de emergência e seguir o protocolo institucional para controle da crise.

No ambiente hospitalar, a equipe deve preparar acesso venoso, monitorização, avaliação da glicemia e suporte ventilatório conforme necessidade. As medicações anticonvulsivantes, especialmente benzodiazepínicos como primeira linha no estado de mal convulsivo, devem ser administradas conforme prescrição, protocolo institucional e competência profissional.

No Brasil, o protocolo do SAMU também orienta avaliação primária, manutenção da permeabilidade das vias aéreas, monitorização, glicemia capilar e proteção contra traumas, além do registro das características da crise.

Cuidados de enfermagem

A assistência de enfermagem deve priorizar segurança e reconhecimento precoce da gravidade. Entre os principais cuidados estão:

  • Cronometrar a crise desde o início.
  • Proteger cabeça e corpo contra traumas.
  • Não restringir os movimentos e não colocar objetos na boca.
  • Avaliar vias aéreas, respiração, SpO₂ e sinais vitais.
  • Verificar glicemia capilar.
  • Manter monitorização conforme condição clínica.
  • Observar e registrar características e duração da crise.
  • Avaliar o período pós-ictal e o nível de consciência.
  • Preparar acesso venoso e medicações quando indicados pelo protocolo.
  • Comunicar imediatamente crise prolongada, recorrente ou associada à instabilidade clínica.

O registro também tem valor clínico: horário de início, duração, características dos movimentos, alterações respiratórias, intervenções realizadas, medicamentos administrados e resposta do paciente ajudam a equipe médica e de enfermagem a entender a evolução do episódio.

O que a enfermagem nunca deve fazer

Não segure o paciente à força. Não coloque colher, gaze, cânula, dedo ou qualquer outro objeto entre os dentes. Não tente interromper mecanicamente os movimentos e não ofereça líquidos ou medicamentos pela boca enquanto houver alteração da consciência.

A prioridade é proteger, observar, cronometrar, avaliar e agir conforme a gravidade e o protocolo. Essa sequência evita condutas impulsivas justamente no momento em que a equipe mais precisa trabalhar de forma organizada.

Resumo para salvar

Assistência na Crise Convulsiva

  • Cronometre a crise e proteja o paciente contra traumas
  • Avalie vias aéreas respiração sinais vitais e glicemia
  • Não contenha os movimentos nem coloque objetos na boca
  • Reconheça crises prolongadas ou repetidas como emergência

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Suporte Básico de Vida: BC16 – Crise convulsiva no adulto. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Ministério da Saúde – Protocolo de Suporte Básico de Vida
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. SAMU 192 – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília, DF: Ministério da Saúde. SAMU 192 – Ministério da Saúde
  3. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. First Aid for Seizures. Atlanta: CDC, 2024. CDC – First Aid for Seizures
  4. AMERICAN COLLEGE OF EMERGENCY PHYSICIANS. Clinical Policy: Critical Issues in the Management of Adult Patients Presenting to the Emergency Department With Seizures. Annals of Emergency Medicine, 2024. ACEP – Clinical Policy on Seizures

Anafilaxia Como Reconhecer e O Que Fazer

anafilaxia

Anafilaxia é uma reação de hipersensibilidade sistêmica, grave e potencialmente fatal. Pode surgir rapidamente após medicamentos, alimentos, venenos de insetos, vacinas ou outros desencadeantes, comprometendo pele e mucosas, sistema respiratório e circulação. Urticária, angioedema, rouquidão, estridor, falta de ar, chiado, queda da pressão, tontura, síncope e alterações gastrointestinais podem aparecer em diferentes combinações.

A grande armadilha é esperar a queda da pressão para considerar a situação grave. Anafilaxia pode estar evoluindo antes do choque aparecer, principalmente quando há comprometimento de via aérea ou dificuldade respiratória. Por isso, diante de uma suspeita clínica compatível, o tratamento deve ser iniciado rapidamente.

O que fazer primeiro?

A prioridade é adrenalina por via intramuscular, preferencialmente na região anterolateral da coxa, seguindo dose e protocolo aplicáveis ao paciente. A adrenalina é a medicação de primeira escolha e não deve ser substituída inicialmente por anti-histamínicos ou corticosteroides. Se a resposta for insuficiente, a dose pode ser repetida conforme o protocolo, geralmente em intervalos de 5 a 15 minutos.

Enquanto a adrenalina é administrada, a equipe deve avaliar vias aéreas, respiração e circulação, acionar suporte de emergência e manter monitorização. O paciente deve ser colocado adequadamente, geralmente em decúbito dorsal com pernas elevadas quando tolerado; se houver vômitos ou comprometimento da consciência, a posição deve ser adaptada para reduzir o risco de aspiração.

É nesse momento que uma situação prática pode acontecer muito rápido: uma pessoa recebe um medicamento e, poucos minutos depois, começa com urticária disseminada, edema de lábios, voz abafada e dificuldade para respirar. Não é hora de aguardar a evolução da pele ou preparar primeiro um anti-histamínico. A prioridade é reconhecer a anafilaxia, administrar adrenalina IM conforme protocolo e iniciar o suporte necessário.

E depois da adrenalina?

A assistência continua. Oxigênio pode ser utilizado quando indicado, especialmente diante de hipoxemia ou comprometimento respiratório importante. Em pacientes com hipotensão ou choque, pode ser necessária expansão volêmica com cristaloide, além de outras medidas avançadas conforme a resposta clínica. Broncoespasmo persistente pode exigir broncodilatador como tratamento complementar.

Anti-histamínicos e corticosteroides não substituem a adrenalina na fase inicial. Eles podem ter papel complementar em situações específicas, mas não devem atrasar a administração da medicação de primeira linha. A adrenalina intravenosa, por sua vez, não é a conduta inicial habitual e envolve maior risco, sendo reservada a cenários apropriados, com monitorização e profissionais habilitados.

Outro momento que merece atenção é aquele paciente que melhora rapidamente depois da primeira dose e parece estar “bem”. A melhora não encerra o atendimento. Existe possibilidade de recorrência dos sintomas, por isso o paciente precisa permanecer sob observação e receber avaliação adequada antes de ser liberado.

Como a enfermagem reconhece rapidamente?

Na prática, pense em uma combinação de início súbito + manifestações sistêmicas. Coceira, urticária ou angioedema associados a dificuldade respiratória, alteração circulatória ou outros sinais de comprometimento sistêmico devem aumentar imediatamente a suspeita.

