PEEP: O Que Significa na Prática da UTI

PEEP

Na ventilação mecânica, a PEEP é um daqueles parâmetros que o estudante aprende a decorar antes de realmente entender o que está acontecendo. Na prática, pense nela como uma pressão que permanece no final da expiração para ajudar a manter os alvéolos abertos e reduzir o colapso das unidades pulmonares.

PEEP significa pressão no final da expiração

PEEP vem de Positive End-Expiratory Pressure, ou pressão positiva ao final da expiração.

Durante uma respiração normal, a pressão dentro dos alvéolos se aproxima da pressão atmosférica ao final da expiração. Na ventilação mecânica, a PEEP mantém uma pressão positiva nesse momento, aumentando o volume pulmonar ao final da expiração e reduzindo o fechamento das vias aéreas e alvéolos.

Um jeito simples de visualizar é imaginar um balão que você não deixa esvaziar completamente. A pressão restante facilita sua manutenção parcialmente aberta no próximo ciclo.

O que a PEEP faz na prática?

Um dos principais efeitos é melhorar a oxigenação, especialmente quando existe colapso alveolar ou alterações como edema pulmonar e síndrome do desconforto respiratório agudo. Com os alvéolos mais recrutados, há maior área pulmonar disponível para as trocas gasosas e pode ser possível utilizar uma FiO₂ menor para atingir uma oxigenação adequada.

É comum, por exemplo, acompanhar um paciente em ventilação mecânica com PEEP ajustada e perceber que a saturação melhora após mudanças no suporte ventilatório. Nesse momento, não basta olhar somente para a SpO₂: é necessário observar também FiO₂, pressão arterial, mecânica pulmonar e a resposta clínica como um todo.

PEEP alta não significa automaticamente melhor

Esse é um ponto que costuma confundir quem está começando na UTI. Mais PEEP não significa necessariamente mais benefício.

Quando excessiva, a pressão intratorácica pode reduzir o retorno venoso, favorecer hipotensão e aumentar a sobre-distensão de algumas regiões pulmonares. Em pacientes com comprometimento do ventrículo direito, níveis elevados também podem aumentar a resistência vascular pulmonar e prejudicar o débito cardíaco.

Por isso, quando um paciente apresenta queda da pressão arterial após uma alteração importante na PEEP, a enfermagem deve observar a relação temporal entre os eventos e comunicar a equipe. Não é para simplesmente concluir que “a PEEP causou a hipotensão”, mas a mudança merece ser considerada na avaliação clínica.

E quando a PEEP está baixa?

PEEP insuficiente pode permitir abertura e fechamento repetitivo dos alvéolos durante os ciclos respiratórios, favorecendo atelectrauma. Em outras palavras, o problema não está apenas em manter o pulmão aberto; também é importante evitar o ciclo repetitivo de colapso e reabertura.

Uma cena muito comum na UTI é observar um paciente sedado, em posição supina e ventilado mecanicamente, com áreas pulmonares propensas ao colabamento. A PEEP faz parte da estratégia ventilatória justamente para ajudar a manter essas unidades recrutadas, sempre dentro do contexto clínico e dos demais parâmetros definidos pela equipe.

PEEP e auto-PEEP não são a mesma coisa

Aqui existe uma diferença importante.

A PEEP aplicada é aquela programada no ventilador. Já a auto-PEEP, também chamada de PEEP intrínseca, ocorre quando o paciente não consegue eliminar completamente o ar antes do próximo ciclo respiratório, deixando uma pressão residual dentro do sistema respiratório. Isso pode acontecer, por exemplo, em situações de obstrução ao fluxo expiratório ou quando o tempo expiratório é insuficiente.

Na prática, a auto-PEEP pode aumentar o trabalho respiratório e reduzir o retorno venoso. Observar a curva de fluxo expiratório no ventilador pode ajudar a identificar que o fluxo não chegou a zero antes do próximo ciclo.

O que a enfermagem deve observar?

A enfermagem não precisa ajustar a PEEP por conta própria para entender sua importância. O essencial é reconhecer o parâmetro, acompanhar sua evolução e perceber como o paciente responde às mudanças realizadas pela equipe responsável pela ventilação.

Observe SpO₂, frequência respiratória, padrão ventilatório, pressão arterial, frequência cardíaca, nível de consciência, sincronia paciente-ventilador e alarmes. Também acompanhe os valores de FiO₂, PEEP e demais parâmetros registrados no ventilador, principalmente após mudanças clínicas ou ajustes ventilatórios.

Uma alteração importante de PEEP acompanhada de queda da pressão arterial, piora da oxigenação ou alteração da mecânica ventilatória deve chamar atenção. O número isolado nunca conta toda a história.

Para guardar de uma vez

  • PEEP = pressão positiva no final da expiração.
  • Objetivo principal: ajudar a manter alvéolos abertos e melhorar a oxigenação.
  • PEEP muito baixa: pode favorecer colapso alveolar.
  • PEEP excessiva: pode causar hiperinsuflação e comprometer a hemodinâmica.
  • Auto-PEEP: pressão que permanece por dificuldade de esvaziamento pulmonar, não simplesmente o valor programado no ventilador.

Cuidados de enfermagem

Monitorar SpO₂ e sinais vitais, observar padrão respiratório e sincronia com o ventilador, acompanhar PEEP e FiO₂ registrados, conferir alarmes, observar alterações hemodinâmicas após mudanças ventilatórias, manter cabeceira e posicionamento conforme indicação clínica, realizar cuidados com via aérea e comunicar prontamente alterações respiratórias ou circulatórias.

Na UTI, entender PEEP é mais fácil quando você pensa no alvéolo: sem pressão suficiente, ele pode fechar; com pressão excessiva, o pulmão e a circulação também podem sofrer. O objetivo da ventilação é encontrar uma estratégia adequada para aquele paciente, e não simplesmente buscar o maior número possível.

Resumo para salvar

PEEP O Que Significa na Prática da UTI

  • PEEP é a pressão positiva mantida no final da expiração
  • Ajuda a manter alvéolos abertos e pode melhorar a oxigenação
  • PEEP excessiva pode causar hiperinsuflação hipotensão e alterações hemodinâmicas
  • Auto-PEEP é diferente da PEEP programada e ocorre quando o ar não é totalmente eliminado

Referências:

  1. PATEL, Bhakti K.; RIVERA, M. Patricia. Overview of Mechanical Ventilation. Merck Manual Professional Edition, 2026. Disponível em: Merck Manual Professional Edition.
  2. MERCK MANUAL PROFESSIONAL EDITION. Acute Hypoxemic Respiratory Failure (AHRF), Including ARDS. 2026. Disponível em: Merck Manual – AHRF e ARDS.
  3. DAVIDSON, A. C. et al. BTS/ICS guideline for the ventilatory management of acute hypercapnic respiratory failure in adults. Thorax, v. 71, supl. 2, p. ii1-ii35, 2016. Disponível em: Thorax – BTS/ICS Guideline. 

Paciente Instável, o que avaliar primeiro?

paciente instável

Antes do diagnóstico, procure o que ameaça a vida

Diante de um paciente instável, a primeira avaliação deve seguir uma sequência estruturada: A — via aérea, B — respiração, C — circulação, D — estado neurológico e E — exposição. O método ABCDE permite identificar problemas potencialmente fatais e tratá-los conforme aparecem, sem esperar concluir toda a avaliação para depois intervir. A recomendação também é reavaliar o paciente após cada intervenção e solicitar ajuda precocemente quando necessário.

A primeira pergunta é sobre a via aérea

Comece observando o paciente. Ele consegue falar? Há roncos, estridor, secreções, vômitos ou sinais de obstrução? Alteração do nível de consciência pode comprometer a proteção da via aérea, principalmente em pacientes muito sonolentos ou inconscientes. Uma via aérea obstruída é uma emergência porque a hipóxia pode evoluir rapidamente para deterioração grave e parada cardiorrespiratória.

Em uma situação típica de plantão, um paciente que estava conversando passa a ficar sonolento e começa a apresentar respiração ruidosa. Antes de procurar a causa daquela alteração neurológica, a equipe precisa olhar para a via aérea e para a respiração. Esse pequeno detalhe muda a prioridade da assistência.

Depois vem a respiração

Com a via aérea avaliada, observe frequência e padrão respiratório, expansibilidade torácica, esforço para respirar, presença de cianose, ausculta pulmonar e saturação de oxigênio. Uma frequência respiratória elevada ou progressivamente crescente pode ser um sinal precoce de deterioração, mesmo antes de ocorrer queda importante da pressão arterial.

É aqui que a avaliação precisa ir além do número mostrado no oxímetro. Um paciente com SpO₂ aparentemente aceitável, mas com esforço respiratório intenso, alteração do nível de consciência ou fadiga progressiva, continua sendo um paciente preocupante. O contexto clínico importa tanto quanto o valor isolado do monitor.

Circulação: não espere a pressão despencar

Na avaliação circulatória, verifique frequência cardíaca, pressão arterial, perfusão periférica, temperatura e coloração da pele, pulsos e tempo de enchimento capilar, além de procurar sinais de sangramento. Um paciente em choque pode inicialmente manter a pressão arterial por mecanismos compensatórios, portanto, pressão normal não exclui deterioração circulatória.

Imagine um paciente pálido, sudorético, taquicárdico e com extremidades frias, mas ainda apresentando pressão arterial dentro do valor habitual. Se a equipe olhar apenas para a pressão, pode subestimar a gravidade. Quando os sinais são analisados em conjunto, a alteração da perfusão ganha outro significado e exige investigação e escalonamento rápidos.

O estado neurológico também conta

Depois de garantir A, B e C, avalie o nível de consciência, resposta a estímulos, pupilas e glicemia. Uma alteração neurológica pode estar relacionada à hipóxia, hipoperfusão, hipoglicemia, medicamentos, intoxicações ou outras causas, por isso a avaliação precisa considerar o quadro inteiro. Escalas como Glasgow ou AVPU podem ajudar a acompanhar a evolução.

A glicemia capilar merece atenção especial porque a hipoglicemia é uma causa potencialmente reversível de alteração do nível de consciência. Ao mesmo tempo, uma queda do estado neurológico em um paciente previamente consciente deve ser comunicada e investigada rapidamente, principalmente quando representa uma mudança em relação ao padrão anterior.

