
Vá direto ao ponto!
- 1. O que é necrose?
- 2. Os principais tipos de necrose
- 2.1. Necrose de coagulação
- 2.2. Necrose de liquefação
- 2.3. Necrose caseosa
- 2.4. Necrose gordurosa
- 2.5. Necrose fibrinoide
- 3. E a necrose gangrenosa?
- 4. Necrose em feridas: cuidado com o diagnóstico pela aparência
- 5. Cuidados de enfermagem
- 6. Para memorizar
Nem todo tecido escuro, endurecido ou amolecido representa o mesmo tipo de necrose. A aparência ajuda a levantar hipóteses, mas a classificação dos tipos de necrose é principalmente morfológica e histopatológica, relacionada ao mecanismo e ao tecido afetado.
O que é necrose?
Necrose é uma forma de morte celular associada a uma lesão irreversível. A perda da integridade da membrana celular permite o extravasamento do conteúdo intracelular e desencadeia resposta inflamatória no tecido ao redor.
Isquemia é uma causa importante, mas não é a única. Infecções, toxinas, traumatismos, pancreatite e processos imunológicos também podem produzir diferentes padrões de necrose.
Os principais tipos de necrose
Necrose de coagulação
É o padrão mais associado à isquemia em órgãos sólidos, com exceção do encéfalo. A arquitetura básica do tecido permanece reconhecível por algum tempo, embora as células estejam mortas.
Infarto agudo do miocárdio e isquemia renal são exemplos clássicos.
Necrose de liquefação
Aqui ocorre digestão enzimática do tecido, que perde sua estrutura e se transforma em material líquido ou viscoso.
É típica de infecções com formação de pus e também ocorre após isquemia no sistema nervoso central. Esse detalhe é importante para a prova: infarto cerebral apresenta necrose liquefativa, enquanto a maioria dos demais infartos de órgãos sólidos apresenta padrão coagulativo.
Necrose caseosa
Recebe esse nome pela aparência esbranquiçada e semelhante a queijo. É classicamente associada à tuberculose, podendo também ocorrer em algumas infecções fúngicas.
Um cuidado com a terminologia: o granuloma é a resposta inflamatória organizada que pode circundar a área de necrose caseosa; portanto, necrose caseosa e granuloma não são sinônimos.
Necrose gordurosa
Acomete tecido adiposo. Um exemplo clássico ocorre na pancreatite aguda, quando enzimas pancreáticas degradam a gordura e liberam ácidos graxos, que podem se combinar com cálcio, produzindo áreas esbranquiçadas de saponificação.
Também pode ocorrer no tecido mamário, inclusive após traumatismos.
Necrose fibrinoide
É um padrão observado principalmente em paredes de vasos sanguíneos, associado à deposição de proteínas plasmáticas, especialmente fibrina, e a processos de lesão vascular imunomediada.
Diferentemente de alguns padrões facilmente percebidos a olho nu, a necrose fibrinoide é essencialmente uma alteração microscópica.
E a necrose gangrenosa?
Aqui está uma correção importante da classificação antiga: gangrena é um termo clínico, não um padrão morfológico independente de necrose.
A gangrena seca geralmente corresponde à necrose isquêmica, predominantemente coagulativa. Na gangrena úmida, existe infecção sobre o tecido isquêmico, com maior componente de liquefação. A gangrena pode acometer principalmente extremidades e exige avaliação rápida porque a extensão da isquemia e a presença de infecção modificam completamente a conduta.
Necrose em feridas: cuidado com o diagnóstico pela aparência
Na assistência de enfermagem, é comum encontrar uma ferida com tecido preto, marrom ou amarelado e surgir a dúvida: “qual tipo de necrose é essa?”. A resposta não deve ser dada apenas pela cor.
Em feridas, termos como eschar/escara, slough/esfacelo, tecido de granulação e tecido epitelial descrevem características do leito da lesão e não correspondem automaticamente aos seis padrões histopatológicos de necrose.
