Metalyse: o que a enfermagem precisa saber

Em uma emergência cardiovascular, alguns medicamentos precisam ser preparados com tanta atenção quanto rapidez. O Metalyse® é um deles. Quando o tempo está correndo, não basta saber que se trata de um “trombolítico”: é preciso reconhecer a apresentação correta, entender a indicação, conferir o peso do paciente quando aplicável e acompanhar de perto o risco de sangramento.

O que é o Metalyse?

O Metalyse® tem como princípio ativo a tenecteplase, um agente trombolítico fibrinoespecífico derivado do ativador do plasminogênio tecidual (t-PA). Sua função é favorecer a conversão do plasminogênio em plasmina, contribuindo para a degradação da fibrina presente no trombo.

No contexto do infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST), a tenecteplase pode ser utilizada como terapia fibrinolítica quando a estratégia indicada é a trombólise. O Ministério da Saúde inclui a tenecteplase entre os trombolíticos fibrinoespecíficos e apresenta o seu uso no manejo do IAMCSST.

As apresentações do Metalyse

Aqui existe uma atualização que merece atenção. O Metalyse passou a contar também com a apresentação de 25 mg, além das apresentações de 40 mg e 50 mg encontradas nas informações anteriores do produto.

A apresentação de 25 mg contém 5.000 U de tenecteplase e, após reconstituição com 5 mL de água para injetáveis, produz uma solução com 5 mg/mL, ou 1.000 U/mL. Essa apresentação de 25 mg tem uma particularidade importante: nas informações europeias atuais do produto, ela é destinada ao tratamento trombolítico do acidente vascular cerebral isquêmico agudo, com dose baseada no peso e máximo de 25 mg. Portanto, não se deve simplesmente assumir que a apresentação de 25 mg possui a mesma indicação e esquema de utilização das apresentações destinadas ao IAM.

As apresentações de 40 mg e 50 mg possuem, respectivamente, 8.000 U e 10.000 U de tenecteplase. Após reconstituição, também resultam em concentração de 5 mg/mL. No material profissional consultado para essas apresentações, o medicamento é apresentado para uso intravenoso e tratamento trombolítico do infarto agudo do miocárdio.

Apresentação Tenecteplase Diluente Concentração após reconstituição
Metalyse 25 mg 5.000 U 5 mL 5 mg/mL
Metalyse 40 mg 8.000 U 8 mL 5 mg/mL
Metalyse 50 mg 10.000 U 10 mL 5 mg/mL

Um detalhe importante para provas e para a prática: as unidades (U) do tenecteplase são específicas para esse medicamento e não podem ser comparadas diretamente com as unidades utilizadas para outros trombolíticos.

Metalyse no infarto: a dose depende do peso

Para o tratamento trombolítico do IAMCSST, a dose de tenecteplase é administrada em bólus intravenoso único, com dose ajustada ao peso. O protocolo do Ministério da Saúde apresenta o seguinte esquema: até 30 mg para pacientes com menos de 60 kg; 35 mg para 60 a menos de 70 kg; 40 mg para 70 a menos de 80 kg; 45 mg para 80 a menos de 90 kg; e 50 mg para pacientes com 90 kg ou mais.

Isso explica por que a conferência do peso é tão importante antes da administração. Para um paciente de 74 kg, por exemplo, a dose prevista nesse esquema é 40 mg. Para alguém com 86 kg, seria 45 mg. A dose máxima indicada para o IAM nesse protocolo é 50 mg.

E a apresentação de 25 mg?

Aqui está uma das novidades mais importantes da neurologia vascular brasileira nos últimos meses: em dezembro de 2025, a ANVISA aprovou oficialmente o Metalyse 25 mg para o tratamento do AVC isquêmico agudo (AVCi) no Brasil. O medicamento chegou aos hospitais brasileiros em abril de 2026, e a primeira trombólise sistêmica com essa apresentação específica já foi realizada no país, em Ribeirão Preto, sob supervisão de uma neurologista vascular.

Isso significa que a indicação deixou de ser “só uma possibilidade em bulas europeias” e passou a ser uma realidade concreta da prática nacional. Para o profissional de enfermagem, isso é relevante tanto na teoria (cai em prova) quanto na prática (já está circulando em hospitais que atendem AVC agudo).

A dose para AVCi é calculada por peso, 0,25 mg/kg, com dose máxima de 25 mg — independente do paciente pesar mais que 100 kg, o teto é sempre 25 mg. A administração é em bolus único intravenoso, aplicado em 5 a 10 segundos.

Um ponto que merece destaque redobrado: as apresentações de 40 mg e 50 mg são de uso exclusivo para o protocolo de Infarto Agudo do Miocárdio. Já a apresentação de 25 mg é a única indicada para o AVC isquêmico. Trocar essas apresentações não é um detalhe burocrático — é um erro que compromete diretamente a margem de segurança terapêutica do paciente.

A janela de tempo que define tudo no AVC

Diferente do IAM, no AVC isquêmico o fator mais decisivo antes mesmo de pensar em dose ou apresentação é o tempo desde o início dos sintomas. A trombólise intravenosa só é indicada para pacientes elegíveis tratados em até 4,5 horas após o início do quadro, conforme reconhecido pela European Stroke Organisation e por sociedades médicas internacionais.

Isso muda a lógica da triagem: antes de qualquer cálculo de peso ou preparo do medicamento, a primeira pergunta da equipe precisa ser “que horas exatamente os sintomas começaram?” — e não “quantos quilos o paciente pesa?”. Na prática de urgência, é comum que essa informação venha de um familiar, e nem sempre com precisão; por isso, documentar o horário relatado com clareza no atendimento inicial é parte do cuidado, não um detalhe administrativo.

O impacto do tempo é medido em neurônios: durante os primeiros 60 minutos após o início dos sintomas — a chamada “Hora de Ouro” — o cérebro pode perder até 1,9 milhão de neurônios por minuto sem tratamento.

Por que o Metalyse chama tanta atenção na emergência?

Uma das características práticas da tenecteplase é a possibilidade de administração em bólus intravenoso único, o que simplifica a administração em comparação com esquemas trombolíticos que exigem infusão prolongada. No cenário do IAM, essa característica também é relevante para sistemas de atendimento em que cada minuto influencia a estratégia de reperfusão.

O Ministério da Saúde inclui a tenecteplase entre as opções fibrinolíticas e estabelece critérios para avaliação da reperfusão após a trombólise. A redução significativa da dor e uma redução superior a 50% do supradesnivelamento de ST são exemplos de sinais utilizados para avaliar resposta; um novo ECG deve ser realizado entre 60 e 90 minutos após a trombólise, conforme a Linha de Cuidado do IAM.

Cuidados de enfermagem antes da administração

Antes de preparar o medicamento, a equipe precisa confirmar indicação, prescrição, peso do paciente quando necessário, apresentação disponível, concentração, validade, integridade do frasco e condições de armazenamento. Também é fundamental verificar contraindicações à fibrinólise e investigar história de sangramento, AVC, cirurgia recente, trauma e outras condições previstas no protocolo.

No IAMCSST, a decisão pela trombólise não deve ser baseada apenas na presença de dor torácica. O diagnóstico, o ECG, o tempo de início dos sintomas, as contraindicações e a possibilidade de reperfusão mecânica precisam ser considerados pela equipe responsável.

Depois da administração, a vigilância deve ser contínua. Sangramentos em locais de punção, hematúria, hematêmese, melena, epistaxe, sangramento gengival e alterações neurológicas precisam ser valorizados. Cefaleia intensa, alteração súbita do nível de consciência, déficit neurológico ou qualquer suspeita de hemorragia intracraniana exigem avaliação imediata.

Também é importante minimizar procedimentos invasivos desnecessários durante o período de maior risco hemorrágico, seguindo o protocolo institucional.

Cuidados de enfermagem específicos no AVC isquêmico

Os cuidados após a trombólise no AVC têm particularidades que não se aplicam da mesma forma ao protocolo de infarto: O controle rigoroso da pressão arterial é ainda mais crítico aqui — a PA deve estar controlada (geralmente abaixo de 185×110 mmHg) antes da administração, conforme o protocolo institucional, já que hipertensão não controlada aumenta o risco de transformação hemorrágica.

A avaliação neurológica precisa ser seriada e frequente, não pontual: reavaliações a cada 15 minutos nas primeiras horas são comuns em protocolos de AVC, observando nível de consciência, força muscular e fala. Uma piora neurológica súbita durante esse período pode ser o primeiro sinal de sangramento intracraniano e exige comunicação imediata à equipe médica.

Assim como no protocolo de IAM, anticoagulantes e antiagregantes plaquetários devem ser evitados nas primeiras 24 horas após a trombólise, salvo orientação médica específica.

Uma situação que muda tudo no plantão

Na prática de terapia intensiva, existe uma diferença enorme entre preparar um medicamento de rotina e preparar um trombolítico enquanto a equipe está aguardando a decisão de reperfusão. Em uma situação de IAMCSST, lembro de como a conferência do peso, da prescrição e da apresentação do frasco precisa acontecer praticamente em paralelo com o restante do atendimento; enquanto alguém monitoriza o paciente, outro profissional organiza o medicamento e a equipe confirma o acesso venoso.

Esse tipo de situação mostra por que decorar apenas “Metalyse é trombolítico” é insuficiente. A segurança está nos detalhes da conferência.

O acesso venoso também merece atenção

Nas informações do produto, o Metalyse reconstituído pode ser administrado por uma linha intravenosa existente quando essa linha contém cloreto de sódio 0,9%. A apresentação de 25 mg, por exemplo, não deve ser administrada em uma linha contendo solução de glicose, devido à incompatibilidade descrita nas informações do produto. Após a administração, a linha deve ser lavada conforme as instruções para garantir a entrega adequada do medicamento.

Na rotina, esse é exatamente o tipo de detalhe que pode passar despercebido quando a equipe está concentrada na urgência. Por isso, antes de conectar qualquer medicamento em uma via existente, vale conferir qual solução está sendo infundida e o protocolo institucional.

Acompanhar a reperfusão faz parte do cuidado

A administração do trombolítico não encerra o atendimento. O paciente continua precisando de monitorização cardíaca, avaliação dos sinais vitais, acompanhamento da dor e realização de ECG conforme protocolo.

No IAMCSST, quando a reperfusão não é adequada, a persistência da dor intensa, instabilidade hemodinâmica ou redução insuficiente do supradesnivelamento de ST pode indicar necessidade de encaminhamento precoce para uma unidade com hemodinâmica para ICP de resgate.

Esse acompanhamento é uma parte essencial da assistência de enfermagem. Não basta registrar “Metalyse administrado”; é preciso acompanhar e registrar a evolução clínica do paciente.

O que o profissional de enfermagem precisa guardar

O ponto principal é simples: Metalyse é tenecteplase, um trombolítico de alto risco, e sua utilização exige conferência rigorosa da indicação, apresentação, dose, peso, contraindicações, via e resposta clínica.

E existe uma atualização importante: a apresentação de 25 mg existe e não deve ser confundida automaticamente com as apresentações de 40 mg e 50 mg utilizadas nos esquemas de IAM. A indicação da apresentação precisa ser conferida na bula e no protocolo vigente do serviço.

Em uma emergência, rapidez é fundamental. Só que rapidez segura não significa pular etapas; significa saber exatamente quais etapas não podem ser esquecidas.

Resumo para salvar

Metalyse: apresentações e cuidados essenciais

  • Metalyse é o nome comercial da tenecteplase, um trombolítico fibrinoespecífico
  • No IAMCSST, a dose é ajustada pelo peso, com máximo de 50 mg (apresentações de 40 mg e 50 mg)
  • A apresentação de 25 mg foi aprovada pela ANVISA para AVC isquêmico agudo, com dose de 0,25 mg/kg (máximo 25 mg) em até 4,5h do início dos sintomas
  • Após a trombólise, a enfermagem deve monitorar reperfusão, sinais vitais e principalmente sinais de sangramento

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Infarto Agudo do Miocárdio: manejo inicial – Linha de Cuidado. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Habilitação da Administração Pré-Hospitalar Tenecteplase – SAMU 192. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: Manual de Tenecteplase – Ministério da Saúde.
  3. EUROPEAN MEDICINES AGENCY. Metalyse 5 000 units (25 mg): product information. Amsterdam: EMA. Disponível em: EMA – Metalyse 25 mg.
  4. ELECTRONIC MEDICINES COMPENDIUM. Metalyse 5 000 units (25 mg) powder for solution for injection – Summary of Product Characteristics. Disponível em: Metalyse 25 mg – SmPC.
  5. BOEHRINGER INGELHEIM. Metalyse® (tenecteplase): informações profissionais do medicamento. Informações técnicas do produto. Disponível em: Informações profissionais sobre Metalyse
  6. PANORAMA FARMACÊUTICO. Anvisa aprova tratamento para o AVC isquêmico agudo. Disponível em: https://panoramafarmaceutico.com.br/anvisa-aprova-medicamento-para-o-tratamento-do-avc-isquemico-agudo/.
  7. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DOENÇAS CEREBROVASCULARES (SBAVC). Primeira Trombólise com Tenecteplase 25mg no Brasil. Disponível em: https://avc.org.br/blog/2026/04/29/primeira-trombolise-com-tenecteplase-25mg-no-brasil/.

Infarto Agudo do Miocárdio (IAM): cada minuto muda o desfecho

Há uma pergunta que pode ser mais importante do que “onde dói?” diante de uma suspeita de infarto: “Que horas exatamente essa dor começou?”

Na prática, o tempo de início dos sintomas ajuda a orientar decisões que podem definir a quantidade de músculo cardíaco preservada. O infarto agudo do miocárdio (IAM) ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma região do coração é interrompido, levando à isquemia e, se não houver reperfusão, à morte das células cardíacas. Por isso, não é uma situação para “esperar passar”. O Ministério da Saúde destaca que o atendimento nos primeiros minutos é fundamental para reduzir o risco de morte.

Nem todo infarto começa com aquela dor clássica

A apresentação mais conhecida é uma dor ou pressão no peito, geralmente intensa e prolongada, podendo irradiar para braço, ombro, costas, pescoço ou mandíbula. Sudorese fria, palidez, náuseas, vômitos, falta de ar, tontura e sensação de desmaio também podem aparecer. Em idosos e pessoas com diabetes, entretanto, o quadro pode ser menos típico; falta de ar ou um mal-estar súbito podem ser os principais sinais.

Por isso, durante o acolhimento, não basta perguntar simplesmente “está com dor?”. É importante investigar quando começou, como começou, quanto tempo dura, onde está localizada, para onde irradia, qual sua intensidade e quais sintomas vieram junto.

O ECG não pode ficar esperando

Na suspeita de síndrome coronariana aguda, o eletrocardiograma de 12 derivações deve ser realizado idealmente em até 10 minutos após a apresentação do paciente. Um primeiro ECG normal também não exclui completamente a possibilidade de síndrome coronariana; dependendo da evolução clínica, podem ser necessários ECGs seriados.

Na rotina de um setor de emergência, esse detalhe muda completamente a dinâmica. Um paciente que chega dizendo “estou com uma pressão no peito desde cedo” não deveria ficar aguardando tranquilamente a fila de atendimento enquanto a equipe tenta descobrir depois o horário de início. A história precisa ser valorizada desde o primeiro contato.

Uma situação que fica na memória

Em um plantão, é fácil lembrar daqueles pacientes que chegam andando, conversando e até fazendo piada, apesar de estarem com uma queixa potencialmente grave. Já presenciei situações em que a aparência relativamente tranquila contrastava com a informação de que a dor havia começado havia pouco tempo.

É justamente nesses momentos que a equipe precisa evitar a falsa sensação de segurança. O paciente pode estar conversando normalmente e, ainda assim, precisar de uma avaliação imediata, monitorização e investigação cardíaca.

Cuidados de enfermagem fazem diferença

Na suspeita de IAM, a Enfermagem participa ativamente da avaliação inicial, classificação de risco, monitorização e organização do atendimento. É importante verificar sinais vitais, avaliar a intensidade e características da dor, investigar sintomas associados, conferir medicamentos em uso e alergias, realizar glicemia quando indicada, providenciar acesso venoso e acompanhar continuamente a condição clínica.

