
Para muitas pessoas, um ciclo menstrual irregular é apenas um inconveniente. No entanto, quando o sangramento se torna excessivo, prolongado ou ocorre em momentos inesperados, entramos no domínio do Sangramento Uterino Anormal (SUA). Dentro desse termo guarda-chuva, o Sangramento Uterino Disfuncional (SUD) é um diagnóstico específico que merece nossa atenção, especialmente porque ele é um diagnóstico de exclusão.
O SUD é, na essência, um sangramento anormal do útero que ocorre na ausência de qualquer doença orgânica ou estrutural identificável. Simplificando: o sangramento não é causado por miomas, pólipos, infecção, trauma ou câncer.
É um problema no eixo hormonal, que controla a ovulação e o ciclo menstrual. Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, compreender as nuances do SUD é crucial para orientar e cuidar das pacientes que frequentemente chegam aos serviços de saúde com queixas de sangramento volumoso e persistente.
O que é o Sangramento Uterino Disfuncional?
O sangramento uterino disfuncional é definido como qualquer alteração do padrão menstrual — seja em volume, duração, frequência ou regularidade — que não está relacionada a gravidez, infecções, tumores, doenças estruturais do útero ou outras causas orgânicas identificáveis.
Em outras palavras, é um diagnóstico de exclusão. Ocorre, principalmente, devido a distúrbios hormonais, especialmente ligados à ovulação irregular ou ausente.
A Origem do Problema: O Ciclo Anovulatório
O SUD ocorre quase sempre em ciclos anovulatórios, ou seja, ciclos em que a mulher não ovula.
- O Ciclo Normal: No ciclo normal, o ovário libera um óvulo (ovulação). Após a ovulação, o corpo lúteo produz progesterona. A progesterona é o hormônio que estabiliza o endométrio (camada interna do útero), garantindo que ele se descame de forma organizada e controlada durante a menstruação.
- O Ciclo Anovulatório: Sem a ovulação, não há corpo lúteo, e consequentemente, não há progesterona. O endométrio cresce continuamente apenas sob a influência do estrogênio (que continua sendo produzido). Ele se torna espesso, frágil e vascularizado.
- O Resultado: Eventualmente, o endométrio fica tão espesso que começa a se desintegrar em pedaços irregulares e imprevisíveis, causando sangramento errático, longo e, muitas vezes, intenso. Este é o SUD.
As Múltiplas Faces do Sangramento: Onde o SUD Se Manifesta
O SUD é mais comum em duas faixas etárias onde a anovulação é fisiológica:
- Adolescência: Nos primeiros anos após a menarca (primeira menstruação), o eixo hipotálamo-hipófise-ovário ainda está imaturo. É comum haver anovulação e, consequentemente, SUD.
- Perimenopausa: Conforme a mulher se aproxima da menopausa, a função ovariana começa a falhar, a ovulação se torna errática, e o SUD se torna frequente.
Causas do Sangramento Uterino Anormal (SUA) – O Diagnóstico de Exclusão
É essencial que o SUD seja um diagnóstico de exclusão. Isso significa que, antes de afirmar que o sangramento é “disfuncional” (hormonal), o médico precisa descartar todas as causas orgânicas e sistêmicas (estruturais e não estruturais).
A AHA utiliza um mnemônico para classificar as causas do Sangramento Uterino Anormal (SUA), conhecido como PALM-COEIN:
Causas Estruturais (PALM) – Que Devem Ser Excluídas:
- Pólipo
- Adenomiose
- Leiomioma (Miomas)
- Malignidade (Câncer)
Causas Não Estruturais (COEIN) – Onde se Enquadra o SUD:
- Coagulopatia (Distúrbios de coagulação)
- Ovulatória Disfunção (Aqui está o SUD – problemas hormonais/anovulação)
- Endometrial (Problemas específicos do endométrio, como inflamação)
- Iatrogênica (Causada por medicamentos, como anticoagulantes ou certos contraceptivos)
- Não Classificada (Rara)
Portanto, o SUD está especificamente no grupo da Disfunção Ovulatória (O), sendo causado por desregulações hormonais, tais como:
- Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP): Leva à anovulação crônica.
- Doenças da Tireoide: Tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo podem desregular o ciclo.
- Estresse Extremo ou Perda de Peso Acentuada: Afetam o eixo hipotálamo-hipófise.
