
O coração funciona como uma bomba que impulsiona o sangue para todo o organismo. Para que esse processo ocorra de forma eficiente, o fluxo sanguíneo precisa seguir apenas uma direção. Essa função é desempenhada pelas quatro válvulas cardíacas, estruturas que se abrem e se fecham milhares de vezes por dia, garantindo que o sangue não retorne para a câmara de onde acabou de sair.
Quando uma dessas válvulas deixa de funcionar adequadamente, surge o que chamamos de doença valvar cardíaca ou valvopatia. Essas alterações podem dificultar a passagem do sangue, permitir seu refluxo ou provocar ambas as situações ao mesmo tempo, aumentando o trabalho do coração e favorecendo o desenvolvimento de insuficiência cardíaca, arritmias e outras complicações.
As doenças valvulares podem permanecer assintomáticas por muitos anos, sendo descobertas apenas durante um exame físico de rotina, quando o profissional identifica um sopro cardíaco. Entretanto, à medida que a doença progride, podem surgir sintomas importantes que comprometem significativamente a qualidade de vida.
Neste artigo você conhecerá as principais valvopatias, entenderá como elas se desenvolvem, quais são seus sintomas, formas de diagnóstico, tratamento e os cuidados de enfermagem fundamentais para esses pacientes.
O que são as válvulas cardíacas?
O coração possui quatro válvulas responsáveis por controlar o fluxo sanguíneo:
- Valva mitral
- Valva tricúspide
- Valva aórtica
- Valva pulmonar
Cada uma atua como uma “porta”, abrindo-se para permitir a passagem do sangue e fechando-se logo em seguida para impedir seu retorno.
Esse mecanismo acontece aproximadamente entre 60 e 100 vezes por minuto em um adulto saudável em repouso, podendo ultrapassar 100 mil ciclos por dia.
Como funcionam as válvulas?
Durante o ciclo cardíaco existem dois momentos principais:
Diástole
É o momento em que o coração relaxa e recebe sangue.
Sístole
É o momento em que o coração se contrai para bombear o sangue. As válvulas abrem e fecham de forma sincronizada para garantir que o sangue siga apenas um único sentido. Quando esse mecanismo falha, surgem as doenças valvulares.
O que é uma doença valvular?
Uma doença valvular ocorre quando uma ou mais válvulas cardíacas apresentam alterações estruturais ou funcionais que comprometem sua abertura, fechamento ou ambos.
Essas alterações podem ser congênitas (presentes desde o nascimento) ou adquiridas ao longo da vida.
Os dois principais tipos de alteração valvar
Independentemente da válvula acometida, praticamente todas as valvopatias pertencem a dois grandes grupos.
Estenose valvar
Na estenose, a válvula não consegue abrir completamente. Isso faz com que o sangue encontre dificuldade para atravessá-la, o coração precisa gerar uma pressão muito maior para vencer essa resistência. Com o passar do tempo ocorre sobrecarga da câmara cardíaca.
Uma forma simples de imaginar esse processo é pensar em uma porta parcialmente fechada: quanto menor a abertura, mais difícil será passar por ela.
Insuficiência (ou regurgitação) valvar
Nesse caso, a válvula não consegue fechar completamente e parte do sangue retorna para a câmara anterior. O coração precisa bombear um volume maior de sangue para compensar essa perda.
É semelhante a uma torneira que não fecha totalmente e permite o retorno constante da água.
Quais são as principais causas das doenças valvulares?
Diversas condições podem comprometer as válvulas cardíacas.
Entre as principais causas estão:
- envelhecimento;
- calcificação das válvulas;
- febre reumática;
- endocardite infecciosa;
- doenças congênitas;
- doenças degenerativas;
- prolapso da valva mitral;
- infarto do miocárdio;
- doenças do tecido conjuntivo (como síndrome de Marfan);
- radioterapia torácica;
- doenças autoimunes.
Nos países desenvolvidos, a degeneração relacionada ao envelhecimento é atualmente a principal causa. Já em países em desenvolvimento, a febre reumática ainda representa importante causa de valvopatias.
Valva aórtica
A valva aórtica separa o ventrículo esquerdo da aorta, é uma das válvulas mais frequentemente acometidas.
Estenose aórtica
É uma das doenças valvulares mais comuns em idosos onde o estreitamento da válvula dificulta a saída do sangue do ventrículo esquerdo.
Principais causas
- calcificação relacionada à idade;
- válvula aórtica bicúspide congênita;
- febre reumática.
Sintomas
Durante muitos anos o paciente pode não apresentar sintomas.
