
Vá direto ao ponto!
Uma das confusões mais comuns na UTI acontece quando alguém diz que “vai fazer uma PAM”. A PAM não é um acesso nem um procedimento: é um valor de pressão. Já a PAI é uma forma invasiva de obtê-la. Entender essa diferença evita erros tanto na comunicação quanto na interpretação do monitor.
PAI, PAM e PANI não são a mesma coisa
PAI — Pressão Arterial Invasiva — é a monitorização realizada por meio de um cateter inserido em uma artéria, conectado a um sistema pressurizado, transdutor e monitor. O sistema fornece continuamente pressão sistólica, diastólica e média, além de permitir coleta de sangue arterial quando indicada.
PAM — Pressão Arterial Média — é um parâmetro hemodinâmico que representa a pressão média no sistema arterial durante o ciclo cardíaco. Ela pode ser obtida pela PAI ou estimada pela pressão arterial não invasiva.
PANI — Pressão Arterial Não Invasiva — utiliza o manguito para realizar medidas intermitentes, geralmente por método oscilométrico ou auscultatório.
Portanto, é perfeitamente possível ter uma PAM sem PAI. Um monitor automático pode fornecer pressão sistólica, diastólica e PAM a partir de uma medida não invasiva.
Como calcular a PAM?
Quando temos a pressão arterial sistólica (PAS) e a diastólica (PAD), uma estimativa bastante utilizada é:
PAM = (PAS + 2 × PAD) ÷ 3
Por exemplo, se a pressão arterial for 120 × 80 mmHg:
PAM = (120 + 2 × 80) ÷ 3
PAM = (120 + 160) ÷ 3
PAM = 280 ÷ 3
PAM ≈ 93 mmHg
Portanto, uma pressão arterial de 120/80 mmHg corresponde a uma PAM estimada de aproximadamente 93 mmHg.
Essa fórmula é uma estimativa e funciona melhor quando a frequência cardíaca e o ritmo são relativamente regulares. Em monitorização invasiva, o equipamento calcula a PAM a partir da própria curva arterial, podendo apresentar um valor diferente do cálculo simplificado.
Quando a PAI faz diferença?
A PAI é especialmente útil quando o paciente precisa de acompanhamento contínuo da pressão, apresenta instabilidade hemodinâmica, utiliza vasopressores em doses relevantes, necessita de controle pressórico mais estreito ou precisa de coletas arteriais frequentes.
Nas diretrizes de sepse de 2026, a monitorização invasiva pode ser particularmente útil quando há necessidade de doses intermediárias ou altas de vasopressores, aumento progressivo das doses, uso de múltiplos vasopressores, coletas arteriais frequentes ou medidas não invasivas repetidamente inconsistentes.
Um exemplo típico na UTI é o paciente em choque recebendo noradrenalina, cuja pressão oscila durante o ajuste da droga. A PAI permite acompanhar a resposta batimento a batimento, enquanto a PANI poderia deixar intervalos sem informação entre uma medida e outra.
O número pode estar errado
Ter um cateter arterial não garante, sozinho, que o valor exibido seja confiável. O transdutor precisa estar corretamente nivelado e zerado, e a curva arterial deve ser avaliada quanto a alterações de amortecimento, bolhas de ar, coágulos, dobras ou conexões inadequadas.
O nivelamento do transdutor utiliza como referência o eixo flebostático, aproximadamente ao nível do átrio direito. Uma diferença vertical de apenas 10 cm pode produzir aproximadamente 7,5 mmHg de diferença por efeito hidrostático, suficiente para interferir na tomada de decisão em determinados pacientes.
Na prática, imagine um paciente que acabou de ser reposicionado no leito e, poucos minutos depois, a PAM aparece muito diferente. Antes de concluir que a hemodinâmica mudou e aumentar ou reduzir um vasopressor, vale conferir o nível do transdutor e a qualidade da curva. Esse pequeno detalhe pode evitar uma intervenção baseada em uma medida tecnicamente incorreta.
Existe uma PAM “normal”?
Não existe um único valor de PAM que sirva como meta para todos os pacientes críticos. O número precisa ser interpretado junto com diagnóstico, perfusão, função dos órgãos, idade e objetivo terapêutico.
No choque séptico, por exemplo, a recomendação atual para adultos é utilizar inicialmente uma meta de aproximadamente 65 mmHg, enquanto pacientes com 65 anos ou mais podem ter uma faixa inicial de 60–65 mmHg considerada pela diretriz de 2026. Isso não transforma esses valores em uma “faixa normal” universal para qualquer paciente.
E quando PAI e PANI discordam?
Diferenças entre a pressão invasiva e a não invasiva podem ocorrer por questões técnicas e fisiológicas. Tamanho ou posicionamento inadequado do manguito, vasoconstrição, arritmias, alterações da complacência arterial, nivelamento incorreto do transdutor e amortecimento da curva estão entre os fatores que podem produzir discrepâncias.
Quando os valores divergem de forma relevante, a conduta não deve ser simplesmente escolher um deles. Primeiro é necessário verificar técnica, equipamento, curva arterial e condição clínica do paciente, além de considerar outros sinais de perfusão.
Cuidados de enfermagem
Na PAI, a enfermagem deve acompanhar a integridade do sistema, nível do transdutor, zeragem conforme necessidade e protocolo, qualidade da curva, conexões, presença de bolhas ou coágulos, pressão do sistema de flush e condições do membro com o cateter.
Também é importante observar sangramento, hematoma, sinais de isquemia, infecção e alteração da perfusão distal. O cateter arterial deve permanecer enquanto houver indicação clínica e ser retirado quando não for mais necessário; não se recomenda sua troca rotineira apenas para prevenção de infecção.
No Brasil, a punção arterial para gasometria e a instalação do cateter intra-arterial para monitorização da PAI são procedimentos privativos do enfermeiro, conforme a Resolução Cofen nº 703/2022.
A diferença essencial para guardar é simples: PAI é o método invasivo de monitorização; PAM é um dos valores obtidos por essa monitorização. E a mesma PAM também pode ser obtida pela PANI.
PAI ou PAM
- PAI é um método invasivo de monitorização
- PAM é um parâmetro hemodinâmico
- Aprenda a calcular a PAM
- Nivelamento e curva interferem na confiabilidade da PAI
Referências:
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 703, de 14 de julho de 2022. Atualiza a norma para a execução, pelo Enfermeiro, da punção arterial para gasometria e/ou instalação de cateter intra-arterial para monitorização da pressão arterial invasiva (PAI). Brasília, DF: Cofen, 2022.
- SAUGEL, B. et al. How to measure blood pressure using an arterial catheter: a systematic 5-step approach. Critical Care, 2020.
- SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2026. Mount Prospect: SCCM, 2026.
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Conta pra gente qual assunto você quer ver esmiuçado e transformado em ilustração no próximo post!
Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva. Une a vivência clínica à inovação digital e criativa, atuando na produção de conteúdos educacionais, ilustração digital e no desenvolvimento web de ferramentas e recursos interativos (PHP, CSS e JavaScript).
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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