Quedas Pediátricas: Como Prevenir no Hospital

Quedas Pediátricas: Como Prevenir no Hospital

Uma criança pode cair em poucos segundos, inclusive quando está acompanhada. Na rotina hospitalar, o risco muda conforme a idade, a mobilidade, o uso de medicamentos e o próprio ambiente. Por isso, a prevenção precisa ser contínua, com medidas adaptadas ao desenvolvimento infantil e às condições clínicas de cada paciente.

Segurança que acompanha cada movimento

Crianças pequenas podem tentar sair do berço sem que o acompanhante perceba, enquanto as maiores podem levantar sozinhas para alcançar um brinquedo ou ir ao banheiro. Imagine uma criança internada que, após melhorar da febre, fica mais ativa e tenta descer da cama para pegar um objeto no chão. A mudança de comportamento pode passar despercebida se o risco de queda não for reavaliado durante o plantão.

O ambiente também merece atenção. Grades devem permanecer elevadas conforme a indicação e o protocolo institucional, travas de camas e berços precisam ser conferidas, e objetos de uso frequente devem ficar ao alcance do adulto responsável. Durante o banho, a troca de fraldas e a transferência para a poltrona, a criança nunca deve ser deixada sozinha em superfícies elevadas. Essas medidas estão alinhadas às orientações de segurança do paciente pediátrico da Agência Nacional de Segurança do Paciente (NHS England) e às recomendações de prevenção de quedas em serviços de saúde.

Outro cenário comum ocorre quando um responsável se afasta por alguns instantes para buscar roupas ou atender ao telefone, deixando a criança sobre o leito. Nessa situação, a equipe deve orientar que o bebê seja colocado em um local seguro antes do afastamento, mesmo que pareça estar dormindo. A orientação precisa ser acolhedora e objetiva, sem culpabilizar a família, que deve ser incluída como parceira na prevenção.

Cuidados de enfermagem

Na admissão e ao longo da internação, avalie o risco de queda conforme a idade, o desenvolvimento, o estado de consciência, a marcha, os medicamentos e o histórico de quedas. Mantenha o leito ou berço em posição baixa quando aplicável, acione as travas, organize fios e equipamentos para evitar tropeços e auxilie a criança nas mobilizações. Oriente os responsáveis sobre supervisão contínua e registre a avaliação, as orientações fornecidas e as medidas preventivas adotadas, conforme o protocolo da instituição.

A prevenção eficaz não depende apenas de grades ou avisos na parede: ela exige que a equipe antecipe o próximo movimento da criança e adapte o cuidado a cada etapa do desenvolvimento.

Resumo para salvar

Quedas Pediátricas: Como Prevenir no Hospital

  • Reavalie o risco de queda durante a internação
  • Mantenha berços e camas seguros e travados
  • Oriente os responsáveis sobre supervisão contínua
  • Registre a avaliação e as medidas preventivas adotadas

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Assistência Segura: uma reflexão teórica aplicada à prática. Brasília, DF: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/caderno-1-assistencia-segura-uma-reflexao-teorica-aplicada-a-pratica.pdf.
  2. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Falls in older people: assessing risk and prevention. London: NICE, 2013. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/cg161.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde; AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA); FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (Fiocruz). Protocolo prevenção de quedas. Brasília, DF, 2013. Disponível em: https://bibliotecadigital.anvisa.gov.br/jspui/handle/anvisa/1777.
  4. CLINICAL EXCELLENCE COMMISSION. Paediatric Fall and Entrapment Prevention and Management Guideline. Sydney: NSW Health, 2020. Disponível em: https://www.cec.health.nsw.gov.au/__data/assets/pdf_file/0008/598067/Paediatric-Fall-and-Entrapment-Prevention-and-Management-Guideline.pdf.
  5. ROYAL CHILDREN’S HOSPITAL MELBOURNE. Falls prevention. Melbourne: RCH. Disponível em: https://www.rch.org.au/rchcpg/hospital_clinical_guideline_index/falls_prevention/.

Maus-Tratos: Sinais que a Enfermagem Deve Reconhecer

Maus-Tratos: Sinais que a Enfermagem Deve Reconhecer

Nem toda vítima de maus-tratos consegue contar o que está acontecendo. Às vezes, o sinal mais importante surge durante um banho no leito, uma troca de roupa ou uma conversa aparentemente comum: uma lesão sem explicação coerente, medo intenso diante de determinado acompanhante ou uma mudança repentina de comportamento. A enfermagem precisa reconhecer esses sinais sem tirar conclusões precipitadas, acolhendo a pessoa e priorizando sua segurança.

Sinais que merecem atenção

Os indícios podem incluir hematomas em diferentes regiões do corpo, lesões sem explicação compatível, marcas de contenção, desidratação, desnutrição, higiene precária e feridas sem cuidados adequados. Também devem ser observados o medo excessivo, o isolamento, a mudança brusca de comportamento e a reação de ansiedade na presença de determinado acompanhante. Esses sinais não comprovam, isoladamente, a ocorrência de violência, mas justificam uma avaliação cuidadosa.

Durante um banho no leito, por exemplo, podem ser identificadas equimoses nas costas de um paciente que não consegue explicar como se machucou. A enfermagem deve registrar a localização e as características das lesões, avaliar a condição clínica e comunicar a suspeita ao enfermeiro responsável, sem sugerir respostas ou confrontar precipitadamente o possível agressor.

Em outro atendimento, uma pessoa pode ficar visivelmente assustada quando o acompanhante responde por ela ou impede que converse com a equipe em particular. Quando houver oportunidade segura, a escuta deve ser realizada em ambiente reservado, com perguntas abertas e sem julgamentos. É importante permitir que a pessoa fale no próprio ritmo, sem pressioná-la a revelar detalhes para os quais ainda não se sente preparada.

Cuidados de enfermagem

A assistência deve ser conduzida com privacidade, acolhimento e respeito à autonomia, priorizando o tratamento das lesões e a segurança imediata. Registre objetivamente os achados, as falas relevantes da pessoa e as providências adotadas, distinguindo o que foi observado daquilo que foi relatado. Evite conclusões acusatórias, promessas de sigilo absoluto ou qualquer abordagem que possa aumentar o risco para a vítima.

A suspeita de violência deve seguir o fluxo institucional de notificação e encaminhamento à rede de proteção. No Brasil, casos suspeitos ou confirmados de violência interpessoal estão sujeitos à notificação compulsória pelos serviços de saúde, conforme as normas vigentes; também podem existir obrigações específicas de comunicação conforme a idade e a condição da vítima. A notificação em saúde não deve ser confundida com a investigação criminal.

Reconhecer maus-tratos exige observação clínica, escuta qualificada e ação responsável. Muitas vezes, a oportunidade de identificar o risco surge durante um cuidado cotidiano, e a forma como a equipe reage pode ser decisiva para que a pessoa receba proteção.

Resumo para salvar

Maus-Tratos: Sinais que a Enfermagem Deve Reconhecer

  • Observe lesões sem explicação e mudanças de comportamento
  • Escute a pessoa em ambiente seguro e sem julgamentos
  • Registre objetivamente os achados e as falas relevantes
  • Siga os protocolos de notificação e proteção da vítima

Referências em ABNT

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Viva: instrutivo de notificação de violência interpessoal e autoprovocada. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/viva_instrutivo_violencia_interpessoal_autoprovocada_2ed.pdf.
  2. BRASIL. Lei nº 12.461, de 26 de julho de 2011. Altera a Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, para estabelecer a notificação compulsória dos atos de violência praticados contra a pessoa idosa atendida em serviço de saúde. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 27 jul. 2011. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12461.htm. 

Identificação Incorreta do Paciente: Como Agir

identificação divergente

O erro pode aparecer antes mesmo de qualquer procedimento: uma pulseira com dado errado, uma etiqueta trocada ou um prontuário aberto no paciente errado já representa uma barreira de segurança quebrada. Por isso, identificação não é uma conferência para “cumprir protocolo”; é o que garante que o cuidado planejado chegue à pessoa correta.

O protocolo nacional orienta a utilização de identificadores para confirmar a identidade do paciente antes de medicamentos, exames e procedimentos. Entre os exemplos estão nome completo, data de nascimento e número do prontuário, conforme o protocolo adotado pelo serviço.

Encontrou um dado errado? Pare o processo

Se você percebe que a pulseira, etiqueta, placa do leito ou outro registro apresenta identificação incorreta, não continue o cuidado como se nada tivesse acontecido. Primeiro interrompa o processo que depende daquela identificação e confirme quem é o paciente utilizando os identificadores previstos no protocolo institucional.

Uma situação prática comum acontece na administração de medicamentos: o profissional chega ao leito, confere a pulseira e percebe que a data de nascimento não corresponde ao prontuário eletrônico. Mesmo que o nome pareça correto, a administração deve ser interrompida até que a divergência seja esclarecida. A confirmação ativa da identidade é justamente uma barreira contra erros de medicação e outros incidentes.

Não confirme apenas pelo número do leito

Leito não é identificador seguro do paciente. O mesmo vale para reconhecer alguém apenas pelo rosto, pelo diagnóstico ou pela informação de que “é o paciente da cama 12”.

A identificação deve utilizar os dados definidos pelo protocolo do serviço, com participação ativa do próprio paciente quando ele consegue responder. Quando isso não é possível, devem ser utilizados outros identificadores confiáveis disponíveis no prontuário e na pulseira.

Imagine uma transferência interna durante um plantão movimentado: dois pacientes com nomes semelhantes chegam quase simultaneamente à mesma unidade. A etiqueta de um exame aparece na prancheta errada e só é percebida durante a conferência antes da coleta. É justamente nesse ponto que a checagem interrompe uma sequência que poderia terminar com exame realizado no paciente errado.

E se o procedimento já aconteceu?

Se a identificação incorreta foi percebida depois que um medicamento, exame ou procedimento já foi realizado, a situação muda de gravidade. A equipe deve comunicar imediatamente o enfermeiro e os profissionais responsáveis, avaliar o paciente e seguir o protocolo institucional para gerenciamento e notificação do incidente.

