
A Sepse, popularmente conhecida como “infecção generalizada”, é uma das condições mais críticas e mortais que nós, profissionais de enfermagem, enfrentamos. Longe de ser apenas uma infecção, a sepse é a resposta desregulada do próprio organismo a essa infecção. É o sistema de defesa do corpo entrando em colapso e, em vez de proteger, ele começa a danificar seus próprios órgãos.
Para nós, estudantes e profissionais, a sepse é um chamado à ação imediata. O tempo é, literalmente, a vida do paciente. Entender o que é a sepse, como identificá-la rapidamente e qual a nossa responsabilidade no manejo é o que diferencia um cuidado bom de um cuidado que salva vidas. Vamos desvendar essa síndrome e focar na “Hora de Ouro” da enfermagem.
O que é a Sepse?
A sepse é uma resposta inflamatória sistêmica grave do organismo a uma infecção. Em outras palavras, é quando o corpo reage de forma descontrolada a um agente infeccioso, como bactérias, vírus, fungos ou parasitas. Essa resposta exagerada causa lesões nos tecidos e órgãos, podendo evoluir rapidamente para choque séptico e falência múltipla de órgãos se não for tratada a tempo.
De acordo com a definição mais recente da Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3), publicada em 2016, a sepse é considerada uma disfunção orgânica potencialmente fatal causada por uma resposta desregulada do corpo à infecção.
O Ciclo Vicioso
A infecção libera substâncias químicas na corrente sanguínea. Em vez de ficarem localizadas, essas substâncias (mediadores inflamatórios) desencadeiam uma inflamação sistêmica e maciça.
O Dano
Essa inflamação generalizada danifica o revestimento dos vasos sanguíneos, levando a:
- Vazamento Capilar: Os vasos dilatam e vazam fluido para os tecidos, causando edema e reduzindo o volume de sangue circulante.
- Má Perfussão: A pressão arterial cai drasticamente (hipotensão), o sangue coagula em pequenos vasos e o oxigênio não consegue chegar aos órgãos vitais (cérebro, rins, coração).
- Choque Séptico: É o estágio mais grave. A hipotensão é tão profunda que o paciente não responde à reposição volêmica (soro) e necessita de vasopressores (como a noradrenalina) para manter a pressão arterial. O risco de morte é altíssimo.
Causas e fatores de risco
A sepse pode surgir a partir de qualquer infecção, especialmente aquelas que não são diagnosticadas ou tratadas adequadamente. As infecções mais comuns associadas à sepse incluem:
- Pneumonia
- Infecções urinárias
- Infecções de pele e tecidos moles
- Infecções abdominais (como apendicite ou peritonite)
- Infecções hospitalares relacionadas a cateteres, sondas ou feridas cirúrgicas
Alguns grupos são mais vulneráveis à sepse, como:
- Idosos
- Pacientes imunossuprimidos
- Recém-nascidos
- Pessoas com doenças crônicas (diabetes, doenças renais, hepáticas ou cardíacas)
- Pacientes internados em UTI
Os Critérios de Alerta: Como Identificar a Sepse (qSOFA)
O diagnóstico precoce é nosso maior aliado. Um sistema de triagem rápida, o qSOFA (quick Sequential Organ Failure Assessment), ajuda a equipe a identificar pacientes com suspeita de infecção que estão em risco de evolução para sepse.
Basta que o paciente com infecção suspeita ou confirmada apresente dois ou mais dos seguintes critérios:
- Alteração do Estado Mental: Escala de Coma de Glasgow inferior a 15 (paciente letárgico, sonolento ou confuso).
- Frequência Respiratória Elevada: Igual ou superior a 22 incursões por minuto ( irpm).
- Hipotensão Arterial: Pressão Arterial Sistólica (PAS) inferior ou igual a 100 mmHg ($\leq 100 $ mmHg).
Se o paciente atende a dois desses critérios e há suspeita de infecção (por exemplo, pneumonia, ITU, ferida cirúrgica infectada), a Sepse deve ser o primeiro diagnóstico a ser considerado.
Manifestações clínicas
Os sinais e sintomas da sepse podem variar, mas alguns são fundamentais para o reconhecimento precoce:
- Febre alta ou hipotermia
- Taquicardia (aumento da frequência cardíaca)
- Taquipneia (respiração acelerada)
- Hipotensão arterial
- Alteração do nível de consciência
- Oligúria (diminuição da produção urinária)
- Extremidades frias ou cianóticas
A gravidade da sepse pode ser avaliada através de escores clínicos, como o SOFA (Sequential Organ Failure Assessment) e o qSOFA, que ajudam a identificar disfunções orgânicas e prever o prognóstico.
Diagnóstico
O diagnóstico da sepse é clínico, apoiado por exames laboratoriais e de imagem. Os principais exames incluem:
- Hemoculturas e culturas de outros materiais biológicos (urina, secreções, etc.)
