Adalimumabe: tudo o que você precisa saber sobre esse imunobiológico

O adalimumabe é um dos medicamentos imunobiológicos mais utilizados no mundo para o tratamento de doenças inflamatórias e autoimunes. Desde sua aprovação no início dos anos 2000, revolucionou o tratamento de enfermidades que antes apresentavam poucas opções terapêuticas, permitindo que milhares de pacientes alcançassem remissão da doença, redução da inflamação e melhora significativa na qualidade de vida.

Na prática clínica, o adalimumabe está presente em diversas especialidades médicas, como reumatologia, gastroenterologia, dermatologia, oftalmologia e pediatria. Para a enfermagem, conhecer seu mecanismo de ação, indicações, formas de administração, cuidados durante o armazenamento e possíveis efeitos adversos é fundamental para garantir uma assistência segura.

Aqui você conhecerá detalhadamente o que é o adalimumabe, como ele funciona, para quais doenças é indicado, quais são seus nomes comerciais, seus riscos, benefícios e os principais cuidados de enfermagem.

O que é o adalimumabe?

O adalimumabe é um anticorpo monoclonal humano recombinante, pertencente à classe dos medicamentos imunobiológicos. Sua principal função é bloquear uma proteína inflamatória denominada Fator de Necrose Tumoral alfa (TNF-α – Tumor Necrosis Factor alpha).

O TNF-α é uma citocina produzida pelo sistema imunológico e possui papel importante na defesa do organismo contra infecções. Entretanto, em pessoas com doenças autoimunes, essa proteína passa a ser produzida em excesso, provocando inflamação persistente e danos aos tecidos.

Ao bloquear o TNF-α, o adalimumabe reduz a resposta inflamatória exagerada, diminuindo sintomas como dor, edema, rigidez, diarreia, lesões cutâneas e destruição articular.

Como o adalimumabe age no organismo?

Para entender seu funcionamento, imagine que o TNF-α seja um “interruptor” que mantém a inflamação ligada continuamente. O adalimumabe atua como uma espécie de “chave” que se liga ao TNF-α antes que ele alcance seus receptores celulares.

Como consequência:

  • diminui a migração de células inflamatórias;
  • reduz a produção de outras citocinas;
  • controla a resposta autoimune;
  • diminui o dano aos tecidos;
  • favorece a cicatrização de áreas inflamadas.

Importante destacar que o medicamento não cura a doença autoimune, mas controla sua atividade enquanto está sendo utilizado.

O que é um imunobiológico?

Os imunobiológicos são medicamentos produzidos por técnicas de engenharia genética utilizando células vivas. Diferentemente dos medicamentos sintéticos tradicionais, eles são proteínas altamente complexas que atuam em alvos específicos do sistema imunológico.

Entre suas principais características estão:

  • elevada especificidade;
  • maior eficácia em doenças autoimunes moderadas e graves;
  • administração por via subcutânea ou intravenosa;
  • necessidade de refrigeração;
  • alto custo de produção.

Quais doenças podem ser tratadas com adalimumabe?

O adalimumabe possui diversas indicações aprovadas, embora elas possam variar conforme a legislação de cada país e a bula de cada produto. Entre as principais doenças estão:

Artrite reumatoide

Reduz:

  • dor;
  • rigidez matinal;
  • edema articular;
  • progressão das deformidades.

Artrite idiopática juvenil

Indicado em crianças com formas moderadas e graves da doença.

Artrite psoriásica

Controla tanto a inflamação articular quanto as lesões cutâneas da psoríase.

Espondilite anquilosante

Melhora:

  • dor lombar inflamatória;
  • rigidez;
  • mobilidade da coluna.

Espondiloartrite axial não radiográfica

Pode reduzir sintomas e retardar a progressão da doença em pacientes selecionados.

Psoríase em placas

É utilizado em casos moderados ou graves.

Promove redução das placas, descamação e prurido.

Hidradenite supurativa

É um dos tratamentos biológicos mais utilizados.

Reduz:

  • abscessos;
  • dor;
  • drenagem;
  • recorrências.

Doença de Crohn

É uma das principais indicações do medicamento.

Pode promover:

  • remissão clínica;
  • cicatrização da mucosa intestinal;
  • redução das fístulas;
  • diminuição da necessidade de cirurgias;
  • redução do uso prolongado de corticoides.

Retocolite ulcerativa

Auxilia no controle da inflamação intestinal e manutenção da remissão em pacientes elegíveis.

