Teoria de Ida Jean Orlando: Processo Deliberativo de Enfermagem

No meio de tantos nomes, conceitos e teorias que aprendemos na graduação, algumas se destacam por oferecerem uma perspectiva diferente e muito prática sobre o nosso fazer diário.

Uma dessas figuras é Ida Jean Orlando, uma enfermeira e pesquisadora que nos deixou um legado importantíssimo sobre como a interação entre enfermeiro e paciente pode ser a chave para um cuidado verdadeiramente eficaz.

Sua teoria, conhecida como Teoria do Processo Deliberativo de Enfermagem, pode parecer só mais um nome complicado à primeira vista, mas garanto que, ao entendê-la, você vai perceber o quanto ela faz sentido no “aqui e agora” do cuidado. A proposta de Orlando não é criar um plano de cuidados de longo prazo cheio de etapas complexas, mas sim focar naquilo que acontece imediatamente quando você e seu paciente estão frente a frente. Vamos desvendar juntos como funciona esse processo?

O Ponto Central: A Necessidade Imediata do Paciente

Antes de entrarmos nas etapas, é fundamental entender o coração da teoria de Orlando: tudo gira em torno de identificar e atender a necessidade imediata de ajuda do paciente.

Ela observou que muitas vezes o comportamento do paciente (o que ele diz, o que ele faz, sua expressão facial, seu tom de voz) é um sinal de algum tipo de angústia ou necessidade não atendida. O grande objetivo do enfermeiro, segundo Orlando, é descobrir qual é essa necessidade e agir de forma deliberada (ou seja, pensada, intencional) para aliviá-la.

Desmembrando o Processo Deliberativo: As Etapas na Visão de Orlando

Embora possamos fazer um paralelo com as etapas clássicas do Processo de Enfermagem (SAE), é importante ver como Orlando as interpreta de maneira única, focada na interação dinâmica.

  1. O Início de Tudo: Percepção do Comportamento e Reação da Enfermeira (Nosso “Levantamento de Dados” Imediato)

Tudo começa com a sua percepção. Você, enfermeiro(a), observa o paciente. O que ele está fazendo? O que ele está dizendo? Como ele está agindo? Esse é o comportamento do paciente. Pode ser algo verbal (“Estou com dor”) ou não verbal (um rosto contorcido, agitação na cama, choro silencioso).

Ao perceber esse comportamento, algo acontece dentro de você:

  • Percepção: O que seus sentidos captaram (viu, ouviu).
  • Pensamento: O que você interpreta ou associa àquela percepção (“Ele parece desconfortável”, “Será que é dor ou medo?”).
  • Sentimento: Como aquilo te afeta emocionalmente (preocupação, empatia, talvez até frustração).

Orlando chama essa resposta interna (percepção + pensamento + sentimento) de reação da enfermeira. Atenção: essa reação é automática e sua, não necessariamente a realidade do paciente. E é aqui que mora o perigo das suposições e o diferencial da teoria dela. Esse conjunto (comportamento do paciente + reação inicial da enfermeira) seria o equivalente ao nosso levantamento de dados, mas focado no momento presente.

  1. O Pulo do Gato: A Validação (O “Diagnóstico” da Necessidade Real)

Aqui está a etapa mais crucial e distintiva da teoria de Orlando: a validação. Antes de sair fazendo qualquer coisa baseada apenas na sua reação interna, Orlando diz que você precisa checar com o paciente se a sua percepção ou pensamento está correto.

Como fazer isso? Compartilhando sua percepção ou pensamento de forma exploratória. Por exemplo:

  • Em vez de assumir que o paciente agitado está com dor e já administrar um analgésico, você valida: “Percebi que você está se mexendo bastante na cama. Tem alguma coisa te incomodando agora?”.
  • Ou se você pensou que o choro era de tristeza: “Notei que você está chorando. Quer conversar sobre o que está sentindo?”.

