
Vá direto ao ponto!
Um erro de identificação, uma informação que não chega ao próximo profissional ou uma medicação administrada sem a checagem adequada podem transformar uma rotina aparentemente simples em um evento adverso. É justamente nos detalhes do cuidado que as metas de segurança ganham importância.
As Metas Internacionais de Segurança do Paciente (IPSG) da Joint Commission International (JCI) organizam seis áreas prioritárias: identificação correta do paciente, comunicação efetiva, segurança dos medicamentos, cirurgia segura, prevenção de infecções relacionadas à assistência por meio da higiene das mãos e redução do risco de danos por quedas.
Identificar corretamente o paciente
A identificação deve utilizar pelo menos dois identificadores, conforme o protocolo institucional, antes da administração de medicamentos, coleta de exames, transfusões, procedimentos e outros cuidados. Nome completo e data de nascimento são exemplos usuais.
Número do leito, quarto, diagnóstico ou característica física não devem ser utilizados isoladamente como identificadores. O paciente deve participar da confirmação sempre que sua condição permitir.
Na prática, imagine um plantão com dois pacientes de nomes semelhantes. Antes de administrar um antibiótico, conferir somente a placa do leito cria uma falsa sensação de segurança. A comparação entre a pulseira, a prescrição e os identificadores do paciente é o que fecha essa barreira de proteção.
Comunicação que realmente protege
Não basta transmitir uma informação: ela precisa chegar corretamente a quem dará continuidade ao cuidado. Passagem de plantão, transferência entre setores, comunicação de resultados críticos e informações por telefone exigem processos padronizados e confirmação quando necessário.
A JCI inclui entre os requisitos dessa meta processos para comunicação de resultados críticos e para a transferência estruturada das informações entre profissionais.
Uma situação comum acontece na transferência de um paciente da UTI para a enfermaria: informar apenas “está estável” não substitui comunicar acessos, infusões em andamento, riscos identificados, pendências e alterações recentes. Quanto mais crítica a informação, menos espaço deve existir para interpretação.
Medicamentos com segurança
A segurança medicamentosa envolve prescrição, dispensação, armazenamento, preparo, administração e monitoramento. Os medicamentos de alta vigilância merecem controles adicionais porque um erro pode produzir consequências graves.
A JCI destaca processos específicos para medicamentos de alta vigilância, medicamentos com nomes ou embalagens semelhantes e eletrólitos concentrados. No Brasil, o Ministério da Saúde mantém protocolo específico para segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos.
Na enfermagem, isso significa conferir paciente, medicamento, dose, via, horário, prescrição, condições clínicas e demais parâmetros definidos pelo protocolo institucional. Para medicamentos de alta vigilância, a dupla checagem e outras barreiras devem seguir o procedimento adotado pelo serviço, e não simplesmente uma cor de etiqueta ou uma regra informal.
Cirurgia segura
A cirurgia segura busca garantir que o paciente, o procedimento e o local estejam corretos, reduzindo falhas antes e durante o ato cirúrgico.
A lista de verificação é organizada em momentos críticos, incluindo a checagem antes da indução anestésica, antes da incisão e antes da saída do paciente da sala cirúrgica. O protocolo brasileiro também permanece voltado à redução de incidentes, eventos adversos e mortalidade cirúrgica.
Para a enfermagem, a segurança não está apenas em preencher o checklist. É preciso interromper o processo quando houver uma informação incompatível, uma identificação incompleta ou qualquer dúvida sobre o procedimento. A checagem só funciona quando a equipe realmente utiliza o resultado para decidir se pode prosseguir.
Higiene das mãos
A higiene das mãos continua sendo uma das principais barreiras contra a transmissão de microrganismos nos serviços de saúde. Ela deve ser realizada nos momentos indicados e com a técnica adequada, utilizando preparação alcoólica ou água e sabonete conforme a situação.
O protocolo brasileiro de higiene das mãos permanece como um dos protocolos básicos de segurança do paciente e tem como finalidade prevenir e controlar as infecções relacionadas à assistência à saúde.
Na rotina da UTI, a pressa costuma aparecer justamente nos momentos em que há várias tarefas simultâneas. Mesmo após ajustar um monitor ou manipular um acesso, a higiene das mãos continua sendo necessária antes do próximo contato assistencial. É uma barreira simples, mas depende de ser executada no momento correto.
Reduzir o risco de danos por quedas
A sexta meta internacional está relacionada à prevenção de quedas e seus danos. A avaliação do risco deve considerar as condições clínicas e funcionais do paciente e orientar medidas preventivas individualizadas.
A prevenção pode envolver ambiente organizado, iluminação adequada, dispositivos de apoio, orientação ao paciente, acompanhamento quando indicado e revisão dos fatores que aumentam o risco. Não existe uma única intervenção que sirva para todos os pacientes.
E a lesão por pressão?
Aqui existe uma confusão frequente em materiais antigos. Lesão por pressão é um importante tema de segurança do paciente no Brasil, mas não corresponde à sexta Meta Internacional da JCI.
O Ministério da Saúde mantém um protocolo específico para prevenção de úlcera por pressão e outras lesões da pele. Portanto, identificação, higiene das mãos, cirurgia segura, medicamentos, quedas e lesão por pressão devem ser compreendidos dentro do conjunto de práticas de segurança adotadas pelo serviço, sem misturar a nomenclatura das IPSGs com os protocolos nacionais.
Cuidados de enfermagem
Na prática assistencial, segurança significa transformar o protocolo em comportamento:
- confirmar a identificação antes de cada cuidado;
- comunicar alterações clínicas e informações críticas de forma estruturada;
- seguir os protocolos institucionais para medicamentos de alta vigilância;
- participar ativamente do checklist cirúrgico;
- realizar higiene das mãos nos momentos indicados;
- avaliar e reavaliar o risco de queda;
- observar risco de lesão por pressão e aplicar as medidas preventivas indicadas;
- registrar e comunicar incidentes e condições de risco.
O Programa Nacional de Segurança do Paciente também reforça a cultura de segurança, o gerenciamento de riscos, a notificação e análise de incidentes e a participação de pacientes e familiares no cuidado.
O ponto que mais importa
As metas não devem ser decoradas apenas para uma prova ou concurso. Elas funcionam como barreiras durante o cuidado. Quando a identificação é conferida, uma informação crítica é comunicada corretamente, uma medicação é checada ou uma queda é prevenida, a enfermagem está colocando a segurança em prática.
Metas de Segurança do Paciente na Prática
- Identificação correta do paciente
- Comunicação efetiva entre profissionais
- Uso seguro de medicamentos
- Cirurgia segura e prevenção de quedas
Referências:
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos Básicos de Segurança do Paciente. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Protocolos Básicos de Segurança do Paciente.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Identificação do Paciente. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: Protocolo de Identificação do Paciente.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Cirurgia Segura. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: Protocolo de Cirurgia Segura.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Higiene das Mãos em Serviços de Saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: Protocolo de Higiene das Mãos.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Prevenção de Quedas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: Protocolo de Prevenção de Quedas.
- JOINT COMMISSION INTERNATIONAL. International Patient Safety Goals. Oakbrook Terrace: JCI. Disponível em: International Patient Safety Goals – JCI.
- BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 36, de 25 de julho de 2013. Institui ações para a segurança do paciente em serviços de saúde. Brasília, DF: Anvisa, 2013. Disponível em: RDC nº 36/2013 – Anvisa.
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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