
No cenário moderno da assistência à saúde, a administração manual de fluidos e medicamentos por gotejamento se tornou, em muitos casos, um método obsoleto e impreciso. Entra em cena a Bomba de Infusão (BI), um equipamento que garante a entrega precisa e controlada de volumes líquidos ao paciente, minuto a minuto.
Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, a bomba de infusão é uma ferramenta indispensável. Ela é a guardiã da segurança do paciente, especialmente em terapia intensiva ou na administração de medicamentos de alto risco (como vasopressores, sedativos e quimioterápicos).
Entender os diferentes tipos de bombas, suas especificidades e os cuidados essenciais de manejo é o que transforma a nossa prática de boa para excelente. Vamos detalhar os principais tipos e a importância do nosso toque humano na operação dessas máquinas.
Por Que a Precisão é Crucial? A Necessidade da BI
A bomba de infusão não existe para facilitar o nosso trabalho, mas sim para garantir a segurança terapêutica.
- Medicamentos de Alto Risco (Ação Imediata): Drogas vasoativas (como a Noradrenalina ou Dopamina) exigem doses exatas, tituladas em mililitros por hora (mL/h) ou microgramas por quilo por minuto (ug/kg/min). Uma variação mínima pode causar hipotensão grave ou hipertensão perigosa.
- Volume Controlado: Em neonatologia ou em pacientes com insuficiência cardíaca/renal, onde cada mililitro conta, a BI previne a sobrecarga volêmica.
Os Principais Tipos de Bombas de Infusão
Embora existam variações de marca e modelo, as bombas de infusão são classificadas em dois grandes grupos baseados no seu mecanismo de funcionamento:
Bombas de Infusão Volumétricas
São o tipo mais comum e versátil, utilizadas para administrar grandes volumes de soluções (soros, nutrição parenteral) e medicamentos em doses contínuas.
- Mecanismo: Elas usam um sistema peristáltico (semelhante a um “dedo” que aperta o equipo) ou um mecanismo de cassete para empurrar o fluido através da linha em uma taxa definida pelo operador (ex: 100 mL/h).
- Aplicações principais: Pacientes em UTI, administração de medicamentos contínuos e manutenção de hidratação.
- Uso Principal: Infusão de hidratação venosa, antibióticos intermitentes e Nutrição Parenteral Total (NPT).
- Cuidados de Enfermagem: A calibração (ajuste inicial) é essencial. É crucial garantir que o equipo específico da bomba seja instalado corretamente no canal, sem bolhas de ar e sem estar tensionado.
Bombas de Infusão de Seringa (Bomba de Seringa)
São utilizadas para a administração de pequenos volumes com altíssima precisão, geralmente em ritmos lentos.
- Mecanismo: A bomba utiliza um motor para empurrar o êmbolo de uma seringa em uma taxa controlada.
- Uso Principal: Infusão de medicamentos potentes e titulados em unidades de terapia intensiva (UTI), como sedativos, analgésicos e vasopressores, ou em neonatologia, e clínicas de veterinária.
- Vantagem: Permitem a infusão de volumes minúsculos de forma exata (ex: 0,5 mL/h).
- Cuidados de Enfermagem: É vital usar o tamanho de seringa correto (ex: 10 mL, 20 mL, 50 mL) e garantir que o tamanho selecionado na programação da bomba corresponda ao tamanho físico da seringa inserida.
Tipos Específicos e Funções Avançadas
Além das categorias básicas, algumas bombas possuem funcionalidades específicas:
Bomba Elastômerica (“Bola”)
Não é eletrônica, mas atua como um antiespasmódico mecânico. É uma bola plástica flexível que se esvazia em uma taxa de fluxo pré-determinada pela tensão da sua parede. Uso comum em administração de antibióticos ambulatoriais ou em quimioterapia domiciliar.
Vantagens:
Portabilidade, simplicidade e baixo risco de falha técnica.
Desvantagens:
Taxa de infusão fixa e menor precisão em comparação às bombas eletrônicas.
PCA (Patient-Controlled Analgesia)
Permite que o paciente, dentro de limites de segurança programados, administre doses extras de analgésicos (como morfina) pressionando um botão. O enfermeiro programa a dose base (infusão contínua), a dose de reforço (bolus) e o tempo de bloqueio (intervalo mínimo entre doses).
Vantagens:
Melhor controle da dor, autonomia do paciente e menor risco de overdose devido à programação de bloqueios de segurança.
Desvantagens:
Necessidade de orientação detalhada e vigilância contínua da equipe de enfermagem.
Cuidados de enfermagem com bombas de infusão
O profissional de enfermagem tem papel fundamental na manipulação e monitoramento das bombas de infusão. A segurança do paciente depende diretamente da correta programação e do acompanhamento constante.
Conferência da Programação
O “duplo check” (conferência por dois profissionais) é obrigatório para medicamentos de alto risco. Conferir:
- Droga: Qual medicamento está sendo infundido.
- Dose/Concentração: Garante que a diluição (mL de droga em mL de solução) está correta.
- Velocidade (mL/h): Garante a taxa correta.
Monitoramento do Local de Infusão
Verificar frequentemente o acesso venoso para sinais de flebite, infiltração ou extravasamento, que podem alterar a entrega da medicação.
Alarmes: Nunca ignore um alarme!
Um alarme de “oclusão” pode significar que o cateter está obstruído ou que o paciente fez uma dobra no membro. Um alarme de “ar na linha” exige a remoção imediata da bolha.
Troca de Linhas
Seguir rigorosamente o protocolo institucional para troca de equipos e linhas (geralmente a cada 72-96 horas, exceto em NPT ou lipídios, que são mais frequentes) para prevenir infecções.
Outros cuidados
- Verificar a integridade do equipo e da bomba antes de cada uso.
- Programar corretamente a taxa de infusão e o volume total, conforme prescrição médica.
- Inspecionar o local da punção venosa regularmente, observando sinais de infiltração, flebite ou extravasamento.
- Garantir que o equipamento esteja ligado à energia elétrica ou bateria carregada.
- Documentar todas as infusões realizadas e registrar alarmes ou intercorrências.
- Educar o paciente e familiares sobre a importância de não manipular o dispositivo sem orientação profissional.
O domínio das bombas de infusão é a marca do profissional de enfermagem moderno. A máquina faz o trabalho de precisão, mas a nossa inteligência, vigilância e atenção aos detalhes garantem que o cuidado seja seguro e humanizado.
Referências:
- POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar os capítulos sobre administração de medicamentos e terapia intravenosa).
- INSTITUTO PARA PRÁTICAS SEGURAS NO USO DE MEDICAMENTOS (ISMP Brasil). Segurança na Administração de Medicamentos de Alto Alerta. Disponível em: https://www.ismp-brasil.org/. (Consultar as diretrizes sobre bombas de infusão e duplos checks).
- BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de segurança na administração de medicamentos. Brasília: MS, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Segurança na utilização de bombas de infusão. Brasília: COFEN, 2021. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/.
- INFUSION NURSES SOCIETY (INS). Infusion Therapy Standards of Practice. 8ª ed. Massachusetts: INS, 2021. Disponível em: https://www.ins1.org/.
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ANVISA. Boas práticas para o uso de bombas de infusão. Brasília: ANVISA, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/.