Essa validação serve para confirmar (ou corrigir) sua interpretação e identificar a real necessidade imediata do paciente naquele momento. É como se fosse o “diagnóstico” da situação presente, feito junto com o paciente. É descobrir o que realmente está causando a angústia ou o comportamento observado. Sem essa etapa, corremos o risco de realizar ações que não ajudam em nada ou até pioram a situação, pois são baseadas em nossas suposições.

  1. A Ação Deliberada: Planejando e Implementando a Ajuda Certa

Uma vez que a necessidade foi validada junto ao paciente, aí sim entra a ação da enfermagem. Mas não qualquer ação. Orlando enfatiza que a ação deve ser deliberativa. Isso significa que ela deve ser:

  • Intencional: Pensada especificamente para atender àquela necessidade que foi confirmada.
  • Útil: Que realmente ajude a aliviar a angústia ou resolver o problema imediato.
  • Validada: Idealmente, a própria ação proposta também pode ser verificada com o paciente (“Se eu te ajudar a mudar de posição, você acha que aliviaria esse desconforto?”).

Essa ação deliberada é a junção do planejamento (decidir o que fazer com base na necessidade validada) e da implementação (realizar a ação). Na prática de Orlando, essas duas fases acontecem de forma muito integrada e rápida, logo após a validação. O foco não é em rotinas pré-estabelecidas, mas na resposta personalizada à necessidade imediata identificada.

  1. Fechando o Ciclo (ou Recomeçando): A Avaliação da Resposta

E como saber se a sua ação deliberada funcionou? Observando novamente o paciente. A avaliação, na teoria de Orlando, é verificar se a ação da enfermagem atendeu à necessidade original e aliviou a angústia.

Você vai observar:

  • O comportamento do paciente mudou?
  • Ele expressa alívio verbalmente?
  • Sua expressão facial está mais tranquila?
  • A necessidade que ele apresentou foi resolvida?

Se a resposta for sim, ótimo! O processo imediato foi eficaz. Se a resposta for não, ou se surgir um novo comportamento indicando outra necessidade, o ciclo recomeça: nova percepção, nova reação interna, nova validação, nova ação deliberada… e assim por diante. É um processo dinâmico e contínuo.

Por Que a Teoria de Orlando Ainda é Tão Relevante?

Em um mundo cada vez mais tecnológico e, por vezes, impessoal na saúde, a Teoria do Processo Deliberativo de Ida Orlando nos resgata para a essência da enfermagem: a relação terapêutica e a comunicação eficaz. Ela nos lembra constantemente:

  • Não assuma, pergunte.
  • Ouça ativamente o seu paciente.
  • Valide suas percepções antes de agir.
  • Foque na necessidade real e imediata.
  • Suas ações devem ser pensadas e intencionais para aquela pessoa, naquele momento.

Entender e tentar aplicar o processo deliberativo no dia a dia pode transformar a qualidade do seu cuidado, tornando-o mais centrado no paciente, mais eficaz e, sinceramente, mais gratificante para ambos, paciente e enfermeiro. É um convite a estar verdadeiramente presente na interação.

Referências:

  1. GEORGE, J. B. et al. Teorias de enfermagem: os fundamentos para a prática profissional. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.
  2. ORLANDO, I. J. The dynamic nurse-patient relationship: function, process and principles. New York: G.P. Putnam’s Sons, 1961. [Reeditado pela National League for Nursing Press – NLN Press, 1990. ISBN 978-0887374897].
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018. 

Teoria de Myra Levine

A teoria de Myra Levine é uma abordagem holística da enfermagem que enfatiza a importância da adaptação do indivíduo às mudanças ambientais.

A teoria da Conservação

Levine propôs quatro princípios de conservação: conservação de energia, conservação da integridade estrutural, conservação da integridade pessoal e conservação da integridade social. Esses princípios orientam as intervenções de enfermagem para manter ou restaurar o equilíbrio do sistema humano.

A sua teoria foi desenvolvida a partir de sua experiência como enfermeira, educadora e pesquisadora, e tem sido aplicada em diversos contextos de enfermagem, incluindo a saúde comunitária.

