Gasometria Arterial Sem Complicar

gasometria arterial

A gasometria arterial fica muito mais fácil quando você para de olhar para todos os números ao mesmo tempo. Na prática, comece por três perguntas: o pH está ácido ou alcalino? O problema é respiratório ou metabólico? O paciente está bem oxigenado? Essa sequência organiza a leitura e evita decorar fórmulas sem entender o que está acontecendo.

Primeiro: olhe o pH

O pH arterial normal costuma ficar entre 7,35 e 7,45.

pH < 7,35 → acidemia

pH > 7,45 → alcalemia

Se estiver dentro da faixa, não conclua imediatamente que a gasometria é normal. Um distúrbio respiratório e outro metabólico podem estar se compensando e mantendo o pH próximo do normal.

Depois, procure o responsável

Agora entram os dois valores mais importantes para descobrir a origem do distúrbio:

PaCO₂ → componente respiratório

HCO₃⁻ → componente metabólico

A PaCO₂ normalmente fica em torno de 35–45 mmHg, enquanto o bicarbonato costuma ficar entre 22–26 mEq/L.

Pense de forma simples: CO₂ alto tende a acidificar; CO₂ baixo tende a alcalinizar. HCO₃⁻ baixo tende a acidificar; HCO₃⁻ alto tende a alcalinizar.

Exemplo rápido

Imagine:

pH 7,28 | PaCO₂ 58 | HCO₃⁻ 25

O pH está baixo, portanto existe acidemia. A PaCO₂ está elevada e acompanha a direção do problema, enquanto o bicarbonato está próximo do normal. O raciocínio aponta para acidose respiratória.

Agora imagine:

pH 7,28 | PaCO₂ 30 | HCO₃⁻ 14

O pH continua ácido, mas desta vez quem explica a alteração é o bicarbonato reduzido. O quadro é compatível com acidose metabólica.

O macete que ajuda na prova

Quando o pH está baixo, procure quem está baixo ou alto de maneira compatível com a acidose.

PaCO₂ ↑ → acidose respiratória

HCO₃⁻ ↓ → acidose metabólica

Quando o pH está alto:

PaCO₂ ↓ → alcalose respiratória

HCO₃⁻ ↑ → alcalose metabólica

É uma forma rápida de encontrar o distúrbio principal antes de entrar em cálculos mais avançados.

E a compensação?

Depois de identificar o distúrbio principal, veja se o organismo está tentando compensá-lo. Em um distúrbio respiratório, a resposta compensatória é principalmente metabólica/renal; nos distúrbios metabólicos, a compensação ocorre principalmente pela ventilação.

Um detalhe importante para quem está estudando: compensação não significa necessariamente normalização completa do pH. Se os valores não se comportam como esperado para uma compensação adequada, pode existir outro distúrbio associado.

Na prática, imagine um paciente com DPOC apresentando pH 7,34, PaCO₂ 60 e HCO₃⁻ 31. A PaCO₂ elevada aponta para acidose respiratória, enquanto o bicarbonato aumentado sugere resposta metabólica compensatória, algo que pode ocorrer em quadros respiratórios crônicos.

Não esqueça da PaO₂

Depois de interpretar o equilíbrio ácido-base, olhe a PaO₂, que ajuda a avaliar a oxigenação arterial. Um valor de referência frequentemente utilizado é aproximadamente 75–100 mmHg, mas ele precisa ser interpretado considerando idade, condição clínica e, principalmente, a FiO₂ que o paciente está recebendo.

Uma PaO₂ de 80 mmHg em ar ambiente não tem o mesmo significado que 80 mmHg em um paciente recebendo uma concentração elevada de oxigênio. Por isso, nunca interprete a oxigenação olhando somente para um número isolado.

A sequência para decorar

Para uma interpretação rápida, siga sempre a mesma ordem:

  1. pH → ácido ou alcalino?
  2. PaCO₂ → existe alteração respiratória?
  3. HCO₃⁻ → existe alteração metabólica?
  4. Compensação → o organismo está respondendo como esperado?
  5. PaO₂/oxigenação → como está a oxigenação?
  6. Quadro clínico → isso combina com o paciente?

Essa última etapa é indispensável. Uma gasometria não deve ser interpretada separadamente da frequência respiratória, SpO₂, nível de consciência, perfusão, ventilação mecânica, oxigenoterapia e condição clínica.

Onde a enfermagem entra nisso?

Na rotina, a enfermagem frequentemente é quem percebe primeiro que os números não combinam com o estado do paciente. Um paciente pode estar sonolento, respirando superficialmente e com aumento progressivo da PaCO₂, por exemplo. A alteração da gasometria ganha outro significado quando é associada à avaliação respiratória e neurológica.

Também é importante conferir como e quando a amostra foi coletada, identificar corretamente o paciente, observar se estava em oxigenoterapia ou ventilação mecânica e registrar essas informações. Uma amostra inadequadamente coletada ou mal manejada pode produzir resultados pouco confiáveis.

Cuidados de enfermagem

Realizar a coleta conforme protocolo institucional e técnica adequada, identificar corretamente a amostra, observar oxigenoterapia e parâmetros ventilatórios no momento da coleta, acompanhar SpO₂ e padrão respiratório, reconhecer alterações importantes, comunicar resultados críticos e correlacionar a gasometria com a avaliação clínica.

Para guardar de uma vez

! Atenção na Prova

pH diz para que lado o sangue está indo.

PaCO₂ mostra o componente respiratório.

HCO₃⁻ mostra o componente metabólico.

PaO₂ ajuda a avaliar a oxigenação.

E o principal: não tente interpretar uma gasometria começando pela fórmula. Comece pelo pH e siga uma ordem.

Resumo para salvar

Gasometria Arterial Sem Complicar

  • Comece pelo pH para identificar acidemia ou alcalemia
  • PaCO2 representa principalmente o componente respiratório e HCO3 o metabólico
  • Depois avalie compensação e oxigenação considerando a FiO2
  • Sempre relacione a gasometria ao quadro clínico e à avaliação de enfermagem

Referências:

  1. CASTRO, Danny; ZUBAIR, Muhammad. Arterial blood gas analysis: fundamentals, interpretation, and clinical utility. StatPearls. Treasure Island: StatPearls Publishing, 2026. Disponível em: NCBI Bookshelf – Arterial Blood Gas Analysis.
  2. FENCL, V.; MATTHEWS, A. M.; MARSHALL, W. J. Interpretation of arterial blood gases. Postgraduate Medical Journal, 2010. Disponível em: PubMed Central – Interpretation of arterial blood gases.
  3. KELLUM, J. A.; ELBERS, P. W. G. Fundamentals of arterial blood gas interpretation. Critical Care, 2022. Disponível em: PubMed Central – Fundamentals of Arterial Blood Gas Interpretation. 

Sons Respiratórios que você precisa reconhecer

ruidos respiratórios

Na ausculta pulmonar, o ouvido pode perceber pistas que a saturação ainda não mostrou. Um ruído respiratório não fecha diagnóstico sozinho, mas ajuda a identificar alterações no fluxo de ar, presença de secreções, líquido ou estreitamento das vias aéreas. Por isso, aprender a “traduzir” o som facilita muito a avaliação do paciente.

Sibilo: pense em um apito

O sibilo é um som agudo e musical, semelhante a um apito. Costuma ficar mais evidente na expiração e está relacionado ao estreitamento das pequenas vias aéreas, podendo aparecer em situações como asma e DPOC, entre outras condições. Uma forma simples de memorizar: sibilo = apito.

Ronco: parece alguém roncando

O ronco respiratório, também chamado de ronco ou rhonchi, é mais grave e contínuo, lembrando o som de uma pessoa roncando durante o sono. Pode estar relacionado à presença de secreções ou alterações no calibre das vias aéreas, e pode ser percebido tanto na inspiração quanto na expiração.

Na prática, imagine um paciente com bastante secreção traqueobrônquica: durante a ausculta, você percebe aquele som grave e “arrastado”. Depois de uma tosse eficaz ou da remoção de secreções, o ruído pode diminuir ou mudar. Essa comparação ajuda o estudante a entender por que o som precisa ser reavaliado depois das intervenções.

Estertores crepitantes: pense em cabelo sendo penteado

Os estertores crepitantes, também chamados de crepitações, são sons descontínuos, geralmente mais perceptíveis na inspiração. Os finos são curtos e agudos, podendo lembrar o som produzido ao esfregar ou manipular fios de cabelo próximos ao ouvido. Podem estar presentes em situações como edema pulmonar, pneumonia, atelectasia e doenças intersticiais.

Uma situação bastante comum durante a avaliação é encontrar crepitações principalmente nas bases pulmonares de um paciente com sinais de congestão. Nesse momento, não basta registrar apenas “crepitações”: é importante observar onde estão, se são finas ou grossas, em qual fase da respiração aparecem e como estão os demais sinais clínicos.

Estertores bolhosos: imagine bolhas estourando

Os estertores grossos ou bolhosos apresentam sons mais graves e prolongados, podendo lembrar bolhas estourando ou líquido borbulhando. A presença de secreções nas vias aéreas pode contribuir para esse tipo de ruído.

A comparação com bolhas é especialmente útil para estudantes porque cria uma imagem sonora fácil de lembrar. Ainda assim, a ausculta precisa ser interpretada junto com tosse, presença de secreção, frequência respiratória, esforço ventilatório, saturação e demais achados do exame físico.

Estridor: o som que merece atenção rápida

O estridor é um som agudo, geralmente mais evidente na inspiração, associado principalmente à obstrução das vias aéreas superiores. Uma característica importante é que ele pode ser ouvido até sem estetoscópio. Quando surge de forma aguda, especialmente acompanhado de dificuldade respiratória, alteração da voz, tiragem ou queda do nível de consciência, exige avaliação imediata.

Uma cena que pode acontecer na emergência é o paciente chegar consciente, porém fazendo esforço respiratório e emitindo um som agudo audível à distância. Nesse caso, não é adequado tratar simplesmente como “mais um chiado”: identificar que o ruído é compatível com estridor direciona a atenção para uma possível obstrução de via aérea superior.