Também é fundamental registrar de forma objetiva o que aconteceu, quais medidas foram tomadas e qual foi a resposta do paciente. A rastreabilidade faz parte da segurança e permite que o serviço investigue a falha e estabeleça medidas para evitar recorrência. O Cofen reforça a importância do registro fidedigno e tempestivo das informações relacionadas ao cuidado.

Cuidados de enfermagem

Na prática, diante de uma identificação incorreta:

  • interrompa o cuidado que depende daquela identificação;
  • confirme o paciente usando os identificadores estabelecidos pelo serviço;
  • corrija a pulseira, etiqueta ou cadastro conforme o fluxo institucional;
  • comunique a divergência ao enfermeiro e aos setores envolvidos;
  • se já houve algum procedimento, avalie o paciente e siga o protocolo de incidente;
  • registre o ocorrido e as condutas realizadas.

A identificação correta deve funcionar como uma barreira presente durante todo o cuidado, e não somente na admissão. O próprio Ministério da Saúde mantém a identificação do paciente como um dos protocolos básicos de segurança, com finalidade de reduzir incidentes relacionados ao cuidado.

Para guardar no plantão

Identificação errada encontrada? Pare, confirme, corrija e comunique.

Não tente “resolver rápido” apenas trocando uma etiqueta ou seguindo pelo número do leito. Primeiro garanta quem é o paciente; depois, regularize os registros e siga o fluxo de segurança da instituição.

Resumo para salvar

Identificação Incorreta do Paciente

  • Pare o cuidado e confirme a identidade
  • Use os identificadores do protocolo
  • Comunique e corrija a divergência
  • Registre e siga o fluxo de incidente

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Identificação do Paciente. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Atualizado em 23 mar. 2026. Disponível em: Ministério da Saúde – Identificação do Paciente.
  2. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Protocolo implantado de identificação do paciente. Brasília, DF: Anvisa, 2025. Disponível em: Anvisa – Protocolo de Identificação do Paciente.
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. 10 Passos para a Segurança do Paciente. Brasília, DF: Cofen. Disponível em: Cofen – 10 Passos para a Segurança do Paciente.
  4. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Parecer nº 11/2026/Câmaras Técnicas de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2026. Disponível em: Cofen – Parecer nº 11/2026. 

Medicamento Sem Identificação? O Que Fazer

medicamento sem identificação

Na administração de medicamentos, existe um momento em que a pressa precisa parar: quando você não consegue identificar com segurança o que está prestes a administrar. Se uma seringa, frasco, cuba ou solução está sem identificação adequada, o medicamento não deve ser administrado até que sua identidade possa ser confirmada de forma segura e rastreável.

O protocolo nacional de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos estabelece a identificação correta do medicamento como uma das barreiras para prevenir erros. O Cofen também reforça a necessidade de conferência dos elementos relacionados à administração segura e à rastreabilidade do cuidado.

Não tente descobrir pelo aspecto

Cor, volume, cheiro ou aparência não são métodos confiáveis para confirmar a identidade de um medicamento. Uma solução transparente pode ser confundida com outra, e duas preparações visualmente semelhantes podem ter princípios ativos completamente diferentes.

Imagine uma seringa encontrada na bancada durante a troca de plantão, sem nome do medicamento, concentração ou horário de preparo. Mesmo que alguém diga “é aquele medicamento que estava sendo usado no leito”, essa informação verbal não substitui a identificação adequada. Sem possibilidade de confirmar a origem e o conteúdo, a administração deve ser interrompida.

A segurança medicamentosa depende de processos sistemáticos de conferência, registro e monitoramento, justamente para reduzir a possibilidade de que uma preparação sem rastreabilidade chegue ao paciente.

E se eu souber qual medicamento é?

Saber ou suspeitar qual é o medicamento não é suficiente. É necessário conseguir confirmar sua identidade, concentração, apresentação, validade e correspondência com a prescrição, de acordo com o processo adotado pelo serviço.

Se a identificação original foi perdida e não existe uma forma segura de confirmar o conteúdo, não é adequado simplesmente escrever o nome posteriormente e considerar o problema resolvido. A conduta deve seguir o protocolo institucional e envolver o enfermeiro responsável e, quando necessário, a farmácia.

O Cofen relaciona entre os itens de segurança da administração a conferência do medicamento, forma/apresentação, validade, compatibilidade, registro e resposta, reforçando que a administração segura envolve mais do que apenas saber o nome do fármaco.

O erro pode começar antes da administração

Outro cenário comum acontece quando uma medicação é preparada para vários pacientes e uma das seringas permanece sobre a bancada sem identificação. Na hora de administrar, alguém reconhece a seringa pela posição ou pelo volume e assume que sabe o conteúdo. É justamente nesse momento que uma barreira de segurança foi perdida.

A identificação deve acompanhar o medicamento preparado conforme as regras do serviço, permitindo saber o que foi preparado, para quem, em qual concentração e em que momento, quando aplicável. A rastreabilidade faz parte da segurança do processo, não é apenas uma formalidade.

O que fazer na prática?

Se encontrar um medicamento sem identificação adequada:

não administre; interrompa o processo; não tente identificar apenas pela aparência; confira a prescrição e os registros disponíveis; comunique o enfermeiro responsável; siga o protocolo institucional para confirmação, descarte ou novo preparo; e registre a intercorrência quando indicado.

Se houver suspeita de que um medicamento não identificado já foi administrado, a situação muda de gravidade: a equipe responsável deve ser comunicada imediatamente para avaliação do paciente e adoção das medidas previstas no protocolo institucional.

O princípio é simples: se você não consegue provar com segurança o que está dentro, não deve administrar.

Cuidados de enfermagem

A prevenção começa no preparo. Identifique corretamente as preparações conforme o protocolo institucional, mantenha medicamentos de diferentes pacientes separados, evite deixar seringas ou soluções sem identificação e faça a conferência antes da administração.

Além disso, o registro não deve ser tratado como uma etapa secundária. O Cofen orienta que o registro de enfermagem seja claro, completo, cronológico e realizado em tempo oportuno, contribuindo para a continuidade e a rastreabilidade da assistência.

Para lembrar no plantão

Medicamento sem identificação = medicamento que não deve ser administrado até ser devidamente confirmado.

Não confie na cor. Não confie no volume. Não confie no “eu sei o que é”.

Na dúvida, pare, confirme e mantenha a segurança do paciente como a próxima etapa do cuidado.

Resumo para salvar

Medicamento Sem Identificação O Que Fazer

  • Não administrar medicamento sem identificação
  • Não identificar pela aparência
  • Confirmar medicamento e prescrição
  • Comunicar e registrar a intercorrência

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde; Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. Atualizado em 2026. Disponível em: Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos.
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Parecer nº 11/2026/Câmaras Técnicas de Enfermagem. Brasília: Cofen, 2026. Disponível em: Parecer Cofen nº 11/2026. 
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Recomendações para registros de enfermagem no exercício da profissão. Brasília: Cofen. Disponível em: Recomendações para Registros de Enfermagem. 

Evento Adverso, Incidente e Quase Erro na Enfermagem

EA, Incidente e Quase erro

Na segurança do paciente, às vezes uma única etapa separa um quase erro de um evento adverso. Por isso, para entender o que aconteceu, não basta perguntar “houve erro?”. É preciso saber se o incidente chegou ao paciente e se produziu dano. Essa sequência ajuda a classificar corretamente a ocorrência e direcionar a investigação.

Incidente é o termo mais amplo

Incidente é o evento ou circunstância que poderia ter resultado, ou que resultou, em dano desnecessário ao paciente. Portanto, ele funciona como uma categoria mais abrangente dentro da segurança do paciente.

Um incidente pode ser interrompido antes de atingir o paciente, chegar ao paciente sem provocar dano ou resultar efetivamente em dano. É justamente o que acontece depois que ajuda a definir a classificação.

Quase erro: o paciente nem chegou a ser atingido

O near miss, ou quase erro, acontece quando o incidente não chega ao paciente. Uma barreira de segurança, uma conferência da equipe ou até a percepção de uma falha no processo interrompe a situação antes que ela alcance a pessoa assistida.

Imagine uma medicação preparada para o paciente errado que é identificada durante a conferência antes da administração. A troca não chegou ao paciente, mas a ocorrência mostra que existiu uma falha potencialmente perigosa no processo e que uma barreira conseguiu interrompê-la. A OMS utiliza justamente esse princípio para diferenciar o near miss de outros incidentes.

Na prática da enfermagem, é nesse momento que uma conferência aparentemente simples pode mudar completamente o desfecho. Um medicamento pode estar pronto, o paciente pode estar identificado no leito e tudo parecer encaminhado, até que a conferência ativa revele que aquela prescrição pertencia ao paciente do leito ao lado. Como a administração não aconteceu, estamos diante de um quase erro, e não de um evento adverso.

Incidente sem dano é diferente

Existe ainda uma situação que costuma gerar confusão: o incidente chega ao paciente, mas não causa dano identificável.

Por exemplo, uma medicação é administrada em horário diferente do previsto, chega ao paciente e, após avaliação, não produz dano. Nesse caso, o evento não deve ser chamado de near miss porque o paciente foi atingido pelo incidente. A classificação é incidente sem dano.

Essa diferença é pequena na descrição, mas importante na análise. No near miss, a ocorrência é interrompida antes de alcançar o paciente; no incidente sem dano, ela alcança o paciente, porém não resulta em dano discernível.

Quando passa a ser evento adverso?

O evento adverso é o incidente que resulta em dano ao paciente durante a assistência. O dano pode envolver lesão, sofrimento, alteração funcional ou outras consequências relacionadas ao cuidado, conforme a classificação utilizada para segurança do paciente.

