
Os cálculos de medicamentos fazem parte da rotina da Enfermagem e estão presentes desde o preparo de um comprimido até situações mais complexas, como infusões contínuas de heparina, insulinoterapia, drogas vasoativas e soluções intravenosas.
Para muitos estudantes, o cálculo de medicamentos costuma ser uma das partes mais assustadoras da graduação ou do curso técnico. A matemática, por si só, nem sempre é o problema. O que costuma gerar insegurança é ter de interpretar uma prescrição, identificar a concentração disponível, escolher a fórmula adequada e, depois, administrar aquele resultado a um paciente real.
É justamente por isso que calcular não deve ser uma atividade baseada apenas em decorar fórmulas.
O profissional precisa entender o que está calculando, qual unidade está utilizando e se o resultado encontrado faz sentido.
O próprio Conselho Federal de Enfermagem destaca que o conhecimento dos fundamentos de aritmética e matemática auxilia na prevenção de erros relacionados ao preparo, à dosagem e à administração de medicamentos. O material do Cofen sobre cálculo seguro foi desenvolvido justamente para facilitar esse aprendizado entre profissionais e estudantes.
Aqui vamos revisar de maneira prática os cálculos mais utilizados na Enfermagem, incluindo gotejamento, comprimidos, insulina, heparina, permanganato de potássio, rediluição e cálculo de glicose, além de exercícios no final para você testar seus conhecimentos.
🚨Aviso importante: os exemplos deste artigo são educacionais. Na prática assistencial, sempre confira a prescrição, a apresentação e concentração do medicamento, a bula, o protocolo institucional e, quando necessário, faça dupla checagem com outro profissional. Medicamentos de alta vigilância, como insulina e heparina, exigem atenção especial.
Por que aprender cálculo de medicamentos é tão importante na Enfermagem?
Um erro matemático pode parecer pequeno no papel. Uma vírgula deslocada, uma unidade interpretada incorretamente ou uma concentração confundida pode transformar uma dose terapêutica em uma dose muito maior ou muito menor. Por isso, cálculo de medicamentos não é apenas uma disciplina da faculdade ou uma questão de prova.
Ele está diretamente relacionado à segurança do paciente. O Cofen destaca que erros relacionados à utilização de medicamentos podem resultar em consequências importantes, incluindo prolongamento da internação, incapacidades e até morte. Na prática, portanto, uma boa regra é: não calcule com pressa.
Se houver dúvida, pare, confira a prescrição, refaça o cálculo e peça ajuda.
Antes de começar qualquer cálculo: organize as informações
Antes de pegar a calculadora, identifique quatro informações:
- O que foi prescrito?
- Quanto existe disponível?
- Em qual volume ou apresentação está disponível?
- Quanto será administrado?
Por exemplo:
Prescrição: 500 mg de determinado medicamento.
Disponível: 1.000 mg em 10 mL.
Você já consegue identificar:
- Dose prescrita = 500 mg
- Dose disponível = 1.000 mg
- Volume disponível = 10 mL
Agora o cálculo fica muito mais simples.
Regra de três na Enfermagem
A regra de três é provavelmente uma das ferramentas mais utilizadas para calcular medicamentos. A estrutura básica é:
Dose disponível → volume disponível
Dose prescrita → X
Então:
X = dose prescrita × volume disponível ÷ dose disponível
Exemplo
Prescrição:
500 mg
Disponível:
1.000 mg em 10 mL
Montando:
1.000 mg → 10 mL
500 mg → X
Então:
X = 500 × 10 ÷ 1.000
X = 5 mL
Portanto, serão administrados 5 mL.
Cuidado com as unidades
Esse é um dos pontos que mais provocam erros. Você não deve simplesmente colocar os números na fórmula sem verificar as unidades.
Por exemplo:
1 g não é 1 mg.
Sabemos que:
1 g = 1.000 mg
Portanto:
0,5 g = 500 mg
2 g = 2.000 mg
Da mesma maneira:
1 mg = 1.000 microgramas (mcg ou µg)
Então:
0,5 mg = 500 mcg
Antes de calcular, deixe as unidades compatíveis.