Atrito pleural: parece algo raspando

O atrito pleural é descrito como um som áspero, rangente ou semelhante ao atrito de couro, acompanhando o ciclo respiratório. Está relacionado à inflamação das pleuras e pode ser percebido na inspiração e na expiração.

Uma forma rápida de memorizar

  • Sibilo: apito.
  • Ronco: pessoa roncando.
  • Crepitante fino: cabelo sendo manipulado próximo ao ouvido.
  • Estertor bolhoso: bolhas estourando.
  • Estridor: som agudo de obstrução de via aérea superior.
  • Atrito pleural: algo raspando ou rangendo.

Essas associações não substituem a ausculta técnica, mas ajudam a transformar um som abstrato em uma referência que o estudante consegue reconhecer e memorizar.

Som que você ouve → o que lembrar na hora da prova

O que você ouve Pense em O que lembrar
Sibilo Apito Som agudo e musical, geralmente associado ao estreitamento das vias aéreas
Ronco Pessoa roncando Som grave e contínuo, frequentemente relacionado a secreções ou obstrução das vias aéreas
Estertor crepitante fino Cabelo sendo manipulado Som descontínuo, geralmente inspiratório, associado a alterações nas pequenas vias aéreas/alvéolos
Estertor bolhoso Bolhas estourando Som mais grave e úmido, frequentemente relacionado à presença de secreções
Estridor Som agudo vindo da garganta Pense em obstrução de via aérea superior e atenção para sinais de gravidade
Atrito pleural Algo raspando ou rangendo Som áspero relacionado ao atrito entre superfícies pleurais inflamadas

Macete para não esquecer

Apito → sibilo
Ronco → ronco
Cabelo → crepitante
Bolhas → estertor bolhoso
Garganta → estridor
Raspando → atrito pleural

Na prova, primeiro identifique como o som se parece. Depois pense em onde ele ocorre, em qual fase da respiração aparece e qual alteração pode estar associada. Essa sequência ajuda muito mais do que decorar os nomes isoladamente.

O que a enfermagem deve observar

Durante a ausculta, compare os dois lados do tórax e observe a presença, localização, intensidade e fase respiratória do ruído. Avalie também frequência respiratória, padrão ventilatório, expansibilidade torácica, uso de musculatura acessória, saturação, coloração da pele e nível de consciência. Um ruído novo acompanhado de piora da dispneia ou alteração da oxigenação merece atenção e comunicação imediata conforme o protocolo institucional.

Outro detalhe importante: não registre apenas “MV+” ou “presença de ruídos” quando existe uma alteração significativa. Documentar onde o som foi auscultado e suas características torna a evolução mais útil para acompanhar mudanças no quadro respiratório.

Cuidados de enfermagem

Realizar ausculta sistematizada, comparar campos pulmonares, observar sinais de desconforto respiratório, monitorar SpO₂ e frequência respiratória, manter o paciente em posição adequada conforme condição clínica, auxiliar na higiene brônquica quando indicada, acompanhar resposta às intervenções e comunicar alterações respiratórias relevantes à equipe.

O principal aprendizado é simples: não tente apenas decorar nomes; associe o som àquilo que seu ouvido está tentando descrever. Quando o estudante aprende a reconhecer um apito, um ronco, um estalo ou um som de bolhas, a ausculta pulmonar começa a fazer muito mais sentido.

Resumo para salvar

Sons Respiratórios Que Você Precisa Reconhecer

  • Sibilo lembra um apito e está relacionado ao estreitamento das vias aéreas
  • Ronco é um som grave que pode estar associado a secreções nas vias aéreas
  • Crepitantes podem lembrar cabelo sendo manipulado e bolhosos lembram bolhas estourando
  • A enfermagem deve relacionar os ruídos à localização fase respiratória e demais sinais clínicos

Referências:

  1. MERCK MANUAL PROFESSIONAL EDITION. Evaluation of the patient with pulmonary issues. Disponível em: Merck Manual Professional Edition. 
  2. MERCK MANUAL PROFESSIONAL EDITION. Wheezing. Disponível em: Merck Manual Professional Edition – Wheezing. 
  3. MERCK MANUAL PROFESSIONAL EDITION. Stridor. Disponível em: Merck Manual Professional Edition – Stridor. 
  4. ERNSTMEYER, K.; CHRISTMAN, E. (eds.). Nursing Skills. Open RN. Eau Claire: Chippewa Valley Technical College, 2023. Disponível em: Nursing Skills – NCBI Bookshelf.

Paciente Instável, o que avaliar primeiro?

paciente instável

Antes do diagnóstico, procure o que ameaça a vida

Diante de um paciente instável, a primeira avaliação deve seguir uma sequência estruturada: A — via aérea, B — respiração, C — circulação, D — estado neurológico e E — exposição. O método ABCDE permite identificar problemas potencialmente fatais e tratá-los conforme aparecem, sem esperar concluir toda a avaliação para depois intervir. A recomendação também é reavaliar o paciente após cada intervenção e solicitar ajuda precocemente quando necessário.

A primeira pergunta é sobre a via aérea

Comece observando o paciente. Ele consegue falar? Há roncos, estridor, secreções, vômitos ou sinais de obstrução? Alteração do nível de consciência pode comprometer a proteção da via aérea, principalmente em pacientes muito sonolentos ou inconscientes. Uma via aérea obstruída é uma emergência porque a hipóxia pode evoluir rapidamente para deterioração grave e parada cardiorrespiratória.

Em uma situação típica de plantão, um paciente que estava conversando passa a ficar sonolento e começa a apresentar respiração ruidosa. Antes de procurar a causa daquela alteração neurológica, a equipe precisa olhar para a via aérea e para a respiração. Esse pequeno detalhe muda a prioridade da assistência.

Depois vem a respiração

Com a via aérea avaliada, observe frequência e padrão respiratório, expansibilidade torácica, esforço para respirar, presença de cianose, ausculta pulmonar e saturação de oxigênio. Uma frequência respiratória elevada ou progressivamente crescente pode ser um sinal precoce de deterioração, mesmo antes de ocorrer queda importante da pressão arterial.

É aqui que a avaliação precisa ir além do número mostrado no oxímetro. Um paciente com SpO₂ aparentemente aceitável, mas com esforço respiratório intenso, alteração do nível de consciência ou fadiga progressiva, continua sendo um paciente preocupante. O contexto clínico importa tanto quanto o valor isolado do monitor.

Circulação: não espere a pressão despencar

Na avaliação circulatória, verifique frequência cardíaca, pressão arterial, perfusão periférica, temperatura e coloração da pele, pulsos e tempo de enchimento capilar, além de procurar sinais de sangramento. Um paciente em choque pode inicialmente manter a pressão arterial por mecanismos compensatórios, portanto, pressão normal não exclui deterioração circulatória.

Imagine um paciente pálido, sudorético, taquicárdico e com extremidades frias, mas ainda apresentando pressão arterial dentro do valor habitual. Se a equipe olhar apenas para a pressão, pode subestimar a gravidade. Quando os sinais são analisados em conjunto, a alteração da perfusão ganha outro significado e exige investigação e escalonamento rápidos.

O estado neurológico também conta

Depois de garantir A, B e C, avalie o nível de consciência, resposta a estímulos, pupilas e glicemia. Uma alteração neurológica pode estar relacionada à hipóxia, hipoperfusão, hipoglicemia, medicamentos, intoxicações ou outras causas, por isso a avaliação precisa considerar o quadro inteiro. Escalas como Glasgow ou AVPU podem ajudar a acompanhar a evolução.

A glicemia capilar merece atenção especial porque a hipoglicemia é uma causa potencialmente reversível de alteração do nível de consciência. Ao mesmo tempo, uma queda do estado neurológico em um paciente previamente consciente deve ser comunicada e investigada rapidamente, principalmente quando representa uma mudança em relação ao padrão anterior.

Exposição sem esquecer a segurança

Na etapa E, examine o paciente de maneira direcionada para procurar sangramentos, lesões, alterações cutâneas, edema, sinais de trauma ou outras pistas que ajudem a explicar a instabilidade. A exposição deve preservar a dignidade do paciente e evitar perda desnecessária de calor.

Um ponto importante é que o ABCDE não termina no E. Depois de uma intervenção, a avaliação volta ao início. Se a respiração melhorou após uma intervenção, por exemplo, é preciso confirmar se a frequência respiratória, saturação, esforço e estado geral também evoluíram. A avaliação do paciente instável é dinâmica.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem deve reconhecer precocemente a deterioração, iniciar a avaliação sistematizada, monitorizar sinais vitais, verificar glicemia quando indicada, garantir acesso e equipamentos necessários conforme a condição clínica e acionar ajuda sem demora diante de sinais de gravidade.

Também é fundamental registrar tendências, e não apenas números isolados. Comparar pressão, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação e nível de consciência com medidas anteriores pode revelar uma deterioração que ainda não atingiu valores extremos. A comunicação objetiva com a equipe e a reavaliação após as intervenções fazem parte da segurança do paciente.

Resumo para salvar

Paciente Instável O Que Avaliar Primeiro

  • Comece pelo ABCDE e trate ameaças imediatas à vida
  • Avalie via aérea e respiração antes de buscar o diagnóstico
  • Não descarte choque apenas porque a pressão ainda está normal
  • Reavalie o paciente após cada intervenção e comunique a deterioração

Referências: 

  1. RESUSCITATION COUNCIL UK. The ABCDE Approach. London: Resuscitation Council UK, atualizado em 2024. Resuscitation Council UK – ABCDE Approach
  2. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Part 7: Adult Basic Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas: American Heart Association, 2025. AHA – Adult Basic Life Support 2025
  3. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Part 9: Adult Advanced Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas: American Heart Association, 2025. AHA – Adult Advanced Life Support 2025

Como Interpretar o qSOFA na Enfermagem

O erro mais comum com o qSOFA é transformá-lo em um “teste para dizer se o paciente tem sepse”. Ele não foi criado para isso. O escore serve para identificar, rapidamente, pacientes com suspeita de infecção que apresentam sinais associados a maior risco de desfecho ruim e que precisam de avaliação clínica mais aprofundada.

