
O Dispositivo Intrauterino (DIU) é um dos métodos contraceptivos mais eficazes e seguros disponíveis atualmente. Sua alta eficácia, longa duração, praticidade e reversibilidade fazem dele uma excelente opção para mulheres que desejam evitar a gravidez por vários anos, sem a necessidade de lembrar diariamente de tomar um medicamento.
Ao contrário do que muitas pessoas ainda acreditam, o DIU pode ser utilizado por mulheres que nunca engravidaram, adolescentes, mulheres no pós-parto e durante a amamentação, desde que não existam contraindicações e haja avaliação médica adequada.
Nos últimos anos, houve importantes atualizações em relação ao tempo de duração dos diferentes modelos, especialmente dos DIUs hormonais e do DIU de cobre, tornando esse método ainda mais vantajoso.
Hoje você conhecerá todos os tipos de DIU disponíveis, entenderá como eles funcionam, quais materiais os compõem, suas diferenças, vantagens, desvantagens e os principais cuidados de enfermagem.
O que é um DIU?
O DIU é um pequeno dispositivo flexível colocado dentro do útero por um profissional habilitado. Seu objetivo é impedir a gravidez por meio de diferentes mecanismos, dependendo do tipo de dispositivo.
Apesar do nome “dispositivo intrauterino”, ele não atua como um método abortivo. Sua ação ocorre antes da fecundação, principalmente dificultando a sobrevivência dos espermatozoides ou impedindo que eles alcancem o óvulo.
Após sua retirada, a fertilidade retorna rapidamente na maioria das mulheres.
Como surgiu o DIU?
Os primeiros modelos surgiram na primeira metade do século XX e eram bastante diferentes dos dispositivos atuais. Ao longo das décadas ocorreram diversas melhorias relacionadas ao formato, material, segurança e eficácia.
Hoje os DIUs modernos apresentam baixíssimos índices de complicações e estão entre os métodos contraceptivos reversíveis de longa duração (LARC – Long-Acting Reversible Contraceptives).
Quais são os principais tipos de DIU?
Atualmente existem dois grandes grupos:
- DIU não hormonal (cobre)
- DIU hormonal (levonorgestrel)
Dentro desses grupos existem diferentes modelos.
DIU de cobre
O DIU de cobre é o modelo mais utilizado em serviços públicos de saúde, incluindo o Sistema Único de Saúde (SUS).
Do que ele é feito?
Sua estrutura normalmente é composta por:
- haste de polietileno (plástico flexível de grau médico);
- sulfato de bário (permite visualização em exames radiológicos);
- fio de cobre enrolado ao redor da haste vertical;
- mangas ou fios laterais de cobre nos braços horizontais;
- fio de polietileno para remoção.
O modelo mais conhecido é o TCu 380A.
Como funciona?
O cobre libera continuamente íons dentro da cavidade uterina.
Esses íons provocam uma reação inflamatória local controlada.
Essa reação:
- reduz a mobilidade dos espermatozoides;
- dificulta sua sobrevivência;
- altera o ambiente uterino;
- dificulta a fecundação.
Importante destacar que o DIU de cobre não interrompe uma gravidez já existente.
Quanto tempo dura?
As evidências científicas mais recentes demonstram que o TCu 380A pode permanecer por até 12 anos em muitas mulheres, embora alguns fabricantes mantenham registro para 10 anos. Diversas diretrizes internacionais aceitam seu uso por até 12 anos em situações específicas, principalmente quando inserido após os 25 anos de idade.
Na prática:
- duração registrada pelo fabricante: 10 anos;
- duração aceita por diversas diretrizes: até 12 anos, conforme avaliação clínica.
Vantagens
- Não possui hormônios.
- Pode ser utilizado durante a amamentação.
- Possui excelente eficácia.
- Baixo custo.
- Pode permanecer muitos anos.
- Retorno imediato da fertilidade após retirada.
- Pode ser utilizado como contracepção de emergência quando inserido até cinco dias após relação sexual desprotegida.
Desvantagens
Pode aumentar:
- intensidade do fluxo menstrual;
- duração da menstruação;
- cólicas menstruais.
Esses sintomas costumam melhorar após alguns meses.
DIU hormonal
O DIU hormonal libera continuamente um hormônio chamado levonorgestrel. Esse hormônio atua predominantemente dentro do útero.
Do que ele é feito?
Sua estrutura geralmente contém:
- haste de polietileno;
- reservatório contendo levonorgestrel;
- membrana controladora da liberação hormonal;
- sulfato de bário para visualização radiológica;
- fio de remoção.
Como funciona?