Conversões que o estudante de Enfermagem precisa dominar
| Unidade | Equivalência |
| 1 g | 1.000 mg |
| 1 mg | 1.000 mcg |
| 1 L | 1.000 mL |
| 1 mL | 1.000 µL |
| 1 hora | 60 minutos |
| 1 minuto | 60 segundos |
Uma dica simples: Se a prescrição está em mg e o frasco está em g, converta antes de calcular.
Cálculo de comprimidos
O cálculo de comprimidos segue a mesma lógica. Imagine:
Prescrição: 750 mg
Disponível: comprimido de 500 mg.
Aplicando a fórmula:
X = 750 × 1 ÷ 500
X = 1,5 comprimido
Portanto, matematicamente, seriam 1,5 comprimido. Mas aqui aparece uma questão importante:
O comprimido pode ser partido?
Nem todo comprimido pode ser dividido. Comprimidos de liberação prolongada, revestimentos específicos e algumas outras formulações não devem ser partidos ou triturados sem confirmação. Portanto, o cálculo matemático pode indicar 1,5 comprimido, mas a forma farmacêutica precisa ser avaliada antes da administração.
Outro exemplo de comprimidos
Prescrição:
1.200 mg
Disponível:
400 mg por comprimido
Cálculo:
1.200 ÷ 400 = 3
Resultado:
3 comprimidos.
Nesse caso, a conta é direta.
Cálculo de soluções líquidas
Imagine:
Prescrição: 250 mg
Disponível: 500 mg/5 mL.
Montamos:
500 mg → 5 mL
250 mg → X
X = 250 × 5 ÷ 500
X = 2,5 mL
Resultado:
2,5 mL.
Cálculo de gotejamento
O cálculo de gotejamento é outro clássico da Enfermagem. É utilizado para determinar quantas gotas por minuto devem ser administradas em uma infusão gravitacional. A fórmula depende do fator de gotas do equipo.
Nos exemplos didáticos tradicionais:
Equipo macrogotas = 20 gotas/mL
Equipo microgotas = 60 microgotas/mL
Mas o profissional deve conferir a especificação do equipo utilizado, pois o fator de gotejamento deve ser o informado pelo fabricante.
Fórmula de macrogotas
Quando o equipo possui fator de 20 gotas/mL:
Gotas/min = Volume (mL) × 20 ÷ tempo (min)
Exemplo
Prescrição:
500 mL para correr em 4 horas.
Primeiro transforme horas em minutos:
4 × 60 = 240 minutos
Agora:
500 × 20 ÷ 240
= 41,66
Arredondando:
aproximadamente 42 gotas/minuto.
Fórmula de microgotas
Para um equipo de 60 microgotas/mL:
Microgotas/min = Volume × 60 ÷ tempo em minutos
Observe uma particularidade interessante. Quando o fator é exatamente 60 microgotas/mL, podemos simplificar:
microgotas/min = mL/h
Por exemplo:
500 mL em 4 horas:
500 ÷ 4 = 125 mL/h
Portanto:
125 microgotas/minuto.
Fórmula prática para macrogotas
Também podemos calcular diretamente usando horas:
Gotas/min = Volume × fator de gotas ÷ (tempo em horas × 60)
Para macrogotas de 20 gotas/mL:
Gotas/min = Volume × 20 ÷ (horas × 60)
Cálculo de mL/h
Quando utilizamos uma bomba de infusão, normalmente trabalhamos com mL/h. A fórmula é:
mL/h = volume total ÷ tempo em horas
Exemplo
1.000 mL para correr em 8 horas:
1.000 ÷ 8 = 125 mL/h
Programação:
125 mL/h
Uma diferença que o estudante precisa entender
Gotas/minuto e mL/h não são a mesma unidade. Gotas/minuto é utilizado principalmente quando precisamos controlar uma infusão por gotejamento gravitacional. mL/h é a unidade utilizada para programar a velocidade volumétrica em uma bomba de infusão, não confunda as duas.
Cálculo de insulina
A insulina merece atenção especial porque é considerada um medicamento de alta vigilância. Por isso, além do cálculo, é fundamental conferir:
- tipo de insulina;
- concentração;
- dose prescrita;
- via;
- seringa/dispositivo adequado;
- horário;
- glicemia quando indicada;
- dupla checagem conforme protocolo institucional.
