Medicamentos Antirretrovirais (ARV)

O tratamento da infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) é uma das grandes vitórias da medicina moderna. Graças à Terapia Antirretroviral (TARV), o que antes era uma sentença de morte se transformou em uma condição crônica e controlável. O segredo está em usar um coquetel de medicamentos que atacam o vírus em diferentes estágios do seu ciclo de vida.

Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, entender a farmacologia dos Antirretrovirais (ARVs) é fundamental. Não se trata apenas de administrar o comprimido; trata-se de educar o paciente sobre a adesão rigorosa, monitorar os efeitos adversos e interagir com uma medicação que, literalmente, impede a progressão da doença para a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS). Vamos detalhar as principais classes de ARVs e como elas atuam no organismo.

Por que usar antirretrovirais?

Os antirretrovirais (ARV) têm como objetivo principal inibir a replicação do vírus HIV dentro das células-hospedeiras, permitir a recuperação do sistema imune (elevação dos linfócitos CD4+) e assegurar a supressão da carga viral. Isso reduz o risco de doenças oportunistas, melhora a qualidade de vida e diminui a transmissão do vírus.

É importante lembrar que o tratamento não visa erradicar o vírus (ainda não existe cura), mas manter-lo sob controle. A adesão acima de 95% do regime terapêutico é um fator determinante para o sucesso.

Por Que um Coquetel? Atacando o Ciclo Viral

O sucesso da TARV reside na combinação de pelo menos três drogas de, idealmente, duas classes diferentes. O objetivo é bloquear o vírus em múltiplos pontos, garantindo a supressão viral máxima e prevenindo o desenvolvimento de resistência medicamentosa.

O ciclo de vida do HIV possui seis etapas principais. As classes de ARVs atuam bloqueando essas etapas:

Inibidores da Transcriptase Reversa Nucleosídeos/Nucleotídeos (ITRNs/ITRNt)

Esta é a classe fundamental, a “espinha dorsal” de quase todos os regimes de tratamento.

  • O Que Fazem: Atacam a enzima Transcriptase Reversa, que o HIV usa para converter seu material genético (RNA) em DNA viral, um passo essencial para se integrar ao material genético da célula humana. Os ITRNs/ITRNt se inserem nessa cadeia de DNA em construção, agindo como tijolos defeituosos e interrompendo o processo.
  • Exemplos Comuns: Tenofovir (TDF ou TAF), Lamivudina (3TC), Emtricitabina (FTC), Abacavir (ABC).
  • Cuidados de Enfermagem: Monitorar toxicidade renal (principalmente com o TDF) e hepática. O Tenofovir/Emtricitabina é a base da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP).

Inibidores da Transcriptase Reversa Não-Nucleosídeos (ITRNNs)

Esta classe também ataca a Transcriptase Reversa, mas de uma maneira diferente.

  • O Que Fazem: Ligam-se diretamente à enzima, desativando-a (travando a máquina), sem precisar ser incorporados à cadeia de DNA viral.
  • Exemplos Comuns: Efavirenz (EFV), Nevirapina (NVP), Rilpivirina (RPV).
  • Cuidados de Enfermagem: O Efavirenz é conhecido por causar efeitos neuropsiquiátricos (sonhos vívidos, insônia, tontura), especialmente nas primeiras semanas. Aconselhar o paciente a tomá-lo preferencialmente à noite, longe das refeições ricas em gordura.

Inibidores de Protease (IPs)

Os IPs atuam em uma fase tardia do ciclo de vida do vírus.

  • O Que Fazem: Bloqueiam a enzima Protease, que é essencial para cortar as longas cadeias de proteínas virais em pedaços menores e funcionais, permitindo a montagem de novos vírus. Ao bloquear a protease, os novos vírus formados são imaturos e não infecciosos.
  • Exemplos Comuns: Atazanavir (ATV), Darunavir (DRV), Lopinavir/Ritonavir (LPV/r).
  • Cuidados de Enfermagem: Monitorar alterações metabólicas (dislipidemia e resistência à insulina). O Ritonavir (RTV) é frequentemente usado em baixas doses (booster) para aumentar a concentração de outros IPs.