Os 3 critérios do qSOFA

O qSOFA possui apenas três critérios, cada um valendo 1 ponto:

  • Frequência respiratória ≥ 22 irpm: 1 ponto.
  • Pressão arterial sistólica ≤ 100 mmHg: 1 ponto.
  • Alteração do estado mental: 1 ponto.

Assim, o resultado varia de 0 a 3 pontos. Na definição original, 2 pontos ou mais em um paciente com suspeita de infecção indicam maior risco de evolução desfavorável e devem levar a uma investigação rápida de disfunção orgânica e intensificação da monitorização.

Como interpretar na prática

Um paciente com suspeita de infecção e qSOFA 0 ou 1 não está automaticamente fora de risco. Da mesma forma, um qSOFA ≥2 não confirma sepse. O resultado precisa ser interpretado junto com a história, exame físico, sinais vitais, perfusão, diurese, exames laboratoriais e evolução clínica.

Essa distinção é fundamental porque as diretrizes atuais da Surviving Sepsis Campaign recomendam não utilizar o qSOFA isoladamente como ferramenta de triagem para sepse. Em pacientes adultos agudamente enfermos no hospital, NEWS/NEWS2, MEWS ou SIRS são preferidos ao qSOFA como ferramenta única de rastreamento.

Imagine, por exemplo, um paciente com pneumonia que apresenta FR de 25 irpm, pressão sistólica de 105 mmHg e está orientado. O qSOFA é 1 ponto. Isso não significa “sem sepse”; significa que ele não atingiu o ponto de corte de 2 critérios do qSOFA. A equipe ainda precisa acompanhar a tendência dos sinais vitais e procurar sinais de deterioração.

Alteração mental merece atenção

No qSOFA, alteração do estado mental corresponde à alteração do nível de consciência, tradicionalmente operacionalizada como Glasgow Coma Scale <15 na formulação original. Uma mudança recente em relação ao comportamento habitual do paciente deve ser valorizada, principalmente quando aparece junto a sinais de infecção e instabilidade fisiológica.

Na rotina de enfermagem, uma situação bastante concreta seria encontrar um paciente que estava conversando normalmente pela manhã e, algumas horas depois, apresentar desorientação, FR de 28 irpm e pressão sistólica de 92 mmHg. Nesse cenário, o qSOFA chega a 3 pontos, mas o mais importante não é apenas registrar “qSOFA 3”: é reconhecer a deterioração e comunicar imediatamente a equipe para investigação e tratamento de possível sepse.

qSOFA não substitui avaliação clínica

O escore não considera temperatura, frequência cardíaca, saturação, diurese, lactato ou contagem de leucócitos. Por isso, um paciente pode estar gravemente doente mesmo com qSOFA baixo. A própria definição Sepsis-3 estabeleceu que sepse corresponde à disfunção orgânica potencialmente fatal causada por uma resposta desregulada à infecção, e não simplesmente a uma pontuação de qSOFA.

Em outra situação prática, um paciente com infecção pode manter pressão sistólica de 118 mmHg e estar orientado, mas apresentar FR progressivamente elevada, queda da diurese, extremidades frias e piora do estado geral. O qSOFA pode não atingir 2 pontos, porém a trajetória clínica já é preocupante e não deve ser ignorada.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem deve realizar e registrar corretamente frequência respiratória, pressão arterial e nível de consciência, além de acompanhar saturação, frequência cardíaca, temperatura, perfusão, diurese e evolução clínica. Se houver suspeita de sepse, a comunicação deve ser rápida e seguir o protocolo institucional.

Também é importante repetir a avaliação quando houver mudança no estado do paciente. As diretrizes atuais reforçam que sepse e choque séptico são emergências médicas e que o tratamento e a ressuscitação devem começar imediatamente quando indicados.

Para guardar de vez

qSOFA = FR ≥22 + PAS ≤100 + alteração mental.

Cada critério vale 1 ponto, totalizando de 0 a 3. qSOFA ≥2 chama atenção para maior risco, mas não diagnostica sepse e não deve ser usado sozinho para triagem. Para a enfermagem, o valor maior está em perceber a combinação dos sinais e, principalmente, a piora do paciente ao longo do tempo.

Resumo para salvar

Escore qSOFA

  • FR ≥22, PAS ≤100 e alteração mental valem 1 ponto cada
  • O escore varia de 0 a 3 pontos
  • qSOFA ≥2 indica maior risco, mas não confirma sepse
  • Não utilize qSOFA isoladamente para triagem de sepse

Referências:

  1. SINGER, Mervyn et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA, v. 315, n. 8, p. 801–810, 2016. JAMA — Sepsis-3
  2. EVANS, Laura et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Intensive Care Medicine, 2021. SCCM — Surviving Sepsis Campaign
  3. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE. Surviving Sepsis Campaign Adult Guidelines. SCCM. SCCM — Adult Guidelines

Delirium em UTI: como reconhecer precocemente com o CAM-ICU e quais são os principais cuidados de Enfermagem

Vá direto ao ponto!

O delirium é uma das alterações neurológicas mais comuns e, ao mesmo tempo, mais subestimadas dentro de uma Unidade de Terapia Intensiva.

Para quem trabalha na UTI, é relativamente fácil perceber quando um paciente está hipotenso, dessaturando ou apresentando uma alteração importante no eletrocardiograma. Já o delirium pode começar de maneira muito mais discreta: o paciente fica um pouco mais desatento, confunde horários, demora para responder, passa a olhar fixamente para algum ponto, apresenta um comportamento diferente ou começa a alternar períodos de agitação com momentos de sonolência.

É justamente aí que está um dos maiores desafios.

Delirium não é simplesmente “confusão mental”. É uma síndrome neuropsiquiátrica aguda, geralmente de início rápido e curso flutuante, que pode ser consequência de uma alteração clínica subjacente, efeito de medicamentos, infecção, distúrbios metabólicos, privação de sono, dor, hipóxia, abstinência e diversos outros fatores.

Em pacientes críticos, a identificação pode ser ainda mais difícil porque muitos estão intubados, sedados, em ventilação mecânica ou impossibilitados de falar. Por isso foram desenvolvidos instrumentos específicos para a UTI, entre eles o CAM-ICU — Confusion Assessment Method for the Intensive Care Unit. Estudos brasileiros demonstraram que a versão em português do CAM-ICU é um instrumento válido e confiável para avaliação de delirium em pacientes críticos.

E existe uma diferença importante entre perceber que “o paciente está estranho” e avaliar sistematicamente se ele apresenta delirium.

O que é delirium?

Delirium é uma alteração aguda e flutuante da atenção e da cognição.

O paciente pode apresentar alterações de:

  • atenção;
  • consciência;
  • percepção;
  • pensamento;
  • memória;
  • orientação;
  • comportamento;
  • ciclo sono-vigília.

Uma característica muito importante é a flutuação. O paciente pode estar conversando normalmente às 10 horas da manhã e, algumas horas depois, apresentar desorientação, dificuldade de manter a atenção ou comportamento incomum.

Depois pode melhorar novamente. Isso não significa necessariamente que “ele está fingindo” ou que “está apenas nervoso”. A flutuação é uma característica típica do delirium. Estudos brasileiros descrevem o início abrupto e a variação da intensidade dos sintomas ao longo do dia como características importantes dessa síndrome.

Delirium não é sinônimo de demência

Essa confusão aparece bastante entre estudantes. Embora possam existir alterações cognitivas nas duas condições, elas são diferentes. A demência costuma apresentar evolução progressiva e mais prolongada, enquanto o delirium geralmente surge de forma aguda, em horas ou dias, e apresenta flutuação.

Além disso, o delirium caracteriza-se especialmente pela alteração da atenção. Um paciente pode ter demência e também desenvolver delirium. Por isso, encontrar um histórico de comprometimento cognitivo não deve fazer a equipe descartar automaticamente a possibilidade de delirium.

Delirium também não é simplesmente “agitação”

Esse é outro erro bastante comum.

Existe uma forma de delirium chamada hiperativa, em que o paciente pode ficar:

  • agitado;
  • inquieto;
  • agressivo;
  • tentando retirar cateteres;
  • tentando sair do leito;
  • apresentando alucinações.

Essa é a forma que geralmente chama mais atenção.

Mas existe também o delirium hipoativo.

Nesse caso, o paciente pode ficar:

  • sonolento;
  • apático;
  • lentificado;
  • pouco responsivo;
  • com pouca interação;
  • aparentemente “tranquilo”.

E esse paciente pode passar despercebido. Por isso, um dos grandes perigos na UTI é associar delirium somente ao paciente que está tentando arrancar o tubo.

Um paciente quieto demais também merece avaliação.

Por que o delirium é tão importante na UTI?

Porque ele não é apenas um problema comportamental. O delirium em pacientes críticos está associado a consequências clínicas importantes. A literatura aponta relação com maior comprometimento cognitivo após a alta da UTI, e a atualização de 2025 das diretrizes PADIS da Society of Critical Care Medicine destaca que um rastreio positivo para delirium está fortemente associado a comprometimento cognitivo em três e 12 meses após a alta da UTI.

Além disso, o delirium pode dificultar:

  • desmame da ventilação mecânica;
  • comunicação com a equipe;
  • participação na fisioterapia;
  • mobilização;
  • sono;
  • tratamento;
  • segurança do paciente.

Por isso, reconhecer precocemente é muito mais importante do que simplesmente controlar a agitação.

Por que o paciente da UTI desenvolve delirium?

Na maioria das vezes, não existe uma única causa. O delirium costuma resultar da combinação de diversos fatores. O paciente internado em UTI pode estar simultaneamente enfrentando:

doença grave + dor + inflamação + medicamentos + privação de sono + imobilidade + alterações metabólicas + ambiente desconhecido.

Isso cria um cenário extremamente favorável ao desenvolvimento da síndrome.

Principais fatores de risco

Alguns fatores aparecem frequentemente na prática de terapia intensiva. Entre eles estão:

  • idade avançada, especialmente quando associada a fragilidade ou comprometimento cognitivo prévio;
  • doença grave, principalmente em pacientes com disfunção de múltiplos órgãos;
  • sepse e infecções;
  • ventilação mecânica;
  • uso de sedativos e determinados medicamentos;
  • dor inadequadamente controlada;
  • distúrbios metabólicos e eletrolíticos;
  • hipóxia;
  • desidratação;
  • insuficiência renal ou hepática;
  • imobilidade prolongada;
  • privação do sono;
  • ausência de estímulos durante o dia e excesso de estímulos à noite;
  • alterações visuais ou auditivas;
  • abstinência de álcool ou determinadas substâncias.