Também é importante observar sinais menos óbvios: mudança da voz, sensação de garganta fechando, estridor, tosse persistente, chiado, palidez, sudorese, tontura, confusão, síncope, dor abdominal, vômitos ou diarreia. A ausência de lesões cutâneas não exclui anafilaxia, especialmente quando existe comprometimento respiratório ou cardiovascular importante.

Cuidados de enfermagem

Durante o atendimento, a enfermagem deve priorizar:

  • Reconhecimento imediato e acionamento da equipe de emergência.
  • Avaliação contínua de vias aéreas, respiração e circulação.
  • Administração da adrenalina IM conforme prescrição, protocolo e dose adequada.
  • Monitorização de pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória e saturação.
  • Manutenção de acesso venoso quando indicado e preparo para expansão volêmica.
  • Disponibilização de oxigênio e materiais para suporte ventilatório.
  • Registro do horário, dose, via, resposta clínica e evolução do paciente.
  • Observação após a melhora inicial, devido ao risco de recorrência.

O Cofen também reforça que, no contexto de anafilaxia pós-vacinação em ações extramuros, a adrenalina IM é a primeira linha e que a atuação da enfermagem deve estar respaldada por protocolo institucional, treinamento e condições adequadas de segurança.

Para guardar na emergência

! Atenção na Prova

Se houver uma suspeita consistente de anafilaxia, não espere a evolução para agir.

A sequência essencial é:

Reconhecer → avaliar ABC → adrenalina IM → suporte respiratório e circulatório → monitorizar → encaminhar e observar.

O detalhe que salva tempo — e pode salvar uma vida — é lembrar que adrenalina é o tratamento de primeira linha; anti-histamínico e corticoide não devem ocupar o lugar dela.

Resumo para salvar

Anafilaxia: O Que Fazer Primeiro?

  • Adrenalina IM é o tratamento de primeira linha
  • Avalie rapidamente vias aéreas, respiração e circulação
  • Anti-histamínicos e corticoides não substituem a adrenalina
  • Mesmo após melhora, o paciente precisa de monitorização e avaliação

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais: condutas diante de anafilaxia. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde — Manual dos CRIE.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde — Manual de Vigilância de Eventos Adversos Pós-Vacinação.
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Parecer nº 47/2025/Câmaras Técnicas de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2026. Disponível em: Cofen — Parecer nº 47/2025.
  4. SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal da Saúde. Protocolo de Assistência em Anafilaxia para enfermeiros da Atenção Básica. São Paulo: SMS. Disponível em: Prefeitura de São Paulo — Protocolo de Anafilaxia. 

Protocolo de Manchester, você sabe classificar?

Protocolo de Manchester

Na classificação de risco, a cor da pulseira não é apenas uma forma de organizar a fila: ela representa uma decisão clínica sobre quem precisa ser atendido primeiro. É justamente por isso que um paciente que chegou depois pode entrar antes de outro que estava aguardando há mais tempo. O Protocolo de Manchester organiza a prioridade conforme a gravidade identificada na triagem, e não pela ordem de chegada.

Como funciona o Protocolo de Manchester?

O Sistema de Triagem de Manchester utiliza a queixa principal, sinais e sintomas e critérios clínicos chamados de discriminadores para direcionar o profissional por um fluxograma. O resultado é uma das cinco categorias de prioridade: vermelho, laranja, amarelo, verde ou azul.

É importante lembrar: classificação de risco não é diagnóstico médico. Ela determina a prioridade do atendimento naquele momento e pode precisar ser revista se o quadro clínico mudar durante a espera.

As 5 cores e seus tempos

Vermelho — Emergência

Atendimento imediato (tempo-alvo: 0 minuto). É utilizado quando existe risco imediato à vida, como parada cardiorrespiratória, choque, insuficiência respiratória grave ou outras situações críticas.

Laranja — Muito urgente

Atendimento em até 10 minutos. Indica uma situação grave, com potencial de deterioração e necessidade de avaliação rápida.

Amarelo — Urgente

Atendimento em até 60 minutos. O paciente apresenta uma condição que exige avaliação, mas possui menor prioridade em relação às categorias vermelha e laranja.

Verde — Pouco urgente

Tempo-alvo de até 120 minutos. São situações de menor gravidade, nas quais existe necessidade de atendimento, porém o paciente pode aguardar com segurança, desde que permaneça estável.

Azul — Não urgente

Tempo-alvo de até 240 minutos. Corresponde aos casos de menor prioridade, geralmente sem sinais de gravidade ou risco imediato. Dependendo da organização da rede, pode haver encaminhamento para outro ponto de atenção.

Uma situação prática ajuda a entender a lógica: imagine dois pacientes aguardando na recepção. Um chegou primeiro com dor leve e está estável; poucos minutos depois chega outro apresentando dispneia importante e alteração do estado geral. A prioridade não será determinada pelo relógio da chegada, e sim pela avaliação clínica. É justamente essa mudança de lógica que faz a classificação de risco funcionar como ferramenta de segurança.

O que o enfermeiro precisa observar?

Durante a classificação, é fundamental valorizar a queixa principal, início e evolução dos sintomas, sinais vitais, nível de consciência, intensidade da dor, presença de sangramento, alterações respiratórias, perfusão e outros discriminadores previstos no protocolo institucional.

Outro ponto importante é não transformar a classificação em uma fotografia definitiva. Um paciente inicialmente classificado como verde pode apresentar piora enquanto aguarda e precisar de nova avaliação. A prioridade deve acompanhar a condição clínica.

Em uma situação típica de pronto atendimento, por exemplo, um paciente classificado inicialmente como amarelo pode retornar alguns minutos depois relatando piora importante da dor, sudorese e sensação de desmaio. Nesse momento, simplesmente manter a mesma classificação porque “a pulseira já foi colocada” seria um erro de segurança: a alteração clínica exige nova avaliação.

Cuidados de enfermagem

O profissional deve realizar a classificação conforme o protocolo institucional, registrar adequadamente os achados, conferir sinais vitais quando indicados, observar sinais de deterioração e orientar o paciente sobre a necessidade de comunicar qualquer piora durante a espera.

Também é essencial respeitar os fluxos e protocolos adotados pelo serviço. No Brasil, o Cofen destaca que a classificação de risco deve ser realizada por profissional de saúde de nível superior, treinado especificamente para essa atividade e utilizando protocolo previamente estabelecido.