Exposição sem esquecer a segurança

Na etapa E, examine o paciente de maneira direcionada para procurar sangramentos, lesões, alterações cutâneas, edema, sinais de trauma ou outras pistas que ajudem a explicar a instabilidade. A exposição deve preservar a dignidade do paciente e evitar perda desnecessária de calor.

Um ponto importante é que o ABCDE não termina no E. Depois de uma intervenção, a avaliação volta ao início. Se a respiração melhorou após uma intervenção, por exemplo, é preciso confirmar se a frequência respiratória, saturação, esforço e estado geral também evoluíram. A avaliação do paciente instável é dinâmica.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem deve reconhecer precocemente a deterioração, iniciar a avaliação sistematizada, monitorizar sinais vitais, verificar glicemia quando indicada, garantir acesso e equipamentos necessários conforme a condição clínica e acionar ajuda sem demora diante de sinais de gravidade.

Também é fundamental registrar tendências, e não apenas números isolados. Comparar pressão, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação e nível de consciência com medidas anteriores pode revelar uma deterioração que ainda não atingiu valores extremos. A comunicação objetiva com a equipe e a reavaliação após as intervenções fazem parte da segurança do paciente.

Resumo para salvar

Paciente Instável O Que Avaliar Primeiro

  • Comece pelo ABCDE e trate ameaças imediatas à vida
  • Avalie via aérea e respiração antes de buscar o diagnóstico
  • Não descarte choque apenas porque a pressão ainda está normal
  • Reavalie o paciente após cada intervenção e comunique a deterioração

Referências: 

  1. RESUSCITATION COUNCIL UK. The ABCDE Approach. London: Resuscitation Council UK, atualizado em 2024. Resuscitation Council UK – ABCDE Approach
  2. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Part 7: Adult Basic Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas: American Heart Association, 2025. AHA – Adult Basic Life Support 2025
  3. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Part 9: Adult Advanced Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas: American Heart Association, 2025. AHA – Adult Advanced Life Support 2025

Tempo Porta Agulha no AVC Isquêmico

porta agulha avc

No atendimento ao AVC isquêmico agudo, existe um tempo que a equipe precisa conhecer quase tão bem quanto a escala de Glasgow ou a NIHSS: o tempo porta-agulha. Ele corresponde ao intervalo entre a chegada do paciente ao serviço de referência e o início da infusão do trombolítico intravenoso, quando o paciente é elegível para trombólise. A meta tradicional é iniciar o tratamento em até 60 minutos, porque o benefício da terapia é tempo-dependente.

Isso significa que não se deve esperar terminar toda a burocracia para depois começar a organizar o atendimento. Desde a chegada, a equipe precisa trabalhar em paralelo: identificar sinais de AVC, estabelecer o horário do início dos sintomas ou último momento em que o paciente foi visto bem, avaliar a condição neurológica, verificar glicemia, providenciar acesso venoso, encaminhar rapidamente para neuroimagem e preparar as etapas necessárias para a trombólise. O PCDT brasileiro do AVC isquêmico agudo está atualmente disponível pelo Ministério da Saúde e orienta a organização desse atendimento.

De onde começa a contagem?

O relógio do porta-agulha começa na chegada do paciente ao serviço, não quando ele entra na tomografia, quando o neurologista chega ou quando o medicamento é preparado. Por isso, registrar corretamente o horário de admissão é uma informação operacional importante.

Um exemplo prático: o paciente chega com dificuldade súbita para falar e perda de força em um lado do corpo. Enquanto a equipe realiza a avaliação inicial, outro profissional já pode providenciar o acesso venoso, verificar a glicemia e organizar o transporte para a tomografia, evitando que cada etapa fique esperando a anterior terminar. É justamente essa atuação simultânea que ajuda a reduzir atrasos evitáveis.

O Ministério da Saúde estabelece como parâmetros assistenciais tempo porta-tomografia inferior a 25 minutos e tempo porta-agulha inferior a 60 minutos nos serviços habilitados para atendimento ao AVC.

O que acontece antes da trombólise?

A rapidez não significa pular etapas de segurança. O paciente precisa ser avaliado quanto à possibilidade de AVC isquêmico, realizar neuroimagem para excluir hemorragia intracraniana e passar pela avaliação dos critérios de elegibilidade para trombólise.

A equipe também precisa considerar horário de início dos sintomas ou último momento conhecido sem déficit, pressão arterial, glicemia, uso de anticoagulantes e outros fatores clínicos relevantes. A decisão pela trombólise é médica e deve seguir o protocolo vigente do serviço.

Na prática, é comum perceber como pequenos atrasos se acumulam. Se o acesso venoso demora, a coleta atrasa; se o transporte para a tomografia demora, a avaliação também atrasa. O paciente não precisa de uma sequência lenta de tarefas, mas de uma equipe coordenada, com funções bem definidas.

Onde a enfermagem faz diferença

A enfermagem participa de praticamente todas as etapas críticas do fluxo. Na triagem, reconhecer rapidamente sinais compatíveis com AVC e comunicar a equipe é fundamental. Durante a avaliação, o enfermeiro pode organizar monitorização, glicemia capilar, acesso venoso, coleta de exames quando indicada, transporte seguro e preparo do paciente para a sequência do protocolo.

Também existe uma função que parece simples, mas evita erros: controlar e registrar os horários. Horário de chegada, avaliação, início da tomografia, resultado da imagem e início da infusão precisam estar claramente documentados conforme o protocolo institucional.

Imagine agora uma situação típica de emergência: o paciente já está na sala de tomografia, a equipe aguarda a definição da imagem e o acesso venoso ainda não foi providenciado. Esse tipo de atraso mostra por que o fluxo precisa ser pensado antes mesmo de o paciente chegar. A enfermagem pode antecipar materiais, monitorização e acesso quando isso for seguro e permitido pelo protocolo, reduzindo minutos que, no AVC, têm relevância clínica.

A American Heart Association utiliza o door-to-needle ≤60 minutos como importante indicador de qualidade para pacientes elegíveis à trombólise intravenosa e acompanha também metas ainda mais rápidas em programas de melhoria da assistência ao AVC.

Tempo porta-agulha não é apenas um número

O indicador serve para avaliar o funcionamento de todo o processo, e não para responsabilizar isoladamente um profissional. Quando o tempo está elevado, vale investigar onde o fluxo está parando: triagem, acionamento da equipe, transporte, tomografia, interpretação da imagem, decisão terapêutica, preparo ou administração do trombolítico.

A lógica é simples: cada etapa precisa acontecer com segurança e sem espera desnecessária. Reduzir o porta-agulha significa melhorar o processo inteiro.

Cuidados de enfermagem

Na assistência ao paciente com suspeita de AVC, a enfermagem deve priorizar reconhecimento rápido, registro preciso dos horários, avaliação neurológica conforme protocolo, glicemia capilar, monitorização dos sinais vitais, acesso venoso quando indicado, transporte rápido e seguro para neuroimagem e preparo para a terapia conforme prescrição e protocolo institucional.

Após o início do trombolítico, a vigilância continua. É necessário observar nível de consciência, sinais neurológicos, pressão arterial, sinais de sangramento e qualquer deterioração clínica, comunicando imediatamente alterações à equipe responsável. A administração e o monitoramento devem seguir rigorosamente o protocolo institucional e a terapia prescrita.

Resumo para salvar

Tempo Porta-Agulha no AVC

  • Porta-agulha é o tempo entre a chegada e o início do trombolítico
  • A meta tradicional é iniciar a trombólise em até 60 minutos nos pacientes elegíveis
  • Enfermagem atua no reconhecimento monitorização acesso transporte e organização do fluxo
  • Registrar horários e eliminar atrasos evitáveis melhora o atendimento ao AVC

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. PCDT – Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 29, de 12 de dezembro de 2023. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo. Portaria Conjunta nº 29/2023
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Rotinas para Atenção ao AVC. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Manual de Rotinas para Atenção ao AVC
  4. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Get With The Guidelines – Stroke Recognition Criteria. Dallas: American Heart Association. Stroke Recognition Criteria
  5. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Target: Stroke – When Seconds Count. Dallas: American Heart Association. Target: Stroke

Assistência de Enfermagem na Crise Convulsiva

crise convulsiva

O primeiro erro é perder a noção do tempo

Durante uma crise convulsiva, a equipe pode se concentrar tanto nos movimentos do paciente que acaba esquecendo uma informação fundamental: quanto tempo a crise está durando? Cronometrar desde o início ajuda a reconhecer rapidamente uma situação que exige intervenção imediata.

Na abordagem inicial, a prioridade é proteger o paciente contra traumas, manter a permeabilidade das vias aéreas, avaliar respiração e circulação e monitorizar os sinais vitais. Também é importante verificar a glicemia capilar, porque a hipoglicemia pode desencadear convulsões e precisa ser identificada rapidamente.

Imagine uma situação comum no atendimento: o paciente começa a apresentar movimentos tônico-clônicos, alguém tenta segurá-lo pelos braços e outra pessoa procura alguma coisa para colocar entre os dentes. É justamente nesse momento que a equipe precisa organizar a cena: afastar objetos, proteger a cabeça, não restringir os movimentos e não colocar nada na boca. A proteção adequada reduz o risco de lesões sem transformar a própria assistência em uma nova fonte de trauma.

O que fazer durante a convulsão

Durante a crise, não se deve tentar conter fisicamente os movimentos nem introduzir objetos, dedos, compressas ou dispositivos na boca do paciente. Também não é indicado oferecer água, alimentos ou medicamentos por via oral enquanto houver alteração da consciência.

Se for possível com segurança, deve-se proteger a cabeça, afastar objetos próximos e afrouxar roupas apertadas no pescoço. A equipe deve permanecer ao lado do paciente e observar características importantes da crise, como início, duração, padrão dos movimentos, presença de cianose, secreções, perda urinária ou fecal e resposta após o episódio.

Uma situação que merece atenção acontece quando a crise termina: o paciente pode permanecer sonolento, confuso ou com respiração alterada. É nessa fase que alguns profissionais podem interpretar a ausência dos movimentos como resolução completa do problema. A assistência continua sendo necessária, com avaliação das vias aéreas, respiração, saturação, sinais vitais e nível de consciência.

Depois da crise: o período pós-ictal

Após o término dos movimentos convulsivos, o paciente pode apresentar sonolência, confusão, agitação, cefaleia ou redução do tônus muscular. A equipe deve manter vigilância até que haja recuperação adequada da consciência e estabilidade clínica.