O paciente deve permanecer em repouso, com posicionamento adequado conforme seu estado clínico, e o oxigênio não deve ser administrado indiscriminadamente: a Linha de Cuidado do Ministério da Saúde recomenda oxigenoterapia quando a saturação está abaixo de 94%, considerando particularidades como doença pulmonar obstrutiva crônica. A equipe também deve agilizar ECG, exames e encaminhamento conforme o protocolo institucional.

Outro ponto essencial é não perder a informação sobre o horário de início dos sintomas. Esse dado deve ser registrado de maneira clara, porque interfere na avaliação das estratégias de reperfusão.

A reperfusão não pode esperar

Nos casos de IAM com supradesnivelamento do segmento ST, a reperfusão miocárdica precisa ser realizada o mais rapidamente possível, por intervenção coronariana percutânea primária ou, quando indicada e conforme disponibilidade e critérios clínicos, por terapia trombolítica. O objetivo é diminuir o tempo total de isquemia.

É por isso que expressões como “tempo é músculo” fazem tanto sentido no atendimento ao infarto. Cada etapa do fluxo, desde a identificação da dor até o ECG, diagnóstico, medicação, transferência e reperfusão, precisa funcionar de maneira coordenada.

Outra cena comum na prática

Em ambiente hospitalar, uma das coisas que mais chama atenção é como a situação pode mudar rapidamente. Um paciente que estava conversando com a equipe pode começar a apresentar sudorese intensa, palidez, queda da pressão ou alteração do ritmo cardíaco em poucos minutos.

Nesses momentos, não existe espaço para uma assistência fragmentada. Enquanto alguém monitora o paciente, outro profissional organiza acesso e medicações conforme prescrição e protocolo, outro providencia exames e a equipe médica é acionada. A comunicação rápida deixa de ser apenas uma característica desejável e passa a fazer parte da segurança do atendimento.

O que o profissional de enfermagem precisa guardar

Diante de uma suspeita de infarto, dor torácica ou equivalente não deve ser banalizada. O horário de início dos sintomas precisa ser conhecido e registrado; sinais vitais e características da dor devem ser avaliados; o ECG deve ser agilizado; o paciente deve ser monitorizado conforme sua condição; e alterações clínicas precisam ser comunicadas imediatamente.

Se uma pessoa estiver apresentando dor súbita no peito, falta de ar, suor frio, palidez, desmaio ou outros sinais sugestivos de infarto, a orientação é procurar atendimento de emergência imediatamente. No Brasil, o SAMU 192 atende situações como suspeita de infarto e dor torácica súbita.

Infarto não é uma situação para observar em casa para ver se melhora. Quanto mais cedo a equipe reconhecer o problema e iniciar o fluxo adequado, maior a possibilidade de reduzir o dano cardíaco e melhorar o desfecho.

Resumo para salvar

Infarto: reconheça os sinais antes que seja tarde

  • Dor torácica e sintomas associados exigem avaliação imediata
  • O ECG deve ser realizado idealmente em até 10 minutos
  • Registrar o horário de início dos sintomas é fundamental
  • Na suspeita de IAM, cada minuto pode influenciar o desfecho

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Infarto. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Infarto
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio: manejo inicial. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Linha de Cuidado – Manejo inicial do IAM.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio: acolhimento e triagem. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Linha de Cuidado – Acolhimento e triagem.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio e o Protocolo de Síndromes Coronarianas Agudas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: Protocolo de Síndromes Coronarianas Agudas.
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. SAMU 192. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: SAMU 192 – Ministério da Saúde
  6. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). V Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Tratamento do Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnível do Segmento ST. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 105, n. 2, supl. 1, p. 1-121, ago. 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/a/FhxV98nFLWL38yZhHYwxp6F/?lang=pt
  7. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 713, de 22 de julho de 2022. Atualiza as normas para a atuação da Equipe de Enfermagem em Urgência e Emergência. Brasília, DF: Cofen, 2022. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-713-2022/

Delirium em UTI: como reconhecer precocemente com o CAM-ICU e quais são os principais cuidados de Enfermagem

Vá direto ao ponto!

O delirium é uma das alterações neurológicas mais comuns e, ao mesmo tempo, mais subestimadas dentro de uma Unidade de Terapia Intensiva.

Para quem trabalha na UTI, é relativamente fácil perceber quando um paciente está hipotenso, dessaturando ou apresentando uma alteração importante no eletrocardiograma. Já o delirium pode começar de maneira muito mais discreta: o paciente fica um pouco mais desatento, confunde horários, demora para responder, passa a olhar fixamente para algum ponto, apresenta um comportamento diferente ou começa a alternar períodos de agitação com momentos de sonolência.

É justamente aí que está um dos maiores desafios.

Delirium não é simplesmente “confusão mental”. É uma síndrome neuropsiquiátrica aguda, geralmente de início rápido e curso flutuante, que pode ser consequência de uma alteração clínica subjacente, efeito de medicamentos, infecção, distúrbios metabólicos, privação de sono, dor, hipóxia, abstinência e diversos outros fatores.

Em pacientes críticos, a identificação pode ser ainda mais difícil porque muitos estão intubados, sedados, em ventilação mecânica ou impossibilitados de falar. Por isso foram desenvolvidos instrumentos específicos para a UTI, entre eles o CAM-ICU — Confusion Assessment Method for the Intensive Care Unit. Estudos brasileiros demonstraram que a versão em português do CAM-ICU é um instrumento válido e confiável para avaliação de delirium em pacientes críticos.

E existe uma diferença importante entre perceber que “o paciente está estranho” e avaliar sistematicamente se ele apresenta delirium.

O que é delirium?

Delirium é uma alteração aguda e flutuante da atenção e da cognição.

O paciente pode apresentar alterações de:

  • atenção;
  • consciência;
  • percepção;
  • pensamento;
  • memória;
  • orientação;
  • comportamento;
  • ciclo sono-vigília.

Uma característica muito importante é a flutuação. O paciente pode estar conversando normalmente às 10 horas da manhã e, algumas horas depois, apresentar desorientação, dificuldade de manter a atenção ou comportamento incomum.

Depois pode melhorar novamente. Isso não significa necessariamente que “ele está fingindo” ou que “está apenas nervoso”. A flutuação é uma característica típica do delirium. Estudos brasileiros descrevem o início abrupto e a variação da intensidade dos sintomas ao longo do dia como características importantes dessa síndrome.

Delirium não é sinônimo de demência

Essa confusão aparece bastante entre estudantes. Embora possam existir alterações cognitivas nas duas condições, elas são diferentes. A demência costuma apresentar evolução progressiva e mais prolongada, enquanto o delirium geralmente surge de forma aguda, em horas ou dias, e apresenta flutuação.

Além disso, o delirium caracteriza-se especialmente pela alteração da atenção. Um paciente pode ter demência e também desenvolver delirium. Por isso, encontrar um histórico de comprometimento cognitivo não deve fazer a equipe descartar automaticamente a possibilidade de delirium.

Delirium também não é simplesmente “agitação”

Esse é outro erro bastante comum.

Existe uma forma de delirium chamada hiperativa, em que o paciente pode ficar:

  • agitado;
  • inquieto;
  • agressivo;
  • tentando retirar cateteres;
  • tentando sair do leito;
  • apresentando alucinações.

Essa é a forma que geralmente chama mais atenção.

Mas existe também o delirium hipoativo.

Nesse caso, o paciente pode ficar:

  • sonolento;
  • apático;
  • lentificado;
  • pouco responsivo;
  • com pouca interação;
  • aparentemente “tranquilo”.

E esse paciente pode passar despercebido. Por isso, um dos grandes perigos na UTI é associar delirium somente ao paciente que está tentando arrancar o tubo.

Um paciente quieto demais também merece avaliação.

Por que o delirium é tão importante na UTI?

Porque ele não é apenas um problema comportamental. O delirium em pacientes críticos está associado a consequências clínicas importantes. A literatura aponta relação com maior comprometimento cognitivo após a alta da UTI, e a atualização de 2025 das diretrizes PADIS da Society of Critical Care Medicine destaca que um rastreio positivo para delirium está fortemente associado a comprometimento cognitivo em três e 12 meses após a alta da UTI.

Além disso, o delirium pode dificultar:

  • desmame da ventilação mecânica;
  • comunicação com a equipe;
  • participação na fisioterapia;
  • mobilização;
  • sono;
  • tratamento;
  • segurança do paciente.

Por isso, reconhecer precocemente é muito mais importante do que simplesmente controlar a agitação.

Por que o paciente da UTI desenvolve delirium?

Na maioria das vezes, não existe uma única causa. O delirium costuma resultar da combinação de diversos fatores. O paciente internado em UTI pode estar simultaneamente enfrentando:

doença grave + dor + inflamação + medicamentos + privação de sono + imobilidade + alterações metabólicas + ambiente desconhecido.

Isso cria um cenário extremamente favorável ao desenvolvimento da síndrome.

Principais fatores de risco

Alguns fatores aparecem frequentemente na prática de terapia intensiva. Entre eles estão:

  • idade avançada, especialmente quando associada a fragilidade ou comprometimento cognitivo prévio;
  • doença grave, principalmente em pacientes com disfunção de múltiplos órgãos;
  • sepse e infecções;
  • ventilação mecânica;
  • uso de sedativos e determinados medicamentos;
  • dor inadequadamente controlada;
  • distúrbios metabólicos e eletrolíticos;
  • hipóxia;
  • desidratação;
  • insuficiência renal ou hepática;
  • imobilidade prolongada;
  • privação do sono;
  • ausência de estímulos durante o dia e excesso de estímulos à noite;
  • alterações visuais ou auditivas;
  • abstinência de álcool ou determinadas substâncias.

O importante é entender que nem sempre conseguimos eliminar todos os fatores de risco. Mas podemos reduzir vários deles.

O ambiente da UTI pode contribuir para o delirium

Imagine passar vários dias em um ambiente onde:

  • não existe diferença clara entre dia e noite;
  • alarmes tocam constantemente;
  • pessoas conversam durante toda a madrugada;
  • há iluminação artificial contínua;
  • procedimentos interrompem o sono;
  • o paciente não sabe que horas são;
  • não consegue utilizar seus óculos;
  • não consegue ouvir adequadamente;
  • não reconhece as pessoas ao redor.

Para o paciente, isso pode ser extremamente desorientador. Uma revisão brasileira sobre cuidados multiprofissionais em delirium destaca justamente estratégias como redução de ruídos, reorientação cognitiva, objetos familiares, preservação do sono, mobilização precoce e participação estruturada da família.

Por isso, prevenção do delirium não é apenas uma questão de medicamento. O ambiente também faz parte do cuidado.

Como reconhecer precocemente?

Uma das melhores estratégias é não esperar o paciente ficar completamente desorientado. A equipe deve observar mudanças em relação ao comportamento habitual.

Pergunte:

“Esse paciente está igual ao que estava ontem?”

Essa pergunta aparentemente simples pode ser extremamente útil. Observe se ele:

  • perdeu a capacidade de manter uma conversa;
  • está mais distraído;
  • demora mais para responder;
  • não consegue acompanhar comandos;
  • apresenta comportamento incomum;
  • está alternando agitação e sonolência;
  • apresenta alterações na percepção;
  • confunde pessoas ou situações;
  • está acordado, mas parece “não estar presente”.

Quando existe mudança aguda ou flutuante, deve-se pensar em delirium.

O CAM-ICU: o que é?

O CAM-ICU é uma adaptação do Confusion Assessment Method desenvolvida especificamente para pacientes internados em terapia intensiva, inclusive aqueles que não conseguem se comunicar verbalmente.

Essa característica é muito importante. Um paciente intubado não consegue simplesmente responder:

“Você sabe onde está?”

Por isso, o CAM-ICU utiliza comandos, estímulos visuais e auditivos e avaliação objetiva da atenção e do pensamento. O instrumento foi desenvolvido justamente para tornar possível a avaliação de delirium em pacientes críticos, incluindo pacientes incapazes de falar.

Antes do CAM-ICU: avalie o nível de consciência

Aqui está uma parte que costuma causar confusão:

RASS e CAM-ICU não são a mesma escala.

A RASS — Richmond Agitation-Sedation Scale avalia o nível de agitação e sedação. O CAM-ICU avalia delirium.

Por isso, na prática, os dois instrumentos trabalham juntos. O primeiro passo é verificar se o paciente apresenta nível de consciência suficiente para que a avaliação de delirium possa ser realizada. A literatura descreve o método em duas etapas: primeiro avaliar o nível de consciência, frequentemente utilizando a RASS; depois, quando possível, aplicar o CAM-ICU.

RASS e CAM-ICU: qual a diferença?

Uma forma fácil de memorizar:

RASS = “quão acordado, sedado ou agitado está o paciente?”

CAM-ICU = “há características compatíveis com delirium?”

A RASS varia de +4 a -5.

No extremo positivo, temos agitação intensa, já no extremo negativo, temos sedação profunda.

O paciente com RASS -4 ou -5 não consegue ser adequadamente avaliado pelo CAM-ICU naquele momento.

Isso não significa:

“RASS -4 = delirium.”

Significa: não foi possível avaliar delirium naquele momento devido ao nível de consciência.

Essa diferença é fundamental.

Como funciona o CAM-ICU?

O algoritmo tradicional do CAM-ICU trabalha com quatro características principais.

Característica 1: início agudo ou curso flutuante

Pergunta-se:

Houve uma mudança aguda no estado mental?

Ou:

O comportamento/estado mental do paciente apresentou flutuação?

Pode ser uma alteração percebida nas últimas horas ou dias.

Exemplo:

“Ontem o paciente conversava adequadamente. Hoje está alternando períodos de lucidez com momentos de desorientação e dificuldade de atenção. Isso levanta a possibilidade de delirium.”

Característica 2: desatenção

Essa é uma das partes mais importantes do CAM-ICU. O paciente com delirium frequentemente apresenta dificuldade de manter ou direcionar a atenção. Uma forma de avaliação é utilizar estímulos padronizados, como pedir que o paciente acompanhe determinada sequência de letras ou realize uma tarefa de atenção conforme o treinamento do instrumento.

No paciente que não fala, isso pode ser realizado por meio de respostas visuais ou motoras. O objetivo não é simplesmente saber se ele “entendeu”.

É avaliar se consegue sustentar a atenção.

Característica 3: pensamento desorganizado

Depois, avalia-se se o pensamento está organizado. O paciente pode apresentar respostas incoerentes, contraditórias ou sem relação com a pergunta. Por exemplo, quando perguntado algo simples, pode responder algo completamente desconectado do contexto. Em pacientes intubados, podem ser utilizadas formas não verbais de avaliação.

Por isso, o profissional precisa ser treinado para aplicar corretamente o instrumento.

Característica 4: alteração do nível de consciência

Aqui entram alterações diferentes do estado de alerta normal.

O paciente pode estar:

  • hiperalerta;
  • sonolento;
  • estuporoso;
  • agitado;
  • excessivamente sedado.

O importante é relacionar essa alteração ao algoritmo do CAM-ICU.

Quando o CAM-ICU é considerado positivo?

A lógica clássica é:

Característica 1 + Característica 2 + (Característica 3 ou Característica 4).

Ou seja: início agudo/flutuação + desatenção + pensamento desorganizado ou alteração do nível de consciência.

Essa combinação é o que caracteriza uma avaliação positiva para delirium pelo CAM-ICU. Esse esquema é excelente para memorizar para provas:

1 + 2 + (3 ou 4) = CAM-ICU positivo.

Um exemplo prático

Imagine um paciente internado há três dias na UTI. Ontem estava conversando adequadamente. Hoje começou a apresentar períodos em que parece não reconhecer a equipe e, em outros momentos, volta a interagir. Durante a avaliação:

Característica 1: houve mudança aguda/flutuação?
Sim.

Característica 2: apresenta desatenção?
Sim.

Característica 3: pensamento desorganizado?
Não.