Para fundamentação da reflexão optamos pelo modelo conceitual de Myra Levine da Teoria Holística. Levine avalia o Homem como um todo, ou seja, um ser que deve estar em harmonia e íntegro para manter seu equilíbrio, o qual perante alterações emite respostas em congruência com o ambiente em que vive e estímulos externos e internos que recebe.

Estas respostas modificam a integridade da pessoa, podendo trazer várias consequências para seu estado de saúde.

Referência:

  1. Fagundes, N. C.. (1983). O processo de enfermagem em saúde comunitária a partir da teoria de Myra Levine. Revista Brasileira De Enfermagem, 36(3-4), 265–273. https://doi.org/10.1590/S0034-71671983000400007

Teoria de Lydia Hall

Lydia Hall foi uma enfermeira americana que desenvolveu a teoria do cuidado, núcleo e cura na década de 1960.

Essa teoria propõe que a enfermagem se baseia em três aspectos: o cuidado com o corpo do paciente, o núcleo que envolve a comunicação terapêutica e a cura que se refere ao conhecimento médico da doença.

Hall defendia que a enfermagem era uma profissão autônoma e que o enfermeiro deveria usar o pensamento crítico e o uso terapêutico do self para ajudar os pacientes com doenças crônicas.

Sua teoria foi influenciada por Carl Rogers e pelas ciências naturais, sociais e patológicas.

A teoria dos 3 “C”s

Lydia Hall estabeleceu três círculos independentes, mas interconectados, como um esquema. Os círculos consistem em: cuidado “CARE”, núcleo “CORE” e cura “CURE”. Cada um pode crescer ou não, dependendo de cada caso e de cada paciente.

O núcleo do círculo

Para Hall, o núcleo é o mesmo paciente que recebe atendimento de enfermagem personalizado. O paciente como núcleo deve ter objetivos estabelecidos por ele mesmo e não por mais ninguém e se comportar de acordo com seus valores.

Nesse sentido, o atendimento ao paciente baseia-se nas relações sociais, emocionais, espirituais e intelectuais que mantém com a família, a instituição e a comunidade.

Essas técnicas de Hall são capazes de ajudar o paciente a expressar seus sentimentos em relação ao processo da doença usando um método reflexivo. Por meio dessa reflexão, o paciente pode melhorar sua própria identidade.

O círculo de cuidados

Lydia Hall estabeleceu três círculos independentes, mas interconectados, como um esquema. Os círculos consistem em: cuidado, núcleo e cura. Cada um pode crescer ou não, dependendo de cada caso e de cada paciente.

Para o círculo de cuidados, Hall afirma que a abordagem dos enfermeiros está no papel da nutrição do paciente. Nutrir significa alimentá-lo, sentir-se à vontade e proporcionar atividades de aprendizado.

Este círculo define a principal função que os enfermeiros devem cumprir; Ajude o paciente a desempenhar suas funções biológicas básicas. Praticar todas essas atividades desenvolve empatia entre enfermeiro e paciente, o que é fundamental, segundo Hall.

O círculo de cura

Esta parte da teoria de Hall refere-se à administração de medicamentos e tratamento pelo enfermeiro ao paciente. Hall enfatiza que esse círculo de cura deve ser compartilhado com outros enfermeiros ou outros profissionais de saúde, sejam médicos ou fisioterapeutas.

Durante esse aspecto do cuidado, o enfermeiro deve ser um advogado fiel do paciente; Você deve defender o plano de cuidados que melhor se adequa à pessoa de quem cuida.

Em resumo, na fase de atendimento, o enfermeiro deve se concentrar em ajudar o paciente em suas atividades diárias. Na fase de cura, através do conhecimento médico, o enfermeiro atende às necessidades sociais e de comunicação do paciente.

Referências:

  1. Centro Loeb para registros de enfermagem, Portal Centro de Enfermagem, (s). foundationnysnurses.org
  2. Teoria de enfermagem de Lydia Hall, escritores da geniolândia, (s). geniolandia.com
  3. Lydia E. Hall, Portal Nurseslab, (2014). nurselabs.com
  4. Lydia Hall, escritores de A Verdade sobre Enfermagem, (s). truthaboutnursing.org
  5. Em direção ao modelo iluminado de cura do núcleo de cuidados de Lydia Hall, usando as perspectivas da ARUGA para necessidades holísticas de enfermagem de pacientes filipinos, Leocadio, MC, (2010). journals.lww.com

Teoria de Watson

A teoria de Watson defende o cuidado como uma ciência humana desenvolvida a partir de fundamentos filosóficos e sistemas de valores humanistas.