Quando o paciente estiver respirando espontaneamente e sem contraindicação, o posicionamento lateral pode ajudar a manter a via aérea protegida. Se houver secreções, a aspiração deve ser realizada quando indicada, sempre avaliando a necessidade real do procedimento.

Também é importante investigar o contexto: histórico de epilepsia, uso ou suspensão de anticonvulsivantes, febre, trauma, intoxicação, alterações metabólicas, gestação, diabetes e outras condições que possam estar relacionadas ao episódio.

Quando a crise vira uma emergência ainda maior

Uma convulsão que ultrapassa 5 minutos, ou crises repetidas sem recuperação da consciência entre elas, deve ser tratada como uma emergência. Nessa situação, não basta aguardar que o episódio termine espontaneamente. É necessário acionar o atendimento de emergência e seguir o protocolo institucional para controle da crise.

No ambiente hospitalar, a equipe deve preparar acesso venoso, monitorização, avaliação da glicemia e suporte ventilatório conforme necessidade. As medicações anticonvulsivantes, especialmente benzodiazepínicos como primeira linha no estado de mal convulsivo, devem ser administradas conforme prescrição, protocolo institucional e competência profissional.

No Brasil, o protocolo do SAMU também orienta avaliação primária, manutenção da permeabilidade das vias aéreas, monitorização, glicemia capilar e proteção contra traumas, além do registro das características da crise.

Cuidados de enfermagem

A assistência de enfermagem deve priorizar segurança e reconhecimento precoce da gravidade. Entre os principais cuidados estão:

  • Cronometrar a crise desde o início.
  • Proteger cabeça e corpo contra traumas.
  • Não restringir os movimentos e não colocar objetos na boca.
  • Avaliar vias aéreas, respiração, SpO₂ e sinais vitais.
  • Verificar glicemia capilar.
  • Manter monitorização conforme condição clínica.
  • Observar e registrar características e duração da crise.
  • Avaliar o período pós-ictal e o nível de consciência.
  • Preparar acesso venoso e medicações quando indicados pelo protocolo.
  • Comunicar imediatamente crise prolongada, recorrente ou associada à instabilidade clínica.

O registro também tem valor clínico: horário de início, duração, características dos movimentos, alterações respiratórias, intervenções realizadas, medicamentos administrados e resposta do paciente ajudam a equipe médica e de enfermagem a entender a evolução do episódio.

O que a enfermagem nunca deve fazer

Não segure o paciente à força. Não coloque colher, gaze, cânula, dedo ou qualquer outro objeto entre os dentes. Não tente interromper mecanicamente os movimentos e não ofereça líquidos ou medicamentos pela boca enquanto houver alteração da consciência.

A prioridade é proteger, observar, cronometrar, avaliar e agir conforme a gravidade e o protocolo. Essa sequência evita condutas impulsivas justamente no momento em que a equipe mais precisa trabalhar de forma organizada.

Resumo para salvar

Assistência na Crise Convulsiva

  • Cronometre a crise e proteja o paciente contra traumas
  • Avalie vias aéreas respiração sinais vitais e glicemia
  • Não contenha os movimentos nem coloque objetos na boca
  • Reconheça crises prolongadas ou repetidas como emergência

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Suporte Básico de Vida: BC16 – Crise convulsiva no adulto. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Ministério da Saúde – Protocolo de Suporte Básico de Vida
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. SAMU 192 – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília, DF: Ministério da Saúde. SAMU 192 – Ministério da Saúde
  3. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. First Aid for Seizures. Atlanta: CDC, 2024. CDC – First Aid for Seizures
  4. AMERICAN COLLEGE OF EMERGENCY PHYSICIANS. Clinical Policy: Critical Issues in the Management of Adult Patients Presenting to the Emergency Department With Seizures. Annals of Emergency Medicine, 2024. ACEP – Clinical Policy on Seizures

Protocolo de Delirium e Avaliação na UTI

Delirium

Na UTI, nem todo paciente com delirium está gritando, tentando arrancar o tubo ou ficando agressivo. Alguns ficam quietos demais, sonolentos e aparentemente “tranquilos”. É justamente esse delirium hipoativo que pode passar despercebido, por isso a avaliação regular é mais importante do que esperar uma mudança comportamental evidente. As diretrizes PADIS recomendam que pacientes críticos sejam avaliados regularmente com uma ferramenta validada.

Comece pelo nível de consciência

Antes de aplicar uma escala de delirium, avalie o nível de sedação e consciência. Na prática, a RASS (Richmond Agitation-Sedation Scale) é frequentemente utilizada para determinar o grau de agitação ou sedação e verificar se o paciente pode ser avaliado adequadamente.

Se o paciente estiver profundamente sedado ou em coma, a avaliação pelo CAM-ICU pode não ser aplicável naquele momento. Quando estiver suficientemente desperto, entra a investigação específica do delirium.

CAM-ICU: o passo a passo

O CAM-ICU avalia quatro características principais:

  1. Início agudo ou curso flutuante: houve mudança recente do estado mental ou oscilação durante o dia?
  2. Desatenção: o paciente consegue manter e direcionar a atenção adequadamente?
  3. Alteração do nível de consciência: existe um nível de consciência diferente de alerta, conforme a avaliação clínica?
  4. Pensamento desorganizado: o paciente apresenta respostas incoerentes ou dificuldade importante para organizar o pensamento?

Para caracterizar delirium pelo CAM-ICU, é necessário haver início agudo ou curso flutuante + desatenção, associado a alteração do nível de consciência ou pensamento desorganizado. A aplicação costuma levar apenas alguns minutos quando a equipe está treinada.

Um detalhe que faz diferença no plantão é não interpretar apenas a agitação como sinal de delirium. Já aconteceu de um paciente intubado permanecer praticamente imóvel durante horas, mas, ao conversar com ele e testar a atenção, ficar evidente que não conseguia acompanhar comandos simples e apresentava flutuação importante do estado mental. Esse tipo de alteração pode ser perdido quando a equipe olha somente para o comportamento motor.

Encontrou delirium? Agora procure a causa

Identificar o delirium é apenas uma parte do protocolo. Depois do resultado positivo, é necessário investigar fatores potencialmente reversíveis, como dor, hipóxia, infecção, alterações metabólicas, distúrbios hidroeletrolíticos, retenção urinária, constipação, privação de sono, abstinência e exposição a medicamentos associados ao risco de delirium.

O uso de benzodiazepínicos é um dos fatores modificáveis associados ao delirium em pacientes críticos, e as diretrizes recomendam estratégias que reduzam fatores de risco modificáveis, melhorem o sono, favoreçam mobilidade e mantenham audição e visão quando possível.

Menos sedação quando for seguro

O objetivo não é simplesmente deixar o paciente “bem sedado”. Sempre que clinicamente possível, a equipe deve buscar uma sedação compatível com a condição do paciente, evitando exposição desnecessária a sedativos.

Na atualização PADIS de 2025, a SCCM sugere dexmedetomidina em vez de propofol quando a prioridade é sedação leve e/ou redução do delirium em adultos sob ventilação mecânica. A mesma atualização não encontrou evidência suficiente para recomendar a favor ou contra antipsicóticos em comparação ao cuidado habitual para tratar delirium na UTI.

Na rotina, isso pode aparecer em uma situação simples: durante a passagem de plantão, o paciente que estava acordado e interagindo passa a apresentar agitação após uma noite praticamente sem dormir. Antes de concluir que “precisa de mais sedação”, vale revisar dor, ambiente, oxigenação, retenção urinária, medicamentos e orientação temporal. Muitas vezes, a primeira intervenção é corrigir o fator desencadeante, e não simplesmente aumentar o sedativo.

O cuidado não termina no CAM-ICU

O manejo do delirium envolve medidas não farmacológicas em conjunto. Reorientar o paciente, manter relógio e calendário visíveis, favorecer contato com familiares quando apropriado, reduzir ruído e luminosidade durante a noite, preservar o ciclo sono-vigília, utilizar óculos e aparelhos auditivos quando disponíveis e estimular mobilização segura fazem parte de uma abordagem multimodal.

O bundle ABCDEF da SCCM organiza essas ações dentro de uma estratégia que inclui avaliação e manejo da dor, testes de despertar e respiração espontânea quando indicados, escolha adequada de analgesia e sedação, avaliação do delirium, mobilização precoce e participação da família.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem tem papel central porque acompanha continuamente mudanças pequenas que podem não aparecer em uma avaliação isolada. Registre o nível de consciência e sedação, aplique o instrumento institucional de delirium conforme treinamento, observe flutuações ao longo do turno e comunique alterações relevantes.

Também vale revisar dor, sono, oxigenação, dispositivos, eliminação, hidratação, medicamentos e ambiente. Evite estímulos desnecessários durante a noite, mantenha comunicação clara e reoriente o paciente sempre que necessário.

✓ Decore para a Prova

Um protocolo simples para guardar: avaliar sedação → aplicar ferramenta validada quando possível → identificar delirium → procurar causas reversíveis → revisar sedação e medicamentos → favorecer sono, orientação e mobilidade → reavaliar regularmente.

O delirium na UTI não é apenas uma alteração comportamental. É uma condição dinâmica, que pode oscilar ao longo do mesmo turno. Por isso, uma avaliação negativa pela manhã não significa que o paciente permanecerá sem delirium à tarde.

Resumo para salvar

Protocolo de Delirium na UTI

  • Avalie sedação e nível de consciência antes do CAM-ICU
  • Identifique início agudo, desatenção e alterações cognitivas
  • Procure causas reversíveis e revise medicamentos e sedação
  • Favoreça sono, orientação, mobilidade e reavaliação contínua

Referências:

  1. DEVLIN, John W. et al. Clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, anxiety, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Critical Care Medicine, v. 46, n. 9, p. e825-e873, 2018. DOI: 10.1097/CCM.0000000000003299. SCCM – PADIS Guidelines
  2. LEWIS, Kimberley et al. A focused update to the clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, anxiety, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Critical Care Medicine, v. 53, n. 3, p. e711-e727, 2025. SCCM – Focused Update PADIS 2025
  3. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE. ICU Liberation Bundle (A-F). Mount Prospect: SCCM. SCCM – ICU Liberation Bundle
  4. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE. Diretrizes PADIS: tradução oficial em português. Mount Prospect: SCCM. Diretrizes PADIS em português

Anafilaxia Como Reconhecer e O Que Fazer

anafilaxia

Anafilaxia é uma reação de hipersensibilidade sistêmica, grave e potencialmente fatal. Pode surgir rapidamente após medicamentos, alimentos, venenos de insetos, vacinas ou outros desencadeantes, comprometendo pele e mucosas, sistema respiratório e circulação. Urticária, angioedema, rouquidão, estridor, falta de ar, chiado, queda da pressão, tontura, síncope e alterações gastrointestinais podem aparecer em diferentes combinações.