Característica 4: alteração do nível de consciência?
Sim.

Temos:

1 + 2 + 4 = CAM-ICU positivo.

Esse paciente precisa ser comunicado e investigado pela equipe.

CAM-ICU positivo não significa “dar haloperidol”

Essa é uma associação que precisa ser desconstruída. Encontrar delirium significa que a equipe precisa procurar e tratar fatores precipitantes, além de implementar medidas de suporte e segurança. A atualização PADIS de 2025 não encontrou evidência suficiente para recomendar a favor ou contra o uso de antipsicóticos em comparação ao cuidado habitual para tratamento do delirium em adultos na UTI.

Isso é importante porque ainda existe a ideia de que:

“Paciente delirou? Dá haloperidol.”

A abordagem atual é muito mais ampla. O medicamento pode ter papel em situações selecionadas, conforme avaliação médica e protocolo, especialmente quando há agitação importante e risco para o paciente ou para a equipe. Mas tratar delirium não significa simplesmente sedar o paciente.

E o que a Enfermagem deve fazer quando identifica delirium?

Aqui começa uma parte extremamente importante. A identificação do delirium não encerra a avaliação. Ela é o início de uma investigação. O profissional deve comunicar a alteração e observar possíveis fatores precipitantes.

É necessário pensar:

  • O paciente está com dor?
  • Está hipóxico?
  • Apresenta febre ou sinais de infecção?
  • Está desidratado?
  • Existe alteração glicêmica?
  • Há distúrbio eletrolítico?
  • Houve mudança recente de medicamentos?
  • Recebeu sedação em excesso?
  • Está dormindo durante o dia e acordado durante toda a noite?
  • Está imobilizado há muito tempo?
  • Está sem os óculos ou aparelho auditivo?
  • Está apresentando retenção urinária ou constipação?

Essas perguntas ajudam a direcionar o cuidado.

Cuidados de Enfermagem para prevenção do delirium

A prevenção é tão importante quanto o reconhecimento, e muitas medidas não dependem de equipamentos sofisticados.

Preservar o ciclo sono-vigília

Durante o dia, sempre que possível, favorecer iluminação natural e interação. Durante a noite, reduzir ruídos, luminosidade e interrupções desnecessárias. Isso não significa deixar o paciente sem monitorização, significa organizar os cuidados de forma racional para evitar perturbações desnecessárias do sono.

As diretrizes PADIS recomendam um protocolo multicomponente voltado à promoção do sono e estratégias que reduzam fatores modificáveis relacionados ao delirium.

Reorientação frequente

Conversar com o paciente pode ser uma intervenção de enfermagem. Dizer:

“Bom dia, senhor João. O senhor está na UTI do Hospital X. Hoje é sexta-feira. Eu sou a enfermeira Ana e estou cuidando do senhor.” pode parecer simples.

Mas para um paciente desorientado, essas informações ajudam a reconstruir referências. Relógio e calendário também podem ser úteis. A atualização de 2025 das diretrizes PADIS cita reorientação e estimulação cognitiva, incluindo uso de relógios, entre as estratégias de intervenções não farmacológicas multicomponentes.

Corrigir alterações visuais e auditivas

Um paciente que normalmente utiliza óculos e passa vários dias sem eles pode ter dificuldade para interpretar o ambiente. O mesmo pode acontecer com um paciente que utiliza aparelho auditivo. Sempre que clinicamente possível e seguro, facilitar o acesso a esses dispositivos pode ajudar na orientação. A recomendação atual inclui justamente a otimização da visão e da audição como parte das estratégias multicomponentes para reduzir fatores modificáveis de delirium.

Mobilização precoce

A imobilidade prolongada não é neutra. Sempre que houver condições clínicas e autorização da equipe, a mobilização deve ser estimulada. Isso pode variar desde:

  • mudança de decúbito;
  • exercícios ativos ou passivos;
  • sentar no leito;
  • sentar à beira-leito;
  • transferência para poltrona;
  • ortostatismo;
  • deambulação.

Tudo depende da condição clínica. A atualização PADIS de 2025 sugere mobilização/reabilitação intensificada em relação ao cuidado habitual para adultos internados em UTI. Importante: mobilização precoce não significa mobilizar qualquer paciente indiscriminadamente.

É necessário avaliar estabilidade clínica, dispositivos, suporte ventilatório, hemodinâmica e segurança.

Avaliação e controle da dor

Dor também pode contribuir para alterações comportamentais e pior experiência do paciente. O paciente intubado pode não conseguir dizer:

“Estou com dor.”

Por isso, escalas apropriadas para pacientes que não conseguem se comunicar verbalmente podem ser utilizadas conforme protocolo da instituição. O objetivo não é simplesmente administrar analgésico. É avaliar a dor, tratar adequadamente e reavaliar a resposta.

Cuidado com a sedação

Existe uma tendência histórica de manter pacientes críticos profundamente sedados para facilitar o cuidado. Mas sedação excessiva pode dificultar a avaliação neurológica, prolongar a ventilação mecânica e contribuir para problemas associados à terapia intensiva.

As diretrizes PADIS atualizadas em 2025 sugerem o uso de dexmedetomidina em vez de propofol em determinados pacientes adultos em ventilação mecânica quando a prioridade é sedação leve e/ou redução do delirium. Isso não significa que dexmedetomidina seja “o medicamento para prevenir delirium”. A recomendação é específica para determinadas estratégias de sedação, e o medicamento deve sempre ser administrado conforme prescrição, indicação e monitorização.

Evitar benzodiazepínicos quando não forem necessários

Alguns medicamentos podem aumentar o risco de delirium. Os benzodiazepínicos são um exemplo particularmente importante em pacientes críticos. Isso não significa que sejam absolutamente proibidos. Existem situações clínicas específicas em que podem ser necessários, mas o uso deve ter indicação e ser reavaliado.

O princípio é: usar a menor exposição necessária e adequada à situação clínica do paciente.

Família também pode ajudar

A família pode ser uma importante fonte de orientação e reorientação. Uma pessoa conhecida pode ajudar o paciente a reconhecer:

  • quem ele é;
  • onde está;
  • o que aconteceu;
  • quem está cuidando dele.

Além disso, objetos familiares, fotografias e comunicação com pessoas significativas podem ajudar na orientação.

Uma pesquisa brasileira recente sobre manejo não farmacológico do delirium em UTI identificou justamente a participação dos familiares como uma das estratégias relevantes, embora sua implementação ainda enfrente dificuldades em muitos serviços.

O que NÃO fazer com o paciente delirante

Algumas atitudes podem piorar a situação. Evite discutir com o paciente tentando “provar” que ele está errado. Se ele disser:

“Preciso ir para casa porque meu filho está esperando na porta.”

Responder agressivamente:

“Seu filho não está aqui! Você está delirando!” provavelmente não ajudará. Uma abordagem mais adequada pode ser:

“Entendo que você está preocupado com seu filho. Você está no hospital e nós estamos cuidando do senhor. Vou ficar aqui com você.”

O objetivo é reduzir ansiedade, oferecer segurança e reorientar.

Contenção física deve ser tratada com muita cautela

Um paciente delirante pode tentar retirar:

  • tubo orotraqueal;
  • cateter venoso;
  • sonda;
  • drenos;
  • outros dispositivos.

A reação automática pode ser “amarrar”. Mas contenção física não deve ser encarada como primeira solução para o delirium. É necessário avaliar a causa da agitação e utilizar medidas de segurança e estratégias menos restritivas sempre que possível, de acordo com a legislação, prescrição/protocolo e avaliação da equipe.

A própria atualização PADIS de 2025 aborda o tema das restrições físicas entre os tópicos de manejo do paciente crítico.

Delirium e segurança do paciente

Um paciente delirante pode apresentar risco aumentado de:

  • quedas;
  • retirada de dispositivos;
  • lesões;
  • interrupção de terapias;
  • dificuldade de cooperação;
  • acidentes durante mobilização.

Por isso, a identificação precisa resultar em um plano de segurança. Isso pode incluir:

  • ambiente organizado;
  • leito seguro;
  • monitorização adequada;
  • comunicação clara;
  • acompanhamento mais próximo;
  • retirada de obstáculos;
  • avaliação do risco de queda;
  • participação da família quando apropriado.

CAM-ICU deve ser aplicado uma única vez?

Não. Essa é outra característica importante. Como o delirium é flutuante, uma avaliação isolada pode não representar o estado do paciente durante todo o dia. Por isso, os protocolos de UTI devem estabelecer avaliação periódica e sistemática. A literatura brasileira destaca a importância da avaliação contínua com instrumentos específicos para permitir identificação precoce.

Na prática:

Não espere o paciente ficar agitado para repetir a avaliação.

O paciente pode estar em delirium hipoativo e apresentar poucos sinais externos.

O CAM-ICU substitui a avaliação clínica?

Não. Ele é uma ferramenta de rastreamento/avaliação estruturada. O resultado precisa ser interpretado dentro do contexto clínico. Um CAM-ICU positivo deve fazer a equipe pensar:

“Por que esse paciente desenvolveu delirium?”

E não apenas:

“Qual medicamento posso administrar?”

A causa pode ser potencialmente reversível.

Delirium pode ser o primeiro sinal de deterioração clínica

Essa é uma das experiências que o profissional de UTI aprende com o tempo. Às vezes, antes de aparecer uma grande alteração hemodinâmica, o paciente muda o comportamento. Aquele paciente que normalmente responde adequadamente começa a apresentar desatenção. Aquele que conversava começa a ficar excessivamente sonolento.

Aquele que estava orientado passa a tentar retirar dispositivos. Essas alterações não devem ser automaticamente classificadas como “coisa da idade”, “ansiedade” ou “birra”. Uma alteração aguda do estado mental merece investigação.

Estudos brasileiros ressaltam que o delirium pode ser manifestação de uma condição física subjacente mais grave ou de toxicidade medicamentosa.

Um roteiro prático para o estudante de Enfermagem

Durante o estágio, uma forma simples de organizar o raciocínio é:

  1. Observe

O paciente está diferente do habitual?

  1. Avalie a sedação

Qual é o RASS?

  1. Se puder ser avaliado, aplique o CAM-ICU

Verifique as quatro características.

  1. Se positivo, comunique

Delirium não deve ficar apenas registrado como “paciente confuso”.

  1. Procure fatores precipitantes

Dor, infecção, hipóxia, alterações metabólicas, medicamentos, privação do sono, retenção urinária, constipação, desidratação, imobilidade e outros.

  1. Implemente medidas não farmacológicas

Reorientação, sono, mobilidade, visão, audição, comunicação e ambiente.

  1. Reavalie

Delirium flutua.

Um exemplo que acontece na rotina da UTI

Imagine um paciente de 72 anos internado por pneumonia. Durante o primeiro dia, está acordado, responde adequadamente e reconhece os profissionais. Na segunda noite, começa a dizer que existem pessoas dentro do quarto.

  • Tenta retirar o acesso venoso.
  • Fala frases desconectadas.

Depois de alguns minutos, fica extremamente sonolento. No dia seguinte, parece melhor. Um profissional poderia dizer:

“Ele está confuso por causa da idade.” Mas essa não deveria ser a conclusão. Existe:

  • mudança aguda/flutuação;
  • alteração da atenção;
  • pensamento desorganizado;
  • alteração do nível de consciência.

O CAM-ICU pode ser positivo. A partir daí, a equipe precisa investigar o que está desencadeando o quadro. Pode ser infecção, hipóxia, medicamentos, alteração metabólica, privação do sono ou uma combinação de fatores.

E o paciente intubado?

O fato de estar intubado não impede automaticamente a avaliação pelo CAM-ICU. Essa é justamente uma das vantagens da ferramenta. O CAM-ICU foi desenvolvido para pacientes críticos, inclusive aqueles que não conseguem se comunicar verbalmente.

O paciente pode responder utilizando:

  • olhar;
  • movimentos da cabeça;
  • movimentos das mãos;
  • comandos motores padronizados.

Mas existe um detalhe: é necessário treinamento para aplicar corretamente o instrumento. Não basta conhecer o nome CAM-ICU. O profissional precisa conhecer o algoritmo e a forma padronizada de aplicação. O site oficial do CAM-ICU disponibiliza manual de treinamento, fluxograma, folha de avaliação, casos clínicos e outros materiais para capacitação.

Erros comuns na avaliação do delirium

Confundir agitação com delirium

Nem todo paciente agitado está delirante. É necessário avaliar sistematicamente.

Confundir sedação profunda com delirium

RASS -5 não significa CAM-ICU positivo. Significa que o paciente não está em condições de ser avaliado naquele momento.

Avaliar apenas pacientes agitados

Isso faz com que muitos casos hipoativos sejam perdidos.

Fazer o CAM-ICU sem avaliar o nível de consciência

RASS e CAM-ICU precisam ser entendidos conjuntamente.

Aplicar a escala de qualquer maneira

O CAM-ICU depende de aplicação padronizada.

Achar que o resultado resolve a causa

CAM-ICU identifica a síndrome; não explica sozinho por que ela aconteceu.

O papel da Enfermagem no delirium é muito maior do que aplicar uma escala

Essa talvez seja a principal mensagem para quem está aprendendo terapia intensiva. A escala é apenas uma ferramenta. O profissional de Enfermagem permanece ao lado do paciente durante grande parte do tempo e, por isso, pode perceber pequenas alterações que talvez passem despercebidas durante uma avaliação médica pontual.

É a Enfermagem que frequentemente percebe:

“Ele não estava assim ontem.” Essa informação tem valor clínico. Registrar a mudança, comunicar a equipe e acompanhar sua evolução pode contribuir para que uma causa reversível seja identificada mais rapidamente.

O que dizem as recomendações mais atuais?

As recomendações internacionais continuam reforçando a importância de avaliar sistematicamente delirium em pacientes críticos.

A atualização PADIS publicada pela Society of Critical Care Medicine em 2025 reforça uma abordagem que não se limita a medicamentos. Para prevenção e manejo, recomenda-se uma intervenção multicomponente e não farmacológica, envolvendo redução de fatores de risco modificáveis, melhora da cognição, sono, mobilidade, audição e visão.

A mesma atualização sugere mobilização/reabilitação intensificada e, em determinadas circunstâncias, preferência pela dexmedetomidina sobre propofol quando a prioridade é sedação leve e/ou redução do delirium em pacientes adultos sob ventilação mecânica.

Já em relação aos antipsicóticos, a diretriz de 2025 afirma que a evidência disponível não permite recomendar a favor ou contra seu uso em comparação ao cuidado habitual para tratamento do delirium em adultos de UTI.

Isso mostra como o manejo do delirium mudou.

Menos foco em simplesmente “acalmar o paciente” e mais foco em identificar causas, reduzir fatores modificáveis, preservar função e manter o paciente orientado e acordado quando clinicamente possível.

Delirium na UTI: o que o estudante precisa guardar

Se você estiver começando a trabalhar em terapia intensiva, memorize estas ideias:

  • Delirium é agudo e flutuante.
  • A desatenção é uma característica central.
  • Pode ser hiperativo, hipoativo ou misto.
  • Paciente intubado também pode apresentar delirium.
  • RASS avalia sedação/agitação; CAM-ICU avalia delirium.
  • RASS -4/-5 impede uma avaliação adequada pelo CAM-ICU naquele momento.
  • CAM-ICU positivo = característica 1 + característica 2 + característica 3 ou 4.
  • Não espere o paciente ficar agitado para investigar.
  • Procure causas reversíveis.
  • Sono, mobilização, reorientação, visão e audição fazem parte da prevenção.
  • A contenção física e os medicamentos não devem ser utilizados como resposta automática ao delirium.

E talvez a mais importante:

Na UTI, uma mudança súbita de comportamento também pode ser um sinal clínico.

O delirium é uma condição extremamente relevante na terapia intensiva e que exige atenção contínua da equipe. Para o estudante de Enfermagem, aprender a reconhecer delirium significa muito mais do que decorar o significado da sigla CAM-ICU.

É aprender a perceber mudanças sutis no comportamento, entender a diferença entre sedação e delirium, reconhecer que o paciente hipoativo também pode estar delirante e compreender que a síndrome frequentemente representa a manifestação de algum problema clínico subjacente.

