
Vá direto ao ponto!
Antes do diagnóstico, procure o que ameaça a vida
Diante de um paciente instável, a primeira avaliação deve seguir uma sequência estruturada: A — via aérea, B — respiração, C — circulação, D — estado neurológico e E — exposição. O método ABCDE permite identificar problemas potencialmente fatais e tratá-los conforme aparecem, sem esperar concluir toda a avaliação para depois intervir. A recomendação também é reavaliar o paciente após cada intervenção e solicitar ajuda precocemente quando necessário.
A primeira pergunta é sobre a via aérea
Comece observando o paciente. Ele consegue falar? Há roncos, estridor, secreções, vômitos ou sinais de obstrução? Alteração do nível de consciência pode comprometer a proteção da via aérea, principalmente em pacientes muito sonolentos ou inconscientes. Uma via aérea obstruída é uma emergência porque a hipóxia pode evoluir rapidamente para deterioração grave e parada cardiorrespiratória.
Em uma situação típica de plantão, um paciente que estava conversando passa a ficar sonolento e começa a apresentar respiração ruidosa. Antes de procurar a causa daquela alteração neurológica, a equipe precisa olhar para a via aérea e para a respiração. Esse pequeno detalhe muda a prioridade da assistência.
Depois vem a respiração
Com a via aérea avaliada, observe frequência e padrão respiratório, expansibilidade torácica, esforço para respirar, presença de cianose, ausculta pulmonar e saturação de oxigênio. Uma frequência respiratória elevada ou progressivamente crescente pode ser um sinal precoce de deterioração, mesmo antes de ocorrer queda importante da pressão arterial.
É aqui que a avaliação precisa ir além do número mostrado no oxímetro. Um paciente com SpO₂ aparentemente aceitável, mas com esforço respiratório intenso, alteração do nível de consciência ou fadiga progressiva, continua sendo um paciente preocupante. O contexto clínico importa tanto quanto o valor isolado do monitor.
Circulação: não espere a pressão despencar
Na avaliação circulatória, verifique frequência cardíaca, pressão arterial, perfusão periférica, temperatura e coloração da pele, pulsos e tempo de enchimento capilar, além de procurar sinais de sangramento. Um paciente em choque pode inicialmente manter a pressão arterial por mecanismos compensatórios, portanto, pressão normal não exclui deterioração circulatória.
Imagine um paciente pálido, sudorético, taquicárdico e com extremidades frias, mas ainda apresentando pressão arterial dentro do valor habitual. Se a equipe olhar apenas para a pressão, pode subestimar a gravidade. Quando os sinais são analisados em conjunto, a alteração da perfusão ganha outro significado e exige investigação e escalonamento rápidos.
O estado neurológico também conta
Depois de garantir A, B e C, avalie o nível de consciência, resposta a estímulos, pupilas e glicemia. Uma alteração neurológica pode estar relacionada à hipóxia, hipoperfusão, hipoglicemia, medicamentos, intoxicações ou outras causas, por isso a avaliação precisa considerar o quadro inteiro. Escalas como Glasgow ou AVPU podem ajudar a acompanhar a evolução.
A glicemia capilar merece atenção especial porque a hipoglicemia é uma causa potencialmente reversível de alteração do nível de consciência. Ao mesmo tempo, uma queda do estado neurológico em um paciente previamente consciente deve ser comunicada e investigada rapidamente, principalmente quando representa uma mudança em relação ao padrão anterior.
Exposição sem esquecer a segurança
Na etapa E, examine o paciente de maneira direcionada para procurar sangramentos, lesões, alterações cutâneas, edema, sinais de trauma ou outras pistas que ajudem a explicar a instabilidade. A exposição deve preservar a dignidade do paciente e evitar perda desnecessária de calor.
Um ponto importante é que o ABCDE não termina no E. Depois de uma intervenção, a avaliação volta ao início. Se a respiração melhorou após uma intervenção, por exemplo, é preciso confirmar se a frequência respiratória, saturação, esforço e estado geral também evoluíram. A avaliação do paciente instável é dinâmica.
Cuidados de enfermagem
A enfermagem deve reconhecer precocemente a deterioração, iniciar a avaliação sistematizada, monitorizar sinais vitais, verificar glicemia quando indicada, garantir acesso e equipamentos necessários conforme a condição clínica e acionar ajuda sem demora diante de sinais de gravidade.
Também é fundamental registrar tendências, e não apenas números isolados. Comparar pressão, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação e nível de consciência com medidas anteriores pode revelar uma deterioração que ainda não atingiu valores extremos. A comunicação objetiva com a equipe e a reavaliação após as intervenções fazem parte da segurança do paciente.
Paciente Instável O Que Avaliar Primeiro
- Comece pelo ABCDE e trate ameaças imediatas à vida
- Avalie via aérea e respiração antes de buscar o diagnóstico
- Não descarte choque apenas porque a pressão ainda está normal
- Reavalie o paciente após cada intervenção e comunique a deterioração
Referências:
- RESUSCITATION COUNCIL UK. The ABCDE Approach. London: Resuscitation Council UK, atualizado em 2024. Resuscitation Council UK – ABCDE Approach
- AMERICAN HEART ASSOCIATION. Part 7: Adult Basic Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas: American Heart Association, 2025. AHA – Adult Basic Life Support 2025
- AMERICAN HEART ASSOCIATION. Part 9: Adult Advanced Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas: American Heart Association, 2025. AHA – Adult Advanced Life Support 2025










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