Quando eles aparecem, destacam-se:
- falta de ar;
- dor no peito (angina);
- desmaios (síncope);
- fadiga;
- palpitações;
- insuficiência cardíaca.
A tríade clássica da estenose aórtica grave é:
- angina;
- síncope;
- dispneia.
Insuficiência aórtica
Na insuficiência aórtica, parte do sangue retorna da aorta para o ventrículo esquerdo durante a diástole.
Principais causas
- hipertensão arterial;
- dilatação da raiz da aorta;
- síndrome de Marfan;
- endocardite;
- febre reumática.
Sintomas
- cansaço;
- falta de ar;
- palpitações;
- sensação dos batimentos fortes;
- insuficiência cardíaca em fases avançadas.
Valva mitral
A valva mitral localiza-se entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo.
Estenose mitral
É classicamente associada à febre reumática. O estreitamento dificulta a passagem do sangue para o ventrículo esquerdo.
Sintomas
- falta de ar;
- tosse;
- fadiga;
- palpitações;
- fibrilação atrial;
- edema pulmonar.
Insuficiência mitral
É uma das valvopatias mais frequentes.
O sangue retorna para o átrio esquerdo durante a contração ventricular.
Causas
- prolapso da valva mitral;
- degeneração mixomatosa;
- infarto;
- ruptura de cordas tendíneas;
- endocardite.
Sintomas
- dispneia;
- fadiga;
- intolerância aos esforços;
- palpitações;
- insuficiência cardíaca.
Prolapso da valva mitral
O prolapso ocorre quando um ou ambos os folhetos da válvula projetam-se para dentro do átrio esquerdo durante a sístole sendo relativamente comum. Na maioria das pessoas apresenta evolução benigna. Alguns pacientes podem desenvolver insuficiência mitral significativa.
Valva tricúspide
A válvula tricúspide separa o átrio direito do ventrículo direito.
Insuficiência tricúspide
Frequentemente ocorre como consequência da hipertensão pulmonar ou da insuficiência cardíaca.
Sintomas
- edema de membros inferiores;
- aumento do fígado;
- ascite;
- ingurgitamento jugular.
Estenose tricúspide
É rara, mas quando ocorre, geralmente está associada à febre reumática.
Valva pulmonar
A válvula pulmonar controla a saída do sangue do ventrículo direito para a artéria pulmonar.
Estenose pulmonar
Na maioria das vezes é congênita. Casos leves podem permanecer sem sintomas durante muitos anos.
Insuficiência pulmonar
Pode ocorrer em pacientes com hipertensão pulmonar ou após cirurgias cardíacas.
Como surgem os sintomas?
Independentemente da válvula acometida, o coração precisa trabalhar mais. Inicialmente ele consegue compensar esse esforço.
Com o passar dos anos surgem:
- hipertrofia cardíaca;
- dilatação das câmaras;
- insuficiência cardíaca;
- arritmias.
É por isso que muitos pacientes permanecem sem sintomas por longo período.
Principais sinais e sintomas
As manifestações variam conforme a válvula acometida e a gravidade da doença.
Os sintomas mais comuns incluem:
- falta de ar aos esforços;
- cansaço;
- intolerância ao exercício;
- dor torácica;
- palpitações;
- tontura;
- desmaios;
- edema em membros inferiores;
- ganho de peso por retenção hídrica;
- ortopneia;
- dispneia paroxística noturna.
O sopro cardíaco
O sopro é um ruído produzido pela passagem turbulenta do sangue através das válvulas. Nem todo sopro significa doença, mas existem sopros fisiológicos. Entretanto, muitos sopros indicam alguma valvopatia e devem ser investigados.
Como é feito o diagnóstico?
A investigação inclui:
- história clínica;
- exame físico;
- ausculta cardíaca;
- eletrocardiograma;
- radiografia de tórax;
- ecocardiograma transtorácico;
- ecocardiograma transesofágico;
- tomografia cardíaca;
- ressonância cardíaca;
- cateterismo cardíaco em casos selecionados.
O ecocardiograma é considerado o principal exame para diagnóstico e acompanhamento das doenças valvulares.
Como é o tratamento?
O tratamento depende da válvula acometida, da gravidade da doença, dos sintomas e da função cardíaca.
Pode incluir:
Tratamento clínico
Inclui medicamentos para controlar sintomas e complicações, como:
- diuréticos;
- betabloqueadores;
- vasodilatadores;
- anticoagulantes (em situações específicas, como fibrilação atrial ou próteses mecânicas);
- antiarrítmicos.
É importante destacar que, na maioria das valvopatias estruturais, os medicamentos aliviam sintomas, mas não corrigem o defeito da válvula.