O CAM-ICU é uma ferramenta importante para estruturar essa avaliação, inclusive em pacientes que não conseguem falar. Estudos brasileiros demonstraram validade e confiabilidade da versão em português para pacientes críticos.

Mas a escala não substitui o raciocínio clínico. Um resultado positivo deve desencadear uma pergunta:

“O que está acontecendo com esse paciente?”

A resposta pode estar na dor, na infecção, na hipóxia, nos medicamentos, na privação do sono, em alterações metabólicas, na imobilidade ou na combinação de vários fatores. E é justamente nesse ponto que a Enfermagem exerce um papel fundamental.

Reconhecer cedo, comunicar, investigar, prevenir fatores modificáveis e acompanhar a evolução do paciente são atitudes que fazem parte de um cuidado intensivo mais seguro e humanizado.

Resumo para salvar

Avaliação do Delirium em UTI com o CAM-ICU

  • Reconhecimento precoce e sistemático do delirium em pacientes críticos, indo além da simples impressão de confusão mental
  • Aplicação do CAM-ICU adaptado para pacientes intubados ou incapazes de se comunicar verbalmente por meio de estímulos objetivos
  • Verificação inicial do nível de consciência utilizando a escala RASS antes de prosseguir com a avaliação estruturada
  • Identificação baseada nos 4 critérios essenciais: início agudo/flutuante, desatenção, pensamento desorganizado ou alteração da consciência

Referências:

  1. ABELHA, Fernando; VEIGA, Dalila; NORTON, Maria; SANTOS, Cristina; GAUDREAU, Jean-David. Avaliação do delírio em pacientes pós-operatórios: validação da versão portuguesa da Nursing Delirium Screening Scale na terapia intensiva. Revista Brasileira de Anestesiologia, Rio de Janeiro. Disponível em: SciELO – Revista Brasileira de Anestesiologia
  2. GUSMAO-FLORES, Dimitri et al. The validity and reliability of the Portuguese versions of three tools used to diagnose delirium in critically ill patients. Clinics, São Paulo. Disponível em: SciELO – Clinics
  3. SALLUH, Jorge Ibrain Figueira et al. Delirium em pacientes críticos. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, São Paulo. Disponível em: SciELO – Revista Brasileira de Terapia Intensiva
  4. Confusion assessment method para analisar delirium em unidade de terapia intensiva: revisão de literatura. Revista Brasileira de Terapia Intensiva. Disponível em: SciELO – CAM-ICU
  5. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE (SCCM). Guidelines for the Prevention and Management of Pain, Agitation/Sedation, Delirium, Immobility, and Sleep Disruption in Adult Patients in the ICU. Disponível em: SCCM – PADIS Guidelines
  6. LEWIS, K.; BALAS, M. C.; STOLLINGS, J. L. et al. A focused update to the clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, anxiety, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Critical Care Medicine, v. 53, n. 3, p. e711-e727, 2025. Disponível em: SCCM – Focused Update PADIS 2025
  7. ICU DELIRIUM AND COGNITIVE IMPAIRMENT STUDY GROUP. CAM-ICU Training Manual. Vanderbilt University Medical Center. Disponível em: CAM-ICU Training Manual
  8. Cuidados multiprofissionais para pacientes em delirium em terapia intensiva: revisão integrativa. Revista Gaúcha de Enfermagem. Disponível em: SciELO – Revista Gaúcha de Enfermagem.
  9. Desafios na avaliação e manejo não farmacológico do delirium por enfermeiros em Unidade de Terapia Intensiva. Cogitare Enfermagem, 2025. Disponível em: SciELO – Cogitare Enfermagem
  10. MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasil). Protocolos de segurança do paciente em terapia intensiva: manejo do delirium. Brasília: Anvisa, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/seguranca-do-paciente
  11. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Atuação do enfermeiro na avaliação neurológica e prevenção de delirium em pacientes críticos. Brasília, 2023. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/
  12. PASA, F. B.; SILVA, R. M. Validação e uso da escala CAM-ICU na prática diária da enfermagem em terapia intensiva. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, v. 35, n. 1, p. 45-52, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/.

Lesão por Dispositivo Médico: o que é, como identificar e quais são os cuidados de enfermagem

A assistência de enfermagem envolve o uso diário de inúmeros dispositivos médicos. Cateteres, sondas, máscaras de oxigênio, tubos, fixadores, talas, eletrodos, sensores e outros recursos são fundamentais para monitorar, tratar e manter a vida de muitos pacientes.

Mas existe um detalhe que não pode ser esquecido: um dispositivo criado para cuidar também pode causar uma lesão.

Quando determinado dispositivo permanece em contato com a pele ou com tecidos por tempo prolongado, especialmente quando exerce pressão, tração, fricção ou cisalhamento, pode provocar uma lesão relacionada a dispositivo médico. Essas lesões são particularmente importantes em pacientes críticos, idosos, pessoas com mobilidade reduzida e pacientes submetidos a terapias que exigem dispositivos continuamente.

As lesões por pressão relacionadas a dispositivos médicos são reconhecidas como um tipo específico de lesão por pressão. A diretriz internacional de 2025 define essas lesões como aquelas que ocorrem sob ou próximas a dispositivos utilizados para fins diagnósticos ou terapêuticos, como dispositivos de oxigenoterapia, tubos, talas, órteses e eletrodos.

Por isso, compreender esse problema é fundamental para quem trabalha ou estuda enfermagem.

O que é uma Lesão por Dispositivo Médico?

A Lesão por Dispositivo Médico (LDM) ocorre quando um dispositivo utilizado no cuidado do paciente provoca dano à pele ou aos tecidos subjacentes.

Na prática, imagine uma máscara de ventilação não invasiva que permanece pressionando continuamente a região do nariz. Se essa pressão não for adequadamente avaliada e aliviada, pode surgir inicialmente uma área avermelhada e dolorosa. Com a continuidade da pressão, a lesão pode evoluir para perda da integridade da pele e atingir tecidos mais profundos.

O mesmo princípio pode acontecer com uma sonda, um cateter, um tubo endotraqueal, uma tala, um colar cervical ou até mesmo um sensor de monitorização.

Portanto, o dispositivo não precisa estar “apertado demais” para causar uma lesão. Pressão contínua, fricção, cisalhamento, umidade, posicionamento inadequado e tempo prolongado de contato podem contribuir para o problema.

A literatura internacional considera as lesões relacionadas a dispositivos médicos uma preocupação relevante de segurança do paciente. Uma revisão sistemática publicada em 2023 encontrou estimativas de prevalência de aproximadamente 10% e incidência de 12% para esse tipo de lesão nos estudos analisados.

Por que o dispositivo médico pode machucar a pele?

Para entender a LDM, é interessante pensar em uma situação bastante simples. Imagine colocar um objeto sobre a pele e mantê-lo pressionado durante várias horas. Inicialmente, talvez não aconteça nada perceptível. Entretanto, se a pressão permanecer continuamente sobre a mesma região, a circulação local pode ser prejudicada.

A pressão pode comprimir pequenos vasos sanguíneos. Com isso, ocorre redução do fornecimento de oxigênio e nutrientes aos tecidos. Se essa situação persistir, o tecido pode sofrer hipóxia, isquemia e, posteriormente, necrose.

Quando acrescentamos outros fatores, como fricção, cisalhamento, umidade e fragilidade da pele, o risco aumenta ainda mais. É justamente por isso que um dispositivo corretamente instalado não significa necessariamente um dispositivo seguro durante todo o período de utilização.

O paciente muda de posição, apresenta edema, transpira, movimenta-se, perde ou ganha peso, desenvolve alterações circulatórias e pode apresentar mudanças na tolerância ao dispositivo. A enfermagem precisa acompanhar essas mudanças.

Quais dispositivos podem causar lesões?

Praticamente qualquer dispositivo que permaneça em contato prolongado com o organismo pode, dependendo das condições, contribuir para uma lesão. Entre os exemplos mais conhecidos estão:

Dispositivos respiratórios

São frequentemente envolvidos porque precisam permanecer posicionados durante longos períodos.

Podemos citar:

  • máscaras de ventilação não invasiva;
  • máscaras de oxigênio;
  • cateter nasal;
  • tubo endotraqueal;
  • fixadores de tubo;
  • cânulas e dispositivos de suporte respiratório.

Máscaras de CPAP e BiPAP, por exemplo, podem exercer pressão principalmente sobre a região nasal, malar e facial. O problema pode ser ainda maior quando o paciente necessita utilizar o dispositivo continuamente.

Sondas e cateteres

Sondas e cateteres também podem provocar lesões quando existe pressão, tração ou fixação inadequada. Entre eles estão:

  • Sonda nasogástrica e nasoenteral: podem provocar lesões nas narinas, no septo nasal e em regiões próximas ao local de fixação.
  • Cateter vesical: pode causar lesões por tração ou pressão, principalmente quando existe fixação inadequada ou movimentação excessiva.
  • Cateteres vasculares: podem contribuir para lesões relacionadas à pressão, fixação, dispositivos de estabilização ou curativos, especialmente quando permanecem sobre regiões vulneráveis.

Dispositivos utilizados para monitorização

Alguns equipamentos utilizados rotineiramente para monitorização também merecem atenção. Eletrodos, sensores de oximetria, manguitos de pressão arterial, cabos, sensores e outros dispositivos podem permanecer em contato com a pele durante horas. No caso do oxímetro, por exemplo, a atenção não deve estar apenas no funcionamento do aparelho. É necessário observar a pele e alternar o local quando isso for possível e seguro.

O mesmo raciocínio vale para eletrodos de monitorização cardíaca.

Talas, órteses e imobilizadores

Talas, órteses, colares cervicais, fixadores e outros dispositivos utilizados para imobilização também podem provocar pressão localizada. Nesses casos, a própria finalidade do dispositivo exige algum grau de contato ou contenção. Isso não significa que a lesão seja inevitável. A equipe precisa verificar se o dispositivo está corretamente ajustado, se existe pressão excessiva e se há áreas de contato particularmente vulneráveis.

Onde essas lesões aparecem com maior frequência?

A localização depende diretamente do dispositivo utilizado. Uma máscara facial, por exemplo, pode provocar lesões em regiões como nariz, dorso nasal, bochechas e áreas próximas à fixação. Um cateter nasal pode provocar alterações nas narinas e atrás das orelhas, dependendo do modelo e da forma de fixação. Uma sonda pode causar lesões nas regiões em que entra em contato com a pele ou permanece fixada.

Já uma tala ou órtese pode provocar lesões sobre proeminências ósseas. Portanto, uma regra muito útil para a enfermagem é:

onde existe contato contínuo entre dispositivo e pele, existe necessidade de avaliação.

Quem apresenta maior risco?

Embora qualquer paciente possa desenvolver uma lesão relacionada a dispositivo, alguns apresentam risco maior. Entre os principais fatores estão a idade avançada, imobilidade, alterações da perfusão, edema, desnutrição, alterações da sensibilidade, alteração do nível de consciência, incontinência, umidade excessiva e presença de doenças crônicas.

Pacientes críticos merecem atenção especial. Um paciente sedado, intubado, com edema, instabilidade hemodinâmica e múltiplos dispositivos pode não conseguir comunicar dor ou desconforto e pode permanecer por longos períodos na mesma posição.

Por isso, a avaliação da pele não pode depender exclusivamente da queixa do paciente. Estudos brasileiros realizados em unidades de terapia intensiva identificaram como medidas importantes de prevenção a atenção à fixação, reposicionamento frequente, proteção e acolchoamento das áreas de contato, escolha de materiais flexíveis quando disponíveis, cuidado para que dispositivos não permaneçam sob o paciente e remoção precoce quando clinicamente possível.

Como identificar uma Lesão por Dispositivo Médico?

A avaliação deve começar antes mesmo de aparecer uma ferida. Um dos primeiros sinais pode ser uma alteração na coloração da pele. Pode aparecer uma área avermelhada, arroxeada ou com outra alteração de coloração exatamente no local onde o dispositivo exerce pressão.

Também podem surgir:

  • dor;
  • ardência;
  • aumento da sensibilidade;
  • edema;
  • endurecimento;
  • alteração da temperatura local;
  • bolhas;
  • erosões;
  • perda da integridade da pele;
  • áreas de necrose.

É importante observar que a ausência de uma ferida aberta não significa ausência de lesão. Uma alteração persistente na pele já merece atenção.

A lesão pode surgir mesmo com a pele aparentemente normal?

Sim. Esse é um dos motivos pelos quais a avaliação frequente é tão importante. A lesão pode começar em tecidos mais profundos e apresentar sinais externos discretos. Além disso, pacientes com alterações de perfusão ou sensibilidade podem apresentar manifestações diferentes. Por isso, não se deve avaliar apenas a existência de uma “ferida”.

É necessário observar a pele antes, durante e depois da utilização do dispositivo.

Qual é a diferença entre lesão por pressão comum e lesão relacionada a dispositivo?

A principal diferença está no fator causador e na localização. Uma lesão por pressão tradicional geralmente está relacionada à pressão ou cisalhamento sobre uma região corporal, frequentemente uma proeminência óssea. Na lesão relacionada a dispositivo médico, o dano está relacionado ao contato com um dispositivo utilizado para assistência diagnóstica ou terapêutica.

Por exemplo:

  • Pressão prolongada do corpo contra o colchão na região sacral: lesão por pressão convencional.
  • Pressão prolongada de uma máscara de ventilação sobre o dorso do nariz: lesão por pressão relacionada a dispositivo médico.

As duas situações possuem mecanismos semelhantes, mas a segunda está diretamente relacionada ao dispositivo.

O tempo de permanência influencia?

Sim, mas não existe um único número de horas que determine quando uma lesão obrigatoriamente aparecerá. Isso é importante porque às vezes existe a ideia de que “se o dispositivo ficar menos de determinado tempo, não haverá risco”. Não é tão simples. A intensidade da pressão, o formato do dispositivo, o material utilizado, o estado da pele, a perfusão, a umidade, a mobilidade do paciente e outros fatores influenciam o risco.

Um paciente vulnerável pode desenvolver dano em um período relativamente curto. Por isso, a prevenção não deve ser baseada apenas em relógio, mas principalmente em avaliação clínica contínua.

A importância da fixação correta

Fixar um dispositivo não significa simplesmente deixá-lo “bem preso”. A fixação precisa ser suficientemente segura para evitar deslocamentos, mas não deve gerar compressão desnecessária. Uma fixação excessivamente apertada pode aumentar a pressão sobre a pele.

Por outro lado, uma fixação frouxa pode provocar movimentação repetitiva, fricção e tração. A enfermagem precisa encontrar um equilíbrio entre segurança do dispositivo e proteção dos tecidos. Esse cuidado é particularmente importante com tubos, sondas, cateteres e dispositivos respiratórios.

O acolchoamento pode ajudar?

Sim, quando indicado e realizado corretamente. Materiais apropriados podem ajudar a distribuir a pressão e proteger áreas vulneráveis. Entretanto, colocar qualquer tipo de gaze, espuma ou material improvisado entre o dispositivo e a pele não é necessariamente uma boa prática. O material utilizado deve ser compatível com o dispositivo e com a finalidade da proteção.

Além disso, o acolchoamento não deve criar novos pontos de pressão. A revisão sistemática sobre prevenção de lesões relacionadas a dispositivos identificou intervenções como curativos, materiais de proteção, dispositivos específicos de fixação, reposicionamento, educação da equipe e remoção precoce quando possível.

Cuidados de enfermagem para prevenir a Lesão por Dispositivo Médico

A prevenção começa na avaliação do paciente: Antes de instalar um dispositivo, sempre que possível, observe a condição da pele no local onde ele ficará. Depois da instalação, verifique se existe pressão excessiva, dobras, tração ou posicionamento inadequado.

Durante a assistência, a equipe deve realizar avaliações periódicas e documentar alterações relevantes. Outro cuidado fundamental é evitar que tubos, cabos ou dispositivos permaneçam pressionados sob o corpo do paciente. Essa situação pode ser facilmente esquecida durante mudanças de decúbito.

