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A vancomicina exige atenção especial porque a diferença entre uma exposição insuficiente e uma exposição excessiva pode comprometer o tratamento ou aumentar o risco de lesão renal. Por isso, acompanhar a vancocinemia não significa apenas conferir um número no exame: é preciso relacionar o resultado ao horário da coleta, à dose administrada e à função renal do paciente.
Para que serve a vancocinemia?
A vancocinemia é a dosagem da concentração de vancomicina no sangue. Esse monitoramento auxilia a equipe a avaliar a exposição ao antibiótico e a orientar ajustes individualizados, especialmente em pacientes graves, com função renal instável ou em tratamento prolongado.
A vancomicina é utilizada contra determinadas bactérias Gram-positivas, incluindo infecções invasivas causadas por Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA). A indicação e o acompanhamento devem considerar o microrganismo envolvido, a gravidade da infecção e a resposta clínica.
O alvo não é sempre 15–20 µg/mL
Uma orientação antiga bastante difundida era manter a concentração de vale entre 15 e 20 µg/mL. Atualmente, para infecções invasivas graves por MRSA, as diretrizes recomendam priorizar o monitoramento pela área sob a curva de concentração-tempo em 24 horas (AUC), com alvo de 400–600 mg·h/L, considerando uma concentração inibitória mínima de 1 mg/L pelo método de referência.
A estratégia baseada apenas na concentração de vale de 15–20 µg/mL deixou de ser recomendada para esse cenário, pois pode aumentar a exposição ao medicamento e o risco de nefrotoxicidade. Isso não significa que a mesma meta de AUC deva ser aplicada automaticamente a todas as infecções ou situações clínicas: a equipe responsável precisa avaliar a indicação e o protocolo adotado pelo serviço.
Quando coletar o exame?
O horário correto depende da estratégia de monitoramento utilizada. Na coleta tradicional da concentração de vale, a amostra costuma ser obtida pouco antes da próxima dose, conforme o protocolo institucional. Quando se utiliza o cálculo da AUC, podem ser necessárias uma ou mais amostras em horários específicos, interpretadas por métodos farmacocinéticos ou programas validados.
Imagine um paciente cuja coleta foi realizada depois do horário previsto, sem que essa informação fosse registrada. Mesmo que o resultado esteja disponível, ele poderá ser interpretado de forma inadequada se a equipe desconhecer o momento real da coleta em relação à infusão. Por isso, devem ser conferidos e registrados os horários da última dose, da coleta e da dose seguinte, de acordo com a rotina do serviço.
O que fazer diante de um resultado alterado?
Uma concentração elevada ou abaixo do alvo não deve levar, isoladamente, à redução automática da dose, à suspensão do antibiótico ou ao aumento da frequência. A conduta depende da situação clínica, da função renal, da dose e do intervalo utilizados, do momento da coleta e do método de monitoramento.
Se o paciente apresentar aumento da creatinina ou redução do débito urinário durante o tratamento, por exemplo, a equipe deve comunicar a alteração e solicitar avaliação da prescrição e do esquema de monitoramento. A vancomicina pode contribuir para lesão renal, e o risco também precisa ser avaliado em conjunto com outros medicamentos potencialmente nefrotóxicos. (RYBAK et al., 2020).
Cuidados de enfermagem com a vancomicina
Antes da administração, confira a prescrição, a dose, o intervalo, a diluição, a via e a velocidade de infusão definidos pelo serviço. Observe o acesso venoso e o paciente durante a administração, identificando sinais de reação relacionada à infusão, desconforto ou alterações locais.
A infusão deve ser lenta e diluída, conforme o protocolo do serviço: quando a vancomicina é infundida rápido demais, pode ocorrer uma reação mediada por histamina, com prurido e rubor em face, pescoço e ombros, conhecida como síndrome do homem vermelho. Se esses sinais surgirem, interrompa a infusão e comunique a equipe.
Verifique se a coleta da vancocinemia foi programada no horário correto e registre as informações necessárias para interpretar o resultado. Acompanhe os exames de função renal e o débito urinário conforme a condição clínica, comunique resultados críticos e alterações relevantes e não modifique doses por iniciativa própria, salvo quando houver protocolo institucional formal, atribuições autorizadas e capacitação específica.
Em um plantão movimentado, uma dose pode estar programada para o mesmo período da coleta. A equipe precisa seguir a sequência prevista no protocolo e alinhar a coleta com o profissional responsável, evitando que a amostra seja colhida em horário inadequado ou que a administração seja atrasada sem necessidade. A segurança depende da comunicação entre enfermagem, equipe médica, farmácia clínica e laboratório.
O objetivo da vancocinemia é contribuir para um tratamento eficaz e seguro. O resultado só tem utilidade quando interpretado no contexto correto, e qualquer ajuste deve seguir a avaliação clínica e as normas institucionais vigentes.
Vancocinemia: O Alvo Certo Evita Riscos
- A vancocinemia deve ser interpretada conforme o contexto clínico
- O alvo de AUC 400–600 aplica-se a infecções invasivas graves por MRSA nas condições recomendadas
- O horário da coleta precisa ser registrado corretamente
- Ajustes de dose devem seguir avaliação clínica e protocolo institucional
Referências:
- RYBAK, Michael J. et al. Therapeutic monitoring of vancomycin for serious methicillin-resistant Staphylococcus aureus infections: a revised consensus guideline and review. American Journal of Health-System Pharmacy, Oxford, v. 77, n. 11, p. 835–864, 2020. DOI: https://doi.org/10.1093/ajhp/zxaa036. Disponível em: https://www.idsociety.org/practice-guideline/vancomycin/.
- RYBAK, Michael J. et al. Executive summary: therapeutic monitoring of vancomycin for serious methicillin-resistant Staphylococcus aureus infections. Pharmacotherapy, v. 40, n. 4, p. 363–367, 2020. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7358040/.
- HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Protocolo de monitoramento dos níveis séricos de vancomicina. São Paulo: Hospital Sírio-Libanês, [s.d.]. Disponível em: Guia Farmacêutico HSL.
- MANUAIS MSD. Vancomicina. Edição para profissionais. Disponível em: Manuais MSD: Vancomicina.
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva. Une a vivência clínica à inovação digital e criativa, atuando na produção de conteúdos educacionais, ilustração digital e no desenvolvimento web de ferramentas e recursos interativos (PHP, CSS e JavaScript).
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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