Um exemplo seria administrar uma medicação incorreta e o paciente apresentar uma reação prejudicial decorrente dessa administração. Nesse caso, o incidente alcançou o paciente e houve dano, portanto estamos diante de um evento adverso.

Outro cenário bastante concreto ocorre durante uma transfusão: se a identificação incorreta for percebida antes de iniciar a transfusão, trata-se de near miss; se o sangue chegar ao paciente, mas não houver dano identificável, é incidente sem dano; se houver dano relacionado ao incidente, passa a ser um evento com dano. A OMS utiliza justamente situações de transfusão para demonstrar essa diferença.

A pergunta que resolve a classificação

Quando houver dúvida, pense nesta sequência:

O incidente chegou ao paciente?

Se não chegou, pode ser um near miss.

Se chegou, mas não causou dano, é incidente sem dano.

Se chegou e causou dano, é um evento adverso.

O termo incidente continua sendo a denominação mais abrangente para eventos ou circunstâncias que poderiam ter causado ou causaram dano desnecessário.

O que fazer depois da ocorrência

A classificação não deve ser o ponto final. Depois de garantir a segurança do paciente, a equipe deve comunicar e registrar o ocorrido conforme o fluxo institucional, fornecendo informações objetivas sobre o que aconteceu, em qual etapa ocorreu, como foi identificado e quais barreiras estavam envolvidas.

A finalidade da notificação é permitir aprendizado e melhoria dos processos, e não simplesmente encontrar um profissional para responsabilizar. A Anvisa destaca que a comunicação de incidentes contribui para a adoção de medidas corretivas e para evitar a repetição de danos.

É comum, por exemplo, que uma ocorrência inicialmente pareça apenas um erro individual e, ao analisar o processo, apareçam outros fatores: nomes semelhantes, armazenamento inadequado, interrupções durante o preparo, comunicação incompleta ou identificação pouco clara. É aí que a investigação deixa de olhar apenas para o momento do erro e começa a enxergar as condições que permitiram que ele acontecesse.

Cuidados de enfermagem

Na prática, a enfermagem deve interromper imediatamente a situação de risco, avaliar o paciente quando o incidente tiver chegado até ele, comunicar a equipe responsável e realizar o registro conforme o protocolo institucional.

Na documentação, priorize informações objetivas: o que aconteceu, quando ocorreu, quem identificou, se o paciente foi atingido, quais consequências foram observadas e quais medidas foram tomadas. Evite omitir um quase erro apenas porque “nada aconteceu”; justamente o fato de o paciente não ter sofrido dano pode indicar que uma barreira funcionou e merece ser analisada.

Para não esquecer

⚠ Pegadinha de Prova

Incidente: evento ou circunstância que poderia causar ou causou dano.

Near miss: não chegou ao paciente.

Incidente sem dano: chegou ao paciente, mas não causou dano identificável.

Evento adverso: chegou ao paciente e resultou em dano.

A diferença entre eles está principalmente em onde o incidente parou e qual foi o resultado para o paciente. Entender essa sequência torna a notificação mais precisa e ajuda a equipe de enfermagem a transformar uma ocorrência em oportunidade de prevenção.

Resumo para salvar

Evento Adverso, Incidente e Quase Erro

  • Incidente é o evento que poderia causar ou causou dano
  • Near miss não chega ao paciente
  • Incidente sem dano chega ao paciente mas não causa dano
  • Evento adverso chega ao paciente e resulta em dano

Referências:

  1. BRASIL. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Documento de referência para o Programa Nacional de Segurança do Paciente. Brasília, DF: Anvisa, 2014. Disponível em: Anvisa – Documento de referência do PNSP.
  2. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. O que são eventos adversos? Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: Ministério da Saúde – Eventos Adversos.
  3. BRASIL. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Segurança do paciente. Brasília, DF: Anvisa. Disponível em: Anvisa – Segurança do Paciente.
  4. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Patient safety incident reporting and learning systems: technical report. Geneva: WHO. Disponível em: WHO – Patient Safety Incident Reporting and Learning Systems.
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Patient safety. Geneva: WHO. Disponível em: WHO – Patient Safety. 

Near Miss Como Identificar na Enfermagem

near miss

O erro que foi percebido a tempo pode ser um dos avisos mais importantes de um serviço de saúde. Na enfermagem, o near miss, também chamado de quase-erro ou quase-acidente, acontece quando uma situação poderia ter causado dano ao paciente, mas não chegou a produzir esse dano, seja porque alguém identificou a falha, seja porque uma barreira do próprio processo funcionou. A OMS diferencia ainda o near miss do incidente sem dano: no primeiro, o incidente não chega ao paciente; no segundo, chega, mas não produz dano perceptível.

Como reconhecer um near miss

Uma pergunta simples ajuda: “Se ninguém tivesse percebido, o paciente poderia ter sido prejudicado?”

Se a resposta for sim e a situação foi interrompida antes de atingir o paciente, existe possibilidade de se tratar de um near miss. Isso pode acontecer durante preparo e administração de medicamentos, identificação do paciente, coleta de exames, transfusão, procedimentos, passagem de informações ou utilização de equipamentos.

Imagine, por exemplo, uma medicação preparada para um paciente que está no leito errado. Antes da administração, a conferência da identificação revela a troca e a medicação é retirada. O medicamento não chegou ao paciente, mas houve uma falha no processo que merece ser registrada e analisada.

Exemplos que podem acontecer na enfermagem

Um profissional identifica que recebeu uma prescrição destinada a outro paciente antes de preparar o medicamento. Uma bolsa de sangue é encaminhada para o leito incorreto, mas a identificação do paciente impede a transfusão. Um antibiótico com concentração diferente da prescrita é separado, porém a conferência antes da administração detecta a divergência.

Também pode ocorrer com dispositivos e procedimentos. Um paciente quase recebe uma infusão conectada à via errada, mas a equipe percebe a incompatibilidade antes de iniciar. Em todos esses casos, o ponto principal é que havia potencial de dano, mas o evento foi interceptado antes de alcançar o paciente.

Na rotina de uma unidade, é fácil lembrar de situações em que a conferência final mudou completamente o desfecho. Por exemplo, durante a organização dos medicamentos de um turno, uma ampola com nome e apresentação semelhantes pode ser colocada junto à medicação de outro paciente; a identificação ativa antes da administração interrompe o processo. O mais importante depois disso não é apenas guardar a ampola correta, mas entender por que aquela troca foi possível.

O que fazer quando identificar um near miss

A primeira prioridade é interromper a situação de risco e garantir que o paciente permaneça seguro. Depois, a ocorrência deve ser comunicada conforme o fluxo definido pela instituição e registrada no sistema de notificação utilizado pelo serviço.

A notificação não deve ser encarada apenas como uma forma de apontar quem estava envolvido. O objetivo da segurança do paciente é identificar fatores que contribuíram para o incidente e criar barreiras para reduzir a possibilidade de repetição. A OMS destaca que sistemas de notificação e aprendizagem permitem identificar erros, near misses e riscos de segurança para promover melhorias.

Não procure apenas quem errou

Um near miss pode envolver uma falha individual, mas também pode revelar problemas de processo. Escala inadequada, interrupções frequentes, comunicação incompleta, etiquetas semelhantes, armazenamento confuso, excesso de tarefas ou sistemas pouco claros podem contribuir para que um erro aconteça.

A própria OMS destaca que incidentes de segurança geralmente envolvem múltiplos fatores, incluindo aspectos organizacionais, tecnológicos, humanos, comunicação e condições de trabalho. Por isso, analisar somente “quem fez” pode esconder uma pergunta muito mais importante: “o que permitiu que isso acontecesse?”

Um exemplo prático seria encontrar uma medicação quase administrada ao paciente errado e descobrir, na investigação, que dois pacientes tinham nomes semelhantes, estavam próximos na unidade e os medicamentos haviam sido organizados juntos. Corrigir apenas a conduta do profissional não necessariamente elimina o risco; reorganizar a identificação e o armazenamento pode criar uma barreira adicional.

Near miss não deve ser escondido

Um dos maiores problemas é considerar que, porque o paciente não sofreu dano, “não aconteceu nada”. A situação aconteceu, houve uma oportunidade de falha e uma barreira impediu que o dano chegasse ao paciente.

No Brasil, o Programa Nacional de Segurança do Paciente incentiva uma cultura de segurança baseada no gerenciamento de riscos, na notificação e na análise de incidentes. A Anvisa também define incidente como o evento ou circunstância que poderia ter resultado, ou resultou, em dano desnecessário à saúde.

Cuidados de enfermagem

Na prática, a enfermagem deve interromper imediatamente qualquer processo inseguro, confirmar a condição do paciente, comunicar o ocorrido e realizar a notificação conforme o protocolo institucional. Também é importante registrar informações objetivas: o que aconteceu, em que etapa ocorreu, como foi identificado, quais barreiras impediram que chegasse ao paciente e quais condições contribuíram para o episódio.

Evite transformar a notificação em julgamento pessoal. O foco deve ser compreender o processo e fortalecer as barreiras de segurança.

Como memorizar

✓ Decore para a Prova

Near miss = havia potencial de dano + o incidente foi interceptado antes de atingir o paciente.

Se o evento chegou ao paciente e não causou dano, trata-se de outra classificação: incidente sem dano. Se chegou ao paciente e provocou dano, estamos diante de um evento adverso.

O near miss, portanto, não é simplesmente um erro que “não deu problema”. É uma informação valiosa sobre um ponto vulnerável da assistência. Quando a equipe identifica, comunica e analisa esse tipo de ocorrência, uma falha que quase atingiu um paciente pode se transformar em uma oportunidade concreta de prevenção.