O ponto que mais confunde

A classificação de Manchester não garante que o paciente será atendido exatamente naquele minuto. Os tempos são referências-alvo da metodologia, e a dinâmica do serviço pode sofrer alterações diante de intercorrências, chegada de pacientes mais graves ou mudanças no estado clínico de quem já está aguardando.

Por isso, a pergunta mais importante durante a espera não é apenas “qual é a minha cor?”, mas “meu estado de saúde mudou?”. Se mudou, a equipe precisa ser comunicada para que uma nova avaliação seja realizada.

Resumo para salvar

Protocolo de Manchester

  • Vermelho: emergência e atendimento imediato
  • Laranja: muito urgente, até 10 minutos
  • Amarelo: urgente, até 60 minutos
  • Verde: pouco urgente, até 120 minutos
  • Azul: não urgente, até 240 minutos

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Sistema Manchester de Classificação de Risco. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Ministério da Saúde — Sistema Manchester de Classificação de Risco
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Parecer de Câmara Técnica nº 041/2020/CTAS. Brasília, DF: Cofen, 2020. Cofen — Parecer nº 041/2020
  3. FUNDAÇÃO HOSPITALAR DR. AFONSO PAVIE. Você conhece o protocolo de Manchester? Minas Gerais, 2023. Fundação Hospitalar Dr. Afonso Pavie

Infarto Agudo do Miocárdio (IAM): cada minuto muda o desfecho

Há uma pergunta que pode ser mais importante do que “onde dói?” diante de uma suspeita de infarto: “Que horas exatamente essa dor começou?”

Na prática, o tempo de início dos sintomas ajuda a orientar decisões que podem definir a quantidade de músculo cardíaco preservada. O infarto agudo do miocárdio (IAM) ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma região do coração é interrompido, levando à isquemia e, se não houver reperfusão, à morte das células cardíacas. Por isso, não é uma situação para “esperar passar”. O Ministério da Saúde destaca que o atendimento nos primeiros minutos é fundamental para reduzir o risco de morte.

Nem todo infarto começa com aquela dor clássica

A apresentação mais conhecida é uma dor ou pressão no peito, geralmente intensa e prolongada, podendo irradiar para braço, ombro, costas, pescoço ou mandíbula. Sudorese fria, palidez, náuseas, vômitos, falta de ar, tontura e sensação de desmaio também podem aparecer. Em idosos e pessoas com diabetes, entretanto, o quadro pode ser menos típico; falta de ar ou um mal-estar súbito podem ser os principais sinais.

Por isso, durante o acolhimento, não basta perguntar simplesmente “está com dor?”. É importante investigar quando começou, como começou, quanto tempo dura, onde está localizada, para onde irradia, qual sua intensidade e quais sintomas vieram junto.

O ECG não pode ficar esperando

Na suspeita de síndrome coronariana aguda, o eletrocardiograma de 12 derivações deve ser realizado idealmente em até 10 minutos após a apresentação do paciente. Um primeiro ECG normal também não exclui completamente a possibilidade de síndrome coronariana; dependendo da evolução clínica, podem ser necessários ECGs seriados.

Na rotina de um setor de emergência, esse detalhe muda completamente a dinâmica. Um paciente que chega dizendo “estou com uma pressão no peito desde cedo” não deveria ficar aguardando tranquilamente a fila de atendimento enquanto a equipe tenta descobrir depois o horário de início. A história precisa ser valorizada desde o primeiro contato.

Uma situação que fica na memória

Em um plantão, é fácil lembrar daqueles pacientes que chegam andando, conversando e até fazendo piada, apesar de estarem com uma queixa potencialmente grave. Já presenciei situações em que a aparência relativamente tranquila contrastava com a informação de que a dor havia começado havia pouco tempo.

É justamente nesses momentos que a equipe precisa evitar a falsa sensação de segurança. O paciente pode estar conversando normalmente e, ainda assim, precisar de uma avaliação imediata, monitorização e investigação cardíaca.

Cuidados de enfermagem fazem diferença

Na suspeita de IAM, a Enfermagem participa ativamente da avaliação inicial, classificação de risco, monitorização e organização do atendimento. É importante verificar sinais vitais, avaliar a intensidade e características da dor, investigar sintomas associados, conferir medicamentos em uso e alergias, realizar glicemia quando indicada, providenciar acesso venoso e acompanhar continuamente a condição clínica.

O paciente deve permanecer em repouso, com posicionamento adequado conforme seu estado clínico, e o oxigênio não deve ser administrado indiscriminadamente: a Linha de Cuidado do Ministério da Saúde recomenda oxigenoterapia quando a saturação está abaixo de 94%, considerando particularidades como doença pulmonar obstrutiva crônica. A equipe também deve agilizar ECG, exames e encaminhamento conforme o protocolo institucional.

Outro ponto essencial é não perder a informação sobre o horário de início dos sintomas. Esse dado deve ser registrado de maneira clara, porque interfere na avaliação das estratégias de reperfusão.

A reperfusão não pode esperar

Nos casos de IAM com supradesnivelamento do segmento ST, a reperfusão miocárdica precisa ser realizada o mais rapidamente possível, por intervenção coronariana percutânea primária ou, quando indicada e conforme disponibilidade e critérios clínicos, por terapia trombolítica. O objetivo é diminuir o tempo total de isquemia.

É por isso que expressões como “tempo é músculo” fazem tanto sentido no atendimento ao infarto. Cada etapa do fluxo, desde a identificação da dor até o ECG, diagnóstico, medicação, transferência e reperfusão, precisa funcionar de maneira coordenada.

Outra cena comum na prática

Em ambiente hospitalar, uma das coisas que mais chama atenção é como a situação pode mudar rapidamente. Um paciente que estava conversando com a equipe pode começar a apresentar sudorese intensa, palidez, queda da pressão ou alteração do ritmo cardíaco em poucos minutos.

Nesses momentos, não existe espaço para uma assistência fragmentada. Enquanto alguém monitora o paciente, outro profissional organiza acesso e medicações conforme prescrição e protocolo, outro providencia exames e a equipe médica é acionada. A comunicação rápida deixa de ser apenas uma característica desejável e passa a fazer parte da segurança do atendimento.