Inibidores de Integrase (INI)

Considerada a classe mais potente e com alta tolerabilidade, é a preferida em muitos regimes atuais.

  • O Que Fazem: Bloqueiam a enzima Integrase, que o HIV usa para costurar seu DNA viral recém-formado no DNA da célula hospedeira. Ao impedir essa integração, o vírus não consegue se replicar.
  • Exemplos Comuns: Dolutegravir (DTG), Raltegravir (RAL), Bictegravir (BIC).
  • Cuidados de Enfermagem: Monitorar a função renal e o possível ganho de peso. O Dolutegravir (DTG) é frequentemente a primeira escolha em novos diagnósticos, devido à sua eficácia e ao alto limiar para resistência.

Inibidores de entrada/fusão ou correceptor (CCR5)

Agem antes da entrada do vírus na célula-hospedeira, bloqueando a fusão ou o receptor que o vírus utiliza para adentrar na célula. Exemplos incluem Maraviroc (MVC) e Enfuvirtida (T-20).

Outras classes emergentes

Recentemente emergiram drogas como os inibidores de capsídeo (por exemplo, Lenacapavir) para casos de HIV multirresistente, o que demonstra a evolução contínua da terapia ARV.

Esquemas de tratamento e importância da combinação

O regime padrão para terapia antirretroviral envolve pelo menos três medicamentos de classes diferentes para evitar resistência viral e aumentar a eficácia. Em muitos casos, combinações fixas (“coformulados”) reduzem a carga de medicação e ajudam na adesão.

O enfermeiro deve compreender que a adesão ao tratamento é um pilar central: atrasos, doses esquecidas ou abandono do esquema podem levar à falha terapêutica, resistência viral e piora clínica.

Cuidados de enfermagem no uso de antirretrovirais

  • Avaliação prévia: conhecer o histórico do paciente, comorbidades (hepatites, tuberculose), contraindicações, alergias e interações medicamentosas.
  • Orientação quanto à administração: horários fixos, jejum ou alimentação, custódia dos comprimidos, conservação correta do medicamento.
  • Monitoramento de efeitos adversos: como toxicidade hepática, dislipidemia, lipodistrofia, neuropatia, e observar sinais de síndrome de reconstituição imune.
  • Fomentar a adesão: avaliar barreiras ao tratamento (estigma, transporte, confiança), oferecer educação em saúde, motivar paciente e familiares.
  • Registro e comunicação: documentar o esquema terapêutico, alterações, adesão e suporte prestado.
  • Vigilância de interações: muitos ARVs interagem com outros medicamentos, o enfermeiro deve estar atento quando há polimedicação.

Os antirretrovirais são uma arma poderosa no enfrentamento do HIV, mas seu sucesso depende de combinação apropriada, adesão consistente e atenção integral da equipe de saúde, sobretudo da enfermagem. O profissional que domina as classes, conhece os cuidados e acompanha o paciente de perto contribui para resultados melhores e vida mais longa e saudável para quem vive com HIV.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV e Outras IST em Adultos. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/dathi/publicacoes/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-para-manejo-da-infeccao-pelo-hiv-e-outras-ist-em-adultos
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA (SBI). Recomendações e Guias Terapêuticos de HIV. Disponível em: https://www.infectologia.org.br/
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Tratamento da infecção pelo HIV. Brasília: MS, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/hiv-aids/tratamento.
  4. GIV – Grupo de Incentivo à Vida. Medicamentos: HIV/AIDS. [Internet]. Disponível em: https://giv.org.br/HIV-e-AIDS/Medicamentos/index.html
  5. MSD Manual. Tratamento antirretroviral da infecção pelo HIV. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/doen%C3%A7as-infecciosas/v%C3%ADrus-da-imunodefici%C3%AAncia-humana-hiv/tratamento-antirretroviral-da-infec%C3%A7%C3%A3o-pelo-hiv

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