
A retirada de pontos, também chamada de remoção de sutura, é um procedimento simples, mas que requer técnica, atenção e responsabilidade por parte da equipe de enfermagem. Após a realização de uma sutura, seja por procedimento cirúrgico ou por fechamento de feridas traumáticas, chega o momento de avaliar a cicatrização e decidir pelo momento ideal de retirada desses fios.
Nesta publicação, vamos explicar de forma clara como esse procedimento é realizado, quando ele deve ser feito, os principais cuidados de enfermagem e as orientações ao paciente.
Por que os pontos são usados?
A sutura é uma técnica que visa unir bordas de uma ferida ou incisão cirúrgica, facilitando a cicatrização por aproximação dos tecidos. O uso de fios de sutura (não absorvíveis) ou grampos permite estabilizar a pele e estruturas mais profundas durante o processo inflamatório e regenerativo.
Quando a ferida já passou pelas fases iniciais da cicatrização e a epiderme está reconstituída, os pontos se tornam desnecessários e sua permanência pode aumentar o risco de infecção ou provocar marcas mais evidentes na pele.
Quando os pontos devem ser retirados?
A decisão de quando remover os pontos não é arbitrária. Depende de vários fatores:
- Local da Ferida: Áreas com mais movimento (como joelhos e cotovelos) ou mais tensão (como as costas) geralmente precisam de mais tempo para cicatrização e, consequentemente, os pontos ficam por mais tempo.
- Tipo de Ferida: Incisões cirúrgicas limpas cicatrizam mais rápido do que feridas com bordas irregulares ou mais profundas.
- Idade e Saúde do Paciente: Pessoas mais jovens e saudáveis tendem a cicatrizar mais rapidamente. Pacientes com diabetes, desnutrição, imunidade baixa ou que usam certos medicamentos (como corticoides) podem ter uma cicatrização mais lenta e os pontos podem precisar ficar por mais tempo.
- Tensão na Ferida: Se a ferida está sob muita tensão, os pontos podem ficar por mais tempo para evitar que ela se abra.
- Material do Ponto: Alguns pontos são absorvíveis (caem sozinhos ou são absorvidos pelo corpo), outros são não absorvíveis (precisam ser retirados). Estamos falando aqui dos pontos não absorvíveis.
Em geral, os pontos podem ser retirados entre 7 a 15 dias após a sua colocação. Feridas no rosto, por exemplo, podem ter os pontos retirados em 5 a 7 dias para evitar cicatrizes. Já em áreas de maior movimento, como o joelho, pode-se esperar 14 dias ou mais. A equipe médica sempre deixará uma prescrição ou orientação sobre o tempo ideal.
Quem pode retirar os pontos?
De acordo com a legislação brasileira, o enfermeiro pode realizar a remoção de pontos desde que seja respaldado por prescrição médica ou protocolo institucional, além de possuir conhecimento técnico sobre o procedimento.
Técnicos e auxiliares de enfermagem também podem ser responsáveis pela execução do procedimento, sob supervisão do enfermeiro, desde que o protocolo da instituição permita e a conduta esteja prescrita.
Etapas do procedimento: como retirar os pontos corretamente
A retirada de pontos deve ser feita com técnica asséptica, material esterilizado e muita atenção para evitar complicações, como abertura da ferida ou dor ao paciente.
Passo a passo geral:
- Higienização das mãos e paramentação com luvas de procedimento.
- Avaliação da ferida: verificar se há sinais de infecção, deiscência (abertura da sutura), vermelhidão ou dor.
- Reunião do material necessário, como:
- Pinça anatômica estéril
- Tesoura de ponta curva ou removedor de sutura
- Gaze estéril
- Antisséptico (geralmente clorexidina aquosa ou PVPI)
- Antissepsia do local da ferida com gaze embebida em antisséptico.
- Retirada do ponto, cortando o fio próximo à pele e puxando cuidadosamente a outra extremidade com a pinça. Isso evita arrastar a parte externa do fio por dentro da ferida.
- Contagem e registro do número de pontos removidos.
- Curativo, se necessário, com gaze estéril e micropore.
- Orientações ao paciente sobre sinais de alerta e cuidados domiciliares.
Cuidados de enfermagem antes, durante e após a retirada dos pontos
O procedimento em si é rápido, mas o cuidado da enfermagem vai muito além da técnica. É preciso uma avaliação contínua do processo de cicatrização e orientação ao paciente.
Antes da remoção:
- Verificar a prescrição médica e o prazo adequado
- Explicar o procedimento ao paciente, promovendo segurança
- Avaliar se o local apresenta sinais de infecção (pus, dor, rubor, calor)
Durante a remoção:
- Utilizar técnica asséptica rigorosa
- Manter o conforto do paciente durante o procedimento
- Ter atenção para não causar trauma à pele ou sangramentos
Após a remoção:
- Observar se os bordos permanecem unidos
- Registrar o procedimento no prontuário
- Orientar o paciente sobre cuidados com o local da sutura, como:
- Evitar exposição ao sol por algumas semanas
- Manter a região limpa e seca
- Observar sinais de abertura da ferida ou infecção
Quando não remover os pontos?
Existem situações em que a retirada dos pontos deve ser adiada, como:
- Presença de infecção local
- Bordos da ferida não aproximados
- Secreção purulenta ou sangramento persistente
- Dor intensa à palpação
- Febre sem causa aparente
Nesses casos, a equipe deve reavaliar com o médico e registrar no prontuário os motivos da não realização do procedimento.
A remoção de pontos, apesar de ser considerada um procedimento simples, envolve responsabilidade, conhecimento técnico e atenção aos detalhes. O profissional de enfermagem tem um papel essencial, tanto na avaliação da ferida quanto no cuidado com o paciente antes, durante e após o procedimento.
Para o estudante de enfermagem, aprender a realizar esse procedimento com segurança é mais do que dominar uma técnica — é compreender o processo de cicatrização, respeitar o tempo do corpo e garantir um cuidado humanizado.
Referências:
- BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Curativos: Normas Técnicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_curativos_normas_tecnicas.pdf. Acesso em: 17 jun. 2025.
- SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. (Consultar capítulo sobre cuidado com feridas e suturas).
- POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar capítulo sobre cuidado de feridas e pele).
- BRASIL. Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Resolução nº 564/2017. Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Disponível em:
https://www.portalcofen.gov.br/resolucao-cofen-no-5642017_59145.html -
SMELTZER, S. C.; BARE, B. G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015.