Quem é a Teorista?

A ideia de cuidado transpessoal surgiu com a enfermeira Drª Jean Watson em 1985, quando fez a primeira reformulação em sua Teoria do Cuidado Humano, lançada por ela entre 1975 e 1979.

Esta teoria, ao longo do tempo, vem sendo aprimorada. Hoje a Teoria do Cuidado Transpessoal, que foi proposta mediante o Processo Clinical Caritas, reúne cuidado e amor para o cuidar pleno e maduro.

Atualmente, a teoria de Watson é adotada em diversas instituições de saúde, como hospitais, centros médicos e universidades com cursos na área da saúde, nos EUA e no México.

Watson Caring Science Institute foi criado pela própria autora para divulgação dos princípios da teoria e auxílio na implantação e manutenção dos pressupostos nos serviços de saúde, além de oferecer treinamentos profissionais, promover pesquisas e eventos científicos e formar doutores em cuidado que considerem a dimensão sagrada humana.

A Teoria

Clinical Caritas é a denominação atual do processo por ela desenvolvido e aprimorado. Inicialmente, era formado por Fatores de Cuidado, dez preceitos que objetivavam a ampliação do cuidado unicamente biológico, coerentes com sua teoria inicial.

Em 2007, então, ela construiu o Clinical Caritas, constituído por dez elementos que consideram o ser cuidado como sagrado (integrante do universo e do divino) e, por isso, merece ser reconhecido com delicadeza, sensibilidade e amor.

Os dez elementos deste cuidado são:

  1. Praticar bondade e equanimidade, inclusive para si;
  2. Estar presente e valorizar o sistema de crenças do ser cuidado;
  3. Cultivar práticas espirituais próprias, aprofundando o conhecimento individual;
  4. Manter o cuidar autêntico por meio de um relacionamento de ajuda-confiança;
  5. Apoiar expressão de sentimentos positivos e negativos;
  6. Utilizar conhecimento e intuição de forma criativa na resolução de problemas;
  7. Vincular-se verdadeiramente na experiência de ensino-aprendizagem;
  8. Proporcionar um ambiente de restauração física, emocional e espiritual;
  9. Promover alinhamento de corpo, mente e espírito a fim de atender às necessidades do indivíduo;
  10. Considerar os aspectos espirituais e de vida e morte.

Diversos desses elementos guardam relação com a empatia. Praticar bondade consigo (elemento 1), previamente à oferta de cuidado ao outro, está atrelado ao reconhecimento da humanidade existente no profissional, que também possui emoções em suas relações.

Para Watson, todos os envolvidos no processo de cuidado devem expressar seus sentimentos, de forma que a relação empática se construa mutuamente. Desta forma, cria-se um espaço para relações horizontais de cuidado que favorecem o respeito mútuo.

Estar presente nas relações (elemento 2) representa o fundamento da empatia. É a partir do foco e da atenção dispensada ao outro que o processo empático se inicia e que torna possível a compreensão da experiência alheia.

Estamos presentes onde está nossa atenção. Se ao cuidarmos estivermos preocupados com outras questões e ou situações não relacionadas ao outro que está a nossa frente, dificilmente conseguiremos desenvolver e demonstrar empatia.

O terceiro elemento do cuidado diz respeito ao cultivo de práticas que melhorem o autoconhecimento. A manutenção de atividades que desenvolvam o autoconhecimento é incentivada por teoristas da empatia, pois ele é fundamental para o movimento interno que proporciona a capacidade de se colocar no lugar do outro.

Temos no quinto elemento do Clinical Caritas, o incentivo à exposição de sentimentos, sejam positivos ou negativos. Isso permite, inicialmente, que o paciente consiga reconhecer suas emoções para, então, aceitá-las ou confrontá-las.