O importante é entender que nem sempre conseguimos eliminar todos os fatores de risco. Mas podemos reduzir vários deles.

O ambiente da UTI pode contribuir para o delirium

Imagine passar vários dias em um ambiente onde:

  • não existe diferença clara entre dia e noite;
  • alarmes tocam constantemente;
  • pessoas conversam durante toda a madrugada;
  • há iluminação artificial contínua;
  • procedimentos interrompem o sono;
  • o paciente não sabe que horas são;
  • não consegue utilizar seus óculos;
  • não consegue ouvir adequadamente;
  • não reconhece as pessoas ao redor.

Para o paciente, isso pode ser extremamente desorientador. Uma revisão brasileira sobre cuidados multiprofissionais em delirium destaca justamente estratégias como redução de ruídos, reorientação cognitiva, objetos familiares, preservação do sono, mobilização precoce e participação estruturada da família.

Por isso, prevenção do delirium não é apenas uma questão de medicamento. O ambiente também faz parte do cuidado.

Como reconhecer precocemente?

Uma das melhores estratégias é não esperar o paciente ficar completamente desorientado. A equipe deve observar mudanças em relação ao comportamento habitual.

Pergunte:

“Esse paciente está igual ao que estava ontem?”

Essa pergunta aparentemente simples pode ser extremamente útil. Observe se ele:

  • perdeu a capacidade de manter uma conversa;
  • está mais distraído;
  • demora mais para responder;
  • não consegue acompanhar comandos;
  • apresenta comportamento incomum;
  • está alternando agitação e sonolência;
  • apresenta alterações na percepção;
  • confunde pessoas ou situações;
  • está acordado, mas parece “não estar presente”.

Quando existe mudança aguda ou flutuante, deve-se pensar em delirium.

O CAM-ICU: o que é?

O CAM-ICU é uma adaptação do Confusion Assessment Method desenvolvida especificamente para pacientes internados em terapia intensiva, inclusive aqueles que não conseguem se comunicar verbalmente.

Essa característica é muito importante. Um paciente intubado não consegue simplesmente responder:

“Você sabe onde está?”

Por isso, o CAM-ICU utiliza comandos, estímulos visuais e auditivos e avaliação objetiva da atenção e do pensamento. O instrumento foi desenvolvido justamente para tornar possível a avaliação de delirium em pacientes críticos, incluindo pacientes incapazes de falar.

Antes do CAM-ICU: avalie o nível de consciência

Aqui está uma parte que costuma causar confusão:

RASS e CAM-ICU não são a mesma escala.

A RASS — Richmond Agitation-Sedation Scale avalia o nível de agitação e sedação. O CAM-ICU avalia delirium.

Por isso, na prática, os dois instrumentos trabalham juntos. O primeiro passo é verificar se o paciente apresenta nível de consciência suficiente para que a avaliação de delirium possa ser realizada. A literatura descreve o método em duas etapas: primeiro avaliar o nível de consciência, frequentemente utilizando a RASS; depois, quando possível, aplicar o CAM-ICU.

RASS e CAM-ICU: qual a diferença?

Uma forma fácil de memorizar:

RASS = “quão acordado, sedado ou agitado está o paciente?”

CAM-ICU = “há características compatíveis com delirium?”

A RASS varia de +4 a -5.

No extremo positivo, temos agitação intensa, já no extremo negativo, temos sedação profunda.

O paciente com RASS -4 ou -5 não consegue ser adequadamente avaliado pelo CAM-ICU naquele momento.

Isso não significa:

“RASS -4 = delirium.”

Significa: não foi possível avaliar delirium naquele momento devido ao nível de consciência.

Essa diferença é fundamental.

Como funciona o CAM-ICU?

O algoritmo tradicional do CAM-ICU trabalha com quatro características principais.

Característica 1: início agudo ou curso flutuante

Pergunta-se:

Houve uma mudança aguda no estado mental?

Ou:

O comportamento/estado mental do paciente apresentou flutuação?

Pode ser uma alteração percebida nas últimas horas ou dias.

Exemplo:

“Ontem o paciente conversava adequadamente. Hoje está alternando períodos de lucidez com momentos de desorientação e dificuldade de atenção. Isso levanta a possibilidade de delirium.”

Característica 2: desatenção

Essa é uma das partes mais importantes do CAM-ICU. O paciente com delirium frequentemente apresenta dificuldade de manter ou direcionar a atenção. Uma forma de avaliação é utilizar estímulos padronizados, como pedir que o paciente acompanhe determinada sequência de letras ou realize uma tarefa de atenção conforme o treinamento do instrumento.

No paciente que não fala, isso pode ser realizado por meio de respostas visuais ou motoras. O objetivo não é simplesmente saber se ele “entendeu”.

É avaliar se consegue sustentar a atenção.

Característica 3: pensamento desorganizado

Depois, avalia-se se o pensamento está organizado. O paciente pode apresentar respostas incoerentes, contraditórias ou sem relação com a pergunta. Por exemplo, quando perguntado algo simples, pode responder algo completamente desconectado do contexto. Em pacientes intubados, podem ser utilizadas formas não verbais de avaliação.

Por isso, o profissional precisa ser treinado para aplicar corretamente o instrumento.

Característica 4: alteração do nível de consciência

Aqui entram alterações diferentes do estado de alerta normal.

O paciente pode estar:

  • hiperalerta;
  • sonolento;
  • estuporoso;
  • agitado;
  • excessivamente sedado.

O importante é relacionar essa alteração ao algoritmo do CAM-ICU.

Quando o CAM-ICU é considerado positivo?

A lógica clássica é:

Característica 1 + Característica 2 + (Característica 3 ou Característica 4).

Ou seja: início agudo/flutuação + desatenção + pensamento desorganizado ou alteração do nível de consciência.

Essa combinação é o que caracteriza uma avaliação positiva para delirium pelo CAM-ICU. Esse esquema é excelente para memorizar para provas:

1 + 2 + (3 ou 4) = CAM-ICU positivo.

Um exemplo prático

Imagine um paciente internado há três dias na UTI. Ontem estava conversando adequadamente. Hoje começou a apresentar períodos em que parece não reconhecer a equipe e, em outros momentos, volta a interagir. Durante a avaliação:

Característica 1: houve mudança aguda/flutuação?
Sim.

Característica 2: apresenta desatenção?
Sim.

Característica 3: pensamento desorganizado?
Não.

Característica 4: alteração do nível de consciência?
Sim.

Temos:

1 + 2 + 4 = CAM-ICU positivo.

Esse paciente precisa ser comunicado e investigado pela equipe.

CAM-ICU positivo não significa “dar haloperidol”

Essa é uma associação que precisa ser desconstruída. Encontrar delirium significa que a equipe precisa procurar e tratar fatores precipitantes, além de implementar medidas de suporte e segurança. A atualização PADIS de 2025 não encontrou evidência suficiente para recomendar a favor ou contra o uso de antipsicóticos em comparação ao cuidado habitual para tratamento do delirium em adultos na UTI.

Isso é importante porque ainda existe a ideia de que:

“Paciente delirou? Dá haloperidol.”

A abordagem atual é muito mais ampla. O medicamento pode ter papel em situações selecionadas, conforme avaliação médica e protocolo, especialmente quando há agitação importante e risco para o paciente ou para a equipe. Mas tratar delirium não significa simplesmente sedar o paciente.

E o que a Enfermagem deve fazer quando identifica delirium?

Aqui começa uma parte extremamente importante. A identificação do delirium não encerra a avaliação. Ela é o início de uma investigação. O profissional deve comunicar a alteração e observar possíveis fatores precipitantes.

É necessário pensar:

  • O paciente está com dor?
  • Está hipóxico?
  • Apresenta febre ou sinais de infecção?
  • Está desidratado?
  • Existe alteração glicêmica?
  • Há distúrbio eletrolítico?
  • Houve mudança recente de medicamentos?
  • Recebeu sedação em excesso?
  • Está dormindo durante o dia e acordado durante toda a noite?
  • Está imobilizado há muito tempo?
  • Está sem os óculos ou aparelho auditivo?
  • Está apresentando retenção urinária ou constipação?

Essas perguntas ajudam a direcionar o cuidado.

Cuidados de Enfermagem para prevenção do delirium

A prevenção é tão importante quanto o reconhecimento, e muitas medidas não dependem de equipamentos sofisticados.

Preservar o ciclo sono-vigília

Durante o dia, sempre que possível, favorecer iluminação natural e interação. Durante a noite, reduzir ruídos, luminosidade e interrupções desnecessárias. Isso não significa deixar o paciente sem monitorização, significa organizar os cuidados de forma racional para evitar perturbações desnecessárias do sono.

As diretrizes PADIS recomendam um protocolo multicomponente voltado à promoção do sono e estratégias que reduzam fatores modificáveis relacionados ao delirium.

Reorientação frequente

Conversar com o paciente pode ser uma intervenção de enfermagem. Dizer:

“Bom dia, senhor João. O senhor está na UTI do Hospital X. Hoje é sexta-feira. Eu sou a enfermeira Ana e estou cuidando do senhor.” pode parecer simples.

Mas para um paciente desorientado, essas informações ajudam a reconstruir referências. Relógio e calendário também podem ser úteis. A atualização de 2025 das diretrizes PADIS cita reorientação e estimulação cognitiva, incluindo uso de relógios, entre as estratégias de intervenções não farmacológicas multicomponentes.

Corrigir alterações visuais e auditivas

Um paciente que normalmente utiliza óculos e passa vários dias sem eles pode ter dificuldade para interpretar o ambiente. O mesmo pode acontecer com um paciente que utiliza aparelho auditivo. Sempre que clinicamente possível e seguro, facilitar o acesso a esses dispositivos pode ajudar na orientação. A recomendação atual inclui justamente a otimização da visão e da audição como parte das estratégias multicomponentes para reduzir fatores modificáveis de delirium.

