Parada Cardio-Respiratória

A Parada Cárdio-Respiratória ( PCR )  é o limite da gravidade que impões o atendimento imediato por parte da equipe de saúde. Os conceitos atuais reforçam a necessidade do atendimento imediato ou “hora dourada “ haja vista não existir reserva de oxigênio na corrente sanguíne, portanto a oxigenação tecidual deve ser prontamente estabelecida. Evitar a hipóxia e anóxia cerebral é o objetivo de todo atendimento, haja vista o cérebro não suportar mais que três minutos sem oxigênio, dando início a isquemia e danos imprevisíveis o que, teoricamente, após dez minutos ou menos podem surgir os sinais definitivos de morte encefálica.

A medida imediata é a MRCP, Manobra de Reanimação Cárdio-Pulmonar, estabelecendo a viabilidade imediata da circulação e oxigenação. A principal medida é “reanimar” o cérebro ainda vivo, portanto erroneamente designada como manobra de ressuscitação, já que o tecido cerebral mantém-se ainda viável.  Há que se distinguir a parada cardíaca da respiratória, estando uma levando a outra. As arritmias em conjunto com quadros de hipóxia, levam a paradas cardíacas, estando as ventriculares ( Fibrilação Ventricular e taquicardia Ventricular ) como as mais graves. Assistolia refere-se a parada da contração miocárdica e sem dúvida é a mais grave forma de atendimento.

História

O atendimento da PCR foi estabelecido sobretudo por Peter Safar, médico anestesista e intensivista, que em 1950 desenvolve as técnicas de reanimação incluindo a respiração boca a boca. Safar ainda contribui para sistematização do atendimento desenvolvendo o ACLS, Advanced Cardiologic Cardiac Support, ou SAVC, Suporte Avançado de Vida em Cardiologia.

Diagnóstico

Quadro comatoso, ou seja,  com perda da consciência, pode estar associado a PCR. Portanto, na insconciência a checagem de pulso central é obrigatória onde na ausência de pulsocarotídeo no adulto e braquial na criança configura-se o diagnóstico de PCR. Portanto, independente do ritmo cardíaco a monabra de reanimação cárdio-pulmonar ( MRCP ) deve ser iniciada priorizando-se a desobstrução e abertura das vias aéreas. A reanimação obedece técnica e sistematização, devendo em ambiente hospitalar ou não, haver a liderança, carro de parada completo presente e as funções dos membros estabelecidas, para tal convencionou-se Ter em hospitais equipes ou grupos que deverão atender em 03 pessoas com função de massagem cardíaca externa, ventilação e auxiliar na medicação e equipamentos.

Manobra de Reanimação Cárdio-Pulmonar ( MRCP )

A manobra de reanimação cárdio-pulmonar (MRCP) é realizada com finalidade de restabelecer a circulação com objetivo principal de oxigenação tecidual predominante cerebral. As compressões torácicas devem ser realizadas mantendo em média12 ciclos respiratórios e 60 ciclos cardíacos por minuto ( fig-1 ) representando 30:2  (30 compressões para 02 Ventilações ) ( Novas Diretrizes 2006 ), na presença de 01 atendente, manter a mesma proporção. Estudos recentes demonstram que a maior importância concentra-se na manutenção do fluxo cardíaca para perfusão cerebral. Evitar a interrupção da Massagem Cardíaca.

 

Fig1- atendimento de PCR com uma pessoa – 30 compressões torácicas para 02 ventilações. Observar: Hiper-extensão cervical, fechamento das narinas e tração mandibular. Nas Compressões Torácicas, manter extensão dos braços com compressões dois dedos acima do processo xifóide.

Para crianças

A)- Menor de 1 ano ( lactente ): checar pulso  braquial-axilar ou femural. Iniciar compressão na ½ inferior do externo, compressões com dois ou três dedos com profundidade próxima a 50% do tórax. Manter freqüência mínima de 100 bat/min, ou seja, 5:1 ( 5 compressões para 1 ventilação ).

B)- Maior de 1 ano ( criança ): Checar pulso carotídeo. Iniciar compressão na ½ inferior do esterno, compressões com região hipotênar com profundidade próxima a 50% do tórax. Manter freqüência mínima de 100 bat/min, ou seja, 5:1 ( 5 compressões para 1 ventilação ).

Adulto: 15:2      Crianças: 5:1

ABCD – Primário e Secundário

O suporte Básico de Vida ( SBV ) ou Basic Life Support ( BLS ) restringe ao público leigo e profissionais de saúde a nível técnico onde a seqüência básica é definida no ABCD primário.

Portanto a sequência do atendimento deverá priorizar as vias aéreas e circulação. O ACLS estabelece  a sequência do ABCD primário e secundário.