O estudo realizado com profissionais de enfermagem em UTI destacou justamente a importância de verificar se dispositivos não permanecem sob o paciente e de realizar reposicionamento frequente.

A enfermagem deve retirar o dispositivo para avaliar a pele?

Nem sempre. Esse é um ponto muito importante. Alguns dispositivos são essenciais para manter a vida ou garantir um tratamento seguro. Retirá-los sem avaliação médica ou sem indicação pode trazer riscos. A pergunta correta não é simplesmente “posso retirar?”.

É:

“Esse dispositivo ainda é necessário? Existe uma alternativa segura? É possível reposicioná-lo? Posso aliviar a pressão sem comprometer sua função?”

Quando clinicamente possível, a remoção precoce de dispositivos desnecessários é uma das estratégias preventivas destacadas na literatura.

O que fazer quando a lesão já apareceu?

Primeiramente, a equipe deve reconhecer e registrar a alteração. É importante avaliar localização, tamanho, aspecto da pele, presença de dor, exsudato, edema e outros sinais relevantes. Em seguida, deve-se investigar o dispositivo responsável e verificar se ele continua sendo necessário. Quando for possível e seguro, deve-se aliviar ou eliminar a fonte de pressão.

A conduta específica para tratamento dependerá do tipo e da gravidade da lesão, das condições clínicas do paciente e do protocolo institucional. Lesões mais profundas, áreas de necrose, sinais de infecção ou evolução rápida exigem avaliação especializada.

O papel da documentação de enfermagem

A documentação é parte importante da segurança do paciente. Ao identificar uma alteração relacionada a um dispositivo, o profissional deve registrar adequadamente o achado conforme as normas institucionais. É importante documentar, por exemplo, a localização, características da pele, dispositivo envolvido, medidas adotadas e evolução.

Isso permite acompanhar a resposta às intervenções e melhora a comunicação entre os profissionais. Além disso, a documentação ajuda a identificar padrões. Se uma determinada unidade começa a apresentar repetidamente lesões associadas ao mesmo dispositivo, isso pode indicar necessidade de revisão da técnica, do material, da fixação ou do protocolo.

Um exemplo prático para entender

Imagine um paciente internado na UTI utilizando ventilação não invasiva. A máscara precisa permanecer posicionada corretamente para que a terapia funcione. Após algumas horas, a enfermeira observa uma área avermelhada no dorso do nariz.

O erro seria pensar:

“É só uma vermelhidão, depois passa.” O correto é investigar.

  • A máscara está apertada demais?
  • Existe necessidade de ajustar a fixação?
  • O tamanho da máscara é adequado?
  • Existe algum ponto de pressão concentrada?
  • É possível utilizar uma proteção apropriada?
  • A terapia pode ser interrompida ou o dispositivo pode ser alternado com segurança?
  • A pele precisa ser reavaliada posteriormente?

Esse exemplo demonstra uma característica essencial da enfermagem: não esperar a ferida aparecer para começar a prevenção.

Lesão por dispositivo médico em pacientes críticos

O ambiente de terapia intensiva reúne muitos dos fatores que favorecem esse tipo de lesão. O paciente pode estar sedado, imobilizado, edemaciado, hemodinamicamente instável e conectado simultaneamente a diversos dispositivos. Além disso, alguns dispositivos precisam permanecer instalados continuamente.

Por isso, a prevenção precisa fazer parte da rotina da assistência. A equipe deve olhar para o paciente como um todo, e não apenas para cada equipamento individualmente.

Um tubo pode estar perfeitamente instalado, uma sonda pode estar corretamente fixada e um eletrodo pode estar funcionando adequadamente. Ainda assim, quando todos esses elementos são analisados em conjunto, pode existir uma grande quantidade de pontos de pressão sobre a pele.

A importância da avaliação durante o banho e a mudança de decúbito

O banho é uma excelente oportunidade para avaliação da pele. Quando o dispositivo puder ser temporariamente removido, reposicionado ou afastado com segurança, a equipe pode aproveitar esse momento para observar áreas que normalmente ficam escondidas. Durante a mudança de decúbito, também é importante verificar se cabos, tubos, sondas ou outros dispositivos ficaram presos ou posicionados sob o corpo.

Uma simples inspeção durante esses momentos pode evitar que uma pequena alteração evolua para uma lesão significativa.

Higiene da pele e controle da umidade

A pele excessivamente úmida pode ficar mais vulnerável ao dano. Suor, secreções, saliva, urina, fezes e outros líquidos podem permanecer em contato com a pele, principalmente em regiões cobertas por dispositivos. Por isso, a higiene adequada e o controle da umidade fazem parte da prevenção.

Quando houver indicação, produtos de proteção da barreira cutânea podem ser utilizados de acordo com o protocolo da instituição e as características do paciente. Entretanto, é importante evitar aplicar produtos de maneira indiscriminada sobre dispositivos, adesivos ou áreas nas quais possam prejudicar a fixação.

Cuidados de enfermagem: um resumo prático

Uma forma simples de lembrar a prevenção é pensar em cinco perguntas:

  • O dispositivo ainda é necessário?
  • Está bem posicionado?
  • Está exercendo pressão excessiva?
  • A pele abaixo ou ao redor está preservada?
  • É possível reposicionar, proteger ou substituir o dispositivo com segurança?

Essas perguntas podem transformar uma avaliação aparentemente simples em uma estratégia efetiva de prevenção.

O papel da educação da equipe

A prevenção da lesão relacionada a dispositivo médico não deve depender apenas de um profissional. Enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e demais profissionais envolvidos no cuidado precisam reconhecer os riscos.

A educação permanente é especialmente importante porque novos dispositivos e novas tecnologias são incorporados continuamente à assistência. Uma revisão sistemática identificou a educação da equipe, padronização da documentação, auditoria e desenvolvimento de protocolos entre as estratégias utilizadas para melhorar a prevenção.

Lesão por dispositivo médico também é uma questão de segurança do paciente

A prevenção dessas lesões está diretamente relacionada à qualidade da assistência. No Brasil, a Anvisa mantém orientações específicas relacionadas à prevenção de lesões por pressão e à segurança do paciente. A Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023 atualizou orientações sobre práticas de segurança para prevenção de lesão por pressão.

O Ministério da Saúde também mantém o protocolo nacional de prevenção de úlcera/lesão por pressão, cujo objetivo é promover medidas para evitar essas lesões e outros danos à pele. Portanto, prevenir uma lesão causada por um dispositivo não é apenas um cuidado dermatológico. É uma prática de segurança do paciente. A Lesão por Dispositivo Médico é um problema que pode passar despercebido porque o dispositivo está sendo utilizado justamente para tratar, monitorar ou proteger o paciente.

É importante lembrar que um dispositivo necessário não é automaticamente um dispositivo inofensivo. A enfermagem tem papel fundamental na prevenção porque permanece próxima do paciente e consegue identificar alterações precocemente.

Avaliar a pele, conferir a fixação, observar pontos de pressão, reposicionar quando possível, proteger áreas vulneráveis, controlar umidade, evitar tração e retirar dispositivos desnecessários são atitudes que podem fazer uma grande diferença.

Mais do que saber instalar um dispositivo, o profissional precisa aprender a olhar para o que acontece com a pele enquanto esse dispositivo permanece instalado.

Esse olhar preventivo é uma das características de uma assistência de enfermagem segura e de qualidade.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Documento de referência para o programa nacional de segurança do paciente. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. SOBRACEN. Diretrizes sobre prevenção e tratamento de lesões de pele. São Paulo: Sobracen, 2023. Disponível em: https://sobracen.com.br/
  4. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023: práticas de segurança do paciente em serviços de saúde: prevenção de lesão por pressão. Brasília, DF: Anvisa, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/notas-tecnicas/notas-tecnicas-vigentes/nota-tecnica-gvims-ggtes-anvisa-no-05-2023-praticas-de-seguranca-do-paciente-em-servicos-de-saude-prevencao-de-lesao-por-pressao/view

  5. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Prevenção de úlcera por pressão. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/seguranca-do-paciente/publicacoes/protocolos-de-seguranca-do-paciente/protocolo-ulcera-por-pressao.pdf/view

  6. GALETTO, S. G. da S. et al. Prevenção de lesões por pressão relacionadas a dispositivos médicos em pacientes críticos: cuidados de enfermagem. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 74, n. 2, e20200062, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/7Nvg3kfsfyNMqkMzvH8rh4D/?lang=pt

  7. LYU, C. et al. Interventions and strategies to prevent medical device-related pressure injury in adult patients: a systematic review. Journal of Clinical Nursing, v. 32, p. 6863-6878, 2023. DOI: 10.1111/jocn.16790. Disponível em: PubMed – Medical device-related pressure injury prevention

  8. NATIONAL PRESSURE INJURY ADVISORY PANEL; EUROPEAN PRESSURE ULCER ADVISORY PANEL; PAN PACIFIC PRESSURE INJURY ALLIANCE. Device-Related Pressure Injuries. In: HAESLER, E. (ed.). Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Clinical Practice Guideline. 4. ed. 2025. Disponível em: International Guideline – Device-Related Pressure Injuries

  9. SANTOS, C. N. S. et al. Lesão por pressão relacionada a dispositivos médicos: prevenção e fatores de risco associados. Nursing Edição Brasileira, v. 24, n. 282, p. 6480-6486, 2021. DOI: 10.36489/nursing.2021v24i282p6480-6486. Disponível em: Nursing Edição Brasileira – Lesão por pressão relacionada a dispositivos médicos

  10. GEFEN, A. et al. An international consensus on device-related pressure ulcers: SECURE prevention. British Journal of Nursing, v. 29, n. 5, p. S36-S38, 2020. DOI: 10.12968/bjon.2020.29.5.S36. Disponível em: PubMed – SECURE prevention

Escore SAPS 3 (Simplified Acute Physiology Score 3): o que é, para que serve e como é utilizado na UTI

O ambiente da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) exige avaliações rápidas, objetivas e baseadas em evidências para orientar decisões clínicas. Nesse contexto, diferentes sistemas de pontuação foram desenvolvidos para ajudar profissionais de saúde a estimar a gravidade do estado clínico dos pacientes críticos. Entre eles, destaca-se o SAPS 3 (Simplified Acute Physiology Score 3).

Esse escore é amplamente utilizado em UTIs ao redor do mundo para avaliar a gravidade do paciente no momento da admissão na UTI e estimar o risco de mortalidade hospitalar.

Para estudantes e profissionais de enfermagem, compreender como esse sistema funciona é fundamental, pois muitas das informações utilizadas no cálculo são coletadas diretamente pela equipe de enfermagem.

Neste artigo, vamos entender de forma detalhada o que é o SAPS 3, como ele funciona, quais variáveis são utilizadas, qual é sua importância clínica e quais são os cuidados de enfermagem relacionados.

O que é o escore SAPS 3?

O SAPS 3 (Simplified Acute Physiology Score 3) é um sistema de pontuação desenvolvido para avaliar a gravidade de pacientes críticos nas primeiras horas após a admissão em uma Unidade de Terapia Intensiva.

Ele foi criado com o objetivo de:

  • Avaliar a gravidade clínica do paciente crítico
  • Estimar o risco de mortalidade hospitalar
  • Permitir comparações entre diferentes UTIs
  • Auxiliar na análise da qualidade da assistência intensiva

O SAPS 3 foi desenvolvido a partir de um grande estudo internacional envolvendo mais de 300 UTIs em diversos países, com milhares de pacientes analisados. Isso permitiu a construção de um modelo estatístico bastante robusto e aplicável a diferentes realidades.

Diferentemente de alguns escores mais antigos, o SAPS 3 considera informações clínicas e demográficas do paciente já no momento da admissão, não sendo necessário esperar 24 horas para realizar o cálculo.

Qual a diferença entre outros sistemas de Escores?

Ele se diferencia de modelos mais antigos, como o SAPS II ou o APACHE II, principalmente pelo seu tempo de coleta. Enquanto outros escores avaliam as piores variáveis das primeiras 24 horas de internação, o SAPS 3 foca nos dados colhidos na primeira hora de admissão na UTI.

Por que o SAPS 3 é importante na terapia intensiva?

A medicina intensiva precisa constantemente avaliar se as intervenções estão sendo eficazes e se os pacientes apresentam risco elevado de complicações ou morte. O SAPS 3 ajuda exatamente nesse ponto.

Ele permite estimar a probabilidade de mortalidade hospitalar com base em múltiplos fatores clínicos. Isso não significa prever exatamente o que acontecerá com um paciente específico, mas sim fornecer uma estimativa estatística baseada em grandes populações de pacientes semelhantes.

Na prática clínica, o SAPS 3 é utilizado para:

  • Avaliar a gravidade do paciente logo na admissão na UTI.
  • Comparar o desempenho entre diferentes unidades de terapia intensiva.
  • Avaliar indicadores de qualidade assistencial.
  • Auxiliar pesquisas científicas na área de terapia intensiva.

Além disso, o escore pode ajudar equipes hospitalares a entender melhor o perfil dos pacientes atendidos em determinada unidade.

A Estrutura do Escore: As Três Caixas de Dados

Para chegar ao valor final, o SAPS 3 organiza as informações em três blocos distintos, frequentemente chamados de “caixas”. Cada uma dessas caixas avalia um aspecto diferente da história e da condição atual do indivíduo, somando pontos que, ao final, serão convertidos em uma probabilidade estatística de óbito.

A primeira caixa foca nas variáveis do paciente antes da admissão. Aqui são considerados a idade, o tempo de permanência no hospital antes de ir para a UTI, o local de onde o paciente está vindo (se é da emergência, do centro cirúrgico ou da enfermaria) e a presença de comorbidades graves, como câncer metastático, insuficiência cardíaca avançada ou imunossupressão.

A segunda caixa analisa as circunstâncias da admissão. Ela questiona se a internação foi planejada (como um pós-operatório eletivo) ou não planejada. Também avalia o motivo principal da entrada, separando pacientes clínicos de cirúrgicos e identificando se há presença de infecção ou sepse no momento da chegada.

A terceira caixa é a das variáveis fisiológicas. É aqui que os dados vitais e laboratoriais da primeira hora entram em cena. São avaliados parâmetros como a Escala de Coma de Glasgow, a pressão arterial sistólica, a frequência cardíaca, a temperatura axilar, o índice de oxigenação (PaO2/FiO2), além de exames como creatinina, bilirrubina, plaquetas e pH arterial.

Do Número à Probabilidade: O Cálculo do Risco

Após a soma de todos os pontos dessas três caixas, obtemos o escore total. No entanto, o número bruto não nos diz tudo. Esse valor precisa ser inserido em uma equação logística para calcular a probabilidade de mortalidade. A fórmula matemática geral segue o modelo de logit:

Onde o “logit” é calculado com base no escore total e em constantes que podem variar de acordo com a região geográfica (existem calibrações específicas para a América Central e do Sul, por exemplo).

Isso acontece porque o sistema de saúde e as características das populações mudam de um continente para outro, e o SAPS 3 é um dos poucos escores que permitem esse ajuste regional para aumentar a precisão.

Interpretação do escore SAPS 3

Após coletar todas as variáveis, elas são inseridas em um modelo matemático que gera uma pontuação final. Quanto maior o valor do SAPS 3, maior tende a ser a gravidade do paciente e maior o risco estimado de mortalidade hospitalar.

Essa pontuação é posteriormente convertida em uma probabilidade percentual de mortalidade, utilizando fórmulas específicas do modelo SAPS 3.

É importante lembrar que:

  • O escore não determina o desfecho de um paciente individual.
  • Ele representa apenas uma estimativa estatística baseada em populações semelhantes.
  • Muitos pacientes com escores elevados sobrevivem, especialmente quando recebem assistência intensiva adequada.

Cuidados de enfermagem relacionados ao SAPS 3

Embora o cálculo do escore muitas vezes seja realizado por sistemas eletrônicos ou médicos intensivistas, a enfermagem tem um papel fundamental na coleta e qualidade dos dados utilizados no cálculo.