O Cofen também destaca, em conteúdo educativo recente sobre cálculo seguro, a importância da dupla checagem especialmente para medicamentos de alta vigilância, incluindo insulina e heparina.
Insulina U-100
Uma apresentação muito comum é:
U-100
Isso significa:
100 unidades de insulina por mL.
Portanto:
1 mL = 100 UI
0,5 mL = 50 UI
0,1 mL = 10 UI
0,01 mL = 1 UI
Porém, quando se utiliza seringa própria para insulina compatível com a concentração, a dose normalmente é lida diretamente em unidades.
Exemplo de cálculo de insulina
Prescrição:
20 UI
Disponível:
U-100 = 100 UI/mL
Pela relação:
100 UI → 1 mL
20 UI → X
X = 20 × 1 ÷ 100
X = 0,2 mL
Portanto:
20 UI = 0,2 mL de U-100.
Na prática, se estiver utilizando uma seringa de insulina adequada para U-100, a marcação correspondente a 20 unidades é utilizada, conforme o dispositivo e protocolo.
Atenção: nem toda insulina é U-100
Esse é um ponto muito importante, nunca presuma a concentração. Existem diferentes concentrações e apresentações de insulina, portanto, antes de calcular:
leia o rótulo.
Nunca administre uma insulina apenas porque “a quantidade em unidades parece correta”.
Confirme:
nome da insulina + concentração + dose prescrita + dispositivo.
Cálculo de heparina
A heparina é outro medicamento que merece atenção especial. É possível encontrar apresentações em diferentes concentrações, por isso nunca use uma concentração decorada como se fosse universal, sempre confira o frasco ou ampola.
Heparina em bolus: exemplo
Suponha:
Prescrição: 2.500 UI
Disponível:
5.000 UI/mL
Cálculo:
5.000 UI → 1 mL
2.500 UI → X
X = 2.500 × 1 ÷ 5.000
X = 0,5 mL
Resultado:
0,5 mL.
Esse é apenas um exemplo matemático. A concentração real deve ser conferida na apresentação disponível.
Heparina em infusão contínua
Imagine uma solução preparada com:
25.000 UI em 250 mL
Primeiro encontramos a concentração:
25.000 ÷ 250
= 100 UI/mL
Agora suponha uma prescrição de:
1.200 UI/h
Então:
100 UI → 1 mL
1.200 UI → X
X = 1.200 ÷ 100
X = 12 mL/h
A bomba seria programada para:
12 mL/h
desde que esse seja efetivamente o preparo e a prescrição definidos para o paciente.
Cálculo de permanganato de potássio
O permanganato de potássio merece uma atenção especial porque é um exemplo clássico em exercícios de Enfermagem, mas sua utilização clínica deve seguir prescrição, indicação e protocolo institucional. Uma concentração bastante conhecida nos exercícios é:
1:10.000
Essa proporção significa:
1 g de permanganato para 10.000 mL de solução.
Como:
1 g = 1.000 mg
temos:
1.000 mg ÷ 10.000 mL = 0,1 mg/mL.
Também podemos expressar:
1:10.000 = 0,01%
quando a proporção é massa/volume.
Como transformar porcentagem em gramas?
Essa é uma das perguntas mais comuns em provas, a definição básica é:
1% = 1 g em 100 mL
Portanto:
| Concentração | Quantidade em 100 mL |
| 0,01% | 0,01 g |
| 0,05% | 0,05 g |
| 0,1% | 0,1 g |
| 0,5% | 0,5 g |
| 1% | 1 g |
| 2% | 2 g |
| 5% | 5 g |
| 10% | 10 g |
| 20% | 20 g |
| 25% | 25 g |
| 40% | 40 g |
| 50% | 50 g |
A partir daí, podemos calcular qualquer volume.
Quantas gramas de glicose existem em cada porcentagem?
Essa é uma informação muito útil para estudantes de Enfermagem. Quando falamos em uma solução de glicose X%, estamos normalmente expressando:
X gramas de glicose em 100 mL de solução.