Resumo para salvar

Near Miss: Como Identificar na Enfermagem

  • Reconheça situações que poderiam causar dano mas foram interrompidas
  • Diferencie near miss de incidente sem dano e evento adverso
  • Comunique e notifique o ocorrido conforme o protocolo institucional
  • Analise as causas e fortaleça as barreiras de segurança

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Do que se trata o tema Segurança do Paciente? Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2021. Atualizado em 28 abr. 2025. Disponível em: Ministério da Saúde – Segurança do Paciente.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. O que são eventos adversos? Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: Ministério da Saúde – Eventos Adversos.
  3. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Segurança do paciente. Brasília, DF: Anvisa. Disponível em: Anvisa – Segurança do Paciente.
  4. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Conceptual framework for the international classification for patient safety. Geneva: WHO, 2009. Disponível em: WHO – International Classification for Patient Safety.
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Patient safety curriculum guide: multi-professional edition. Geneva: WHO. Disponível em: WHO – Patient Safety Curriculum Guide. 

Delirium em UTI: como reconhecer precocemente com o CAM-ICU e quais são os principais cuidados de Enfermagem

Vá direto ao ponto!

O delirium é uma das alterações neurológicas mais comuns e, ao mesmo tempo, mais subestimadas dentro de uma Unidade de Terapia Intensiva.

Para quem trabalha na UTI, é relativamente fácil perceber quando um paciente está hipotenso, dessaturando ou apresentando uma alteração importante no eletrocardiograma. Já o delirium pode começar de maneira muito mais discreta: o paciente fica um pouco mais desatento, confunde horários, demora para responder, passa a olhar fixamente para algum ponto, apresenta um comportamento diferente ou começa a alternar períodos de agitação com momentos de sonolência.

É justamente aí que está um dos maiores desafios.

Delirium não é simplesmente “confusão mental”. É uma síndrome neuropsiquiátrica aguda, geralmente de início rápido e curso flutuante, que pode ser consequência de uma alteração clínica subjacente, efeito de medicamentos, infecção, distúrbios metabólicos, privação de sono, dor, hipóxia, abstinência e diversos outros fatores.

Em pacientes críticos, a identificação pode ser ainda mais difícil porque muitos estão intubados, sedados, em ventilação mecânica ou impossibilitados de falar. Por isso foram desenvolvidos instrumentos específicos para a UTI, entre eles o CAM-ICU — Confusion Assessment Method for the Intensive Care Unit. Estudos brasileiros demonstraram que a versão em português do CAM-ICU é um instrumento válido e confiável para avaliação de delirium em pacientes críticos.

E existe uma diferença importante entre perceber que “o paciente está estranho” e avaliar sistematicamente se ele apresenta delirium.

O que é delirium?

Delirium é uma alteração aguda e flutuante da atenção e da cognição.

O paciente pode apresentar alterações de:

  • atenção;
  • consciência;
  • percepção;
  • pensamento;
  • memória;
  • orientação;
  • comportamento;
  • ciclo sono-vigília.

Uma característica muito importante é a flutuação. O paciente pode estar conversando normalmente às 10 horas da manhã e, algumas horas depois, apresentar desorientação, dificuldade de manter a atenção ou comportamento incomum.

Depois pode melhorar novamente. Isso não significa necessariamente que “ele está fingindo” ou que “está apenas nervoso”. A flutuação é uma característica típica do delirium. Estudos brasileiros descrevem o início abrupto e a variação da intensidade dos sintomas ao longo do dia como características importantes dessa síndrome.

Delirium não é sinônimo de demência

Essa confusão aparece bastante entre estudantes. Embora possam existir alterações cognitivas nas duas condições, elas são diferentes. A demência costuma apresentar evolução progressiva e mais prolongada, enquanto o delirium geralmente surge de forma aguda, em horas ou dias, e apresenta flutuação.

Além disso, o delirium caracteriza-se especialmente pela alteração da atenção. Um paciente pode ter demência e também desenvolver delirium. Por isso, encontrar um histórico de comprometimento cognitivo não deve fazer a equipe descartar automaticamente a possibilidade de delirium.

Delirium também não é simplesmente “agitação”

Esse é outro erro bastante comum.

Existe uma forma de delirium chamada hiperativa, em que o paciente pode ficar:

  • agitado;
  • inquieto;
  • agressivo;
  • tentando retirar cateteres;
  • tentando sair do leito;
  • apresentando alucinações.

Essa é a forma que geralmente chama mais atenção.

Mas existe também o delirium hipoativo.

Nesse caso, o paciente pode ficar:

  • sonolento;
  • apático;
  • lentificado;
  • pouco responsivo;
  • com pouca interação;
  • aparentemente “tranquilo”.

E esse paciente pode passar despercebido. Por isso, um dos grandes perigos na UTI é associar delirium somente ao paciente que está tentando arrancar o tubo.

Um paciente quieto demais também merece avaliação.

Por que o delirium é tão importante na UTI?

Porque ele não é apenas um problema comportamental. O delirium em pacientes críticos está associado a consequências clínicas importantes. A literatura aponta relação com maior comprometimento cognitivo após a alta da UTI, e a atualização de 2025 das diretrizes PADIS da Society of Critical Care Medicine destaca que um rastreio positivo para delirium está fortemente associado a comprometimento cognitivo em três e 12 meses após a alta da UTI.

Além disso, o delirium pode dificultar:

  • desmame da ventilação mecânica;
  • comunicação com a equipe;
  • participação na fisioterapia;
  • mobilização;
  • sono;
  • tratamento;
  • segurança do paciente.

Por isso, reconhecer precocemente é muito mais importante do que simplesmente controlar a agitação.

Por que o paciente da UTI desenvolve delirium?

Na maioria das vezes, não existe uma única causa. O delirium costuma resultar da combinação de diversos fatores. O paciente internado em UTI pode estar simultaneamente enfrentando:

doença grave + dor + inflamação + medicamentos + privação de sono + imobilidade + alterações metabólicas + ambiente desconhecido.

Isso cria um cenário extremamente favorável ao desenvolvimento da síndrome.

Principais fatores de risco

Alguns fatores aparecem frequentemente na prática de terapia intensiva. Entre eles estão:

  • idade avançada, especialmente quando associada a fragilidade ou comprometimento cognitivo prévio;
  • doença grave, principalmente em pacientes com disfunção de múltiplos órgãos;
  • sepse e infecções;
  • ventilação mecânica;
  • uso de sedativos e determinados medicamentos;
  • dor inadequadamente controlada;
  • distúrbios metabólicos e eletrolíticos;
  • hipóxia;
  • desidratação;
  • insuficiência renal ou hepática;
  • imobilidade prolongada;
  • privação do sono;
  • ausência de estímulos durante o dia e excesso de estímulos à noite;
  • alterações visuais ou auditivas;
  • abstinência de álcool ou determinadas substâncias.

O importante é entender que nem sempre conseguimos eliminar todos os fatores de risco. Mas podemos reduzir vários deles.

O ambiente da UTI pode contribuir para o delirium

Imagine passar vários dias em um ambiente onde:

  • não existe diferença clara entre dia e noite;
  • alarmes tocam constantemente;
  • pessoas conversam durante toda a madrugada;
  • há iluminação artificial contínua;
  • procedimentos interrompem o sono;
  • o paciente não sabe que horas são;
  • não consegue utilizar seus óculos;
  • não consegue ouvir adequadamente;
  • não reconhece as pessoas ao redor.

Para o paciente, isso pode ser extremamente desorientador. Uma revisão brasileira sobre cuidados multiprofissionais em delirium destaca justamente estratégias como redução de ruídos, reorientação cognitiva, objetos familiares, preservação do sono, mobilização precoce e participação estruturada da família.

Por isso, prevenção do delirium não é apenas uma questão de medicamento. O ambiente também faz parte do cuidado.

Como reconhecer precocemente?

Uma das melhores estratégias é não esperar o paciente ficar completamente desorientado. A equipe deve observar mudanças em relação ao comportamento habitual.

Pergunte:

“Esse paciente está igual ao que estava ontem?”

Essa pergunta aparentemente simples pode ser extremamente útil. Observe se ele:

  • perdeu a capacidade de manter uma conversa;
  • está mais distraído;
  • demora mais para responder;
  • não consegue acompanhar comandos;
  • apresenta comportamento incomum;
  • está alternando agitação e sonolência;
  • apresenta alterações na percepção;
  • confunde pessoas ou situações;
  • está acordado, mas parece “não estar presente”.

Quando existe mudança aguda ou flutuante, deve-se pensar em delirium.

O CAM-ICU: o que é?

O CAM-ICU é uma adaptação do Confusion Assessment Method desenvolvida especificamente para pacientes internados em terapia intensiva, inclusive aqueles que não conseguem se comunicar verbalmente.

Essa característica é muito importante. Um paciente intubado não consegue simplesmente responder:

“Você sabe onde está?”

Por isso, o CAM-ICU utiliza comandos, estímulos visuais e auditivos e avaliação objetiva da atenção e do pensamento. O instrumento foi desenvolvido justamente para tornar possível a avaliação de delirium em pacientes críticos, incluindo pacientes incapazes de falar.

Antes do CAM-ICU: avalie o nível de consciência

Aqui está uma parte que costuma causar confusão:

RASS e CAM-ICU não são a mesma escala.

A RASS — Richmond Agitation-Sedation Scale avalia o nível de agitação e sedação. O CAM-ICU avalia delirium.

Por isso, na prática, os dois instrumentos trabalham juntos. O primeiro passo é verificar se o paciente apresenta nível de consciência suficiente para que a avaliação de delirium possa ser realizada. A literatura descreve o método em duas etapas: primeiro avaliar o nível de consciência, frequentemente utilizando a RASS; depois, quando possível, aplicar o CAM-ICU.

RASS e CAM-ICU: qual a diferença?

Uma forma fácil de memorizar:

RASS = “quão acordado, sedado ou agitado está o paciente?”

CAM-ICU = “há características compatíveis com delirium?”

A RASS varia de +4 a -5.

No extremo positivo, temos agitação intensa, já no extremo negativo, temos sedação profunda.

O paciente com RASS -4 ou -5 não consegue ser adequadamente avaliado pelo CAM-ICU naquele momento.

Isso não significa:

“RASS -4 = delirium.”