A grande armadilha é esperar a queda da pressão para considerar a situação grave. Anafilaxia pode estar evoluindo antes do choque aparecer, principalmente quando há comprometimento de via aérea ou dificuldade respiratória. Por isso, diante de uma suspeita clínica compatível, o tratamento deve ser iniciado rapidamente.

O que fazer primeiro?

A prioridade é adrenalina por via intramuscular, preferencialmente na região anterolateral da coxa, seguindo dose e protocolo aplicáveis ao paciente. A adrenalina é a medicação de primeira escolha e não deve ser substituída inicialmente por anti-histamínicos ou corticosteroides. Se a resposta for insuficiente, a dose pode ser repetida conforme o protocolo, geralmente em intervalos de 5 a 15 minutos.

Enquanto a adrenalina é administrada, a equipe deve avaliar vias aéreas, respiração e circulação, acionar suporte de emergência e manter monitorização. O paciente deve ser colocado adequadamente, geralmente em decúbito dorsal com pernas elevadas quando tolerado; se houver vômitos ou comprometimento da consciência, a posição deve ser adaptada para reduzir o risco de aspiração.

É nesse momento que uma situação prática pode acontecer muito rápido: uma pessoa recebe um medicamento e, poucos minutos depois, começa com urticária disseminada, edema de lábios, voz abafada e dificuldade para respirar. Não é hora de aguardar a evolução da pele ou preparar primeiro um anti-histamínico. A prioridade é reconhecer a anafilaxia, administrar adrenalina IM conforme protocolo e iniciar o suporte necessário.

E depois da adrenalina?

A assistência continua. Oxigênio pode ser utilizado quando indicado, especialmente diante de hipoxemia ou comprometimento respiratório importante. Em pacientes com hipotensão ou choque, pode ser necessária expansão volêmica com cristaloide, além de outras medidas avançadas conforme a resposta clínica. Broncoespasmo persistente pode exigir broncodilatador como tratamento complementar.

Anti-histamínicos e corticosteroides não substituem a adrenalina na fase inicial. Eles podem ter papel complementar em situações específicas, mas não devem atrasar a administração da medicação de primeira linha. A adrenalina intravenosa, por sua vez, não é a conduta inicial habitual e envolve maior risco, sendo reservada a cenários apropriados, com monitorização e profissionais habilitados.

Outro momento que merece atenção é aquele paciente que melhora rapidamente depois da primeira dose e parece estar “bem”. A melhora não encerra o atendimento. Existe possibilidade de recorrência dos sintomas, por isso o paciente precisa permanecer sob observação e receber avaliação adequada antes de ser liberado.

Como a enfermagem reconhece rapidamente?

Na prática, pense em uma combinação de início súbito + manifestações sistêmicas. Coceira, urticária ou angioedema associados a dificuldade respiratória, alteração circulatória ou outros sinais de comprometimento sistêmico devem aumentar imediatamente a suspeita.

Também é importante observar sinais menos óbvios: mudança da voz, sensação de garganta fechando, estridor, tosse persistente, chiado, palidez, sudorese, tontura, confusão, síncope, dor abdominal, vômitos ou diarreia. A ausência de lesões cutâneas não exclui anafilaxia, especialmente quando existe comprometimento respiratório ou cardiovascular importante.

Cuidados de enfermagem

Durante o atendimento, a enfermagem deve priorizar:

  • Reconhecimento imediato e acionamento da equipe de emergência.
  • Avaliação contínua de vias aéreas, respiração e circulação.
  • Administração da adrenalina IM conforme prescrição, protocolo e dose adequada.
  • Monitorização de pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória e saturação.
  • Manutenção de acesso venoso quando indicado e preparo para expansão volêmica.
  • Disponibilização de oxigênio e materiais para suporte ventilatório.
  • Registro do horário, dose, via, resposta clínica e evolução do paciente.
  • Observação após a melhora inicial, devido ao risco de recorrência.

O Cofen também reforça que, no contexto de anafilaxia pós-vacinação em ações extramuros, a adrenalina IM é a primeira linha e que a atuação da enfermagem deve estar respaldada por protocolo institucional, treinamento e condições adequadas de segurança.

Para guardar na emergência

! Atenção na Prova

Se houver uma suspeita consistente de anafilaxia, não espere a evolução para agir.

A sequência essencial é:

Reconhecer → avaliar ABC → adrenalina IM → suporte respiratório e circulatório → monitorizar → encaminhar e observar.

O detalhe que salva tempo — e pode salvar uma vida — é lembrar que adrenalina é o tratamento de primeira linha; anti-histamínico e corticoide não devem ocupar o lugar dela.

Resumo para salvar

Anafilaxia: O Que Fazer Primeiro?

  • Adrenalina IM é o tratamento de primeira linha
  • Avalie rapidamente vias aéreas, respiração e circulação
  • Anti-histamínicos e corticoides não substituem a adrenalina
  • Mesmo após melhora, o paciente precisa de monitorização e avaliação

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais: condutas diante de anafilaxia. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde — Manual dos CRIE.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde — Manual de Vigilância de Eventos Adversos Pós-Vacinação.
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Parecer nº 47/2025/Câmaras Técnicas de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2026. Disponível em: Cofen — Parecer nº 47/2025.
  4. SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal da Saúde. Protocolo de Assistência em Anafilaxia para enfermeiros da Atenção Básica. São Paulo: SMS. Disponível em: Prefeitura de São Paulo — Protocolo de Anafilaxia. 

Como Interpretar o NEWS2 na Enfermagem

Escore NEWS 2

O NEWS2 (National Early Warning Score 2) é um escore de alerta precoce utilizado para identificar pacientes adultos com sinais de deterioração clínica. Ele reúne seis parâmetros: frequência respiratória, saturação de oxigênio, pressão arterial sistólica, frequência cardíaca, nível de consciência e temperatura. O paciente recebe pontos conforme o grau de alteração de cada parâmetro, e a soma gera o NEWS2.

A lógica é simples: quanto mais alterações fisiológicas importantes aparecem simultaneamente, maior tende a ser o sinal de alerta. Por isso, repetir as avaliações também é essencial. Um paciente que passou de NEWS2 1 para 5 merece atenção diferente daquele que permanece estável em NEWS2 1.

Como calcular o NEWS2

A enfermagem coleta os seis parâmetros e consulta a escala padronizada para atribuir 0, 1, 2 ou 3 pontos a cada item.

Na frequência respiratória, por exemplo, 12 a 20 incursões/minuto recebe 0 ponto, enquanto valores de 9 a 11 ou 21 a 24 recebem 1 ou 2 pontos, respectivamente; frequência ≤8 ou ≥25 recebe 3 pontos.

Na saturação, a Escala 1 é utilizada para a maioria dos pacientes: SpO₂ ≥96% corresponde a 0 ponto, 94–95% a 1, 92–93% a 2 e ≤91% a 3. Existe também a Escala 2, destinada a pacientes com faixa-alvo de saturação de 88–92%, mas sua utilização depende de indicação clínica apropriada.

Para pressão arterial sistólica, 111–219 mmHg corresponde a 0 ponto, enquanto valores de 91–100 recebem 2 pontos e ≤90 recebem 3. Na frequência cardíaca, 51–90 bpm recebe 0 ponto; extremos como ≤40 ou ≥131 bpm recebem 3.

O nível de consciência merece atenção especial: novo estado de confusão já recebe 3 pontos. Temperaturas ≤35 °C também recebem 3 pontos, enquanto 38,1–39 °C recebem 1 e ≥39,1 °C recebem 2.

O detalhe que muda a interpretação

Uma pontuação 0 a 4 representa menor risco dentro do sistema, mas existe uma exceção importante: 3 pontos em um único parâmetro, chamado de red score, já exige resposta clínica mais rápida.

NEWS2 de 5 ou 6 é considerado um limiar de resposta urgente. Já 7 ou mais indica alto risco e necessidade de resposta urgente ou emergencial, conforme o protocolo local e a condição clínica do paciente.

Isso significa que não basta olhar somente para o número final. Um paciente com NEWS2 3 exclusivamente por alteração do nível de consciência não deve ser interpretado da mesma maneira que outro paciente cuja pontuação 3 resulta da soma de pequenas alterações.

Um exemplo que acontece na rotina

Imagine um paciente internado que estava com FR 18, SpO₂ 96%, PA 120/70, FC 84, temperatura 37,2 °C e alerta. O NEWS2 era 0. Algumas horas depois, apresenta FR 25, SpO₂ 93%, FC 108 e temperatura 38,2 °C. Mesmo sem uma alteração isolada extremamente chamativa, a soma dos parâmetros já produz um alerta muito diferente.

É justamente nesse momento que a anotação de enfermagem deixa de ser apenas registro. Comparar os sinais anteriores com os atuais permite demonstrar objetivamente que o paciente está mudando de padrão, favorecendo uma avaliação clínica mais rápida. O RCP destaca que a repetição das medidas e a observação das tendências aumentam o valor do NEWS na identificação da deterioração.

Em outra situação prática, pense em um paciente que mantém NEWS2 total relativamente baixo, mas apresenta novo episódio de confusão. Esse único parâmetro já pode receber 3 pontos. Não é adequado simplesmente somar os pontos e concluir que “o escore está baixo”; a alteração neurológica nova precisa ser comunicada e investigada conforme o protocolo institucional.

NEWS2 não substitui avaliação clínica

Esse é um dos pontos que mais confundem estudantes. O NEWS2 não diagnostica sepse, choque, insuficiência respiratória ou qualquer outra doença. Ele funciona como ferramenta de reconhecimento de deterioração e ajuda a determinar a urgência da resposta.

Também não é seguro ignorar um paciente porque o NEWS2 está baixo. Sintomas, diagnóstico, tendência dos sinais vitais, condição basal, comorbidades e avaliação clínica continuam fazendo parte da tomada de decisão. Os próprios materiais do RCP orientam que o escore seja utilizado junto à avaliação clínica e a outros instrumentos quando necessários.