O levonorgestrel promove:
- espessamento do muco cervical;
- redução do crescimento do endométrio;
- diminuição da passagem dos espermatozoides;
- redução importante das chances de fecundação.
Em algumas mulheres também pode ocorrer inibição da ovulação, embora esse não seja seu principal mecanismo.
Principais modelos de DIU hormonal
Mirena® (52 mg)
É o modelo mais conhecido.
Liberação hormonal
Inicialmente libera aproximadamente 20 microgramas de levonorgestrel por dia, reduzindo gradualmente ao longo dos anos.
Duração atualizada
As recomendações atuais ampliaram seu tempo de utilização para:
- até 8 anos para contracepção.
Além da contracepção, pode ser indicado para:
- sangramento uterino intenso;
- proteção endometrial durante terapia hormonal;
- adenomiose;
- endometriose (em casos selecionados).
Liletta® (52 mg)
Possui quantidade semelhante de hormônio ao Mirena. Sua duração também foi ampliada para:
- até 8 anos.
Kyleena® (19,5 mg)
Libera menor quantidade hormonal. Indicado principalmente para mulheres que desejam doses menores de hormônio.
Duração
Até 5 anos.
Skyla® / Jaydess® (13,5 mg)
Possui menor tamanho. Muito utilizado em mulheres jovens e nulíparas em alguns países.
Duração
Até 3 anos.
Em alguns mercados, esse modelo deixou de ser comercializado, mas ainda pode ser encontrado em determinados países.
Comparação entre os principais DIUs
| Modelo | Hormônio | Material principal | Duração |
| TCu 380A | Não | Polietileno + cobre | 10 anos (até 12 anos em algumas diretrizes) |
| Mirena® | Levonorgestrel 52 mg | Polietileno + reservatório hormonal | Até 8 anos |
| Liletta® | Levonorgestrel 52 mg | Polietileno + reservatório hormonal | Até 8 anos |
| Kyleena® | Levonorgestrel 19,5 mg | Polietileno + reservatório hormonal | Até 5 anos |
| Skyla® / Jaydess® | Levonorgestrel 13,5 mg | Polietileno + reservatório hormonal | Até 3 anos |
Qual é o mais eficaz?
Todos apresentam eficácia extremamente elevada, a taxa de falha anual fica abaixo de 1%. Na prática clínica, tanto o DIU de cobre quanto os hormonais apresentam eficácia superior a 99%.
Quem pode utilizar?
Grande parte das mulheres pode utilizar DIU.
Incluindo:
- adolescentes;
- mulheres que nunca engravidaram;
- mulheres após parto;
- mulheres após aborto;
- mulheres em amamentação;
- mulheres com contraindicação ao estrogênio.
A indicação deve sempre considerar a avaliação clínica individual e os Critérios de Elegibilidade Médica da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Quando o DIU não é indicado?
As principais contraindicações incluem:
- gravidez confirmada;
- infecção pélvica ativa;
- doença inflamatória pélvica em atividade;
- câncer de colo do útero não tratado;
- sangramento uterino sem investigação;
- malformações uterinas importantes;
- alergia ao cobre (para DIU de cobre);
- doença de Wilson (contraindicação ao DIU de cobre).
Para o DIU hormonal, também devem ser consideradas condições relacionadas ao uso de progestagênios, como câncer de mama em atividade.
Como é feita a inserção?
A inserção é realizada em consultório ou ambulatório. O procedimento costuma durar poucos minutos.
Geralmente envolve:
- exame ginecológico;
- avaliação do colo uterino;
- antissepsia;
- histerometria (medição da cavidade uterina);
- inserção do dispositivo;
- corte dos fios.
Após a colocação, recomenda-se acompanhamento conforme protocolo do serviço.
É normal sentir cólica depois da colocação?
Sim.
Nos primeiros dias podem ocorrer:
- cólicas;
- pequeno sangramento;
- desconforto pélvico.
Esses sintomas costumam desaparecer espontaneamente.
O parceiro sente o DIU durante a relação?
O dispositivo permanece dentro do útero. Normalmente não é percebido durante a relação sexual. Em alguns casos, o parceiro pode sentir os fios de remoção, que podem ser ajustados pelo profissional.
O DIU pode sair sozinho?
Sim, embora seja incomum. Isso recebe o nome de expulsão.
O risco é maior:
- nos primeiros meses;
- durante a menstruação;
- após o parto;
- em mulheres muito jovens;
- em casos de inserção logo após parto vaginal.
O DIU protege contra ISTs?
Não. Nenhum tipo de DIU protege contra:
- HIV;
- sífilis;
- gonorreia;
- clamídia;
- HPV;
- hepatites virais.
