O Peso da Responsabilidade: Quando o Erro de Enfermagem se Torna Fatal

Escolher a enfermagem é aceitar uma das missões mais nobres e, ao mesmo tempo, mais pesadas que existem. No dia a dia de um hospital, somos nós que passamos as 24 horas ao lado do paciente. Essa proximidade nos coloca em uma posição privilegiada para salvar vidas, mas também nos deixa na linha de frente de possíveis falhas.

Quando falamos em erros de enfermagem que podem levar à morte, não estamos buscando culpados para punir, mas sim caminhos para entender como o sistema falha e como podemos nos proteger — e proteger quem cuidamos.

Para um estudante, o medo de errar é constante. A verdade é que o ambiente de saúde é complexo e, muitas vezes, caótico. Um erro fatal raramente acontece por um único motivo; ele é quase sempre o desfecho de uma sucessão de pequenas falhas. Entender esses mecanismos é o primeiro passo para uma prática segura e consciente.

O objetivo deste texto não é apontar culpados, mas compreender os principais erros, as causas que os favorecem e o que pode ser feito para evitá-los, especialmente na formação do estudante de enfermagem.

O que são erros assistenciais na enfermagem?

Erros assistenciais são ações ou omissões que fogem das boas práticas, dos protocolos e da ética profissional, resultando ou podendo resultar em dano ao paciente. Eles podem ocorrer mesmo em ambientes organizados e com profissionais experientes, principalmente quando fatores humanos e institucionais se somam.

Nem todo erro leva à morte, mas alguns têm potencial de desencadear eventos graves como insuficiência respiratória, choque, sepse e parada cardiorrespiratória.

Principais erros da enfermagem associados ao risco de morte

Erros na administração de medicamentos

A administração de medicamentos é uma das atividades mais críticas da enfermagem. Falhas nesse processo estão entre as principais causas de eventos adversos graves.

Erros como dose incorreta, medicamento errado, via errada, diluição inadequada ou administração em velocidade incompatível podem causar intoxicações, reações adversas severas, depressão respiratória, arritmias e colapso cardiovascular.

A não conferência da prescrição, a pressa e a rotina automatizada são fatores frequentemente associados a esse tipo de erro.

Falhas na vigilância clínica e monitorização

Um dos papéis centrais da enfermagem é observar continuamente o paciente. Quando sinais de deterioração clínica não são reconhecidos ou são subestimados, o paciente pode evoluir rapidamente para óbito.

Alterações discretas nos sinais vitais, redução do nível de consciência, queda de saturação ou mudança no padrão respiratório muitas vezes antecedem eventos graves. A demora em comunicar a equipe médica ou iniciar intervenções básicas pode ser decisiva.

Omissão de cuidados fundamentais

Cuidados básicos, quando negligenciados, podem gerar consequências graves. A ausência de mudança de decúbito favorece lesões por pressão, que podem evoluir para infecção e sepse. A falta de cuidados com vias aéreas pode levar à broncoaspiração e insuficiência respiratória. A higiene inadequada aumenta o risco de infecções relacionadas à assistência à saúde.

Esses erros geralmente não acontecem por desconhecimento, mas por sobrecarga de trabalho, falta de pessoal e desvalorização dos cuidados básicos.

Erros em procedimentos técnicos

A realização de procedimentos sem domínio técnico, sem supervisão ou fora da competência profissional é um fator de risco importante.

Punções mal executadas, manejo inadequado de dispositivos invasivos, falhas na técnica asséptica e uso incorreto de sondas e cateteres podem resultar em sangramentos, infecções graves, pneumotórax, sepse e óbito.

Para o estudante de enfermagem, reconhecer limites e buscar apoio é uma atitude de segurança, não de fragilidade.

Falhas na comunicação entre a equipe

A comunicação deficiente é uma das principais causas de eventos adversos fatais nos serviços de saúde. Informações incompletas na passagem de plantão, registros inadequados e falta de comunicação sobre alterações clínicas importantes comprometem a continuidade do cuidado.

A enfermagem, por acompanhar o paciente de forma contínua, tem papel essencial na transmissão clara e objetiva dessas informações.

Negligência, imprudência e abandono de plantão

O abandono de plantão e a negligência configuram infrações éticas e legais. A ausência do profissional ou a assistência realizada com desatenção, uso excessivo de celular e desinteresse colocam o paciente em risco direto.

Essas situações comprometem a administração de medicamentos, a vigilância clínica e a resposta a emergências, podendo resultar em morte evitável.