Diversos parâmetros utilizados no SAPS 3 dependem diretamente da avaliação da equipe de enfermagem.

Entre os principais cuidados estão:

  • Monitorização precisa dos sinais vitais, incluindo pressão arterial, frequência cardíaca e temperatura.
  • Avaliação neurológica adequada utilizando a Escala de Coma de Glasgow.
  • Registro correto dos dados no prontuário eletrônico ou físico.
  • Coleta adequada de exames laboratoriais.
  • Comunicação imediata de alterações clínicas importantes à equipe médica.

Outro ponto fundamental é a atenção à qualidade dos registros. Dados incompletos ou incorretos podem comprometer o cálculo do escore e prejudicar a avaliação real da gravidade do paciente.

Além disso, a enfermagem participa diretamente do cuidado contínuo ao paciente crítico, atuando na prevenção de complicações, monitorização hemodinâmica, administração de medicamentos e suporte aos familiares.

Limitações do escore SAPS 3

Apesar de sua utilidade, o SAPS 3 apresenta algumas limitações.

Primeiramente, ele não foi desenvolvido para orientar decisões individuais sobre tratamento ou limitação de suporte terapêutico. Ou seja, não deve ser utilizado isoladamente para decisões clínicas críticas. Além disso, o escore representa apenas uma estimativa baseada em modelos estatísticos. Pacientes individuais podem apresentar evoluções muito diferentes do previsto.

Outro fator importante é que a precisão do escore depende da qualidade dos dados coletados. Erros na coleta ou registro das variáveis podem alterar significativamente o resultado final.

O SAPS 3 (Simplified Acute Physiology Score 3) é uma ferramenta importante na terapia intensiva moderna, permitindo estimar a gravidade de pacientes críticos logo na admissão na UTI.

Ele auxilia profissionais e instituições a compreender melhor o perfil dos pacientes atendidos, avaliar resultados assistenciais e comparar indicadores de qualidade entre diferentes unidades. Para a enfermagem, compreender o funcionamento do SAPS 3 é essencial, pois grande parte das variáveis utilizadas no cálculo depende diretamente da avaliação e dos registros realizados pela equipe de enfermagem.

Mais do que apenas um número, o escore representa uma forma de transformar dados clínicos em informação útil para melhorar o cuidado ao paciente crítico.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA (AMIB). Escores de Gravidade em UTI. São Paulo: AMIB, 2023. Disponível em: https://www.amib.org.br/
  2. METNITZ, P. G. et al. SAPS 3: from evaluation of the patient to evaluation of the intensive care unit. Intensive Care Medicine, v. 31, n. 10, p. 1336-1344, 2005. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s00134-005-2762-6
  3. MORENO, R. P. et al. SAPS 3: from evaluation of the patient to evaluation of the intensive care unit. Part 2: Development of a unit-specific approach to predict hospital mortality. Intensive Care Medicine, v. 31, n. 10, p. 1345-1355, 2005. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16132892/
  4. SILVA JUNIOR, J. M. et al. Aplicabilidade do escore fisiológico agudo simplificado (SAPS 3) em hospitais brasileiros. Revista Brasileira de Anestesiologia, v. 60, n. 1, p. 20-31, 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rba/
  5. MORENO, Rui et al. SAPS 3 – From evaluation of the patient to evaluation of the intensive care unit. Part 1: Objectives, methods and cohort description. Intensive Care Medicine, v. 31, n. 10, p. 1336–1344, 2005. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s00134-005-2762-6
  6. SOARES, Márcio et al. Aplicação do SAPS 3 no Brasil. Revista Brasileira de Terapia Intensiva. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbti/

Posição Prona: fundamentos, indicações e cuidados de enfermagem

A posição prona, também conhecida como decúbito ventral, é uma estratégia terapêutica amplamente utilizada na assistência a pacientes com insuficiência respiratória grave, especialmente aqueles em ventilação mecânica invasiva. Embora seja uma prática antiga, seu uso ganhou ainda mais destaque nos últimos anos por demonstrar melhora significativa da oxigenação em pacientes com Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA).

Para o estudante e o profissional de enfermagem, compreender a posição prona vai além de saber virar o paciente de barriga para baixo. É necessário entender por que essa manobra funciona, quando deve ser indicada, quais riscos ela apresenta e quais cuidados são indispensáveis para garantir a segurança do paciente.

Por que Virar o Paciente? A Fisiologia da Melhora

Para entender o benefício da prona, precisamos visualizar os pulmões dentro da caixa torácica. Quando um paciente está em decúbito dorsal (de costas), o peso do coração, do mediastino e o conteúdo abdominal exercem uma pressão considerável sobre as áreas dorsais (posteriores) do pulmão.

Como a gravidade também puxa o sangue para essas regiões, temos um fenômeno onde as áreas mais irrigadas de sangue são justamente as menos ventiladas, pois os alvéolos estão colapsados pelo peso.

Ao pronar o paciente, invertemos essa lógica. A pressão do coração sobre os pulmões é aliviada, e as áreas dorsais, que costumam ser as mais afetadas por edemas e secreções, conseguem finalmente se expandir. Isso melhora drasticamente a relação ventilação-perfusão (V/Q). Além disso, a posição prona ajuda a drenar secreções das vias aéreas distais para as proximais, facilitando a aspiração e a limpeza do sistema respiratório.

O critério clássico para indicar essa manobra é quando a relação entre a pressão arterial de oxigênio e a fração inspirada de oxigênio (PaO2/FiO2) é inferior a 150 mmHg.

Outras indicações da posição prona

  • Pacientes com pneumonia grave, incluindo pneumonia viral e bacteriana;
  • Pacientes com SDRA associada à sepse;
  • Casos de insuficiência respiratória refratária à oxigenoterapia convencional;

A decisão de iniciar a pronação deve ser multiprofissional, baseada em critérios clínicos, gasometria arterial e estabilidade hemodinâmica do paciente.

Contraindicações e precauções

Embora seja uma técnica eficaz, a posição prona não é isenta de riscos. Algumas situações exigem cautela ou contraindicam sua realização, como instabilidade hemodinâmica grave, fraturas de coluna, aumento da pressão intracraniana, cirurgias abdominais recentes e gestação avançada.

Pacientes obesos, com múltiplos dispositivos invasivos ou com feridas extensas também requerem planejamento rigoroso antes da manobra.

Tempo de permanência em posição prona

De acordo com protocolos clínicos, o paciente pode permanecer em posição prona por períodos prolongados, geralmente entre 12 e 20 horas consecutivas, dependendo da resposta clínica e da tolerância. Após esse tempo, é realizada a despronação (retorno ao decúbito dorsal) para reavaliação da oxigenação.

A repetição da pronação pode ser indicada diariamente enquanto houver benefício clínico comprovado.

A Manobra do Envelope e a Segurança da Equipe

Colocar um paciente crítico em prona é uma operação logística. Não se faz isso sozinho. Geralmente, a equipe é composta por pelo menos cinco ou seis profissionais: um médico ou enfermeiro na cabeceira (responsável por segurar o tubo endotraqueal), dois profissionais em cada lateral do leito e, por vezes, um auxiliar para gerenciar os fios e cateteres.

A técnica mais utilizada é a do “envelope”, onde o paciente é envolvido por lençóis para que possa ser rotacionado com segurança. O ponto crítico aqui é a proteção dos dispositivos. Antes de iniciar a manobra, o enfermeiro deve garantir que todas as extensões de cateteres venosos centrais, linhas arteriais e sondas tenham folga suficiente para não serem tracionadas. Um erro comum é esquecer de esvaziar a bolsa coletora de urina ou de interromper a dieta enteral, o que pode causar acidentes biológicos ou broncoaspiração durante o giro.

Cuidados de enfermagem antes da pronação

O preparo adequado é essencial para evitar complicações. A enfermagem deve garantir:

  • Avaliação completa do paciente, incluindo sinais vitais, ventilação, sedação e estabilidade hemodinâmica;
  • Fixação segura do tubo orotraqueal, cateteres venosos, sondas e drenos;
  • Proteção ocular com lubrificação adequada e fechamento das pálpebras;
  • Retirada de objetos que possam causar pressão excessiva;
  • Organização da equipe, geralmente com no mínimo quatro a cinco profissionais para realizar a manobra com segurança.

O alinhamento corporal deve ser planejado, utilizando coxins ou travesseiros para proteger proeminências ósseas como joelhos, cristas ilíacas, ombros e face.

Diferente do decúbito dorsal, a prona coloca pressão em áreas atípicas e sensíveis: o rosto (zigomáticos), o tórax, os joelhos e as cristas ilíacas.

A Posição do Nadador é a estratégia padrão para mitigar esses riscos. Nela, alternamos o braço que fica elevado e a direção da face do paciente a cada duas ou três horas. Isso evita lesões por pressão nas orelhas e no rosto, além de prevenir lesões no plexo braquial — um conjunto de nervos que, se esticado demais por muito tempo, pode causar paralisia permanente do braço.

O cuidado com os olhos é outra prioridade absoluta. Pacientes sedados e em prona perdem o reflexo de piscar e podem sofrer dessecação da córnea ou edema conjuntival severo (quemose). A enfermagem deve garantir que os olhos estejam bem fechados, lubrificados com colírios ou pomadas prescritas e protegidos com curativos oclusivos que não exerçam pressão direta sobre o globo ocular.

Cuidados de enfermagem durante a posição prona

Durante a permanência em posição prona, a vigilância deve ser contínua. É necessário monitorar:

  • Saturação de oxigênio e parâmetros ventilatórios;
  • Pressão arterial, frequência cardíaca e perfusão periférica;
  • Integridade da pele, principalmente em face, tórax, joelhos e genitais;
  • Posicionamento do tubo orotraqueal e permeabilidade das vias aéreas;
  • Presença de secreções respiratórias e necessidade de aspiração.

Mudanças sutis na posição da cabeça e dos membros devem ser realizadas periodicamente para prevenir lesões por pressão e neuropatias compressivas.

Cuidados de enfermagem após a despronação

Ao retornar o paciente para decúbito dorsal, é fundamental reavaliar a oxigenação, o padrão respiratório e a estabilidade hemodinâmica. A enfermagem deve observar possíveis edemas faciais, alterações na pele e desconforto respiratório.

A documentação adequada do procedimento é parte essencial da assistência, incluindo horário de início e término da pronação, resposta clínica e intercorrências.

Monitorização e Nutrição em Prona

Muitos estudantes se perguntam se é possível alimentar um paciente de barriga para baixo. A resposta é sim, mas com cautela. A nutrição enteral costuma ser mantida, porém com volumes menores e monitorização constante do resíduo gástrico. A cabeceira do leito deve ser mantida em Trendelenburg reverso (cabeça mais alta que os pés) em cerca de 15º a 30º graus para reduzir o risco de refluxo e edema facial.

No que diz respeito à monitorização hemodinâmica, a posição dos eletrodos do ECG precisa ser adaptada para o dorso do paciente. É vital lembrar que, caso ocorra uma parada cardiorrespiratória em prona, as manobras de compressão torácica podem ser iniciadas no dorso enquanto a equipe se prepara para retornar o paciente à posição supina, conforme as diretrizes mais recentes de suporte avançado de vida.

Principais complicações associadas à posição prona

Apesar dos benefícios, algumas complicações podem ocorrer, como lesões por pressão, deslocamento acidental de tubos e cateteres, edema facial, lesões oculares, broncoaspiração e alterações hemodinâmicas.

Esses riscos reforçam a importância de protocolos institucionais bem definidos e da atuação cuidadosa da equipe de enfermagem.

Importância da posição prona na prática da enfermagem

A posição prona representa uma intervenção que exige conhecimento técnico, trabalho em equipe e vigilância constante. Para a enfermagem, trata-se de um cuidado altamente especializado, que integra aspectos fisiológicos, mecânicos e humanos do cuidado intensivo.

Quando aplicada corretamente, essa estratégia pode reduzir mortalidade, melhorar a oxigenação e contribuir para uma evolução clínica mais favorável do paciente crítico.

A posição prona é uma técnica essencial no manejo da insuficiência respiratória grave, especialmente em pacientes com SDRA. Seu sucesso depende do entendimento dos seus fundamentos fisiológicos, da correta indicação e, principalmente, da qualidade dos cuidados de enfermagem prestados antes, durante e após a manobra.

O conhecimento sobre essa prática fortalece a segurança do paciente e valoriza o papel da enfermagem como protagonista no cuidado intensivo.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Orientações para o manejo de pacientes com COVID-19 e outras síndromes respiratórias graves: posição prona. Brasília: Anvisa, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br
  2. ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA (AMIB). Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica. São Paulo: AMIB, 2023. Disponível em: https://www.amib.org.br/
  3. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO (COREN-SP). Parecer Técnico n. 012/2020: Atribuições da equipe de enfermagem na manobra de prona. São Paulo: COREN-SP, 2020. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br/
  4. GUERIN, C. et al. Prone Positioning in Severe Acute Respiratory Distress Syndrome. New England Journal of Medicine, v. 368, n. 23, p. 2159-2168, 2013. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/nejmoa1214103
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de ventilação mecânica para profissionais de saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br
  6. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
  7. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA (SBPT). Diretrizes para o manejo da SDRA. Disponível em: https://sbpt.org.br 
  8. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Clinical management of severe acute respiratory infection. Genebra: WHO, 2020. Disponível em: https://www.who.int

Vírus Sincicial Respiratório (VSR): o que o estudante de enfermagem precisa saber

O Vírus Sincicial Respiratório, conhecido pela sigla VSR, é um dos principais agentes causadores de infecções respiratórias, especialmente em lactentes e crianças pequenas, mas que também pode provocar quadros graves em idosos, imunossuprimidos e pacientes com comorbidades. Na prática assistencial, principalmente em períodos sazonais, o VSR é responsável por grande parte das internações por bronquiolite e pneumonia.

Compreender o funcionamento do vírus, sua transmissão, manifestações clínicas e os cuidados de enfermagem é essencial para uma assistência segura, eficaz e baseada em evidências.

O que é o Vírus Sincicial Respiratório?

O VSR é um vírus de RNA pertencente à família Paramyxoviridae, gênero Orthopneumovirus. Ele tem tropismo pelo trato respiratório, principalmente pelas vias aéreas inferiores, onde causa inflamação, edema e aumento da produção de muco.

A Fisiopatologia: O Porquê do Nome “Sincicial”

O nome do vírus não é por acaso. O termo “sincicial” refere-se à capacidade que o vírus tem de fazer com que as células infectadas das vias respiratórias se fundam, formando grandes massas celulares multinucleadas chamadas sincícios.

Quando o VSR entra no organismo, ele ataca as células epiteliais que revestem as vias aéreas. A resposta inflamatória é intensa: ocorre edema (inchaço) da mucosa, aumento absurdo na produção de muco e necrose das células epiteliais. Em adultos, isso se traduz em uma coriza chata. Mas em bebês, cujos bronquíolos são minúsculos, esse “combo” de inchaço e catarro obstrui a passagem do ar, levando ao quadro clássico de bronquiolite. O ar entra, mas tem dificuldade para sair, o que gera o aprisionamento de ar nos alvéolos e o esforço respiratório visível.

Epidemiologia e sazonalidade

O VSR é altamente prevalente em todo o mundo. A maioria das crianças é infectada pelo menos uma vez até os dois anos de idade. No Brasil, a circulação do vírus é mais intensa nos meses de outono e inverno, coincidindo com o aumento de síndromes respiratórias.

Em ambientes hospitalares, o VSR merece atenção especial devido à sua alta transmissibilidade, sendo causa frequente de surtos em enfermarias pediátricas e UTIs neonatais.

Como ocorre a transmissão do VSR?

A transmissão acontece principalmente por contato direto com secreções respiratórias. O vírus pode ser transmitido por gotículas eliminadas ao tossir, espirrar ou falar, além do contato com superfícies contaminadas.

Um ponto importante para a enfermagem é que o VSR pode sobreviver por algumas horas em superfícies como grades de berço, bancadas, estetoscópios e mãos não higienizadas, o que reforça a importância das medidas de controle de infecção.

