
No meio de tantos nomes, conceitos e teorias que aprendemos na graduação, algumas se destacam por oferecerem uma perspectiva diferente e muito prática sobre o nosso fazer diário.
Uma dessas figuras é Ida Jean Orlando, uma enfermeira e pesquisadora que nos deixou um legado importantíssimo sobre como a interação entre enfermeiro e paciente pode ser a chave para um cuidado verdadeiramente eficaz.
Sua teoria, conhecida como Teoria do Processo Deliberativo de Enfermagem, pode parecer só mais um nome complicado à primeira vista, mas garanto que, ao entendê-la, você vai perceber o quanto ela faz sentido no “aqui e agora” do cuidado. A proposta de Orlando não é criar um plano de cuidados de longo prazo cheio de etapas complexas, mas sim focar naquilo que acontece imediatamente quando você e seu paciente estão frente a frente. Vamos desvendar juntos como funciona esse processo?
O Ponto Central: A Necessidade Imediata do Paciente
Antes de entrarmos nas etapas, é fundamental entender o coração da teoria de Orlando: tudo gira em torno de identificar e atender a necessidade imediata de ajuda do paciente.
Ela observou que muitas vezes o comportamento do paciente (o que ele diz, o que ele faz, sua expressão facial, seu tom de voz) é um sinal de algum tipo de angústia ou necessidade não atendida. O grande objetivo do enfermeiro, segundo Orlando, é descobrir qual é essa necessidade e agir de forma deliberada (ou seja, pensada, intencional) para aliviá-la.
Desmembrando o Processo Deliberativo: As Etapas na Visão de Orlando
Embora possamos fazer um paralelo com as etapas clássicas do Processo de Enfermagem (SAE), é importante ver como Orlando as interpreta de maneira única, focada na interação dinâmica.
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O Início de Tudo: Percepção do Comportamento e Reação da Enfermeira (Nosso “Levantamento de Dados” Imediato)
Tudo começa com a sua percepção. Você, enfermeiro(a), observa o paciente. O que ele está fazendo? O que ele está dizendo? Como ele está agindo? Esse é o comportamento do paciente. Pode ser algo verbal (“Estou com dor”) ou não verbal (um rosto contorcido, agitação na cama, choro silencioso).
Ao perceber esse comportamento, algo acontece dentro de você:
- Percepção: O que seus sentidos captaram (viu, ouviu).
- Pensamento: O que você interpreta ou associa àquela percepção (“Ele parece desconfortável”, “Será que é dor ou medo?”).
- Sentimento: Como aquilo te afeta emocionalmente (preocupação, empatia, talvez até frustração).
Orlando chama essa resposta interna (percepção + pensamento + sentimento) de reação da enfermeira. Atenção: essa reação é automática e sua, não necessariamente a realidade do paciente. E é aqui que mora o perigo das suposições e o diferencial da teoria dela. Esse conjunto (comportamento do paciente + reação inicial da enfermeira) seria o equivalente ao nosso levantamento de dados, mas focado no momento presente.
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O Pulo do Gato: A Validação (O “Diagnóstico” da Necessidade Real)
Aqui está a etapa mais crucial e distintiva da teoria de Orlando: a validação. Antes de sair fazendo qualquer coisa baseada apenas na sua reação interna, Orlando diz que você precisa checar com o paciente se a sua percepção ou pensamento está correto.
Como fazer isso? Compartilhando sua percepção ou pensamento de forma exploratória. Por exemplo:
- Em vez de assumir que o paciente agitado está com dor e já administrar um analgésico, você valida: “Percebi que você está se mexendo bastante na cama. Tem alguma coisa te incomodando agora?”.
- Ou se você pensou que o choro era de tristeza: “Notei que você está chorando. Quer conversar sobre o que está sentindo?”.
Essa validação serve para confirmar (ou corrigir) sua interpretação e identificar a real necessidade imediata do paciente naquele momento. É como se fosse o “diagnóstico” da situação presente, feito junto com o paciente. É descobrir o que realmente está causando a angústia ou o comportamento observado. Sem essa etapa, corremos o risco de realizar ações que não ajudam em nada ou até pioram a situação, pois são baseadas em nossas suposições.
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A Ação Deliberada: Planejando e Implementando a Ajuda Certa
Uma vez que a necessidade foi validada junto ao paciente, aí sim entra a ação da enfermagem. Mas não qualquer ação. Orlando enfatiza que a ação deve ser deliberativa. Isso significa que ela deve ser:
- Intencional: Pensada especificamente para atender àquela necessidade que foi confirmada.
- Útil: Que realmente ajude a aliviar a angústia ou resolver o problema imediato.
- Validada: Idealmente, a própria ação proposta também pode ser verificada com o paciente (“Se eu te ajudar a mudar de posição, você acha que aliviaria esse desconforto?”).
Essa ação deliberada é a junção do planejamento (decidir o que fazer com base na necessidade validada) e da implementação (realizar a ação). Na prática de Orlando, essas duas fases acontecem de forma muito integrada e rápida, logo após a validação. O foco não é em rotinas pré-estabelecidas, mas na resposta personalizada à necessidade imediata identificada.
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Fechando o Ciclo (ou Recomeçando): A Avaliação da Resposta
E como saber se a sua ação deliberada funcionou? Observando novamente o paciente. A avaliação, na teoria de Orlando, é verificar se a ação da enfermagem atendeu à necessidade original e aliviou a angústia.
Você vai observar:
- O comportamento do paciente mudou?
- Ele expressa alívio verbalmente?
- Sua expressão facial está mais tranquila?
- A necessidade que ele apresentou foi resolvida?
Se a resposta for sim, ótimo! O processo imediato foi eficaz. Se a resposta for não, ou se surgir um novo comportamento indicando outra necessidade, o ciclo recomeça: nova percepção, nova reação interna, nova validação, nova ação deliberada… e assim por diante. É um processo dinâmico e contínuo.
Por Que a Teoria de Orlando Ainda é Tão Relevante?
Em um mundo cada vez mais tecnológico e, por vezes, impessoal na saúde, a Teoria do Processo Deliberativo de Ida Orlando nos resgata para a essência da enfermagem: a relação terapêutica e a comunicação eficaz. Ela nos lembra constantemente:
- Não assuma, pergunte.
- Ouça ativamente o seu paciente.
- Valide suas percepções antes de agir.
- Foque na necessidade real e imediata.
- Suas ações devem ser pensadas e intencionais para aquela pessoa, naquele momento.
Entender e tentar aplicar o processo deliberativo no dia a dia pode transformar a qualidade do seu cuidado, tornando-o mais centrado no paciente, mais eficaz e, sinceramente, mais gratificante para ambos, paciente e enfermeiro. É um convite a estar verdadeiramente presente na interação.
Referências:
- GEORGE, J. B. et al. Teorias de enfermagem: os fundamentos para a prática profissional. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.
- ORLANDO, I. J. The dynamic nurse-patient relationship: function, process and principles. New York: G.P. Putnam’s Sons, 1961. [Reeditado pela National League for Nursing Press – NLN Press, 1990. ISBN 978-0887374897].
- POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.