O que o profissional de enfermagem precisa guardar

Diante de uma suspeita de infarto, dor torácica ou equivalente não deve ser banalizada. O horário de início dos sintomas precisa ser conhecido e registrado; sinais vitais e características da dor devem ser avaliados; o ECG deve ser agilizado; o paciente deve ser monitorizado conforme sua condição; e alterações clínicas precisam ser comunicadas imediatamente.

Se uma pessoa estiver apresentando dor súbita no peito, falta de ar, suor frio, palidez, desmaio ou outros sinais sugestivos de infarto, a orientação é procurar atendimento de emergência imediatamente. No Brasil, o SAMU 192 atende situações como suspeita de infarto e dor torácica súbita.

Infarto não é uma situação para observar em casa para ver se melhora. Quanto mais cedo a equipe reconhecer o problema e iniciar o fluxo adequado, maior a possibilidade de reduzir o dano cardíaco e melhorar o desfecho.

Resumo para salvar

Infarto: reconheça os sinais antes que seja tarde

  • Dor torácica e sintomas associados exigem avaliação imediata
  • O ECG deve ser realizado idealmente em até 10 minutos
  • Registrar o horário de início dos sintomas é fundamental
  • Na suspeita de IAM, cada minuto pode influenciar o desfecho

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Infarto. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Infarto. 
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio: manejo inicial. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Linha de Cuidado – Manejo inicial do IAM.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio: acolhimento e triagem. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Linha de Cuidado – Acolhimento e triagem.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio e o Protocolo de Síndromes Coronarianas Agudas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: Protocolo de Síndromes Coronarianas Agudas.
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. SAMU 192. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: SAMU 192 – Ministério da Saúde. 
  6. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). V Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Tratamento do Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnível do Segmento ST. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 105, n. 2, supl. 1, p. 1-121, ago. 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/a/FhxV98nFLWL38yZhHYwxp6F/?lang=pt. 
  7. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 713, de 22 de julho de 2022. Atualiza as normas para a atuação da Equipe de Enfermagem em Urgência e Emergência. Brasília, DF: Cofen, 2022. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-713-2022/

Mobilização em Bloco: Como Realizar Corretamente o Procedimento

Em qualquer situação de trauma grave, seja um acidente automobilístico, uma queda significativa ou uma lesão esportiva, a prioridade máxima é proteger a coluna vertebral. A vítima pode ter uma lesão instável na coluna cervical ou torácica que, se movimentada incorretamente, pode causar danos irreversíveis na medula espinhal, levando à paralisia.

É para evitar essa catástrofe que utilizamos a técnica da Mobilização em Bloco (ou Rolamento em Bloco). Esta manobra garante que o corpo da vítima seja movido como uma unidade rígida – cabeça, pescoço, tronco e pelve – mantendo o alinhamento da coluna.

Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, dominar essa técnica com um mínimo de três socorristas é fundamental em qualquer cenário de emergência.

O que é a Mobilização em Bloco?

Trata-se de um método de transferência do paciente traumatizado em que todo o corpo é movido como uma única unidade rígida. Dessa forma, evita-se a movimentação independente das estruturas corporais, especialmente a coluna vertebral. Essa técnica é empregada principalmente quando há:

  • Suspeita de fratura de coluna cervical, torácica ou lombar;
  • Trauma de alta energia (quedas, colisões automobilísticas, atropelamentos);
  • Alteração do nível de consciência em situações de trauma;
  • Dor, formigamento ou perda de força após trauma.

A equipe responsável pela mobilização precisa de comunicação eficiente e sincronização perfeita, pois qualquer erro pode resultar em agravamento de uma lesão já instaurada.

Por Que “Em Bloco”? O Princípio da Imobilização Total

O nome “em bloco” se refere ao objetivo: mover o paciente como se ele fosse um único bloco de concreto, sem permitir qualquer flexão, extensão ou rotação da coluna.

  • Contexto de Aplicação: A mobilização em bloco é usada, principalmente, para:
    • Colocar a vítima em uma prancha rígida.
    • Realizar o exame da região dorsal (costas), essencial para avaliar lesões.
    • Mudar a vítima de posição para evitar broncoaspiração, mantendo a proteção cervical.

Passo a Passo da Mobilização em Bloco com Três Socorristas

A seguir, o procedimento completo dividido em etapas para facilitar o entendimento.

Preparação: O Papel do Líder

  1. Imobilização Cervical: Antes de qualquer movimento, o primeiro socorrista (Socorrista 1) deve aplicar o colar cervical (se disponível e após a avaliação inicial) e assumir o controle manual da cabeça da vítima, mantendo a estabilização cervical em posição neutra. Este socorrista será o Líder do Bloco e é quem comanda toda a operação.
  2. Posicionamento dos Socorristas:
    • Líder (S1): Posicionado na cabeça, mantendo o controle cervical.
    • Socorrista 2 (S2): Posicionado ao lado da vítima (no tórax), responsável pela cintura escapular e pelve.
    • Socorrista 3 (S3): Posicionado ao lado da vítima (na altura dos membros inferiores), responsável pelas pernas.
  3. Comunicação: O Líder (S1) deve informar a todos que ele será o responsável por dar os comandos. A voz de comando será: “Preparar, rolar, parar, voltar”.

Execução: Rolar e Avaliar

Posicionamento das Mãos:

  • S1 (Líder): Mantém o controle bimanual da cabeça e pescoço, estabilizando-os firmemente.
  • S2: Coloca uma mão na cintura escapular (próximo ao ombro) e a outra na altura da pelve (quadril).
  • S3: Coloca uma mão na altura da coxa e a outra na altura das pernas (próximo aos joelhos).

A Manobra:

  1. Comando de Preparação: Líder (S1) diz: “Preparar para rolar em bloco, no 3. Mantenham o alinhamento.”
  2. Comando de Ação: Líder (S1) diz: “Rolar em bloco! Um, dois, TRÊS!”
  3. Ação Coordenada: Os três socorristas movem a vítima simultaneamente para o lado (geralmente 90 graus), mantendo o tronco e os membros totalmente alinhados e rígidos, como um único bloco. O Líder controla a rotação da cabeça, garantindo que ela se mova junto com o corpo.
  4. Comando de Parada: Líder (S1) diz: “Parar.”
  5. Avaliação: Enquanto a vítima está de lado, a equipe faz a inspeção e palpação da região dorsal (costas) para buscar lesões, sangramentos e, se a manobra for para pranchamento, posiciona a prancha rígida.
  6. Comando de Retorno: A equipe se prepara para voltar. Líder (S1) diz: “Preparar para voltar. Rolar em bloco! Um, dois, TRÊS!”
  7. Ação Coordenada: A vítima é delicadamente depositada de volta na posição supina (de barriga para cima) sobre a prancha (se for o caso) ou na posição inicial.