Quando isso ocorre, o enfermeiro é capaz de conhecer as sensações reais do paciente e colocar-se em seu lugar. Para isso, a escuta sensível é necessária, além do tempo que ela implica nas interações entre o enfermeiro e o paciente.

Muitos podem dizer que ela é praticamente impossível a depender das condições estruturais e de organização do trabalho. Sem dúvidas, são aspectos que têm seu peso, mas, por outro lado, sabemos que se trata também de uma escolha pessoal na forma de conduzir a assistência. Ouvir o outro é algo que requer treino, inclusive para além das situações assistenciais.

Envolver-se em uma interação educativa com o paciente (elemento 7) representa a possibilidade de conexão verdadeira entre os envolvidos, visto que o enfermeiro que incentiva e favorece a participação do paciente nas tomadas de decisões, respeitando, inclusive, preceitos éticos da profissão, ressalta o processo de autonomia dos envolvidos.

O reconhecimento do outro como capaz de fazer escolhas é um aspecto fundamental da relação empática, pois é a partir desta consideração que se originam os fatores cognitivo e emocional da empatia.

Os elementos oito e nove estão relacionados à promoção do equilíbrio do ambiente e dos indivíduos, respectivamente. A postura empática, que acolhe e aceita o outro, é capaz de influenciar fortemente tais aspectos.

O comportamento empático pode tanto provocar uma mudança em um ambiente desfavorável quanto atender às necessidades físicas, mentais e emocionais dos indivíduos.

Reconhecer o que em um ambiente é hostil para o outro, colocar-se no seu lugar e optar não só por intervenções técnico-procedimentais, mas por uma postura que o modifique, está no cerne da restauração e atendimento das necessidades previstas nesses elementos.

Quanto ao elemento dez, cabe-nos a reflexão de como a empatia auxilia nos aspectos relacionados à espiritualidade, à vida e à morte. Como colocar-se no lugar do outro que está em processo de morte, se é uma experiência ainda não vivenciada?

Há algum tempo, o atendimento às necessidades espirituais dos pacientes nessas situações praticamente se restringiam a promover a visita de um líder religioso. Contudo, os avanços na área de cuidados paliativos possibilitam que o profissional ultrapasse atitudes mais distanciadas de reais necessidades dos pacientes e o pensamento atribuído a Cicely Saunders pode resumir o que é ser empático diante deste cenário:

“eu me importo pelo fato de você ser você, me importo até o último momento da sua vida, e faremos tudo que estiver ao seu alcance, não somente para ajudar você a morrer em paz, mas também para você viver até o dia da sua morte”

Percebe-se que esses pressupostos consideram uma visão humanística do ser humano, seja ele profissional ou paciente, de maneira que ambos possam ter respeitados seus princípios, fortalecida sua autonomia e sejam participantes de uma estrutura de cuidado mais sensível e acolhedora.

Pelo exposto, é possível compreender, também, que a empatia permeia todo o processo de cuidado de Jean Watson, uma vez que a aplicação dos elementos do Clinical Caritas é possibilitada pelo comportamento empático.

Por outro lado, ao se experienciar a assistência transpessoal, a empatia é oportunizada, visto que para atingir os objetivos deste cuidado é primordial que se reconheça o paciente como participante do processo, detentor de anseios e expectativas, com história pregressa de vida.

Referências:

