Wake Up Stroke

Imagine a cena: você vai dormir se sentindo bem, acorda e percebe que não consegue mexer um lado do corpo ou que sua fala está arrastada. Essa é a realidade assustadora de quem sofre um Wake-Up Stroke (AVC ao acordar), um tipo de Acidente Vascular Cerebral que acontece durante o sono ou no período em que a pessoa está dormindo, e os sintomas só são notados ao despertar.

Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, o Wake-Up Stroke representa um desafio particular.

Por que?

Porque o tempo é cérebro no AVC, e a ausência de um horário claro de início dos sintomas complica a janela de tratamento. Entender essa condição e como abordá-la é crucial para otimizar as chances de recuperação dos nossos pacientes. Vamos mergulhar nesse mistério?

O Que É o Wake-Up Stroke? O AVC Silencioso da Noite

Um AVC tradicional tem um horário de início dos sintomas bem definido – a pessoa estava bem em um momento e, de repente, sente a boca torta, o braço fraco ou a fala enrolada. Isso é fundamental para decidir o tratamento, especialmente a trombólise (uso de medicamentos para dissolver o coágulo), que tem uma “janela de tempo” limitada.

No Wake-Up Stroke, a pessoa acorda com os sintomas neurológicos e não consegue dizer quando eles começaram. Isso significa que o momento exato do AVC é desconhecido. Por convenção, para fins de tratamento, a última vez que o paciente foi visto bem (geralmente ao ir para a cama na noite anterior) é considerada o “tempo zero” do AVC. Isso, muitas vezes, coloca o paciente fora da janela de tratamento padrão para a trombólise venosa.

Por que acontece?

O AVC ao acordar, na maioria das vezes, é um AVC isquêmico (causado por um coágulo que bloqueia uma artéria no cérebro). Durante o sono, há variações na pressão arterial e na frequência cardíaca que podem favorecer a formação ou deslocamento de coágulos.

Os Desafios do Diagnóstico e Tratamento: O Relógio Está Contra Nós

A grande questão do Wake-Up Stroke é a janela terapêutica. A trombólise venosa com alteplase, o principal tratamento para o AVC isquêmico agudo, é mais eficaz e segura se administrada em até 4,5 horas do início dos sintomas. Se não sabemos quando o AVC começou, como decidir?

Antigamente, muitos pacientes com Wake-Up Stroke eram excluídos da trombólise. No entanto, a medicina evoluiu, e hoje temos ferramentas que nos ajudam a identificar pacientes que ainda podem se beneficiar.

  • Ressonância Magnética (RM) de Crânio: Essa é a principal ferramenta. Através de sequências específicas (como FLAIR e difusão), a RM pode ajudar a estimar se o AVC é “recente” (menos de 4,5 horas) ou mais antigo.
    • Sequência de Difusão (DWI): Mostra áreas de infarto agudo (onde o tecido cerebral está morrendo) que aparecem rapidamente após o AVC.
    • Sequência FLAIR: Demora um pouco mais para mostrar alterações (horas).
    • “Mismatch” DWI-FLAIR: Se a lesão aparece na difusão, mas não na FLAIR, isso sugere que o AVC é recente (provavelmente dentro da janela de 4,5 horas). Esse achado permite que esses pacientes sejam considerados para a trombólise.
  • Trombectomia Mecânica: Mesmo que o paciente esteja fora da janela da trombólise venosa, se tiver uma oclusão de grande vaso cerebral (identificada por angiotomografia ou angioressonância), ele ainda pode ser elegível para a trombectomia mecânica (retirada do coágulo por um cateter), que tem uma janela de tempo mais estendida (até 24 horas em casos selecionados, dependendo da área do cérebro em risco).

Sinais de Alerta: Identificando um Possível Wake-Up Stroke

Embora os sintomas só sejam notados ao acordar, eles são os mesmos de qualquer AVC. Nós, profissionais de enfermagem, precisamos estar aptos a identificá-los rapidamente:

  • FAST (Face, Arm, Speech, Time):
    • F (Face – Face): Um lado do rosto caído ao sorrir ou pedir para mostrar os dentes.
    • A (Arm – Braço): Fraqueza ou dormência em um braço ao tentar levantá-los.
    • S (Speech – Fala): Dificuldade para falar (fala arrastada, incompreensível) ou para entender.
    • T (Time – Tempo): Chamar o SAMU/Emergência imediatamente. Embora o tempo de início seja desconhecido, a urgência é a mesma!
  • Outros Sinais:
    • Confusão mental súbita.
    • Alteração súbita na visão em um ou ambos os olhos.
    • Dificuldade súbita para andar, tontura, perda de equilíbrio ou coordenação.
    • Dor de cabeça súbita e intensa sem causa aparente.