Mobilização precoce

A imobilidade prolongada não é neutra. Sempre que houver condições clínicas e autorização da equipe, a mobilização deve ser estimulada. Isso pode variar desde:

  • mudança de decúbito;
  • exercícios ativos ou passivos;
  • sentar no leito;
  • sentar à beira-leito;
  • transferência para poltrona;
  • ortostatismo;
  • deambulação.

Tudo depende da condição clínica. A atualização PADIS de 2025 sugere mobilização/reabilitação intensificada em relação ao cuidado habitual para adultos internados em UTI. Importante: mobilização precoce não significa mobilizar qualquer paciente indiscriminadamente.

É necessário avaliar estabilidade clínica, dispositivos, suporte ventilatório, hemodinâmica e segurança.

Avaliação e controle da dor

Dor também pode contribuir para alterações comportamentais e pior experiência do paciente. O paciente intubado pode não conseguir dizer:

“Estou com dor.”

Por isso, escalas apropriadas para pacientes que não conseguem se comunicar verbalmente podem ser utilizadas conforme protocolo da instituição. O objetivo não é simplesmente administrar analgésico. É avaliar a dor, tratar adequadamente e reavaliar a resposta.

Cuidado com a sedação

Existe uma tendência histórica de manter pacientes críticos profundamente sedados para facilitar o cuidado. Mas sedação excessiva pode dificultar a avaliação neurológica, prolongar a ventilação mecânica e contribuir para problemas associados à terapia intensiva.

As diretrizes PADIS atualizadas em 2025 sugerem o uso de dexmedetomidina em vez de propofol em determinados pacientes adultos em ventilação mecânica quando a prioridade é sedação leve e/ou redução do delirium. Isso não significa que dexmedetomidina seja “o medicamento para prevenir delirium”. A recomendação é específica para determinadas estratégias de sedação, e o medicamento deve sempre ser administrado conforme prescrição, indicação e monitorização.

Evitar benzodiazepínicos quando não forem necessários

Alguns medicamentos podem aumentar o risco de delirium. Os benzodiazepínicos são um exemplo particularmente importante em pacientes críticos. Isso não significa que sejam absolutamente proibidos. Existem situações clínicas específicas em que podem ser necessários, mas o uso deve ter indicação e ser reavaliado.

O princípio é: usar a menor exposição necessária e adequada à situação clínica do paciente.

Família também pode ajudar

A família pode ser uma importante fonte de orientação e reorientação. Uma pessoa conhecida pode ajudar o paciente a reconhecer:

  • quem ele é;
  • onde está;
  • o que aconteceu;
  • quem está cuidando dele.

Além disso, objetos familiares, fotografias e comunicação com pessoas significativas podem ajudar na orientação.

Uma pesquisa brasileira recente sobre manejo não farmacológico do delirium em UTI identificou justamente a participação dos familiares como uma das estratégias relevantes, embora sua implementação ainda enfrente dificuldades em muitos serviços.

O que NÃO fazer com o paciente delirante

Algumas atitudes podem piorar a situação. Evite discutir com o paciente tentando “provar” que ele está errado. Se ele disser:

“Preciso ir para casa porque meu filho está esperando na porta.”

Responder agressivamente:

“Seu filho não está aqui! Você está delirando!” provavelmente não ajudará. Uma abordagem mais adequada pode ser:

“Entendo que você está preocupado com seu filho. Você está no hospital e nós estamos cuidando do senhor. Vou ficar aqui com você.”

O objetivo é reduzir ansiedade, oferecer segurança e reorientar.

Contenção física deve ser tratada com muita cautela

Um paciente delirante pode tentar retirar:

  • tubo orotraqueal;
  • cateter venoso;
  • sonda;
  • drenos;
  • outros dispositivos.

A reação automática pode ser “amarrar”. Mas contenção física não deve ser encarada como primeira solução para o delirium. É necessário avaliar a causa da agitação e utilizar medidas de segurança e estratégias menos restritivas sempre que possível, de acordo com a legislação, prescrição/protocolo e avaliação da equipe.

A própria atualização PADIS de 2025 aborda o tema das restrições físicas entre os tópicos de manejo do paciente crítico.

Delirium e segurança do paciente

Um paciente delirante pode apresentar risco aumentado de:

  • quedas;
  • retirada de dispositivos;
  • lesões;
  • interrupção de terapias;
  • dificuldade de cooperação;
  • acidentes durante mobilização.

Por isso, a identificação precisa resultar em um plano de segurança. Isso pode incluir:

  • ambiente organizado;
  • leito seguro;
  • monitorização adequada;
  • comunicação clara;
  • acompanhamento mais próximo;
  • retirada de obstáculos;
  • avaliação do risco de queda;
  • participação da família quando apropriado.

CAM-ICU deve ser aplicado uma única vez?

Não. Essa é outra característica importante. Como o delirium é flutuante, uma avaliação isolada pode não representar o estado do paciente durante todo o dia. Por isso, os protocolos de UTI devem estabelecer avaliação periódica e sistemática. A literatura brasileira destaca a importância da avaliação contínua com instrumentos específicos para permitir identificação precoce.

Na prática:

Não espere o paciente ficar agitado para repetir a avaliação.

O paciente pode estar em delirium hipoativo e apresentar poucos sinais externos.

O CAM-ICU substitui a avaliação clínica?

Não. Ele é uma ferramenta de rastreamento/avaliação estruturada. O resultado precisa ser interpretado dentro do contexto clínico. Um CAM-ICU positivo deve fazer a equipe pensar:

“Por que esse paciente desenvolveu delirium?”

E não apenas:

“Qual medicamento posso administrar?”

A causa pode ser potencialmente reversível.

Delirium pode ser o primeiro sinal de deterioração clínica

Essa é uma das experiências que o profissional de UTI aprende com o tempo. Às vezes, antes de aparecer uma grande alteração hemodinâmica, o paciente muda o comportamento. Aquele paciente que normalmente responde adequadamente começa a apresentar desatenção. Aquele que conversava começa a ficar excessivamente sonolento.

Aquele que estava orientado passa a tentar retirar dispositivos. Essas alterações não devem ser automaticamente classificadas como “coisa da idade”, “ansiedade” ou “birra”. Uma alteração aguda do estado mental merece investigação.

Estudos brasileiros ressaltam que o delirium pode ser manifestação de uma condição física subjacente mais grave ou de toxicidade medicamentosa.

Um roteiro prático para o estudante de Enfermagem

Durante o estágio, uma forma simples de organizar o raciocínio é:

  1. Observe

O paciente está diferente do habitual?

  1. Avalie a sedação

Qual é o RASS?

  1. Se puder ser avaliado, aplique o CAM-ICU

Verifique as quatro características.

  1. Se positivo, comunique

Delirium não deve ficar apenas registrado como “paciente confuso”.

  1. Procure fatores precipitantes

Dor, infecção, hipóxia, alterações metabólicas, medicamentos, privação do sono, retenção urinária, constipação, desidratação, imobilidade e outros.

  1. Implemente medidas não farmacológicas

Reorientação, sono, mobilidade, visão, audição, comunicação e ambiente.

  1. Reavalie

Delirium flutua.

Um exemplo que acontece na rotina da UTI

Imagine um paciente de 72 anos internado por pneumonia. Durante o primeiro dia, está acordado, responde adequadamente e reconhece os profissionais. Na segunda noite, começa a dizer que existem pessoas dentro do quarto.

  • Tenta retirar o acesso venoso.
  • Fala frases desconectadas.

Depois de alguns minutos, fica extremamente sonolento. No dia seguinte, parece melhor. Um profissional poderia dizer:

“Ele está confuso por causa da idade.” Mas essa não deveria ser a conclusão. Existe:

  • mudança aguda/flutuação;
  • alteração da atenção;
  • pensamento desorganizado;
  • alteração do nível de consciência.

O CAM-ICU pode ser positivo. A partir daí, a equipe precisa investigar o que está desencadeando o quadro. Pode ser infecção, hipóxia, medicamentos, alteração metabólica, privação do sono ou uma combinação de fatores.

E o paciente intubado?

O fato de estar intubado não impede automaticamente a avaliação pelo CAM-ICU. Essa é justamente uma das vantagens da ferramenta. O CAM-ICU foi desenvolvido para pacientes críticos, inclusive aqueles que não conseguem se comunicar verbalmente.

O paciente pode responder utilizando:

  • olhar;
  • movimentos da cabeça;
  • movimentos das mãos;
  • comandos motores padronizados.

Mas existe um detalhe: é necessário treinamento para aplicar corretamente o instrumento. Não basta conhecer o nome CAM-ICU. O profissional precisa conhecer o algoritmo e a forma padronizada de aplicação. O site oficial do CAM-ICU disponibiliza manual de treinamento, fluxograma, folha de avaliação, casos clínicos e outros materiais para capacitação.

Erros comuns na avaliação do delirium

Confundir agitação com delirium

Nem todo paciente agitado está delirante. É necessário avaliar sistematicamente.

Confundir sedação profunda com delirium

RASS -5 não significa CAM-ICU positivo. Significa que o paciente não está em condições de ser avaliado naquele momento.

Avaliar apenas pacientes agitados

Isso faz com que muitos casos hipoativos sejam perdidos.

Fazer o CAM-ICU sem avaliar o nível de consciência

RASS e CAM-ICU precisam ser entendidos conjuntamente.

Aplicar a escala de qualquer maneira

O CAM-ICU depende de aplicação padronizada.

Achar que o resultado resolve a causa

CAM-ICU identifica a síndrome; não explica sozinho por que ela aconteceu.

O papel da Enfermagem no delirium é muito maior do que aplicar uma escala

Essa talvez seja a principal mensagem para quem está aprendendo terapia intensiva. A escala é apenas uma ferramenta. O profissional de Enfermagem permanece ao lado do paciente durante grande parte do tempo e, por isso, pode perceber pequenas alterações que talvez passem despercebidas durante uma avaliação médica pontual.

É a Enfermagem que frequentemente percebe:

“Ele não estava assim ontem.” Essa informação tem valor clínico. Registrar a mudança, comunicar a equipe e acompanhar sua evolução pode contribuir para que uma causa reversível seja identificada mais rapidamente.

