Tipos de Necrose Como Diferenciar

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Conteúdo Atualizado! Revisado e atualizado em 20/09/2026.

Nem todo tecido escuro, endurecido ou amolecido representa o mesmo tipo de necrose. A aparência ajuda a levantar hipóteses, mas a classificação dos tipos de necrose é principalmente morfológica e histopatológica, relacionada ao mecanismo e ao tecido afetado.

O que é necrose?

Necrose é uma forma de morte celular associada a uma lesão irreversível. A perda da integridade da membrana celular permite o extravasamento do conteúdo intracelular e desencadeia resposta inflamatória no tecido ao redor.

Isquemia é uma causa importante, mas não é a única. Infecções, toxinas, traumatismos, pancreatite e processos imunológicos também podem produzir diferentes padrões de necrose.

Os principais tipos de necrose

Necrose de coagulação

É o padrão mais associado à isquemia em órgãos sólidos, com exceção do encéfalo. A arquitetura básica do tecido permanece reconhecível por algum tempo, embora as células estejam mortas.

Infarto agudo do miocárdio e isquemia renal são exemplos clássicos.

Necrose de liquefação

Aqui ocorre digestão enzimática do tecido, que perde sua estrutura e se transforma em material líquido ou viscoso.

É típica de infecções com formação de pus e também ocorre após isquemia no sistema nervoso central. Esse detalhe é importante para a prova: infarto cerebral apresenta necrose liquefativa, enquanto a maioria dos demais infartos de órgãos sólidos apresenta padrão coagulativo.

Necrose caseosa

Recebe esse nome pela aparência esbranquiçada e semelhante a queijo. É classicamente associada à tuberculose, podendo também ocorrer em algumas infecções fúngicas.

Um cuidado com a terminologia: o granuloma é a resposta inflamatória organizada que pode circundar a área de necrose caseosa; portanto, necrose caseosa e granuloma não são sinônimos.

Necrose gordurosa

Acomete tecido adiposo. Um exemplo clássico ocorre na pancreatite aguda, quando enzimas pancreáticas degradam a gordura e liberam ácidos graxos, que podem se combinar com cálcio, produzindo áreas esbranquiçadas de saponificação.

Também pode ocorrer no tecido mamário, inclusive após traumatismos.

Necrose fibrinoide

É um padrão observado principalmente em paredes de vasos sanguíneos, associado à deposição de proteínas plasmáticas, especialmente fibrina, e a processos de lesão vascular imunomediada.

Diferentemente de alguns padrões facilmente percebidos a olho nu, a necrose fibrinoide é essencialmente uma alteração microscópica.

E a necrose gangrenosa?

Aqui está uma correção importante da classificação antiga: gangrena é um termo clínico, não um padrão morfológico independente de necrose.

A gangrena seca geralmente corresponde à necrose isquêmica, predominantemente coagulativa. Na gangrena úmida, existe infecção sobre o tecido isquêmico, com maior componente de liquefação. A gangrena pode acometer principalmente extremidades e exige avaliação rápida porque a extensão da isquemia e a presença de infecção modificam completamente a conduta.

Necrose em feridas: cuidado com o diagnóstico pela aparência

Na assistência de enfermagem, é comum encontrar uma ferida com tecido preto, marrom ou amarelado e surgir a dúvida: “qual tipo de necrose é essa?”. A resposta não deve ser dada apenas pela cor.

Em feridas, termos como eschar/escara, slough/esfacelo, tecido de granulação e tecido epitelial descrevem características do leito da lesão e não correspondem automaticamente aos seis padrões histopatológicos de necrose.

Em uma lesão por pressão, por exemplo, uma área de escara seca e estável precisa ser avaliada considerando localização, perfusão, sinais de infecção e condição geral do paciente. A diretriz internacional de 2026 recomenda documentar características da lesão e evitar intervenções automáticas sem considerar o contexto clínico.

Em uma situação prática, imagine uma lesão no calcâneo coberta por escara seca, endurecida e sem secreção. A conduta não deve ser simplesmente “retirar porque é necrose”. Se houver comprometimento vascular, por exemplo, o desbridamento pode trazer risco e precisa ser avaliado pela equipe responsável. A diretriz internacional orienta atenção especial à perfusão e aos sinais de infecção antes de decidir pelo desbridamento.

Já quando uma ferida passa a apresentar aumento de dor, edema, eritema, secreção purulenta, odor associado a deterioração local ou outros sinais de infecção, a situação muda. A presença de tecido desvitalizado pode exigir intervenção específica, e o paciente precisa ser reavaliado quanto à causa e à extensão da lesão.

Cuidados de enfermagem

Na avaliação de uma lesão com suspeita de tecido necrótico, a enfermagem deve observar e registrar localização, extensão, aspecto do leito, tipo e quantidade de exsudato, condições da pele ao redor, odor, dor e sinais de infecção, além de acompanhar a evolução.

O desbridamento não deve ser tratado como procedimento automático para qualquer área escura. A escolha da técnica depende da etiologia da ferida, perfusão, extensão do tecido desvitalizado, condição clínica e protocolo ou competência profissional estabelecida. Em feridas relacionadas ao diabetes, por exemplo, diretrizes recomendam que o desbridamento faça parte de um plano de cuidado adequado, mas reconhecem que a evidência sobre a superioridade de cada método permanece limitada.

Também é fundamental investigar a causa do tecido desvitalizado. Corrigir ou controlar a causa — como isquemia, pressão, infecção ou doença de base — é tão importante quanto cuidar do leito da ferida.

Para memorizar

  • Coagulação: isquemia em órgãos sólidos, preservação temporária da arquitetura.
  • Liquefação: digestão enzimática, típica de infecção e do infarto cerebral.
  • Caseosa: aspecto semelhante a queijo, classicamente relacionada à tuberculose.
  • Gordurosa: destruição do tecido adiposo, especialmente na pancreatite.
  • Fibrinoide: lesão microscópica relacionada principalmente às paredes vasculares.
  • Gangrena: termo clínico para necrose isquêmica, podendo haver infecção associada.

Resumo para salvar

Tipos de Necrose

  • Necrose é morte celular por lesão irreversível
  • Coagulação é típica da isquemia em órgãos sólidos
  • Liquefação ocorre em infecções e no infarto cerebral
  • Gangrena é um termo clínico e não um padrão histológico independente

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Referências:

  1. ABBAS, Abul K.; ASTER, Jon C. Robbins & Cotran: Patologia – Bases Patológicas das Doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  2. NATIONAL CENTER FOR BIOTECHNOLOGY INFORMATION. Necrosis Pathology. StatPearls. Treasure Island: StatPearls Publishing. Disponível em: NCBI Bookshelf – Necrosis Pathology.
  3. NATIONAL CENTER FOR BIOTECHNOLOGY INFORMATION. Cell Liquefactive Necrosis. StatPearls. Treasure Island: StatPearls Publishing. Disponível em: NCBI Bookshelf – Cell Liquefactive Necrosis.
  4. NATIONAL PRESSURE INJURY ADVISORY PANEL; EUROPEAN PRESSURE ULCER ADVISORY PANEL; PAN PACIFIC PRESSURE INJURY ALLIANCE. Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Clinical Practice Guideline. The International Guideline. 4. ed. 2026. Disponível em: International Guideline.
  5. INTERNATIONAL WORKING GROUP ON THE DIABETIC FOOT. IWGDF Guidelines on interventions to enhance healing of foot ulcers in people with diabetes. 2023. Disponível em: IWGDF Wound Healing Guideline. 
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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
✓ 16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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