Em uma lesão por pressão, por exemplo, uma área de escara seca e estável precisa ser avaliada considerando localização, perfusão, sinais de infecção e condição geral do paciente. A diretriz internacional de 2026 recomenda documentar características da lesão e evitar intervenções automáticas sem considerar o contexto clínico.
Em uma situação prática, imagine uma lesão no calcâneo coberta por escara seca, endurecida e sem secreção. A conduta não deve ser simplesmente “retirar porque é necrose”. Se houver comprometimento vascular, por exemplo, o desbridamento pode trazer risco e precisa ser avaliado pela equipe responsável. A diretriz internacional orienta atenção especial à perfusão e aos sinais de infecção antes de decidir pelo desbridamento.
Já quando uma ferida passa a apresentar aumento de dor, edema, eritema, secreção purulenta, odor associado a deterioração local ou outros sinais de infecção, a situação muda. A presença de tecido desvitalizado pode exigir intervenção específica, e o paciente precisa ser reavaliado quanto à causa e à extensão da lesão.
Cuidados de enfermagem
Na avaliação de uma lesão com suspeita de tecido necrótico, a enfermagem deve observar e registrar localização, extensão, aspecto do leito, tipo e quantidade de exsudato, condições da pele ao redor, odor, dor e sinais de infecção, além de acompanhar a evolução.
O desbridamento não deve ser tratado como procedimento automático para qualquer área escura. A escolha da técnica depende da etiologia da ferida, perfusão, extensão do tecido desvitalizado, condição clínica e protocolo ou competência profissional estabelecida. Em feridas relacionadas ao diabetes, por exemplo, diretrizes recomendam que o desbridamento faça parte de um plano de cuidado adequado, mas reconhecem que a evidência sobre a superioridade de cada método permanece limitada.
Também é fundamental investigar a causa do tecido desvitalizado. Corrigir ou controlar a causa — como isquemia, pressão, infecção ou doença de base — é tão importante quanto cuidar do leito da ferida.
Para memorizar
- Coagulação: isquemia em órgãos sólidos, preservação temporária da arquitetura.
- Liquefação: digestão enzimática, típica de infecção e do infarto cerebral.
- Caseosa: aspecto semelhante a queijo, classicamente relacionada à tuberculose.
- Gordurosa: destruição do tecido adiposo, especialmente na pancreatite.
- Fibrinoide: lesão microscópica relacionada principalmente às paredes vasculares.
- Gangrena: termo clínico para necrose isquêmica, podendo haver infecção associada.
Tipos de Necrose
- Necrose é morte celular por lesão irreversível
- Coagulação é típica da isquemia em órgãos sólidos
- Liquefação ocorre em infecções e no infarto cerebral
- Gangrena é um termo clínico e não um padrão histológico independente
Referências:
- ABBAS, Abul K.; ASTER, Jon C. Robbins & Cotran: Patologia – Bases Patológicas das Doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- NATIONAL CENTER FOR BIOTECHNOLOGY INFORMATION. Necrosis Pathology. StatPearls. Treasure Island: StatPearls Publishing. Disponível em: NCBI Bookshelf – Necrosis Pathology.
- NATIONAL CENTER FOR BIOTECHNOLOGY INFORMATION. Cell Liquefactive Necrosis. StatPearls. Treasure Island: StatPearls Publishing. Disponível em: NCBI Bookshelf – Cell Liquefactive Necrosis.
- NATIONAL PRESSURE INJURY ADVISORY PANEL; EUROPEAN PRESSURE ULCER ADVISORY PANEL; PAN PACIFIC PRESSURE INJURY ALLIANCE. Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Clinical Practice Guideline. The International Guideline. 4. ed. 2026. Disponível em: International Guideline.
- INTERNATIONAL WORKING GROUP ON THE DIABETIC FOOT. IWGDF Guidelines on interventions to enhance healing of foot ulcers in people with diabetes. 2023. Disponível em: IWGDF Wound Healing Guideline.
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.


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