Fisiopatologia: o que acontece no organismo

Após a entrada pelas vias aéreas superiores, o VSR pode progredir para os bronquíolos, causando inflamação intensa. O edema da mucosa, associado ao acúmulo de secreções, leva à obstrução das vias aéreas pequenas, dificultando a passagem de ar.

Em lactentes, que já possuem vias aéreas naturalmente estreitas, esse processo pode evoluir rapidamente para desconforto respiratório importante, hipoxemia e insuficiência respiratória.

Manifestações clínicas

Os sinais e sintomas variam conforme a idade e as condições clínicas do paciente.

Em crianças maiores e adultos, o VSR pode se manifestar como um quadro leve, semelhante a um resfriado comum, com coriza, tosse, febre baixa e mal-estar.

Já em lactentes, especialmente menores de seis meses, os sintomas costumam ser mais graves. É comum observar taquipneia, tiragem intercostal, batimento de asa de nariz, gemência, sibilância, dificuldade para mamar e episódios de apneia. Nesses casos, o diagnóstico de bronquiolite viral aguda é frequente.

Em idosos e pacientes com doenças crônicas cardíacas ou pulmonares, o VSR pode desencadear exacerbações de doenças de base e pneumonia viral.

Diagnóstico

O diagnóstico do VSR é geralmente clínico, baseado na história e no exame físico. Em ambiente hospitalar, especialmente em casos graves ou surtos, podem ser utilizados testes laboratoriais, como a detecção do antígeno viral ou RT-PCR em amostras de secreção respiratória.

Para a enfermagem, o reconhecimento precoce dos sinais de gravidade é mais importante do que a confirmação laboratorial imediata.

Sinais de Alerta: Quando o Resfriado Vira Emergência

Na maioria dos adultos e crianças maiores, o VSR se manifesta como uma síndrome gripal leve. Contudo, em lactentes, especialmente os menores de seis meses, precisamos estar atentos aos sinais de gravidade que indicam a evolução para bronquiolite ou pneumonia:

  • Taquipneia: O aumento da frequência respiratória é um dos primeiros sinais de que o bebê está compensando a dificuldade de troca gasosa.
  • Tiragem Intercostal e Retração Subcostal: O uso da musculatura acessória mostra que o esforço para respirar está exaustivo.
  • Batimento de Asa de Nariz: Um sinal clássico de desconforto respiratório em pediatria.
  • Cianose e Letargia: Sinais tardios e gravíssimos de hipóxia (baixa oxigenação).
  • Sibilância: O famoso “chiado no peito”, audível muitas vezes sem estetoscópio devido ao estreitamento dos bronquíolos.

Tratamento

O tratamento do VSR é predominantemente suporte clínico, pois não há, na maioria dos casos, terapia antiviral específica indicada.

As principais medidas incluem oxigenoterapia quando há hipoxemia, manutenção da hidratação, controle da febre e aspiração de vias aéreas superiores quando necessário. Em casos graves, pode ser necessário suporte ventilatório não invasivo ou invasivo.

O uso rotineiro de antibióticos não é indicado, exceto quando há suspeita ou confirmação de infecção bacteriana associada.

Cuidados de enfermagem no VSR

A assistência de enfermagem no manejo do VSR é fundamentalmente de suporte e vigilância. Como não existe um tratamento antiviral específico amplamente utilizado para todos os casos, o foco é manter o paciente estável enquanto o vírus cumpre seu ciclo.

Monitorização e Oxigenoterapia

O controle rigoroso da saturação de oxigênio SpO₂ através da oximetria de pulso é constante. Se a saturação cair abaixo dos níveis recomendados (geralmente 90-92% dependendo do protocolo local), a administração de oxigênio umidificado via cateter nasal ou máscara é iniciada. Em casos mais graves, a enfermagem auxilia na instalação da Ventilação Não Invasiva (VNI) ou do Cateter Nasal de Alto Fluxo, que ajuda a manter os bronquíolos abertos com pressão positiva.

Higiene Nasal e Permeabilidade das Vias Aéreas

Bebês são respiradores nasais preferenciais. Um nariz entupido por muco espesso pode causar desconforto respiratório severo e dificuldade de amamentação. O cuidado de enfermagem aqui é a lavagem nasal frequente com soro fisiológico e a aspiração das secreções, se necessário, especialmente antes das mamadas e do sono.

Hidratação e Nutrição

A taquipneia aumenta a perda de água pela respiração (perda insensível). Além disso, o bebê cansado não consegue sugar o leite. Devemos monitorar o balanço hídrico, observar o turgor da pele e a diurese. Se o esforço respiratório for muito grande, a enfermagem deve atentar para a necessidade de suspender a via oral e iniciar hidratação venosa ou gavagem (sonda) para evitar a aspiração de leite para os pulmões.

Controle de Infecção e Isolamento

O VSR é extremamente contagioso e sobrevive por horas em superfícies e mãos. O isolamento de contato (e às vezes por gotículas, dependendo do protocolo da instituição) é obrigatório. A higienização das mãos antes e após tocar o paciente ou o ambiente é a medida de ouro para evitar o surto hospitalar.

Prevenção: O Papel do Palivizumabe

Para grupos de altíssimo risco, como prematuros extremos e crianças com cardiopatias congênitas, existe o Palivizumabe. Não é uma vacina no sentido tradicional, mas sim um anticorpo monoclonal pronto que oferece uma “imunização passiva”. Ele é administrado em doses mensais durante os meses de maior circulação do vírus (sazonalidade). O enfermeiro tem papel fundamental na busca ativa dessas crianças e na administração correta da medicação.

Recentemente, novas vacinas para gestantes e idosos foram aprovadas, o que promete mudar o cenário epidemiológico nos próximos anos, protegendo os bebês através da transferência de anticorpos via placenta.

Outras medidas preventivas incluem ações simples e eficazes, como higienização frequente das mãos, limpeza de superfícies, evitar aglomerações e contato com pessoas sintomáticas, especialmente em períodos sazonais.

Em grupos específicos de alto risco, como prematuros extremos e crianças com cardiopatias ou doenças pulmonares crônicas, pode ser indicada a imunoprofilaxia com anticorpos monoclonais, conforme protocolos clínicos.

O Vírus Sincicial Respiratório é um agente de grande impacto na prática da enfermagem, principalmente nas áreas pediátrica, neonatal e de terapia intensiva. Embora muitas vezes subestimado, o VSR pode evoluir rapidamente para quadros graves, exigindo atenção, vigilância clínica e cuidados baseados em evidências.

Para o estudante de enfermagem, compreender o VSR vai além da teoria: significa estar preparado para reconhecer sinais precoces de gravidade, atuar na prevenção da transmissão e oferecer uma assistência segura e humanizada ao paciente e à família.

Referências:

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Diretrizes sobre o Vírus Sincicial Respiratório. Disponível em: https://www.sbp.com.br.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Vigilância Epidemiológica da Influenza e outros Vírus Respiratórios. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  3. BENTLEY, M. C. et al. Nursing care of the infant with respiratory syncytial virus. Nursing Standard, v. 35, n. 4, 2020. Disponível em: https://journals.rcni.com/nursing-standard
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Bronquiolite viral aguda: diagnóstico e manejo clínico. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em:
    https://www.gov.br/saude
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Respiratory syncytial virus (RSV). Geneva: WHO, 2023. Disponível em:
    https://www.who.int 
  6. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Documento científico: Vírus sincicial respiratório. São Paulo, 2021. Disponível em:
    https://www.sbp.com.br
  7. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em:
    https://www.grupogen.com.br

Flebotomia (Dissecção Venosa): conceitos, indicações e cuidados de enfermagem

A flebotomia, também conhecida como dissecção venosa, é um procedimento invasivo utilizado para obtenção de acesso venoso quando as tentativas convencionais falham. Embora não seja um procedimento de rotina, seu conhecimento é fundamental para a enfermagem, especialmente em contextos de urgência, terapia intensiva e pacientes com acesso venoso difícil.

Compreender a flebotomia vai além da técnica em si. Envolve reconhecer indicações, riscos, cuidados antes, durante e após o procedimento, além do papel essencial da enfermagem na segurança do paciente.

O que é flebotomia (dissecção venosa)?

A flebotomia é um procedimento cirúrgico no qual uma veia é exposta por meio de incisão na pele para permitir a inserção direta de um cateter ou cânula venosa. Diferente da punção venosa periférica, na flebotomia a veia é visualizada diretamente, o que garante maior precisão na introdução do dispositivo.

Esse procedimento é realizado por profissional médico capacitado, mas a enfermagem tem papel fundamental no preparo do paciente, na assistência durante o ato e nos cuidados posteriores.

Indicações e Escolha do Sítio Anatômico

A flebotomia não é a primeira escolha, mas sim um recurso de exceção. Ela é indicada quando todas as tentativas de acesso venoso periférico falharam e o acesso venoso central (por punção de subclávia ou jugular) não é possível ou é contraindicado no momento. É um procedimento salvador em casos de ressuscitação volêmica rápida.

Os locais mais comuns para a realização da dissecção são a veia safena magna, na altura do maléolo medial (tornozelo), e as veias basílica ou cefálica, na dobra do cotovelo ou no braço. A veia safena é frequentemente a preferida em situações de trauma, pois é uma estrutura anatômica constante, fácil de localizar e permite que a equipe trabalhe no tronco e braços do paciente enquanto o acesso é estabelecido na perna.

Situações comuns incluem pacientes em choque, grandes queimados, politraumatizados, pacientes críticos com uso prolongado de acessos venosos ou indivíduos com histórico de uso frequente de drogas intravenosas.

Em alguns contextos, a flebotomia também é utilizada quando há necessidade imediata de acesso venoso confiável e rápido, especialmente em emergências.

Diferença entre flebotomia e outros acessos venosos

É importante não confundir flebotomia com punção venosa periférica ou acesso venoso central. Na punção periférica, a veia não é visualizada diretamente. Já no acesso central, o cateter é inserido em grandes vasos, como a veia jugular ou subclávia, geralmente com auxílio de técnica mais avançada.

A flebotomia ocupa um lugar intermediário: é mais invasiva que a punção periférica, porém menos complexa que alguns acessos centrais, sendo uma alternativa valiosa quando outras opções falham.

Como o procedimento é realizado?

Para que a flebotomia ocorra sem intercorrências, o profissional de enfermagem deve organizar o material com antecedência. O kit básico inclui um conjunto de pequena cirurgia (bisturi, pinças hemostáticas do tipo Kelly ou Mosquito, porta-agulhas e tesoura), além de fios de sutura (geralmente seda ou algodão 3-0 ou 4-0), anestésico local, luvas estéreis e o cateter venoso de calibre adequado.

O procedimento começa com a antissepsia rigorosa e a colocação de campos estéreis. Após a anestesia local, o médico realiza uma incisão transversal na pele.

Com a ajuda das pinças, a veia é isolada dos tecidos adjacentes. Um ponto importante que o estudante deve observar é que dois fios de sutura são passados por baixo da veia: um distal, que é amarrado para ocluir o fluxo e servir de guia, e um proximal, que servirá para fixar o cateter posteriormente. É feita uma pequena abertura na veia (venotomia), o cateter é inserido, testado quanto ao refluxo e permeabilidade, e finalmente a pele é suturada.

Riscos e complicações associadas à flebotomia

Por se tratar de um procedimento invasivo, a flebotomia não está isenta de riscos. Entre as principais complicações estão infecção local, sangramento, hematoma, trombose venosa, lesão de estruturas adjacentes e extravasamento de soluções.

Esses riscos reforçam a importância da indicação criteriosa e da vigilância contínua da equipe de enfermagem no pós-procedimento.

Cuidados de enfermagem no pré-procedimento

Antes da flebotomia, a enfermagem deve realizar uma avaliação cuidadosa do paciente. Isso inclui verificar sinais vitais, nível de consciência, condições da pele e histórico de alergias, especialmente a anestésicos locais.

É fundamental orientar o paciente e/ou familiares sobre o procedimento, esclarecendo dúvidas e reduzindo ansiedade. A checagem de exames laboratoriais, como coagulograma, também pode ser necessária conforme prescrição médica.

O preparo adequado do material e a organização do ambiente são responsabilidades essenciais da equipe de enfermagem.

Cuidados de enfermagem durante o procedimento

Durante a flebotomia, a enfermagem deve manter rigorosa técnica asséptica, garantindo a segurança do paciente e prevenindo infecções. O monitoramento dos sinais vitais é indispensável, principalmente em pacientes instáveis.

Também é papel da enfermagem observar sinais de dor, desconforto ou alterações hemodinâmicas, comunicando imediatamente a equipe médica caso algo não evolua conforme o esperado.

Cuidados de enfermagem no pós-procedimento

Após a flebotomia, a atenção da enfermagem se volta para a prevenção de complicações. O local da dissecção deve ser avaliado frequentemente quanto a sinais de sangramento, hematoma, edema, dor, calor ou hiperemia.

A permeabilidade do cateter precisa ser testada regularmente, bem como a integridade do curativo. A troca do curativo deve seguir protocolos institucionais, sempre com técnica estéril.

A enfermagem também deve registrar detalhadamente no prontuário o procedimento realizado, local de inserção, condições do acesso e evolução do paciente.

Limitações e Tempo de Permanência

É importante que o estudante entenda que a flebotomia é um acesso temporário. Geralmente, recomenda-se que o cateter seja removido assim que o paciente estabilizar e for possível obter um acesso venoso de menor risco ou um acesso central definitivo.

O tempo de permanência raramente deve ultrapassar 72 a 96 horas, pois o risco de tromboflebite infecciosa aumenta exponencialmente após esse período. A retirada do cateter também exige cuidados, como a compressão local e a observação de sangramentos residuais.

A importância da flebotomia na prática da enfermagem

Embora menos frequente nos dias atuais, a flebotomia continua sendo um procedimento relevante, especialmente em contextos de emergência e cuidados críticos. Para a enfermagem, conhecer essa técnica fortalece o raciocínio clínico, amplia a capacidade de resposta diante de situações complexas e contribui para uma assistência segura e eficaz.

O cuidado vai muito além da técnica: envolve observação, registro, comunicação e humanização.

A flebotomia é um procedimento que exige conhecimento técnico, preparo adequado e vigilância constante. A enfermagem desempenha papel central em todas as etapas, desde o preparo até o acompanhamento pós-procedimento.

Dominar esse conteúdo é fundamental para estudantes e profissionais que desejam oferecer uma assistência qualificada, segura e baseada em boas práticas.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos de Suporte Avançado de Vida. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  3. SMELTZER, Suzanne C.; BARE, Brenda G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em: https://www.grupogen.com.br/
  4. TOWNSEND, Courtney M. et al. Sabiston: Tratado de Cirurgia. 20. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  5. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em: https://www.grupogen.com.br
  6. BRASIL. Ministério da Saúde. Segurança do paciente: práticas seguras no uso de acessos venosos. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  7. INFUSION NURSES SOCIETY. Infusion Therapy Standards of Practice. 8th ed. Journal of Infusion Nursing, 2021. Disponível em: https://www.ins1.org
  8. SMELTZER, S. C. et al. Enfermagem médico-cirúrgica. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019. Disponível em: https://www.grupogen.com.br

Cuidados de Enfermagem na Parada Cardiorrespiratória (PCR)

A parada cardiorrespiratória (PCR) é uma das situações mais críticas da prática assistencial. Ela representa a interrupção súbita da atividade mecânica eficaz do coração, levando à ausência de pulso, respiração e circulação sanguínea adequada. Nesse cenário, cada segundo importa, e a atuação da equipe de enfermagem é determinante para a sobrevida e o prognóstico do paciente.

Mais do que executar técnicas, o cuidado de enfermagem na PCR exige preparo, raciocínio clínico rápido, trabalho em equipe e conhecimento sólido dos protocolos de reanimação.

O que caracteriza uma Parada Cardiorrespiratória

A PCR é identificada clinicamente pela ausência de responsividade, ausência de respiração normal (ou gasping) e ausência de pulso central palpável. Esses sinais devem ser reconhecidos rapidamente, pois atrasos no início das manobras de reanimação aumentam significativamente o risco de morte e sequelas neurológicas.

