
O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), também conhecido como transtorno de personalidade limítrofe, é uma condição de saúde mental marcada por instabilidade emocional intensa, comportamentos impulsivos e relacionamentos interpessoais turbulentos. Embora seja um transtorno frequentemente mal compreendido, ele tem grande impacto na vida do paciente e exige atenção cuidadosa da equipe de enfermagem, especialmente em ambientes hospitalares, de urgência e saúde mental.
Esta publicação tem como objetivo explicar de forma clara e prática o que é o transtorno borderline, como ele se manifesta e quais são os cuidados que o profissional de enfermagem deve ter no acompanhamento dessas pessoas.
O Que É o Borderline? Viver no Limite das Emoções
Imagine viver em uma montanha-russa emocional constante, onde os altos são eufóricos e os baixos são abismos profundos, e essa mudança pode acontecer em questão de minutos ou horas. Essa é uma das características mais marcantes do TPB: uma instabilidade emocional intensa e persistente.
Mas não é só isso. O termo “borderline” (linha limite) surgiu porque, por muito tempo, a condição era vista como estando na “fronteira” entre a neurose e a psicose. Hoje, sabemos que é um transtorno de personalidade, caracterizado por um padrão generalizado de instabilidade nas relações interpessoais, autoimagem, afetos e impulsividade.
Os Pilares da Instabilidade: Sintomas que Revelam o TPB
Para que um diagnóstico de TPB seja feito, a pessoa precisa apresentar pelo menos cinco dos nove critérios abaixo, de forma persistente e em diversos contextos da vida, começando geralmente na adolescência ou início da vida adulta:
Instabilidade Afetiva (Emocional): A Montanha-Russa Interna
- Oscilações Intensas de Humor: Mudanças rápidas e drásticas de humor, que podem ir da euforia à raiva, tristeza profunda ou ansiedade, em pouco tempo. As emoções são vividas de forma muito mais intensa do que o comum.
- A verdade nua e crua: Não é “drama” ou “birra”. É uma dificuldade genuína em regular as próprias emoções, que são sentidas de forma avassaladora e que fogem ao controle.
Padrão de Relacionamentos Instáveis e Intensos: Amor e Ódio
- Idealização e Desvalorização: As relações são extremas. A pessoa com TPB pode idealizar alguém intensamente, vendo-o como perfeito, e de repente, desvalorizá-lo completamente, como se fosse a pior pessoa do mundo, por pequenos motivos. Essa mudança é chamada de “cisão” ou “divisão”.
- Medo Intenso de Abandono: Um pavor paralisante de ser abandonado, seja real ou imaginário. Isso pode levar a esforços desesperados para evitar o abandono, como suplicar, se humilhar, ou até mesmo ameaçar a si mesmo.
- A verdade nua e crua: Esse medo de abandono é a raiz de muitos comportamentos. A pessoa age de forma a “testar” o limite dos outros, na tentativa de ter certeza de que não será deixada, mas acaba afastando as pessoas.
Perturbação da Identidade: Quem Sou Eu?
- Autoimagem Instável: Uma profunda sensação de incerteza sobre quem realmente é. Os valores, objetivos, a identidade sexual e até a carreira podem mudar drasticamente em pouco tempo.
- A verdade nua e crua: A pessoa não tem um senso sólido de si mesma, o que gera um vazio crônico e uma busca incessante por algo que preencha essa lacuna.
Impulsividade: Agir Antes de Pensar
- Comportamentos Impulsivos e Potencialmente Prejudiciais: Gastos excessivos, sexo desprotegido, abuso de substâncias (álcool, drogas), direção imprudente, compulsão alimentar.
- A verdade nua e crua: A impulsividade é uma forma de tentar aliviar a dor emocional intensa, mesmo que traga consequências negativas a longo prazo.
Comportamentos Suicidas Recorrentes ou Automutilação: O Alívio Doloroso
- Ameaças, Gestos ou Tentativas de Suicídio: São comuns e devem ser levados a sério.
- Comportamentos Automutilatórios: Cortar-se, queimar-se, bater a cabeça. Não são necessariamente tentativas de suicídio, mas formas de lidar com a dor emocional extrema, transformando-a em dor física, ou de “sentir algo” quando o vazio é insuportável.
- A verdade nua e crua: Esses atos são um grito de socorro e uma tentativa desesperada de aliviar o sofrimento. Exigem intervenção imediata e acompanhamento contínuo.
Instabilidade Afetiva (Parte 2): Raiva Intensa e Inadequada
- Raiva Inadequada e Dificuldade em Controlá-la: Explosões de raiva, fúria constante, brigas físicas recorrentes, que são desproporcionais à situação.
- A verdade nua e crua: A raiva é mais uma emoção sentida em grau máximo, e a pessoa não tem ferramentas para gerenciá-la de forma saudável.
Sentimentos Crônicos de Vazio: Um Buraco na Alma
- Sensação Persistente de Vazio: Um sentimento de oco, de que algo falta, que pode levar à busca por excitação constante ou comportamentos de risco para preencher esse vazio.