Significa: não foi possível avaliar delirium naquele momento devido ao nível de consciência.

Essa diferença é fundamental.

Como funciona o CAM-ICU?

O algoritmo tradicional do CAM-ICU trabalha com quatro características principais.

Característica 1: início agudo ou curso flutuante

Pergunta-se:

Houve uma mudança aguda no estado mental?

Ou:

O comportamento/estado mental do paciente apresentou flutuação?

Pode ser uma alteração percebida nas últimas horas ou dias.

Exemplo:

“Ontem o paciente conversava adequadamente. Hoje está alternando períodos de lucidez com momentos de desorientação e dificuldade de atenção. Isso levanta a possibilidade de delirium.”

Característica 2: desatenção

Essa é uma das partes mais importantes do CAM-ICU. O paciente com delirium frequentemente apresenta dificuldade de manter ou direcionar a atenção. Uma forma de avaliação é utilizar estímulos padronizados, como pedir que o paciente acompanhe determinada sequência de letras ou realize uma tarefa de atenção conforme o treinamento do instrumento.

No paciente que não fala, isso pode ser realizado por meio de respostas visuais ou motoras. O objetivo não é simplesmente saber se ele “entendeu”.

É avaliar se consegue sustentar a atenção.

Característica 3: pensamento desorganizado

Depois, avalia-se se o pensamento está organizado. O paciente pode apresentar respostas incoerentes, contraditórias ou sem relação com a pergunta. Por exemplo, quando perguntado algo simples, pode responder algo completamente desconectado do contexto. Em pacientes intubados, podem ser utilizadas formas não verbais de avaliação.

Por isso, o profissional precisa ser treinado para aplicar corretamente o instrumento.

Característica 4: alteração do nível de consciência

Aqui entram alterações diferentes do estado de alerta normal.

O paciente pode estar:

  • hiperalerta;
  • sonolento;
  • estuporoso;
  • agitado;
  • excessivamente sedado.

O importante é relacionar essa alteração ao algoritmo do CAM-ICU.

Quando o CAM-ICU é considerado positivo?

A lógica clássica é:

Característica 1 + Característica 2 + (Característica 3 ou Característica 4).

Ou seja: início agudo/flutuação + desatenção + pensamento desorganizado ou alteração do nível de consciência.

Essa combinação é o que caracteriza uma avaliação positiva para delirium pelo CAM-ICU. Esse esquema é excelente para memorizar para provas:

1 + 2 + (3 ou 4) = CAM-ICU positivo.

Um exemplo prático

Imagine um paciente internado há três dias na UTI. Ontem estava conversando adequadamente. Hoje começou a apresentar períodos em que parece não reconhecer a equipe e, em outros momentos, volta a interagir. Durante a avaliação:

Característica 1: houve mudança aguda/flutuação?
Sim.

Característica 2: apresenta desatenção?
Sim.

Característica 3: pensamento desorganizado?
Não.

Característica 4: alteração do nível de consciência?
Sim.

Temos:

1 + 2 + 4 = CAM-ICU positivo.

Esse paciente precisa ser comunicado e investigado pela equipe.

CAM-ICU positivo não significa “dar haloperidol”

Essa é uma associação que precisa ser desconstruída. Encontrar delirium significa que a equipe precisa procurar e tratar fatores precipitantes, além de implementar medidas de suporte e segurança. A atualização PADIS de 2025 não encontrou evidência suficiente para recomendar a favor ou contra o uso de antipsicóticos em comparação ao cuidado habitual para tratamento do delirium em adultos na UTI.

Isso é importante porque ainda existe a ideia de que:

“Paciente delirou? Dá haloperidol.”

A abordagem atual é muito mais ampla. O medicamento pode ter papel em situações selecionadas, conforme avaliação médica e protocolo, especialmente quando há agitação importante e risco para o paciente ou para a equipe. Mas tratar delirium não significa simplesmente sedar o paciente.

E o que a Enfermagem deve fazer quando identifica delirium?

Aqui começa uma parte extremamente importante. A identificação do delirium não encerra a avaliação. Ela é o início de uma investigação. O profissional deve comunicar a alteração e observar possíveis fatores precipitantes.

É necessário pensar:

  • O paciente está com dor?
  • Está hipóxico?
  • Apresenta febre ou sinais de infecção?
  • Está desidratado?
  • Existe alteração glicêmica?
  • Há distúrbio eletrolítico?
  • Houve mudança recente de medicamentos?
  • Recebeu sedação em excesso?
  • Está dormindo durante o dia e acordado durante toda a noite?
  • Está imobilizado há muito tempo?
  • Está sem os óculos ou aparelho auditivo?
  • Está apresentando retenção urinária ou constipação?

Essas perguntas ajudam a direcionar o cuidado.

Cuidados de Enfermagem para prevenção do delirium

A prevenção é tão importante quanto o reconhecimento, e muitas medidas não dependem de equipamentos sofisticados.

Preservar o ciclo sono-vigília

Durante o dia, sempre que possível, favorecer iluminação natural e interação. Durante a noite, reduzir ruídos, luminosidade e interrupções desnecessárias. Isso não significa deixar o paciente sem monitorização, significa organizar os cuidados de forma racional para evitar perturbações desnecessárias do sono.

As diretrizes PADIS recomendam um protocolo multicomponente voltado à promoção do sono e estratégias que reduzam fatores modificáveis relacionados ao delirium.

Reorientação frequente

Conversar com o paciente pode ser uma intervenção de enfermagem. Dizer:

“Bom dia, senhor João. O senhor está na UTI do Hospital X. Hoje é sexta-feira. Eu sou a enfermeira Ana e estou cuidando do senhor.” pode parecer simples.

Mas para um paciente desorientado, essas informações ajudam a reconstruir referências. Relógio e calendário também podem ser úteis. A atualização de 2025 das diretrizes PADIS cita reorientação e estimulação cognitiva, incluindo uso de relógios, entre as estratégias de intervenções não farmacológicas multicomponentes.

Corrigir alterações visuais e auditivas

Um paciente que normalmente utiliza óculos e passa vários dias sem eles pode ter dificuldade para interpretar o ambiente. O mesmo pode acontecer com um paciente que utiliza aparelho auditivo. Sempre que clinicamente possível e seguro, facilitar o acesso a esses dispositivos pode ajudar na orientação. A recomendação atual inclui justamente a otimização da visão e da audição como parte das estratégias multicomponentes para reduzir fatores modificáveis de delirium.

Mobilização precoce

A imobilidade prolongada não é neutra. Sempre que houver condições clínicas e autorização da equipe, a mobilização deve ser estimulada. Isso pode variar desde:

  • mudança de decúbito;
  • exercícios ativos ou passivos;
  • sentar no leito;
  • sentar à beira-leito;
  • transferência para poltrona;
  • ortostatismo;
  • deambulação.

Tudo depende da condição clínica. A atualização PADIS de 2025 sugere mobilização/reabilitação intensificada em relação ao cuidado habitual para adultos internados em UTI. Importante: mobilização precoce não significa mobilizar qualquer paciente indiscriminadamente.

É necessário avaliar estabilidade clínica, dispositivos, suporte ventilatório, hemodinâmica e segurança.

Avaliação e controle da dor

Dor também pode contribuir para alterações comportamentais e pior experiência do paciente. O paciente intubado pode não conseguir dizer:

“Estou com dor.”

Por isso, escalas apropriadas para pacientes que não conseguem se comunicar verbalmente podem ser utilizadas conforme protocolo da instituição. O objetivo não é simplesmente administrar analgésico. É avaliar a dor, tratar adequadamente e reavaliar a resposta.

Cuidado com a sedação

Existe uma tendência histórica de manter pacientes críticos profundamente sedados para facilitar o cuidado. Mas sedação excessiva pode dificultar a avaliação neurológica, prolongar a ventilação mecânica e contribuir para problemas associados à terapia intensiva.

As diretrizes PADIS atualizadas em 2025 sugerem o uso de dexmedetomidina em vez de propofol em determinados pacientes adultos em ventilação mecânica quando a prioridade é sedação leve e/ou redução do delirium. Isso não significa que dexmedetomidina seja “o medicamento para prevenir delirium”. A recomendação é específica para determinadas estratégias de sedação, e o medicamento deve sempre ser administrado conforme prescrição, indicação e monitorização.

Evitar benzodiazepínicos quando não forem necessários

Alguns medicamentos podem aumentar o risco de delirium. Os benzodiazepínicos são um exemplo particularmente importante em pacientes críticos. Isso não significa que sejam absolutamente proibidos. Existem situações clínicas específicas em que podem ser necessários, mas o uso deve ter indicação e ser reavaliado.

O princípio é: usar a menor exposição necessária e adequada à situação clínica do paciente.

Família também pode ajudar

A família pode ser uma importante fonte de orientação e reorientação. Uma pessoa conhecida pode ajudar o paciente a reconhecer:

  • quem ele é;
  • onde está;
  • o que aconteceu;
  • quem está cuidando dele.

Além disso, objetos familiares, fotografias e comunicação com pessoas significativas podem ajudar na orientação.

Uma pesquisa brasileira recente sobre manejo não farmacológico do delirium em UTI identificou justamente a participação dos familiares como uma das estratégias relevantes, embora sua implementação ainda enfrente dificuldades em muitos serviços.

O que NÃO fazer com o paciente delirante

Algumas atitudes podem piorar a situação. Evite discutir com o paciente tentando “provar” que ele está errado. Se ele disser:

“Preciso ir para casa porque meu filho está esperando na porta.”

Responder agressivamente:

“Seu filho não está aqui! Você está delirando!” provavelmente não ajudará. Uma abordagem mais adequada pode ser:

“Entendo que você está preocupado com seu filho. Você está no hospital e nós estamos cuidando do senhor. Vou ficar aqui com você.”

O objetivo é reduzir ansiedade, oferecer segurança e reorientar.