Assim:
Glicose 5%
5 g/100 mL
Em 500 mL:
25 g
Em 1.000 mL:
50 g
Glicose 10%
10 g/100 mL
Em 500 mL:
50 g
Em 1.000 mL:
100 g
Glicose 20%
20 g/100 mL
Em 500 mL:
100 g
Em 1.000 mL:
200 g
Glicose 25%
25 g/100 mL
Em 500 mL:
125 g
Em 1.000 mL:
250 g
Glicose 40%
40 g/100 mL
Em 500 mL:
200 g
Em 1.000 mL:
400 g
Glicose 50%
50 g/100 mL
Em 500 mL:
250 g
Em 1.000 mL:
500 g
Tabela completa de glicose para estudar
| Solução | g/100 mL | g/500 mL | g/1.000 mL |
| Glicose 5% | 5 g | 25 g | 50 g |
| Glicose 10% | 10 g | 50 g | 100 g |
| Glicose 20% | 20 g | 100 g | 200 g |
| Glicose 25% | 25 g | 125 g | 250 g |
| Glicose 40% | 40 g | 200 g | 400 g |
| Glicose 50% | 50 g | 250 g | 500 g |
Essa tabela pode ser muito útil para revisão antes de uma prova.
Como calcular a quantidade de glicose em um volume diferente?
Imagine:
Quantos gramas de glicose existem em 250 mL de glicose 10%?
Sabemos:
10% = 10 g em 100 mL.
Então:
100 mL → 10 g
250 mL → X
X = 250 × 10 ÷ 100
X = 25 g
Portanto:
250 mL de glicose 10% contêm 25 g de glicose.
Um detalhe importante sobre soluções de glicose
A porcentagem indica a concentração da solução, mas o profissional deve observar a apresentação real do produto, incluindo volume, concentração e informações do fabricante.
Não confunda:
glicose 5%
com
glicose 50%.
A diferença é enorme.
Glicose 5%:
5 g/100 mL
Glicose 50%:
50 g/100 mL
Ou seja, a solução 50% possui dez vezes mais glicose por volume que a solução 5%.
Rediluição de medicamentos
A rediluição é utilizada quando a quantidade de medicamento que precisamos retirar diretamente do frasco é muito pequena para ser medida com precisão ou quando o protocolo determina uma concentração intermediária para facilitar a administração.
O raciocínio é:
- retirar uma quantidade conhecida do medicamento;
- adicionar diluente;
- obter uma concentração conhecida;
- retirar dessa nova solução o volume necessário.
Exemplo didático de rediluição
Imagine:
Frasco: 500 mg em 2 mL
E precisamos administrar:
25 mg
Diretamente:
500 mg → 2 mL
25 mg → X
X = 25 × 2 ÷ 500
X = 0,1 mL
Embora matematicamente possível, 0,1 mL pode ser um volume pequeno para determinadas situações. Suponha então que, conforme protocolo institucional, façamos uma diluição intermediária utilizando:
1 mL da solução do medicamento + 9 mL de diluente = 10 mL
A quantidade de medicamento presente naquele 1 mL é:
500 mg → 2 mL
Portanto:
1 mL contém 250 mg.
Depois da rediluição:
250 mg em 10 mL
Logo:
25 mg/mL
Agora precisamos de 25 mg:
25 mg → 1 mL
Portanto:
1 mL da solução rediluída = 25 mg.
📢 Atenção: rediluição não é simplesmente “completar até 10 mL”
Essa é uma fonte comum de erro. Existe diferença entre:
adicionar 10 mL de diluente
e
obter volume final de 10 mL.
Se o protocolo determina:
“Diluir para volume final de 10 mL”
a quantidade de medicamento já ocupa determinado volume. Portanto, o diluente necessário deve ser calculado de modo que o volume final seja 10 mL. Isso é diferente de simplesmente acrescentar 10 mL.
Como evitar esse erro?
Escreva sempre:
Volume do medicamento = X mL
Volume de diluente = Y mL
Volume final = Z mL
Por exemplo:
1 mL de medicamento
- 9 mL de diluente
= 10 mL finais.
Essa anotação simples ajuda muito.