O que dizem as recomendações mais atuais?

As recomendações internacionais continuam reforçando a importância de avaliar sistematicamente delirium em pacientes críticos.

A atualização PADIS publicada pela Society of Critical Care Medicine em 2025 reforça uma abordagem que não se limita a medicamentos. Para prevenção e manejo, recomenda-se uma intervenção multicomponente e não farmacológica, envolvendo redução de fatores de risco modificáveis, melhora da cognição, sono, mobilidade, audição e visão.

A mesma atualização sugere mobilização/reabilitação intensificada e, em determinadas circunstâncias, preferência pela dexmedetomidina sobre propofol quando a prioridade é sedação leve e/ou redução do delirium em pacientes adultos sob ventilação mecânica.

Já em relação aos antipsicóticos, a diretriz de 2025 afirma que a evidência disponível não permite recomendar a favor ou contra seu uso em comparação ao cuidado habitual para tratamento do delirium em adultos de UTI.

Isso mostra como o manejo do delirium mudou.

Menos foco em simplesmente “acalmar o paciente” e mais foco em identificar causas, reduzir fatores modificáveis, preservar função e manter o paciente orientado e acordado quando clinicamente possível.

Delirium na UTI: o que o estudante precisa guardar

Se você estiver começando a trabalhar em terapia intensiva, memorize estas ideias:

  • Delirium é agudo e flutuante.
  • A desatenção é uma característica central.
  • Pode ser hiperativo, hipoativo ou misto.
  • Paciente intubado também pode apresentar delirium.
  • RASS avalia sedação/agitação; CAM-ICU avalia delirium.
  • RASS -4/-5 impede uma avaliação adequada pelo CAM-ICU naquele momento.
  • CAM-ICU positivo = característica 1 + característica 2 + característica 3 ou 4.
  • Não espere o paciente ficar agitado para investigar.
  • Procure causas reversíveis.
  • Sono, mobilização, reorientação, visão e audição fazem parte da prevenção.
  • A contenção física e os medicamentos não devem ser utilizados como resposta automática ao delirium.

E talvez a mais importante:

Na UTI, uma mudança súbita de comportamento também pode ser um sinal clínico.

O delirium é uma condição extremamente relevante na terapia intensiva e que exige atenção contínua da equipe. Para o estudante de Enfermagem, aprender a reconhecer delirium significa muito mais do que decorar o significado da sigla CAM-ICU.

É aprender a perceber mudanças sutis no comportamento, entender a diferença entre sedação e delirium, reconhecer que o paciente hipoativo também pode estar delirante e compreender que a síndrome frequentemente representa a manifestação de algum problema clínico subjacente.

O CAM-ICU é uma ferramenta importante para estruturar essa avaliação, inclusive em pacientes que não conseguem falar. Estudos brasileiros demonstraram validade e confiabilidade da versão em português para pacientes críticos.

Mas a escala não substitui o raciocínio clínico. Um resultado positivo deve desencadear uma pergunta:

“O que está acontecendo com esse paciente?”

A resposta pode estar na dor, na infecção, na hipóxia, nos medicamentos, na privação do sono, em alterações metabólicas, na imobilidade ou na combinação de vários fatores. E é justamente nesse ponto que a Enfermagem exerce um papel fundamental.

Reconhecer cedo, comunicar, investigar, prevenir fatores modificáveis e acompanhar a evolução do paciente são atitudes que fazem parte de um cuidado intensivo mais seguro e humanizado.

Resumo para salvar

Avaliação do Delirium em UTI com o CAM-ICU

  • Reconhecimento precoce e sistemático do delirium em pacientes críticos, indo além da simples impressão de confusão mental
  • Aplicação do CAM-ICU adaptado para pacientes intubados ou incapazes de se comunicar verbalmente por meio de estímulos objetivos
  • Verificação inicial do nível de consciência utilizando a escala RASS antes de prosseguir com a avaliação estruturada
  • Identificação baseada nos 4 critérios essenciais: início agudo/flutuante, desatenção, pensamento desorganizado ou alteração da consciência

Referências:

  1. ABELHA, Fernando; VEIGA, Dalila; NORTON, Maria; SANTOS, Cristina; GAUDREAU, Jean-David. Avaliação do delírio em pacientes pós-operatórios: validação da versão portuguesa da Nursing Delirium Screening Scale na terapia intensiva. Revista Brasileira de Anestesiologia, Rio de Janeiro. Disponível em: SciELO – Revista Brasileira de Anestesiologia. 
  2. GUSMAO-FLORES, Dimitri et al. The validity and reliability of the Portuguese versions of three tools used to diagnose delirium in critically ill patients. Clinics, São Paulo. Disponível em: SciELO – Clinics. 
  3. SALLUH, Jorge Ibrain Figueira et al. Delirium em pacientes críticos. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, São Paulo. Disponível em: SciELO – Revista Brasileira de Terapia Intensiva. 
  4. Confusion assessment method para analisar delirium em unidade de terapia intensiva: revisão de literatura. Revista Brasileira de Terapia Intensiva. Disponível em: SciELO – CAM-ICU. 
  5. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE (SCCM). Guidelines for the Prevention and Management of Pain, Agitation/Sedation, Delirium, Immobility, and Sleep Disruption in Adult Patients in the ICU. Disponível em: SCCM – PADIS Guidelines. 
  6. LEWIS, K.; BALAS, M. C.; STOLLINGS, J. L. et al. A focused update to the clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, anxiety, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Critical Care Medicine, v. 53, n. 3, p. e711-e727, 2025. Disponível em: SCCM – Focused Update PADIS 2025. 
  7. ICU DELIRIUM AND COGNITIVE IMPAIRMENT STUDY GROUP. CAM-ICU Training Manual. Vanderbilt University Medical Center. Disponível em: CAM-ICU Training Manual. 
  8. Cuidados multiprofissionais para pacientes em delirium em terapia intensiva: revisão integrativa. Revista Gaúcha de Enfermagem. Disponível em: SciELO – Revista Gaúcha de Enfermagem.
  9. Desafios na avaliação e manejo não farmacológico do delirium por enfermeiros em Unidade de Terapia Intensiva. Cogitare Enfermagem, 2025. Disponível em: SciELO – Cogitare Enfermagem. 
  10. MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasil). Protocolos de segurança do paciente em terapia intensiva: manejo do delirium. Brasília: Anvisa, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/seguranca-do-paciente. 
  11. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Atuação do enfermeiro na avaliação neurológica e prevenção de delirium em pacientes críticos. Brasília, 2023. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/. 
  12. PASA, F. B.; SILVA, R. M. Validação e uso da escala CAM-ICU na prática diária da enfermagem em terapia intensiva. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, v. 35, n. 1, p. 45-52, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/.

Martelo de Buck: tudo o que você precisa saber

No nosso universo de ferramentas clínicas, existe um instrumento simples, mas incrivelmente poderoso, que é a marca registrada da avaliação neurológica: o Martelo de Buck.

Se você já viu um médico ou enfermeiro testando os joelhos de um paciente, sabe exatamente do que estamos falando.

Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, o Martelo de Buck não é apenas um peso com uma borracha; ele é a chave para acessar o sistema nervoso de forma não invasiva.

Saber como ele funciona, suas indicações e a forma correta de utilizá-lo é fundamental para identificar alterações nos reflexos, que são o primeiro sinal de problemas neurológicos ou ortopédicos. Vamos desvendar a anatomia e a aplicação correta deste instrumento essencial?

O Que É o Martelo de Buck?

O Martelo de Buck (ou Martelo de Reflexos de Buck) é um instrumento médico projetado especificamente para avaliar os reflexos tendíneos profundos (reflexos osteotendíneos) e, em algumas versões, realizar um rápido exame sensorial. Ele é um dos modelos de martelo de reflexos mais comuns no Brasil e em várias partes do mundo.

  • Sua Anatomia: Ele geralmente possui um cabo de metal e duas cabeças de borracha de tamanhos diferentes. A parte mais interessante é que o Martelo de Buck muitas vezes contém ferramentas embutidas, tornando-o um kit de avaliação compacto:
    • Ponta Romba: Na base do cabo, pode haver uma ponta fina, usada para testar a sensibilidade da pele (estímulo doloroso, por exemplo).
    • Pincel: Em algumas versões, a parte oposta à ponta romba tem um pincel, usado para testar a sensibilidade tátil superficial.

Indicações de uso

A principal função do Martelo de Buck é testar a integridade do arco reflexo, que é a via nervosa responsável por um reflexo. Essa avaliação é crucial em diversas situações:

  1. Suspeita de Lesão Neurológica: Se o paciente apresentar sintomas como fraqueza muscular, dormência, ou histórico de trauma craniano/espinhal.
  2. Monitoramento de Condições Crônicas: Pacientes com Esclerose Múltipla, doença de Parkinson, ou neuropatias diabéticas precisam de monitoramento regular de seus reflexos.
  3. Avaliação Pediátrica: Usado para avaliar os reflexos primitivos e o desenvolvimento neurológico em crianças.
  4. Avaliação Ortopédica: Dor nas costas ou nos membros pode estar ligada a compressão de raízes nervosas (radiculopatias), e a alteração dos reflexos ajuda a localizar o nível da lesão.

Como Utilizar?

O segredo para um teste de reflexo bem-sucedido é garantir que o músculo esteja relaxado e que o golpe seja rápido e preciso. O martelo deve ser segurado pelo cabo, permitindo que a cabeça de borracha balance livremente.

Os Reflexos Mais Comumente Testados:

  1. Reflexo Patelar (Joelho):
    • Como fazer: O paciente deve estar sentado com as pernas pendentes, ou deitado com o examinador apoiando as pernas. Localize o tendão patelar (logo abaixo da rótula). Bata levemente, mas com firmeza, no tendão.
    • Resposta Esperada: Contração do músculo quadríceps e extensão da perna.
  2. Reflexo Aquileu (Tornozelo):
    • Como fazer: Com o paciente sentado, apoie o pé em uma leve dorsiflexão (apontando para cima). Bata no tendão de Aquiles (na parte de trás do tornozelo).
    • Resposta Esperada: Flexão plantar (o pé se move para baixo).
  3. Reflexo Bicipital (Braço):
    • Como fazer: O paciente deve estar com o braço dobrado (em flexão) e relaxado. O examinador coloca o polegar sobre o tendão do bíceps (na parte interna do cotovelo) e bate com o martelo no seu próprio polegar.
    • Resposta Esperada: Contração do bíceps e flexão do antebraço.

