Cianose: Periférica e Central

A cianose representa uma condição patológica caracterizada por uma coloração azulada da pele ou mucosa, que pode ter etiologia multissistêmica. Ela é classificada em central ou periférica:

  • Cianose central: que ocorre devido à oxigenação inadequada secundária a condições que levam ao aumento da hemoglobina desoxigenada ou presença de hemoglobina anormal, na presença de saturação de oxigênio de 85% ou menos.
  • Cianose periférica: Ocorre principalmente cianose de extremidades e ocorre como ocorre como resultado do aumento da extração de oxigênio pelo tecido periférico no leito capilar. Diferente da central, os pacientes com cianose periférica têm uma saturação de oxigênio arterial sistêmica normal, mas há uma diferença significativa na saturação entre o sangue arterial e venoso.

Etiologia e Fisiopatologia

A cianose ocorre devido à oxigenação inadequada do sangue devido a quantidade de oxigênio ligado à hemoglobina ser muito baixa. Ocorre uma maior proporção de desoxihemoglobina que ultrapassa 5,0 g/dL.

Como a coloração avermelhada do sangue arterial é derivado do conteúdo adequado de oxigênio no sangue, muda para um vermelho mais escuro quando o nível de O2 está reduzido, fazendo com que a pele pareça ter uma tonalidade azul.

A cianose pode então ser causada por condições que diminuam o fornecimento de oxigênio aos tecidos (hipóxia hipoxêmica) ou uma maior extração de oxigênio pelos tecidos periféricos devido ao fluxo sanguíneo reduzido ou irregular para os tecidos (hipóxia estagnada).

O fornecimento de oxigênio é determinado pelo produto do débito cardíaco e do conteúdo de oxigênio arterial. O débito cardíaco é determinado pela pré-carga, pós-carga e contratilidade, enquanto o conteúdo arterial de oxigênio é a soma do oxigênio ligado à hemoglobina e dissolvido no plasma, aproximadamente 1,34 mL por 1 g de hemoglobina e 0,003 mL de oxigênio por 100 mL de plasma.

Central: Causas

  • Hipoventilação devido a condições que afetam o sistema nervoso central, como hemorragia intracraniana, convulsões tônico-clônicas e overdose de heroína.
  • Broncoespasmo (asma), embolia pulmonar, pneumonia, bronquiolite, hipertensão pulmonar, hipoventilação e DPOC ou outras condições pulmonares onde há distúbio ventilação-perfusão (V/Q).
  • Insuficiência cardíaca, doenças cardíacas congênitas (shunts) e doenças cardíacas valvares.
  • Metemoglobinemia, sulfemoglobinemia
  • Policitemia
  • Alta altitude
  • Hipotermia
  • Apneia obstrutiva do sono

Em lactentes e neonatos as causas de cardiopatia congênita cianótica incluem tetralogia de Fallot, atresia tricúspide, truncus arteriosus ou retorno venoso anômalo total.

Periférico: Causas

Observação: todas as causas de cianose central também podem causar cianose periférica.

  • Débito cardíaco diminuído (cianose periférica congestiva)
  • Vasoconstrição local devido à exposição ao frio, hipotermia, acrocianose e fenômeno de Raynaud
  • instabilidade vasomotora
  • Obstrução arterial isquêmica
  • Estase ou obstrução venosa, como na trombose venosa profunda
  • Hiperviscosidade sanguínea, como ocorre em mielomas múltiplos, policitemia e macroglobulinemia

Manifestações clínicas da cianose

Na cianose central, a coloração azulada é generalizada no corpo e nas mucosas visíveis, enquanto na periférica a descoloração azulada ocorre geralmente nas extremidades distais como mãos, pontas dos dedos, pés e, às vezes, pode envolver as região perioral e periorbital. Na periférica geralmente não há acometimento de mucosas.