Cálculo de concentração após diluição
Imagine:
1.000 mg em 10 mL
A concentração é:
1.000 ÷ 10
= 100 mg/mL
Se retirarmos 2 mL:
2 × 100
= 200 mg
Essa lógica pode ser usada para conferir se o cálculo realizado faz sentido.
Cálculo por fórmula
Outra fórmula bastante utilizada é:
Dose desejada × volume disponível ÷ dose disponível
Ou:
X = D × V ÷ H
Onde:
D = dose desejada
V = volume disponível
H = dose que há no frasco/ampola
Exemplo completo
Prescrição:
750 mg
Frasco:
1.000 mg em 10 mL
Aplicando:
X = 750 × 10 ÷ 1.000
X = 7,5 mL
Resposta:
7,5 mL
E quando a prescrição está em gramas?
Suponha:
Prescrição: 1,5 g
Disponível:
500 mg em 5 mL
Primeiro:
1,5 g = 1.500 mg
Agora:
500 mg → 5 mL
1.500 mg → X
X = 1.500 × 5 ÷ 500
X = 15 mL
Cálculo de dose por peso
Outro cálculo muito frequente é:
mg/kg/dose
ou
mg/kg/dia.
Imagine uma prescrição de:
10 mg/kg/dose
Paciente:
20 kg
Então:
10 × 20
= 200 mg por dose
Se a solução disponível for:
100 mg/5 mL
Então:
100 mg → 5 mL
200 mg → X
X = 10 mL
Resultado:
10 mL por dose.
Mas atenção: em pediatria, cálculos por peso e volume devem ser conferidos cuidadosamente, inclusive quanto à dose máxima diária, frequência, concentração e protocolo específico.
Quando a prescrição é em mg/kg/dia
Aqui existe uma diferença importante, imagine:
30 mg/kg/dia
Paciente:
20 kg
Primeiro:
30 × 20 = 600 mg/dia
Se a prescrição for dividida em três administrações:
600 ÷ 3 = 200 mg por dose
Ou seja:
200 mg a cada administração, se a divisão em três doses estiver prevista.
Não confunda:
mg/kg/dose
com
mg/kg/dia.
Cálculo de vazão em bomba
Imagine:
100 mL para correr em 30 minutos.
Primeiro transforme 30 minutos em horas:
30 ÷ 60 = 0,5 hora
Agora:
100 ÷ 0,5
= 200 mL/h
Portanto:
200 mL/h
Cálculo de tempo de infusão
Também podemos fazer o contrário.
Se temos:
500 mL
e uma velocidade de:
100 mL/h
Então:
500 ÷ 100
= 5 horas
Portanto, a solução levará:
5 horas.
Como saber se sua resposta faz sentido?
Essa é uma habilidade que diferencia quem apenas aplica fórmula de quem realmente entende o cálculo, imagine:
1.000 mL em 10 horas.
Você encontrou:
10 mL/h.
Pare.
Isso parece correto?
Não.
Se 1.000 mL precisam ser administrados em 10 horas, esperamos aproximadamente:
100 mL/h.
Portanto, sempre faça uma estimativa mental antes de aceitar o resultado.
Erros que mais aparecem nos cálculos de Enfermagem
Alguns erros são extremamente comuns.
Confundir mg com g
1 g = 1.000 mg
Não pule essa conversão.
Confundir mL com gotas
mL é volume.
Gotas é quantidade de gotas.
São grandezas diferentes.
Esquecer de converter horas em minutos
Se a fórmula exige minutos:
1 hora = 60 minutos.
Utilizar a concentração errada
Sempre leia novamente o rótulo.
Ignorar o fator de gotas do equipo
Confira se é macrogotas ou microgotas e qual fator está indicado pelo fabricante.
Deslocar a vírgula
Esse erro pode multiplicar ou dividir a dose por 10.
Não conferir o resultado
Depois do cálculo, pergunte:
“Essa resposta faz sentido?”
Cálculo de medicamentos e os “certos” da administração
O cálculo não deve ser separado do processo de administração segura. O profissional deve conferir o paciente, medicamento, dose, via, horário e demais elementos previstos nos protocolos e práticas de segurança adotados pelo serviço. O conteúdo educativo do Cofen sobre cálculo seguro reforça justamente a importância das barreiras de segurança e da dupla checagem para medicamentos de maior risco.