Cuidados de enfermagem

Na prática, a enfermagem deve garantir que os parâmetros sejam medidos corretamente, registrados no horário adequado e comparados com avaliações anteriores. Também é fundamental conferir se o paciente está recebendo oxigênio, qual dispositivo está sendo utilizado e se a escala de SpO₂ empregada é a adequada.

Quando houver pontuação elevada, red score ou piora progressiva, a equipe deve seguir o protocolo de escalonamento da instituição, comunicar prontamente a alteração e registrar a avaliação e as condutas realizadas. Um NEWS2 de 5 ou mais, por exemplo, é considerado limiar de resposta urgente no modelo original; 7 ou mais corresponde a um limiar de resposta emergencial.

Para decorar

NEWS2 = Respiração + SpO₂ + PAS + Pulso + Consciência + Temperatura.

Depois de somar, não olhe apenas para o número: procure o parâmetro que mudou, compare com o valor anterior e observe a evolução do paciente. É aí que o NEWS2 realmente ganha valor na enfermagem.

Resumo para salvar

NEWS2: Aprenda a Interpretar na Enfermagem

  • NEWS2 avalia frequência respiratória, SpO₂, pressão sistólica, pulso, consciência e temperatura
  • Pontuação 3 em um único parâmetro já exige atenção clínica
  • NEWS2 de 5 ou mais indica limiar de resposta urgente e 7 ou mais alto risco
  • O escore deve ser interpretado junto com a avaliação clínica e a evolução do paciente

Referências: 

  1. ROYAL COLLEGE OF PHYSICIANS. National Early Warning Score (NEWS) 2: Standardising the assessment of acute-illness severity in the NHS. London: RCP, 2017. Disponível em: Royal College of Physicians — NEWS2.
  2. ROYAL COLLEGE OF PHYSICIANS. National Early Warning Score 2: NEWS thresholds and triggers. London: RCP. Disponível em: NEWS2 — thresholds and triggers.
  3. ROYAL COLLEGE OF PHYSICIANS. NEWS2: Clinical response to NEWS trigger thresholds. London: RCP. Disponível em: NEWS2 — clinical response.
  4. WELCH, J.; DEAN, J.; HARTIN, J. Using NEWS2: an essential component of reliable clinical assessment. Clinical Medicine, v. 22, n. 6, p. 510-513, 2022. Disponível em: Clinical Medicine — Using NEWS2. 

Como Interpretar o qSOFA na Enfermagem

O erro mais comum com o qSOFA é transformá-lo em um “teste para dizer se o paciente tem sepse”. Ele não foi criado para isso. O escore serve para identificar, rapidamente, pacientes com suspeita de infecção que apresentam sinais associados a maior risco de desfecho ruim e que precisam de avaliação clínica mais aprofundada.

Os 3 critérios do qSOFA

O qSOFA possui apenas três critérios, cada um valendo 1 ponto:

  • Frequência respiratória ≥ 22 irpm: 1 ponto.
  • Pressão arterial sistólica ≤ 100 mmHg: 1 ponto.
  • Alteração do estado mental: 1 ponto.

Assim, o resultado varia de 0 a 3 pontos. Na definição original, 2 pontos ou mais em um paciente com suspeita de infecção indicam maior risco de evolução desfavorável e devem levar a uma investigação rápida de disfunção orgânica e intensificação da monitorização.

Como interpretar na prática

Um paciente com suspeita de infecção e qSOFA 0 ou 1 não está automaticamente fora de risco. Da mesma forma, um qSOFA ≥2 não confirma sepse. O resultado precisa ser interpretado junto com a história, exame físico, sinais vitais, perfusão, diurese, exames laboratoriais e evolução clínica.

Essa distinção é fundamental porque as diretrizes atuais da Surviving Sepsis Campaign recomendam não utilizar o qSOFA isoladamente como ferramenta de triagem para sepse. Em pacientes adultos agudamente enfermos no hospital, NEWS/NEWS2, MEWS ou SIRS são preferidos ao qSOFA como ferramenta única de rastreamento.

Imagine, por exemplo, um paciente com pneumonia que apresenta FR de 25 irpm, pressão sistólica de 105 mmHg e está orientado. O qSOFA é 1 ponto. Isso não significa “sem sepse”; significa que ele não atingiu o ponto de corte de 2 critérios do qSOFA. A equipe ainda precisa acompanhar a tendência dos sinais vitais e procurar sinais de deterioração.

Alteração mental merece atenção

No qSOFA, alteração do estado mental corresponde à alteração do nível de consciência, tradicionalmente operacionalizada como Glasgow Coma Scale <15 na formulação original. Uma mudança recente em relação ao comportamento habitual do paciente deve ser valorizada, principalmente quando aparece junto a sinais de infecção e instabilidade fisiológica.

Na rotina de enfermagem, uma situação bastante concreta seria encontrar um paciente que estava conversando normalmente pela manhã e, algumas horas depois, apresentar desorientação, FR de 28 irpm e pressão sistólica de 92 mmHg. Nesse cenário, o qSOFA chega a 3 pontos, mas o mais importante não é apenas registrar “qSOFA 3”: é reconhecer a deterioração e comunicar imediatamente a equipe para investigação e tratamento de possível sepse.

qSOFA não substitui avaliação clínica

O escore não considera temperatura, frequência cardíaca, saturação, diurese, lactato ou contagem de leucócitos. Por isso, um paciente pode estar gravemente doente mesmo com qSOFA baixo. A própria definição Sepsis-3 estabeleceu que sepse corresponde à disfunção orgânica potencialmente fatal causada por uma resposta desregulada à infecção, e não simplesmente a uma pontuação de qSOFA.

Em outra situação prática, um paciente com infecção pode manter pressão sistólica de 118 mmHg e estar orientado, mas apresentar FR progressivamente elevada, queda da diurese, extremidades frias e piora do estado geral. O qSOFA pode não atingir 2 pontos, porém a trajetória clínica já é preocupante e não deve ser ignorada.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem deve realizar e registrar corretamente frequência respiratória, pressão arterial e nível de consciência, além de acompanhar saturação, frequência cardíaca, temperatura, perfusão, diurese e evolução clínica. Se houver suspeita de sepse, a comunicação deve ser rápida e seguir o protocolo institucional.

Também é importante repetir a avaliação quando houver mudança no estado do paciente. As diretrizes atuais reforçam que sepse e choque séptico são emergências médicas e que o tratamento e a ressuscitação devem começar imediatamente quando indicados.

Para guardar de vez

qSOFA = FR ≥22 + PAS ≤100 + alteração mental.

Cada critério vale 1 ponto, totalizando de 0 a 3. qSOFA ≥2 chama atenção para maior risco, mas não diagnostica sepse e não deve ser usado sozinho para triagem. Para a enfermagem, o valor maior está em perceber a combinação dos sinais e, principalmente, a piora do paciente ao longo do tempo.

Resumo para salvar

Escore qSOFA

  • FR ≥22, PAS ≤100 e alteração mental valem 1 ponto cada
  • O escore varia de 0 a 3 pontos
  • qSOFA ≥2 indica maior risco, mas não confirma sepse
  • Não utilize qSOFA isoladamente para triagem de sepse

Referências:

  1. SINGER, Mervyn et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA, v. 315, n. 8, p. 801–810, 2016. JAMA — Sepsis-3
  2. EVANS, Laura et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Intensive Care Medicine, 2021. SCCM — Surviving Sepsis Campaign
  3. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE. Surviving Sepsis Campaign Adult Guidelines. SCCM. SCCM — Adult Guidelines

Como Reconhecer Choque Séptico Rapidamente

Choque Séptico

No choque séptico, esperar a pressão arterial “cair muito” pode significar perder um tempo precioso. O reconhecimento começa antes disso: infecção suspeita ou confirmada associada a sinais de hipoperfusão e disfunção orgânica, especialmente quando o paciente apresenta alteração do estado mental, respiração acelerada, extremidades mal perfundidas, oligúria ou deterioração clínica rápida. Choque séptico é uma forma grave de sepse, associada a alterações circulatórias e metabólicas importantes.

Os primeiros 5 minutos

A avaliação inicial precisa ser rápida e organizada. Observe o paciente como um todo: nível de consciência, frequência respiratória, pressão arterial, frequência cardíaca, temperatura, saturação, perfusão periférica, débito urinário e evolução dos sintomas. Uma frequência respiratória elevada, confusão mental ou pressão sistólica ≤100 mmHg são critérios utilizados no qSOFA, mas o qSOFA não deve ser usado isoladamente para descartar ou confirmar sepse.

O segundo passo é procurar hipoperfusão. Extremidades frias, tempo de enchimento capilar prolongado, pele moteada, alteração do sensório e redução da diurese podem indicar comprometimento da perfusão. O lactato também é importante na avaliação, embora deva ser interpretado dentro do contexto clínico, porque sua elevação não é exclusiva da sepse.

Em uma situação típica de pronto atendimento, um paciente com suspeita de pneumonia pode chegar consciente, porém taquipneico, com extremidades frias e pressão em queda. Mesmo antes do resultado dos exames, essa combinação deve chamar atenção para possível deterioração circulatória e acelerar a comunicação com a equipe e o protocolo institucional.

Quando pensar em choque séptico?

Pela definição de Sepsis-3, o choque séptico é identificado em um paciente com sepse que necessita de vasopressor para manter pressão arterial média ≥65 mmHg e apresenta lactato >2 mmol/L, apesar de adequada reposição volêmica e na ausência de hipovolemia como explicação. Esses critérios ajudam a definir o choque, mas a assistência não deve esperar que todos estejam presentes para reconhecer um paciente em deterioração.

Outro sinal importante é a resposta ao tratamento inicial. Se, mesmo após avaliação e reposição de volume quando indicada, o paciente permanece hipotenso ou com sinais de hipoperfusão, a possibilidade de choque séptico torna-se ainda mais preocupante. A avaliação deve ser contínua, porque o quadro pode mudar rapidamente.

O que fazer enquanto a equipe atua?

A enfermagem tem papel central no reconhecimento precoce. Deve monitorizar sinais vitais, garantir acesso venoso conforme protocolo, coletar exames e culturas quando solicitados, acompanhar lactato e diurese, administrar antimicrobianos e fluidos prescritos com segurança e observar continuamente a resposta clínica.

Nas diretrizes da Surviving Sepsis Campaign, para adultos com possível choque séptico ou alta probabilidade de sepse, recomenda-se iniciar antimicrobianos imediatamente, idealmente dentro de uma hora do reconhecimento. Quando há necessidade de vasopressor, a noradrenalina é o agente de primeira escolha, com alvo inicial de PAM em torno de 65 mmHg.