Contenção física deve ser tratada com muita cautela

Um paciente delirante pode tentar retirar:

  • tubo orotraqueal;
  • cateter venoso;
  • sonda;
  • drenos;
  • outros dispositivos.

A reação automática pode ser “amarrar”. Mas contenção física não deve ser encarada como primeira solução para o delirium. É necessário avaliar a causa da agitação e utilizar medidas de segurança e estratégias menos restritivas sempre que possível, de acordo com a legislação, prescrição/protocolo e avaliação da equipe.

A própria atualização PADIS de 2025 aborda o tema das restrições físicas entre os tópicos de manejo do paciente crítico.

Delirium e segurança do paciente

Um paciente delirante pode apresentar risco aumentado de:

  • quedas;
  • retirada de dispositivos;
  • lesões;
  • interrupção de terapias;
  • dificuldade de cooperação;
  • acidentes durante mobilização.

Por isso, a identificação precisa resultar em um plano de segurança. Isso pode incluir:

  • ambiente organizado;
  • leito seguro;
  • monitorização adequada;
  • comunicação clara;
  • acompanhamento mais próximo;
  • retirada de obstáculos;
  • avaliação do risco de queda;
  • participação da família quando apropriado.

CAM-ICU deve ser aplicado uma única vez?

Não. Essa é outra característica importante. Como o delirium é flutuante, uma avaliação isolada pode não representar o estado do paciente durante todo o dia. Por isso, os protocolos de UTI devem estabelecer avaliação periódica e sistemática. A literatura brasileira destaca a importância da avaliação contínua com instrumentos específicos para permitir identificação precoce.

Na prática:

Não espere o paciente ficar agitado para repetir a avaliação.

O paciente pode estar em delirium hipoativo e apresentar poucos sinais externos.

O CAM-ICU substitui a avaliação clínica?

Não. Ele é uma ferramenta de rastreamento/avaliação estruturada. O resultado precisa ser interpretado dentro do contexto clínico. Um CAM-ICU positivo deve fazer a equipe pensar:

“Por que esse paciente desenvolveu delirium?”

E não apenas:

“Qual medicamento posso administrar?”

A causa pode ser potencialmente reversível.

Delirium pode ser o primeiro sinal de deterioração clínica

Essa é uma das experiências que o profissional de UTI aprende com o tempo. Às vezes, antes de aparecer uma grande alteração hemodinâmica, o paciente muda o comportamento. Aquele paciente que normalmente responde adequadamente começa a apresentar desatenção. Aquele que conversava começa a ficar excessivamente sonolento.

Aquele que estava orientado passa a tentar retirar dispositivos. Essas alterações não devem ser automaticamente classificadas como “coisa da idade”, “ansiedade” ou “birra”. Uma alteração aguda do estado mental merece investigação.

Estudos brasileiros ressaltam que o delirium pode ser manifestação de uma condição física subjacente mais grave ou de toxicidade medicamentosa.

Um roteiro prático para o estudante de Enfermagem

Durante o estágio, uma forma simples de organizar o raciocínio é:

  1. Observe

O paciente está diferente do habitual?

  1. Avalie a sedação

Qual é o RASS?

  1. Se puder ser avaliado, aplique o CAM-ICU

Verifique as quatro características.

  1. Se positivo, comunique

Delirium não deve ficar apenas registrado como “paciente confuso”.

  1. Procure fatores precipitantes

Dor, infecção, hipóxia, alterações metabólicas, medicamentos, privação do sono, retenção urinária, constipação, desidratação, imobilidade e outros.

  1. Implemente medidas não farmacológicas

Reorientação, sono, mobilidade, visão, audição, comunicação e ambiente.

  1. Reavalie

Delirium flutua.

Um exemplo que acontece na rotina da UTI

Imagine um paciente de 72 anos internado por pneumonia. Durante o primeiro dia, está acordado, responde adequadamente e reconhece os profissionais. Na segunda noite, começa a dizer que existem pessoas dentro do quarto.

  • Tenta retirar o acesso venoso.
  • Fala frases desconectadas.

Depois de alguns minutos, fica extremamente sonolento. No dia seguinte, parece melhor. Um profissional poderia dizer:

“Ele está confuso por causa da idade.” Mas essa não deveria ser a conclusão. Existe:

  • mudança aguda/flutuação;
  • alteração da atenção;
  • pensamento desorganizado;
  • alteração do nível de consciência.

O CAM-ICU pode ser positivo. A partir daí, a equipe precisa investigar o que está desencadeando o quadro. Pode ser infecção, hipóxia, medicamentos, alteração metabólica, privação do sono ou uma combinação de fatores.

E o paciente intubado?

O fato de estar intubado não impede automaticamente a avaliação pelo CAM-ICU. Essa é justamente uma das vantagens da ferramenta. O CAM-ICU foi desenvolvido para pacientes críticos, inclusive aqueles que não conseguem se comunicar verbalmente.

O paciente pode responder utilizando:

  • olhar;
  • movimentos da cabeça;
  • movimentos das mãos;
  • comandos motores padronizados.

Mas existe um detalhe: é necessário treinamento para aplicar corretamente o instrumento. Não basta conhecer o nome CAM-ICU. O profissional precisa conhecer o algoritmo e a forma padronizada de aplicação. O site oficial do CAM-ICU disponibiliza manual de treinamento, fluxograma, folha de avaliação, casos clínicos e outros materiais para capacitação.

Erros comuns na avaliação do delirium

Confundir agitação com delirium

Nem todo paciente agitado está delirante. É necessário avaliar sistematicamente.

Confundir sedação profunda com delirium

RASS -5 não significa CAM-ICU positivo. Significa que o paciente não está em condições de ser avaliado naquele momento.

Avaliar apenas pacientes agitados

Isso faz com que muitos casos hipoativos sejam perdidos.

Fazer o CAM-ICU sem avaliar o nível de consciência

RASS e CAM-ICU precisam ser entendidos conjuntamente.

Aplicar a escala de qualquer maneira

O CAM-ICU depende de aplicação padronizada.

Achar que o resultado resolve a causa

CAM-ICU identifica a síndrome; não explica sozinho por que ela aconteceu.

O papel da Enfermagem no delirium é muito maior do que aplicar uma escala

Essa talvez seja a principal mensagem para quem está aprendendo terapia intensiva. A escala é apenas uma ferramenta. O profissional de Enfermagem permanece ao lado do paciente durante grande parte do tempo e, por isso, pode perceber pequenas alterações que talvez passem despercebidas durante uma avaliação médica pontual.

É a Enfermagem que frequentemente percebe:

“Ele não estava assim ontem.” Essa informação tem valor clínico. Registrar a mudança, comunicar a equipe e acompanhar sua evolução pode contribuir para que uma causa reversível seja identificada mais rapidamente.

O que dizem as recomendações mais atuais?

As recomendações internacionais continuam reforçando a importância de avaliar sistematicamente delirium em pacientes críticos.

A atualização PADIS publicada pela Society of Critical Care Medicine em 2025 reforça uma abordagem que não se limita a medicamentos. Para prevenção e manejo, recomenda-se uma intervenção multicomponente e não farmacológica, envolvendo redução de fatores de risco modificáveis, melhora da cognição, sono, mobilidade, audição e visão.

A mesma atualização sugere mobilização/reabilitação intensificada e, em determinadas circunstâncias, preferência pela dexmedetomidina sobre propofol quando a prioridade é sedação leve e/ou redução do delirium em pacientes adultos sob ventilação mecânica.

Já em relação aos antipsicóticos, a diretriz de 2025 afirma que a evidência disponível não permite recomendar a favor ou contra seu uso em comparação ao cuidado habitual para tratamento do delirium em adultos de UTI.

Isso mostra como o manejo do delirium mudou.

Menos foco em simplesmente “acalmar o paciente” e mais foco em identificar causas, reduzir fatores modificáveis, preservar função e manter o paciente orientado e acordado quando clinicamente possível.

Delirium na UTI: o que o estudante precisa guardar

Se você estiver começando a trabalhar em terapia intensiva, memorize estas ideias:

  • Delirium é agudo e flutuante.
  • A desatenção é uma característica central.
  • Pode ser hiperativo, hipoativo ou misto.
  • Paciente intubado também pode apresentar delirium.
  • RASS avalia sedação/agitação; CAM-ICU avalia delirium.
  • RASS -4/-5 impede uma avaliação adequada pelo CAM-ICU naquele momento.
  • CAM-ICU positivo = característica 1 + característica 2 + característica 3 ou 4.
  • Não espere o paciente ficar agitado para investigar.
  • Procure causas reversíveis.
  • Sono, mobilização, reorientação, visão e audição fazem parte da prevenção.
  • A contenção física e os medicamentos não devem ser utilizados como resposta automática ao delirium.

E talvez a mais importante:

Na UTI, uma mudança súbita de comportamento também pode ser um sinal clínico.

O delirium é uma condição extremamente relevante na terapia intensiva e que exige atenção contínua da equipe. Para o estudante de Enfermagem, aprender a reconhecer delirium significa muito mais do que decorar o significado da sigla CAM-ICU.

É aprender a perceber mudanças sutis no comportamento, entender a diferença entre sedação e delirium, reconhecer que o paciente hipoativo também pode estar delirante e compreender que a síndrome frequentemente representa a manifestação de algum problema clínico subjacente.

O CAM-ICU é uma ferramenta importante para estruturar essa avaliação, inclusive em pacientes que não conseguem falar. Estudos brasileiros demonstraram validade e confiabilidade da versão em português para pacientes críticos.

Mas a escala não substitui o raciocínio clínico. Um resultado positivo deve desencadear uma pergunta:

“O que está acontecendo com esse paciente?”

A resposta pode estar na dor, na infecção, na hipóxia, nos medicamentos, na privação do sono, em alterações metabólicas, na imobilidade ou na combinação de vários fatores. E é justamente nesse ponto que a Enfermagem exerce um papel fundamental.