Além disso, o Cofen publicou em 2026 a Resolução nº 801, que estabelece diretrizes para prescrição de medicamentos pelo enfermeiro e reforça a necessidade de protocolos, identificação adequada e rastreabilidade. Isso demonstra que cálculo, prescrição, preparo, administração e registro fazem parte de um processo de segurança muito maior.
Cuidados de Enfermagem antes de administrar uma medicação calculada
Antes da administração:
- Leia a prescrição com atenção.
- Identifique o paciente corretamente.
- Confira alergias.
- Confira o medicamento.
- Confira a concentração.
- Confira a validade.
- Confira a via.
- Confira a dose calculada.
- Confira o diluente e volume final quando aplicável.
- Verifique compatibilidade quando houver mais de uma solução.
- Faça dupla checagem quando indicada pelo protocolo.
- Confirme se o resultado do cálculo é clinicamente plausível.
Cuidados especiais com medicamentos de alta vigilância
Alguns medicamentos exigem atenção redobrada porque pequenos erros podem produzir consequências graves. Entre eles estão, conforme protocolos institucionais e classificações de segurança:
- insulina;
- heparina e outros anticoagulantes;
- opioides;
- eletrólitos concentrados;
- algumas drogas vasoativas;
- determinados sedativos e anestésicos.
O Cofen cita especificamente insulina, heparina e drogas vasoativas como exemplos de medicamentos para os quais a dupla checagem é especialmente importante em seu conteúdo educativo sobre cálculos.
Uma experiência que ajuda muito: escreva o cálculo
No estágio, pode parecer mais rápido fazer tudo mentalmente. Mas, principalmente quando você ainda está aprendendo, escreva.
Por exemplo:
Prescrito: 500 mg
Disponível: 1.000 mg/10 mL
Depois:
1.000 mg → 10 mL
500 mg → X
Então:
X = 500 × 10 ÷ 1.000
X = 5 mL
Essa sequência permite que outra pessoa confira seu raciocínio.
A calculadora pode ser utilizada?
Sim, uma calculadora pode ser uma excelente ferramenta para reduzir erros aritméticos. O problema não é utilizar calculadora. O problema é digitar uma informação errada na calculadora e aceitar o resultado sem verificar. Uma calculadora não sabe se você colocou:
500 mg
ou
5.000 mg.
Ela apenas calcula aquilo que você informou.
Portanto:
interpretação correta + fórmula correta + calculadora + conferência
é muito mais seguro do que confiar apenas na memória.
Exercícios de cálculo de medicamentos para praticar
Agora vamos colocar o conhecimento em prática. Tente resolver primeiro sem olhar as respostas.
Exercício 1 — Comprimidos
Foi prescrito:
750 mg
O comprimido disponível possui:
500 mg
Quantos comprimidos devem ser administrados?
Exercício 2 — Solução oral
Prescrição:
300 mg
Disponível:
600 mg em 10 mL
Quantos mL devem ser administrados?
Exercício 3 — Gotejamento
Uma solução de:
500 mL
deve ser administrada em:
5 horas.
Considerando equipo de 20 gotas/mL, quantas gotas por minuto devem ser administradas?
Exercício 4 — Microgotas
Uma solução de:
300 mL
deve correr em:
3 horas.
Considerando equipo de 60 microgotas/mL, qual será o gotejamento em microgotas/minuto?
Exercício 5 — Bomba de infusão
Uma solução de:
1.000 mL
deve ser administrada em:
10 horas.
Qual velocidade deve ser programada na bomba?
Exercício 6 — Insulina
Prescrição:
18 UI de insulina U-100.
Qual o volume correspondente em mL?
Exercício 7 — Heparina
Prescrição:
2.500 UI
Disponível:
5.000 UI/mL
Qual volume deve ser administrado?
Exercício 8 — Heparina em infusão
Uma solução contém:
25.000 UI em 250 mL.
A prescrição determina:
1.000 UI/h.
Qual velocidade deve ser programada em mL/h?
Exercício 9 — Glicose
Quantos gramas de glicose existem em:
500 mL de glicose 10%?