Ajustes Finais

Após o retorno:

  • Centraliza-se a vítima na prancha.
  • Realiza-se a fixação com tiras, garantindo que tronco, quadris e pernas estejam alinhados.
  • O estabilizador lateral da coluna pode ser aplicado, se houver.

O socorrista da cabeça mantém a estabilização até o momento em que a vítima esteja totalmente imobilizada.

Cuidados de Enfermagem Relacionados à Mobilização em Bloco

A enfermagem tem papel fundamental na prevenção de danos adicionais e na condução segura da técnica. Entre os principais cuidados estão:

  • Avaliar o nível de consciência antes, durante e depois da mobilização.
  • Observar dor, alterações neurológicas ou dificuldade respiratória.
  • Manter comunicação clara e objetiva entre a equipe.
  • Garantir que o colar cervical esteja adequado, sem folgas.
  • Verificar alinhamento corporal após a imobilização.
  • Monitorar sinais vitais regularmente.
  • Registrar todo o procedimento no prontuário, incluindo horário, responsáveis e evolução do paciente.

Mais Cuidados

  1. O Alinhamento é o Rei: A função primordial dos Socorristas 2 e 3 é garantir que não haja “dobras” no corpo da vítima. Os segmentos (tórax, pelve, pernas) devem ser movidos em um ritmo uniforme.
  2. Avaliação Constante: Durante todo o processo, o Líder deve monitorar o nível de consciência da vítima e garantir que a respiração não seja comprometida, especialmente se for necessário mantê-la de lado por alguns instantes.
  3. Equipamento: Se o objetivo é pranchar, a prancha deve ser posicionada próxima ao corpo antes do rolamento e fixada com cintos de segurança imediatamente após a manobra. A fixação da cabeça na prancha é sempre a última etapa.
  4. Comunicação Clara: Em situações de estresse, a comunicação do Líder deve ser alta, clara e concisa. Nada de frases longas ou ambíguas.

A mobilização em bloco exige precisão, trabalho em equipe e conhecimento técnico. Dominar essa técnica é fundamental para qualquer profissional de enfermagem ou socorrista, pois ela pode significar a diferença entre preservar ou agravar uma lesão medular. A prática supervisionada e a capacitação contínua são essenciais para que o procedimento seja realizado com segurança e eficiência.

Referências:

  1. AMERICAN COLLEGE OF SURGEONS (ACS). ATLS – Advanced Trauma Life Support: Student Course Manual. 10. ed. Chicago: ACS, 2018. (Buscar o capítulo sobre Lesões de Coluna e Imobilização).
  2. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Manual de Atendimento Pré-Hospitalar (APH). Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2020. (Consultar as diretrizes mais recentes sobre imobilização e remoção de vítimas). Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br. 
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Atendimento Pré-Hospitalar Móvel: Protocolos e Diretrizes. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br. 
  4. SAMU 192. Manual de Atendimento Pré-Hospitalar. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/samu. 
  5. NAEMT. PHTLS – Suporte Pré-Hospitalar ao Traumatizado. 9. ed. Jones & Bartlett Learning, 2020.
  6. AMERICAN COLLEGE OF SURGEONS. ATLS – Advanced Trauma Life Support. 10. ed. Chicago: ACS, 2018.

Manobra de Desengasgo em Bebês, Crianças e Adultos — Atualização da American Heart Association (AHA)

Quando alguém está sufocando, cada segundo conta. As diretrizes de atendimento para obstrução das vias aéreas superiores vêm sendo atualizadas à medida que novas evidências são publicadas. Em outubro de 2025, a AHA divulgou uma revisão importante das recomendações para o manejo do engasgo (Foreign Body Airway Obstruction — FBAO) em bebês, crianças e adultos.

Este artigo visa explicar de forma acessível essas mudanças, de modo que estudantes de enfermagem entendam o que fazer, por que certas manobras continuam ou mudaram, e qual é seu papel como enfermeiro nesse contexto.

Por que a revisão?

A obstrução das vias aéreas por corpo estranho continua sendo causa de mortes evitáveis, especialmente em crianças. A AHA reconheceu que, em versões anteriores das diretrizes, havia lacunas no tratamento de engasgo consciente em adultos e na distinção entre manobras para bebês e crianças. A nova diretriz aborda essas lacunas e inclui, pela primeira vez, um algoritmo claro para adultos conscientes com obstrução grave.

Novas orientações para adultos conscientes

Para adultos conscientes que estão sufocando e não conseguem tossir de forma eficaz, falar ou respirar, a orientação foi atualizada: a sequência recomendada é alternar cinco pancadas nas costas (back blows) seguidas de cinco compressões abdominais (abdominal thrusts) até que o objeto seja expelido ou a pessoa fique inconsciente.

Antes, a prática predominante era apenas a manobra de Heimlich (compressões abdominais), sem ênfase tão clara na alternância com as pancadas nas costas.

Destaques para adultos:

  • Se a vítima estiver consciente e for capaz de alertar, inclinar‐se ligeiramente para frente e aplicar as pancadas nas costas entre as omoplatas.
  • Se isso não resolver, realizar as compressões abdominais rapidamente, certificando‐se de posicionar as mãos corretamente — acima do umbigo e abaixo do esterno.
  • Continuar alternando as ações (5 + 5) até que o objeto seja liberado ou a vítima torne‐se inconsciente.
  • Em caso de perda de consciência, iniciar imediatamente a RCP (ressuscitação cardiopulmonar) com compressões torácicas e ventilação, conforme protocolo para atendimento de vítima inconsciente.

Novas orientações para crianças (1 ano até puberdade)

Para crianças maiores de 1 ano até puberdade, a diretriz também recomenda a alternância entre cinco pancadas nas costas e cinco compressões abdominais para casos de obstrução grave de vias aéreas. A alteração destaca que o método apenas com compressões abdominais, usado anteriormente, deve ser ampliado com as pancadas nas costas como primeiro passo.

Isso significa que o enfermeiro ou cuidador deve verificar: se a criança não consegue tossir, falar ou respirar, iniciar a sequência 5 + 5 como em adulto, adaptando o posicionamento (geralmente ajoelhando‐se atrás da criança ou em nível adequado).