Uveíte não infecciosa

Diminui a inflamação ocular e reduz o risco de perda visual.

Quais são os nomes comerciais do adalimumabe?

Com o vencimento da patente do medicamento original, diversos biossimilares passaram a ser aprovados em vários países, incluindo o Brasil. Entre os principais nomes comerciais disponíveis estão:

Medicamento de referência

  • Humira® (AbbVie)

Biossimilares

Dependendo do país e da disponibilidade no mercado, podem ser encontrados:

  • Amgevita®
  • Hyrimoz®
  • Hadlima®
  • Yuflyma®
  • Idacio®
  • Imraldi®
  • Amsparity®
  • Hulio®
  • Abrilada®
  • Yusimry®
  • Cyltezo®
  • Simlandi®
  • Libmyris® (alguns mercados)
  • Exemptia® (alguns países)

No Brasil, a disponibilidade pode variar conforme aprovações da Anvisa, processos de incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), compras públicas e distribuição pelas operadoras de saúde. Novos biossimilares podem ser registrados ao longo do tempo.

O que é um biossimilar?

Um biossimilar não é um medicamento genérico. Ele é produzido para ser altamente semelhante ao medicamento biológico original.

Para ser aprovado, deve demonstrar:

  • eficácia equivalente;
  • segurança semelhante;
  • qualidade comparável;
  • atividade biológica equivalente.

Pequenas diferenças estruturais podem existir devido ao processo de fabricação, mas elas não devem comprometer o efeito clínico.

Como o adalimumabe é administrado?

O medicamento é administrado por injeção subcutânea.

As regiões mais utilizadas são:

  • abdômen (mantendo distância de aproximadamente 5 cm da cicatriz umbilical);
  • face anterior da coxa.

A escolha do local deve respeitar o rodízio das áreas de aplicação para reduzir irritação local.

Apresentações disponíveis

As apresentações podem variar conforme o fabricante. As mais comuns incluem:

  • seringa preenchida;
  • caneta autoinjetora (pen);
  • solução injetável pronta para uso.

As concentrações mais frequentes são:

  • 20 mg;
  • 40 mg;
  • 80 mg.

Em alguns mercados existem apresentações de alta concentração (como 100 mg/mL), desenvolvidas para reduzir o volume da injeção.

Qual é a frequência de administração?

A frequência depende da doença tratada e do protocolo adotado. Em muitas indicações utiliza-se:

  • aplicação a cada 14 dias.

Entretanto, algumas doenças exigem:

  • dose de ataque (indução);
  • aplicações semanais;
  • esquemas individualizados.

Na Doença de Crohn e na Retocolite Ulcerativa, por exemplo, é comum iniciar o tratamento com uma dose de indução mais elevada, seguida por doses de manutenção, conforme protocolo clínico e resposta do paciente.

Quanto tempo demora para fazer efeito?

Os primeiros resultados podem surgir entre 2 e 12 semanas. Entretanto, algumas doenças necessitam de vários meses para apresentar resposta completa.

O tratamento é para sempre?

Nem sempre.

A duração depende de diversos fatores:

  • doença de base;
  • resposta clínica;
  • exames laboratoriais;
  • atividade inflamatória;
  • orientação médica.

Em algumas doenças, como a Doença de Crohn, a interrupção do tratamento após alcançar remissão pode aumentar significativamente o risco de recaída. Por isso, muitos pacientes permanecem em uso prolongado, enquanto outros podem ter o esquema ajustado ou suspenso após avaliação criteriosa pelo especialista.

Quais exames devem ser realizados antes de iniciar o tratamento?

Antes da primeira dose, é essencial realizar uma investigação para reduzir o risco de complicações.

Os exames frequentemente solicitados incluem:

  • hemograma completo;
  • função hepática;
  • função renal;
  • sorologias para hepatites B e C;
  • teste para HIV, quando indicado;
  • pesquisa para tuberculose latente (PPD ou IGRA);
  • radiografia de tórax;
  • avaliação do calendário vacinal.

Dependendo do contexto clínico, o médico poderá solicitar outros exames.

Vacinas e adalimumabe

Pacientes em uso de adalimumabe podem receber diversas vacinas inativadas, conforme recomendação médica. Por outro lado, vacinas com microrganismos vivos atenuados geralmente devem ser evitadas durante o tratamento imunossupressor, salvo em situações específicas e após avaliação especializada.

Idealmente, o calendário vacinal deve ser atualizado antes do início da terapia.

Quais são os efeitos adversos?