Exercício 10 — Glicose
Quantos gramas de glicose existem em:
250 mL de glicose 20%?
Exercício 11 — Glicose
Quantos gramas de glicose existem em:
1.000 mL de glicose 5%?
Exercício 12 — Permanganato
Considerando a concentração didática de 1:10.000, quantos miligramas de permanganato correspondem a 1.000 mL de solução?
Exercício 13 — Rediluição
Um medicamento possui:
500 mg em 2 mL.
Conforme um protocolo hipotético, você retira 1 mL e dilui até um volume final de 10 mL. Qual será a concentração final em mg/mL?
Exercício 14 — Rediluição
Utilizando a solução do exercício anterior, quantos mL da solução rediluída correspondem a:
25 mg?
Exercício 15 — Dose por peso
Um medicamento foi prescrito na dose de:
10 mg/kg/dose
para um paciente de:
25 kg.
Qual será a dose em mg por administração?
Respostas dos exercícios
Exercício 1
750 mg ÷ 500 mg
Resposta: 1,5 comprimido.
A possibilidade de fracionamento deve ser confirmada para a apresentação farmacêutica utilizada.
Exercício 2
600 mg → 10 mL
300 mg → X
X = 300 × 10 ÷ 600
Resposta: 5 mL.
Exercício 3
5 horas × 60 = 300 minutos
Gotas/min:
500 × 20 ÷ 300
= 33,33
Resposta: aproximadamente 33 gotas/minuto.
O arredondamento deve seguir a prática e o protocolo do serviço.
Exercício 4
3 horas × 60 = 180 minutos
300 × 60 ÷ 180
= 100
Resposta: 100 microgotas/minuto.
Pela relação prática:
300 mL ÷ 3 horas = 100 mL/h
e, em equipo de 60 microgotas/mL, corresponde a 100 microgotas/minuto.
Exercício 5
1.000 ÷ 10
Resposta: 100 mL/h.
Exercício 6
100 UI → 1 mL
18 UI → X
X = 18 ÷ 100
Resposta: 0,18 mL.
Em uma seringa própria para U-100, a dose deve ser conferida pela graduação correspondente em unidades.
Exercício 7
5.000 UI → 1 mL
2.500 UI → X
X = 2.500 ÷ 5.000
Resposta: 0,5 mL.
Exercício 8
Primeiro:
25.000 UI ÷ 250 mL
= 100 UI/mL
Agora:
1.000 UI/h ÷ 100 UI/mL
Resposta: 10 mL/h.
Exercício 9
Glicose 10%:
10 g → 100 mL
500 mL:
10 × 500 ÷ 100
Resposta: 50 g.
Exercício 10
Glicose 20%:
20 × 250 ÷ 100
Resposta: 50 g.
Exercício 11
Glicose 5%:
5 × 1.000 ÷ 100
Resposta: 50 g.
Exercício 12
1:10.000 significa:
1 g → 10.000 mL
1.000 mL → X
X = 1 × 1.000 ÷ 10.000
= 0,1 g
Como:
0,1 g = 100 mg
Resposta: 100 mg.
Exercício 13
O medicamento possui:
500 mg em 2 mL.
Em 1 mL:
250 mg.
Esse 1 mL foi diluído até volume final de 10 mL:
250 mg ÷ 10 mL
Resposta: 25 mg/mL.
Exercício 14
A solução possui:
25 mg/mL.
Para administrar 25 mg:
25 ÷ 25 = 1 mL.
Resposta: 1 mL.
Exercício 15
10 mg/kg × 25 kg
Resposta: 250 mg por dose.
Como estudar cálculos de Enfermagem sem decorar dezenas de fórmulas
Uma estratégia que costuma funcionar muito bem é dominar primeiro uma fórmula principal:
X = dose desejada × volume disponível ÷ dose disponível
Depois, entender as conversões:
g ↔ mg ↔ mcg
L ↔ mL
horas ↔ minutos
E, por fim, aprender as particularidades de:
- gotejamento;
- insulina;
- heparina;
- rediluição;
- porcentagens;
- dose por peso.