Novas orientações para bebês (< 1 ano)

Para bebês menores de 12 meses, a nova diretriz reforça o seguinte procedimento em caso de sufocamento grave: aplicar cinco pancadas nas costas, com o bebê posicionado de bruços sobre o antebraço ou perna do socorrista, cabeça mais baixa que o tronco, seguidas de cinco compressões torácicas (chest thrusts) usando o a base da palma de uma das mãos. As compressões abdominais não são recomendadas para bebês, devido ao risco de lesão aos órgãos internos.

Esse refinamento é importante para o enfermeiro ter clareza sobre o que fazer em ambientes pediátricos e neonatais.

Cuidados de enfermagem e atenção prática

Como estudante ou profissional de enfermagem, seu papel é vital tanto na atenção imediata quanto na prevenção. Veja os principais pontos de atuação:

  • Conhecer e treinar periodicamente as manobras de desengasgo para bebês, crianças e adultos, conforme as novas diretrizes da AHA.
  • Avaliar rapidamente se a vítima está consciente, se consegue tossir ou falar, e identificar sinais de obstrução grave.
  • Garantir ambiente seguro e estar pronto para chamar o serviço de emergência ou acionar o sistema de atendimento adequado.
  • Em ambiente hospitalar, verificar se existe protocolo interno atualizado conforme as diretrizes da AHA e se os profissionais estão treinados.
  • Após a liberação do objeto ou até chegada do suporte avançado, monitorar sinais vitais, observar por complicações como trauma torácico ou lesões decorrentes da manobra, e documentar o evento.
  • Educar familiares, cuidadores e acompanhantes sobre os sinais de desengasgo, morder alimentos adequados à idade e evitar práticas de risco, especialmente em ambientes pediátricos.

As novas diretrizes da AHA para manobras de desengasgo em adultos, crianças e bebês reforçam a importância da alternância entre pancadas nas costas e compressões específicas conforme a faixa etária, e ajustam as práticas de atendimento para alinhar‐se à evidência mais recente.

Para o enfermeiro, manter‐se atualizado e estar apto para agir com rapidez e segurança pode fazer a diferença entre vida e morte.

Referências:

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION. 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care (ECC). Dallas: AHA, 2025. Disponível em: https://professional.heart.org/en/science-news/2025-aha-guidelines-for-cpr-and-ecc. 
  2. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Child Choking Flowchart. Dallas: AHA, 2025. Disponível em: https://cpr.heart.org/-/media/CPR-Files/Training-Programs/Community-Programs/Infant-CPR/Newest_Child_Choking_Dig_Poster.pdf. 
  3. MAYO CLINIC. First Aid: Choking – Adults and Children. Rochester: Mayo Clinic, 2025. Disponível em: https://www.mayoclinic.org/first-aid/first-aid-choking/basics/art-20056637. 
  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretrizes Brasileiras de Cardiopulmonar e Cardiovascular. (Geralmente adota e adapta as recomendações da AHA). Disponível em: https://www.portal.cardiol.br/

O Papel Essencial da Equipe de Enfermagem na Parada Cardiorrespiratória

Na rotina de um hospital, especialmente em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), há momentos em que cada segundo conta. A Parada Cardiorrespiratória (PCR) é, sem dúvida, um desses momentos. Ela acontece quando o coração e a respiração de uma pessoa param de repente, e sem uma intervenção imediata, o resultado pode ser catastrófico para o cérebro e outros órgãos vitais.

Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, é fundamental entender que, em um cenário de PCR, o o profissional de enfermagem (enfermeiro, técnico ou auxiliar) não é apenas mais um membro da equipe. Ele é, muitas vezes, o primeiro a chegar, o primeiro a identificar o problema e o líder da resposta inicial.

Este é um papel que exige agilidade, conhecimento técnico apurado e, acima de tudo, uma liderança clara e assertiva. Vamos aprofundar um pouco mais sobre a atuação da equipe de enfermagem diante da PCR e entender como a sua liderança pode fazer a diferença entre a vida e a morte.

A Resposta Imediata: O Reconhecimento e os Primeiros Passos

O enfermeiro e o técnico de enfermagem são os profissionais que estão ao lado do paciente 24 horas por dia, 7 dias por semana na UTI. Por isso, a sua capacidade de identificar os sinais de uma PCR é o ponto de partida para a sobrevivência do paciente. Ele percebe a falta de resposta, a ausência de pulso e a parada da respiração. Neste instante, a ação deve ser rápida e decisiva.

O profissional inicia imediatamente o Suporte Básico de Vida (SBV), que inclui as compressões torácicas de alta qualidade, e aciona a equipe de emergência. A partir desse momento, ele se torna o maestro de uma orquestra de socorro.

A Equipe da PCR: Cada Membro em Seu Papel

Em uma PCR, o trabalho em equipe é tudo. Uma equipe bem treinada e organizada atua de forma coordenada para garantir que as intervenções sejam feitas de maneira eficaz e sem atrasos. A organização ideal de uma equipe de resposta à PCR conta com o enfermeiro como um líder central e os seguintes papéis:

  • Responsável pela Ventilação: Um profissional que garante que as vias aéreas do paciente estejam desobstruídas e realiza a ventilação com bolsa-máscara (ambu).
  • Responsáveis pela Compressão Torácica: São necessários dois profissionais para revezar as compressões torácicas, garantindo a qualidade e a profundidade adequadas sem cansaço.
  • Líder Anotador: Um membro da equipe que registra os medicamentos administrados e o tempo de cada intervenção. Esta função é crucial para o acompanhamento e a tomada de decisões.
  • Responsável pelos Medicamentos: O profissional que prepara e administra os medicamentos conforme a indicação do médico ou o protocolo.
  • Profissional ao Lado do Monitor e Desfibrilador: Geralmente um médico, este membro da equipe avalia o ritmo cardíaco do paciente no monitor e, se indicado, realiza a desfibrilação com o Desfibrilador Externo Automático (DEA) ou o manual.

O Papel de Liderança do Enfermeiro: Organização e Ação

Em meio ao caos de uma PCR, o enfermeiro atua como um coordenador. Ele é quem direciona as ações da equipe, garantindo que cada um esteja em sua posição e cumprindo sua função. Sua autonomia e experiência são fundamentais.