Por isso, o uso de preservativos continua sendo recomendado.
Enfermeiro pode inserir DIU?
Sim, o enfermeiro pode colocar DIU (Dispositivo Intrauterino). O procedimento é legal e autorizado no Brasil pela regulamentação do Conselho Federal de Enfermagem através da Resolução Cofen nº 802/2026 e atualizações posteriores, como a Resolução Cofen nº 802/2026, com respaldo em decisões da Justiça federal.
Regras e Requisitos
- Capacitação específica: O profissional deve ter curso de capacitação e treinamento adequado para a inserção, revisão e retirada do dispositivo.
- Consulta de enfermagem: O enfermeiro faz a avaliação clínica, solicita exames, verifica contraindicações e aplica o Termo de Consentimento.
- Onde é realizado: O procedimento ocorre tanto na rede pública (Unidades Básicas de Saúde pelo SUS) quanto em clínicas privadas
Curiosidades
O DIU é um dos métodos contraceptivos reversíveis mais eficazes do mundo, com taxa de falha inferior a 1% ao ano. O DIU de cobre é o método contraceptivo de emergência mais eficaz quando inserido até cinco dias após uma relação sexual desprotegida.
O DIU hormonal pode reduzir significativamente o fluxo menstrual e muitas usuárias deixam de menstruar após alguns meses de uso, condição conhecida como amenorreia induzida pelo levonorgestrel, que não representa acúmulo de sangue no útero.
A fertilidade geralmente retorna rapidamente após a retirada do dispositivo, podendo ocorrer gravidez já no primeiro ciclo menstrual. Os fios do DIU permanecem discretamente exteriorizados pelo colo do útero para facilitar sua remoção, mas normalmente não interferem na vida sexual.
Cuidados de enfermagem
A enfermagem exerce papel fundamental na orientação, inserção (quando legalmente habilitada e conforme legislação local), acompanhamento e identificação precoce de complicações relacionadas ao DIU. Entre os principais cuidados estão:
- Realizar acolhimento e educação em saúde, esclarecendo dúvidas sobre os diferentes tipos de DIU e seu mecanismo de ação.
- Avaliar histórico clínico, ginecológico e obstétrico, identificando possíveis contraindicações e encaminhando para avaliação médica quando necessário.
- Orientar que o DIU não oferece proteção contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), reforçando o uso de preservativos.
- Explicar que cólicas leves e pequenos sangramentos podem ocorrer após a inserção e tendem a diminuir com o tempo.
- Orientar a paciente a procurar assistência caso apresente febre, dor pélvica intensa, corrimento com odor desagradável, sangramento intenso ou suspeita de expulsão do dispositivo.
- Informar sobre a importância das consultas de acompanhamento, conforme protocolo institucional.
- Ensinar a paciente sobre a possibilidade de verificar os fios do DIU após a menstruação, quando orientado pelo profissional responsável.
- Registrar adequadamente todas as orientações prestadas, intercorrências e informações relacionadas ao procedimento.
O DIU representa uma das formas mais modernas, seguras e eficazes de contracepção reversível disponíveis atualmente. A escolha entre o DIU de cobre e os diferentes modelos hormonais deve ser individualizada, considerando as necessidades, preferências, condições clínicas e objetivos reprodutivos de cada mulher.
Para a enfermagem, compreender as características de cada tipo de DIU é essencial para oferecer orientações corretas, acolher dúvidas, identificar possíveis complicações e promover um planejamento reprodutivo seguro e baseado em evidências. Com as atualizações recentes sobre o tempo de duração de alguns modelos, esse método tornou-se ainda mais vantajoso para mulheres que buscam contracepção de longa duração com alta eficácia.
Referências:
- BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Atenção ao Planejamento Reprodutivo. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br.
- FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Anticoncepção: Manual Clínico. São Paulo: Febrasgo, 2023. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/.
- POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis e Planejamento Reprodutivo. Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude
- WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use. 5. ed. Genebra: WHO, 2015. Atualizações disponíveis em: https://www.who.int
- AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS (ACOG). Long-Acting Reversible Contraception: Implants and Intrauterine Devices. Disponível em: https://www.acog.org
- CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). U.S. Selected Practice Recommendations for Contraceptive Use. Disponível em: https://www.cdc.gov/contraception
- FACULDADE BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Manual de Anticoncepção. São Paulo: FEBRASGO. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br
-
BAYER. Bula Profissional – Mirena® (Sistema Intrauterino Liberador de Levonorgestrel). Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br



Quanto menor o Índice de Pearl, mais seguro é o método.








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