Um detalhe que faz diferença na rotina é não atrasar o vasopressor apenas pela ausência momentânea de acesso venoso central: as diretrizes admitem seu início periférico por curto período, em veia adequada e com vigilância rigorosa, quando necessário para restaurar a pressão. Isso exige protocolo institucional, avaliação do acesso e acompanhamento do local de infusão.

Cuidados de enfermagem

A prioridade é reconhecer a deterioração e comunicar rapidamente. Reavalie pressão arterial, frequência cardíaca e respiratória, saturação, consciência, perfusão periférica e diurese; acompanhe tendências, e não apenas valores isolados.

Também é fundamental controlar rigorosamente entradas e saídas, observar resposta à reposição volêmica, conferir acessos e bombas de infusão, administrar antimicrobianos no tempo prescrito e vigiar sinais de extravasamento quando houver vasopressor periférico. A resposta clínica deve ser documentada e comunicada imediatamente diante de piora.

A regra prática

Para memorizar: suspeitou de infecção + paciente está piorando + há sinais de disfunção orgânica ou hipoperfusão = pense em sepse e aja rapidamente. Se existe hipotensão persistente, necessidade de vasopressor e lactato elevado após adequada reposição volêmica, o quadro preenche os critérios clínicos de choque séptico.

O ponto mais importante para a enfermagem é não esperar o paciente entrar em colapso hemodinâmico para agir. No choque séptico, reconhecer a trajetória de piora pode ser tão importante quanto reconhecer o número da pressão arterial.

Resumo para salvar

Choque Séptico em 5 Minutos

  • Suspeite diante de infecção associada à deterioração clínica
  • Observe perfusão, consciência, respiração, pressão e diurese
  • Lactato e necessidade de vasopressor ajudam a identificar choque séptico
  • Reconhecimento e tratamento precoces são fundamentais

Referências: 

  1. EVANS, Laura et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Intensive Care Medicine, 2021. SCCM — Surviving Sepsis Campaign Guidelines
  2. SINGER, Mervyn et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA, v. 315, n. 8, p. 801–810, 2016. JAMA — Sepsis-3
  3. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE. Surviving Sepsis Campaign Adult Guidelines. SCCM. SCCM — Adult Guidelines

Protocolo de Transfusão Maciça (PTM): quando cada minuto importa e por que não basta “dar sangue”

Protocolo Transfusão Maciça

Vá direto ao ponto!

Em uma hemorragia grave, existe um momento em que a pergunta deixa de ser “qual hemocomponente o paciente precisa?” e passa a ser outra, muito mais urgente:

“Como fazer essa reposição de forma rápida, organizada e segura antes que o paciente entre em uma espiral de choque, coagulopatia, hipotermia e acidose?”

É justamente nesse cenário que entra o Protocolo de Transfusão Maciça (PTM).

O PTM não é simplesmente uma autorização para transfundir grandes quantidades de sangue. É uma estratégia organizada de atendimento ao paciente com hemorragia potencialmente fatal, envolvendo identificação precoce do sangramento, controle da fonte hemorrágica, reposição de hemocomponentes, monitorização laboratorial e clínica e prevenção das complicações relacionadas à própria hemorragia e à transfusão.

Em outras palavras, não se trata apenas de repor volume. Trata-se de tentar interromper uma cadeia fisiológica que pode levar rapidamente à morte.

Este ponto é especialmente importante para quem está estudando enfermagem. Em uma situação de hemorragia maciça, a equipe precisa trabalhar de maneira sincronizada. Enquanto alguém identifica a necessidade de ativação do protocolo, outra pessoa pode estar providenciando acesso venoso adequado, outra coletando exames, outra conferindo os hemocomponentes e outra monitorizando o paciente.

É uma situação em que organização também é cuidado.

O que é o Protocolo de Transfusão Maciça?

O Protocolo de Transfusão Maciça (PTM) é um conjunto de medidas previamente organizado pela instituição para atender pacientes com hemorragia grave e risco de morte, nos quais existe necessidade de reposição rápida e coordenada de sangue e seus componentes. O protocolo procura evitar que a transfusão aconteça de maneira fragmentada, especialmente quando a perda sanguínea é muito rápida.

Em vez de esperar a deterioração progressiva do paciente para solicitar cada hemocomponente separadamente, o serviço estabelece previamente uma estratégia de comunicação, liberação, transporte e administração dos componentes sanguíneos.

Protocolos desse tipo costumam envolver concentrado de hemácias, plasma e plaquetas, podendo incluir crioprecipitado ou concentrado de fibrinogênio, conforme a situação clínica, os exames disponíveis e o protocolo institucional.

As recomendações atuais para hemorragia grave ressaltam que a reposição deve ser acompanhada de avaliação da coagulação e adaptada à resposta do paciente, em vez de manter indefinidamente uma estratégia empírica fixa.

Por que a transfusão maciça é tão diferente de uma transfusão convencional?

Imagine um paciente que apresenta uma hemorragia intensa após um trauma. O problema não é apenas que ele perdeu hemácias.

Ele também está perdendo:

  • plasma;
  • plaquetas;
  • fatores de coagulação;
  • fibrinogênio;
  • volume circulante.

Ao mesmo tempo, o organismo está tentando compensar a perda sanguínea aumentando a frequência cardíaca e redistribuindo o fluxo sanguíneo para órgãos vitais. Se a hemorragia continua, a situação pode evoluir para choque hemorrágico.

Quando a reposição é feita apenas com grandes volumes de cristaloides ou concentrado de hemácias, sem considerar a coagulação, a temperatura e outros fatores fisiológicos, pode ocorrer agravamento da coagulopatia.

Por isso, o conceito moderno de ressuscitação da hemorragia grave não é simplesmente “colocar volume”. É controlar o sangramento e restaurar a capacidade do organismo de transportar oxigênio e formar coágulos adequadamente.

O que é considerado transfusão maciça?

Historicamente, a transfusão maciça foi definida como a administração de aproximadamente 10 unidades de concentrado de hemácias em 24 horas em um adulto. Essa definição, entretanto, possui uma limitação importante: esperar que o paciente receba dez unidades para reconhecer uma hemorragia grave significa esperar demais.

Atualmente, a avaliação é muito mais dinâmica , o profissional precisa reconhecer a possibilidade de hemorragia maciça antes que a perda sanguínea atinja números extremos. Também são utilizados conceitos como necessidade de grandes volumes de sangue em poucas horas e indicadores clínicos de sangramento persistente.

Por isso, os protocolos institucionais podem utilizar critérios próprios de ativação. Um protocolo hospitalar brasileiro atualizado, por exemplo, orienta o reconhecimento precoce do sangramento agudo grave e diferencia situações de ativação do Protocolo de Transfusão Maciça e do protocolo de emergência, de acordo com critérios clínicos e institucionais.

Em quais situações o PTM pode ser necessário?

O PTM é particularmente importante em situações nas quais existe hemorragia intensa, rápida e potencialmente fatal. Entre os cenários possíveis estão:

Trauma grave

Acidentes automobilísticos, atropelamentos, ferimentos penetrantes, traumas pélvicos e grandes lesões vasculares podem provocar perdas sanguíneas importantes. O trauma é um dos cenários mais associados à utilização de protocolos de transfusão maciça.

A hemorragia não controlada continua sendo uma das principais causas potencialmente evitáveis de morte precoce no paciente gravemente traumatizado.

Hemorragia obstétrica

Hemorragias obstétricas graves também podem exigir ativação rápida de protocolos de transfusão, especialmente em situações como hemorragia pós-parto, descolamento prematuro de placenta, placenta acreta/espectro de acretismo e outras condições associadas a perda sanguínea importante.

Sangramento gastrointestinal

Hemorragias digestivas graves podem provocar instabilidade hemodinâmica e necessidade de reposição rápida.

Cirurgias de grande porte

Alguns procedimentos cirúrgicos apresentam risco elevado de sangramento e podem exigir um protocolo previamente estruturado.

Hemorragias vasculares

Rupturas de aneurismas e outras lesões vasculares podem provocar hemorragia extremamente rápida.

Como reconhecer um paciente que pode precisar do PTM?

Um dos maiores desafios é perceber a gravidade antes que a pressão arterial caia dramaticamente. Isso é importante porque a hipotensão pode ser um sinal tardio, um paciente com hemorragia significativa pode inicialmente apresentar:

  • taquicardia;
  • palidez;
  • sudorese fria;
  • extremidades frias;
  • alteração do estado mental;
  • agitação ou ansiedade;
  • enchimento capilar aumentado;
  • taquipneia;
  • queda da pressão arterial;
  • redução da diurese;
  • sinais de hipoperfusão.

O contexto também é fundamental, um paciente com sangramento externo evidente e instabilidade é muito diferente de um paciente com pressão aparentemente normal, mas com sangramento interno progressivo. Por isso, a avaliação deve ser contínua.

Uma situação que muda completamente o plantão

Na prática de terapia intensiva, uma das situações mais marcantes é receber um paciente que chega aparentemente “conversando”, mas apresenta sinais que não combinam com estabilidade real. Ele está pálido, frio, taquicárdico, inquieto e começa a apresentar piora progressiva.

É muito fácil olhar somente para a pressão arterial e pensar: “ainda está 100 por 60”, mas o conjunto da avaliação conta outra história. Quando existe suspeita de hemorragia importante, esperar a hipotensão profunda pode significar perder um tempo precioso.

É por isso que, na rotina, a observação contínua e a comunicação rápida entre enfermagem, equipe médica, banco de sangue e demais profissionais fazem tanta diferença.

O que acontece quando o PTM é ativado?

A sequência exata depende do protocolo de cada instituição, mas geralmente envolve uma série de ações coordenadas, a ativação comunica ao serviço de hemoterapia que existe um paciente com necessidade potencial de reposição rápida de sangue. Ao mesmo tempo, a equipe assistencial inicia ou intensifica:

  • controle da hemorragia;
  • monitorização contínua;
  • acesso vascular adequado;
  • coleta de exames;
  • ressuscitação hemostática;
  • administração dos hemocomponentes;
  • avaliação da resposta clínica;
  • correção das alterações de coagulação e metabólicas.

O objetivo é evitar que a equipe fique esperando um componente terminar para só então solicitar o próximo, o protocolo cria uma logística organizada.