A Pontuação (Crucial para o Registro):

Os reflexos são classificados por um sistema de escore, que deve ser registrado por nós no prontuário:

  • 0: Reflexo Ausente.
  • 1+: Hiporreflexia (reflexo diminuído ou lento).
  • 2+: Reflexo Normal (ativo e esperado).
  • 3+: Hiperreflexia (reflexo exagerado ou mais vivo que o normal).
  • 4+: Clônus (reflexo repetitivo e oscilatório, patológico).

Cuidados de Enfermagem

O enfermeiro é frequentemente o primeiro a notar uma alteração sutil nos reflexos, o que exige um cuidado meticuloso.

  1. Preparação do Paciente: Garantir que o paciente esteja relaxado. A ansiedade ou a tensão muscular inibem os reflexos. Se necessário, utilizar a Manobra de Jendrassik (pedir ao paciente para apertar os dentes ou entrelaçar os dedos e puxar) para distraí-lo e potencializar a resposta do reflexo.
  2. Documentação Rigorosa: Registrar o escore de cada reflexo testado, lado a lado (direito e esquerdo), no prontuário. Uma diferença entre os lados (assimetria) é um sinal de alerta neurológico.
  3. Higiene: Por ser um instrumento de contato com a pele, o Martelo de Buck deve ser limpo e desinfetado entre o uso em diferentes pacientes.
  4. Comunicação: Qualquer alteração (reflexo ausente, muito exagerado ou assimétrico) deve ser imediatamente comunicada à equipe médica para uma investigação mais aprofundada.

Importância clínica

O exame com o martelo de Buck não é invasivo e fornece dados valiosos sobre o funcionamento neurológico do paciente. A alteração nos reflexos pode indicar desde lesões nervosas periféricas até doenças graves, como esclerose múltipla, neuropatias, distúrbios metabólicos ou lesões medulares. Por isso, mesmo sendo um instrumento simples, seu uso adequado é determinante para a prática clínica.

O Martelo de Buck é um símbolo da avaliação neurológica. Dominar seu uso e interpretação nos permite ser profissionais mais eficazes na detecção precoce de problemas no sistema nervoso, contribuindo diretamente para um diagnóstico mais rápido e um tratamento mais direcionado.

Referências:

  1. BICKLEY, L. S.; SZILAGYI, P. G.; HOFFMAN, R. M. Bates: Guia de Bolso para Exame Físico e História Clínica. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. (Consultar os capítulos sobre o sistema nervoso).
  2. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar os capítulos sobre exame físico neurológico).
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Exame neurológico: manual prático. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/exame_neurologico_manual_pratico.pdf. 
  4. MACHADO, A. B. M. Neuroanatomia funcional. 4. ed. São Paulo: Atheneu, 2014.
  5. NETTER, F. H. Atlas de Anatomia Humana. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.

Dominando as 5 Etapas da SAEP (Sistematização da Assistência de Enfermagem Perioperatória)

A Sistematização da Assistência de Enfermagem Perioperatória (SAEP) é uma metodologia essencial para garantir segurança, qualidade e continuidade do cuidado ao paciente cirúrgico. Por meio dela, o enfermeiro organiza e direciona suas ações com base em um processo sistemático e individualizado, assegurando que cada etapa do cuidado — do pré ao pós-operatório — seja planejada e executada de forma criteriosa.

A SAEP é composta por cinco etapas fundamentais que se interligam e formam um ciclo contínuo de assistência: visita pré-operatória, planejamento da assistência, implementação, avaliação e reformulação do plano de cuidados. Cada uma dessas fases tem papel essencial na prevenção de complicações, no apoio à equipe cirúrgica e na recuperação do paciente.

A SAEP: Um Processo Contínuo e Dinâmico

A SAEP segue a lógica do Processo de Enfermagem (PE), mas adaptada às exigências rápidas e críticas do ambiente cirúrgico.

Visita Pré-Operatória da Enfermagem (A Coleta de Dados e o Primeiro Vínculo)

Esta é a fase inicial, de avaliação e diagnóstico. É o momento de ouro para o enfermeiro construir o primeiro vínculo com o paciente, que está ansioso e vulnerável.

  • O Que Fazemos: Coletamos dados (histórico, medicações de uso contínuo, alergias, risco de queda, condição da pele, estado emocional) e realizamos o exame físico.
  • Nosso Foco: Identificar Diagnósticos de Enfermagem e riscos cirúrgicos específicos. Por exemplo: risco de hipotermia, risco de infecção, ansiedade e risco de lesão por posicionamento. Também avaliamos a compreensão do paciente sobre o procedimento (o enfermeiro não explica a cirurgia, mas avalia o entendimento do paciente).
  • Cuidados Essenciais: Orientar sobre o jejum, remoção de joias/próteses e, principalmente, reduzir a ansiedade através da informação e escuta ativa.

Planejamento da Assistência Operatória (O Mapa de Ação)

Com os diagnósticos definidos, o enfermeiro traça o plano de cuidados, estabelecendo as metas de segurança e as intervenções para o período dentro da sala de cirurgia e no pós-operatório imediato.

  • O Que Fazemos: Definimos as intervenções específicas para cada risco.
    • Exemplo: Para o diagnóstico “Risco de lesão por posicionamento”, a meta é “Manter a integridade da pele e dos nervos durante o procedimento”. A intervenção é: “Garantir o uso de coxins e suportes adequados, evitar pressão em proeminências ósseas e checar alinhamento corporal.”
  • Nosso Foco: Garantir que o plano seja individualizado. O planejamento envolve a escolha de equipamentos, a organização da sala e a alocação de recursos específicos para as necessidades daquele paciente.

Implementação da Assistência (A Execução do Plano)

Esta é a fase de ação, que ocorre no período intraoperatório e pós-operatório imediato.

  • O Que Fazemos: Colocamos o plano em prática, atuando em três frentes:
    • Circulante da Sala: Garantindo a segurança do ambiente, a contagem de compressas/instrumentos e o monitoramento da assepsia e da temperatura.
    • Instrumentador (Onde aplicável): Garantindo o manejo correto dos materiais estéreis.
    • Sala de Recuperação Pós-Anestésica (SRPA): Aplicando o plano de cuidados pós-operatórios (controle da dor, monitoramento de sinais vitais, avaliação de sangramento, escala de Aldrete e Kroulik).
  • Cuidados Essenciais: Manter a comunicação constante com a equipe cirúrgica e anestésica e registrar todas as ações e intercorrências.

Avaliação da Assistência (O Feedback Crítico)

Esta etapa ocorre logo após a implementação e é crucial para medir o sucesso das intervenções.

  • O Que Fazemos: Comparamos os resultados obtidos com as metas que foram estabelecidas na Etapa 2.
    • Exemplo: A meta de “Manter a integridade da pele” foi atingida? O paciente desenvolveu alguma lesão ou eritema? O nível de dor na SRPA foi mantido abaixo do esperado?
  • Nosso Foco: Documentar de forma clara se os objetivos foram alcançados, parcialmente alcançados ou não alcançados. Esta avaliação é o que fecha o ciclo de responsabilidade e segurança.

Reformulação da Assistência a Ser Planejada (A Melhoria Contínua)

O processo não termina na alta da SRPA. A reformulação é o princípio da melhoria contínua.

  • O Que Fazemos: Se as metas não foram atingidas (por exemplo, o paciente apresentou hipotermia ou dor intensa), a equipe deve analisar o porquê e reformular o plano.
  • Exemplo: Se a hipotermia ocorreu, a reformulação será: “Aumentar o uso de cobertores térmicos e aquecer soluções intravenosas rotineiramente para todos os pacientes com IMC < 18”.
  • Nosso Foco: Garantir que a informação (o aprendizado) seja transferida para o próximo plantão e para os cuidados pós-operatórios na unidade de internação.

Importância da SAEP para a segurança do paciente

A SAEP é uma ferramenta indispensável para promover a segurança do paciente cirúrgico, assegurando uma assistência sistematizada, humanizada e livre de improvisações.
Além de padronizar o cuidado, ela fortalece a autonomia do enfermeiro e evidencia a importância da enfermagem perioperatória dentro da equipe multiprofissional.

Por meio da SAEP, o enfermeiro atua não apenas na execução técnica, mas também como líder, educador e defensor da segurança e bem-estar do paciente.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE SALA DE OPERAÇÃO, RECUPERAÇÃO PÓS-ANESTÉSICA E CENTRO DE MATERIAL E ESTERILIZAÇÃO (SOBECC). Práticas Recomendadas. 10. ed. São Paulo: SOBECC, 2023. (Consultar os capítulos sobre Processo de Enfermagem Perioperatório). Disponível em: https://www.sobecc.org.br/. 
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução COFEN nº 358/2009: Dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) e a implementação do Processo de Enfermagem. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resoluo-cofen-3582009_4384.html. 
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  4. SILVA, M. C. M.; OLIVEIRA, R. A. Sistematização da assistência de enfermagem no centro cirúrgico: revisão integrativa. Revista SOBECC, v. 26, n. 3, 2021. Disponível em: https://revistasobecc.emnuvens.com.br/sobecc

Classificação de Killip na SCA

A classificação de (ou Killip-Kimball) é um sistema de pontuação que desempenhou papel fundamental na cardiologia desde há mias de três décadas, tendo sido usada como um critério de classificação para muitos outros estudos.

Durante o período de evolução do IAM, a migração dos portadores de uma classe mais baixa para uma mais alta está associada independentemente com elevação da mortalidade em muitos estudos, enquanto que os que evoluem com uma baixa pontuação têm uma menor probabilidade de morrer dentro dos primeiros 30 dias.

Como surgiu a classificação de Killip?

