O cuidado com feridas faz parte da rotina da enfermagem em praticamente todos os níveis de atenção à saúde. Desde uma lesão simples até feridas complexas e infectadas, a escolha do curativo adequado influencia diretamente no tempo de cicatrização, no conforto do paciente e na prevenção de complicações. Entre as tecnologias mais utilizadas atualmente está o hidrogel com PHMB, um produto que associa hidratação do leito da ferida com ação antimicrobiana.
Esta publicação tem como objetivo explicar, de forma clara e completa, o que é o hidrogel com PHMB, como ele age, quando deve ser utilizado, quais cuidados a enfermagem deve ter e por que ele é considerado um aliado importante no tratamento moderno de feridas.
O que é o hidrogel com PHMB?
O hidrogel é um tipo de curativo composto por grande quantidade de água (cerca de 70% a 90%), associada a polímeros que formam uma substância gelatinosa. Sua principal função é manter o ambiente úmido, condição essencial para a cicatrização adequada.
O PHMB (polihexametileno biguanida) é um agente antimicrobiano de amplo espectro, eficaz contra diversas bactérias, incluindo microrganismos gram-positivos, gram-negativos e alguns fungos. Ele atua rompendo a membrana celular dos microrganismos, levando à sua destruição, sem causar danos significativos às células humanas.
Quando unidos, hidrogel e PHMB formam um curativo capaz de hidratar a ferida, auxiliar no desbridamento autolítico e controlar a carga microbiana local.
Como o hidrogel com PHMB atua na ferida?
O mecanismo de ação do hidrogel com PHMB ocorre em duas frentes principais:
Primeiro, o hidrogel promove hidratação do leito da ferida. Isso favorece a remoção natural de tecidos desvitalizados, processo conhecido como desbridamento autolítico, além de reduzir a dor e facilitar a migração celular necessária para a cicatrização.
Segundo, o PHMB age como barreira antimicrobiana. Ele reduz a proliferação de bactérias no local da lesão, prevenindo infecções e contribuindo para um ambiente mais seguro para a regeneração dos tecidos.
Essa combinação é especialmente importante em feridas crônicas ou contaminadas, nas quais o equilíbrio entre umidade e controle de infecção é essencial.
A Luta Contra o Biofilme e a Carga Microbiana
Muitas feridas crônicas, como úlceras venosas ou pés diabéticos, param de cicatrizar porque as bactérias se organizam em uma estrutura complexa chamada biofilme. O biofilme é uma espécie de “escudo” protetor que torna as bactérias resistentes a antibióticos sistêmicos e à limpeza comum.
O hidrogel com PHMB atua rompendo essa barreira. Enquanto o gel amolece a matriz extracelular do biofilme, o PHMB penetra e elimina os micro-organismos. Esse processo reduz a carga bacteriana e o odor, além de controlar o exsudato indiretamente ao diminuir a inflamação causada pela infecção.
Diferente de outros antissépticos como a iodopovidona ou o peróxido de hidrogênio, o PHMB não retarda a granulação, o que permite que o tratamento seja contínuo até que a ferida apresente sinais de melhora.
Indicações clínicas do hidrogel com PHMB
O hidrogel com PHMB é indicado principalmente para feridas que necessitam de hidratação associada ao controle microbiano. Entre as situações mais comuns estão:
- Feridas crônicas, como úlceras por pressão, úlceras venosas e úlceras diabéticas.
- Feridas com presença de tecido desvitalizado ou necrose úmida.
- Feridas com sinais de colonização crítica ou risco aumentado de infecção.
- Queimaduras superficiais e de espessura parcial.
- Feridas cirúrgicas com deiscência ou exsudato moderado.
- Lesões traumáticas com contaminação local.
Sua utilização deve ser avaliada conforme a característica da ferida, quantidade de exsudato e condição clínica do paciente.
Por ser um gel, ele se molda perfeitamente ao leito da ferida, garantindo que o antisséptico esteja em contato com toda a superfície irregular da lesão. Além disso, ele ajuda no controle da dor no momento da troca do curativo, pois mantém o leito úmido e impede que a cobertura secundária grude no tecido novo.
Quando o hidrogel com PHMB não é indicado?
Apesar de ser um produto seguro, existem situações em que seu uso deve ser evitado ou avaliado com cautela.
Ele não é indicado para feridas secas sem necrose, pois o excesso de umidade pode macerar a pele ao redor. Também deve ser usado com cautela em pacientes com hipersensibilidade conhecida ao PHMB.