1 Mathias JJS, Zagonel IPS, Lacerda MR. Processo clinical caritas: novos rumos para o cuidado de enfermagem transpessoal. Acta Paul. Enferm. 2006 maio/jun; 19(3): 332-7. 
2 Sales LVT, Paixão MG, Castro O. Teoria do cuidado transpessoal – Jean Watson. In: Braga CG, Silva JV. Teorias de Enfermagem. São Paulo, Iátria, 2011. p 225-47.
Silva CMC, Valente GSC, Bitencourt GR, Brito LN. A teoria do cuidado transpessoal na Enfermagem: Análise segundo Meleis. Cogitare enferm. 2010 jul/set; 15(3): 548-51.
Favero L, Pagliuca LMF, Lacerda MR. Cuidado transpessoal em enfermagem: uma análise pautada em modelo conceitual. Rev. Esc. Enferm. USP 2013 mar/abr; 47(2): 500-5
5 Davison N, Williams K. Compassion in nursing 1: defining, identifying and measuring this essential quality. Nurs. Times 2009 set; 105 (36): 16-8. 
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9 Moss C, Nelson K, Connor M, Wensley C, McKinlay E, Boulton A. Patient experience in the emergency department: inconsistencies in the ethic and duty of care. J. Clin. Nurs. 2014 Jan; 24(1-2):275-88. 
10 Pytel C, Fielden MSN, Meyer KH, Albert N. Nurse-patient/visitor communication in the emergency department. J. Emerg. Nurs. 2009 Set; 35(5): 406-11. 
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12 Formiga NS. Os estudos sobre empatia: reflexões sobre um construto psicológico em diversas áreas científicas. [Internet]. Porto (Portugal): O portal dos psicólogos; 2012. Disponível em: http://www.psicologia.pt/artigos/textos/A0639.pdf
13 Paro HBMS, Silveira PSP, Perotta B, Gannam S, Enns SC, Giaxa RRB et al. Empathy among medical students: Is there a relation with quality of life and burnout? PLOSOne [on line] 2014 Apr; ; 9(4): Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3976378/
14 Scarpellini GR, Capellato G, Rizzatti FG, Silva GA, Baddini-Martinez JA. Escala CARE de empatia: tradução para o português falado no Brasil e resultados iniciais de validação. Medicina (Ribeirão Preto), 2014 jan/mar; 47(1): 51-8. 
15 Severino AJ. Metodologia do trabalho científico. 22ª ed. São Paulo: Cortez; 2002.
16 Watsoncaringscience.org [página da internet]. Boulder: Watson Caring Science Institute & International Caritas Consortium; 2014. Disponível em: http://watsoncaringscience.org/
17  Watson J. Caritas Nursing: Taking time/Making time [gravação de video]. John C Lincoln North Mountain Hospital, Phoenix, EUA; 2012. 70 min.
18 Portaria n. 881 de 19 de junho de 2001. Dispõe sobre o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH). Diário Oficial da União, 21 jun 2001; Seção 1:1.
19 Silva MJP. Comunicação tem remédio. São Paulo: Loyola, 2011.
20 Pessini L. A filosofia dos cuidados paliativos: uma resposta diante da obstinação terapêutica. In: Pessini L; Bertachini L. Humanização e cuidados paliativos. 2ª ed. São Paulo: Loyola ; 2004. p. 181-208.
21 Schauric D, Crossetti MGO. Produção do conhecimento sobre teorias de Enfermagem: análise de periódicos da área, 1998-2007. Esc. Anna Nery. 2010 jan/mar; 14(1): 182-8. 
22 Favero L, Meier MJ, Lacerda MR, Mazza VA, Kalinowski LC. Aplicação da Teoria do Cuidado Transpessoal de Jean Watson: uma década de produção brasileira. Acta Paul. Enferm. 2009 fev/mar; 22(2): 213-8. 
23 Gordon J, Sheppard LA, Anaf S. The patient experience in the emergency department: a systematic synthesis of qualitative research. Intern. Emerg. Nurs. 2010 Apr; 18(2): 80-8. 
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Teoria de Jean Watson

A Teoria de Jean Watson é uma abordagem de enfermagem que enfatiza o cuidado humano como uma ciência e uma arte.

Watson propõe que o cuidado transpessoal é a forma mais elevada de cuidar, que envolve uma conexão profunda entre o enfermeiro e o paciente, além do aspecto físico. Segundo Watson, o cuidado transpessoal pode influenciar os aspectos humano, espiritual e transpessoal do paciente, promovendo sua saúde e bem-estar.

Watson desenvolveu sua teoria a partir de fundamentos filosóficos e valores humanistas, buscando evitar a desumanização do paciente devido à burocratização dos sistemas de saúde.