Reações muito comuns

  • vermelhidão no local da aplicação;
  • dor;
  • prurido;
  • hematoma;
  • cefaleia;
  • infecções respiratórias leves.

Efeitos adversos importantes

  • tuberculose;
  • pneumonia;
  • herpes-zóster;
  • infecções oportunistas;
  • sepse;
  • alterações hepáticas;
  • insuficiência cardíaca (em pacientes predispostos);
  • desmielinização;
  • citopenias;
  • reações alérgicas.

Quando o medicamento deve ser suspenso temporariamente?

A decisão é sempre médica, mas geralmente pode ser necessária em situações como:

  • infecção grave;
  • febre persistente sem causa esclarecida;
  • sepse;
  • cirurgia de grande porte (em muitos casos, conforme protocolo da especialidade);
  • reações alérgicas importantes.

O paciente não deve interromper o tratamento por conta própria.

Como deve ser armazenado?

O armazenamento adequado é essencial para preservar a eficácia do medicamento.

Recomenda-se:

  • manter refrigerado entre 2 °C e 8 °C;
  • não congelar;
  • proteger da luz;
  • manter na embalagem original até o momento do uso.

Antes da aplicação, muitos fabricantes orientam retirar o medicamento da geladeira e aguardar cerca de 15 a 30 minutos para que atinja a temperatura ambiente, sem utilizar fontes externas de calor.

O adalimumabe pode aumentar o risco de câncer?

Essa é uma dúvida frequente. Os estudos disponíveis mostram que o risco absoluto é baixo, mas pacientes com doenças autoimunes já podem apresentar maior predisposição a algumas neoplasias independentemente do tratamento. Além disso, o uso de imunossupressores exige acompanhamento regular e avaliação individualizada dos riscos e benefícios.

A decisão de iniciar ou manter o adalimumabe deve sempre considerar o perfil clínico do paciente.

Curiosidades

O adalimumabe foi o primeiro anticorpo monoclonal totalmente humano aprovado para bloquear o TNF-α. Durante vários anos, o Humira® foi um dos medicamentos mais vendidos do mundo, tornando-se um marco na terapia biológica.

A chegada dos biossimilares ampliou o acesso ao tratamento em diversos países, reduzindo custos para sistemas públicos e privados de saúde. O medicamento não é considerado um quimioterápico, embora atue modulando o sistema imunológico.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem desempenha papel essencial na administração segura do adalimumabe e no acompanhamento dos pacientes em uso contínuo. Entre os principais cuidados estão:

  • Verificar a prescrição médica, a indicação clínica e a identificação correta do paciente antes da administração.
  • Confirmar se o medicamento foi armazenado adequadamente em refrigeração e se está dentro do prazo de validade.
  • Inspecionar visualmente a solução antes da aplicação, observando alterações de cor, partículas ou vazamentos na seringa ou caneta.
  • Orientar o paciente quanto à técnica correta de aplicação subcutânea, quando houver autoadministração domiciliar.
  • Realizar rodízio dos locais de aplicação para reduzir o risco de lipodistrofia, dor e irritação local.
  • Evitar aplicar em áreas com hematomas, cicatrizes, lesões, infecção ativa, psoríase intensa ou pele endurecida.
  • Observar o paciente quanto a possíveis reações locais ou sistêmicas após a administração.
  • Monitorar sinais e sintomas sugestivos de infecção, como febre, tosse persistente, perda de peso, sudorese noturna ou feridas de difícil cicatrização.
  • Orientar o paciente a comunicar imediatamente qualquer sinal de infecção antes da próxima dose.
  • Reforçar a importância da adesão ao tratamento e de não interromper o medicamento sem orientação médica.
  • Estimular a atualização do calendário vacinal antes do início da terapia, quando possível, e orientar sobre a necessidade de discutir qualquer vacinação durante o tratamento com a equipe de saúde.

O adalimumabe transformou o tratamento de diversas doenças inflamatórias crônicas ao proporcionar controle mais eficaz da resposta imunológica e melhorar significativamente a qualidade de vida de muitos pacientes. Seu uso exige acompanhamento cuidadoso, monitorização clínica e educação em saúde, especialmente devido ao aumento do risco de infecções e à necessidade de armazenamento e administração adequados.

Para a enfermagem, conhecer o mecanismo de ação, as indicações, os possíveis efeitos adversos e os cuidados relacionados ao medicamento é indispensável para oferecer uma assistência segura, promover a adesão ao tratamento e identificar precocemente possíveis complicações.

Referências:

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