A flebotomia, também conhecida como dissecção venosa, é um procedimento invasivo utilizado para obtenção de acesso venoso quando as tentativas convencionais falham. Embora não seja um procedimento de rotina, seu conhecimento é fundamental para a enfermagem, especialmente em contextos de urgência, terapia intensiva e pacientes com acesso venoso difícil.
Compreender a flebotomia vai além da técnica em si. Envolve reconhecer indicações, riscos, cuidados antes, durante e após o procedimento, além do papel essencial da enfermagem na segurança do paciente.
O que é flebotomia (dissecção venosa)?
A flebotomia é um procedimento cirúrgico no qual uma veia é exposta por meio de incisão na pele para permitir a inserção direta de um cateter ou cânula venosa. Diferente da punção venosa periférica, na flebotomia a veia é visualizada diretamente, o que garante maior precisão na introdução do dispositivo.
Esse procedimento é realizado por profissional médico capacitado, mas a enfermagem tem papel fundamental no preparo do paciente, na assistência durante o ato e nos cuidados posteriores.
Indicações e Escolha do Sítio Anatômico
A flebotomia não é a primeira escolha, mas sim um recurso de exceção. Ela é indicada quando todas as tentativas de acesso venoso periférico falharam e o acesso venoso central (por punção de subclávia ou jugular) não é possível ou é contraindicado no momento. É um procedimento salvador em casos de ressuscitação volêmica rápida.
Os locais mais comuns para a realização da dissecção são a veia safena magna, na altura do maléolo medial (tornozelo), e as veias basílica ou cefálica, na dobra do cotovelo ou no braço. A veia safena é frequentemente a preferida em situações de trauma, pois é uma estrutura anatômica constante, fácil de localizar e permite que a equipe trabalhe no tronco e braços do paciente enquanto o acesso é estabelecido na perna.
Situações comuns incluem pacientes em choque, grandes queimados, politraumatizados, pacientes críticos com uso prolongado de acessos venosos ou indivíduos com histórico de uso frequente de drogas intravenosas.
Em alguns contextos, a flebotomia também é utilizada quando há necessidade imediata de acesso venoso confiável e rápido, especialmente em emergências.
Diferença entre flebotomia e outros acessos venosos
É importante não confundir flebotomia com punção venosa periférica ou acesso venoso central. Na punção periférica, a veia não é visualizada diretamente. Já no acesso central, o cateter é inserido em grandes vasos, como a veia jugular ou subclávia, geralmente com auxílio de técnica mais avançada.
A flebotomia ocupa um lugar intermediário: é mais invasiva que a punção periférica, porém menos complexa que alguns acessos centrais, sendo uma alternativa valiosa quando outras opções falham.
Como o procedimento é realizado?
Para que a flebotomia ocorra sem intercorrências, o profissional de enfermagem deve organizar o material com antecedência. O kit básico inclui um conjunto de pequena cirurgia (bisturi, pinças hemostáticas do tipo Kelly ou Mosquito, porta-agulhas e tesoura), além de fios de sutura (geralmente seda ou algodão 3-0 ou 4-0), anestésico local, luvas estéreis e o cateter venoso de calibre adequado.
O procedimento começa com a antissepsia rigorosa e a colocação de campos estéreis. Após a anestesia local, o médico realiza uma incisão transversal na pele.
Com a ajuda das pinças, a veia é isolada dos tecidos adjacentes. Um ponto importante que o estudante deve observar é que dois fios de sutura são passados por baixo da veia: um distal, que é amarrado para ocluir o fluxo e servir de guia, e um proximal, que servirá para fixar o cateter posteriormente. É feita uma pequena abertura na veia (venotomia), o cateter é inserido, testado quanto ao refluxo e permeabilidade, e finalmente a pele é suturada.
Riscos e complicações associadas à flebotomia
Por se tratar de um procedimento invasivo, a flebotomia não está isenta de riscos. Entre as principais complicações estão infecção local, sangramento, hematoma, trombose venosa, lesão de estruturas adjacentes e extravasamento de soluções.
Esses riscos reforçam a importância da indicação criteriosa e da vigilância contínua da equipe de enfermagem no pós-procedimento.
Cuidados de enfermagem no pré-procedimento
Antes da flebotomia, a enfermagem deve realizar uma avaliação cuidadosa do paciente. Isso inclui verificar sinais vitais, nível de consciência, condições da pele e histórico de alergias, especialmente a anestésicos locais.
É fundamental orientar o paciente e/ou familiares sobre o procedimento, esclarecendo dúvidas e reduzindo ansiedade. A checagem de exames laboratoriais, como coagulograma, também pode ser necessária conforme prescrição médica.
O preparo adequado do material e a organização do ambiente são responsabilidades essenciais da equipe de enfermagem.
Cuidados de enfermagem durante o procedimento
Durante a flebotomia, a enfermagem deve manter rigorosa técnica asséptica, garantindo a segurança do paciente e prevenindo infecções. O monitoramento dos sinais vitais é indispensável, principalmente em pacientes instáveis.
Também é papel da enfermagem observar sinais de dor, desconforto ou alterações hemodinâmicas, comunicando imediatamente a equipe médica caso algo não evolua conforme o esperado.
Cuidados de enfermagem no pós-procedimento
Após a flebotomia, a atenção da enfermagem se volta para a prevenção de complicações. O local da dissecção deve ser avaliado frequentemente quanto a sinais de sangramento, hematoma, edema, dor, calor ou hiperemia.
A permeabilidade do cateter precisa ser testada regularmente, bem como a integridade do curativo. A troca do curativo deve seguir protocolos institucionais, sempre com técnica estéril.
A enfermagem também deve registrar detalhadamente no prontuário o procedimento realizado, local de inserção, condições do acesso e evolução do paciente.
Limitações e Tempo de Permanência
É importante que o estudante entenda que a flebotomia é um acesso temporário. Geralmente, recomenda-se que o cateter seja removido assim que o paciente estabilizar e for possível obter um acesso venoso de menor risco ou um acesso central definitivo.
O tempo de permanência raramente deve ultrapassar 72 a 96 horas, pois o risco de tromboflebite infecciosa aumenta exponencialmente após esse período. A retirada do cateter também exige cuidados, como a compressão local e a observação de sangramentos residuais.
A importância da flebotomia na prática da enfermagem
Embora menos frequente nos dias atuais, a flebotomia continua sendo um procedimento relevante, especialmente em contextos de emergência e cuidados críticos. Para a enfermagem, conhecer essa técnica fortalece o raciocínio clínico, amplia a capacidade de resposta diante de situações complexas e contribui para uma assistência segura e eficaz.
O cuidado vai muito além da técnica: envolve observação, registro, comunicação e humanização.
A flebotomia é um procedimento que exige conhecimento técnico, preparo adequado e vigilância constante. A enfermagem desempenha papel central em todas as etapas, desde o preparo até o acompanhamento pós-procedimento.
Dominar esse conteúdo é fundamental para estudantes e profissionais que desejam oferecer uma assistência qualificada, segura e baseada em boas práticas.
Referências:
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