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Revisado e atualizado em 26/09/2026.
No ECG, a primeira pista de uma arritmia muitas vezes não está no nome do ritmo, mas na relação entre frequência, regularidade, onda P e QRS. Quem aprende a procurar esses quatro elementos consegue organizar o raciocínio antes mesmo de decorar dezenas de traçados.
O que o ECG mostra
O eletrocardiograma registra a atividade elétrica do coração. Na análise convencional, observamos onda P, intervalo PR, complexo QRS, segmento ST, onda T e, quando necessário, intervalo QT e outros componentes.
A onda P representa a despolarização atrial; o QRS, a despolarização ventricular; e a onda T está relacionada à repolarização ventricular. Nem todo ritmo, porém, apresentará todos esses elementos de maneira típica ou organizada.
Um roteiro simples para reconhecer o ritmo
Comece pela frequência. Depois pergunte se o ritmo é regular ou irregular. Observe se existem ondas P identificáveis, se elas mantêm relação com os complexos QRS e se o QRS é estreito ou largo.
Esse roteiro ajuda a diferenciar ritmos supraventriculares, ritmos de origem ventricular e alterações da condução sem depender apenas da aparência geral do monitor. A análise sistemática do ECG é recomendada pela Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Ritmo sinusal
No ritmo sinusal, a ativação elétrica começa no nó sinoatrial e existe uma relação organizada entre as ondas P e os complexos QRS. A frequência pode variar conforme idade, atividade, medicamentos e condição clínica, portanto “ritmo sinusal” não significa necessariamente que todos os demais parâmetros do ECG estejam normais.
Fibrilação atrial
A fibrilação atrial costuma apresentar atividade atrial desorganizada e intervalos RR irregularmente irregulares, sem ondas P sinusais claramente identificáveis.
Um ponto importante para a prática: pulso irregular ou um relógio inteligente sugerindo fibrilação atrial não confirma sozinho o diagnóstico. A confirmação deve ser feita por registro de ECG apropriado.
Em um paciente monitorizado, por exemplo, uma frequência que varia rapidamente de 80 para 130 bpm pode chamar atenção antes mesmo de alguém olhar o traçado com cuidado. Nesse momento, vale conferir o ritmo no monitor e, quando indicado, obter um ECG de 12 derivações em vez de registrar apenas “FC irregular”.
Quando o QRS está largo
Um QRS com duração ≥ 0,12 segundo caracteriza um complexo largo. Isso pode ocorrer em ritmos ventriculares, mas também em algumas taquicardias supraventriculares com bloqueio de ramo, pré-excitação ou outras alterações da condução.
Por isso, QRS largo não significa automaticamente taquicardia ventricular. Em uma taquicardia de complexo largo, o contexto clínico e o padrão eletrocardiográfico precisam ser considerados. A AHA 2025 recomenda cardioversão sincronizada para taquicardia de complexo largo com instabilidade hemodinâmica.
Taquicardia ventricular
A taquicardia ventricular nasce nos ventrículos e geralmente apresenta complexos QRS largos. Pode ser monomórfica ou polimórfica e pode ocorrer com ou sem pulso.
A frequência, isoladamente, não define o diagnóstico. O mais importante é reconhecer o padrão do ritmo e verificar imediatamente se o paciente apresenta instabilidade, como hipotensão, alteração aguda do estado mental, sinais de choque, dor torácica isquêmica ou insuficiência cardíaca aguda.
No plantão, essa diferença muda completamente a prioridade. Um monitor mostrando uma taquicardia de QRS largo em um paciente consciente e perfundido permite uma abordagem diferente daquela encontrada quando o mesmo traçado aparece acompanhado de hipotensão e alteração do nível de consciência.
Taquicardia supraventricular
As taquicardias supraventriculares abrangem diferentes mecanismos e, em muitos casos, apresentam QRS estreito e ritmo regular. Quando há taquicardia regular de complexo estreito com pulso, as manobras vagais são recomendadas e a adenosina pode ser utilizada em situações apropriadas.
Se houver instabilidade hemodinâmica, a cardioversão sincronizada é indicada para a taquicardia apropriada conforme o algoritmo de emergência.