Tratamento percutâneo
Algumas doenças podem ser tratadas por cateterismo. Os principais procedimentos incluem:
- TAVI (Implante Transcateter de Valva Aórtica), indicado para casos selecionados de estenose aórtica;
- valvoplastia mitral por balão, utilizada em pacientes selecionados com estenose mitral.
Essas técnicas reduzem a necessidade de cirurgia em muitos pacientes.
Cirurgia cardíaca
Quando a doença é grave, pode ser necessário:
- plastia valvar (reparo da válvula);
- troca por prótese biológica;
- troca por prótese mecânica.
Próteses valvares
Próteses mecânicas
São fabricadas com materiais altamente resistentes, como carbono pirolítico e titânio.
Vantagens
- longa durabilidade;
- podem durar décadas.
Desvantagens
Necessitam anticoagulação permanente.
Próteses biológicas
São confeccionadas a partir de tecidos animais, geralmente:
- pericárdio bovino;
- válvulas porcinas.
Vantagens
Menor necessidade de anticoagulação prolongada (dependendo do caso).
Desvantagens
Durabilidade menor, geralmente entre 10 e 20 anos, variando conforme idade e fatores clínicos.
Possíveis complicações
Sem tratamento adequado, as valvopatias podem evoluir para:
- insuficiência cardíaca;
- fibrilação atrial;
- acidente vascular cerebral (AVC);
- endocardite infecciosa;
- edema agudo de pulmão;
- choque cardiogênico;
- morte súbita em casos específicos.
Curiosidades
O coração humano realiza cerca de 100 mil batimentos por dia, e cada válvula abre e fecha aproximadamente a mesma quantidade de vezes. A estenose aórtica é atualmente a valvopatia mais comum em idosos, principalmente devido à calcificação progressiva da válvula. A febre reumática, embora menos frequente em países desenvolvidos, ainda é uma das principais causas de doença valvar em países de média e baixa renda.
O ecocardiograma Doppler revolucionou o diagnóstico das valvopatias, permitindo avaliar não apenas a anatomia das válvulas, mas também a direção e a velocidade do fluxo sanguíneo. O implante transcateter de valva aórtica (TAVI) tornou-se uma alternativa importante para pacientes com estenose aórtica grave que apresentam alto risco cirúrgico.
Cuidados de enfermagem
A enfermagem desempenha papel fundamental no acompanhamento de pacientes com doenças valvulares cardíacas, tanto em ambiente ambulatorial quanto hospitalar. Entre os principais cuidados destacam-se:
- Realizar avaliação clínica sistemática, observando presença de dispneia, fadiga, edema, palpitações e intolerância aos esforços.
- Monitorar sinais vitais, frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória e saturação de oxigênio.
- Auscultar sons cardíacos quando habilitado e comunicar alterações como novos sopros ou mudanças no padrão habitual.
- Observar sinais de insuficiência cardíaca, como edema periférico, ortopneia, dispneia paroxística noturna e ganho rápido de peso.
- Monitorar balanço hídrico, especialmente em pacientes com retenção de líquidos.
- Administrar medicamentos conforme prescrição, observando possíveis efeitos adversos e necessidade de monitorização laboratorial, especialmente em pacientes em uso de anticoagulantes.
- Orientar sobre adesão ao tratamento, restrição de sódio quando indicada, prática de atividade física conforme orientação médica e controle dos fatores de risco cardiovascular.
- Preparar e orientar pacientes submetidos a exames diagnósticos, procedimentos percutâneos ou cirurgias valvares.
- Nos pacientes portadores de próteses mecânicas, reforçar a importância do uso contínuo da anticoagulação e do acompanhamento periódico do INR.
- Estimular a procura imediata por atendimento em caso de dor torácica intensa, síncope, piora da dispneia, febre persistente (suspeita de endocardite) ou sinais de insuficiência cardíaca descompensada.
As doenças valvulares cardíacas representam um importante grupo de enfermidades cardiovasculares que podem permanecer silenciosas durante anos e, quando não diagnosticadas e tratadas adequadamente, evoluir para complicações potencialmente graves. O conhecimento das diferentes valvopatias, seus mecanismos, manifestações clínicas e opções terapêuticas é essencial para estudantes e profissionais de enfermagem.
O enfermeiro e toda a equipe de enfermagem exercem papel decisivo na identificação precoce dos sintomas, no monitoramento clínico, na educação em saúde e no acompanhamento dos pacientes antes e após intervenções, contribuindo para uma assistência segura, baseada em evidências e centrada no paciente.
Referências:
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-
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