Reconhecer cedo, comunicar, investigar, prevenir fatores modificáveis e acompanhar a evolução do paciente são atitudes que fazem parte de um cuidado intensivo mais seguro e humanizado.

Resumo para salvar

Avaliação do Delirium em UTI com o CAM-ICU

  • Reconhecimento precoce e sistemático do delirium em pacientes críticos, indo além da simples impressão de confusão mental
  • Aplicação do CAM-ICU adaptado para pacientes intubados ou incapazes de se comunicar verbalmente por meio de estímulos objetivos
  • Verificação inicial do nível de consciência utilizando a escala RASS antes de prosseguir com a avaliação estruturada
  • Identificação baseada nos 4 critérios essenciais: início agudo/flutuante, desatenção, pensamento desorganizado ou alteração da consciência

Referências:

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  2. GUSMAO-FLORES, Dimitri et al. The validity and reliability of the Portuguese versions of three tools used to diagnose delirium in critically ill patients. Clinics, São Paulo. Disponível em: SciELO – Clinics. 
  3. SALLUH, Jorge Ibrain Figueira et al. Delirium em pacientes críticos. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, São Paulo. Disponível em: SciELO – Revista Brasileira de Terapia Intensiva. 
  4. Confusion assessment method para analisar delirium em unidade de terapia intensiva: revisão de literatura. Revista Brasileira de Terapia Intensiva. Disponível em: SciELO – CAM-ICU. 
  5. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE (SCCM). Guidelines for the Prevention and Management of Pain, Agitation/Sedation, Delirium, Immobility, and Sleep Disruption in Adult Patients in the ICU. Disponível em: SCCM – PADIS Guidelines. 
  6. LEWIS, K.; BALAS, M. C.; STOLLINGS, J. L. et al. A focused update to the clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, anxiety, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Critical Care Medicine, v. 53, n. 3, p. e711-e727, 2025. Disponível em: SCCM – Focused Update PADIS 2025. 
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  8. Cuidados multiprofissionais para pacientes em delirium em terapia intensiva: revisão integrativa. Revista Gaúcha de Enfermagem. Disponível em: SciELO – Revista Gaúcha de Enfermagem.
  9. Desafios na avaliação e manejo não farmacológico do delirium por enfermeiros em Unidade de Terapia Intensiva. Cogitare Enfermagem, 2025. Disponível em: SciELO – Cogitare Enfermagem. 
  10. MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasil). Protocolos de segurança do paciente em terapia intensiva: manejo do delirium. Brasília: Anvisa, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/seguranca-do-paciente. 
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  12. PASA, F. B.; SILVA, R. M. Validação e uso da escala CAM-ICU na prática diária da enfermagem em terapia intensiva. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, v. 35, n. 1, p. 45-52, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/.

O Peso da Responsabilidade: Quando o Erro de Enfermagem se Torna Fatal

Escolher a enfermagem é aceitar uma das missões mais nobres e, ao mesmo tempo, mais pesadas que existem. No dia a dia de um hospital, somos nós que passamos as 24 horas ao lado do paciente. Essa proximidade nos coloca em uma posição privilegiada para salvar vidas, mas também nos deixa na linha de frente de possíveis falhas.

Quando falamos em erros de enfermagem que podem levar à morte, não estamos buscando culpados para punir, mas sim caminhos para entender como o sistema falha e como podemos nos proteger — e proteger quem cuidamos.

Para um estudante, o medo de errar é constante. A verdade é que o ambiente de saúde é complexo e, muitas vezes, caótico. Um erro fatal raramente acontece por um único motivo; ele é quase sempre o desfecho de uma sucessão de pequenas falhas. Entender esses mecanismos é o primeiro passo para uma prática segura e consciente.

O objetivo deste texto não é apontar culpados, mas compreender os principais erros, as causas que os favorecem e o que pode ser feito para evitá-los, especialmente na formação do estudante de enfermagem.

O que são erros assistenciais na enfermagem?

Erros assistenciais são ações ou omissões que fogem das boas práticas, dos protocolos e da ética profissional, resultando ou podendo resultar em dano ao paciente. Eles podem ocorrer mesmo em ambientes organizados e com profissionais experientes, principalmente quando fatores humanos e institucionais se somam.

Nem todo erro leva à morte, mas alguns têm potencial de desencadear eventos graves como insuficiência respiratória, choque, sepse e parada cardiorrespiratória.

Principais erros da enfermagem associados ao risco de morte

Erros na administração de medicamentos

A administração de medicamentos é uma das atividades mais críticas da enfermagem. Falhas nesse processo estão entre as principais causas de eventos adversos graves.

Erros como dose incorreta, medicamento errado, via errada, diluição inadequada ou administração em velocidade incompatível podem causar intoxicações, reações adversas severas, depressão respiratória, arritmias e colapso cardiovascular.

A não conferência da prescrição, a pressa e a rotina automatizada são fatores frequentemente associados a esse tipo de erro.

Falhas na vigilância clínica e monitorização

Um dos papéis centrais da enfermagem é observar continuamente o paciente. Quando sinais de deterioração clínica não são reconhecidos ou são subestimados, o paciente pode evoluir rapidamente para óbito.

Alterações discretas nos sinais vitais, redução do nível de consciência, queda de saturação ou mudança no padrão respiratório muitas vezes antecedem eventos graves. A demora em comunicar a equipe médica ou iniciar intervenções básicas pode ser decisiva.

Omissão de cuidados fundamentais

Cuidados básicos, quando negligenciados, podem gerar consequências graves. A ausência de mudança de decúbito favorece lesões por pressão, que podem evoluir para infecção e sepse. A falta de cuidados com vias aéreas pode levar à broncoaspiração e insuficiência respiratória. A higiene inadequada aumenta o risco de infecções relacionadas à assistência à saúde.

Esses erros geralmente não acontecem por desconhecimento, mas por sobrecarga de trabalho, falta de pessoal e desvalorização dos cuidados básicos.

Erros em procedimentos técnicos

A realização de procedimentos sem domínio técnico, sem supervisão ou fora da competência profissional é um fator de risco importante.

Punções mal executadas, manejo inadequado de dispositivos invasivos, falhas na técnica asséptica e uso incorreto de sondas e cateteres podem resultar em sangramentos, infecções graves, pneumotórax, sepse e óbito.

Para o estudante de enfermagem, reconhecer limites e buscar apoio é uma atitude de segurança, não de fragilidade.

Falhas na comunicação entre a equipe

A comunicação deficiente é uma das principais causas de eventos adversos fatais nos serviços de saúde. Informações incompletas na passagem de plantão, registros inadequados e falta de comunicação sobre alterações clínicas importantes comprometem a continuidade do cuidado.

A enfermagem, por acompanhar o paciente de forma contínua, tem papel essencial na transmissão clara e objetiva dessas informações.

Negligência, imprudência e abandono de plantão

O abandono de plantão e a negligência configuram infrações éticas e legais. A ausência do profissional ou a assistência realizada com desatenção, uso excessivo de celular e desinteresse colocam o paciente em risco direto.

Essas situações comprometem a administração de medicamentos, a vigilância clínica e a resposta a emergências, podendo resultar em morte evitável.

Principais causas que favorecem os erros na enfermagem

Os erros raramente estão ligados a um único fator. Na maioria das vezes, eles são consequência de um conjunto de causas.

Para entender por que um erro acontece, usamos muito na segurança do paciente o Modelo de James Reason, ou Modelo do Queijo Suíço. Imagine que cada barreira de segurança no hospital (o protocolo, a conferência do médico, a checagem do enfermeiro) é uma fatia de queijo. Todas têm furos (falhas potenciais). O acidente ocorre quando os furos de todas as fatias se alinham perfeitamente, permitindo que o erro chegue ao paciente.

As causas principais que geram esses “furos” são conhecidas:

  • Sobrecarga e Fadiga: Equipe de enfermagem com excesso de pacientes e jornadas duplas têm sua capacidade cognitiva reduzida. O cérebro cansado “pula” etapas automáticas de segurança.
  • Comunicação Ineficaz: Passagens de plantão apressadas, prescrições verbais mal interpretadas e a falta de uso de ferramentas como o SBAR geram lacunas de informação fatais.
  • Cultura Punitiva: Quando o hospital pune severamente quem erra, os profissionais escondem os “quase erros”. Sem discutir o erro, o sistema nunca aprende a evitá-lo.
  • Falta de Educação Continuada: Protocolos mudam. Um profissional que não se atualiza pode estar aplicando técnicas ultrapassadas que hoje são consideradas inseguras.

O que pode ser feito para evitar esses incidentes?

A boa notícia é que a segurança do paciente evoluiu muito. Hoje, sabemos que confiar apenas na memória humana é um erro. Para evitar incidentes, precisamos de barreiras sistêmicas.

A implementação da dupla checagem para medicamentos de alto risco é uma das medidas mais eficazes. Ter um segundo colega conferindo a dose e a ampola antes da aplicação cria uma barreira física ao erro. Além disso, o uso da tecnologia, como a checagem por código de barras à beira do leito, garante que o remédio certo está indo para o paciente certo.

Outro ponto fundamental é o fortalecimento da Cultura de Segurança. Isso significa que a equipe deve se sentir segura para relatar riscos sem medo de retaliação. Se percebemos que um rótulo de soro está confuso, devemos relatar isso como um “incidente sem dano” para que a farmácia altere o padrão antes que alguém se confunda e o dano ocorra.

Cuidados de Enfermagem para a Prática Segura

Para você, que está no campo de estágio ou prestes a se formar, algumas condutas devem ser inegociáveis:

  1. Vigilância Ativa: Não seja um “anotador de sinais vitais”. Seja um analista. Se os dados mudaram em relação ao último controle, investigue o porquê.
  2. Rigor com os “Certos“: Nunca pule as etapas de conferência de medicação. Identificação do paciente, dose, via e hora devem ser checadas verbalmente com o próprio paciente sempre que possível.
  3. Comunicação Assertiva: Ao receber uma ordem verbal em emergências, repita a ordem em voz alta para confirmar se entendeu corretamente antes de executar.
  4. Conheça seus Dispositivos: Antes de infundir qualquer coisa, confirme a procedência do cateter. Dietas nunca devem estar próximas de acessos venosos sem uma identificação visual clara e distinta.