Fatores metabólicos
Doenças metabólicas também estão associadas ao SUD:
- Obesidade
- Resistência à insulina
- Diabetes mellitus
- Hiperprolactinemia
Essas alterações influenciam diretamente o balanço hormonal ovariano.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é baseado em exclusão. Antes de confirmar o SUD, é preciso descartar causas estruturais ou orgânicas, como miomas, pólipos, adenomiose, câncer do endométrio, gravidez ou infecções ginecológicas.
A avaliação envolve:
- História clínica e menstrual detalhada
- Exame físico e ginecológico
- Exames laboratoriais (hemograma, TSH, prolactina, β-hCG, coagulograma, perfil hormonal)
- Ultrassonografia pélvica transvaginal
- Em casos selecionados: histeroscopia, biópsia de endométrio
Tratamento do Sangramento Uterino Disfuncional
O tratamento varia conforme a causa, idade da mulher, desejo reprodutivo e intensidade dos sintomas.
Tratamentos clínicos
- Anticoncepcionais combinados para regularizar o ciclo
- Progesterona isolada (oral ou injetável)
- DIU hormonal com levonorgestrel
- Antifibrinolíticos (como ácido tranexâmico) para reduzir sangramentos
- AINES (como ibuprofeno, naproxeno) em casos específicos
Tratamentos cirúrgicos
São reservados para casos refratários:
- Ablação endometrial
- Histeroscopia cirúrgica
- Histerectomia (última opção)
Cuidados de Enfermagem
O manejo do SUD varia de acordo com a gravidade do sangramento e a idade da paciente.
Emergência e Estabilização:
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- Monitoramento: Em casos de sangramento volumoso e prolongado (menorragia), a paciente pode ter anemia e até choque hipovolêmico. Garantir acessos venosos calibrosos, monitorar sinais vitais e coletar exames de hemoglobina/hematócrito com urgência.
- Educação: Ensinar a paciente a quantificar o sangramento (ex: contagem de absorventes encharcados por hora) para relatar a gravidade com precisão.
Adesão ao Tratamento Hormonal:
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- O tratamento padrão para SUD geralmente envolve a administração de hormônios (progesterona ou contraceptivos orais combinados) para estabilizar o endométrio.
- Intervenção de Enfermagem: Reforçar a importância da adesão rigorosa ao horário da medicação para controlar o ciclo e interromper o sangramento. Orientar sobre possíveis efeitos colaterais dos hormônios.
Aconselhamento e Estilo de Vida:
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- Como a causa principal é a anovulação, a enfermagem deve identificar e aconselhar sobre fatores modificáveis:
- Nutrição: Aconselhar sobre dietas balanceadas (evitando extremos).
- Estresse: Sugerir técnicas de relaxamento ou encaminhamento psicológico.
- Como a causa principal é a anovulação, a enfermagem deve identificar e aconselhar sobre fatores modificáveis:
Quando o sangramento é considerado uma emergência?
É preciso encaminhar imediatamente ao serviço de urgência quando houver:
- Sangramento intenso que não diminui com medidas iniciais;
- Sinais de choque (palidez, tontura, sudorese fria, taquicardia);
- Dor abdominal forte associada;
- Suspeita de gravidez.
O sangramento uterino disfuncional é um quadro multifatorial, que exige avaliação cuidadosa e abordagem centrada na paciente. Conhecer suas causas, manifestações e tratamentos é essencial para que o estudante e o profissional de enfermagem atuem com segurança, garantindo acolhimento e assistência adequada.
Referências:
- FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Manual de Ginecologia: Sangramento Uterino Anormal. São Paulo: FEBRASGO, 2023. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Orientações para o Cuidado de Sangramento Uterino Anormal. (Buscar diretrizes em fontes governamentais ou acadêmicas). Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br.
- ACOG – American College of Obstetricians and Gynecologists. Management of Abnormal Uterine Bleeding in Reproductive-Aged Women. Practice Bulletin, 2019. Disponível em: https://www.acog.org.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à Saúde da Mulher: Manual Técnico. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude.
- HERSCHORN, L.; REED, S. Abnormal Uterine Bleeding. StatPearls Publishing, 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK532913/.
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FIGO – International Federation of Gynecology and Obstetrics. FIGO Classification System (PALM-COEIN) for Causes of Abnormal Uterine Bleeding. International Journal of Gynecology & Obstetrics, 2018. Disponível em: https://www.figo.org.