ABCD 1O ABCD 2O
A Abrir vias aéreas intubação
B Ventilaçao Ventilação – elevaçao tórax
C Massagem cardíaca externa Acesso venoso
D Desfibrilação Diagnóstico diferencial

( Fig 2 ) A- Airway  B- Breathing   C- Circulation  D- Defibrillation / Differential

A1: Primário: Abrir vias aéreas: Verficar ventilação – Ver, Ouvir e Sentir …

Young Man Clearing an Elderly Man's Airway

Vá direto ao ponto!

B1: Primário – Duas Ventilações de Resgate – Verificação da manutenção das Vias Aéreas Pérvias

Paramedics Giving CPR

O socorrista deve inicialmente verificar o nível de consciência com comando “abra os olhos e aperte minha mão “ com objetivo da verificação à solicitação verbal e comando motor ( Estação Universal ). Em Airway, Ver – Ouvir – Sentir a ventilação, verificando se as vias aéreas estão pérvias. Desobstruir se necessário e estender a região cervical,   ventilando com pressão positiva (  bolsa-máscara ) e não intubar inicialmente.

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Para estabelecer padrão ventilatório a sequência ver, ouvir e sentir   determina a possibilidade ou não de volume corrente. Oferecendo suporte de oxigênio no ambu, e já preparando os padrões do ventilador para o secundo passo em relação às vias aéreas. As compressões torácicas jamais deverão ser interrompidas, exceto para desfibrilação.

Desfibrilação: As novas diretrizes preconizam o fim do choque sequencial, ou seja, choque 360J único. Para desfibriladores bipolares carga de 200J em adultos. Crianças iniciar 1 a 2 J /Kg. No detalhe o socorrista com  luvas e gel condutor nas pás.

A desfibrilação está preconizada o mais rápido possível. O desfibrilador atua na Fibrilação Ventricular ( FV ), arritmia grave e letal. Existem inúmeras causas que levam à FV entre elas a hipóxia. As pás do desfibrilador são colocadas no hemitórax superior na linha hemiclavicular média ao lado do esterno ( não colocar acima do esterno ) e inferior próximo a linha axilar média.

Superior: Linha hemiclavicular abaixo da clavícula. Inferior: Linha axilar média próximo ao 6 espaço intercostal.

A massagem cardíaca externa deve ser realizada colocando-se a região hipotenar acima de 2cm do processo xifóide esternal. As compressões deverão atingir por volta de 5 cm e o maior risco está na fratura do arco costal. A posição do socorrista deve permitir a extensão plena dos membros superiores. A efetividade da manobra pode ser verificada através do pulso carotídeo ou femoral no adulto e axilar na criança.

A intubação endotraqueal ( ver capítulo intubação )só deverá ocorrer após o início do atendimento primário ( ABCD 1o ), ou seja (A) Abrir vias aéreas, (B) Avaliar ausência de respiração, (B) Ventilar paciente, (C) Confirmar ausência de pulso, (C) realizar compressões torácicas, (D) Desfibrilar.

Desfibrilador : FV-TV

Estudos revelam que 80 a 90% das PCR ocorrem em TV-FV e em geral a TV precede a FV. Portanto a hipótese da desfibrilação é recomendação fundamental. Inicialmente coloca-se as pás com gel e verifica-se o ritmo cardíaco, verificada a FV emprega-se 200J, verifica o ritmo, na persistência, mantendo-se as pás no tórax ( não retirá-la ), efetua-se 300J,  na persistência, 360J. Caso não reverta, efetuar adrenalina 1 mg ev, reiniciar a massagem e desfibrilar as subseqüentes com 360J. Persistindo, manter o padrão Droga-Choque, o intervalo para desfibrilação após adrenalina é de 30s a 1 minuto.

Cuidados: o operador deverá afastar os demais no momento do choque ( “afastem-se, vou chocar”).

Drogas na PCR

As duas principais drogas utilizadas em PCR são adrenalina e atropina.  A adrenalina (epinefrina ) possui ampola de 1 mg em 1 ml  com efeito alfa ( vasoconstricção ) e beta ( inotrópico – contração cardíaca ) e atropina ( sulfato de atropina ) 1ampola de 1ml com 0,5 mg com efeito bloqueador parassimpático com consequente aumento da frequência cardíaca, portanto utilizada para aumento de frequência cardíaca ( não utilizada em taquicardias ). Os períodos médios de aplicação são a cada 3 a 5 minutos. Na ausência de resposta na desfibrilação contínua, efetua-se flush de 1mg de adrenalina diluída em 20 ml de AD com elevação do membro, a dose pode ser dobrada. Na FV-TV não se utiliza atropina.