Sua teoria é composta por dez fatores de cuidado, que são orientações para a prática de enfermagem baseada no cuidado transpessoal. Watson também criou o conceito de Processo Clinical Caritas, que é uma forma de aplicar sua teoria na prática clínica, enfatizando a intencionalidade, a consciência e a escolha do enfermeiro ao cuidar do paciente.

A Teoria do Cuidado Transpessoal

 A Teoria do Cuidado Transpessoal apresenta 10 (dez) fatores de cuidado, os quais são a base para o cuidado transpessoal em sua visão holística.

Abordam o ser humano como um todo biológico social e espiritual unido, que não pode ser fragmentado, e leva em consideração o profissional de enfermagem como ser humano. Nessa interação paciente/profisssional, é que se dá o processo de cuidado, cerne fundamental da enfermagem.

 Esses fatores são:

  1. formação de um sistema de valores humanístico-altruísta;
  2. estimulação da fé-esperança;
  3. cultivo da sensibilidade para si e para os outros;
  4. desenvolvimento do relacionamento de ajuda-confiança;
  5. promoção e aceitação da expressão de sentimentos positivos e negativos;
  6. uso sistemático do método científico de solução de problemas para tomar decisões;
  7. promoção do ensino-aprendizagem interpessoal;
  8. provisão de um ambiente mental, físico, sociocultural e espiritual sustentador, protetor e/ou corretivo;
  9. auxílio com a gratificação das necessidades humanas;
  10. aceitação das forças existenciais e fenomenológicas.

 Além disso, a Teoria abrange sete pressupostos sobre o cuidado, os quais o postulam como o atributo mais valioso que a Enfermagem tem para sociedade humana, embora ameaçado pelo contínuo crescimento tecnológico na área médica.

Os pressupostos da Teoria são:

  1. o cuidado pode ser efetivado, demonstrado e praticado apenas interpessoalmente;
  2. consiste de fatores que resultam na satisfação de determinadas necessidades humanas;
  3. promove a saúde e o crescimento individual e familiar;
  4. as respostas do cuidado aceitam a pessoa não apenas como ela é agora, mas como ela poderá ser;
  5. o ambiente de cuidado é aquele que oferece o desenvolvimento potencial, enquanto permite que a pessoa escolha a melhor ação para si, em determinado momento;
  6. centralizado no cuidado e não na cura, de modo que sua prática integra o conhecimento biofísico ao comportamento humano para gerar ou promover a saúde e proporcionar atendimento aos que estão doente;
  7. o cuidado é a essência da prática de enfermagem e é fundamental à Enfermagem.  Esses pressupostos filosóficos permeiam o processo de cuidado humano em enfermagem, bem como, permitem o enfoque da Enfermagem no conceito de pessoa como um ser integral.

Aplicabilidade do cuidado transpessoal na prática de enfermagem

Para a Teoria do Cuidado Transpessoal, a Enfermagem é “uma ciência humana de pessoas e experiências de saúde-doença humanas que são mediadas pelas transações de cuidados profissionais, científicos, estéticos e éticos”.

Assim, o cuidado transpessoal tenta se sobrepor à valorização da tecnologia, que estima somente a cura, e procura considerar como prioridade o próprio paciente. O cuidado  pode ser considerado sua essência, já que a enfermeira participa da assistência enquanto pessoa. Deve haver uma reciprocidade entre o profissional e o paciente, de modo a preconizar a meta de estímulo a autonomia do enfermo e buscar o seu autocontrole e autoconhecimento.

 A interação enfermeiro-paciente desenvolve relações interpessoais, nas quais cada um desempenha funções específicas. Ao enfermeiro incumbe o fornecimento de apoio e proteção, com tomada de decisão científica. Ao cliente, cabem experiências positivas responsáveis por mudanças, as quais podem levar à satisfação das necessidades humanas e ao processo de ser saudável.

 O cuidado pode servir como essência da Enfermagem e seu atributo mais valioso. O alicerce por meio dos processos de cuidado, visa fornecer auxílio às pessoas para atingir um alto grau de harmonia dentro de si, de forma a promover o autoconhecimento e a própria cura.