Cuidados de Enfermagem: Nossa Atuação Imediata e Abrangente

No caso de um paciente que chega com suspeita de Wake-Up Stroke, nossa conduta é decisiva:

  1. Prioridade e Rapidez: Receber o paciente como uma urgência neurológica. O tempo entre a chegada ao hospital e o início do tratamento (Door-to-Needle Time) precisa ser o menor possível.
  2. Anamnese Focada: Obter o máximo de informações da família ou acompanhantes sobre a última vez que o paciente foi visto bem, medicações em uso, histórico de doenças (hipertensão, diabetes, arritmias, tabagismo).
  3. Avaliação Neurológica Rápida:
    • Escala de Glasgow: Para avaliar o nível de consciência.
    • NIHSS (National Institutes of Health Stroke Scale): Essencial para quantificar o déficit neurológico. Essa escala deve ser realizada rapidamente e de forma precisa, pois orienta o tratamento.
  4. Monitorização Constante:
    • Sinais Vitais: Pressão arterial (manter em níveis que garantam perfusão cerebral, mas evitem hemorragia), frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação de oxigênio, temperatura.
    • Glicemia Capilar (HGT): Realizar imediatamente, pois hipo ou hiperglicemia podem mimetizar ou agravar os sintomas do AVC.
  5. Preparação para Exames:
    • Acesso Venoso: Garantir pelo menos dois acessos venosos calibrosos.
    • Exames Laboratoriais: Coletar sangue para coagulograma (INR, PTTa), hemograma, eletrólitos, função renal, entre outros.
    • Eletrocardiograma (ECG): Realizar ECG de 12 derivações para avaliar arritmias.
    • Tomografia Computadorizada (TC) de Crânio Imediata: Para excluir sangramento cerebral. Se não houver sangramento, o paciente pode ser elegível para RM.
  6. Gerenciamento da Via Aérea e Ventilação: Garantir que o paciente esteja com via aérea pérvia e boa oxigenação. Se necessário, elevar a cabeceira do leito para prevenir broncoaspiração.
  7. Preparação para o Tratamento: Se o paciente for elegível para trombólise, preparar a medicação (Alteplase), bomba de infusão, e monitorar o paciente rigorosamente para sinais de complicação (hemorragia).
  8. Suporte e Educação à Família: Explicar a situação, a necessidade de agilidade e as etapas do tratamento. A família geralmente está em choque e precisa de informações claras e apoio.
  9. Registro Preciso: Documentar minuciosamente o tempo de chegada, os achados da avaliação, os exames realizados, as medicações administradas e a resposta do paciente.

O Wake-Up Stroke, embora desafiador pela incerteza do tempo, é um campo onde a inovação diagnóstica e a agilidade da equipe de enfermagem fazem uma diferença monumental. Estar preparado para identificar, agir e coordenar o cuidado com excelência é a nossa contribuição vital para esses pacientes que, ao acordar, se deparam com a realidade de um AVC.

Referências:

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA) / AMERICAN STROKE ASSOCIATION (ASA). Guidelines for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke: A Guideline for Healthcare Professionals From the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke, Dallas, v. 50, n. 12, p. e344-e418, dez. 2019. Disponível em: https://www.ahajournals.org/doi/full/10.1161/STR.0000000000000211. (É fundamental consultar a edição mais recente das diretrizes da AHA/ASA, pois elas são atualizadas com base nas últimas pesquisas, incluindo Wake-Up Stroke).
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do Acidente Vascular Cerebral (AVC). Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2012. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/linha_cuidado_acidente_vascular_cerebral.pdf
  3. CAMPOS, P. M. C. et al. Tratamento do acidente vascular cerebral isquêmico agudo: uma revisão da literatura. Revista da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, São Paulo, v. 14, n. 2, p. 106-111, 2016.

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