Quais hemocomponentes podem fazer parte do PTM?

A composição depende do protocolo institucional e das características do paciente. Os principais componentes são:

Concentrado de hemácias

Tem como principal objetivo aumentar a capacidade de transporte de oxigênio do sangue. Em uma hemorragia grave, sua administração é essencial para substituir a massa eritrocitária perdida.

Plasma fresco congelado

Fornece múltiplos fatores de coagulação e pode ser utilizado quando existe deficiência de fatores associada à hemorragia.

Concentrado de plaquetas

É utilizado para reposição de plaquetas quando há trombocitopenia ou necessidade de suporte hemostático, de acordo com a situação clínica e os protocolos.

Crioprecipitado ou concentrado de fibrinogênio

Possuem importância particularmente relevante quando existe hipofibrinogenemia, pois o fibrinogênio é fundamental para a formação e estabilidade do coágulo. Nas hemorragias graves, níveis baixos de fibrinogênio podem aparecer precocemente e estão associados a pior prognóstico.

Existe uma proporção fixa entre hemácias, plasma e plaquetas?

Esse é um ponto que gera muita dúvida, protocolos de transfusão maciça tradicionalmente utilizaram estratégias com proporções balanceadas, como 1:1:1, relacionando concentrado de hemácias, plasma e plaquetas.

O estudo PROPPR, realizado em pacientes com trauma grave, comparou estratégias 1:1:1 e 1:1:2. A mortalidade global não foi significativamente diferente, mas a estratégia 1:1:1 apresentou melhor controle da hemostasia e menor mortalidade relacionada à exsanguinação.

Entretanto, isso não significa que todo paciente, em qualquer hospital e em qualquer situação, deva receber automaticamente uma proporção fixa. As recomendações atuais destacam a importância de adaptar a reposição aos resultados laboratoriais e/ou métodos de monitorização viscoelástica, como TEG e ROTEM, quando disponíveis.

Portanto: proporções iniciais podem fazer parte do protocolo institucional, mas a reposição precisa evoluir para uma estratégia orientada pela resposta do paciente.

O papel do fibrinogênio

O fibrinogênio merece atenção especial:  Durante uma hemorragia grave, ele pode cair rapidamente. Além da perda sanguínea, existe consumo, diluição e alterações da coagulação. Um nível baixo de fibrinogênio compromete a formação do coágulo.

A diretriz europeia de manejo da hemorragia traumática considera concentração de fibrinogênio abaixo de aproximadamente 1,5 g/L um sinal de hipofibrinogenemia que pode exigir tratamento, de acordo com a avaliação clínica e laboratorial.

Por isso, em um PTM, não basta pensar apenas: “Quantas bolsas de sangue já foram administradas?”

Também é necessário perguntar:

  • Como está o fibrinogênio?
  • Como está a coagulação?
  • O paciente continua sangrando?
  • O coágulo está sendo formado adequadamente?

A importância do cálcio durante a transfusão maciça

Esse é um detalhe que muitas vezes passa despercebido pelos estudantes: o sangue armazenado contém citrato, utilizado como anticoagulante. O citrato se liga ao cálcio. Durante uma transfusão maciça, especialmente quando grandes volumes são administrados rapidamente, pode ocorrer hipocalcemia relacionada ao citrato.

O cálcio participa de diversas etapas da coagulação e também é fundamental para a função cardiovascular, e a hipocalcemia pode contribuir para:

  • redução da contratilidade cardíaca;
  • hipotensão;
  • alterações da coagulação;
  • instabilidade elétrica cardíaca.

Por isso, a concentração de cálcio ionizado deve ser monitorada e, quando indicada, a reposição deve ser realizada conforme protocolo e prescrição. Para a enfermagem, isso significa que o profissional precisa ficar atento aos exames e ao plano terapêutico, principalmente quando o paciente está recebendo grandes quantidades de hemocomponentes.

A tríade letal: hipotermia, acidose e coagulopatia

Em hemorragias graves, existe uma combinação fisiológica especialmente perigosa: hipotermia + acidose + coagulopatia.

Esses três problemas podem se reforçar mutuamente. O paciente perde sangue, entra em choque, apresenta má perfusão tecidual e desenvolve acidose. Ao mesmo tempo, recebe grandes volumes de fluidos e hemocomponentes frios, podendo desenvolver hipotermia.

A hipotermia prejudica a coagulação, e a coagulopatia favorece mais sangramento, e mais sangramento leva a mais choque. E o ciclo continua.

É por isso que a ressuscitação moderna da hemorragia grave procura interromper esse processo o mais cedo possível. A diretriz europeia descreve justamente essa interação entre hemorragia, coagulopatia, hipotermia e acidose no contexto do trauma grave.

Por que aquecer o paciente é tão importante?

Quando pensamos em emergência hemorrágica, é comum imaginar que o problema principal é apenas a perda de sangue. Mas manter a temperatura corporal também faz parte do cuidado.

O paciente deve ser protegido contra perda excessiva de calor, e os hemocomponentes podem ser administrados com sistemas apropriados de aquecimento quando indicados pelo protocolo institucional, e a enfermagem tem um papel importante na prevenção da hipotermia, observando:

  • temperatura corporal;
  • condições ambientais;
  • exposição desnecessária do paciente;
  • utilização adequada de cobertores e dispositivos de aquecimento;
  • temperatura dos fluidos e hemocomponentes quando houver equipamento específico.

E o ácido tranexâmico?

Em determinados cenários de hemorragia traumática, o ácido tranexâmico (TXA) pode fazer parte do tratamento. Ele atua inibindo a fibrinólise e pode contribuir para preservar o coágulo, entretanto, o benefício depende do contexto, do tempo e da indicação clínica.

Na hemorragia traumática, recomendações internacionais destacam que o ácido tranexâmico deve ser administrado precocemente quando indicado, sem esperar resultados de testes viscoelásticos, e a enfermagem deve conhecer a indicação institucional, a prescrição, a via de administração, a dose definida pelo protocolo e o horário de administração.

Em uma emergência, registrar corretamente o horário em que o medicamento foi administrado pode ser tão importante quanto registrar a própria administração.

O controle da hemorragia é tão importante quanto a transfusão

Essa é uma das mensagens mais importantes deste assunto:

transfusão não substitui controle da fonte do sangramento.

Se o paciente está perdendo sangue continuamente, simplesmente administrar mais sangue não resolve o problema, e pode ser necessário:

  • compressão;
  • cirurgia;
  • endoscopia;
  • embolização;
  • controle vascular;
  • tamponamento;
  • intervenção obstétrica;

ou outra estratégia específica para interromper a hemorragia. As diretrizes de trauma enfatizam que o controle rápido da fonte de sangramento é fundamental e pode envolver cirurgia de controle de danos, embolização e outras medidas.

Cuidados de enfermagem durante o PTM

A enfermagem ocupa uma posição central no protocolo. Não é exagero dizer que uma transfusão maciça depende de uma equipe de enfermagem muito organizada.

Antes da administração

Sempre que a condição clínica permitir, devem ser realizadas as conferências e verificações previstas no protocolo institucional. É fundamental confirmar a identificação do paciente, conferir os hemocomponentes, observar validade, integridade da bolsa, compatibilidade e demais informações exigidas pelo serviço de hemoterapia.

Em emergência extrema, existem fluxos específicos para liberação de hemocomponentes de emergência. A equipe deve conhecer previamente esse fluxo.

Durante a transfusão

O paciente deve permanecer sob monitorização adequada. A enfermagem precisa observar sinais de:

  • reação transfusional;
  • alterações hemodinâmicas;
  • dispneia;
  • dor;
  • calafrios;
  • febre;
  • alterações cutâneas;
  • ansiedade ou alteração do estado mental.

Qualquer suspeita de reação transfusional deve ser comunicada imediatamente e conduzida conforme o protocolo institucional. Não se deve simplesmente “esperar para ver se passa”.

Um cuidado que parece simples, mas faz muita diferença

Em uma situação de transfusão maciça, existe uma enorme quantidade de informações acontecendo ao mesmo tempo:

  • Bolsas chegando.
  • Exames sendo coletados.
  • Medicamentos sendo administrados.
  • Cirurgia sendo preparada.
  • Pressão arterial mudando.
  • Novas bolsas sendo solicitadas.

Por isso, uma prática muito importante é manter registro cronológico e organizado. Registrar horário de início e término da transfusão, identificação dos hemocomponentes, sinais vitais, intercorrências, medicamentos administrados, exames coletados e respostas observadas permite reconstruir exatamente o que aconteceu.

Na prática de UTI, esse tipo de registro faz diferença. Em um plantão com uma emergência hemorrágica, depois que a situação estabiliza, é justamente a anotação que permite saber o que foi feito, em que horário e qual foi a resposta do paciente.

Coleta de exames: não deixe para depois

Durante o PTM, exames laboratoriais são fundamentais para direcionar a terapia. Dependendo do protocolo e da situação clínica, podem ser acompanhados:

  • hemoglobina e hematócrito;
  • contagem de plaquetas;
  • TP/INR;
  • TTPa;
  • fibrinogênio;
  • gasometria;
  • lactato;
  • cálcio ionizado;
  • potássio;
  • temperatura;
  • outros parâmetros definidos pelo serviço.

Quando disponível, a monitorização viscoelástica, como TEG ou ROTEM, pode fornecer informações rápidas sobre a formação e a estabilidade do coágulo e auxiliar na terapia direcionada.

Não espere apenas a hemoglobina cair para agir

Outro ponto importante para estudantes: Em uma hemorragia aguda, a hemoglobina inicial pode não refletir imediatamente toda a extensão da perda sanguínea. O paciente pode estar perdendo sangue rapidamente antes que a concentração de hemoglobina demonstre a dimensão real da hemorragia.

Por isso, a avaliação deve integrar:

  • história clínica;
  • estimativa de perda sanguínea;
  • sinais vitais;
  • perfusão periférica;
  • estado mental;
  • diurese;
  • lactato;
  • hemoglobina;
  • coagulação;
  • resposta à ressuscitação.

Não existe um único número capaz de descrever sozinho a gravidade de uma hemorragia maciça.

O papel da diurese

A diurese é um importante indicador de perfusão renal, pois em um paciente com hemorragia grave, uma redução importante da produção urinária pode indicar comprometimento da perfusão. Por isso, quando o paciente está com monitorização rigorosa e indicação de controle de diurese, a enfermagem deve acompanhar e registrar adequadamente o débito urinário.