A utilização da teoria em questão pode promover o crescimento pessoal dos pacientes e da Enfermagem, traduzido por relacionamentos interpessoais mais significativos, com a ajuda/confiança e ainda pelo sentimento de liberdade.

Além disso, a Teoria de Watson pode ser utilizada no planejamento para cuidados integrais, associados ao desenvolvimento do processo de Enfermagem para a execução de intervenções para o paciente.

Referências:

  1. Waldow VR. Cuidado humano o resgate necessário. Porto Alegre: Sagra Luzzatto; 1999.
  2. Zagonel IPS. O cuidado humano transicional na trajetória de enfermagem. Rev Latino-Am Enfermagem. 1999;7(3):25-32
  3. Watson J. Caring science as sacred science. Philadelphia: F.A. Davis; 2004.

Teoria de Madeleine Leininger

A Teoria da Diversidade e Universalidade do Cuidado Cultural de Madeleine Leininger é uma teoria de enfermagem que busca compreender e respeitar as diferenças e semelhanças culturais entre os indivíduos, grupos e comunidades.

Segundo Leininger, o cuidado cultural é a essência e o objetivo central da enfermagem, pois é através dele que se pode promover a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas.

A teoria propõe que o enfermeiro deve conhecer os valores, crenças, práticas e modos de vida dos seus clientes, bem como as suas necessidades, expectativas e percepções sobre o cuidado. Assim, o enfermeiro pode planejar e implementar intervenções de cuidado culturalmente congruentes, que respeitem a diversidade e a universalidade do cuidado cultural.

A teoria também enfatiza a importância da pesquisa transcultural para o desenvolvimento do conhecimento de enfermagem e a melhoria da prática profissional.

A teoria de Leininger

A teoria de Leininger, é focada em fornecer cuidados que estejam em harmonia com as crenças, práticas e valores culturais de um paciente. Na década de 1960, ela cunhou a frase “cuidado culturalmente congruente”, que é o objetivo principal da enfermagem transcultural. Alguns dos princípios básicos da enfermagem transcultural incluem uma compreensão do seguinte:

Diversidade e universalidade do cuidado cultural, que se refere às diferenças e semelhanças entre diferentes culturas.

Dimensões da estrutura cultural e social, que inclui fatores que incluem religião, estruturas sociais e economia que diferenciam as culturas.

Preservação ou manutenção do cuidado cultural, que se relaciona com atividades de cuidado de enfermagem que auxiliam culturas específicas a reterem os valores culturais centrais relacionados à saúde.

APLICAÇÃO INTERDISCIPLINAR DA TDUCC

Ao longo dos anos, a teorista tem revelado à comunidade científica que a TDUCC pode e deve ser aplicada nas diversas disciplinas da enfermagem. Tal fato, é notório quando evidenciamos a aplicação da teoria na administração de enfermagem, educação, pesquisa e saúde mental.

A Proposta

1. usar de forma mais explícita os conhecimentos da enfermagem cultural em todas as áreas clínicas de enfermagem;
2. desenvolver mais estudos e avaliar os benefícios do cuidado culturalmente competente;
3. promover e usar as políticas, princípios, paradigmas e perspectivas teóricas da enfermagem transcultural para guiar as decisões e ações da enfermagem;
4. a necessidade de especialistas em enfermagem transcultural impactar o conhecimento da enfermagem transcultural na mídia, nas agências governamentais, dentre outros;
5. conduzir pesquisas criativas para descobrir outras culturas ainda pouco conhecidas;
6. abordar questões éticas, morais e legais relacionadas à diversas culturas;
7. estabelecer colaboração de educação, pesquisa e prática multi e interdisciplinares mantendo o foco distinto de cada disciplina;
8. disseminar o conhecimento da enfermagem cultural em publicações internacionais;
9. a necessidade de estabelecer fundos para a educação e pesquisa transcultural e
10. a necessidade de estabelecer uma rede global de enfermagem transcultural.

Referência:

  1. https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/lil-413295