Em feridas muito exsudativas, o hidrogel pode não ser a melhor opção, já que sua principal função é hidratar, e não absorver grandes volumes de secreção.
Benefícios do hidrogel com PHMB no tratamento de feridas
Entre os principais benefícios observados na prática clínica estão a redução da carga bacteriana local, a manutenção de um ambiente úmido ideal para cicatrização e a diminuição da dor durante as trocas de curativo.
Outro ponto importante é a facilidade de aplicação e remoção, o que reduz o trauma ao tecido recém-formado. Além disso, o PHMB apresenta baixa toxicidade celular, sendo considerado seguro para uso contínuo.
O hidrogel com PHMB também contribui para a prevenção de infecções secundárias, fator decisivo na evolução positiva da ferida.
Cuidados de enfermagem no uso do hidrogel com PHMB
A aplicação dessa cobertura exige técnica e critérios clínicos. O primeiro passo é sempre a limpeza vigorosa da lesão. O ideal é utilizar uma solução de limpeza também contendo PHMB ou soro fisiológico 0,9% em jato para remover mecanicamente os detritos superficiais.
Técnica de Aplicação e Quantidade
Ao aplicar o gel, o enfermeiro deve garantir uma camada de aproximadamente 3 a 5 mm de espessura sobre o leito da ferida. Não se deve “encher” demais a cavidade, pois o excesso de umidade pode causar a maceração das bordas (aquelas bordas esbranquiçadas e amolecidas), o que prejudica a contração da ferida e aumenta o tamanho da lesão. Proteger a pele perilesional com um filme barreira ou óxido de zinco é uma excelente prática associada.
Escolha da Cobertura Secundária e Frequência de Troca
O hidrogel precisa de uma cobertura secundária para ser mantido no lugar. Em feridas com pouco exsudato, um filme transparente ou uma gaze não aderente pode funcionar. Se a ferida tiver exsudato moderado, pode-se usar uma espuma ou gaze algodonada. A frequência de troca depende da saturação da cobertura secundária e da quantidade de esfacelo, mas geralmente varia de 24 a 72 horas.
Em feridas muito infectadas, as trocas diárias são recomendadas para remover a carga bacteriana morta acumulada no gel.
A enfermagem também deve monitorar sinais de melhora ou piora da ferida, como redução do tamanho, mudança de coloração, presença de dor, odor ou secreção purulenta.
Importância do hidrogel com PHMB na prática clínica moderna
O uso do hidrogel com PHMB representa um avanço no cuidado de feridas, pois associa dois princípios fundamentais da cicatrização: controle da infecção e manutenção da umidade adequada.
Sua utilização está alinhada às recomendações atuais de tratamento baseado em evidências, que defendem ambientes úmidos e controle microbiano como pilares da cicatrização eficiente.
Para estudantes e profissionais de enfermagem, compreender esse recurso terapêutico significa oferecer uma assistência mais segura, humanizada e eficaz.
O hidrogel com PHMB é um curativo moderno, indicado para diversas situações clínicas, especialmente em feridas crônicas e contaminadas. Sua ação hidratante e antimicrobiana contribui para acelerar o processo de cicatrização, reduzir riscos de infecção e proporcionar maior conforto ao paciente.
O sucesso do tratamento depende não apenas do produto utilizado, mas da avaliação criteriosa da ferida e dos cuidados de enfermagem durante todo o processo terapêutico.
Conhecer suas indicações, limitações e técnica correta de aplicação é essencial para uma prática segura e baseada em evidências.
Referências:
- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Vocabulário Controlado de Formas Farmacêuticas, Vias de Administração e Linhas de Extensão de Cuidado. Brasília: Anvisa, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br.
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- SANTOS, Ivone Evangelista et al. Enfermagem em Estomaterapia: cuidados com feridas. 2. ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2020.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENFERMAGEM EM ESTOMATERAPIA (SOBEST). Guia de Boas Práticas: Prevenção e Tratamento de Feridas. 2022. Disponível em: https://sobest.com.br/.
- MOORE, Z.; BUTCHER, G.; CORBETT, L. et al. A systematic review of wound dressings with PHMB. Journal of Wound Care, Londres, v. 23, n. 5, p. 1–12, 2014.
Disponível em: https://www.magonlinelibrary.com - SMELTZER, S. C.; BARE, B. G. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
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AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Boas práticas no cuidado de feridas. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa











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