Bradicardia e ritmos de escape
Bradicardia não deve ser interpretada apenas pelo número exibido no monitor. A AHA 2025 utiliza, no algoritmo de bradicardia com pulso, frequência tipicamente inferior a 50 bpm quando há bradiarritmia, mas a conduta depende principalmente da presença de comprometimento cardiopulmonar.
Hipotensão, alteração aguda do estado mental, sinais de choque, desconforto torácico isquêmico e insuficiência cardíaca aguda são sinais de alerta. Também é necessário procurar causas reversíveis, como hipóxia, distúrbios eletrolíticos, isquemia, hipotermia e medicamentos.
Fibrilação ventricular e assistolia
Na fibrilação ventricular, a atividade elétrica ventricular é caótica e não produz contração mecânica eficaz. É um ritmo chocável.
Na assistolia, não há atividade elétrica ventricular organizada detectável. É um ritmo não chocável e exige reconhecimento rápido da parada cardiorrespiratória e início do algoritmo correspondente.
Aqui, o ECG não deve virar uma aula demorada enquanto o paciente está em parada: reconhecimento, RCP de alta qualidade e desfibrilação quando indicada são prioridades. Os algoritmos AHA 2025 distinguem claramente ritmos chocáveis, como fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso, dos ritmos não chocáveis, como assistolia e atividade elétrica sem pulso.
Torsades de pointes
A torsades de pointes é uma forma de taquicardia ventricular polimórfica associada ao prolongamento do intervalo QT. Medicamentos, alterações eletrolíticas e condições congênitas podem estar relacionados ao QT prolongado.
Na recorrência de torsades associada a QT longo, o magnésio pode ser considerado. A AHA 2025 não recomenda seu uso rotineiro para taquicardia ventricular polimórfica com QT normal.
O monitor ajuda, mas não substitui o ECG
O monitor multiparamétrico é excelente para acompanhar tendência e reconhecer mudanças abruptas, porém um traçado de monitorização não substitui automaticamente um ECG de 12 derivações.
Quando surge uma arritmia nova, especialmente se acompanhada de sintomas ou instabilidade, vale confirmar o ritmo, obter o ECG quando possível e comparar com registros anteriores. Na fibrilação atrial, por exemplo, a confirmação eletrocardiográfica é parte do diagnóstico.
Cuidados de enfermagem
Na prática assistencial, a enfermagem deve:
- conferir posicionamento e contato dos eletrodos;
- observar frequência, regularidade e mudanças súbitas do ritmo;
- avaliar pulso e sinais de perfusão quando houver alteração no monitor;
- verificar pressão arterial, nível de consciência, dor, dispneia e outros sinais de instabilidade;
- realizar ECG de 12 derivações quando indicado e conforme protocolo;
- comunicar imediatamente arritmias novas ou acompanhadas de deterioração clínica;
- registrar ritmo identificado, sinais associados, intervenções e resposta do paciente.
Um cuidado simples faz muita diferença: antes de chamar uma alteração de “arritmia”, confira se não existe artefato, eletrodo solto ou interferência no monitor. Um traçado ruim pode parecer uma alteração do ritmo e gerar uma intervenção desnecessária.
- Analise frequência regularidade P e QRS
- Diferencie ritmos estreitos e largos
- Avalie sempre a estabilidade clínica
- Confirme alterações novas com ECG quando indicado
Referências:
- SAMESIMA, Nelson et al. Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos – 2022. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 119, n. 4, p. 638-680, 2022. Diretriz da SBC sobre ECG 2022
- WIGGINTON, Jane G. et al. Part 9: Adult Advanced Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation, v. 152, supl. 2, p. S538-S577, 2025. AHA 2025 – Adult Advanced Life Support
- EUROPEAN SOCIETY OF CARDIOLOGY. 2024 ESC Guidelines for the management of atrial fibrillation developed in collaboration with the EACTS. European Heart Journal, v. 45, n. 36, p. 3314-3414, 2024. ESC 2024 – Fibrilação Atrial
- AMERICAN HEART ASSOCIATION. Adult Bradycardia With a Pulse Algorithm. Dallas: AHA, 2025. Algoritmo AHA 2025 para bradicardia
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