Não se trata apenas de preencher uma folha de balanço hídrico, é uma informação clínica que ajuda a equipe a entender como o organismo está respondendo à ressuscitação.

Acesso venoso e administração rápida

A administração rápida de hemocomponentes exige acesso vascular adequado. Em situações críticas, podem ser utilizados acessos venosos periféricos de grande calibre, acesso intraósseo em situações específicas ou acesso venoso central, conforme indicação clínica e recursos disponíveis.

O importante é que a via escolhida permita uma administração segura e compatível com a necessidade de fluxo, e a enfermagem também deve verificar a permeabilidade do acesso e observar sinais de infiltração, extravasamento ou outras complicações. Em uma emergência hemorrágica, perder um acesso que estava sendo utilizado para reposição rápida pode comprometer seriamente a dinâmica da ressuscitação.

O aquecedor de sangue também faz parte da estratégia

Quando grandes quantidades de sangue são administradas rapidamente, existe risco de contribuir para hipotermia. Por isso, sistemas específicos de aquecimento de fluidos e hemocomponentes podem ser utilizados conforme disponibilidade e protocolo. É importante lembrar: não se deve improvisar métodos de aquecimento.

O serviço deve utilizar equipamentos apropriados e seguir as orientações institucionais e do fabricante.

O que acontece quando o PTM não é organizado?

Uma das maiores dificuldades não está necessariamente na falta de sangue, e sim pode estar na falta de comunicação. Imagine:

  • o médico solicita o protocolo, mas o banco de sangue não é acionado adequadamente;
  • a primeira remessa chega, mas não há equipe preparada para administrar;
  • os exames não são coletados;
  • o próximo ciclo não é solicitado;
  • ninguém sabe exatamente quantas unidades foram administradas;
  • o paciente permanece hipotérmico;
  • o cálcio não é acompanhado;
  • e a equipe continua trabalhando de maneira improvisada.

Esse tipo de situação mostra por que o PTM precisa ser protocolizado, treinado e simulado. As recomendações internacionais destacam a importância da implementação local de protocolos baseados em evidências e do treinamento das equipes envolvidas.

Uma experiência prática que resume o que é um bom protocolo

Em situações de emergência, é possível perceber rapidamente a diferença entre uma equipe que conhece o protocolo e uma equipe que precisa descobrir tudo naquele momento. Quando o processo está bem organizado, cada profissional sabe qual é sua função:

  • Um comunica o banco de sangue.
  • Outro monitora o paciente.
  • Outro coleta exames.
  • Outro administra os hemocomponentes.
  • Outro acompanha a documentação.
  • A equipe médica concentra-se no controle da hemorragia e na condução clínica.

Essa divisão de tarefas não é burocracia. É segurança.

Em uma hemorragia maciça, segundos e minutos podem fazer diferença, e uma equipe treinada tende a reduzir atrasos desnecessários.

Quais complicações podem ocorrer durante uma transfusão maciça?

Quanto maior o volume transfundido e mais grave o quadro clínico, maior a necessidade de vigilância, entre as possíveis complicações estão:

  • hipotermia;
  • hipocalcemia;
  • hipercalemia;
  • distúrbios ácido-base;
  • coagulopatia;
  • sobrecarga circulatória;
  • reações transfusionais;
  • lesão pulmonar relacionada à transfusão;
  • reações hemolíticas;
  • alterações metabólicas.

Isso não significa que essas complicações ocorrerão em todos os pacientes. Significa que a equipe precisa estar preparada para reconhecê-las.

Reação transfusional: o que a enfermagem precisa observar?

Durante a administração de hemocomponentes, alterações como febre, calafrios, dor lombar, dispneia, hipotensão, urticária, náuseas, dor torácica, alterações na coloração da urina ou deterioração clínica devem ser valorizadas.

Diante de suspeita de reação transfusional, a conduta deve seguir rigorosamente o protocolo institucional e as orientações do serviço de hemoterapia. Uma reação transfusional nunca deve ser banalizada. O profissional deve comunicar imediatamente a intercorrência e realizar os procedimentos previstos pelo serviço.

A importância da rastreabilidade

Em uma transfusão convencional, a rastreabilidade já é fundamental. No PTM, ela se torna ainda mais importante, e é necessário conseguir identificar:

  • qual paciente recebeu;
  • qual hemocomponente foi administrado;
  • qual unidade foi utilizada;
  • em que horário;
  • quem realizou a conferência;
  • quem administrou;
  • quais sinais vitais foram observados;
  • quais intercorrências ocorreram.

Isso protege o paciente e também garante segurança para a equipe.

PTM não é sinônimo de “transfundir o máximo possível”

Esse conceito merece ser reforçado: A palavra “maciça” pode dar a impressão de que quanto mais sangue for administrado, melhor, não é assim. A transfusão deve ser proporcional à necessidade clínica, acompanhada de controle da hemorragia e monitorização da resposta.

À medida que o paciente melhora, a estratégia pode ser modificada. Quando os resultados laboratoriais ficam disponíveis, a reposição pode ser direcionada, e as diretrizes atuais recomendam uma abordagem orientada por resultados laboratoriais e/ou métodos viscoelásticos quando disponíveis, justamente para evitar uma estratégia empírica prolongada.

Quando o protocolo deve ser encerrado?

O encerramento depende dos critérios definidos pela instituição e da avaliação clínica. Em geral, o PTM pode ser desativado quando:

  • a hemorragia foi controlada;
  • a necessidade de transfusão maciça cessou;
  • a estabilidade hemodinâmica foi alcançada ou está em processo de recuperação;
  • os parâmetros de coagulação e perfusão estão sendo adequadamente corrigidos;
  • a equipe não necessita mais da logística emergencial do protocolo.

O encerramento também deve ser comunicado ao serviço de hemoterapia. Essa comunicação evita que unidades de sangue continuem sendo preparadas ou liberadas desnecessariamente.

! Atenção na Prova O que o estudante de enfermagem precisa memorizar?

Se você estiver estudando para uma prova ou começando sua prática profissional, pense no PTM como uma sequência lógica:

  1. Reconhecer a hemorragia grave.
  2. Acionar rapidamente o protocolo institucional.
  3. Controlar a fonte do sangramento.
  4. Garantir acesso vascular e monitorização.
  5. Administrar hemocomponentes conforme protocolo e prescrição.
  6. Monitorar coagulação, perfusão, temperatura, cálcio e outros parâmetros.
  7. Prevenir e tratar complicações.
  8. Reavaliar continuamente.
  9. Adaptar a reposição aos resultados e à resposta clínica.
  10. Registrar tudo de forma completa e cronológica.

O verdadeiro “segredo” do PTM

Se existe uma coisa que eu gostaria que todo estudante de enfermagem entendesse sobre transfusão maciça, é esta: o sangue não é o único tratamento.

O paciente precisa de uma abordagem integrada, e é  necessário controlar a hemorragia, manter perfusão, corrigir coagulopatia, evitar hipotermia, acompanhar cálcio e outros distúrbios metabólicos, administrar os hemocomponentes adequadamente e reavaliar continuamente.

A transfusão é uma parte da ressuscitação, não é a ressuscitação inteira. O Protocolo de Transfusão Maciça representa uma estratégia organizada para uma das situações mais críticas encontradas na emergência, no centro cirúrgico, na terapia intensiva e em outros ambientes hospitalares.

Para a enfermagem, conhecer o PTM vai muito além de decorar a sequência “hemácias, plasma e plaquetas”.

É necessário compreender quando suspeitar de uma hemorragia grave, como o protocolo é acionado, quais cuidados devem ser realizados antes e durante a transfusão, quais complicações precisam ser reconhecidas e por que o registro de enfermagem é tão importante.

Na prática, uma equipe preparada não espera a situação ficar caótica para começar a se organizar, ela conhece o protocolo antes da emergência acontecer. E esse talvez seja o maior ensinamento do PTM: em uma hemorragia maciça, organização, comunicação e tempo são partes do tratamento.

Importante: os critérios de ativação, composição dos pacotes transfusionais, doses, velocidade de infusão, uso de cálcio, fibrinogênio, ácido tranexâmico e demais condutas devem seguir o protocolo institucional, a prescrição e a avaliação da equipe responsável. Este conteúdo é educacional e não substitui o protocolo do serviço ou a avaliação clínica do paciente.

Resumo para salvar

Protocolo de Transfusão Maciça: quando cada minuto pode salvar uma vida

  • PTM é uma estratégia organizada para tratar hemorragias graves e potencialmente fatais
  • A transfusão deve ser associada ao controle rápido da fonte do sangramento e à ressuscitação hemostática
  • Enfermagem deve monitorar sinais vitais, hemocomponentes, coagulação, temperatura, cálcio e possíveis reações transfusionais
  • Protocolos institucionais, comunicação rápida, equipe treinada e registros completos são fundamentais para uma transfusão maciça segura

Referências:

  1. ROSSAINT, R. et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: sixth edition. Critical Care, v. 27, n. 80, 2023. Disponível em: PMC – European Guideline on Major Bleeding and Coagulopathy Following Trauma.

  2. ROSSAINT, R. et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: fifth edition. Critical Care, 2019. Disponível em: Critical Care – European Guideline, Fifth Edition.
  3. HOLCOMB, J. B. et al. Transfusion of Plasma, Platelets, and Red Blood Cells in a 1:1:1 vs. a 1:1:2 Ratio and Mortality in Patients With Severe Trauma: The PROPPR Randomized Clinical Trial. JAMA, 2015. Referenciado na diretriz europeia de manejo da hemorragia traumática. Disponível em: European Guideline – discussão do estudo PROPPR.
  4. HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (HC-UFMG/EBSERH). Transfusão de hemocomponentes em situações de emergência – PRT.UHO.307. Belo Horizonte: HC-UFMG, 2026. Disponível em: Protocolo assistencial HC-UFMG/Ebserh – Transfusão de hemocomponentes em situações de emergência.
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_uso_hemocomponentes_2ed.pdf.
  6. SPAHN, D. R. et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: sixth edition. Critical Care, v. 23, n. 1, p. 98-135, 2019. Disponível em: https://ccforum.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13054-019-2347-7.
  7. BRILL, J. B.; BADIEE, J.; ZARZAUR, B. L. et al. The Role of TEG and ROTEM in Damage Control Resuscitation. Shock, v. 56, n. 1S, p. 52-61, 2021. DOI: 10.1097/SHK.0000000000001686.