
Quando a gente pensa na história da enfermagem no Brasil, um nome brilha com uma força incrível: Anna Nery. Mais do que um busto em praça pública, ela foi uma mulher de fibra, com uma história de vida marcante e uma dedicação aos feridos de guerra que a consagrou como a mãe da enfermagem brasileira.
Pra gente que tá trilhando esse caminho do cuidado, conhecer a saga de Anna Nery é se conectar com as raízes da nossa profissão e se inspirar em sua bravura. Vamos juntos nessa jornada pela vida dessa heroína?
Uma Vida Dedicada à Família, Um Coração Voltado ao Próximo
Anna Justina Ferreira nasceu em Salvador, Bahia, em 1814. Casou-se cedo com o Capitão-de-Fragata Isidoro Antônio Nery e construiu uma vida familiar dedicada aos seus três filhos: Justiniano de Castro Rebêllo (fevereiro de 1839); Isidoro Antônio Néri (24 de março de 1841); e Pedro Antônio Néri (13 de maio de 1842). Era uma mulher culta, falava francês e italiano, e vivia os costumes da sociedade da época. Nada ali parecia indicar a trajetória extraordinária que o destino lhe reservava.
No entanto, a guerra sempre traz consigo reviravoltas inesperadas. Com o início da Guerra do Paraguai (1864-1870), seus filhos foram convocados para lutar. O coração de mãe de Anna Nery não aguentou a distância e a preocupação. Movida por um amor incondicional e um profundo senso de humanidade, ela escreveu ao presidente da província da Bahia, oferecendo seus serviços como enfermeira voluntária nos hospitais de campanha.
O Front como Palco de Coragem e Dedicação
O pedido de Anna Nery foi aceito, e em agosto de 1865, aos 51 anos, ela partiu para o front de batalha. Lá, encontrou um cenário desolador: hospitais improvisados, superlotados, com poucos recursos e muitos feridos precisando de cuidados urgentes. Sem hesitar, Anna Nery colocou a mão na massa.
Ela atuou incansavelmente em diversos hospitais de campanha, como os de Corrientes, Humaitá e Assunção. Cuidava dos soldados brasileiros e também dos prisioneiros paraguaios, demonstrando uma compaixão que transcendia as fronteiras do conflito. Limpava ferimentos, administrava medicamentos (com os poucos recursos disponíveis), confortava os que sofriam e, muitas vezes, era o último rosto que os moribundos viam.
Apesar das condições adversas, da falta de materiais e do cansaço extremo, Anna Nery nunca esmoreceu. Sua presença era um alento para os soldados, que a viam como um anjo da guarda em meio ao caos da guerra. Sua dedicação e seu amor ao próximo eram contagiantes, inspirando outros a ajudar e a manter a esperança em meio ao sofrimento.
Uma Precursora da Enfermagem Moderna no Brasil
Embora a figura de Anna Nery se destaque principalmente por sua atuação humanitária na Guerra do Paraguai, seu legado vai além da bravura nos campos de batalha. Sua iniciativa de se oferecer como voluntária e sua atuação nos hospitais de campanha, mesmo sem formação específica na área, a colocam como uma precursora da enfermagem moderna no Brasil.
Naquela época, o cuidado aos doentes era frequentemente realizado por religiosos ou por pessoas sem treinamento formal. A dedicação, a organização e o empenho de Anna Nery em proporcionar um cuidado mais digno e atencioso aos feridos representaram um marco importante para o reconhecimento da necessidade de pessoas dedicadas e capacitadas para essa função.
É importante ressaltar que Anna Nery não desenvolveu uma teoria de enfermagem formal como Florence Nightingale. Sua atuação foi guiada por um forte senso de humanidade e pela necessidade urgente de cuidar dos que sofriam. No entanto, seus atos e sua dedicação lançaram as sementes para a futura profissionalização da enfermagem no Brasil.
Méritos Reconhecidos: Uma Heroína Nacional
Em homenagem à Anna Nery, em 1926, o governo deu o nome dela à Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde. Hoje essa escola se chama Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN) e faz parte da UFRJ. Foi a primeira escola de enfermagem do Brasil!
Mais tarde, em 1938, o presidente Getúlio Vargas criou o Dia do Enfermeiro, comemorado em 12 de maio. Nesse dia, todos os hospitais e escolas de enfermagem do país devem lembrar e homenagear a Anna Nery.
Em 2009, ela foi reconhecida de forma ainda mais especial: virou a primeira mulher a entrar no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”, que fica em Brasília, no Panteão da Liberdade e da Democracia.
Além disso, a Anna Nery já foi homenageada de várias formas:
- Em 1967, os Correios lançaram um selo com o rosto dela.
- A Petrobras colocou o nome dela em uma de suas plataformas de petróleo, a FPSO Anna Nery.
- E a casa onde ela nasceu, na Bahia, virou patrimônio histórico nacional em 1941, e estadual em 1952.
Referências:
- BARRETO, L. F. Anna Nery. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 2015.
- BRASIL. Conselho Federal de Enfermagem. História da Enfermagem Brasileira. [S. l.], [2024]. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/historia-da-enfermagem-brasileira/.
- NOGUEIRA, O. Anna Nery: Heroína da Enfermagem do Brasil. São Paulo: Editora Paulinas, 2009.
- SANTOS, T. C. C. Anna Nery: Ícone da Enfermagem Brasileira. Revista Cogitare Enfermagem, v. 19, n. 4, p. 791-793, 2014. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/cogitare/article/view/37376.