Principais causas que favorecem os erros na enfermagem

Os erros raramente estão ligados a um único fator. Na maioria das vezes, eles são consequência de um conjunto de causas.

Para entender por que um erro acontece, usamos muito na segurança do paciente o Modelo de James Reason, ou Modelo do Queijo Suíço. Imagine que cada barreira de segurança no hospital (o protocolo, a conferência do médico, a checagem do enfermeiro) é uma fatia de queijo. Todas têm furos (falhas potenciais). O acidente ocorre quando os furos de todas as fatias se alinham perfeitamente, permitindo que o erro chegue ao paciente.

As causas principais que geram esses “furos” são conhecidas:

  • Sobrecarga e Fadiga: Equipe de enfermagem com excesso de pacientes e jornadas duplas têm sua capacidade cognitiva reduzida. O cérebro cansado “pula” etapas automáticas de segurança.
  • Comunicação Ineficaz: Passagens de plantão apressadas, prescrições verbais mal interpretadas e a falta de uso de ferramentas como o SBAR geram lacunas de informação fatais.
  • Cultura Punitiva: Quando o hospital pune severamente quem erra, os profissionais escondem os “quase erros”. Sem discutir o erro, o sistema nunca aprende a evitá-lo.
  • Falta de Educação Continuada: Protocolos mudam. Um profissional que não se atualiza pode estar aplicando técnicas ultrapassadas que hoje são consideradas inseguras.

O que pode ser feito para evitar esses incidentes?

A boa notícia é que a segurança do paciente evoluiu muito. Hoje, sabemos que confiar apenas na memória humana é um erro. Para evitar incidentes, precisamos de barreiras sistêmicas.

A implementação da dupla checagem para medicamentos de alto risco é uma das medidas mais eficazes. Ter um segundo colega conferindo a dose e a ampola antes da aplicação cria uma barreira física ao erro. Além disso, o uso da tecnologia, como a checagem por código de barras à beira do leito, garante que o remédio certo está indo para o paciente certo.

Outro ponto fundamental é o fortalecimento da Cultura de Segurança. Isso significa que a equipe deve se sentir segura para relatar riscos sem medo de retaliação. Se percebemos que um rótulo de soro está confuso, devemos relatar isso como um “incidente sem dano” para que a farmácia altere o padrão antes que alguém se confunda e o dano ocorra.

Cuidados de Enfermagem para a Prática Segura

Para você, que está no campo de estágio ou prestes a se formar, algumas condutas devem ser inegociáveis:

  1. Vigilância Ativa: Não seja um “anotador de sinais vitais”. Seja um analista. Se os dados mudaram em relação ao último controle, investigue o porquê.
  2. Rigor com os “Certos“: Nunca pule as etapas de conferência de medicação. Identificação do paciente, dose, via e hora devem ser checadas verbalmente com o próprio paciente sempre que possível.
  3. Comunicação Assertiva: Ao receber uma ordem verbal em emergências, repita a ordem em voz alta para confirmar se entendeu corretamente antes de executar.
  4. Conheça seus Dispositivos: Antes de infundir qualquer coisa, confirme a procedência do cateter. Dietas nunca devem estar próximas de acessos venosos sem uma identificação visual clara e distinta.

Os erros da enfermagem que podem levar o paciente à morte não são resultado apenas de falhas individuais, mas de um sistema que muitas vezes sobrecarrega e fragiliza o profissional.

Compreender esses erros, reconhecer suas causas e investir em prevenção é essencial para formar profissionais mais seguros, conscientes e preparados. Para o estudante de enfermagem, esse conhecimento é um passo fundamental para uma prática ética, humana e baseada na segurança do paciente.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Assistência Segura: Uma Reflexão Teórica Aplicada à Prática. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/caderno-1-assistencia-segura-uma-reflexao-teorica-aplicada-a-pratica.pdf
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Resolução Cofen nº 564/2017. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resoluo-cofen-n-5642017_59145.html
  3. REASON, James. Human error: models and management. BMJ, v. 320, n. 7237, p. 768-770, 2000. Disponível em: https://www.bmj.com/content/320/7237/768. Acesso em: 27 dez. 2025.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP). Brasília, 2014. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Patient safety: global action plan 2021–2030. Geneva: WHO, 2021. Disponível em: https://www.who.int
  6. POTTER, P. A.; PERRY, A. G. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018. Disponível em: https://www.elsevier.com

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