Quando você entende a lógica, percebe que muitos cálculos diferentes são apenas variações do mesmo raciocínio.
Uma dica de ouro para a prova e para o estágio
Sempre faça três perguntas antes de aceitar sua resposta:
- Minha unidade está correta?
Se a pergunta pede mL e você encontrou mg, alguma coisa está errada.
- Meu número faz sentido?
Se uma dose pequena resultou em 50 mL, pare e revise.
- Eu usei a concentração correta?
Leia novamente o rótulo. Esses três passos conseguem identificar muitos erros antes que eles cheguem ao paciente.
Cálculo seguro é mais importante que cálculo rápido
Existe uma pressão muito comum durante o estágio:
“Preciso fazer rápido porque o plantão está corrido.”
Mas velocidade não deve ser colocada acima da segurança. O Cofen reforça que o domínio dos cálculos e diluições contribui para a prevenção de erros de preparo, dosagem e administração. No ambiente real, portanto, não há problema em parar por alguns segundos, pegar uma calculadora, escrever a fórmula e pedir uma segunda conferência.
“O objetivo não é ser o profissional que calcula mais rápido. É ser o profissional que calcula corretamente e consegue explicar como chegou ao resultado.”
Os cálculos de Enfermagem não precisam ser vistos como um bicho de sete cabeças. Gotejamento, comprimidos, soluções, insulina, heparina, permanganato, rediluição e cálculo de glicose podem parecer assuntos diferentes, mas todos partem de princípios matemáticos relativamente simples.
O que realmente exige atenção é a interpretação da prescrição, a identificação correta da concentração disponível e o controle das unidades. Na prática, uma pequena conta pode representar uma grande diferença na segurança do paciente.
Por isso, desenvolva o hábito de:
- ler;
- converter;
- calcular;
- conferir;
- questionar;
- e só então administrar.
E lembre-se de que o cálculo é apenas uma etapa. A administração segura também envolve identificação do paciente, medicamento, dose, via, horário, diluição, compatibilidade, monitorização, registro e cumprimento dos protocolos institucionais.
A própria orientação atual do Cofen reforça a importância de protocolos e segurança no processo relacionado aos medicamentos, enquanto seus materiais educacionais sobre cálculo seguro destacam a necessidade de conhecimento matemático e de estratégias de prevenção de erros.
Na Enfermagem, saber fazer a conta é importante. Saber conferir a conta antes de administrar é ainda mais importante.
Referências:
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Boas práticas: Cálculo Seguro – Volume II: Cálculo e diluição de medicamentos. Brasília, DF: Cofen, 2018. Disponível em: Biblioteca Virtual de Enfermagem – Cofen.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Segurança nos cálculos e diluições de medicamentos. Brasília, DF: Cofen, 2017. Disponível em: Biblioteca Virtual de Enfermagem – Cofen.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Enfermagem sem erros: cálculo de medicamentos descomplicado. Brasília, DF: Cofen, 2026. Disponível em: Biblioteca Virtual de Enfermagem – Cofen.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 801, de 14 de janeiro de 2026. Estabelece diretrizes para a prescrição de medicamentos pelo enfermeiro e dá outras providências. Brasília, DF: Cofen, 2026. Disponível em: Resolução Cofen nº 801/2026.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Cofen publica resolução que consolida diretrizes para prescrição de medicamentos por enfermeiros. Brasília, DF: Cofen, 2026. Disponível em: Cofen – Resolução sobre prescrição de medicamentos.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Segurança do paciente e segurança na utilização de medicamentos. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Segurança do paciente.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Guia para a segurança do paciente em serviços de saúde: administração de medicamentos. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/seguranca-do-paciente.
- CLINICAL CALCULATIONS MADE EASY. Manual de matemática aplicada à enfermagem e farmacologia clínica. São Paulo: Editora Erica, 2023. Disponível em: https://www.bibliotecavirtual.br/ (Nota: consulte os protocolos internos da sua instituição de ensino ou hospital para diretrizes complementares).
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 724/2023: Normas de atuação e segurança na administração de medicamentos pela equipe de enfermagem. Brasília, 2023. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/.
































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