Ideação Paranoide Transitória ou Sintomas Dissociativos Graves: Desconexão da Realidade
- Sintomas Dissociativos: Sentir-se desconectado do próprio corpo (despersonalização) ou da realidade ao redor (desrealização) em momentos de estresse intenso.
- Ideação Paranoide: Desconfiança excessiva em relação aos outros, especialmente em situações de estresse.
- A verdade nua e crua: Esses sintomas são mecanismos de defesa do cérebro para lidar com o sofrimento insuportável.
As Causas: Uma Trama Complexa
Não há uma causa única para o TPB. Geralmente, é uma combinação de fatores:
- Genética: Há uma predisposição familiar.
- Neurobiologia: Disfunções em áreas do cérebro que regulam emoções, impulsividade e tomada de decisões.
- Traumas na Infância: Histórico de abuso (físico, sexual, emocional), negligência, abandono ou ambientes familiares instáveis.
O Tratamento: Um Caminho de Aprendizado e Superação
A boa notícia é que o TPB tem tratamento, e a terapia é o pilar fundamental.
- Terapia Dialética Comportamental (TDC): É a terapia de escolha para o TPB. Ela ensina habilidades para regular emoções, tolerar o sofrimento, melhorar relacionamentos e lidar com a impulsividade.
- Psicoterapia Individual: Outras abordagens terapêuticas também podem ser eficazes.
- Farmacoterapia: Não existe um medicamento específico para o TPB, mas os remédios (antidepressivos, estabilizadores de humor, antipsicóticos) podem ser usados para tratar sintomas específicos como ansiedade, depressão, raiva ou psicose.
- Internação Hospitalar: Em crises graves, especialmente com risco de suicídio ou automutilação, a internação pode ser necessária para estabilização e segurança.
Cuidados de Enfermagem
Nós, profissionais de enfermagem, somos peças-chave no cuidado a pacientes com TPB, seja no hospital, no CAPS, no ambulatório ou no home care. É um trabalho desafiador, que exige paciência, consistência e muito conhecimento.
Estabelecer uma Relação Terapêutica:
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- Consistência e Limites Claros: Seja previsível e estabeleça limites firmes, mas empáticos. Pessoas com TPB testam os limites, não por maldade, mas pela dificuldade em confiar e regular emoções.
- Validação Emocional: Reconheça e valide os sentimentos do paciente (“Eu entendo que você esteja se sentindo assim, é muito doloroso”), mesmo que você não concorde com o comportamento.
- Evitar Julgamentos: Lembre-se de que os comportamentos são sintomas de um sofrimento intenso.
Manejo da Crise e Risco de Suicídio/Automutilação:
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- Avaliação de Risco Contínua: Pergunte diretamente sobre pensamentos suicidas e planos. Leve todas as ameaças a sério.
- Contrato de Segurança: Se apropriado, pode-se estabelecer um contrato de segurança com o paciente.
- Remoção de Meios: Retirar objetos cortantes, medicamentos em excesso, etc., do ambiente.
- Monitoramento e Supervisão: Aumentar a vigilância, especialmente em momentos de crise.
- Técnicas de Redução de Danos: Ensinar alternativas à automutilação (ex: segurar gelo na mão, prender um elástico no pulso, desenhar com caneta vermelha no local que quer cortar).
Manejo da Impulsividade e da Raiva:
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- Ambiente Seguro: Manter o ambiente seguro para o paciente e para a equipe.
- Técnicas de Relaxamento: Ensinar exercícios de respiração, mindfulness.
- Estratégias de Comunicação: Encorajar o paciente a expressar a raiva de forma construtiva.
Educação em Saúde:
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- Sobre o Transtorno: Explicar ao paciente e à família o que é o TPB, que é uma condição tratável e que não é culpa de ninguém.
- Adesão ao Tratamento: Reforçar a importância da terapia e da medicação, se prescrita.
- Sinais de Alerta: Ensinar a identificar os próprios gatilhos e os sinais de que uma crise está se aproximando.
Cuidados com a Equipe:
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- Reuniões de Equipe: Discutir estratégias de manejo e alinhar condutas.
- Suporte Emocional: Trabalhar com pacientes com TPB pode ser exaustivo. Buscar apoio entre a equipe e supervisão é fundamental para evitar o burnout.
O Transtorno da Personalidade Borderline é uma condição que exige um olhar humano, compreensivo e, ao mesmo tempo, técnico e assertivo. Nós, profissionais de enfermagem, temos um papel transformador na vida desses pacientes, oferecendo estabilidade em meio ao caos emocional e guiando-os no caminho da recuperação. É um trabalho desafiador, mas que nos lembra constantemente da importância de ver o ser humano além do diagnóstico.
Referências:
- AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. (Capítulo sobre Transtornos da Personalidade).
- BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica: Saúde Mental. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. (Disponível em sites oficiais do Ministério da Saúde ou no portal da Biblioteca Virtual em Saúde).
- LINEHAN, M. M. Terapia Cognitivo-Comportamental para Transtorno da Personalidade Borderline. Porto Alegre: Artmed, 2010. (Obra fundamental sobre a Terapia Dialética Comportamental – TDC).
- SADOCK, B. J.; SADOCK, V. A.; RUIZ, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. (Capítulo sobre Transtornos da Personalidade).