Arritmias e PCR

Outras situações podem levar a cessação de pulso.

1-     Assistolia: ausência de atividade elétrica, reverte em menos de 10%, não é recomendado choque, utiliza-se adrenalina e atropina e possível marcapasso externo.

2-     AESP: Atividade Elétrica Sem Pulso, caracterizada por presença de traçado eletrocardiográfico, porém sem contração miocárdica capaz de efetuar fluxo sistêmico. Basicamente reverter prováveis situações clínicas como 5H (Hipovolemia, Hipóxia, H+ acidose, Hipercalemia, , Hipotermia ), além de pneumotórax, tamponamento cardíaco e intoxicçação digitálica.

Pediatria:

  • Iniciar MRCP: após 30 segundos de ventilação na suspeita de PCR com FC < 60 a 80 bpm ou em RN < 100 bpm;
  • Adrenalina: 0,01 mg/kg (EV) ou 0,1 mg/kg via traqueal.
  • Massagem: Dois polegares e dedos envolventes ( Novas Diretrizes ) em lactentes ( < 1 ano ). Crianças ( 1 a 8 anos ) região hipotenar.
  • 5:1 – % Compressões para 1 Ventilação ( Manter 100 compressões por minuto ).
  • Checagem de Pulso: < 1 ano – Braquial ou femoral.
  • Compressões: 1/3 inferior do esterno

Questões frequentemente levantadas na PCR :

1-     Quando iniciar a MRCP: quando da ausência de pulso;

2-     Na assitolia devo desfibrilar? Não. Nada comprova eficácia.

3-     Quando desfibrilar? Na fibrilação e taquicardia ventricular.

4-     Existem outras arritmias não ligadas diretamente a PCR que posso desfibrilar? Sim, desde que haja instabilidade hemodinâmica.

5-     Sempre utiliza-se atropina na PCR? Não. Na FV e TV não se usa.

6-     No uso do ventilador pode realizar MRCP? Sim.

O que mudou no novo ACLS 2015?

Seguem as principais mudanças do ACLS 2015 em relação a sua edição prévia (2010):

  1. Vasopressina “no more”: Provavelmente a mudança de maior repercussão, a vasopressina foi definitivamente retirada do protocolo do ACLS. O motivo foi por mera simplificação de conduta, visto que a vasopressina não oferece vantagem alguma em relação à adrenalina, nem mesmo em associação. Portanto, não há motivos de mantê-la no protocolo;
  2. Adrenalina precocemente: Outra mudança no protocolo é quanto a recomendação de início precoce de adrenalina, tão logo a droga esteja disponível em pacientes com ritmo não-chocável, a mesma deve ser administrada, visto que estudos demonstraram melhores desfechos na administração precoce da droga;
  3. Ventilação durante RCP: A ventilação com via aérea avançada foi simplificada, recomendando-se a realização de 10 ventilações por minuto, ou seja, 1 ventilação a cada 6 segundos;
  4. Capnografia: A capnografia, já inclusa em 2010 no protocolo, para monitorização da ressuscitação, agora é recomendada como um sinal prognóstico objetivo para determinação de quando parar a ressuscitação. Em pacientes com via aérea avançada, um ETCO2 de até 10 mmHg na capnografia após 20 minutos de ressuscitação indica baixíssima probabilidade de sucesso, podendo ser levado em consideração para a determinação do fim dos esforços;
  5. RCP com CEC: Embora a evidência ainda seja pequena, já pode ser recomendado o uso de circulação extracorpórea para ressuscitação em pacientes que não responderam à ressuscitação convencional e que possam apresentar algum benefício, como pacientes que aguardam transplante cardíaco;
  6. Antiarrítmicos pós-PCR FV/TVSP: Também carecendo de evidências fortes, o uso de beta-bloqueadores e lidocaína está indicado após o retorno a circulação espontânea em paradas por fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso;
  7. Benefício do corticoide: Pode parecer contraditório, porém uma nova recomendação (com nível de evidência baixo por estar baseado em apenas um estudo) indica o benefício de se usar a combinação vasopressina 20 U + adrenalina 1 mg a cada 3 minutos, associando no primeiro ciclo uma dose de metilprednisolona 40 mg. Seguindo esta recomendação, deve-se manter hidrocortisona 300 mg/dia por 7 dias após retorno de circulação espontânea.

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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

EXPERIÊNCIA E ÁREAS DE CONHECIMENTO
UTI Adulto Enfermagem Intensiva Paciente Crítico Educação em Enfermagem Ilustração Digital
Conteúdo produzido com base em conhecimento, experiência profissional e educação em enfermagem.