As causas da PCR podem ser cardíacas, respiratórias, metabólicas, traumáticas ou decorrentes de eventos como hipóxia, distúrbios hidroeletrolíticos, choque e intoxicações.

A importância da enfermagem no atendimento à PCR

A enfermagem está, na maioria das vezes, na linha de frente do reconhecimento da PCR. Técnicos e enfermeiros são frequentemente os primeiros a identificar a deterioração clínica do paciente, seja em enfermarias, unidades de terapia intensiva, pronto atendimento ou até mesmo fora do ambiente hospitalar.

Uma resposta rápida, organizada e baseada em protocolos aumenta consideravelmente as chances de retorno da circulação espontânea (RCE).

Reconhecimento precoce e acionamento da equipe

Ao identificar um paciente inconsciente e sem respiração normal, o primeiro cuidado de enfermagem é confirmar rapidamente a PCR e acionar imediatamente o suporte avançado, chamando ajuda e solicitando o carrinho de emergência.

Enquanto o auxílio não chega, a enfermagem deve iniciar as manobras de reanimação cardiopulmonar, seguindo as recomendações atuais.

Início imediato da Ressuscitação Cardiopulmonar (RCP)

A RCP de alta qualidade é o pilar do atendimento à PCR. A enfermagem deve garantir compressões torácicas eficazes, com profundidade adequada, frequência correta e mínimo de interrupções.

As compressões devem ser realizadas no centro do tórax, permitindo o retorno completo do tórax após cada compressão. A troca do profissional que realiza as compressões deve ocorrer regularmente para evitar fadiga, garantindo a qualidade da manobra.

A ventilação deve ser realizada de forma adequada, evitando hiperventilação, que pode comprometer o retorno venoso e a perfusão cerebral.

A Técnica que Salva: Compressões de Alta Qualidade

Não basta apenas apertar o peito do paciente. A ciência da ressuscitação moderna foca na qualidade. Para um estudante, o padrão deve ser: posicionar-se em um plano rígido, manter os braços esticados e comprimir o tórax em uma frequência de 100 a 120 batimentos por minuto. Uma dica prática é seguir o ritmo da música “Stayin’ Alive”.

A profundidade deve ser de 5 a 6 cm, permitindo sempre o retorno total do tórax após cada compressão. Esse retorno é vital, pois é nesse momento que o coração se enche de sangue novamente. Se você ficar “apoiado” no peito do paciente, o sangue não circula. Além disso, a cada dois minutos, os compressores devem trocar de posição. O cansaço é traiçoeiro e, após dois minutos, a qualidade da compressão cai drasticamente, mesmo que o profissional sinta que ainda tem força.

Uso do desfibrilador e reconhecimento dos ritmos

A enfermagem tem papel fundamental na rápida disponibilização e preparo do desfibrilador. Identificar se o ritmo é chocável ou não chocável direciona toda a condução da reanimação.

Ritmos como fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso exigem desfibrilação imediata. Já assistolia e atividade elétrica sem pulso requerem RCP contínua e administração de medicamentos conforme protocolo.

O conhecimento dos ritmos cardíacos e a agilidade na monitorização fazem parte das competências essenciais da enfermagem em situações de PCR.

A Organização do Carrinho de Emergência e as Drogas

Enquanto alguém comprime, outro profissional de enfermagem assume o carrinho de emergência e o monitor. O preparo das drogas é uma das tarefas mais críticas. A Adrenalina (Epinefrina) é a droga padrão, geralmente administrada a cada 3 a 5 minutos.

O cuidado de enfermagem aqui envolve não apenas a aspiração rápida, mas a técnica do “flush“: após cada medicação na veia, injetamos 20 mL de soro fisiológico e elevamos o membro do paciente por cerca de 10 a 20 segundos para que a droga chegue mais rápido à circulação central.

Se o ritmo for chocável (Fibrilação Ventricular ou Taquicardia Ventricular sem pulso), entra em cena a Amiodarona ou Lidocaína, conforme o protocolo de Suporte Avançado de Vida (ACLS). O enfermeiro deve estar atento à carga do desfibrilador e garantir que ninguém esteja encostando na cama no momento do choque. A segurança da equipe é tão importante quanto o atendimento ao paciente.

Garantia de vias aéreas e oxigenação

Outro cuidado essencial é a manutenção das vias aéreas pérvias e a oferta adequada de oxigênio. A enfermagem auxilia na ventilação com bolsa-válvula-máscara e, quando necessário, presta suporte à intubação orotraqueal realizada pelo profissional habilitado.

Após a via aérea avançada, é importante ajustar a ventilação de acordo com as recomendações, evitando excesso de volume ou frequência.

O Registro e o Papel do Cronometrista

Muitas vezes, o enfermeiro assume a função de líder ou de anotador. Registrar o horário de início da PCR, o tempo de cada ciclo, o momento em que as drogas foram aplicadas e o resultado dos choques é o que dá ordem ao caos. Sem um anotador preciso, a equipe pode se perder e administrar doses excessivas de medicação ou atrasar a troca de compressores.

Além disso, a enfermagem deve estar atenta às causas reversíveis da parada, os famosos “5Hs e 5Ts (Hipóxia, Hipovolemia, Hipotermia, H+ ou acidose, Hipo/Hipercalemia; Tensão no tórax, Tamponamento cardíaco, Toxinas, Trombose pulmonar e Trombose coronariana). Se o paciente parou por hipovolemia, por exemplo, não adiantará apenas dar choque; o cuidado de enfermagem será focado na reposição rápida de volume.

Monitorização e cuidados após o Retorno da Circulação Espontânea (RCE)

Quando ocorre o retorno da circulação espontânea, os cuidados de enfermagem não cessam. Pelo contrário, entram em uma fase ainda mais delicada, voltada à estabilização do paciente.

A enfermagem deve monitorar sinais vitais, nível de consciência, saturação de oxigênio, ritmo cardíaco, pressão arterial e perfusão periférica. O controle rigoroso da temperatura corporal, da glicemia e do equilíbrio hidroeletrolítico também é essencial.

Além disso, o suporte emocional à família e o registro detalhado de todo o atendimento fazem parte do cuidado integral.

Por fim, há um cuidado que muitas vezes esquecemos: a equipe. Após uma PCR, especialmente se o desfecho for negativo, é fundamental que a equipe faça um breve debriefing. Conversar sobre o que funcionou e o que pode melhorar humaniza o processo e reduz o estresse emocional de quem lida diariamente com o limiar entre a vida e a morte.

Cuidados de enfermagem relacionados à segurança e humanização

Mesmo em um cenário crítico como a PCR, a enfermagem deve manter uma postura ética, organizada e humanizada. Garantir privacidade, respeitar protocolos institucionais e atuar com comunicação clara entre os membros da equipe contribuem para um atendimento mais seguro.

O treinamento contínuo, a simulação realística e a atualização em protocolos como o BLS e o ACLS fortalecem a atuação da enfermagem e reduzem falhas durante o atendimento.

A atuação da enfermagem na parada cardiorrespiratória é decisiva para a sobrevida do paciente. Reconhecer precocemente a PCR, iniciar manobras de RCP de alta qualidade, utilizar corretamente o desfibrilador, administrar medicamentos com segurança e prestar cuidados pós-ressuscitação são responsabilidades que exigem preparo técnico e emocional.

Mais do que executar procedimentos, o cuidado de enfermagem na PCR representa compromisso com a vida, trabalho em equipe e excelência assistencial.

Referências:

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). Destaques das Diretrizes de RCP e ACE de 2020 da American Heart Association. Disponível em: https://cpr.heart.org/-/media/cpr-files/cpr-guidelines-files/highlights/hghlts_2020_ecc_guidelines_portuguese.pdf
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos de Suporte Avançado de Vida. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiorrespiratória e Cuidados de Emergência. 2019. Disponível em: http://publicacoes.cardiol.br/portal/abc/portugues/2019/v11303/pdf/11303025.pdf
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Atendimento às emergências cardiovasculares. Brasília, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  5. POTTER, P. A.; PERRY, A. G. Fundamentos de enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018. Disponível em: https://www.elsevier.com
  6. SMELTZER, S. C. et al. Brunner & Suddarth: tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em:
    https://www.grupogen.com.br
  7. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Suporte avançado de vida em cardiologia (ACLS). São Paulo, 2021. Disponível em:https://www.cardiol.br

FAST HUGS BID: uma abordagem sistematizada para o cuidado diário do paciente crítico

Cuidar de um paciente crítico vai muito além de monitorar sinais vitais e administrar medicações. Na UTI, cada detalhe importa, e pequenas falhas podem gerar grandes impactos. Foi nesse contexto que surgiu o FAST HUGS, posteriormente ampliado para FAST HUGS BID, um checklist simples, porém extremamente poderoso, para garantir uma assistência integral, segura e contínua ao paciente internado em terapia intensiva.

Originalmente criado pelo intensivista Jean-Louis Vincent, esse mnemônico foi desenhado para garantir que nenhum cuidado essencial seja esquecido durante o plantão.

Para o estudante de enfermagem, o FAST HUGS BID funciona como uma bússola. Ele transforma a complexidade da UTI em uma lista mental estruturada que deve ser revisada pelo menos duas vezes ao dia (daí o “BID”, do latim bis in die). Vamos detalhar cada uma dessas letras, entendendo por que elas são fundamentais para a segurança do paciente crítico.

O que é o FAST HUGS BID?

O FAST HUGS BID é um método sistemático de avaliação diária do paciente crítico, utilizado principalmente em unidades de terapia intensiva. Ele funciona como um checklist que ajuda a equipe multiprofissional — especialmente a enfermagem — a não negligenciar cuidados essenciais.

A sigla representa aspectos fundamentais do cuidado, avaliados de forma rotineira, permitindo identificar precocemente falhas, riscos e oportunidades de intervenção.

A Primeira Parte: O FAST HUGS Original

O conceito inicial focava em aspectos metabólicos e preventivos que frequentemente passavam despercebidos na correria das emergências.

  • F de Feeding (Alimentação): O paciente crítico entra em um estado catabólico intenso. O enfermeiro deve verificar se a nutrição (enteral ou parenteral) está sendo administrada conforme o alvo calórico-proteico. É nossa função monitorar a tolerância à dieta, observar a presença de resíduo gástrico excessivo e garantir que o paciente não fique em jejum desnecessário, o que prejudica a cicatrização e a função imunológica.
  • A de Analgesia (Analgesia): A dor é o quinto sinal vital. Na UTI, muitos pacientes não conseguem falar, por isso usamos escalas como a CPOT para avaliar o sofrimento. É um erro comum sedar um paciente que, na verdade, sente dor. A regra de ouro é: trate a dor antes de aumentar a sedação. Um paciente sem dor colabora melhor com a ventilação e tem menos riscos de desenvolver delírio.
  • S de Sedation (Sedação): Aqui, o enfermeiro deve avaliar o nível de consciência através da Escala de RASS. O objetivo moderno é a “sedação leve”, onde o paciente fica calmo, mas pode ser despertado facilmente. Devemos evitar o excesso de sedação, que prolonga o tempo de ventilação mecânica e aumenta a fraqueza muscular adquirida na UTI.
  • T de Thromboembolic Prophylaxis (Prophylaxia Tromboembólica): Pacientes acamados têm um risco altíssimo de Trombose Venosa Profunda (TVP). A enfermagem deve garantir que a profilaxia medicamentosa (heparina) seja administrada e, tão importante quanto, que os métodos mecânicos, como as meias de compressão ou botas pneumáticas, estejam funcionando e bem posicionados.
  • H de Head of bed elevation (Elevação da Cabeceira): Manter a cabeceira entre 30° e 45° é a medida mais barata e eficaz para prevenir a Pneumonia Associada à Ventilação (PAV). Isso evita a microaspiração de secreções. Como enfermeiros, devemos vigiar esse posicionamento constantemente, especialmente após banhos ou mudanças de decúbito.
  • U de Ulcer Prophylaxis (Prophylaxia de Úlcera de Estresse): O estresse fisiológico da doença crítica aumenta a acidez gástrica, podendo causar sangramentos digestivos. O uso de protetores gástricos deve ser verificado, assim como a presença de sangue no conteúdo gástrico ou nas fezes.
  • G de Glycemic Control (Controle Glicêmico): A hiperglicemia de estresse é comum e aumenta a mortalidade e o risco de infecções. O enfermeiro gerencia os protocolos de insulina e realiza as glicemias capilares rigorosas, buscando manter os níveis geralmente entre 140 e 180 mg/dL, evitando tanto o excesso de açúcar quanto a hipoglicemia fatal.
  • S de Spontaneous Breathing Trial (Teste de Respiração Espontânea): Todos os dias, devemos nos perguntar: “Este paciente já pode respirar sozinho?”. A enfermagem colabora com a fisioterapia e a medicina no teste de despertar diário (desligar a sedação) e no teste de autonomia respiratória, visando a extubação o mais cedo possível.

O Complemento: O BID e a Vigilância Sistêmica

Com o tempo, percebeu-se que outros aspectos eram igualmente vitais para evitar complicações hospitalares, adicionando-se o sufixo BID.

  • B de Bowel habits (Hábito Intestinal): O intestino é muitas vezes o “órgão esquecido” da UTI. A constipação pode causar distensão abdominal e dificultar a ventilação. O enfermeiro deve registrar a frequência das evacuações e os ruídos hidroaéreos, sugerindo o uso de procinéticos ou laxantes quando necessário.
  • I de Indwelling catheters (Cateteres Invasivos): Cada cateter (venoso central, vesical de demora, arterial) é uma porta de entrada para bactérias. A pergunta diária da enfermagem deve ser: “Este cateter ainda é necessário?”. Retirar dispositivos invasivos assim que possível é a melhor forma de prevenir infecções da corrente sanguínea e do trato urinário.
  • D de Drug de-escalation (Descalonamento de Drogas): Refere-se à revisão das medicações. Estamos usando antibióticos que poderiam ser suspensos ou trocados por um de espectro menor? Alguma droga está causando efeitos colaterais desnecessários? Embora a decisão seja médica, o enfermeiro, que observa o paciente continuamente, é quem traz os dados para essa discussão.

Por que o FAST HUGS BID é tão importante na UTI?

O ambiente da UTI é complexo, dinâmico e exige tomadas de decisão rápidas. Em meio a tantos dispositivos, medicamentos e alterações clínicas, é fácil que cuidados básicos passem despercebidos.

O FAST HUGS BID ajuda a:

  • Reduzir eventos adversos;
  • Padronizar a assistência;
  • Melhorar a comunicação entre a equipe;
  • Aumentar a segurança do paciente;
  • Fortalecer o raciocínio clínico da enfermagem.

Ele transforma o cuidado fragmentado em um cuidado estruturado e intencional.

Cuidados de Enfermagem Integrados ao FAST HUGS BID

A implementação desse checklist não deve ser apenas burocrática. Na prática, o enfermeiro utiliza o momento da passagem de plantão e o exame físico da manhã para percorrer esses itens. O cuidado humanizado entra na personalização dessas letras: ao checar a analgesia, aproveitamos para oferecer suporte emocional; ao elevar a cabeceira, garantimos que o paciente tenha uma visão melhor do ambiente, reduzindo a desorientação.

A principal contribuição da enfermagem é a vigilância. Enquanto o médico prescreve as medidas, é o enfermeiro quem garante que a cabeceira permaneça elevada, que a insulina seja ajustada corretamente e que a sedação não passe do ponto necessário. Dominar esse mnemônico eleva o estudante de um nível operacional para um nível de pensamento crítico.

O FAST HUGS BID é uma ferramenta simples, mas extremamente eficaz, para garantir um cuidado completo ao paciente crítico. Para a enfermagem, ele representa organização, segurança e qualidade assistencial.

Incorporar essa abordagem à prática diária significa reduzir falhas, prevenir complicações e oferecer um cuidado mais humano, atento e responsável.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA (AMIB). Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica. 2013. Disponível em: https://www.amib.org.br/
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
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