Em Outubro de 1967, os médicos Thomas Killip e John Kimball publicam no The American Journal of Cardiology a experiência de dois anos com 250 pacientes tratados por infarto agudo do miocárdio em uma unidade coronariana. A publicação falava de um sistema que, mais tarde, ficou conhecido como classificação Killip, que usamos até hoje no cenário de síndrome coronariana aguda.

Critérios de Classificação

  • Killip 1 (81/250 pacientes): sem sinais clínicos de insuficiência cardíaca, com ausculta pulmonar normal – cerca de um terço dos pacientes;
  • Killip 2 (96/250 pacientes): achados consistentes com insuficiência cardíaca leve a moderada (presença de B3, estertores pulmonares bibasais ou distensão venosa jugular) – cerca de um terço dos pacientes;
  • Killip 3 (26/250 pacientes): IC grave ou edema pulmonar franco;
  • Killip 4 (47/250 pacientes): choque cardiogênico, em que há evidência pulmonar e sistêmica de baixo débito cardíaco.

Este estudo tem, contudo, limitações, principalmente por ter sido uma série de casos, não cega, sem desfechos objetivos, não ajustada para fatores de confusão e não validada independentemente, além de ter sido feito em uma população de 250 indivíduos.

Apesar de todas estas dificuldades mostrou-se muito útil e a classificação de Killip permanece sendo empregada.

Referências:

  1. Killip T, Kimball JT. Treatment of myocardial infarction in a coronary care unit: a two year experience of 250 patients. Am J Cardiol. 1967; 20:457-464. ISSN 0002-9149
  2. http://en.wikipedia.org/wiki/Killip class

Teste de Filkenstein

A Doença de De Quervain, também conhecida como tenossinovite estenosante dos tendões abdutor longo e extensor curto do polegar, é uma condição dolorosa que afeta o punho, especialmente na região lateral (próxima ao polegar). Essa inflamação atinge a bainha que envolve os tendões responsáveis por movimentar o polegar, dificultando atividades simples como segurar objetos, abrir potes ou até digitar.

Um dos métodos mais utilizados para identificar essa condição é o Teste de Finkelstein, um exame clínico rápido e eficaz que ajuda a diferenciar a dor causada pela Doença de De Quervain de outras patologias que também afetam o punho e o polegar.

O Que É a Doença de Quervain? 

A Doença de Quervain, ou tenossinovite estenosante do extensor curto do polegar e abdutor longo do polegar, é uma inflamação dos tendões e da bainha (a “capa” que envolve os tendões) que ficam no punho, do lado do polegar. Esses tendões são essenciais para o movimento do polegar e, quando inflamados, causam dor, inchaço e dificuldade de movimento.

  • Causas Comuns: A repetição de movimentos de pinça ou preensão, como levantar um bebê, digitar no celular com o polegar, ou atividades de jardinagem, pode sobrecarregar esses tendões e levar à inflamação.

O Teste de Finkelstein: O Diagnóstico Clínico na Prática

O Teste de Finkelstein é um procedimento simples e rápido, que provoca o alongamento dos tendões inflamados para verificar se há dor. Ele é considerado positivo se o paciente sentir uma dor aguda e súbita no punho, na base do polegar.

Como o Teste é Realizado?

    1. Peça ao paciente para fechar a mão, formando um punho, com o polegar para dentro. É importante que o polegar esteja totalmente flexionado e envolvido pelos outros dedos.
    2. Peça ao paciente para desviar o punho para o lado ulnar. Ou seja, inclinar a mão para o lado oposto ao polegar, como se estivesse tentando encostar o dedo mindinho no antebraço.
    3. Avalie a resposta:
      • Teste positivo: Se essa manobra causar uma dor aguda e intensa no punho, na região dos tendões do polegar.
      • Teste negativo: Se o paciente não sentir dor ou apenas um leve desconforto sem características de dor aguda.
  • Mecanismo da Dor: A manobra de desvio ulnar estica os tendões extensor curto do polegar e abdutor longo do polegar, que estão inflamados. O atrito desses tendões inchados contra a bainha apertada provoca a dor característica da Doença de Quervain.

Diagnóstico Diferencial: A Importância de um Olhar Completo

Embora o Teste de Finkelstein seja muito útil, é importante lembrar que ele é apenas uma ferramenta. A dor no punho pode ter outras causas, como a rizartrose (artrose na base do polegar) ou outras tendinites. Por isso, uma anamnese detalhada e um exame físico completo são essenciais para confirmar o diagnóstico. O médico também pode solicitar exames de imagem, como uma ultrassonografia, para visualizar a inflamação dos tendões.

Tratamento e Cuidados de Enfermagem

Após o diagnóstico, o nosso papel na enfermagem é crucial no suporte ao paciente. O tratamento para a Doença de Quervain visa reduzir a inflamação e a dor e, na maioria dos casos, não é cirúrgico.

Repouso e Imobilização:

    • Orientar o paciente: Explicar a importância de evitar os movimentos que causam a dor.
    • Uso de órtese: Orientar sobre o uso de uma órtese (tala) específica para o polegar e o punho, que ajuda a imobilizar a articulação e a diminuir a inflamação.

Manejo da Dor e Inflamação:

    • Compressas frias: Orientar a aplicação de compressas frias (gelo) na área afetada por 15-20 minutos, várias vezes ao dia, para diminuir o inchaço e a dor.
    • Medicamentos: Administrar e orientar sobre o uso de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) orais ou tópicos.

Educação em Saúde e Prevenção:

    • Ergonomia: Ensinar o paciente sobre ergonomia no trabalho e no dia a dia. Por exemplo, a forma correta de segurar um bebê, de usar o celular, ou de segurar objetos.
    • Exercícios de Fisioterapia: Acompanhar o paciente em exercícios de alongamento e fortalecimento, que são essenciais para a recuperação e para prevenir a recorrência da doença.

Suporte em Procedimentos:

    • Infiltrações: Em casos mais persistentes, o médico pode optar por uma infiltração com corticoides. Nosso papel é de preparar o paciente, acalmá-lo, auxiliar no procedimento e orientar sobre os cuidados pós-procedimento.
    • Cirurgia: Se o tratamento conservador falhar, a cirurgia pode ser necessária. Nosso cuidado se estende ao pré e pós-operatório, com monitoramento da ferida, controle da dor e estímulo à reabilitação.

O Teste de Finkelstein é mais do que um nome na literatura médica; é uma ferramenta prática que nos ajuda a dar um nome à dor do paciente. Com nosso conhecimento, podemos não apenas diagnosticar, mas também oferecer o suporte e a educação necessários para que o paciente se recupere e retome suas atividades com mais conforto e segurança.

Referências:

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA DA MÃO (SBCM). Doença de Quervain. Disponível em: https://www.cirurgiadamao.org.br/doencas-da-mao/doenca-de-quervain/.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Manual de Reabilitação da Mão. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2011. (Consultar os capítulos sobre tendinopatias e reabilitação da mão). Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_reabilitacao_mao.pdf.
  3. BICKLEY, L. S.; SZILAGYI, P. G.; HOFFMAN, R. M. Bates: Guia de Bolso para Exame Físico e História Clínica. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. (Consultar capítulo sobre exame físico do sistema musculoesquelético).

Semicírculo de Skoda

O sinal de semicírculo de Skoda, também conhecido como timpanismo periumbilical móvel, é uma variação do sinal de Skoda usado para detectar a presença de ascite, que é o acúmulo anormal de líquido na cavidade peritoneal, o espaço que envolve os órgãos abdominais.

Como funciona o sinal de semicírculo de Skoda

Consiste em deixar o paciente em decúbito dorsal, em que ao percutir a região central do abdome obtém-se som timpânico, enquanto na periferia há som maciço pela presença do líquido ascítico.

Interpretação do sinal de semicírculo de Skoda

  • Presença de timpanismo em todo o semicírculo: Indica um abdome normal, sem ascite.
  • Mudança de timpanismo para maciço em parte do semicírculo: Sugere a presença de ascite, especialmente quando acompanhado de outros sinais e sintomas, como aumento do abdome, inchaço e peso abdominal.

Sinal de Macicez Móvel

Ocorre em casos de ascite de médio volume. Quando o paciente está em decúbito dorsal o líquido acumula-se na região lateral do abdome, revelando timpanismo na região anterior.

Como funciona o sinal de macicez móvel

  1. Posicionamento do paciente: O paciente deita-se de costas (decúbito dorsal).
  2. Palpação profunda: O médico palpa o abdome do paciente com as mãos, pressionando profundamente na região periumbilical (ao redor do umbigo).
  3. Percepção de maciez: Na presença de ascite, o líquido ascítico se acumula nos flancos (laterais do abdome) e desloca o intestino para o centro. Ao pressionar profundamente na região periumbilical, o médico sente uma sensação de maciez, como se estivesse tocando um saco de água.
  4. Mobilidade da maciez: Ao mudar a posição do paciente, seja para o lado esquerdo ou direito, a sensação de maciez também se desloca para o lado correspondente. Isso ocorre porque o líquido ascítico é móvel e se acomoda na parte inferior do abdome, dependendo da posição do paciente.

Interpretação do sinal de macicez móvel

  • Presença de maciez móvel na região periumbilical: Sugere a presença de ascite, especialmente quando acompanhado de outros sinais e sintomas, como aumento do abdome, inchaço e peso abdominal.

Observações

  • A sensibilidade e especificidade do sinal de semicírculo de Skoda para o diagnóstico de ascite são variáveis ​​e podem ser influenciadas por fatores como a quantidade de líquido ascítico presente e a técnica utilizada pelo examinador.
  • O sinal de semicírculo de Skoda deve ser utilizado em conjunto com outros sinais, sintomas e exames físicos para um diagnóstico preciso da ascite.
  • O sinal de macicez móvel é um sinal menos sensível para o diagnóstico de ascite em comparação com outros sinais, como o sinal de Skoda ou o semicírculo de Skoda.
  • A presença do sinal de macicez móvel pode estar associada a outras condições, como tumores abdominais ou grandes cistos ovarianos.
  • O diagnóstico preciso da ascite requer avaliação médica completa, incluindo exame físico, histórico do paciente e exames complementares, como ultrassom abdominal ou paracentese (punção no abdome para remover o líquido ascítico para análise).

Referência:

  1. Manual teório de semiotécnica médica