Os erros da enfermagem que podem levar o paciente à morte não são resultado apenas de falhas individuais, mas de um sistema que muitas vezes sobrecarrega e fragiliza o profissional.

Compreender esses erros, reconhecer suas causas e investir em prevenção é essencial para formar profissionais mais seguros, conscientes e preparados. Para o estudante de enfermagem, esse conhecimento é um passo fundamental para uma prática ética, humana e baseada na segurança do paciente.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Assistência Segura: Uma Reflexão Teórica Aplicada à Prática. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/caderno-1-assistencia-segura-uma-reflexao-teorica-aplicada-a-pratica.pdf. 
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Resolução Cofen nº 564/2017. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resoluo-cofen-n-5642017_59145.html. 
  3. REASON, James. Human error: models and management. BMJ, v. 320, n. 7237, p. 768-770, 2000. Disponível em: https://www.bmj.com/content/320/7237/768. Acesso em: 27 dez. 2025.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP). Brasília, 2014. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Patient safety: global action plan 2021–2030. Geneva: WHO, 2021. Disponível em: https://www.who.int
  6. POTTER, P. A.; PERRY, A. G. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018. Disponível em: https://www.elsevier.com

Quick Pause: A nova abordagem para treinamentos em hospitais

No dia a dia hospitalar, tudo acontece em ritmo acelerado. Entre plantões, emergências, visitas médicas e cuidados com pacientes, é difícil encontrar tempo para pausas longas ou atividades que fujam da rotina.

Nesse contexto, surge uma proposta que vem ganhando cada vez mais espaço nas instituições de saúde: o formato de treinamento Quick Pause, também conhecido como “Pausa Rápida”.

Trata-se de uma estratégia simples, porém extremamente eficaz, que oferece aprendizado contínuo sem comprometer o fluxo intenso de trabalho dos profissionais da saúde.

Mas afinal, o que é exatamente esse tipo de treinamento?

E por que ele está se tornando tão importante dentro dos hospitais?

O que é o Quick Pause?

O Quick Pause é um modelo de treinamento breve, com duração média entre 5 a 15 minutos, realizado diretamente no local de trabalho. Pode acontecer ao lado do leito, durante reuniões de equipe, nos corredores do hospital ou até mesmo em áreas de descanso.

Ao contrário dos treinamentos tradicionais, que muitas vezes demandam deslocamento, logística e um tempo prolongado de dedicação, o Quick Pause é pensado para ser rápido, prático e eficaz. O objetivo é fornecer informações relevantes de forma imediata e aplicável, contribuindo para a atualização constante dos profissionais.

Por que ele é tão útil no ambiente hospitalar?

O tempo é um recurso escasso

Em hospitais, cada minuto conta. Interromper uma equipe inteira para um treinamento longo pode ser inviável, especialmente em momentos de alta demanda. O Quick Pause resolve essa questão oferecendo um formato enxuto, direto ao ponto.

Favorece a aprendizagem no local de trabalho

Por ser realizado no próprio ambiente hospitalar, esse tipo de treinamento não exige deslocamentos e ainda permite que os aprendizados sejam imediatamente relacionados com situações reais. Isso aumenta a absorção do conteúdo e sua aplicação na prática.

Reforça diretrizes importantes

Questões como higienização das mãos, uso correto de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), segurança do paciente, administração de medicamentos e outros temas críticos podem ser rapidamente revisitados e reforçados. São assuntos que, embora já conhecidos, precisam ser constantemente lembrados.

Atualiza sem sobrecarregar

Um dos grandes méritos do Quick Pause é permitir a atualização de conhecimentos de forma leve. Como são encontros rápidos, eles não geram a sensação de sobrecarga — pelo contrário, são percebidos como oportunidades de aprendizado contínuo e acessível.

Mais aceitação por parte da equipe

Profissionais da saúde costumam reagir melhor a treinamentos objetivos e interativos. Quando o tempo é respeitado e o conteúdo é útil, a tendência é que a participação e o engajamento aumentem.

Um recurso que pode (e deve) ser frequente

A flexibilidade é outro ponto forte desse modelo. O Quick Pause pode ser feito em qualquer turno, alcançando profissionais de diferentes horários e especialidades. Essa adaptabilidade permite que a estratégia seja aplicada com maior frequência, sem comprometer o andamento das atividades hospitalares.

Além disso, é possível personalizar o conteúdo conforme as necessidades da equipe. Por exemplo, se um setor enfrenta dificuldades com a administração segura de medicamentos, esse pode ser o foco da próxima pausa educativa.

Discussão de casos reais e fortalecimento da equipe

Alguns Quick Pauses podem incluir discussões rápidas de casos clínicos reais, o que aumenta a aplicabilidade do conteúdo e estimula a tomada de decisões embasadas. Também servem como espaço para troca de experiências e fortalecimento da comunicação entre as equipes multiprofissionais.

Não precisa de muitos recursos

Um dos grandes benefícios do Quick Pause é que ele não exige equipamentos complexos ou salas específicas. Pode ser feito com materiais simples, como cartazes, vídeos curtos, simulações rápidas, checklists e apresentações breves. Isso facilita a implementação e reduz os custos.

O treinamento Quick Pause representa uma evolução no modo de ensinar e aprender dentro do hospital. Ao respeitar o tempo e o ritmo dos profissionais, ele promove a aprendizagem de forma contínua, prática e sustentável.

Mais do que uma estratégia de capacitação, o Quick Pause incentiva uma cultura de aperfeiçoamento constante, que se reflete diretamente na segurança do paciente e na qualidade da assistência prestada. Para quem está iniciando a carreira na enfermagem ou deseja melhorar a rotina educacional da equipe, vale a pena conhecer e aplicar essa metodologia.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos. Brasília: MS, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/seguranca_paciente_medicamentos.pdf
  2. OLIVEIRA, A. C.; PAIVA, M. H. S.; COSTA, S. F. D. Segurança do Paciente: conhecendo os riscos nas práticas de enfermagem. São Paulo: Atheneu, 2018.
  3. SCHMITT, C. M. et al. Educação em saúde no ambiente hospitalar: práticas educativas e o cuidado com o trabalhador. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 74, n. Suppl 1, e20201356, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/jZcy9XkWkxZrbd8hQ8bNHZr/
  4. INSTITUTE FOR HEALTHCARE IMPROVEMENT (IHI). How-to Guide: Implementing the Seven Steps Approach to Improving Patient Safety. Cambridge, MA: IHI, 2009. (Embora mais amplo, aborda a importância de intervenções rápidas e aprendizado contínuo). Disponível em: 

Meios de Prevenção de Quedas

As quedas em ambiente hospitalar são eventos indesejáveis que podem causar lesões graves aos pacientes e gerar consequências negativas para a instituição. Felizmente, existem diversas medidas preventivas que podem ser adotadas para reduzir significativamente o risco de ocorrências.

Medidas Preventivas Comuns

Uso da Campainha Beira-Leito

 A campainha deve estar sempre ao alcance do paciente para que ele possa solicitar ajuda quando precisar se levantar ou realizar alguma atividade.

Meias Antiderrapantes

 O uso de meias com sola antiderrapante proporciona maior aderência ao piso, diminuindo o risco de escorregões.

Proximidade do Posto de Enfermagem

 Ao posicionar o leito do paciente próximo ao posto de enfermagem, a equipe pode monitorar mais de perto e atender rapidamente às suas necessidades.

Grades do Leito Elevadas

 As grades de proteção do leito devem ser mantidas elevadas, especialmente durante a noite ou quando o paciente estiver sonolento, evitando que ele caia da cama.

Calçados Adequados

 O uso de calçados fechados e com sola antiderrapante é fundamental para garantir a segurança do paciente ao caminhar.

Iluminação Adequada

O ambiente deve estar bem iluminado, tanto durante o dia quanto à noite, para evitar tropeços e quedas.

Mobiliário Fixo

 O mobiliário deve ser fixo e estável, evitando que o paciente se apoie em objetos que possam se mover.

Corredores Livres de Obstáculos

 Os corredores devem estar livres de objetos que possam obstruir a passagem e causar tropeços.

Avaliação Regular do Risco de Queda

 É fundamental realizar uma avaliação regular do risco de queda de cada paciente, identificando os fatores de risco e implementando as medidas preventivas adequadas.

Orientação ao Paciente e Acompanhante

O paciente e seus acompanhantes devem ser orientados sobre a importância das medidas de segurança e como solicitar ajuda quando necessário.

Programa de Prevenção de Quedas

A instituição deve implementar um programa de prevenção de quedas que envolva todos os profissionais da saúde e seja atualizado regularmente.

Outros Exemplos de Medidas Preventivas

  • Uso de Alarme de Saída da Cama: Para pacientes com alto risco de queda, o uso de alarmes de saída da cama pode ser uma medida eficaz.
  • Uso de Barreiras Laterais na Cadeira de Rodas: As barreiras laterais na cadeira de rodas ajudam a prevenir que o paciente escorregue para fora da cadeira.
  • Adaptações no Banheiro: A instalação de barras de apoio no banheiro e o uso de assentos sanitários elevados podem reduzir o risco de quedas durante o banho.
  • Exercícios de Fortalecimento: A prática regular de exercícios de fortalecimento muscular pode melhorar o equilíbrio e a força do paciente, diminuindo o risco de quedas.

A importância da equipe multidisciplinar

A prevenção de quedas é uma responsabilidade de toda a equipe multidisciplinar, incluindo médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas e outros profissionais. A comunicação entre os membros da equipe é fundamental para garantir a eficácia das medidas preventivas.

Referência:

  1. BRASIL. Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal. Segurança do Paciente – Prevenção de Quedas. 2019.