Tipicamente, quando o nível de hemoglobina desoxigenada está em torno de 3 a 5 g/dL, a cianose torna-se muito evidente. As bochechas, nariz, orelhas e mucosa oral são as melhores áreas para avaliar a cianose, pois a pele nessas áreas é fina e o suprimento sanguíneo é bom, além de ajudar a determinar se a cianose é generalizada ou limitada às extremidades.

Existe um padrão de cianose diferencial que está relacionada a cardiopatias graves, onde ocorre a descoloração azulada assimétrica entre as extremidades superiores e inferiores.

Observação:  A metemoglobinemia deve ser pensada nos diferenciais se a cianose central não melhorar com a administração de oxigênio.

Referências:

  1. Adeyinka A, Kondamudi NP. Cyanosis. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2022 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK482247/
  2. Pahal P, Goyal A. Central and Peripheral Cyanosis.. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2022 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK559167/
  3. Sarah M. McMullen, Ward Patrick. Cyanosis. Physical findings| Volume 126, ISSUE 3, P210-212, March 2013. DOI:https://doi.org/10.1016/j.amjmed.2012.11.004

Fenômeno de Raynaud

raynaud

O Fenômeno conhecido como Raynaud é uma condição em que, por uma série de motivos, ocorre diminuição do calibre de pequenas artérias das extremidades do nosso corpo. Mais comumente, afetam dedos das mãos e/ou dos pés. Porém, isso também pode acontecer (com menos frequência) no nariz, nas orelhas e até mesmo no pênis, pois todos esses locais são considerados extremidades do corpo.

Geralmente, ocorre após exposição ao frio, emoções fortes ou em resposta ao estresse.

Quando isso acontece, há a diminuição do fluxo sanguíneo para as extremidades afetadas, o que leva a uma alteração da coloração dos dedos. Essa alteração de cor costuma apresentar três fases distintas:

  1. Inicialmente, os dedos afetados tornam-se pálidos (esbranquiçados). Isso acontece pela diminuição do fluxo sanguíneo na região, causada pela vasoconstrição das pequenas artérias, levando à isquemia.
  2. Logo depois, os dedos apresentam cianose (cor azulada), por conta da falta de oxigênio chegando na região.
  3. Por fim, a região afetada fica avermelhada e reaquecida. Isso acontece porque, ao fim do episódio, as pequenas artérias que estavam com seu calibre diminuído voltam ao normal e o sangue retorna a circular. Isso é chamado de hiperemia reativa: por conta da recuperação rápida do fluxo sanguíneo, os dedos ficam mais avermelhados que o normal.

Nem todas as três fases precisam estar presentes. Alguns pacientes apresentam apenas a palidez seguida da cianose, enquanto outros podem ainda ter somente a cianose.

Além da alteração da temperatura, alguns outros sintomas do Fenômeno de Raynaud podem estar presentes durante os episódios:

  • Sensação de frio;
  • Amortecimento;
  • Alteração da sensação (parestesia), como formigamentos ou agulhadas.
  • Na fase de hiperemia, pode haver uma sensação de dor latejante.

Em geral, o tratamento farmacológico não é necessário para o Fenômeno de Raynaud primário.O FR secundário pode ser grave, principalmente quando associado à esclerodermia. Outras doenças do tecido conjuntivo, malignidades e aterosclerose também podem ser a causa subjacente.

As possíveis opções de tratamento para o FR secundário são os bloqueadores dos canais de cálcio, antagonistas do receptor da angiotensina, inibidores da enzima conversora da angiotensina (ECA), inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRS), nitratos tópicos e sistêmicos, inibidores da fosfodiesterase-5 (PDE-5) e prostaciclinas.

As complicações no FR secundário incluem isquemia digital grave, gangrena, úlceras digitais e infecções.

Recomenda-se que o paciente se mantenha aquecido, abandone o hábito de fumar, exercite-se regularmente e evite estresse. O alívio da dor pode ser um importante tratamento adjuvante. Há poucos dados sobre terapias complementares.