  1. Coordenação da Equipe: O enfermeiro-líder distribui as tarefas, assegura que as compressões sejam eficientes e que a ventilação esteja adequada.
  2. Instalação do Desfibrilador: Ele é responsável por instalar o DEA no paciente e, se o ritmo for chocável, ele mesmo pode realizar a desfibrilação.
  3. Administração de Medicações: O enfermeiro supervisiona a manipulação e a administração dos medicamentos de emergência, como a adrenalina e a amiodarona, que são cruciais para o sucesso da reanimação.
  4. Aprimoramento Contínuo: Um bom enfermeiro-líder sabe que o aprendizado é constante. Ele busca o aprimoramento de sua equipe, utilizando tecnologias e protocolos atualizados (como os da American Heart Association – AHA) para garantir que a assistência seja sempre a mais eficaz possível.

O enfermeiro na UTI, com seu perfil de liderança, não apenas executa tarefas, mas otimiza recursos humanos e tecnológicos, tornando a assistência ágil, hábil e com maiores chances de sucesso. Acreditamos que a autonomia, a organização e o treinamento contínuo da equipe, liderados por um enfermeiro preparado, são a chave para um maior êxito na recuperação de um paciente em PCR.

Referências:

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). ACLS Suporte Avançado de Vida em Cardiologia. 2020. Disponível em: https://cpr.heart.org/en/resources/aha-guidelines/aha-acls-guidelines-cpr-and-ecc.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos. Brasília, DF: ANVISA, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/manuais-e-guias/manual_seguranca_paciente_anvisa.pdf.
  3. BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2016. (Referência para a metodologia de análise de conteúdo).

Emergência e Urgência Hipertensiva: Entenda as Diferenças

A hipertensão arterial, ou pressão alta, é uma condição crônica muito comum. Muitos convivem com ela de forma controlada, com medicação e hábitos saudáveis. Mas, e quando a pressão sobe de repente para níveis altíssimos?

Aí, a situação muda de figura e podemos estar diante de um quadro que exige nossa atenção imediata: as crises hipertensivas.

Dentro das crises, existem duas condições que, embora pareçam semelhantes, têm implicações muito diferentes e exigem abordagens distintas: a emergência hipertensiva e a urgência hipertensiva.

Para nós, profissionais de enfermagem e estudantes de enfermagem, compreender essas diferenças é crucial para uma avaliação rápida e uma conduta que pode salvar a vida ou prevenir danos graves a órgãos.

Vamos desvendar cada uma delas?

O que é uma Crise Hipertensiva?

Crise hipertensiva é o termo utilizado para descrever uma elevação acentuada da pressão arterial, geralmente com valores acima de 180/120 mmHg. Essa condição pode se apresentar com ou sem sinais de lesão aguda em órgãos-alvo como o coração, cérebro, rins ou vasos sanguíneos.

A crise hipertensiva se divide em dois tipos principais:

  • Urgência hipertensiva: quando há elevação da pressão arterial sem sinais de dano imediato a órgãos-alvo.
  • Emergência hipertensiva: quando a elevação pressórica vem acompanhada de comprometimento agudo e progressivo de órgãos vitais.

Emergência Hipertensiva: O Perigo Iminente (Dano em Órgão-Alvo)

Imagine a pressão subindo tanto que começa a “quebrar” ou comprometer o funcionamento de órgãos vitais. Isso é uma emergência hipertensiva. Nela, a pressão arterial elevadíssima está causando ou ameaçando causar danos agudos e progressivos a órgãos como cérebro, coração, rins ou olhos.

Características Principais:

    • Valores de PA: Geralmente PA Sistólica ge 180 mmHg e/ou PA Diastólica ge 120 mmHg.
    • Presença de Lesão em Órgão-Alvo: Este é o critério DEFINIDOR. Não é apenas a pressão alta, mas o efeito que ela está causando no corpo.
    • Sintomas Graves: Os sintomas refletem o comprometimento dos órgãos.
    • Tratamento: Redução imediata e controlada da PA (em minutos a 1 hora), geralmente com medicamentos administrados por via intravenosa (IV) em ambiente de UTI ou emergência. A queda deve ser gradual para evitar hipoperfusão (falta de sangue) em órgãos, mas rápida o suficiente para cessar o dano.

Exemplos de Lesões de Órgão-Alvo e Sintomas:

    • Cérebro:
      • Encefalopatia Hipertensiva: Dor de cabeça intensa, confusão mental, convulsões, coma.
      • AVC (Acidente Vascular Cerebral): Fraqueza ou paralisia de um lado do corpo, dificuldade para falar, desvio de rima labial, alterações visuais súbitas.
      • Hemorragia Intracerebral: Sangramento no cérebro.
    • Coração:
      • Infarto Agudo do Miocárdio (IAM): Dor no peito (angina), que pode irradiar para braço, pescoço.
      • Edema Agudo de Pulmão (EAP): Falta de ar intensa, tosse com expectoração rosada, respiração ofegante.
      • Dissecção Aguda da Aorta: Dor torácica súbita e excruciante, que pode se irradiar para as costas.
    • Rins:
      • Insuficiência Renal Aguda: Diminuição acentuada da produção de urina, inchaço.
    • Olhos:
      • Retinopatia Hipertensiva: Visão turva, perda súbita da visão.
    • Outras: Eclâmpsia (em gestantes), crise adrenérgica.

Cuidados de Enfermagem na Emergência Hipertensiva:

    • Prioridade Absoluta: O paciente com emergência hipertensiva é uma prioridade CÓDIGO VERMELHO.
    • Monitorização Contínua: Monitorar a PA de forma invasiva (cateter arterial) ou não invasiva (aferição frequente), frequência cardíaca, saturação de oxigênio e nível de consciência.
    • Acesso Venoso: Garantir pelo menos dois acessos venosos calibrosos.
    • Administração de Medicação IV: Preparar e infundir medicamentos como Nitroprussiato de Sódio, Labetalol, Nicardipino, conforme prescrição médica, monitorando a resposta do paciente. Esses medicamentos exigem diluição e bomba de infusão.
    • Avaliação Neurológica: Realizar escalas neurológicas (Glasgow, NIHSS, se aplicável) e observar alterações.
    • Sinais e Sintomas: Estar atento aos sintomas relatados pelo paciente e a qualquer mudança no seu quadro.
    • Conforto e Segurança: Manter o paciente em repouso no leito, com cabeceira elevada se houver dispneia, e oferecer suporte emocional.
    • Registro Detalhado: Documentar os horários das aferições de PA, as medicações administradas, as doses e a resposta do paciente.

Urgência Hipertensiva: O Alerta Amarelo (Sem Dano em Órgão-Alvo)

Na urgência hipertensiva, a pressão arterial também está muito alta (geralmente nos mesmos níveis ou um pouco menores que na emergência: PA Sistólica ge 180 mmHg e/ou PA Diastólica ge 120 mmHg), mas a principal diferença é que NÃO há evidência de lesão aguda ou progressiva em órgãos-alvo. Os sintomas, se presentes, são mais inespecíficos.

Características Principais:

    • Valores de PA: Geralmente PA Sistólica ge 180 mmHg e/ou PA Diastólica ge 120 mmHg.
    • Ausência de Lesão Aguda em Órgão-Alvo: Este é o critério DEFINIDOR.
    • Sintomas Inespecíficos: Dor de cabeça leve a moderada, tontura, zumbido no ouvido, sangramento nasal (epistaxe), ansiedade.
    • Tratamento: Redução gradual da PA (em horas a dias), geralmente com medicamentos por via oral (VO). O objetivo é reduzir a pressão em 24-48 horas, sem pressa, para evitar hipoperfusão.
    • Manejo: Pode ser feito em ambulatório ou pronto-socorro, sem necessidade de UTI inicialmente.

Cuidados de Enfermagem na Urgência Hipertensiva:

    • Aferição Precisa da PA: Realizar várias aferições de PA, em ambos os braços, para confirmar os valores.
    • Avaliação de Sintomas: Perguntar sobre dor de cabeça, tontura, alterações visuais, e principalmente, investigar ativamente a presença de sintomas de lesão em órgão-alvo (dispneia, dor no peito, fraqueza em membros, confusão). A ausência desses é o que diferencia da emergência.
    • Acalmar o Paciente: Muitos pacientes ficam ansiosos com a pressão alta, o que pode piorar o quadro. Um ambiente calmo e acolhedor é importante.
    • Administração de Medicação VO: Preparar e administrar medicamentos anti-hipertensivos orais (ex: Captopril, Nifedipino de liberação lenta, Clonidina) conforme prescrição médica.
    • Reavaliação Periódica: Reafirmar a PA e reavaliar os sintomas a cada 30-60 minutos após a administração do medicamento oral, até que a pressão esteja em níveis mais seguros.
    • Orientação ao Paciente: Explicar sobre a importância da adesão ao tratamento, da dieta com baixo teor de sódio, da prática de exercícios e do acompanhamento médico regular.
    • Não Usar Nifedipino Cápsula Sublingual: Essa prática não é recomendada por causar queda brusca e descontrolada da PA, com risco de AVC e IAM.

Como é feito o tratamento?

O tratamento varia de acordo com o tipo de crise hipertensiva.

Na urgência hipertensiva, são utilizados antihipertensivos orais, como captopril, clonidina ou atenolol, com monitoramento em observação por algumas horas.

Já nas emergências hipertensivas, o paciente deve receber antihipertensivos intravenosos de ação rápida, como nitroprussiato de sódio, labetalol ou nitroglicerina, com redução da pressão em ambiente controlado e monitorizado, geralmente na UTI.

O Que Nos Leva a Confundir e Como Evitar?

A confusão entre emergência e urgência é comum porque ambos os quadros apresentam PA muito alta. O segredo para diferenciar é sempre procurar por SINAIS E SINTOMAS DE LESÃO EM ÓRGÃO-ALVO. Se a pressão está alta, mas o paciente está assintomático ou com sintomas leves e inespecíficos, é urgência. Se a pressão está alta e o paciente está com dor no peito, falta de ar, alteração neurológica, é emergência.

Nossa avaliação precisa e a comunicação clara com o médico são a chave para o sucesso no manejo dessas situações. Um erro de classificação pode levar a um tratamento inadequado, com consequências graves para o paciente.

Cuidados de Enfermagem

A enfermagem desempenha um papel essencial no reconhecimento, intervenção e monitoramento de pacientes em crise hipertensiva. Entre os principais cuidados, destacam-se:

Avaliação inicial

  • Verificar os sinais vitais com frequência, especialmente a pressão arterial em intervalos curtos.
  • Avaliar a presença de sintomas neurológicos, dor torácica, dispneia ou alterações na consciência.
  • Observar sinais de edema periférico, palidez, sudorese ou alterações visuais.

Administração medicamentosa

  • Administrar os medicamentos conforme prescrição médica, respeitando a via (oral ou intravenosa) e o tempo correto de infusão.
  • Monitorar os efeitos adversos dos anti-hipertensivos, como hipotensão súbita ou bradicardia.

Apoio emocional

  • Oferecer acolhimento ao paciente, explicando de forma simples o que está acontecendo.
  • Controlar o ambiente para reduzir estímulos estressores, como barulho ou agitação.

Registro e comunicação

  • Registrar todas as alterações no prontuário.
  • Comunicar imediatamente à equipe médica qualquer mudança no estado clínico do paciente.

Entender a diferença entre urgência e emergência hipertensiva é fundamental para que a equipe de enfermagem possa agir com rapidez e precisão. Em ambos os casos, o papel do enfermeiro e do técnico de enfermagem é decisivo na estabilização do paciente e na prevenção de complicações graves.

O conhecimento teórico aliado à prática clínica permite oferecer um cuidado mais seguro, humanizado e eficiente, contribuindo diretamente para a redução da mortalidade por causas cardiovasculares.

Referências:

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). 7ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Rio de Janeiro, v. 116, n. 3, p. 516-658, mar. 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/a/S9Xg4JjV9Qz2Z5T8D9kC7qH/?lang=pt. 
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica: Hipertensão Arterial Sistêmica. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. 
  3. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G.; HINKLE, J. L.; CHEEVER, K. H. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Atendimento das Emergências Hipertensivas. 2022.
  5. SILVA, M. T. et al. Avaliação das Emergências Hipertensivas em Serviços de Urgência. Revista Brasileira de Clínica Médica, São Paulo, v. 19, n. 1, p. 56-63, 2021. Disponível em: https://www.rbcm.org.br
  6. PEARCE, C. J. et al. Crises Hipertensivas: Diagnóstico e Manejo. The New England Journal of Medicine. 2019. Disponível em: https://www.nejm.org