- Hemograma completo
- Gasometria arterial
- Lactato sérico (para avaliar perfusão tecidual)
- Função renal e hepática
- Exames de imagem (como raio-X, ultrassonografia ou tomografia) para identificar o foco infeccioso
O diagnóstico precoce é essencial, pois cada hora de atraso no início do tratamento aumenta o risco de morte.
A Hora de Ouro: O Protocolo de Enfermagem e Médico
O tratamento da sepse é uma corrida contra o relógio, e a enfermagem coordena as ações do famoso “Bundle de Sepse”, que deve ser completado na primeira hora:
Ações Cruciais de Enfermagem (O Bundle da Primeira Hora)
- Coleta de Exames (Lactato e Culturas):
- Lactato: Coletar o lactato sérico. Níveis elevados indicam que o organismo está com baixa oxigenação (má perfusão).
- Hemoculturas: Coletar pelo menos duas amostras de sangue para cultura (uma aeróbia e uma anaeróbia) antes de administrar o antibiótico. Essa é a chave para identificar o agente causador.
- Administração de Antibióticos de Amplo Espectro:
- Após a coleta das culturas, o enfermeiro deve administrar o antibiótico de amplo espectro prescrito imediatamente (em até 1 hora). Cada minuto de atraso aumenta a mortalidade.
- Ressuscitação Volêmica (Fluido):
- Iniciar rapidamente a infusão de cristaloides (soro fisiológico ou Ringer Lactato), geralmente 30 mL/kg, em pacientes com hipotensão ou lactato elevado, sob monitoramento rigoroso para evitar sobrecarga.
- Monitoramento e Reavaliação:
- O enfermeiro monitora rigorosamente a pressão arterial, frequência cardíaca, débito urinário e, crucialmente, reavalia o estado do paciente a cada hora. Se a pressão não melhorar, o médico precisa iniciar as drogas vasoativas.
Cuidados de Enfermagem
O profissional de enfermagem desempenha um papel crucial na detecção precoce e no cuidado contínuo do paciente com sepse. Entre as principais responsabilidades estão:
- Avaliar e monitorar sinais vitais frequentemente, especialmente temperatura, pressão arterial e frequência cardíaca.
- Reconhecer sinais de deterioração clínica e comunicar imediatamente à equipe médica.
- Coletar amostras biológicas corretamente, seguindo técnicas assépticas rigorosas.
- Administrar antibióticos e fluidos intravenosos conforme prescrição médica, respeitando horários e compatibilidades.
- Manter controle rigoroso da diurese, utilizando balanço hídrico e sondagem vesical se necessário.
- Garantir higiene adequada e prevenção de infecções, especialmente em pacientes com cateteres, sondas ou feridas abertas.
- Educar familiares e cuidadores sobre a importância da prevenção de infecções e sinais de alerta.
Além disso, o enfermeiro deve participar ativamente das campanhas institucionais de prevenção de sepse, promovendo treinamentos e protocolos assistenciais.
Prognóstico e prevenção
O prognóstico da sepse depende da rapidez com que é diagnosticada e tratada. Pacientes que recebem antibióticos nas primeiras horas de evolução têm maior chance de recuperação.
A prevenção é baseada em medidas simples, mas eficazes:
- Higienização adequada das mãos
- Uso racional de antibióticos
- Cuidados com feridas e dispositivos invasivos
- Vacinação adequada
- Controle rigoroso de infecções hospitalares
A educação continuada da equipe de enfermagem é um dos pilares fundamentais para reduzir a mortalidade por sepse.
A sepse é uma emergência médica e requer atuação rápida, precisa e integrada. O profissional de enfermagem é peça-chave nesse processo, tanto na identificação precoce quanto no suporte clínico e emocional ao paciente e sua família.
Reconhecer a sepse é salvar vidas. Por isso, o conhecimento, a vigilância e o comprometimento da equipe de enfermagem são ferramentas poderosas no combate a essa síndrome devastadora.
Referências:
- INSTITUTO LATINO AMERICANO DE SEPSE (ILAS). Campanha Sobrevivendo à Sepse: Diretrizes Internacionais para o Manejo de Sepse e Choque Séptico. São Paulo: ILAS, 2021. Disponível em: https://ilas.org.br/.
- POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar os capítulos sobre choque e infecção).
- INSTITUTO LATINO-AMERICANO DE SEPSE (ILAS). Sepse: um problema de saúde pública. 2023. Disponível em: https://ilas.org.br
- RHODES, A. et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock: 2021. Intensive Care Medicine, v.47, p. 1181–1247, 2021. Disponível em: https://www.sccm.org/clinical-resources/guidelines
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BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Manejo Clínico da Sepse em Adultos. Brasília: MS, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude









