Cansaço aos Mínimos Esforços: o que pode causar esse sintoma e quando ele merece atenção?

Subir poucos degraus, tomar banho ou caminhar até outro cômodo e precisar parar para recuperar o fôlego não deveria ser automaticamente colocado na conta da “falta de condicionamento”. Quando o corpo começa a tolerar cada vez menos esforço, essa mudança merece ser investigada.

Quando o cansaço deixa de ser normal

Cansaço aos mínimos esforços pode aparecer como fadiga intensa, fraqueza, falta de ar ou uma combinação desses sintomas. Entre as possibilidades estão anemia, doenças cardíacas e pulmonares, alterações da tireoide, infecções, distúrbios metabólicos, descondicionamento físico, efeitos de medicamentos e problemas do sono, entre outras causas.

Na insuficiência cardíaca, por exemplo, fadiga, dispneia e intolerância ao exercício estão entre as manifestações mais importantes. A falta de ar pode aparecer inclusive aos mínimos esforços, especialmente quando existe piora do quadro.

Um detalhe da rotina que merece atenção

Em uma avaliação de enfermagem, é diferente ouvir “estou cansado” de ouvir “há duas semanas eu conseguia tomar banho sozinho e agora preciso sentar no meio do banho”. A segunda informação mostra uma mudança funcional concreta e ajuda a dimensionar a evolução do sintoma.

Na prática, perguntar o que o paciente conseguia fazer antes e o que consegue fazer agora pode revelar uma deterioração que não aparece apenas pela observação em repouso. A avaliação clínica da insuficiência cardíaca, por exemplo, considera justamente a limitação provocada pelas atividades habituais e a evolução da capacidade funcional.

Nem sempre o coração é o culpado

Anemia pode reduzir a capacidade de transporte de oxigênio e contribuir para fadiga e intolerância ao esforço. Doenças respiratórias também podem provocar falta de ar durante atividades que anteriormente eram bem toleradas. Alterações metabólicas, deficiência nutricional, distúrbios hormonais e condições pós-infecciosas também entram na investigação dependendo do contexto.

Por isso, não é adequado concluir que “cansaço aos mínimos esforços é insuficiência cardíaca” sem avaliação. O sintoma é inespecífico e precisa ser interpretado junto com história clínica, exame físico e, quando indicados, exames complementares.

Quando o sinal fica preocupante

Atenção especial deve ser dada quando o cansaço aparece de forma nova ou progressiva, principalmente se vier acompanhado de falta de ar, dor ou pressão no peito, palpitações, tontura, desmaio, palidez, sudorese, edema nas pernas ou queda importante da capacidade para realizar atividades habituais.

Falta de ar intensa, síncope, dor torácica ou piora rápida do estado geral exigem avaliação de urgência. Em pacientes com suspeita de insuficiência cardíaca aguda, a presença de dispneia aos mínimos esforços associada a sinais de hipoperfusão ou congestão pode indicar necessidade de atendimento emergencial.

Cuidados de enfermagem

Na avaliação de Enfermagem, é importante observar o início e a evolução do cansaço, investigar quais atividades desencadeiam o sintoma e verificar sinais vitais, frequência respiratória, saturação de oxigênio, frequência cardíaca e estado geral. Também devem ser observados edema, alterações da perfusão, padrão respiratório e tolerância à atividade.

Se o paciente apresentar piora durante a mobilização, a atividade deve ser interrompida e ele reavaliado. Em situações de suspeita de descompensação cardíaca, a equipe deve reconhecer rapidamente sinais como taquipneia, taquicardia, estertores, edema e alteração do nível de consciência, comunicando a equipe responsável.

Uma cena que o profissional de enfermagem conhece

Um paciente que chega dizendo “estou bem, só estou muito cansado” pode parecer estável enquanto permanece sentado. Quando tenta caminhar até o banheiro, porém, começa a respirar rapidamente, fica pálido e precisa parar. Essa mudança durante o esforço é uma informação clínica valiosa; observar o paciente apenas em repouso poderia esconder a limitação.

Em outra situação, o relato pode ser ainda mais sutil: “antes eu subia dois lances de escada sem parar, agora preciso descansar no primeiro”. Para quem trabalha na assistência, esse tipo de comparação entre a capacidade funcional anterior e a atual pode ser mais útil do que simplesmente perguntar se existe cansaço.

O corpo está avisando

Cansaço aos mínimos esforços não é um diagnóstico. É um sinal que pode ter causas simples, mas também pode indicar uma condição que precisa de investigação rápida.

Quando existe uma mudança persistente na capacidade de realizar atividades comuns, especialmente acompanhada de falta de ar ou outros sintomas cardiovasculares, respiratórios ou neurológicos, vale procurar avaliação profissional. O importante é não normalizar uma perda progressiva de capacidade funcional sem descobrir por quê.

Resumo para salvar

Cansaço aos mínimos esforços: quando investigar

  • Cansaço progressivo pode indicar alteração clínica e merece investigação
  • Insuficiência cardíaca pode causar fadiga, dispneia e intolerância ao esforço
  • A avaliação deve considerar a mudança da capacidade funcional do paciente
  • Dor no peito, desmaio ou falta de ar intensa exigem avaliação de urgência

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado: Insuficiência Cardíaca (IC) no adulto – definição. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Insuficiência Cardíaca.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado: Insuficiência Cardíaca (IC) no adulto – manejo inicial. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Manejo inicial da insuficiência cardíaca.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado: Insuficiência Cardíaca (IC) no adulto – avaliação inicial. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Avaliação inicial da insuficiência cardíaca.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Deficiência de tiamina (vitamina B1): sinais e sintomas. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Deficiência de tiamina.
  5. NATIONAL HEALTH SERVICE. Heart failure. NHS. Disponível em: NHS – Heart failure

Tromboembolismo Pulmonar (TEP): tudo o que você precisa saber sobre essa emergência cardiovascular

Imagine um paciente que operou o joelho há três dias, evoluiu bem no pós-operatório, já caminhava com apoio pelo corredor e tinha alta marcada para o dia seguinte. De repente, sem aviso, ele refere falta de ar súbita, fica taquicárdico e a saturação começa a cair. Não houve febre, não houve piora gradual — foi de “bem” para “grave” em poucos minutos.

Esse tipo de cena é mais comum do que parece, e é exatamente por isso que o tromboembolismo pulmonar (TEP) é considerado uma das emergências cardiovasculares mais traiçoeiras da prática clínica: ele raramente avisa, e costuma atingir justamente quando a equipe já está de guarda baixa, acreditando que o pior já passou.

O TEP é uma das principais causas de morte evitável em pacientes hospitalizados, e ocorre quando um trombo (coágulo sanguíneo), geralmente originado nas veias profundas dos membros inferiores, desprende-se e percorre a corrente sanguínea até obstruir uma ou mais artérias pulmonares.

Essa obstrução impede que parte do pulmão receba fluxo sanguíneo adequado para realizar as trocas gasosas, provocando diminuição da oxigenação, sobrecarga do coração e, nos casos mais graves, choque e morte.

O reconhecimento precoce é fundamental, pois o tratamento instituído rapidamente reduz significativamente a mortalidade. Por isso, estudantes e profissionais de enfermagem devem conhecer os fatores de risco, os sinais clínicos e os cuidados necessários diante dessa condição.

Aqui você aprenderá o que é o tromboembolismo pulmonar, como ele acontece, quais são seus principais sintomas, formas de diagnóstico, tratamento, complicações e os cuidados de enfermagem mais importantes.

O que é o Tromboembolismo Pulmonar (TEP)?

O tromboembolismo pulmonar é a obstrução parcial ou total de uma artéria pulmonar ou de seus ramos por um êmbolo, geralmente um trombo sanguíneo.

Na maioria dos casos, esse coágulo se forma nas veias profundas das pernas ou da pelve, caracterizando uma Trombose Venosa Profunda (TVP). Quando esse trombo se desprende, ele passa pela circulação venosa, atravessa o coração direito e alcança a circulação pulmonar, onde pode ficar preso devido ao estreitamento progressivo das artérias pulmonares.

Em aproximadamente 90% dos casos, o TEP é consequência direta de uma trombose venosa profunda.

O que é um trombo? E um êmbolo?

Embora os termos sejam frequentemente utilizados como sinônimos, eles possuem significados diferentes.

  • Trombo é o coágulo formado dentro de um vaso sanguíneo.
  • Êmbolo é qualquer material que circula pela corrente sanguínea e pode obstruir um vaso.

No TEP, o êmbolo normalmente é um trombo desprendido, sendo chamado de tromboêmbolo.

Como acontece o Tromboembolismo Pulmonar?

Imagine uma pessoa que permaneceu vários dias acamada após uma cirurgia. Durante esse período, o sangue circula mais lentamente pelas pernas. Essa lentidão favorece a formação de coágulos nas veias profundas. Em determinado momento, parte desse trombo pode se desprender.

A corrente sanguínea leva esse fragmento até:

Veias das pernas → Veia cava inferior → Átrio direito → Ventrículo direito → Artéria pulmonar.

Ao atingir vasos pulmonares menores, o trombo fica impactado, interrompendo o fluxo sanguíneo.

A consequência é dupla:

  • parte do pulmão continua recebendo ar, mas deixa de receber sangue;
  • o ventrículo direito precisa fazer muito mais força para bombear sangue contra essa obstrução.

Nos casos graves, essa sobrecarga pode provocar insuficiência ventricular direita aguda e choque.

A tríade de Virchow

A formação dos trombos está relacionada à chamada Tríade de Virchow, descrita pelo patologista Rudolf Virchow no século XIX.

Ela envolve três fatores principais:

Estase venosa

É a diminuição da velocidade do fluxo sanguíneo.

Pode ocorrer em:

  • repouso prolongado;
  • internações;
  • viagens longas;
  • imobilização por fraturas;
  • pós-operatório.

Lesão da parede do vaso

Pode acontecer por:

  • cirurgias;
  • traumas;
  • cateteres venosos;
  • inflamações.

Hipercoagulabilidade

O sangue torna-se mais propenso à formação de coágulos.

Pode ocorrer em:

  • câncer;
  • gravidez;
  • puerpério;
  • uso de anticoncepcionais hormonais;
  • trombofilias;
  • obesidade;
  • tabagismo;
  • síndrome nefrótica.

Esses três fatores aumentam significativamente o risco de trombose e, consequentemente, de TEP.

Quais são os principais fatores de risco?

Diversas situações favorecem o desenvolvimento do tromboembolismo pulmonar.

Entre elas:

  • idade acima de 60 anos;
  • trombose venosa profunda prévia;
  • histórico anterior de TEP;
  • cirurgia ortopédica;
  • cirurgia de grande porte;
  • internação prolongada;
  • permanência em UTI;
  • imobilização;
  • fraturas;
  • câncer;
  • obesidade;
  • gestação;
  • puerpério;
  • uso de anticoncepcionais;
  • terapia hormonal;
  • tabagismo;
  • insuficiência cardíaca;
  • acidente vascular cerebral;
  • COVID-19 grave;
  • doenças inflamatórias;
  • trombofilias hereditárias.

Cai em Concurso Tipos de Tromboembolismo Pulmonar

O TEP pode ser classificado conforme sua gravidade.

TEP maciço (alto risco)

É o mais grave.

Caracteriza-se por:

  • hipotensão persistente;
  • choque;
  • parada cardiorrespiratória;
  • importante disfunção do ventrículo direito.

Necessita tratamento imediato.

TEP submaciço (risco intermediário)

O paciente permanece com pressão arterial normal. Entretanto, apresenta sinais de sofrimento cardíaco, como:

  • aumento do ventrículo direito;
  • elevação de troponina;
  • BNP elevado.

Existe risco de piora clínica.

TEP de baixo risco

Não apresenta instabilidade hemodinâmica nem disfunção ventricular significativa.

O prognóstico costuma ser melhor.

Quais são os sintomas?

Os sintomas variam conforme o tamanho do trombo e a quantidade de vasos obstruídos.

Os mais frequentes são:

  • falta de ar súbita;
  • dor torácica, geralmente pior à inspiração;
  • taquipneia;
  • taquicardia;
  • ansiedade intensa;
  • sensação de morte iminente;
  • tosse;
  • hemoptise;
  • sudorese fria;
  • tontura;
  • síncope.

Em casos graves podem ocorrer:

  • hipotensão;
  • choque;
  • cianose;
  • parada cardiorrespiratória.

Sinais encontrados no exame físico

O profissional pode observar:

  • taquicardia;
  • aumento da frequência respiratória;
  • queda da saturação;
  • extremidades frias;
  • distensão jugular;
  • hipotensão;
  • sinais de trombose na perna, como edema unilateral, dor e aumento da temperatura local.

O Tromboembolismo Pulmonar sempre causa dor?

Não. Alguns pacientes apresentam apenas falta de ar. Outros desenvolvem somente taquicardia ou dessaturação inexplicada.

Isso torna o diagnóstico desafiador.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico combina avaliação clínica, probabilidade pré-teste, exames laboratoriais e exames de imagem.

Escalas de probabilidade clínica

As mais utilizadas são:

  • Escore de Wells;
  • Escore de Genebra Revisado.

Essas ferramentas ajudam a estimar a probabilidade de TEP e orientam a investigação.

Dímero-D

É um exame laboratorial que detecta produtos da degradação da fibrina. Quando o resultado é normal em pacientes de baixa probabilidade clínica, o TEP torna-se pouco provável.

Entretanto, um Dímero-D elevado não confirma o diagnóstico, pois pode aumentar em diversas situações, como infecções, câncer, gestação e pós-operatório.

Angiotomografia pulmonar

É considerada o principal exame para confirmação diagnóstica. Permite visualizar diretamente os trombos nas artérias pulmonares.

Angiografia pulmonar

Durante muitos anos foi considerada o padrão-ouro. Hoje é reservada para situações específicas.

Ecocardiograma

Avalia sinais de sobrecarga do ventrículo direito. É muito útil em pacientes instáveis.

Ultrassom Doppler venoso

Procura identificar trombose venosa profunda nos membros inferiores.

Gasometria arterial

Pode demonstrar:

  • hipoxemia;
  • hipocapnia;
  • alcalose respiratória.

Entretanto, uma gasometria normal não exclui TEP.

Como é tratado?

O tratamento depende da gravidade:

Anticoagulantes

São a base do tratamento. Os mais utilizados incluem:

  • heparina não fracionada;
  • heparina de baixo peso molecular;
  • fondaparinux;
  • rivaroxabana;
  • apixabana;
  • edoxabana;
  • dabigatrana;
  • varfarina.

Os anticoagulantes impedem que novos trombos se formem e permitem que o organismo dissolva gradualmente o coágulo existente.

Trombólise

Indicada principalmente no TEP maciço com instabilidade hemodinâmica.

Os principais medicamentos utilizados são:

  • alteplase;
  • tenecteplase (em situações específicas).

Seu objetivo é dissolver rapidamente o trombo.

Embolectomia

Pode ser realizada por cirurgia ou cateter. É indicada quando a trombólise é contraindicada ou não apresenta sucesso.

Filtro de veia cava

Utilizado em pacientes com contraindicação absoluta ao uso de anticoagulantes ou em casos selecionados de recorrência de embolia pulmonar apesar da anticoagulação adequada.

Possíveis complicações

As principais complicações incluem:

  • insuficiência respiratória;
  • choque obstrutivo;
  • insuficiência ventricular direita;
  • hipertensão pulmonar tromboembólica crônica;
  • recorrência do TEP;
  • morte súbita.

Como prevenir?

A prevenção é extremamente importante. As medidas incluem:

  • Mobilização precoce após cirurgias.
  • Deambulação sempre que possível.
  • Uso de meias de compressão graduada quando indicadas.
  • Compressão pneumática intermitente.
  • Profilaxia farmacológica com anticoagulantes em pacientes de risco.
  • Hidratação adequada.
  • Evitar longos períodos sentado sem movimentar as pernas.

Você sabia?

O tromboembolismo pulmonar é considerado uma das principais causas evitáveis de morte hospitalar. Nem todo paciente com trombose venosa profunda desenvolve TEP, mas toda suspeita de TVP deve ser investigada rapidamente devido ao risco de embolização.

Em muitos casos, o primeiro sinal de uma trombose silenciosa pode ser justamente um episódio de embolia pulmonar. A falta de ar súbita acompanhada de dor torácica em pacientes internados ou no pós-operatório sempre deve levantar suspeita de TEP. A tromboprofilaxia hospitalar adequada reduz significativamente a incidência de tromboembolismo venoso e salva milhares de vidas todos os anos.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem desempenha papel fundamental tanto na prevenção quanto no tratamento do tromboembolismo pulmonar. Entre os principais cuidados estão:

  • Realizar avaliação clínica frequente, monitorando sinais de dispneia, dor torácica, taquicardia, hipotensão e alteração do nível de consciência.
  • Monitorar continuamente sinais vitais, saturação periférica de oxigênio e frequência respiratória.
  • Administrar oxigenoterapia conforme prescrição e observar a resposta clínica do paciente.
  • Manter acesso venoso pérvio para administração rápida de medicamentos e fluidos quando necessário.
  • Administrar anticoagulantes rigorosamente conforme prescrição médica, observando dose, horário e possíveis sinais de sangramento.
  • Monitorar exames laboratoriais relacionados à anticoagulação, como TTPa, TP/INR e hemograma, conforme o anticoagulante utilizado.
  • Observar sinais de complicações hemorrágicas, incluindo hematomas extensos, epistaxe, hematúria, melena, gengivorragia e queda da pressão arterial.
  • Estimular mobilização precoce sempre que clinicamente possível e conforme orientação da equipe multiprofissional.
  • Orientar o paciente sobre a importância da adesão ao tratamento anticoagulante, do comparecimento às consultas de acompanhamento e da identificação precoce de sinais de sangramento.
  • Realizar medidas preventivas para trombose venosa profunda, como utilização correta de meias compressivas ou dispositivos de compressão pneumática quando prescritos.
  • Manter vigilância contínua em pacientes instáveis, comunicando imediatamente qualquer piora clínica.

O tromboembolismo pulmonar é uma emergência médica potencialmente fatal, mas que pode ser prevenida em grande parte dos casos com medidas simples e eficazes de tromboprofilaxia. O reconhecimento precoce dos fatores de risco, dos sinais clínicos e das alterações hemodinâmicas permite diagnóstico e tratamento rápidos, reduzindo significativamente a mortalidade.

A equipe de enfermagem possui papel essencial em todas as etapas do cuidado, desde a prevenção da trombose venosa profunda até o monitoramento intensivo dos pacientes diagnosticados com TEP. Uma assistência baseada em evidências, aliada à educação em saúde e ao acompanhamento rigoroso, contribui diretamente para melhores desfechos clínicos e maior segurança do paciente.

Resumo para salvar

TEP: o paciente que ia bem e piorou em minutos

  • 90% dos casos de TEP vêm de uma trombose venosa profunda (TVP)
  • Sinais de alerta: falta de ar súbita, dor torácica à inspiração e taquicardia
  • Diagnóstico combina Escore de Wells, Dímero-D e Angiotomografia pulmonar
  • Anticoagulantes são a base do tratamento; casos graves podem exigir trombólise

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para tromboembolismo pulmonar. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br.
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretrizes brasileiras de embolia pulmonar. Rio de Janeiro: SBC, 2022. Disponível em: https://www.portal.cardiol.br/
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Tromboembolismo Venoso. Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  5. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretrizes Brasileiras de Embolia Pulmonar e Tromboembolismo Venoso. São Paulo: SBC. Disponível em: https://www.portal.cardiol.br
  6. KONSTANTINIDES, S. V. et al. 2024 ESC Guidelines for the management of acute pulmonary embolism. European Society of Cardiology. Disponível em: https://www.escardio.org
  7. AMERICAN COLLEGE OF CHEST PHYSICIANS (CHEST). Antithrombotic Therapy for VTE Disease: CHEST Guideline and Expert Panel Report. Disponível em: https://journal.chestnet.org
  8. BRAUNWALD, E. Braunwald’s Heart Disease: A Textbook of Cardiovascular Medicine. 12. ed. Philadelphia: Elsevier, 2022.
  9. KASPER, D. L. et al. Medicina Interna de Harrison. 21. ed. Porto Alegre: AMGH, 2022

Síndrome de Cotard: o que é, sintomas, causas, diagnóstico e cuidados de enfermagem

Vá direto ao ponto!

A Síndrome de Cotard é uma condição neuropsiquiátrica rara e bastante peculiar, caracterizada principalmente pela presença de delírios niilistas. O paciente pode acreditar que está morto, que não existe, que perdeu seus órgãos ou que determinadas partes do seu corpo deixaram de funcionar ou simplesmente desapareceram.

Apesar de muitas vezes ser conhecida popularmente como “síndrome do cadáver ambulante”, essa expressão é uma simplificação. A síndrome é muito mais ampla do que simplesmente acreditar que está morto. Os delírios podem envolver a própria existência, o corpo, órgãos internos, a alma, a realidade ou até mesmo a ideia de que o indivíduo é incapaz de morrer.

Para a enfermagem, compreender esse quadro é especialmente importante porque o paciente pode apresentar depressão grave, psicose, recusa alimentar, comportamento de risco, automutilação ou ideação suicida. Portanto, embora seja uma condição rara, exige uma abordagem cuidadosa e uma avaliação de segurança bastante rigorosa.

O que é a Síndrome de Cotard?

A Síndrome de Cotard é uma síndrome psicopatológica na qual predominam crenças falsas e firmemente mantidas relacionadas à inexistência, morte ou destruição do próprio corpo ou da própria pessoa. O paciente não está simplesmente “imaginando” que morreu ou fazendo uma brincadeira. Trata-se de uma alteração grave da percepção e da interpretação da realidade.

Por exemplo, uma pessoa pode afirmar:

“Eu estou morto.”

“Meu coração não existe mais.”

“Meu sangue acabou.”

“Meu corpo está vazio.”

“Meus órgãos desapareceram.”

“Eu não existo.”

“Estou morto, mas não consigo morrer.”

Essas afirmações são exemplos ilustrativos. A manifestação real varia bastante de uma pessoa para outra.

A literatura científica mostra que o fenômeno é mais complexo do que a simples ideia de estar morto. Estudos descrevem delírios relacionados ao corpo e à existência, além de ideias de culpa, condenação, imortalidade e sintomas alucinatórios em alguns pacientes.

Por que ela recebe o nome de Cotard?

O nome vem do neurologista e psiquiatra francês Jules Cotard, que descreveu o quadro no século XIX. Em 1880, Cotard apresentou o caso de uma mulher de 43 anos que apresentava um conjunto de sintomas que ele denominou inicialmente como “délire des négations”, expressão que pode ser traduzida como “delírio das negações”.

A paciente apresentava ideias relacionadas à inexistência e à perda de partes do corpo, além de outros sintomas psiquiátricos. Com o passar dos anos, o conceito foi sendo ampliado. Por isso, atualmente, quando falamos em Síndrome de Cotard, não devemos pensar exclusivamente na frase “eu estou morto”.

A Síndrome de Cotard é uma doença?

Aqui existe uma questão importante. Apesar de ser chamada de “síndrome”, a Síndrome de Cotard não é considerada uma doença psiquiátrica independente nas principais classificações diagnósticas atuais. Ela é entendida como uma síndrome ou fenômeno psicopatológico que pode aparecer associado a diferentes condições psiquiátricas e neurológicas.

A literatura destaca que ela não possui uma classificação própria no DSM-5 e na CID, sendo geralmente compreendida dentro do transtorno ou condição de base que está provocando os sintomas. Portanto, não é correto pensar que todo paciente com Síndrome de Cotard necessariamente possui uma única doença específica.

O que significa “delírio niilista”?

Para compreender a síndrome, é importante entender o termo niilista. Na psiquiatria, um delírio niilista é uma crença patológica relacionada à inexistência, ausência, destruição ou não existência de algo. No Cotard, essa negação geralmente está relacionada ao próprio indivíduo.

Pode envolver:

Negação da existência

A pessoa acredita que ela própria não existe.

Negação do corpo

Pode acreditar que seu corpo desapareceu ou que não possui determinadas partes.

Negação dos órgãos

O paciente pode afirmar que não possui coração, cérebro, sangue, intestino ou outros órgãos.

Negação da vida

Pode acreditar que morreu ou que está biologicamente morto.

Ideia de imortalidade

Curiosamente, alguns pacientes podem apresentar a ideia aparentemente contraditória de que estão mortos e, ao mesmo tempo, não conseguem morrer. Essas manifestações mostram por que o quadro não pode ser reduzido a uma única característica.

Quais são os principais sintomas?

Os sintomas podem variar bastante. O mais característico é o delírio niilista, mas outros sinais podem aparecer simultaneamente.

Delírio de estar morto

É provavelmente a manifestação mais conhecida. O paciente pode estar consciente, conversando e movimentando-se normalmente, mas afirmar categoricamente que está morto. Isso não significa necessariamente que ele esteja tentando chamar atenção. Para ele, aquela percepção pode ser absolutamente verdadeira.

Sensação de que o corpo não existe

Alguns pacientes acreditam que não possuem corpo ou que seu corpo está vazio. Podem dizer que:

“Não tenho corpo.”

“Meu corpo desapareceu.”

“Não tenho sangue.”

“Meu corpo está apodrecendo.”

Negação de órgãos

O paciente pode acreditar que órgãos específicos desapareceram ou deixaram de funcionar. Isso pode levar a situações perigosas, principalmente quando a pessoa passa a recusar alimentação, hidratação ou medicamentos.

Ideias de culpa e condenação

Alguns pacientes desenvolvem sentimentos intensos de culpa. Podem acreditar que cometeram um pecado imperdoável ou que foram condenados por algum motivo.

Ansiedade intensa

A ansiedade pode ser bastante importante e acompanhar os delírios.

Alterações do humor

A Síndrome de Cotard está frequentemente associada a episódios depressivos graves. Uma análise clássica de 100 casos encontrou sintomas depressivos em 89% dos casos analisados, embora esses números não possam ser considerados uma estimativa da prevalência na população geral, pois se tratava de uma amostra de casos publicados.

Alucinações

Alguns pacientes podem apresentar alucinações, principalmente auditivas ou visuais. Entretanto, alucinação e delírio não são a mesma coisa.

Delírio é uma crença falsa e fixa.

Alucinação é uma percepção sem estímulo externo correspondente.

Os dois fenômenos podem ocorrer juntos.

A pessoa sabe que está doente?

Nem sempre. Uma característica importante dos transtornos psicóticos é que o indivíduo pode apresentar redução ou ausência de crítica sobre a própria condição. Isso significa que tentar simplesmente convencer o paciente de que ele está errado pode não funcionar. Se ele acredita que está morto, dizer repetidamente:

“Você não está morto, olhe para mim!” pode não modificar sua convicção. Por isso, a comunicação terapêutica é mais adequada do que uma confrontação direta.

A Síndrome de Cotard está relacionada à depressão?

Frequentemente, sim. A associação com depressão grave é bastante descrita na literatura. Entretanto, não significa que todo paciente com Cotard tenha depressão.

A síndrome também foi descrita associada a:

  • transtornos psicóticos;
  • esquizofrenia;
  • transtorno bipolar;
  • doenças neurológicas;
  • doenças neurodegenerativas;
  • condições médicas diversas.

Uma revisão de casos demonstrou que a apresentação clínica é heterogênea e pode ser organizada em diferentes grupos psicopatológicos.

Quais são as possíveis causas?

Não existe uma causa única comprovada. Esse é um dos aspectos mais interessantes e, ao mesmo tempo, mais difíceis da síndrome. A literatura sugere que ela pode resultar da interação entre alterações psiquiátricas, neurológicas, cognitivas e da percepção do próprio corpo.

Já foram descritos casos associados a:

Transtornos psiquiátricos

Principalmente depressão psicótica e outros transtornos psicóticos.

Doenças neurológicas

Podem ocorrer em associação com determinadas condições que afetam o cérebro.

Doenças neurodegenerativas

Também há relatos em pacientes com doenças que comprometem funções cognitivas.

Alterações cerebrais

Alguns estudos de neuroimagem encontraram alterações em determinadas regiões cerebrais, mas ainda não existe uma alteração anatômica específica capaz de diagnosticar a síndrome. Por isso, não se deve afirmar que exista “uma área do cérebro responsável pelo Cotard”. A neurobiologia permanece incompletamente esclarecida.

Como o cérebro poderia participar do fenômeno?

Uma das hipóteses envolve alterações na percepção do próprio corpo e do “eu”. Imagine que o cérebro receba continuamente informações provenientes:

  • da pele;
  • dos músculos;
  • dos órgãos;
  • da visão;
  • do equilíbrio;
  • das emoções;
  • da memória.

Ele utiliza essas informações para construir a sensação de que:

“Este corpo é meu.”

“Eu estou aqui.”

“Este corpo está vivo.”

Se os mecanismos responsáveis por essa integração forem profundamente alterados, pode ocorrer uma ruptura na percepção normal do próprio corpo e da própria existência. Essa é uma das hipóteses utilizadas para tentar compreender os delírios de inexistência observados na síndrome, mas ainda não existe uma explicação neurobiológica definitiva.

Como é feito o diagnóstico?

Não existe um exame de sangue ou exame de imagem que confirme sozinho a Síndrome de Cotard. O diagnóstico é essencialmente clínico e psiquiátrico.

O profissional realiza uma avaliação detalhada para identificar:

  • conteúdo dos pensamentos;
  • presença de delírios;
  • alucinações;
  • alterações do humor;
  • nível de consciência;
  • orientação;
  • comportamento;
  • risco de suicídio;
  • uso de medicamentos e substâncias;
  • doenças neurológicas ou clínicas.

É necessário investigar outras doenças?

Sim. Quando um paciente apresenta uma alteração psicótica nova, especialmente em idade avançada, é importante investigar causas médicas e neurológicas. Podem ser necessários, conforme o caso:

  • hemograma;
  • eletrólitos;
  • função renal;
  • função hepática;
  • glicemia;
  • função tireoidiana;
  • investigação de infecções;
  • dosagem de vitamina B12;
  • exames toxicológicos;
  • tomografia computadorizada;
  • ressonância magnética;
  • eletroencefalograma.

A escolha depende da história e do exame clínico. O objetivo é não atribuir automaticamente o quadro a uma doença psiquiátrica quando pode existir uma causa orgânica tratável.

Síndrome de Cotard e risco de suicídio

Esse é um dos pontos mais importantes para a enfermagem. O paciente pode acreditar que já está morto e, por isso, considerar que determinados comportamentos não oferecem risco. Em outros casos, a síndrome ocorre associada à depressão grave, desesperança e ideação suicida. A revisão histórica e clínica da síndrome descreve associação com ideação suicida e comportamento de autoagressão.

Por isso, todo paciente com suspeita de Síndrome de Cotard precisa de avaliação de risco e segurança. Não se deve assumir que o paciente está seguro apenas porque afirma:

“Já estou morto.”

Essa afirmação pode representar um quadro psicótico grave e não elimina o risco de tentativa de suicídio ou de outros comportamentos perigosos.

Como é feito o tratamento?

Não existe um único tratamento específico para a Síndrome de Cotard. O tratamento deve ser direcionado principalmente para a doença ou condição que está associada ao quadro.

Podem ser utilizados:

  • antidepressivos;
  • antipsicóticos;
  • estabilizadores do humor;
  • eletroconvulsoterapia (ECT);
  • tratamento da condição neurológica ou clínica subjacente.

A escolha depende da apresentação do paciente.

Eletroconvulsoterapia

A eletroconvulsoterapia (ECT) merece destaque porque possui papel importante em alguns casos, especialmente quando a síndrome está associada à depressão psicótica grave, catatonia ou risco elevado. A literatura contém relatos de resposta favorável à ECT em pacientes com Síndrome de Cotard.

Entretanto, grande parte das evidências sobre o tratamento da síndrome é proveniente de relatos de casos e séries pequenas, portanto não é possível estabelecer um protocolo universal baseado em grandes ensaios clínicos.

A Síndrome de Cotard tem cura?

Pode haver remissão dos sintomas, especialmente quando a condição associada é adequadamente tratada. Entretanto, não existe uma previsão única para todos os pacientes.

O prognóstico depende de fatores como:

  • doença de base;
  • idade;
  • gravidade;
  • duração dos sintomas;
  • presença de depressão;
  • presença de sintomas psicóticos;
  • resposta ao tratamento;
  • presença de doença neurológica.

Portanto, não é correto afirmar que a síndrome necessariamente será permanente ou que desaparecerá espontaneamente.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem tem papel fundamental na assistência ao paciente com Síndrome de Cotard. O primeiro cuidado é não ridicularizar, minimizar ou confrontar agressivamente o delírio.

Se o paciente disser:

“Eu estou morto.”

uma resposta terapêutica pode ser:

“Eu entendo que você esteja percebendo dessa maneira. Estou aqui com você e quero ajudá-lo.”

Isso não significa concordar com o delírio. Significa reconhecer o sofrimento sem reforçar a crença falsa.

Avaliação do risco de suicídio

Esse é um dos cuidados prioritários. A equipe deve investigar diretamente, de maneira acolhedora:

“Você está pensando em se machucar?”

“Você sente que gostaria de morrer?”

“Você pensou em alguma forma de fazer isso?”

Perguntar sobre suicídio não provoca o suicídio. Pelo contrário, permite identificar situações de risco e implementar medidas de segurança.

Manutenção de ambiente seguro

Dependendo da avaliação de risco, pode ser necessário:

  • retirar objetos potencialmente perigosos;
  • manter supervisão adequada;
  • avaliar risco de fuga;
  • prevenir quedas;
  • manter ambiente organizado;
  • acompanhar o paciente durante períodos de maior agitação.

A intensidade da vigilância deve ser individualizada de acordo com o risco clínico.

Monitorização do estado mental

A enfermagem deve observar:

  • nível de consciência;
  • orientação;
  • comportamento;
  • discurso;
  • alterações do humor;
  • agitação;
  • retraimento;
  • alucinações;
  • conteúdo delirante;
  • comportamento suicida;
  • resposta ao tratamento.

Registrar essas alterações é fundamental para acompanhar a evolução.

Atenção à alimentação e hidratação

Esse cuidado pode ser particularmente importante.

Se o paciente acredita que não possui órgãos ou que está morto, pode recusar:

  • água;
  • alimentos;
  • medicamentos.

É necessário avaliar aceitação alimentar, hidratação, peso, balanço hídrico e sinais de desidratação ou desnutrição.

Administração segura dos medicamentos

A equipe deve administrar os medicamentos prescritos e observar:

  • resposta terapêutica;
  • sonolência;
  • hipotensão;
  • sintomas extrapiramidais;
  • alterações metabólicas;
  • efeitos anticolinérgicos;
  • outros efeitos adversos específicos do medicamento utilizado.

Nunca se deve alterar doses ou interromper psicofármacos sem orientação médica.

Cuidados de enfermagem durante a eletroconvulsoterapia

Quando o paciente é submetido à ECT, a enfermagem participa de todo o processo. Antes do procedimento, é importante verificar:

  • identificação do paciente;
  • prescrição;
  • jejum conforme protocolo;
  • retirada de objetos e próteses quando indicado;
  • sinais vitais;
  • acesso venoso;
  • avaliação clínica;
  • condições de segurança para anestesia.

Após a sessão, deve-se observar:

  • nível de consciência;
  • sinais vitais;
  • orientação;
  • cefaleia;
  • náuseas;
  • confusão temporária;
  • alterações de memória;
  • recuperação anestésica.

O paciente deve permanecer sob observação até apresentar condições adequadas para alta da recuperação, conforme protocolo institucional.

Uma curiosidade importante: a pessoa pode acreditar que é imortal?

Sim. Embora pareça contraditório, alguns pacientes podem apresentar simultaneamente a crença de que estão mortos e a ideia de que são incapazes de morrer. Essa manifestação é conhecida como delírio de imortalidade.

Em uma análise de 100 casos, delírios relacionados à imortalidade foram descritos em 55% dos casos analisados. Novamente, esse percentual representa aquela série histórica de casos e não deve ser interpretado como prevalência na população geral.

Síndrome de Cotard é a mesma coisa que depressão?

Não. A depressão pode estar associada à Síndrome de Cotard, principalmente quando existe depressão psicótica, mas as duas condições não são sinônimas. Uma pessoa com depressão pode apresentar:

  • tristeza;
  • perda de interesse;
  • culpa;
  • desesperança;
  • alterações do sono;
  • alterações do apetite.

Na Síndrome de Cotard, existe um fenômeno psicopatológico específico caracterizado principalmente pelos delírios niilistas.

Síndrome de Cotard é esquizofrenia?

Também não. Ela pode ocorrer em pessoas com esquizofrenia, mas não é sinônimo de esquizofrenia. Há relatos de Cotard associado à esquizofrenia mesmo na ausência de sintomas depressivos importantes. Isso reforça a ideia de que a síndrome pode aparecer em diferentes contextos clínicos.

Síndrome de Cotard é comum?

Não. É considerada uma condição rara. Como existem poucos casos descritos, ainda não há uma estimativa epidemiológica robusta de prevalência na população geral. A literatura disponível é composta principalmente por relatos de casos e séries de casos. Essa raridade também explica por que ainda existem dúvidas sobre sua causa, classificação e tratamento ideal.

Síndrome de Cotard em resumo

Para memorizar os pontos principais:

Cotard = delírios niilistas.

O paciente pode acreditar que:

  • não existe;
  • está morto;
  • não possui órgãos;
  • seu corpo desapareceu;
  • seu corpo está morto ou apodrecendo;
  • ou, em alguns casos, que não pode morrer.

Pode estar associada a depressão grave, psicose, doenças neurológicas e outras condições. O diagnóstico é clínico. O tratamento depende da causa e pode envolver antidepressivos, antipsicóticos, estabilizadores do humor e, em determinados casos, eletroconvulsoterapia.

Para a enfermagem, a avaliação de risco de suicídio, segurança, estado mental, hidratação, nutrição e adesão ao tratamento é fundamental.

A Síndrome de Cotard é um dos fenômenos mais intrigantes da psicopatologia, mas, acima de tudo, deve ser compreendida como uma condição clínica que pode causar intenso sofrimento e colocar o paciente em risco. A ideia de que uma pessoa acredita estar morta pode parecer estranha para quem observa de fora. Entretanto, para o paciente, essa percepção pode ser extremamente real e angustiante. Por isso, a assistência não deve ser baseada em discussões sobre se a crença é verdadeira ou falsa. O mais importante é acolher, avaliar, proteger e encaminhar adequadamente.

Para o estudante e profissional de enfermagem, o conhecimento da síndrome ajuda a reconhecer alterações psicopatológicas, identificar sinais de risco e estabelecer uma comunicação terapêutica adequada.

A abordagem deve ser multiprofissional, individualizada e baseada principalmente no tratamento da condição psiquiátrica, neurológica ou clínica associada.

Resumo para salvar

Entenda a Síndrome de Cotard

  • Condição neuropsiquiátrica rara caracterizada por delírios niilistas, onde o paciente pode acreditar que está morto ou que seus órgãos desapareceram
  • Fenômeno psicopatológico associado a diferentes condições de base, não possuindo classificação independente no DSM-5 ou CID
  • Manifestações clínicas que podem incluir a negação da existência do próprio corpo, depressão grave, psicose e ideias de imortalidade
  • Desafios assistenciais importantes para a equipe de enfermagem, que deve atuar na prevenção de recusa alimentar, automutilação e ideação suicida

Referências:

  1. BERRIOS, G. E.; LUQUE, R. Cotard’s syndrome: analysis of 100 cases. Acta Psychiatrica Scandinavica, v. 91, n. 3, p. 185-188, 1995. Disponível em: PubMed – Cotard’s syndrome: analysis of 100 cases
  2. BERRIOS, G. E.; LUQUE, R. Cotard’s delusion or syndrome?: a conceptual history. Comprehensive Psychiatry, v. 36, n. 3, p. 218-223, 1995. Disponível em: PubMed – Cotard’s delusion or syndrome?
  3. DEBRUYNE, H. et al. Cotard’s syndrome: a review. Current Psychiatry Reports, v. 11, n. 3, p. 197-202, 2009. DOI: 10.1007/s11920-009-0031-z. Disponível em: PubMed – Cotard’s syndrome: a review
  4. D’ANNUNZIO, G. et al. The ‘dead man walking’ disorder: an update on Cotard’s syndrome. International Review of Psychiatry, 2020. DOI: 10.1080/09540261.2020.1769881. Disponível em: PubMed – The ‘dead man walking’ disorder
  5. HUARCAYA-VICTORIA, J. et al. Factor structure of Cotard’s syndrome: systematic review of case reports. Revista Colombiana de Psiquiatría, v. 49, n. 3, 2020. Disponível em: PubMed – Factor Structure of Cotard’s Syndrome.
  6. MAMAEVA, T.; CHRISTENSEN, D. S.; NIELSEN, C. T. Electroconvulsive therapy is efficient in treating Cotard’s syndrome. Ugeskrift for Laeger, 2016. Disponível em: PubMed – Electroconvulsive therapy and Cotard’s syndrome
  7. FUSICK, A. J. et al. Psychotropic management in Cotard syndrome: case reports supporting dual medication management. Case Reports in Psychiatry, 2024. DOI: 10.1155/2024/7630713. Disponível em: PubMed – Psychotropic Management in Cotard Syndrome.
  8. BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes de atenção à saúde mental. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  9. DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. Disponível em: https://www.grupogen.com.br/
  10. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.

Confirmação do Posicionamento da Sonda Antes da Dieta: qual é o padrão-ouro e quais métodos não devem mais ser usados sozinhos?

A passagem de uma sonda nasogástrica ou nasoenteral pode parecer um procedimento simples para quem já está acostumado com a rotina hospitalar. Mas existe um momento particularmente importante — e que não deveria ser tratado como mera formalidade: confirmar onde a ponta da sonda realmente está antes de administrar dieta, água ou medicamento.

Esse cuidado é fundamental porque uma sonda introduzida pela narina pode, inadvertidamente, seguir para o trato respiratório. Em determinadas situações, o paciente pode não apresentar sinais muito evidentes de que isso aconteceu. Se a dieta for administrada através de uma sonda mal posicionada, o resultado pode ser uma aspiração pulmonar grave, pneumonia, pneumotórax e outras complicações potencialmente fatais. O próprio Cofen classifica a sondagem oro/nasoenteral como procedimento invasivo e destaca o risco de complicações graves, especialmente em pacientes críticos.

É por isso que alguns métodos que durante muito tempo foram ensinados nas escolas de Enfermagem — como “colocar ar e auscultar a barriga” ou colocar a ponta da sonda dentro de um copo com água — precisam ser revistos.

E aqui está o ponto mais importante deste artigo:

Ouvir um “borbulhar” no epigástrio não comprova que a sonda está no estômago.

Para a sonda nasoenteral (SNE) inserida às cegas, especialmente quando se pretende uma localização pós-pilórica, a radiografia é considerada o método de referência/padrão-ouro para confirmar o posicionamento antes da utilização, conforme diretrizes e documentos brasileiros.

Mas existe uma nuance importante: em alguns protocolos internacionais para sonda nasogástrica, a avaliação do pH do aspirado gástrico é utilizada como método inicial à beira-leito, com radiografia indicada quando o pH não confirma a posição ou não há aspirado. Portanto, não devemos simplesmente dizer que “pH nunca serve”. O método recomendado depende do tipo de sonda, objetivo da terapia e protocolo institucional.

Vamos entender isso de maneira prática.

Por que é tão importante confirmar a posição da sonda?

Imagine a seguinte situação:

Um paciente precisa receber dieta enteral. A sonda é introduzida pela narina e aparentemente está bem fixada.

O profissional injeta ar e escuta um ruído no abdome.

Parece tudo certo.

Mas existe um problema: o som produzido pela entrada de ar não consegue garantir que a extremidade distal da sonda esteja dentro do estômago.

A sonda pode estar no esôfago, no estômago ou até mesmo no trato respiratório e ainda produzir um som que seja interpretado equivocadamente como “ruído gástrico”.

O Cofen, por meio da Resolução nº 619/2019, destaca que a sondagem oro/nasoenteral pode apresentar complicações como inserção em brônquios, pneumonia aspirativa, pneumotórax e lesões de estruturas do trato digestivo. A mesma resolução estabelece que cabe ao enfermeiro realizar os testes para confirmação do trajeto e, no caso da sondagem nasoenteral, solicitar o exame radiológico para confirmação da localização.

Portanto, a confirmação não é uma etapa burocrática.

É uma barreira de segurança do paciente.

Primeiro: precisamos diferenciar SNG de SNE

Essa distinção é importante porque os termos muitas vezes são utilizados como se fossem sinônimos.

Sonda nasogástrica

A SNG é introduzida pela narina e tem como objetivo chegar ao estômago. Pode ser utilizada para alimentação, administração de medicamentos, drenagem gástrica, descompressão, lavagem e outras finalidades, dependendo do tipo de sonda e indicação clínica.

Sonda nasoenteral

A SNE é introduzida pela narina e busca uma localização além do estômago, geralmente no duodeno ou jejuno, dependendo da finalidade e do dispositivo utilizado. Isso muda completamente a discussão sobre confirmação. Uma coisa é demonstrar que existe conteúdo gástrico. Outra é demonstrar que a ponta da sonda está realmente pós-pilórica.

Por isso, não basta encontrar um método que indique “parece estar no estômago” quando o objetivo é uma localização intestinal.

O padrão-ouro: radiografia

Para a SNE recém-passada, a radiografia é considerada o padrão de referência para confirmar o posicionamento. A Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional afirma que a radiografia é o padrão de referência porque permite visualizar a sonda em relação às estruturas anatômicas. Estudos brasileiros e protocolos publicados na literatura também classificam o raio-X como padrão-ouro para a confirmação da SNE.

Isso acontece porque o exame não tenta simplesmente “adivinhar” onde a sonda está por meio de sinais indiretos. Ele permite visualizar o trajeto da sonda e a localização de sua extremidade.

Como funciona essa confirmação?

Depois da passagem da SNE, o paciente deve ser encaminhado para o exame de imagem conforme o protocolo do serviço. A imagem deve permitir avaliar o trajeto da sonda e sua extremidade distal. O exame precisa ser adequadamente interpretado e documentado antes de a sonda ser liberada para utilização, de acordo com o fluxo institucional.

Um protocolo brasileiro publicado na Revista Gaúcha de Enfermagem, por exemplo, estabelece a solicitação de radiografia para conferência da SNE e orienta aguardar a confirmação antes da liberação para dieta ou medicamento.

“Mas se a radiografia é o padrão-ouro, por que ainda fazem ausculta?”

Porque a ausculta foi, durante muitos anos, ensinada como um método prático de confirmação.

A técnica tradicional era mais ou menos assim:

  1. conectar uma seringa à sonda;
  2. injetar ar;
  3. colocar o estetoscópio sobre a região epigástrica;
  4. ouvir um “borbulhamento”;
  5. concluir que a sonda estava no estômago.

O problema é que o som não demonstra a localização anatômica da ponta da sonda.

A própria documentação técnica do Coren-AL ressalta que a ausculta epigástrica após a introdução de ar não é um método confiável: ela não consegue diferenciar adequadamente uma sonda no estômago de uma sonda no esôfago ou em estruturas respiratórias.

Uma pesquisa brasileira também encontrou baixa concordância entre a ausculta epigástrica e a radiografia e concluiu que a ausculta não deveria ser utilizada como método de confirmação isolado.

Então a ausculta está proibida?

É preciso ter cuidado com essa afirmação. Não é correto transformar a discussão em:

“Ausculta é proibida.”

O problema é outro: a ausculta não deve ser considerada um método confiável para confirmar sozinha o posicionamento da SNE. Ela pode fazer parte da avaliação clínica geral, mas não deve ser usada como justificativa isolada para liberar a dieta quando a confirmação radiológica é necessária.

Esse detalhe é muito importante para o estudante de Enfermagem.

O famoso “teste do copo com água”

Outro método que muitos estudantes aprenderam é colocar a extremidade da sonda em um recipiente com água e observar se aparecem bolhas. A lógica ensinada era:

“Se borbulhar, está no pulmão.”

Mas isso também não é seguro. O Coren-AL descreve limitações desse método e destaca inclusive o risco de aspiração de água caso a sonda esteja localizada no trato respiratório.

Portanto: não coloque a ponta da sonda em um copo com água para decidir se pode iniciar a dieta. Esse método não substitui uma confirmação adequada.

E observar a cor do aspirado?

Também não é suficiente sozinho. Pode-se tentar aspirar conteúdo pela sonda e observar suas características. O problema é que:

  • nem sempre é possível obter aspirado;
  • o aspecto pode variar;
  • secreções gástricas e respiratórias podem ser confundidas;
  • sangue, dieta, medicamentos e outras condições podem modificar a aparência.

O parecer técnico do Coren-AL destaca justamente essa limitação: a avaliação visual do aspirado pode apresentar dificuldade para diferenciar secreções de diferentes origens.

Portanto:

“parece conteúdo gástrico” não é sinônimo de “tenho certeza da posição”.

E o pH do aspirado?

Aqui temos uma diferença importante em relação aos métodos antigos. A mensuração do pH do aspirado gástrico possui utilidade e é recomendada em alguns protocolos, principalmente para confirmação de sondas nasogástricas.

Por exemplo, uma diretriz do NHS recomenda pH do aspirado como uma das duas formas aceitas para confirmação inicial de uma sonda nasogástrica fina, sendo a radiografia a outra opção. Quando não há aspirado ou o pH não confirma a localização, recomenda-se radiografia. Portanto, não devemos ensinar ao aluno:

“pH não serve.”

O mais correto é:

O pH pode ser útil, mas sua utilização depende do tipo de sonda e do protocolo; ele não deve ser tratado como substituto universal da radiografia para confirmar uma SNE pós-pilórica.

Por que o pH pode apresentar limitações?

Porque o pH gástrico não é absolutamente constante.

Ele pode ser influenciado por:

  • alimentação;
  • medicamentos que reduzem a acidez gástrica;
  • antiácidos;
  • inibidores da bomba de prótons;
  • bloqueadores H2;
  • determinadas condições clínicas.

O parecer técnico do Coren-AL também chama atenção para essa limitação. Além disso, não conseguir aspirar conteúdo não significa automaticamente que a sonda está no lugar errado, mas também não permite assumir que está certa. É justamente por isso que protocolos precisam estabelecer o que fazer quando o aspirado não é obtido.

E a medida externa da sonda?

Essa é uma ferramenta extremamente útil. Depois de confirmar a posição inicial, deve-se registrar a marca ou comprimento externo da sonda junto à narina.

Por exemplo:

“SNE posicionada, marca externa em 55 cm.”

Depois, nas avaliações subsequentes, verifica-se se essa medida permanece semelhante àquela registrada. Se antes estava em 55 cm e agora está em 48 cm, alguma coisa mudou.

Pode ter ocorrido deslocamento. Mas existe uma ressalva importante: a medida externa não confirma sozinha a localização interna.

Ela serve principalmente para detectar uma possível mudança em relação à posição previamente documentada. Um protocolo brasileiro de administração segura de nutrição enteral recomenda verificar a medida externa da SNE antes da administração de dieta ou medicamento e reavaliar radiologicamente se ocorrer tração acidental significativa.

“Se a sonda não saiu, posso confiar na medida externa?”

Não necessariamente. Uma sonda pode sofrer deslocamento interno sem que a mudança externa seja imediatamente evidente. Por isso, a medida externa é uma barreira complementar de segurança, não uma substituta universal da confirmação inicial.

A lógica é:

posição inicialmente confirmada + fixação adequada + monitoramento da marca externa + avaliação clínica + reavaliação quando houver suspeita de deslocamento.

E se o paciente tossiu muito ou vomitou?

Essa situação merece atenção.

Episódios de:

  • vômitos;
  • tosse intensa;
  • engasgos;
  • manipulação da sonda;
  • tração acidental;
  • desconexão;
  • mudança da marca externa;
  • piora respiratória inesperada;

podem levantar suspeita de deslocamento. Nessas situações, não se deve simplesmente assumir que a sonda continua posicionada porque “estava certa antes”. Protocolos internacionais recomendam nova avaliação quando há suspeita de deslocamento ou eventos clínicos que possam alterar a posição.

Um detalhe muito importante: “a sonda estava certa ontem”

Essa frase pode ser perigosa. Uma sonda corretamente posicionada às 8 horas da manhã não necessariamente estará na mesma posição às 20 horas. Por isso, a segurança não termina depois do primeiro raio-X. A equipe precisa continuar observando:

  • fixação;
  • comprimento externo;
  • integridade do sistema;
  • sinais respiratórios;
  • tolerância à dieta;
  • eventuais episódios de vômito ou tosse;
  • qualquer alteração que sugira deslocamento.

Quando NÃO iniciar a dieta?

Essa é uma das mensagens mais importantes para o estudante. Não inicie a dieta se houver dúvida sobre a posição da sonda. Se a confirmação necessária ainda não foi realizada, se o resultado não está disponível, se existe divergência entre a posição registrada e a observada ou se houve suspeita de deslocamento, a conduta segura é interromper a administração e comunicar o enfermeiro/médico conforme o protocolo institucional.

  • Não tente “resolver a dúvida” apenas colocando ar e auscultando.
  • Não utilize o copo com água como confirmação.
  • Não confie somente na aparência do aspirado.
  • Não diga: “Deve estar no lugar.”

Quando estamos falando de uma via que pode levar diretamente ao trato respiratório, “deve estar” não é confirmação.

O que fazer antes de liberar a dieta?

Uma forma prática de pensar é utilizar uma sequência de segurança.

  1. Confirme a identificação do paciente

Antes de qualquer procedimento, confirme corretamente o paciente de acordo com o protocolo institucional. A identificação correta é uma das estratégias básicas de segurança do paciente estabelecidas pelo Ministério da Saúde.

  1. Verifique qual é a sonda

Identifique:

  • SNG?
  • SNE?
  • Gastrostomia?
  • Jejunostomia?

O método de confirmação pode variar conforme o dispositivo e o objetivo.

  1. Confira a documentação

Verifique se existe registro da passagem e da confirmação da posição.

  1. Confira a marca externa

Compare com a medida registrada após a confirmação inicial.

  1. Procure sinais de deslocamento

Observe fixação, comprimento externo, desconexões, tração, vômitos e alterações respiratórias.

  1. Confirme se a sonda está liberada para uso

Não basta a sonda estar presente.

É necessário que esteja confirmada e liberada conforme o protocolo institucional.

  1. Só então administre a dieta

A dieta deve ser iniciada somente depois que os critérios de segurança forem atendidos.

E a cabeceira do paciente?

Mesmo com a sonda corretamente posicionada, existe outro cuidado importante: o posicionamento do paciente durante a dieta.

Em geral, a cabeceira deve permanecer elevada, conforme prescrição e protocolo institucional, frequentemente em torno de 30° a 45°, especialmente durante a administração da nutrição enteral e por período posterior conforme orientação do serviço.

Um protocolo brasileiro de administração segura de nutrição enteral recomenda cabeceira elevada a pelo menos 30° durante a infusão. Isso é importante porque a prevenção da aspiração não depende de uma única medida.

É um conjunto de barreiras.

Quais métodos antigos não devem ser usados sozinhos?

Podemos resumir assim:

Método Pode ajudar? Deve ser usado sozinho para liberar dieta?
Radiografia Sim É o método de referência para SNE recém-passada
pH do aspirado Sim, em situações/protocolos específicos Não universalmente
Avaliação do aspirado Pode fornecer informações Não
Ausculta após injetar ar Não é confiável para confirmar posição Não
Borbulhamento no copo com água Não é confiável Não
Apenas observar a marca externa Ajuda no monitoramento Não
Sintomas clínicos isolados Podem levantar suspeita Não
Ultrassom à beira-leito Promissor em mãos treinadas e contextos específicos Depende de protocolo/competência; não substitui automaticamente o padrão de referência

E a ultrassonografia?

A ultrassonografia à beira-leito é uma área interessante e vem sendo estudada como alternativa para avaliação do posicionamento de sondas. Ela apresenta vantagens como ausência de radiação e possibilidade de realização à beira-leito.

Entretanto, isso não significa que qualquer profissional possa simplesmente pegar um aparelho de ultrassom e “confirmar a sonda”. É necessária capacitação, equipamento adequado e protocolo.

Estudos brasileiros apontam que a ultrassonografia pode ser uma alternativa em determinadas situações, mas ainda existem limitações relacionadas à acurácia e à disponibilidade de profissionais treinados.

Portanto, atualmente, para o estudante: ultrassom não deve ser tratado automaticamente como substituto do raio-X para todas as situações.

E se o paciente estiver em UTI?

Na UTI, a atenção deve ser ainda maior. Pacientes críticos podem apresentar:

  • alteração do nível de consciência;
  • sedação;
  • intubação;
  • traqueostomia;
  • ausência de reflexos protetores;
  • ventilação mecânica;
  • alterações anatômicas;
  • maior risco de aspiração.

O próprio Cofen destaca que pacientes neurológicos, inconscientes, idosos e traqueostomizados apresentam maior risco de mau posicionamento. Além disso, o paciente pode não conseguir comunicar que está sentindo dor, tosse ou desconforto durante a passagem.

Por isso, não espere que o paciente apresente sinais dramáticos para desconfiar de uma posição inadequada.

Uma experiência prática que vale para o estágio

Uma das situações que mais confundem estudantes é quando alguém da equipe diz: “Pode passar a dieta, eu já escutei.”

Nesse momento, o estudante precisa entender que a prática do setor não substitui o protocolo institucional nem a evidência científica. Se você está no estágio e encontra uma situação assim, não é necessário confrontar ninguém.

Pergunte:

“A posição já foi confirmada e liberada no prontuário?”

É uma pergunta simples, profissional e voltada para a segurança.

Se houver dúvida:

“Vou confirmar com o enfermeiro antes de iniciar a dieta.”

Essa postura demonstra responsabilidade, não insegurança.

O papel do técnico e do enfermeiro

A Resolução Cofen nº 619/2019 estabelece as competências da equipe de Enfermagem relacionadas à sondagem oro/nasoenteral.

Segundo a norma, a inserção da SNG/SOG e SNE é privativa do enfermeiro, enquanto técnicos e auxiliares podem auxiliar no procedimento e executar cuidados de manutenção e monitoramento conforme suas atribuições, prescrição e supervisão.

Ao enfermeiro compete, entre outras responsabilidades previstas na resolução:

  • estabelecer o acesso;
  • realizar os testes para confirmação do trajeto;
  • solicitar exame radiológico para confirmação da SNE;
  • garantir a manutenção do acesso;
  • prescrever cuidados;
  • registrar as ocorrências e dados relacionados ao procedimento.

Isso não significa que o técnico de enfermagem seja um mero “executor”. Na manutenção da terapia enteral, a observação do paciente e a comunicação de qualquer alteração são fundamentais. Se o técnico percebe que a sonda estava marcada em determinado ponto e agora está diferente, por exemplo, essa informação precisa ser comunicada.

O que fazer se houver suspeita de mau posicionamento?

A primeira regra é simples: não administrar a dieta até esclarecer a situação.

Depois:

  1. interromper a administração, se já estiver ocorrendo;
  2. manter o paciente em posição segura;
  3. comunicar imediatamente o enfermeiro;
  4. avaliar sinais respiratórios e condições clínicas;
  5. conferir a marca externa e a fixação;
  6. seguir o protocolo institucional para confirmação;
  7. documentar a ocorrência conforme rotina do serviço.

Se houver sinais como: dispneia, tosse intensa, dessaturação, cianose, desconforto respiratório ou alteração súbita do estado clínico, a situação deve ser tratada com prioridade.

Por que administrar dieta em uma sonda pulmonar é tão perigoso?

Porque a dieta enteral não foi feita para entrar nas vias respiratórias. Se a sonda estiver em uma estrutura respiratória e a dieta for administrada, pode ocorrer aspiração pulmonar, com consequências que variam de irritação e inflamação até pneumonia aspirativa e insuficiência respiratória.

A Resolução Cofen nº 619/2019 cita especificamente a possibilidade de inserção em brônquios e desenvolvimento de pneumonia aspirativa e infecção broncopulmonar. É por isso que o momento da confirmação da posição merece tanta atenção.

“Mas eu sempre aprendi que era só auscultar”

Essa talvez seja uma das frases mais importantes deste tema. Na Enfermagem, existem procedimentos que foram ensinados durante muitos anos e que continuam sendo repetidos simplesmente porque:

“sempre foi feito assim.”

Mas a prática profissional precisa acompanhar a evolução das evidências. O fato de determinado método ter sido ensinado no curso técnico, na faculdade ou por profissionais experientes não significa automaticamente que ele seja o método mais seguro atualmente.

A ausculta epigástrica é um excelente exemplo, e ela pode parecer convincente porque produz um som. O problema é que um som não é uma imagem anatômica, e essa diferença é fundamental.

Resumo para guardar para a prova

Se você estiver estudando para uma prova de Enfermagem e aparecer a pergunta:

“Qual é o padrão-ouro para confirmar o posicionamento da sonda nasoenteral?”

A resposta esperada, no contexto brasileiro tradicional e das diretrizes citadas, é:

Radiografia.

Se aparecer:

“Ausculta epigástrica após insuflação de ar confirma o posicionamento?”

A resposta é:

Não. Não é um método confiável para confirmar isoladamente a localização da sonda.

Se aparecer:

“Colocar a ponta da sonda em um copo com água confirma se ela está no pulmão?”

Não. Esse método não é confiável e pode oferecer risco.

Se aparecer:

“O pH do aspirado pode ser utilizado?”

A resposta mais completa é:

Pode ser útil em determinados protocolos, especialmente para SNG, mas possui limitações e não substitui automaticamente a radiografia para confirmação de uma SNE pós-pilórica.

Checklist rápido antes de liberar a dieta

Antes de conectar a dieta, pense:

  • Paciente correto?
  • Sonda correta?
  • Posição inicial confirmada?
  • Há registro da confirmação?
  • A sonda foi liberada para uso?
  • Marca externa está de acordo com o registro?
  • Fixação está íntegra?
  • Houve vômito, tosse intensa ou tração desde a última confirmação?
  • Existe alguma dúvida sobre o posicionamento?

Se a última resposta for sim, pare.

Não iniciar a dieta se houver dúvida sobre a posição da sonda. Essa é uma frase simples, mas que pode evitar um evento adverso grave. A confirmação do posicionamento da sonda antes da dieta é um daqueles assuntos em que a experiência prática precisa caminhar junto com a atualização científica.

Durante muito tempo, técnicas como auscultar o epigástrio após injetar ar, observar o aspirado ou colocar a extremidade da sonda em um copo com água foram ensinadas como formas de verificar a posição.

Hoje, sabemos que esses métodos apresentam limitações importantes e não devem ser utilizados isoladamente para confirmar uma SNE e liberar sua utilização. Para a SNE recém-inserida, a radiografia permanece o padrão de referência/padrão-ouro na literatura brasileira, pois permite visualizar o trajeto e a localização da sonda.

Ao mesmo tempo, o pH do aspirado tem papel relevante em determinados protocolos, especialmente para SNG, e pode funcionar como ferramenta de avaliação à beira-leito quando utilizado dentro de critérios bem definidos.

O mais importante é não transformar um método auxiliar em uma falsa certeza.

  • Auscultar não é visualizar.
  • Aspirar não é necessariamente confirmar.
  • Ver a marca externa não é comprovar a localização interna.

E, principalmente: se houver dúvida sobre a posição da sonda, a dieta não deve ser iniciada até que a situação seja esclarecida conforme o protocolo institucional.

Esse é o tipo de cuidado que transforma conhecimento técnico em segurança real para o paciente.

Referências:

  1. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 619, de 4 de novembro de 2019. Normatiza a atuação da Equipe de Enfermagem na Sondagem Oro/Nasogástrica e Nasoentérica. Brasília, DF: Cofen, 2019. Disponível em: Resolução Cofen nº 619/2019
  2. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE ALAGOAS (COREN-AL). Parecer Técnico nº 04/2022: posicionamento de sonda nasoenteral e confirmação radiológica. Maceió: Coren-AL, 2022. Disponível em: Parecer Técnico nº 04/2022
  3. MACEDO, A. B. T. et al. Elaboração e validação de protocolo para administração segura de nutrição enteral em pacientes hospitalizados. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre. Disponível em: Artigo na Revista Gaúcha de Enfermagem
  4. BRASPEN. Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional Oral, Enteral e Parenteral. São Paulo: BRASPEN. Disponível em: Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional
  5. RIGOBELLO, M. C. G. Acurácia e custo de métodos utilizados por enfermeiros na confirmação do posicionamento de sondas nasoenterais recém-inseridas às cegas à beira leito. Tese (Doutorado em Enfermagem) – Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto. Disponível em: Repositório da Universidade de São Paulo
  6. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos de Segurança do Paciente. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Protocolos de Segurança do Paciente – Ministério da Saúde
  7. NHS AYRSHIRE & ARRAN. Insertion and care of fine bore nasogastric tubes for enteral feeding and medication in adults. Clinical Guideline G081. Disponível em: NHS – Nasogastric tube position confirmation guideline.
  8. BISCHOFF, S. C. et al. ESPEN practical guideline: Home enteral nutrition. Clinical Nutrition, v. 41, p. 468–488, 2022. Disponível em: ESPEN Practical Guidelines.
  9. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Protocolo de prática segura na administração de medicamentos, sangue e tecidos: prevenção de erros na administração de dietas enterais. Brasília: Anvisa, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/seguranca-do-paciente
  10. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Parecer Cofen nº 003/2021: Atuação da equipe de enfermagem na passagem e confirmação de sondas enterais e gástricas. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/
  11. SILVA, M. R.; SOUZA, A. C. Segurança do paciente em terapia nutricional enteral: evidências atuais sobre a confirmação do posicionamento de sondas. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 77, n. 2, p. 112-118, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/

Cálculos de Enfermagem: Aquele que Todo Estudante Teme

Vá direto ao ponto!

Os cálculos de medicamentos fazem parte da rotina da Enfermagem e estão presentes desde o preparo de um comprimido até situações mais complexas, como infusões contínuas de heparina, insulinoterapia, drogas vasoativas e soluções intravenosas.

Para muitos estudantes, o cálculo de medicamentos costuma ser uma das partes mais assustadoras da graduação ou do curso técnico. A matemática, por si só, nem sempre é o problema. O que costuma gerar insegurança é ter de interpretar uma prescrição, identificar a concentração disponível, escolher a fórmula adequada e, depois, administrar aquele resultado a um paciente real.

É justamente por isso que calcular não deve ser uma atividade baseada apenas em decorar fórmulas.

O profissional precisa entender o que está calculando, qual unidade está utilizando e se o resultado encontrado faz sentido.

O próprio Conselho Federal de Enfermagem destaca que o conhecimento dos fundamentos de aritmética e matemática auxilia na prevenção de erros relacionados ao preparo, à dosagem e à administração de medicamentos. O material do Cofen sobre cálculo seguro foi desenvolvido justamente para facilitar esse aprendizado entre profissionais e estudantes.

Aqui vamos revisar de maneira prática os cálculos mais utilizados na Enfermagem, incluindo gotejamento, comprimidos, insulina, heparina, permanganato de potássio, rediluição e cálculo de glicose, além de exercícios no final para você testar seus conhecimentos.

🚨Aviso importante: os exemplos deste artigo são educacionais. Na prática assistencial, sempre confira a prescrição, a apresentação e concentração do medicamento, a bula, o protocolo institucional e, quando necessário, faça dupla checagem com outro profissional. Medicamentos de alta vigilância, como insulina e heparina, exigem atenção especial.

Por que aprender cálculo de medicamentos é tão importante na Enfermagem?

Um erro matemático pode parecer pequeno no papel. Uma vírgula deslocada, uma unidade interpretada incorretamente ou uma concentração confundida pode transformar uma dose terapêutica em uma dose muito maior ou muito menor. Por isso, cálculo de medicamentos não é apenas uma disciplina da faculdade ou uma questão de prova.

Ele está diretamente relacionado à segurança do paciente. O Cofen destaca que erros relacionados à utilização de medicamentos podem resultar em consequências importantes, incluindo prolongamento da internação, incapacidades e até morte. Na prática, portanto, uma boa regra é: não calcule com pressa.

Se houver dúvida, pare, confira a prescrição, refaça o cálculo e peça ajuda.

Antes de começar qualquer cálculo: organize as informações

Antes de pegar a calculadora, identifique quatro informações:

  • O que foi prescrito?
  • Quanto existe disponível?
  • Em qual volume ou apresentação está disponível?
  • Quanto será administrado?

Por exemplo:

Prescrição: 500 mg de determinado medicamento.
Disponível: 1.000 mg em 10 mL.

Você já consegue identificar:

  • Dose prescrita = 500 mg
  • Dose disponível = 1.000 mg
  • Volume disponível = 10 mL

Agora o cálculo fica muito mais simples.

Regra de três na Enfermagem

A regra de três é provavelmente uma das ferramentas mais utilizadas para calcular medicamentos. A estrutura básica é:

Dose disponível → volume disponível

Dose prescrita → X

Então:

X = dose prescrita × volume disponível ÷ dose disponível

Exemplo

Prescrição:

500 mg

Disponível:

1.000 mg em 10 mL

Montando:

1.000 mg → 10 mL
500 mg → X

Então:

X = 500 × 10 ÷ 1.000

X = 5 mL

Portanto, serão administrados 5 mL.

Cuidado com as unidades

Esse é um dos pontos que mais provocam erros. Você não deve simplesmente colocar os números na fórmula sem verificar as unidades.

Por exemplo:

1 g não é 1 mg.

Sabemos que:

1 g = 1.000 mg

Portanto:

0,5 g = 500 mg

2 g = 2.000 mg

Da mesma maneira:

1 mg = 1.000 microgramas (mcg ou µg)

Então:

0,5 mg = 500 mcg

Antes de calcular, deixe as unidades compatíveis.

Conversões que o estudante de Enfermagem precisa dominar

Unidade Equivalência
1 g 1.000 mg
1 mg 1.000 mcg
1 L 1.000 mL
1 mL 1.000 µL
1 hora 60 minutos
1 minuto 60 segundos

Uma dica simples: Se a prescrição está em mg e o frasco está em g, converta antes de calcular.

Cálculo de comprimidos

O cálculo de comprimidos segue a mesma lógica. Imagine:

Prescrição: 750 mg
Disponível: comprimido de 500 mg.

Aplicando a fórmula:

X = 750 × 1 ÷ 500

X = 1,5 comprimido

Portanto, matematicamente, seriam 1,5 comprimido. Mas aqui aparece uma questão importante:

O comprimido pode ser partido?

Nem todo comprimido pode ser dividido. Comprimidos de liberação prolongada, revestimentos específicos e algumas outras formulações não devem ser partidos ou triturados sem confirmação. Portanto, o cálculo matemático pode indicar 1,5 comprimido, mas a forma farmacêutica precisa ser avaliada antes da administração.

Outro exemplo de comprimidos

Prescrição:

1.200 mg

Disponível:

400 mg por comprimido

Cálculo:

1.200 ÷ 400 = 3

Resultado:

3 comprimidos.

Nesse caso, a conta é direta.

Cálculo de soluções líquidas

Imagine:

Prescrição: 250 mg
Disponível: 500 mg/5 mL.

Montamos:

500 mg → 5 mL
250 mg → X

X = 250 × 5 ÷ 500

X = 2,5 mL

Resultado:

2,5 mL.

Cálculo de gotejamento

O cálculo de gotejamento é outro clássico da Enfermagem. É utilizado para determinar quantas gotas por minuto devem ser administradas em uma infusão gravitacional. A fórmula depende do fator de gotas do equipo.

Nos exemplos didáticos tradicionais:

Equipo macrogotas = 20 gotas/mL

Equipo microgotas = 60 microgotas/mL

Mas o profissional deve conferir a especificação do equipo utilizado, pois o fator de gotejamento deve ser o informado pelo fabricante.

Fórmula de macrogotas

Quando o equipo possui fator de 20 gotas/mL:

Gotas/min = Volume (mL) × 20 ÷ tempo (min)

Exemplo

Prescrição:

500 mL para correr em 4 horas.

Primeiro transforme horas em minutos:

4 × 60 = 240 minutos

Agora:

500 × 20 ÷ 240

= 41,66

Arredondando:

aproximadamente 42 gotas/minuto.

Fórmula de microgotas

Para um equipo de 60 microgotas/mL:

Microgotas/min = Volume × 60 ÷ tempo em minutos

Observe uma particularidade interessante. Quando o fator é exatamente 60 microgotas/mL, podemos simplificar:

microgotas/min = mL/h

Por exemplo:

500 mL em 4 horas:

500 ÷ 4 = 125 mL/h

Portanto:

125 microgotas/minuto.

Fórmula prática para macrogotas

Também podemos calcular diretamente usando horas:

Gotas/min = Volume × fator de gotas ÷ (tempo em horas × 60)

Para macrogotas de 20 gotas/mL:

Gotas/min = Volume × 20 ÷ (horas × 60)

Cálculo de mL/h

Quando utilizamos uma bomba de infusão, normalmente trabalhamos com mL/h. A fórmula é:

mL/h = volume total ÷ tempo em horas

Exemplo

1.000 mL para correr em 8 horas:

1.000 ÷ 8 = 125 mL/h

Programação:

125 mL/h

Uma diferença que o estudante precisa entender

Gotas/minuto e mL/h não são a mesma unidade. Gotas/minuto é utilizado principalmente quando precisamos controlar uma infusão por gotejamento gravitacional. mL/h é a unidade utilizada para programar a velocidade volumétrica em uma bomba de infusão, não confunda as duas.

Cálculo de insulina

A insulina merece atenção especial porque é considerada um medicamento de alta vigilância. Por isso, além do cálculo, é fundamental conferir:

  • tipo de insulina;
  • concentração;
  • dose prescrita;
  • via;
  • seringa/dispositivo adequado;
  • horário;
  • glicemia quando indicada;
  • dupla checagem conforme protocolo institucional.

O Cofen também destaca, em conteúdo educativo recente sobre cálculo seguro, a importância da dupla checagem especialmente para medicamentos de alta vigilância, incluindo insulina e heparina.

Insulina U-100

Uma apresentação muito comum é:

U-100

Isso significa:

100 unidades de insulina por mL.

Portanto:

1 mL = 100 UI

0,5 mL = 50 UI

0,1 mL = 10 UI

0,01 mL = 1 UI

Porém, quando se utiliza seringa própria para insulina compatível com a concentração, a dose normalmente é lida diretamente em unidades.

Exemplo de cálculo de insulina

Prescrição:

20 UI

Disponível:

U-100 = 100 UI/mL

Pela relação:

100 UI → 1 mL
20 UI → X

X = 20 × 1 ÷ 100

X = 0,2 mL

Portanto:

20 UI = 0,2 mL de U-100.

Na prática, se estiver utilizando uma seringa de insulina adequada para U-100, a marcação correspondente a 20 unidades é utilizada, conforme o dispositivo e protocolo.

Atenção: nem toda insulina é U-100

Esse é um ponto muito importante, nunca presuma a concentração. Existem diferentes concentrações e apresentações de insulina, portanto, antes de calcular:

leia o rótulo.

Nunca administre uma insulina apenas porque “a quantidade em unidades parece correta”.

Confirme:

nome da insulina + concentração + dose prescrita + dispositivo.

Cálculo de heparina

A heparina é outro medicamento que merece atenção especial. É possível encontrar apresentações em diferentes concentrações, por isso nunca use uma concentração decorada como se fosse universal, sempre confira o frasco ou ampola.

Heparina em bolus: exemplo

Suponha:

Prescrição: 2.500 UI

Disponível:

5.000 UI/mL

Cálculo:

5.000 UI → 1 mL
2.500 UI → X

X = 2.500 × 1 ÷ 5.000

X = 0,5 mL

Resultado:

0,5 mL.

Esse é apenas um exemplo matemático. A concentração real deve ser conferida na apresentação disponível.

Heparina em infusão contínua

Imagine uma solução preparada com:

25.000 UI em 250 mL

Primeiro encontramos a concentração:

25.000 ÷ 250

= 100 UI/mL

Agora suponha uma prescrição de:

1.200 UI/h

Então:

100 UI → 1 mL
1.200 UI → X

X = 1.200 ÷ 100

X = 12 mL/h

A bomba seria programada para:

12 mL/h

desde que esse seja efetivamente o preparo e a prescrição definidos para o paciente.

Cálculo de permanganato de potássio

O permanganato de potássio merece uma atenção especial porque é um exemplo clássico em exercícios de Enfermagem, mas sua utilização clínica deve seguir prescrição, indicação e protocolo institucional. Uma concentração bastante conhecida nos exercícios é:

1:10.000

Essa proporção significa:

1 g de permanganato para 10.000 mL de solução.

Como:

1 g = 1.000 mg

temos:

1.000 mg ÷ 10.000 mL = 0,1 mg/mL.

Também podemos expressar:

1:10.000 = 0,01%

quando a proporção é massa/volume.

Como transformar porcentagem em gramas?

Essa é uma das perguntas mais comuns em provas, a definição básica é:

1% = 1 g em 100 mL

Portanto:

Concentração Quantidade em 100 mL
0,01% 0,01 g
0,05% 0,05 g
0,1% 0,1 g
0,5% 0,5 g
1% 1 g
2% 2 g
5% 5 g
10% 10 g
20% 20 g
25% 25 g
40% 40 g
50% 50 g

A partir daí, podemos calcular qualquer volume.

Quantas gramas de glicose existem em cada porcentagem?

Essa é uma informação muito útil para estudantes de Enfermagem. Quando falamos em uma solução de glicose X%, estamos normalmente expressando:

X gramas de glicose em 100 mL de solução.

Assim:

Glicose 5%

5 g/100 mL

Em 500 mL:

25 g

Em 1.000 mL:

50 g

Glicose 10%

10 g/100 mL

Em 500 mL:

50 g

Em 1.000 mL:

100 g

Glicose 20%

20 g/100 mL

Em 500 mL:

100 g

Em 1.000 mL:

200 g

Glicose 25%

25 g/100 mL

Em 500 mL:

125 g

Em 1.000 mL:

250 g

Glicose 40%

40 g/100 mL

Em 500 mL:

200 g

Em 1.000 mL:

400 g

Glicose 50%

50 g/100 mL

Em 500 mL:

250 g

Em 1.000 mL:

500 g

Tabela completa de glicose para estudar

Solução g/100 mL g/500 mL g/1.000 mL
Glicose 5% 5 g 25 g 50 g
Glicose 10% 10 g 50 g 100 g
Glicose 20% 20 g 100 g 200 g
Glicose 25% 25 g 125 g 250 g
Glicose 40% 40 g 200 g 400 g
Glicose 50% 50 g 250 g 500 g

Essa tabela pode ser muito útil para revisão antes de uma prova.

Como calcular a quantidade de glicose em um volume diferente?

Imagine:

Quantos gramas de glicose existem em 250 mL de glicose 10%?

Sabemos:

10% = 10 g em 100 mL.

Então:

100 mL → 10 g
250 mL → X

X = 250 × 10 ÷ 100

X = 25 g

Portanto:

250 mL de glicose 10% contêm 25 g de glicose.

Um detalhe importante sobre soluções de glicose

A porcentagem indica a concentração da solução, mas o profissional deve observar a apresentação real do produto, incluindo volume, concentração e informações do fabricante.

Não confunda:

glicose 5%

com

glicose 50%.

A diferença é enorme.

Glicose 5%:

5 g/100 mL

Glicose 50%:

50 g/100 mL

Ou seja, a solução 50% possui dez vezes mais glicose por volume que a solução 5%.

Rediluição de medicamentos

A rediluição é utilizada quando a quantidade de medicamento que precisamos retirar diretamente do frasco é muito pequena para ser medida com precisão ou quando o protocolo determina uma concentração intermediária para facilitar a administração.

O raciocínio é:

  1. retirar uma quantidade conhecida do medicamento;
  2. adicionar diluente;
  3. obter uma concentração conhecida;
  4. retirar dessa nova solução o volume necessário.

Exemplo didático de rediluição

Imagine:

Frasco: 500 mg em 2 mL

E precisamos administrar:

25 mg

Diretamente:

500 mg → 2 mL
25 mg → X

X = 25 × 2 ÷ 500

X = 0,1 mL

Embora matematicamente possível, 0,1 mL pode ser um volume pequeno para determinadas situações. Suponha então que, conforme protocolo institucional, façamos uma diluição intermediária utilizando:

1 mL da solução do medicamento + 9 mL de diluente = 10 mL

A quantidade de medicamento presente naquele 1 mL é:

500 mg → 2 mL

Portanto:

1 mL contém 250 mg.

Depois da rediluição:

250 mg em 10 mL

Logo:

25 mg/mL

Agora precisamos de 25 mg:

25 mg → 1 mL

Portanto:

1 mL da solução rediluída = 25 mg.

📢 Atenção: rediluição não é simplesmente “completar até 10 mL”

Essa é uma fonte comum de erro. Existe diferença entre:

adicionar 10 mL de diluente

e

obter volume final de 10 mL.

Se o protocolo determina:

“Diluir para volume final de 10 mL”

a quantidade de medicamento já ocupa determinado volume. Portanto, o diluente necessário deve ser calculado de modo que o volume final seja 10 mL. Isso é diferente de simplesmente acrescentar 10 mL.

Como evitar esse erro?

Escreva sempre:

Volume do medicamento = X mL

Volume de diluente = Y mL

Volume final = Z mL

Por exemplo:

1 mL de medicamento

  • 9 mL de diluente

= 10 mL finais.

Essa anotação simples ajuda muito.

Cálculo de concentração após diluição

Imagine:

1.000 mg em 10 mL

A concentração é:

1.000 ÷ 10

= 100 mg/mL

Se retirarmos 2 mL:

2 × 100

= 200 mg

Essa lógica pode ser usada para conferir se o cálculo realizado faz sentido.

Cálculo por fórmula

Outra fórmula bastante utilizada é:

Dose desejada × volume disponível ÷ dose disponível

Ou:

X = D × V ÷ H

Onde:

D = dose desejada

V = volume disponível

H = dose que há no frasco/ampola

Exemplo completo

Prescrição:

750 mg

Frasco:

1.000 mg em 10 mL

Aplicando:

X = 750 × 10 ÷ 1.000

X = 7,5 mL

Resposta:

7,5 mL

E quando a prescrição está em gramas?

Suponha:

Prescrição: 1,5 g

Disponível:

500 mg em 5 mL

Primeiro:

1,5 g = 1.500 mg

Agora:

500 mg → 5 mL
1.500 mg → X

X = 1.500 × 5 ÷ 500

X = 15 mL

Cálculo de dose por peso

Outro cálculo muito frequente é:

mg/kg/dose

ou

mg/kg/dia.

Imagine uma prescrição de:

10 mg/kg/dose

Paciente:

20 kg

Então:

10 × 20

= 200 mg por dose

Se a solução disponível for:

100 mg/5 mL

Então:

100 mg → 5 mL
200 mg → X

X = 10 mL

Resultado:

10 mL por dose.

Mas atenção: em pediatria, cálculos por peso e volume devem ser conferidos cuidadosamente, inclusive quanto à dose máxima diária, frequência, concentração e protocolo específico.

Quando a prescrição é em mg/kg/dia

Aqui existe uma diferença importante, imagine:

30 mg/kg/dia

Paciente:

20 kg

Primeiro:

30 × 20 = 600 mg/dia

Se a prescrição for dividida em três administrações:

600 ÷ 3 = 200 mg por dose

Ou seja:

200 mg a cada administração, se a divisão em três doses estiver prevista.

Não confunda:

mg/kg/dose

com

mg/kg/dia.

Cálculo de vazão em bomba

Imagine:

100 mL para correr em 30 minutos.

Primeiro transforme 30 minutos em horas:

30 ÷ 60 = 0,5 hora

Agora:

100 ÷ 0,5

= 200 mL/h

Portanto:

200 mL/h

Cálculo de tempo de infusão

Também podemos fazer o contrário.

Se temos:

500 mL

e uma velocidade de:

100 mL/h

Então:

500 ÷ 100

= 5 horas

Portanto, a solução levará:

5 horas.

Como saber se sua resposta faz sentido?

Essa é uma habilidade que diferencia quem apenas aplica fórmula de quem realmente entende o cálculo, imagine:

1.000 mL em 10 horas.

Você encontrou:

10 mL/h.

Pare.

Isso parece correto?

Não.

Se 1.000 mL precisam ser administrados em 10 horas, esperamos aproximadamente:

100 mL/h.

Portanto, sempre faça uma estimativa mental antes de aceitar o resultado.

Erros que mais aparecem nos cálculos de Enfermagem

Alguns erros são extremamente comuns.

Confundir mg com g

1 g = 1.000 mg

Não pule essa conversão.

Confundir mL com gotas

mL é volume.

Gotas é quantidade de gotas.

São grandezas diferentes.

Esquecer de converter horas em minutos

Se a fórmula exige minutos:

1 hora = 60 minutos.

Utilizar a concentração errada

Sempre leia novamente o rótulo.

Ignorar o fator de gotas do equipo

Confira se é macrogotas ou microgotas e qual fator está indicado pelo fabricante.

Deslocar a vírgula

Esse erro pode multiplicar ou dividir a dose por 10.

Não conferir o resultado

Depois do cálculo, pergunte:

“Essa resposta faz sentido?”

Cálculo de medicamentos e os “certos” da administração

O cálculo não deve ser separado do processo de administração segura. O profissional deve conferir o paciente, medicamento, dose, via, horário e demais elementos previstos nos protocolos e práticas de segurança adotados pelo serviço. O conteúdo educativo do Cofen sobre cálculo seguro reforça justamente a importância das barreiras de segurança e da dupla checagem para medicamentos de maior risco.

Além disso, o Cofen publicou em 2026 a Resolução nº 801, que estabelece diretrizes para prescrição de medicamentos pelo enfermeiro e reforça a necessidade de protocolos, identificação adequada e rastreabilidade. Isso demonstra que cálculo, prescrição, preparo, administração e registro fazem parte de um processo de segurança muito maior.

Cuidados de Enfermagem antes de administrar uma medicação calculada

Antes da administração:

  • Leia a prescrição com atenção.
  • Identifique o paciente corretamente.
  • Confira alergias.
  • Confira o medicamento.
  • Confira a concentração.
  • Confira a validade.
  • Confira a via.
  • Confira a dose calculada.
  • Confira o diluente e volume final quando aplicável.
  • Verifique compatibilidade quando houver mais de uma solução.
  • Faça dupla checagem quando indicada pelo protocolo.
  • Confirme se o resultado do cálculo é clinicamente plausível.

Cuidados especiais com medicamentos de alta vigilância

Alguns medicamentos exigem atenção redobrada porque pequenos erros podem produzir consequências graves. Entre eles estão, conforme protocolos institucionais e classificações de segurança:

  • insulina;
  • heparina e outros anticoagulantes;
  • opioides;
  • eletrólitos concentrados;
  • algumas drogas vasoativas;
  • determinados sedativos e anestésicos.

O Cofen cita especificamente insulina, heparina e drogas vasoativas como exemplos de medicamentos para os quais a dupla checagem é especialmente importante em seu conteúdo educativo sobre cálculos.

Uma experiência que ajuda muito: escreva o cálculo

No estágio, pode parecer mais rápido fazer tudo mentalmente. Mas, principalmente quando você ainda está aprendendo, escreva.

Por exemplo:

Prescrito: 500 mg
Disponível: 1.000 mg/10 mL

Depois:

1.000 mg → 10 mL
500 mg → X

Então:

X = 500 × 10 ÷ 1.000
X = 5 mL

Essa sequência permite que outra pessoa confira seu raciocínio.

A calculadora pode ser utilizada?

Sim, uma calculadora pode ser uma excelente ferramenta para reduzir erros aritméticos. O problema não é utilizar calculadora. O problema é digitar uma informação errada na calculadora e aceitar o resultado sem verificar. Uma calculadora não sabe se você colocou:

500 mg

ou

5.000 mg.

Ela apenas calcula aquilo que você informou.

Portanto:

interpretação correta + fórmula correta + calculadora + conferência

é muito mais seguro do que confiar apenas na memória.

Exercícios de cálculo de medicamentos para praticar

Agora vamos colocar o conhecimento em prática. Tente resolver primeiro sem olhar as respostas.

Exercício 1 — Comprimidos

Foi prescrito:

750 mg

O comprimido disponível possui:

500 mg

Quantos comprimidos devem ser administrados?

Exercício 2 — Solução oral

Prescrição:

300 mg

Disponível:

600 mg em 10 mL

Quantos mL devem ser administrados?

Exercício 3 — Gotejamento

Uma solução de:

500 mL

deve ser administrada em:

5 horas.

Considerando equipo de 20 gotas/mL, quantas gotas por minuto devem ser administradas?

Exercício 4 — Microgotas

Uma solução de:

300 mL

deve correr em:

3 horas.

Considerando equipo de 60 microgotas/mL, qual será o gotejamento em microgotas/minuto?

Exercício 5 — Bomba de infusão

Uma solução de:

1.000 mL

deve ser administrada em:

10 horas.

Qual velocidade deve ser programada na bomba?

Exercício 6 — Insulina

Prescrição:

18 UI de insulina U-100.

Qual o volume correspondente em mL?

Exercício 7 — Heparina

Prescrição:

2.500 UI

Disponível:

5.000 UI/mL

Qual volume deve ser administrado?

Exercício 8 — Heparina em infusão

Uma solução contém:

25.000 UI em 250 mL.

A prescrição determina:

1.000 UI/h.

Qual velocidade deve ser programada em mL/h?

Exercício 9 — Glicose

Quantos gramas de glicose existem em:

500 mL de glicose 10%?

Exercício 10 — Glicose

Quantos gramas de glicose existem em:

250 mL de glicose 20%?

Exercício 11 — Glicose

Quantos gramas de glicose existem em:

1.000 mL de glicose 5%?

Exercício 12 — Permanganato

Considerando a concentração didática de 1:10.000, quantos miligramas de permanganato correspondem a 1.000 mL de solução?

Exercício 13 — Rediluição

Um medicamento possui:

500 mg em 2 mL.

Conforme um protocolo hipotético, você retira 1 mL e dilui até um volume final de 10 mL. Qual será a concentração final em mg/mL?

Exercício 14 — Rediluição

Utilizando a solução do exercício anterior, quantos mL da solução rediluída correspondem a:

25 mg?

Exercício 15 — Dose por peso

Um medicamento foi prescrito na dose de:

10 mg/kg/dose

para um paciente de:

25 kg.

Qual será a dose em mg por administração?

Respostas dos exercícios

Exercício 1

750 mg ÷ 500 mg

Resposta: 1,5 comprimido.

A possibilidade de fracionamento deve ser confirmada para a apresentação farmacêutica utilizada.

Exercício 2

600 mg → 10 mL
300 mg → X

X = 300 × 10 ÷ 600

Resposta: 5 mL.

Exercício 3

5 horas × 60 = 300 minutos

Gotas/min:

500 × 20 ÷ 300

= 33,33

Resposta: aproximadamente 33 gotas/minuto.

O arredondamento deve seguir a prática e o protocolo do serviço.

Exercício 4

3 horas × 60 = 180 minutos

300 × 60 ÷ 180

= 100

Resposta: 100 microgotas/minuto.

Pela relação prática:

300 mL ÷ 3 horas = 100 mL/h

e, em equipo de 60 microgotas/mL, corresponde a 100 microgotas/minuto.

Exercício 5

1.000 ÷ 10

Resposta: 100 mL/h.

Exercício 6

100 UI → 1 mL
18 UI → X

X = 18 ÷ 100

Resposta: 0,18 mL.

Em uma seringa própria para U-100, a dose deve ser conferida pela graduação correspondente em unidades.

Exercício 7

5.000 UI → 1 mL
2.500 UI → X

X = 2.500 ÷ 5.000

Resposta: 0,5 mL.

Exercício 8

Primeiro:

25.000 UI ÷ 250 mL

= 100 UI/mL

Agora:

1.000 UI/h ÷ 100 UI/mL

Resposta: 10 mL/h.

Exercício 9

Glicose 10%:

10 g → 100 mL

500 mL:

10 × 500 ÷ 100

Resposta: 50 g.

Exercício 10

Glicose 20%:

20 × 250 ÷ 100

Resposta: 50 g.

Exercício 11

Glicose 5%:

5 × 1.000 ÷ 100

Resposta: 50 g.

Exercício 12

1:10.000 significa:

1 g → 10.000 mL

1.000 mL → X

X = 1 × 1.000 ÷ 10.000

= 0,1 g

Como:

0,1 g = 100 mg

Resposta: 100 mg.

Exercício 13

O medicamento possui:

500 mg em 2 mL.

Em 1 mL:

250 mg.

Esse 1 mL foi diluído até volume final de 10 mL:

250 mg ÷ 10 mL

Resposta: 25 mg/mL.

Exercício 14

A solução possui:

25 mg/mL.

Para administrar 25 mg:

25 ÷ 25 = 1 mL.

Resposta: 1 mL.

Exercício 15

10 mg/kg × 25 kg

Resposta: 250 mg por dose.

Como estudar cálculos de Enfermagem sem decorar dezenas de fórmulas

Uma estratégia que costuma funcionar muito bem é dominar primeiro uma fórmula principal:

X = dose desejada × volume disponível ÷ dose disponível

Depois, entender as conversões:

g ↔ mg ↔ mcg

L ↔ mL

horas ↔ minutos

E, por fim, aprender as particularidades de:

  • gotejamento;
  • insulina;
  • heparina;
  • rediluição;
  • porcentagens;
  • dose por peso.

Quando você entende a lógica, percebe que muitos cálculos diferentes são apenas variações do mesmo raciocínio.

Uma dica de ouro para a prova e para o estágio

Sempre faça três perguntas antes de aceitar sua resposta:

  1. Minha unidade está correta?

Se a pergunta pede mL e você encontrou mg, alguma coisa está errada.

  1. Meu número faz sentido?

Se uma dose pequena resultou em 50 mL, pare e revise.

  1. Eu usei a concentração correta?

Leia novamente o rótulo. Esses três passos conseguem identificar muitos erros antes que eles cheguem ao paciente.

Cálculo seguro é mais importante que cálculo rápido

Existe uma pressão muito comum durante o estágio:

“Preciso fazer rápido porque o plantão está corrido.”

Mas velocidade não deve ser colocada acima da segurança. O Cofen reforça que o domínio dos cálculos e diluições contribui para a prevenção de erros de preparo, dosagem e administração. No ambiente real, portanto, não há problema em parar por alguns segundos, pegar uma calculadora, escrever a fórmula e pedir uma segunda conferência.

“O objetivo não é ser o profissional que calcula mais rápido. É ser o profissional que calcula corretamente e consegue explicar como chegou ao resultado.”

Os cálculos de Enfermagem não precisam ser vistos como um bicho de sete cabeças. Gotejamento, comprimidos, soluções, insulina, heparina, permanganato, rediluição e cálculo de glicose podem parecer assuntos diferentes, mas todos partem de princípios matemáticos relativamente simples.

O que realmente exige atenção é a interpretação da prescrição, a identificação correta da concentração disponível e o controle das unidades. Na prática, uma pequena conta pode representar uma grande diferença na segurança do paciente.

Por isso, desenvolva o hábito de:

  • ler;
  • converter;
  • calcular;
  • conferir;
  • questionar;
  • e só então administrar.

E lembre-se de que o cálculo é apenas uma etapa. A administração segura também envolve identificação do paciente, medicamento, dose, via, horário, diluição, compatibilidade, monitorização, registro e cumprimento dos protocolos institucionais.

A própria orientação atual do Cofen reforça a importância de protocolos e segurança no processo relacionado aos medicamentos, enquanto seus materiais educacionais sobre cálculo seguro destacam a necessidade de conhecimento matemático e de estratégias de prevenção de erros.

Na Enfermagem, saber fazer a conta é importante. Saber conferir a conta antes de administrar é ainda mais importante.

Referências:

  1. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Boas práticas: Cálculo Seguro – Volume II: Cálculo e diluição de medicamentos. Brasília, DF: Cofen, 2018. Disponível em: Biblioteca Virtual de Enfermagem – Cofen.
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Segurança nos cálculos e diluições de medicamentos. Brasília, DF: Cofen, 2017. Disponível em: Biblioteca Virtual de Enfermagem – Cofen.
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Enfermagem sem erros: cálculo de medicamentos descomplicado. Brasília, DF: Cofen, 2026. Disponível em: Biblioteca Virtual de Enfermagem – Cofen.
  4. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 801, de 14 de janeiro de 2026. Estabelece diretrizes para a prescrição de medicamentos pelo enfermeiro e dá outras providências. Brasília, DF: Cofen, 2026. Disponível em: Resolução Cofen nº 801/2026.
  5. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Cofen publica resolução que consolida diretrizes para prescrição de medicamentos por enfermeiros. Brasília, DF: Cofen, 2026. Disponível em: Cofen – Resolução sobre prescrição de medicamentos.
  6. BRASIL. Ministério da Saúde. Segurança do paciente e segurança na utilização de medicamentos. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Segurança do paciente.
  7. BRASIL. Ministério da Saúde. Guia para a segurança do paciente em serviços de saúde: administração de medicamentos. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/seguranca-do-paciente.
  8. CLINICAL CALCULATIONS MADE EASY. Manual de matemática aplicada à enfermagem e farmacologia clínica. São Paulo: Editora Erica, 2023. Disponível em: https://www.bibliotecavirtual.br/ (Nota: consulte os protocolos internos da sua instituição de ensino ou hospital para diretrizes complementares).
  9. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 724/2023: Normas de atuação e segurança na administração de medicamentos pela equipe de enfermagem. Brasília, 2023. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/

Tipos de DIU: conheça as diferenças, duração, materiais, vantagens e cuidados de enfermagem

O Dispositivo Intrauterino (DIU) é um dos métodos contraceptivos mais eficazes e seguros disponíveis atualmente. Sua alta eficácia, longa duração, praticidade e reversibilidade fazem dele uma excelente opção para mulheres que desejam evitar a gravidez por vários anos, sem a necessidade de lembrar diariamente de tomar um medicamento.

Ao contrário do que muitas pessoas ainda acreditam, o DIU pode ser utilizado por mulheres que nunca engravidaram, adolescentes, mulheres no pós-parto e durante a amamentação, desde que não existam contraindicações e haja avaliação médica adequada.

Nos últimos anos, houve importantes atualizações em relação ao tempo de duração dos diferentes modelos, especialmente dos DIUs hormonais e do DIU de cobre, tornando esse método ainda mais vantajoso.

Hoje você conhecerá todos os tipos de DIU disponíveis, entenderá como eles funcionam, quais materiais os compõem, suas diferenças, vantagens, desvantagens e os principais cuidados de enfermagem.

O que é um DIU?

O DIU é um pequeno dispositivo flexível colocado dentro do útero por um profissional habilitado. Seu objetivo é impedir a gravidez por meio de diferentes mecanismos, dependendo do tipo de dispositivo.

Apesar do nome “dispositivo intrauterino”, ele não atua como um método abortivo. Sua ação ocorre antes da fecundação, principalmente dificultando a sobrevivência dos espermatozoides ou impedindo que eles alcancem o óvulo.

Após sua retirada, a fertilidade retorna rapidamente na maioria das mulheres.

Como surgiu o DIU?

Os primeiros modelos surgiram na primeira metade do século XX e eram bastante diferentes dos dispositivos atuais. Ao longo das décadas ocorreram diversas melhorias relacionadas ao formato, material, segurança e eficácia.

Hoje os DIUs modernos apresentam baixíssimos índices de complicações e estão entre os métodos contraceptivos reversíveis de longa duração (LARC – Long-Acting Reversible Contraceptives).

Quais são os principais tipos de DIU?

Atualmente existem dois grandes grupos:

  • DIU não hormonal (cobre)
  • DIU hormonal (levonorgestrel)

Dentro desses grupos existem diferentes modelos.

DIU de cobre

O DIU de cobre é o modelo mais utilizado em serviços públicos de saúde, incluindo o Sistema Único de Saúde (SUS).

Do que ele é feito?

Sua estrutura normalmente é composta por:

  • haste de polietileno (plástico flexível de grau médico);
  • sulfato de bário (permite visualização em exames radiológicos);
  • fio de cobre enrolado ao redor da haste vertical;
  • mangas ou fios laterais de cobre nos braços horizontais;
  • fio de polietileno para remoção.

O modelo mais conhecido é o TCu 380A.

Como funciona?

O cobre libera continuamente íons dentro da cavidade uterina.

Esses íons provocam uma reação inflamatória local controlada.

Essa reação:

  • reduz a mobilidade dos espermatozoides;
  • dificulta sua sobrevivência;
  • altera o ambiente uterino;
  • dificulta a fecundação.

Importante destacar que o DIU de cobre não interrompe uma gravidez já existente.

Quanto tempo dura?

As evidências científicas mais recentes demonstram que o TCu 380A pode permanecer por até 12 anos em muitas mulheres, embora alguns fabricantes mantenham registro para 10 anos. Diversas diretrizes internacionais aceitam seu uso por até 12 anos em situações específicas, principalmente quando inserido após os 25 anos de idade.

Na prática:

  • duração registrada pelo fabricante: 10 anos;
  • duração aceita por diversas diretrizes: até 12 anos, conforme avaliação clínica.

Vantagens

  • Não possui hormônios.
  • Pode ser utilizado durante a amamentação.
  • Possui excelente eficácia.
  • Baixo custo.
  • Pode permanecer muitos anos.
  • Retorno imediato da fertilidade após retirada.
  • Pode ser utilizado como contracepção de emergência quando inserido até cinco dias após relação sexual desprotegida.

Desvantagens

Pode aumentar:

  • intensidade do fluxo menstrual;
  • duração da menstruação;
  • cólicas menstruais.

Esses sintomas costumam melhorar após alguns meses.

DIU hormonal

O DIU hormonal libera continuamente um hormônio chamado levonorgestrel. Esse hormônio atua predominantemente dentro do útero.

Do que ele é feito?

Sua estrutura geralmente contém:

  • haste de polietileno;
  • reservatório contendo levonorgestrel;
  • membrana controladora da liberação hormonal;
  • sulfato de bário para visualização radiológica;
  • fio de remoção.

Como funciona?

O levonorgestrel promove:

  • espessamento do muco cervical;
  • redução do crescimento do endométrio;
  • diminuição da passagem dos espermatozoides;
  • redução importante das chances de fecundação.

Em algumas mulheres também pode ocorrer inibição da ovulação, embora esse não seja seu principal mecanismo.

Principais modelos de DIU hormonal

Mirena® (52 mg)

É o modelo mais conhecido.

Liberação hormonal

Inicialmente libera aproximadamente 20 microgramas de levonorgestrel por dia, reduzindo gradualmente ao longo dos anos.

Duração atualizada

As recomendações atuais ampliaram seu tempo de utilização para:

  • até 8 anos para contracepção.

Além da contracepção, pode ser indicado para:

  • sangramento uterino intenso;
  • proteção endometrial durante terapia hormonal;
  • adenomiose;
  • endometriose (em casos selecionados).

Liletta® (52 mg)

Possui quantidade semelhante de hormônio ao Mirena. Sua duração também foi ampliada para:

  • até 8 anos.

Kyleena® (19,5 mg)

Libera menor quantidade hormonal. Indicado principalmente para mulheres que desejam doses menores de hormônio.

Duração

Até 5 anos.

Skyla® / Jaydess® (13,5 mg)

Possui menor tamanho. Muito utilizado em mulheres jovens e nulíparas em alguns países.

Duração

Até 3 anos.

Em alguns mercados, esse modelo deixou de ser comercializado, mas ainda pode ser encontrado em determinados países.

Comparação entre os principais DIUs

Modelo Hormônio Material principal Duração
TCu 380A Não Polietileno + cobre 10 anos (até 12 anos em algumas diretrizes)
Mirena® Levonorgestrel 52 mg Polietileno + reservatório hormonal Até 8 anos
Liletta® Levonorgestrel 52 mg Polietileno + reservatório hormonal Até 8 anos
Kyleena® Levonorgestrel 19,5 mg Polietileno + reservatório hormonal Até 5 anos
Skyla® / Jaydess® Levonorgestrel 13,5 mg Polietileno + reservatório hormonal Até 3 anos

Qual é o mais eficaz?

Todos apresentam eficácia extremamente elevada, a taxa de falha anual fica abaixo de 1%. Na prática clínica, tanto o DIU de cobre quanto os hormonais apresentam eficácia superior a 99%.

Quem pode utilizar?

Grande parte das mulheres pode utilizar DIU.

Incluindo:

  • adolescentes;
  • mulheres que nunca engravidaram;
  • mulheres após parto;
  • mulheres após aborto;
  • mulheres em amamentação;
  • mulheres com contraindicação ao estrogênio.

A indicação deve sempre considerar a avaliação clínica individual e os Critérios de Elegibilidade Médica da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Quando o DIU não é indicado?

As principais contraindicações incluem:

  • gravidez confirmada;
  • infecção pélvica ativa;
  • doença inflamatória pélvica em atividade;
  • câncer de colo do útero não tratado;
  • sangramento uterino sem investigação;
  • malformações uterinas importantes;
  • alergia ao cobre (para DIU de cobre);
  • doença de Wilson (contraindicação ao DIU de cobre).

Para o DIU hormonal, também devem ser consideradas condições relacionadas ao uso de progestagênios, como câncer de mama em atividade.

Como é feita a inserção?

A inserção é realizada em consultório ou ambulatório. O procedimento costuma durar poucos minutos.

Geralmente envolve:

  • exame ginecológico;
  • avaliação do colo uterino;
  • antissepsia;
  • histerometria (medição da cavidade uterina);
  • inserção do dispositivo;
  • corte dos fios.

Após a colocação, recomenda-se acompanhamento conforme protocolo do serviço.

É normal sentir cólica depois da colocação?

Sim.

Nos primeiros dias podem ocorrer:

  • cólicas;
  • pequeno sangramento;
  • desconforto pélvico.

Esses sintomas costumam desaparecer espontaneamente.

O parceiro sente o DIU durante a relação?

O dispositivo permanece dentro do útero. Normalmente não é percebido durante a relação sexual. Em alguns casos, o parceiro pode sentir os fios de remoção, que podem ser ajustados pelo profissional.

O DIU pode sair sozinho?

Sim, embora seja incomum. Isso recebe o nome de expulsão.

O risco é maior:

  • nos primeiros meses;
  • durante a menstruação;
  • após o parto;
  • em mulheres muito jovens;
  • em casos de inserção logo após parto vaginal.

O DIU protege contra ISTs?

Não. Nenhum tipo de DIU protege contra:

  • HIV;
  • sífilis;
  • gonorreia;
  • clamídia;
  • HPV;
  • hepatites virais.

Por isso, o uso de preservativos continua sendo recomendado.

Enfermeiro pode inserir DIU?

Sim, o enfermeiro pode colocar DIU (Dispositivo Intrauterino). O procedimento é legal e autorizado no Brasil pela regulamentação do Conselho Federal de Enfermagem através da Resolução Cofen nº 802/2026 e atualizações posteriores, como a Resolução Cofen nº 802/2026, com respaldo em decisões da Justiça federal.

Regras e Requisitos

  • Capacitação específica: O profissional deve ter curso de capacitação e treinamento adequado para a inserção, revisão e retirada do dispositivo.
  • Consulta de enfermagem: O enfermeiro faz a avaliação clínica, solicita exames, verifica contraindicações e aplica o Termo de Consentimento.
  • Onde é realizado: O procedimento ocorre tanto na rede pública (Unidades Básicas de Saúde pelo SUS) quanto em clínicas privadas

Curiosidades

O DIU é um dos métodos contraceptivos reversíveis mais eficazes do mundo, com taxa de falha inferior a 1% ao ano. O DIU de cobre é o método contraceptivo de emergência mais eficaz quando inserido até cinco dias após uma relação sexual desprotegida.

O DIU hormonal pode reduzir significativamente o fluxo menstrual e muitas usuárias deixam de menstruar após alguns meses de uso, condição conhecida como amenorreia induzida pelo levonorgestrel, que não representa acúmulo de sangue no útero.

A fertilidade geralmente retorna rapidamente após a retirada do dispositivo, podendo ocorrer gravidez já no primeiro ciclo menstrual. Os fios do DIU permanecem discretamente exteriorizados pelo colo do útero para facilitar sua remoção, mas normalmente não interferem na vida sexual.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem exerce papel fundamental na orientação, inserção (quando legalmente habilitada e conforme legislação local), acompanhamento e identificação precoce de complicações relacionadas ao DIU. Entre os principais cuidados estão:

  • Realizar acolhimento e educação em saúde, esclarecendo dúvidas sobre os diferentes tipos de DIU e seu mecanismo de ação.
  • Avaliar histórico clínico, ginecológico e obstétrico, identificando possíveis contraindicações e encaminhando para avaliação médica quando necessário.
  • Orientar que o DIU não oferece proteção contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), reforçando o uso de preservativos.
  • Explicar que cólicas leves e pequenos sangramentos podem ocorrer após a inserção e tendem a diminuir com o tempo.
  • Orientar a paciente a procurar assistência caso apresente febre, dor pélvica intensa, corrimento com odor desagradável, sangramento intenso ou suspeita de expulsão do dispositivo.
  • Informar sobre a importância das consultas de acompanhamento, conforme protocolo institucional.
  • Ensinar a paciente sobre a possibilidade de verificar os fios do DIU após a menstruação, quando orientado pelo profissional responsável.
  • Registrar adequadamente todas as orientações prestadas, intercorrências e informações relacionadas ao procedimento.

O DIU representa uma das formas mais modernas, seguras e eficazes de contracepção reversível disponíveis atualmente. A escolha entre o DIU de cobre e os diferentes modelos hormonais deve ser individualizada, considerando as necessidades, preferências, condições clínicas e objetivos reprodutivos de cada mulher.

Para a enfermagem, compreender as características de cada tipo de DIU é essencial para oferecer orientações corretas, acolher dúvidas, identificar possíveis complicações e promover um planejamento reprodutivo seguro e baseado em evidências. Com as atualizações recentes sobre o tempo de duração de alguns modelos, esse método tornou-se ainda mais vantajoso para mulheres que buscam contracepção de longa duração com alta eficácia.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Atenção ao Planejamento Reprodutivo. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Anticoncepção: Manual Clínico. São Paulo: Febrasgo, 2023. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/
  3. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis e Planejamento Reprodutivo. Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use. 5. ed. Genebra: WHO, 2015. Atualizações disponíveis em: https://www.who.int
  6. AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS (ACOG). Long-Acting Reversible Contraception: Implants and Intrauterine Devices. Disponível em: https://www.acog.org
  7. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). U.S. Selected Practice Recommendations for Contraceptive Use. Disponível em: https://www.cdc.gov/contraception
  8. FACULDADE BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Manual de Anticoncepção. São Paulo: FEBRASGO. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br
  9. BAYER. Bula Profissional – Mirena® (Sistema Intrauterino Liberador de Levonorgestrel). Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br

Lesão por Dispositivo Médico: o que é, como identificar e quais são os cuidados de enfermagem

A assistência de enfermagem envolve o uso diário de inúmeros dispositivos médicos. Cateteres, sondas, máscaras de oxigênio, tubos, fixadores, talas, eletrodos, sensores e outros recursos são fundamentais para monitorar, tratar e manter a vida de muitos pacientes.

Mas existe um detalhe que não pode ser esquecido: um dispositivo criado para cuidar também pode causar uma lesão.

Quando determinado dispositivo permanece em contato com a pele ou com tecidos por tempo prolongado, especialmente quando exerce pressão, tração, fricção ou cisalhamento, pode provocar uma lesão relacionada a dispositivo médico. Essas lesões são particularmente importantes em pacientes críticos, idosos, pessoas com mobilidade reduzida e pacientes submetidos a terapias que exigem dispositivos continuamente.

As lesões por pressão relacionadas a dispositivos médicos são reconhecidas como um tipo específico de lesão por pressão. A diretriz internacional de 2025 define essas lesões como aquelas que ocorrem sob ou próximas a dispositivos utilizados para fins diagnósticos ou terapêuticos, como dispositivos de oxigenoterapia, tubos, talas, órteses e eletrodos.

Por isso, compreender esse problema é fundamental para quem trabalha ou estuda enfermagem.

O que é uma Lesão por Dispositivo Médico?

A Lesão por Dispositivo Médico (LDM) ocorre quando um dispositivo utilizado no cuidado do paciente provoca dano à pele ou aos tecidos subjacentes.

Na prática, imagine uma máscara de ventilação não invasiva que permanece pressionando continuamente a região do nariz. Se essa pressão não for adequadamente avaliada e aliviada, pode surgir inicialmente uma área avermelhada e dolorosa. Com a continuidade da pressão, a lesão pode evoluir para perda da integridade da pele e atingir tecidos mais profundos.

O mesmo princípio pode acontecer com uma sonda, um cateter, um tubo endotraqueal, uma tala, um colar cervical ou até mesmo um sensor de monitorização.

Portanto, o dispositivo não precisa estar “apertado demais” para causar uma lesão. Pressão contínua, fricção, cisalhamento, umidade, posicionamento inadequado e tempo prolongado de contato podem contribuir para o problema.

A literatura internacional considera as lesões relacionadas a dispositivos médicos uma preocupação relevante de segurança do paciente. Uma revisão sistemática publicada em 2023 encontrou estimativas de prevalência de aproximadamente 10% e incidência de 12% para esse tipo de lesão nos estudos analisados.

Por que o dispositivo médico pode machucar a pele?

Para entender a LDM, é interessante pensar em uma situação bastante simples. Imagine colocar um objeto sobre a pele e mantê-lo pressionado durante várias horas. Inicialmente, talvez não aconteça nada perceptível. Entretanto, se a pressão permanecer continuamente sobre a mesma região, a circulação local pode ser prejudicada.

A pressão pode comprimir pequenos vasos sanguíneos. Com isso, ocorre redução do fornecimento de oxigênio e nutrientes aos tecidos. Se essa situação persistir, o tecido pode sofrer hipóxia, isquemia e, posteriormente, necrose.

Quando acrescentamos outros fatores, como fricção, cisalhamento, umidade e fragilidade da pele, o risco aumenta ainda mais. É justamente por isso que um dispositivo corretamente instalado não significa necessariamente um dispositivo seguro durante todo o período de utilização.

O paciente muda de posição, apresenta edema, transpira, movimenta-se, perde ou ganha peso, desenvolve alterações circulatórias e pode apresentar mudanças na tolerância ao dispositivo. A enfermagem precisa acompanhar essas mudanças.

Quais dispositivos podem causar lesões?

Praticamente qualquer dispositivo que permaneça em contato prolongado com o organismo pode, dependendo das condições, contribuir para uma lesão. Entre os exemplos mais conhecidos estão:

Dispositivos respiratórios

São frequentemente envolvidos porque precisam permanecer posicionados durante longos períodos.

Podemos citar:

  • máscaras de ventilação não invasiva;
  • máscaras de oxigênio;
  • cateter nasal;
  • tubo endotraqueal;
  • fixadores de tubo;
  • cânulas e dispositivos de suporte respiratório.

Máscaras de CPAP e BiPAP, por exemplo, podem exercer pressão principalmente sobre a região nasal, malar e facial. O problema pode ser ainda maior quando o paciente necessita utilizar o dispositivo continuamente.

Sondas e cateteres

Sondas e cateteres também podem provocar lesões quando existe pressão, tração ou fixação inadequada. Entre eles estão:

  • Sonda nasogástrica e nasoenteral: podem provocar lesões nas narinas, no septo nasal e em regiões próximas ao local de fixação.
  • Cateter vesical: pode causar lesões por tração ou pressão, principalmente quando existe fixação inadequada ou movimentação excessiva.
  • Cateteres vasculares: podem contribuir para lesões relacionadas à pressão, fixação, dispositivos de estabilização ou curativos, especialmente quando permanecem sobre regiões vulneráveis.

Dispositivos utilizados para monitorização

Alguns equipamentos utilizados rotineiramente para monitorização também merecem atenção. Eletrodos, sensores de oximetria, manguitos de pressão arterial, cabos, sensores e outros dispositivos podem permanecer em contato com a pele durante horas. No caso do oxímetro, por exemplo, a atenção não deve estar apenas no funcionamento do aparelho. É necessário observar a pele e alternar o local quando isso for possível e seguro.

O mesmo raciocínio vale para eletrodos de monitorização cardíaca.

Talas, órteses e imobilizadores

Talas, órteses, colares cervicais, fixadores e outros dispositivos utilizados para imobilização também podem provocar pressão localizada. Nesses casos, a própria finalidade do dispositivo exige algum grau de contato ou contenção. Isso não significa que a lesão seja inevitável. A equipe precisa verificar se o dispositivo está corretamente ajustado, se existe pressão excessiva e se há áreas de contato particularmente vulneráveis.

Onde essas lesões aparecem com maior frequência?

A localização depende diretamente do dispositivo utilizado. Uma máscara facial, por exemplo, pode provocar lesões em regiões como nariz, dorso nasal, bochechas e áreas próximas à fixação. Um cateter nasal pode provocar alterações nas narinas e atrás das orelhas, dependendo do modelo e da forma de fixação. Uma sonda pode causar lesões nas regiões em que entra em contato com a pele ou permanece fixada.

Já uma tala ou órtese pode provocar lesões sobre proeminências ósseas. Portanto, uma regra muito útil para a enfermagem é:

onde existe contato contínuo entre dispositivo e pele, existe necessidade de avaliação.

Quem apresenta maior risco?

Embora qualquer paciente possa desenvolver uma lesão relacionada a dispositivo, alguns apresentam risco maior. Entre os principais fatores estão a idade avançada, imobilidade, alterações da perfusão, edema, desnutrição, alterações da sensibilidade, alteração do nível de consciência, incontinência, umidade excessiva e presença de doenças crônicas.

Pacientes críticos merecem atenção especial. Um paciente sedado, intubado, com edema, instabilidade hemodinâmica e múltiplos dispositivos pode não conseguir comunicar dor ou desconforto e pode permanecer por longos períodos na mesma posição.

Por isso, a avaliação da pele não pode depender exclusivamente da queixa do paciente. Estudos brasileiros realizados em unidades de terapia intensiva identificaram como medidas importantes de prevenção a atenção à fixação, reposicionamento frequente, proteção e acolchoamento das áreas de contato, escolha de materiais flexíveis quando disponíveis, cuidado para que dispositivos não permaneçam sob o paciente e remoção precoce quando clinicamente possível.

Como identificar uma Lesão por Dispositivo Médico?

A avaliação deve começar antes mesmo de aparecer uma ferida. Um dos primeiros sinais pode ser uma alteração na coloração da pele. Pode aparecer uma área avermelhada, arroxeada ou com outra alteração de coloração exatamente no local onde o dispositivo exerce pressão.

Também podem surgir:

  • dor;
  • ardência;
  • aumento da sensibilidade;
  • edema;
  • endurecimento;
  • alteração da temperatura local;
  • bolhas;
  • erosões;
  • perda da integridade da pele;
  • áreas de necrose.

É importante observar que a ausência de uma ferida aberta não significa ausência de lesão. Uma alteração persistente na pele já merece atenção.

A lesão pode surgir mesmo com a pele aparentemente normal?

Sim. Esse é um dos motivos pelos quais a avaliação frequente é tão importante. A lesão pode começar em tecidos mais profundos e apresentar sinais externos discretos. Além disso, pacientes com alterações de perfusão ou sensibilidade podem apresentar manifestações diferentes. Por isso, não se deve avaliar apenas a existência de uma “ferida”.

É necessário observar a pele antes, durante e depois da utilização do dispositivo.

Qual é a diferença entre lesão por pressão comum e lesão relacionada a dispositivo?

A principal diferença está no fator causador e na localização. Uma lesão por pressão tradicional geralmente está relacionada à pressão ou cisalhamento sobre uma região corporal, frequentemente uma proeminência óssea. Na lesão relacionada a dispositivo médico, o dano está relacionado ao contato com um dispositivo utilizado para assistência diagnóstica ou terapêutica.

Por exemplo:

  • Pressão prolongada do corpo contra o colchão na região sacral: lesão por pressão convencional.
  • Pressão prolongada de uma máscara de ventilação sobre o dorso do nariz: lesão por pressão relacionada a dispositivo médico.

As duas situações possuem mecanismos semelhantes, mas a segunda está diretamente relacionada ao dispositivo.

O tempo de permanência influencia?

Sim, mas não existe um único número de horas que determine quando uma lesão obrigatoriamente aparecerá. Isso é importante porque às vezes existe a ideia de que “se o dispositivo ficar menos de determinado tempo, não haverá risco”. Não é tão simples. A intensidade da pressão, o formato do dispositivo, o material utilizado, o estado da pele, a perfusão, a umidade, a mobilidade do paciente e outros fatores influenciam o risco.

Um paciente vulnerável pode desenvolver dano em um período relativamente curto. Por isso, a prevenção não deve ser baseada apenas em relógio, mas principalmente em avaliação clínica contínua.

A importância da fixação correta

Fixar um dispositivo não significa simplesmente deixá-lo “bem preso”. A fixação precisa ser suficientemente segura para evitar deslocamentos, mas não deve gerar compressão desnecessária. Uma fixação excessivamente apertada pode aumentar a pressão sobre a pele.

Por outro lado, uma fixação frouxa pode provocar movimentação repetitiva, fricção e tração. A enfermagem precisa encontrar um equilíbrio entre segurança do dispositivo e proteção dos tecidos. Esse cuidado é particularmente importante com tubos, sondas, cateteres e dispositivos respiratórios.

O acolchoamento pode ajudar?

Sim, quando indicado e realizado corretamente. Materiais apropriados podem ajudar a distribuir a pressão e proteger áreas vulneráveis. Entretanto, colocar qualquer tipo de gaze, espuma ou material improvisado entre o dispositivo e a pele não é necessariamente uma boa prática. O material utilizado deve ser compatível com o dispositivo e com a finalidade da proteção.

Além disso, o acolchoamento não deve criar novos pontos de pressão. A revisão sistemática sobre prevenção de lesões relacionadas a dispositivos identificou intervenções como curativos, materiais de proteção, dispositivos específicos de fixação, reposicionamento, educação da equipe e remoção precoce quando possível.

Cuidados de enfermagem para prevenir a Lesão por Dispositivo Médico

A prevenção começa na avaliação do paciente: Antes de instalar um dispositivo, sempre que possível, observe a condição da pele no local onde ele ficará. Depois da instalação, verifique se existe pressão excessiva, dobras, tração ou posicionamento inadequado.

Durante a assistência, a equipe deve realizar avaliações periódicas e documentar alterações relevantes. Outro cuidado fundamental é evitar que tubos, cabos ou dispositivos permaneçam pressionados sob o corpo do paciente. Essa situação pode ser facilmente esquecida durante mudanças de decúbito.

O estudo realizado com profissionais de enfermagem em UTI destacou justamente a importância de verificar se dispositivos não permanecem sob o paciente e de realizar reposicionamento frequente.

A enfermagem deve retirar o dispositivo para avaliar a pele?

Nem sempre. Esse é um ponto muito importante. Alguns dispositivos são essenciais para manter a vida ou garantir um tratamento seguro. Retirá-los sem avaliação médica ou sem indicação pode trazer riscos. A pergunta correta não é simplesmente “posso retirar?”.

É:

“Esse dispositivo ainda é necessário? Existe uma alternativa segura? É possível reposicioná-lo? Posso aliviar a pressão sem comprometer sua função?”

Quando clinicamente possível, a remoção precoce de dispositivos desnecessários é uma das estratégias preventivas destacadas na literatura.

O que fazer quando a lesão já apareceu?

Primeiramente, a equipe deve reconhecer e registrar a alteração. É importante avaliar localização, tamanho, aspecto da pele, presença de dor, exsudato, edema e outros sinais relevantes. Em seguida, deve-se investigar o dispositivo responsável e verificar se ele continua sendo necessário. Quando for possível e seguro, deve-se aliviar ou eliminar a fonte de pressão.

A conduta específica para tratamento dependerá do tipo e da gravidade da lesão, das condições clínicas do paciente e do protocolo institucional. Lesões mais profundas, áreas de necrose, sinais de infecção ou evolução rápida exigem avaliação especializada.

O papel da documentação de enfermagem

A documentação é parte importante da segurança do paciente. Ao identificar uma alteração relacionada a um dispositivo, o profissional deve registrar adequadamente o achado conforme as normas institucionais. É importante documentar, por exemplo, a localização, características da pele, dispositivo envolvido, medidas adotadas e evolução.

Isso permite acompanhar a resposta às intervenções e melhora a comunicação entre os profissionais. Além disso, a documentação ajuda a identificar padrões. Se uma determinada unidade começa a apresentar repetidamente lesões associadas ao mesmo dispositivo, isso pode indicar necessidade de revisão da técnica, do material, da fixação ou do protocolo.

Um exemplo prático para entender

Imagine um paciente internado na UTI utilizando ventilação não invasiva. A máscara precisa permanecer posicionada corretamente para que a terapia funcione. Após algumas horas, a enfermeira observa uma área avermelhada no dorso do nariz.

O erro seria pensar:

“É só uma vermelhidão, depois passa.” O correto é investigar.

  • A máscara está apertada demais?
  • Existe necessidade de ajustar a fixação?
  • O tamanho da máscara é adequado?
  • Existe algum ponto de pressão concentrada?
  • É possível utilizar uma proteção apropriada?
  • A terapia pode ser interrompida ou o dispositivo pode ser alternado com segurança?
  • A pele precisa ser reavaliada posteriormente?

Esse exemplo demonstra uma característica essencial da enfermagem: não esperar a ferida aparecer para começar a prevenção.

Lesão por dispositivo médico em pacientes críticos

O ambiente de terapia intensiva reúne muitos dos fatores que favorecem esse tipo de lesão. O paciente pode estar sedado, imobilizado, edemaciado, hemodinamicamente instável e conectado simultaneamente a diversos dispositivos. Além disso, alguns dispositivos precisam permanecer instalados continuamente.

Por isso, a prevenção precisa fazer parte da rotina da assistência. A equipe deve olhar para o paciente como um todo, e não apenas para cada equipamento individualmente.

Um tubo pode estar perfeitamente instalado, uma sonda pode estar corretamente fixada e um eletrodo pode estar funcionando adequadamente. Ainda assim, quando todos esses elementos são analisados em conjunto, pode existir uma grande quantidade de pontos de pressão sobre a pele.

A importância da avaliação durante o banho e a mudança de decúbito

O banho é uma excelente oportunidade para avaliação da pele. Quando o dispositivo puder ser temporariamente removido, reposicionado ou afastado com segurança, a equipe pode aproveitar esse momento para observar áreas que normalmente ficam escondidas. Durante a mudança de decúbito, também é importante verificar se cabos, tubos, sondas ou outros dispositivos ficaram presos ou posicionados sob o corpo.

Uma simples inspeção durante esses momentos pode evitar que uma pequena alteração evolua para uma lesão significativa.

Higiene da pele e controle da umidade

A pele excessivamente úmida pode ficar mais vulnerável ao dano. Suor, secreções, saliva, urina, fezes e outros líquidos podem permanecer em contato com a pele, principalmente em regiões cobertas por dispositivos. Por isso, a higiene adequada e o controle da umidade fazem parte da prevenção.

Quando houver indicação, produtos de proteção da barreira cutânea podem ser utilizados de acordo com o protocolo da instituição e as características do paciente. Entretanto, é importante evitar aplicar produtos de maneira indiscriminada sobre dispositivos, adesivos ou áreas nas quais possam prejudicar a fixação.

Cuidados de enfermagem: um resumo prático

Uma forma simples de lembrar a prevenção é pensar em cinco perguntas:

  • O dispositivo ainda é necessário?
  • Está bem posicionado?
  • Está exercendo pressão excessiva?
  • A pele abaixo ou ao redor está preservada?
  • É possível reposicionar, proteger ou substituir o dispositivo com segurança?

Essas perguntas podem transformar uma avaliação aparentemente simples em uma estratégia efetiva de prevenção.

O papel da educação da equipe

A prevenção da lesão relacionada a dispositivo médico não deve depender apenas de um profissional. Enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e demais profissionais envolvidos no cuidado precisam reconhecer os riscos.

A educação permanente é especialmente importante porque novos dispositivos e novas tecnologias são incorporados continuamente à assistência. Uma revisão sistemática identificou a educação da equipe, padronização da documentação, auditoria e desenvolvimento de protocolos entre as estratégias utilizadas para melhorar a prevenção.

Lesão por dispositivo médico também é uma questão de segurança do paciente

A prevenção dessas lesões está diretamente relacionada à qualidade da assistência. No Brasil, a Anvisa mantém orientações específicas relacionadas à prevenção de lesões por pressão e à segurança do paciente. A Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023 atualizou orientações sobre práticas de segurança para prevenção de lesão por pressão.

O Ministério da Saúde também mantém o protocolo nacional de prevenção de úlcera/lesão por pressão, cujo objetivo é promover medidas para evitar essas lesões e outros danos à pele. Portanto, prevenir uma lesão causada por um dispositivo não é apenas um cuidado dermatológico. É uma prática de segurança do paciente. A Lesão por Dispositivo Médico é um problema que pode passar despercebido porque o dispositivo está sendo utilizado justamente para tratar, monitorar ou proteger o paciente.

É importante lembrar que um dispositivo necessário não é automaticamente um dispositivo inofensivo. A enfermagem tem papel fundamental na prevenção porque permanece próxima do paciente e consegue identificar alterações precocemente.

Avaliar a pele, conferir a fixação, observar pontos de pressão, reposicionar quando possível, proteger áreas vulneráveis, controlar umidade, evitar tração e retirar dispositivos desnecessários são atitudes que podem fazer uma grande diferença.

Mais do que saber instalar um dispositivo, o profissional precisa aprender a olhar para o que acontece com a pele enquanto esse dispositivo permanece instalado.

Esse olhar preventivo é uma das características de uma assistência de enfermagem segura e de qualidade.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Documento de referência para o programa nacional de segurança do paciente. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. SOBRACEN. Diretrizes sobre prevenção e tratamento de lesões de pele. São Paulo: Sobracen, 2023. Disponível em: https://sobracen.com.br/
  4. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023: práticas de segurança do paciente em serviços de saúde: prevenção de lesão por pressão. Brasília, DF: Anvisa, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/notas-tecnicas/notas-tecnicas-vigentes/nota-tecnica-gvims-ggtes-anvisa-no-05-2023-praticas-de-seguranca-do-paciente-em-servicos-de-saude-prevencao-de-lesao-por-pressao/view

  5. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Prevenção de úlcera por pressão. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/seguranca-do-paciente/publicacoes/protocolos-de-seguranca-do-paciente/protocolo-ulcera-por-pressao.pdf/view

  6. GALETTO, S. G. da S. et al. Prevenção de lesões por pressão relacionadas a dispositivos médicos em pacientes críticos: cuidados de enfermagem. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 74, n. 2, e20200062, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/7Nvg3kfsfyNMqkMzvH8rh4D/?lang=pt

  7. LYU, C. et al. Interventions and strategies to prevent medical device-related pressure injury in adult patients: a systematic review. Journal of Clinical Nursing, v. 32, p. 6863-6878, 2023. DOI: 10.1111/jocn.16790. Disponível em: PubMed – Medical device-related pressure injury prevention

  8. NATIONAL PRESSURE INJURY ADVISORY PANEL; EUROPEAN PRESSURE ULCER ADVISORY PANEL; PAN PACIFIC PRESSURE INJURY ALLIANCE. Device-Related Pressure Injuries. In: HAESLER, E. (ed.). Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Clinical Practice Guideline. 4. ed. 2025. Disponível em: International Guideline – Device-Related Pressure Injuries

  9. SANTOS, C. N. S. et al. Lesão por pressão relacionada a dispositivos médicos: prevenção e fatores de risco associados. Nursing Edição Brasileira, v. 24, n. 282, p. 6480-6486, 2021. DOI: 10.36489/nursing.2021v24i282p6480-6486. Disponível em: Nursing Edição Brasileira – Lesão por pressão relacionada a dispositivos médicos

  10. GEFEN, A. et al. An international consensus on device-related pressure ulcers: SECURE prevention. British Journal of Nursing, v. 29, n. 5, p. S36-S38, 2020. DOI: 10.12968/bjon.2020.29.5.S36. Disponível em: PubMed – SECURE prevention

O que é Termo de Consentimento Informado do Paciente?

Vá direto ao ponto!

O Termo de Consentimento Informado do Paciente é um documento que representa muito mais do que uma simples assinatura antes de um procedimento. Ele está relacionado diretamente ao direito do paciente de receber informações, compreender sua situação e participar das decisões sobre o próprio cuidado.

Na prática, o consentimento informado materializa um dos princípios mais importantes da assistência em saúde: a autonomia do paciente.

Para quem está começando na Enfermagem, é comum surgir a dúvida: “Se o paciente assinou o termo, significa que o profissional está protegido de qualquer responsabilidade?” A resposta é não.

A assinatura, sozinha, não transforma um procedimento inadequado em procedimento correto, não autoriza negligência ou imprudência e não substitui uma comunicação adequada com o paciente.

O consentimento é, antes de tudo, um processo de informação e decisão, e o documento serve como registro desse processo.

No Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, o Cofen determina que o profissional respeite a autonomia da pessoa na tomada de decisão livre e esclarecida sobre sua saúde, segurança, tratamento, conforto e bem-estar. O mesmo Código estabelece a necessidade de consentimento prévio para a prática profissional, ressalvadas situações previstas na própria norma, como incapacidade decisória sem representante ou responsável legal e outras situações legalmente estabelecidas.

O que é o Termo de Consentimento Informado?

O Termo de Consentimento Informado, também encontrado como Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) ou simplesmente consentimento informado, é um instrumento utilizado para registrar que o paciente recebeu informações adequadas sobre determinado procedimento, tratamento ou intervenção e teve oportunidade de decidir de maneira livre e esclarecida.

É importante diferenciar duas coisas:

Consentimento informado é o processo.

Termo de consentimento é o documento que registra esse processo.

Essa diferença é fundamental. Imagine que um paciente receba um formulário de várias páginas e simplesmente escute:

“Assine aqui.”

Ele pode ter assinado o documento, mas isso não significa necessariamente que tenha ocorrido um consentimento verdadeiramente informado.

Para que exista consentimento válido, o paciente precisa ter recebido informações compreensíveis e ter tido oportunidade de fazer perguntas e tomar sua decisão sem coerção.

A Recomendação CFM nº 1/2016, por exemplo, estabelece que a informação deve ser correta, suficiente, adequada e capaz de esclarecer as dúvidas do paciente, utilizando linguagem acessível e sem induzi-lo ao erro sobre natureza, características, riscos, consequências ou outros aspectos do procedimento.

Por que o consentimento informado é tão importante?

Imagine que uma pessoa precise realizar uma cirurgia.

Ela pode pensar que o procedimento é simples, mas desconhecer:

  • qual é exatamente o procedimento;
  • por que ele é necessário;
  • quais benefícios são esperados;
  • quais riscos podem ocorrer;
  • quais alternativas existem;
  • o que pode acontecer se não realizar o procedimento;
  • como será o período de recuperação.

Sem essas informações, a pessoa não consegue participar verdadeiramente da decisão. O consentimento informado procura justamente evitar que o paciente seja tratado como alguém que simplesmente “recebe ordens”. Ele reconhece que o paciente é sujeito ativo do próprio cuidado.

Isso está diretamente relacionado aos princípios de autonomia, dignidade, liberdade e respeito aos direitos humanos. O próprio Código de Ética da Enfermagem afirma que o profissional deve atuar respeitando a autonomia da pessoa e sua participação em decisões relacionadas à própria saúde.

Consentimento informado não é apenas uma burocracia

Um dos maiores erros é enxergar o termo apenas como um documento necessário para “liberar” uma cirurgia, exame ou procedimento. Na realidade, ele faz parte de uma relação de comunicação entre profissional e paciente. O documento deve ser consequência de uma conversa adequada. Por exemplo, imagine um paciente que receberá determinado procedimento invasivo.

Não basta entregar o papel. É necessário que ele tenha condições de compreender:

  • O que será feito?
  • Por que será feito?
  • Quais benefícios podem ser esperados?
  • Quais riscos existem?
  • Existem alternativas?
  • O que pode acontecer se ele não fizer?
  • Como será o cuidado depois?

Quando necessário, também devem ser explicados desconfortos, limitações, possibilidade de complicações e outras informações relevantes. A Recomendação CFM nº 1/2016 apresenta justamente elementos que devem compor o consentimento, incluindo justificativa, objetivos, descrição do procedimento, duração, possíveis desconfortos, benefícios, riscos, alternativas, consequências da não realização e cuidados posteriores.

Consentimento informado e autonomia do paciente

A autonomia significa, de maneira simplificada, o direito que uma pessoa capaz possui de participar das decisões sobre sua própria vida e saúde. Isso significa que o paciente não é obrigado a aceitar determinado tratamento simplesmente porque o profissional acredita que aquela seja a melhor opção.

Depois de receber informações adequadas, o paciente pode:

  • aceitar o procedimento;
  • recusar o procedimento;
  • fazer perguntas;
  • pedir esclarecimentos;
  • solicitar tempo para pensar, quando a situação permitir;
  • buscar uma segunda opinião.

O profissional deve respeitar a decisão dentro dos limites éticos e legais aplicáveis. Isso é particularmente importante porque uma decisão diferente daquela desejada pela equipe não significa necessariamente que o paciente “não sabe o que está fazendo”. A autonomia pressupõe justamente que pessoas capazes possam tomar decisões diferentes das que o profissional tomaria.

O paciente pode mudar de ideia depois de assinar?

Sim. Esse é um ponto muito importante. A assinatura do termo não significa que o paciente tenha perdido o direito de mudar sua decisão. O consentimento deve permanecer livre e voluntário.

Se, antes do procedimento, o paciente disser:

“Eu não quero mais fazer.” a equipe não deve simplesmente responder:

“Mas você já assinou.”

É necessário avaliar a situação, compreender o motivo da mudança, comunicar a equipe responsável e registrar adequadamente a decisão. A assinatura não transforma o consentimento em uma obrigação irrevogável.

O que deve constar em um Termo de Consentimento?

O conteúdo pode variar conforme o procedimento, instituição e legislação aplicável. Entretanto, de maneira geral, um termo adequado deve apresentar informações suficientes para que o paciente compreenda aquilo que está autorizando. Entre os elementos importantes estão:

Identificação

Deve haver identificação adequada do paciente e, quando aplicável, de seu representante legal. Também podem constar os profissionais envolvidos e informações de contato, conforme o modelo utilizado.

Descrição do procedimento

O paciente precisa saber o que será realizado. Evitar termos excessivamente técnicos é essencial. Em vez de simplesmente escrever:

“Realização de procedimento invasivo sob sedação.” é importante explicar, de forma compreensível, o que efetivamente acontecerá.

Finalidade

Deve ficar claro por que o procedimento está sendo proposto.

Benefícios esperados

O paciente deve saber quais resultados são esperados. É importante evitar promessas de resultados garantidos quando eles não podem ser assegurados.

Riscos e possíveis complicações

Os riscos relevantes devem ser apresentados de maneira compreensível. Não é necessário assustar o paciente, mas também não se deve esconder informações importantes.

Alternativas

Quando existirem alternativas razoáveis, elas devem ser apresentadas conforme a situação clínica.

Consequências da recusa

O paciente também precisa compreender o que pode acontecer caso decida não realizar o procedimento.

Cuidados posteriores

Quando aplicável, o documento deve informar cuidados necessários após o procedimento. A Recomendação CFM nº 1/2016 inclui esses elementos entre aqueles que devem constar no consentimento livre e esclarecido.

Linguagem simples é fundamental

Um termo de consentimento não deve ser escrito como se tivesse sido produzido exclusivamente para profissionais de saúde. Imagine entregar a um paciente:

“Consentimento para realização de procedimento com possibilidade de intercorrências hemodinâmicas, eventos tromboembólicos e complicações inerentes à abordagem invasiva.”

Para um profissional de saúde, a frase pode parecer relativamente compreensível, para muitos pacientes, não. Por isso, o ideal é explicar os termos técnicos.

Por exemplo:

  • Trombose: formação de um coágulo dentro de um vaso sanguíneo.
  • Hemorragia: sangramento que pode ser significativo dependendo da situação.
  • Sedação: uso de medicamentos para reduzir ansiedade, desconforto ou nível de consciência durante determinado procedimento.

A informação precisa ser adequada ao nível de compreensão do paciente.

Quem deve explicar o procedimento?

Essa é uma questão que merece bastante atenção. O profissional responsável pela realização ou indicação do procedimento deve cumprir as responsabilidades que lhe cabem na obtenção do consentimento, conforme o tipo de intervenção e as normas institucionais e profissionais.

A enfermagem também possui responsabilidades importantes. O profissional de Enfermagem deve garantir que sua atuação respeite a autonomia e o consentimento do paciente. O Código de Ética estabelece que a prática profissional deve ocorrer mediante consentimento prévio do paciente, representante ou responsável legal, ou decisão judicial, ressalvadas as situações previstas na própria norma.

Isso não significa, entretanto, que o técnico de enfermagem deva assumir a responsabilidade de explicar aspectos médicos de um procedimento para os quais não possui competência.

E se o paciente disser que não entendeu?

Esse é um momento em que a equipe precisa parar e esclarecer. Nunca é adequado pensar:

“Ele já assinou.”

Se o paciente demonstra dúvida, o consentimento precisa ser revisto e as informações novamente explicadas pelo profissional competente.

Um paciente que pergunta:

-“Mas existe risco de eu morrer?”; não deve receber simplesmente dizer:

– “Está tudo explicado no papel.”

Essa pergunta demonstra que existe uma preocupação que precisa ser acolhida e esclarecida.

Consentimento e capacidade de decisão

Nem toda pessoa possui capacidade para tomar decisões de saúde de forma autônoma em todas as situações. É necessário avaliar a capacidade de compreensão e decisão de acordo com o contexto.

Uma pessoa pode estar consciente e conversar normalmente, mas ainda assim apresentar alterações que comprometam sua capacidade de compreender determinada decisão. Por isso, estar acordado não é sinônimo de estar automaticamente apto a consentir sobre qualquer procedimento.

Quando o paciente não possui capacidade para decidir, a situação deve ser conduzida conforme a legislação, as normas profissionais e os protocolos institucionais, incluindo a participação de representante ou responsável legal quando aplicável.

Crianças e adolescentes

A situação envolvendo crianças e adolescentes exige atenção especial. Em determinadas circunstâncias, o consentimento é obtido do responsável legal, enquanto a criança ou adolescente pode participar do processo de decisão de acordo com sua capacidade de compreensão.

No contexto de pesquisa com seres humanos, por exemplo, a legislação brasileira diferencia consentimento do responsável e assentimento do participante menor ou legalmente incapaz, considerando sua capacidade de compreensão. A Lei nº 14.874/2024 estabelece regras específicas para pesquisas envolvendo seres humanos.

É importante não confundir automaticamente as regras de pesquisa científica com as regras aplicáveis à assistência clínica cotidiana: cada situação possui normas próprias.

E quando o paciente está inconsciente?

Em uma situação de emergência, o atendimento não pode simplesmente ser interrompido porque não foi possível obter uma assinatura. Existem situações em que o paciente está incapaz de manifestar sua vontade e não há representante disponível, enquanto a intervenção é necessária para preservar sua vida ou evitar dano grave.

Nessas circunstâncias, aplicam-se as exceções previstas na legislação, normas profissionais e protocolos institucionais. O próprio Código de Ética da Enfermagem prevê ressalvas ao consentimento prévio nos casos em que não haja capacidade de decisão e esteja ausente representante ou responsável legal, entre outras situações previstas.

Isso é diferente de simplesmente realizar um procedimento eletivo sem consentimento.

O consentimento informado protege o profissional?

Sim, o documento pode possuir importante valor documental, ético e jurídico. Mas existe uma diferença enorme entre documentar o consentimento e usar o termo como uma espécie de “blindagem” profissional. Imagine que um profissional cometa uma falha técnica durante um procedimento e depois tente justificar:

“Mas o paciente assinou o termo.” Isso não elimina automaticamente a responsabilidade pelo erro.

O consentimento significa que o paciente autorizou determinado procedimento depois de receber informações adequadas. Ele não autoriza o profissional a agir com negligência, imprudência ou imperícia.

O Código de Ética da Enfermagem estabelece responsabilidade profissional por faltas cometidas no exercício das atividades quando caracterizadas as condições previstas no próprio Código.

Portanto:

  • Consentimento não significa autorização para causar dano.
  • O termo também protege o paciente

Essa talvez seja uma das funções mais importantes do documento. O termo não deve ser encarado somente como proteção para o hospital ou para o profissional. Ele também protege o paciente porque documenta que determinadas informações deveriam ter sido apresentadas e que houve participação na decisão. Mais importante ainda: o próprio processo de consentimento ajuda o paciente a compreender melhor aquilo que acontecerá.

Consentimento informado e sigilo

O consentimento também se relaciona com privacidade e confidencialidade. Informações relacionadas à saúde do paciente são dados sensíveis e devem ser protegidas. O Código de Ética da Enfermagem determina o dever de manter sigilo sobre fatos conhecidos em razão da atividade profissional, ressalvadas as situações previstas em lei ou nas normas éticas.

Por isso, documentos de consentimento, prontuários e informações clínicas devem ser manejados de acordo com as normas de segurança e confidencialidade da instituição e da legislação aplicável.

Qual é o papel da Enfermagem?

A enfermagem está muito próxima do paciente durante todo o processo assistencial. Por isso, frequentemente é o profissional de enfermagem quem percebe primeiro que o paciente:

  • não entendeu o procedimento;
  • está inseguro;
  • apresenta dúvidas;
  • mudou de opinião;
  • está com medo;
  • não compreendeu os riscos;
  • acredita que está assinando outra coisa.

Nessas situações, a equipe de enfermagem deve acolher o paciente e comunicar o profissional responsável, evitando ultrapassar seus limites de competência. O Código de Ética também estabelece que o profissional de Enfermagem deve atuar de maneira autônoma e respeitar os direitos humanos, incluindo liberdade, dignidade, segurança pessoal e livre escolha.

Cuidados de enfermagem relacionados ao consentimento informado

Antes de um procedimento, a enfermagem pode contribuir para que o processo seja mais seguro verificando se o paciente está adequadamente identificado e se a documentação necessária está disponível, de acordo com o protocolo institucional. Também é importante observar se existe alguma situação que possa comprometer a compreensão ou a segurança do paciente.

Por exemplo, um paciente muito sedado, confuso ou com alteração importante do nível de consciência não deve ser tratado da mesma maneira que um paciente plenamente orientado.

Outro cuidado importante é não induzir a resposta do paciente.

Perguntar:

-“Você vai assinar, não é?”; é diferente de perguntar:

-“Você entendeu o procedimento e gostaria que eu chamasse o profissional responsável para esclarecer alguma dúvida?”

A segunda abordagem respeita muito mais a autonomia.

O que a enfermagem deve fazer se o paciente se recusar?

A recusa deve ser tratada com seriedade. O profissional não deve ameaçar, constranger ou ridicularizar o paciente. Uma abordagem adequada é compreender o motivo:

-“Você poderia me explicar o que está deixando você inseguro?”

Talvez o paciente tenha medo da dor. Talvez não tenha entendido o procedimento, talvez tenha recebido uma informação diferente de outro profissional ou talvez simplesmente não queira realizar o procedimento. Depois disso, a situação deve ser comunicada à equipe responsável e documentada conforme os protocolos institucionais.

O direito à autonomia não desaparece simplesmente porque a decisão do paciente é diferente daquela desejada pela equipe.

Termo de consentimento e prontuário

O termo normalmente integra a documentação assistencial e deve ser arquivado conforme as regras da instituição. A documentação precisa permitir identificar:

  • quem consentiu;
  • para qual procedimento;
  • quando;
  • em quais condições;
  • quem prestou as informações;
  • e quais documentos foram utilizados.

A Recomendação CFM nº 1/2016, por exemplo, prevê a existência de vias do termo, com uma destinada ao paciente e outra para arquivamento no prontuário médico. Os detalhes podem variar conforme o procedimento, instituição e regulamentação aplicável.

Consentimento informado não é o mesmo que autorização genérica

Essa diferença é muito importante. Um documento dizendo:

“Autorizo todos os procedimentos necessários.” é muito mais genérico do que um consentimento específico e esclarecido para determinada intervenção.

O paciente precisa saber o que está autorizando. Quanto mais relevante, invasivo ou complexo for o procedimento, maior é a importância de uma comunicação adequada e específica.

Consentimento para procedimentos de enfermagem

A relação entre consentimento e enfermagem não se limita a cirurgias. A assistência de enfermagem também envolve procedimentos que podem exigir consentimento conforme sua natureza, riscos, normas profissionais e protocolos institucionais.

Exemplos podem incluir determinados procedimentos invasivos, coleta de materiais, inserção de dispositivos, administração de determinados tratamentos ou participação em procedimentos específicos. O profissional precisa conhecer as normas institucionais e profissionais relacionadas à sua atividade.

O princípio geral permanece:

“o paciente não deve ser submetido a uma intervenção contra sua vontade, salvo as situações excepcionais previstas em lei e nas normas aplicáveis.”

Termo de consentimento e pesquisa científica

É importante fazer uma distinção. O consentimento para assistência à saúde não é exatamente a mesma coisa que o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido utilizado em pesquisas com seres humanos. A pesquisa possui regras próprias.

A Lei nº 14.874/2024 dispõe sobre pesquisas com seres humanos e institui o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, estabelecendo princípios e regras específicas para essa atividade.

Em pesquisas, o consentimento precisa abordar aspectos específicos relacionados à participação do indivíduo, riscos, benefícios, voluntariedade, proteção e demais exigências previstas nas normas aplicáveis.

Um exemplo prático para o estudante de enfermagem

Imagine que um paciente esteja internado e será submetido a um procedimento. Antes de encaminhá-lo, o técnico de enfermagem percebe que ele pergunta:

-“Mas o que exatamente vão fazer comigo?” Esse momento é um sinal de alerta.

A resposta não deve ser:

-“Está tudo no termo que você assinou.”

O profissional pode acolher a dúvida e verificar se o paciente recebeu as informações necessárias, acionando o enfermeiro e/ou profissional responsável pelo procedimento para esclarecimento. Isso é segurança do paciente.

O objetivo não é simplesmente conferir se existe uma assinatura no papel e sim verificar se o processo de cuidado está acontecendo de forma segura, ética e respeitosa.

Principais erros relacionados ao consentimento informado

Um dos erros mais comuns é transformar o termo em uma mera formalidade administrativa. Outro erro é entregar o documento sem explicar seu conteúdo. Também é inadequado utilizar linguagem excessivamente técnica, omitir riscos relevantes, pressionar o paciente para assinar ou tratar a assinatura como autorização para qualquer procedimento futuro.

Outro problema é não registrar adequadamente situações em que o paciente demonstra dúvida, recusa ou mudança de decisão. A enfermagem deve estar atenta a esses sinais.

O que o estudante de enfermagem precisa memorizar?

Se você estiver estudando para uma prova ou começando a trabalhar, pense em cinco palavras:

Informação.

O paciente precisa receber informações adequadas.

Compreensão.

Não basta entregar o documento; é necessário que a informação seja compreensível.

Liberdade.

A decisão não deve ser obtida por ameaça ou coerção.

Autonomia.

O paciente participa da decisão sobre seu próprio cuidado.

Registro.

O processo deve ser documentado adequadamente. Esses cinco pontos ajudam a entender a essência do consentimento informado.

Consentimento informado: não é apenas uma assinatura

O Termo de Consentimento Informado representa uma mudança importante na relação entre profissional e paciente. Durante muito tempo, o modelo de assistência foi fortemente baseado na ideia de que o profissional decidiria e o paciente simplesmente seguiria as orientações. Hoje, a assistência ética valoriza cada vez mais a autonomia, a informação e a participação do paciente.

Para a Enfermagem, isso significa compreender que cuidar não é apenas executar procedimentos. Cuidar também é informar, ouvir, respeitar, orientar, proteger e reconhecer o direito do paciente de participar das decisões sobre sua própria saúde. O Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem é bastante claro ao estabelecer o respeito à autonomia da pessoa e ao consentimento prévio para a prática profissional, dentro das situações e exceções previstas.

Portanto, quando você encontrar um Termo de Consentimento Informado no ambiente hospitalar, não pense apenas:

“Preciso conferir se está assinado.”

Pense:

“O paciente sabe o que está acontecendo? Entendeu? Teve oportunidade de perguntar? Está decidindo livremente? E sua decisão está sendo respeitada?” Essa é a essência do consentimento informado.

Referências:

  1. BRASIL. Lei nº 14.874, de 28 de maio de 2024. Dispõe sobre a pesquisa com seres humanos e institui o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos. Brasília, DF: Presidência da República, 2024. Lei nº 14.874/2024 – Planalto
  2.  

    CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 564/2017. Aprova o novo Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2017. Resolução Cofen nº 564/2017

  3. CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Recomendação CFM nº 1/2016. Dispõe sobre o processo de obtenção de consentimento livre e esclarecido para assistência médica. Brasília, DF: CFM, 2016. Recomendação CFM nº 1/2016
  4. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 556/2017, alterada pelas Resoluções Cofen nº 700/2022 e nº 757/2024. Regulamenta a atividade do enfermeiro forense e apresenta modelo de Termo de Consentimento Informado no âmbito de suas disposições. Brasília, DF: Cofen. Resolução Cofen nº 556/2017 e alterações
  5. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Entra em vigor novo Código de Ética da Enfermagem brasileira. Brasília, DF: Cofen, 2018. Cofen – Novo Código de Ética da Enfermagem
  6. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.

Rotas nas Vias de Administração de Medicamentos: como o fármaco “escolhe” o caminho até o organismo?

Quando um paciente recebe um medicamento, seja um comprimido, uma injeção ou um adesivo na pele, existe toda uma ciência por trás da escolha da via de administração. Essa decisão não acontece por acaso. Ela é baseada nas características do medicamento, na condição clínica do paciente, na velocidade de ação desejada e até mesmo na capacidade do organismo em absorver aquele fármaco.

Uma dúvida bastante comum entre estudantes de enfermagem é: o medicamento “escolhe” sua rota?

Na verdade, quem escolhe a via de administração é o profissional prescritor, mas essa escolha é fortemente influenciada pelas propriedades físico-químicas do próprio fármaco. Em outras palavras, é como se cada medicamento tivesse um “caminho ideal” para chegar ao seu local de ação.

Nesta publicação você entenderá como funciona essa escolha, quais são as principais rotas de administração, suas vantagens, desvantagens e os cuidados de enfermagem em cada uma delas.

O que é uma via de administração?

A via de administração é o caminho utilizado para introduzir um medicamento no organismo.

Cada via possui características próprias que influenciam diretamente:

  • velocidade de absorção;
  • quantidade absorvida;
  • início da ação;
  • duração do efeito;
  • metabolismo do medicamento;
  • eliminação;
  • segurança do tratamento.

A escolha correta da via é tão importante quanto a escolha do próprio medicamento.

Afinal, o medicamento escolhe sua rota?

Essa é uma maneira bastante didática de compreender a farmacologia. Na prática, quem determina a via é o médico ou outro profissional habilitado na prescrição. Porém, essa decisão depende das características do medicamento.

É como imaginar uma encomenda: Uma carta pode ser enviada pelos Correios. Já uma carga extremamente pesada precisa ser transportada por caminhão e cada tipo de carga possui o transporte mais adequado.

Com os medicamentos acontece exatamente a mesma coisa:  Alguns são destruídos pelo ácido do estômago, outros praticamente não são absorvidos pelo intestino. Alguns precisam agir imediatamente e outros devem ser liberados lentamente ao longo do dia, tudo isso influencia a escolha da via.

Quais fatores determinam a escolha da rota?

Diversos fatores são avaliados.

Características do medicamento

Entre elas:

  • estabilidade química;
  • solubilidade;
  • tamanho molecular;
  • lipossolubilidade;
  • pH;
  • possibilidade de irritação dos tecidos;
  • metabolismo hepático.

Estado clínico do paciente

Também influencia bastante.

Exemplos:

  • paciente consciente;
  • paciente inconsciente;
  • presença de vômitos;
  • dificuldade para engolir;
  • intubação orotraqueal;
  • uso de sonda enteral;
  • choque;
  • má perfusão periférica.

Velocidade de ação desejada

Algumas situações exigem resposta imediata.

Exemplo:

Parada cardiorrespiratória.

Nesse caso, a via intravenosa é a mais indicada.

Já medicamentos para tratamento contínuo podem ser administrados por via oral.

Tempo de tratamento

Medicamentos utilizados durante meses ou anos geralmente utilizam vias mais confortáveis, como:

  • oral;
  • subcutânea;
  • transdérmica.

Local onde o medicamento deve agir

Alguns medicamentos atuam apenas em determinado órgão. Por exemplo:

  • Colírios atuam principalmente nos olhos.
  • Pomadas dermatológicas atuam na pele.
  • Sprays nasais atuam na mucosa nasal.

Assim evita-se maior exposição sistêmica.

Como o medicamento percorre o organismo?

Após ser administrado, ele passa por quatro etapas importantes conhecidas pela sigla LADME.

L — Liberação

O medicamento precisa ser liberado da sua forma farmacêutica.

Exemplo:

Um comprimido precisa se dissolver antes de ser absorvido.

A — Absorção

É a passagem do medicamento para a corrente sanguínea e essa etapa varia conforme a via utilizada.

D — Distribuição

Após entrar na circulação, o medicamento é distribuído para os tecidos. Alguns concentram-se no cérebro e outros no fígado, outros nos rins.

M — Metabolismo

Grande parte dos medicamentos sofre transformação química no fígado. Esse processo facilita sua eliminação.

E — Excreção

O medicamento é eliminado principalmente pelos:

  • rins;
  • fígado;
  • pulmões;
  • fezes;
  • suor.

Principais rotas das vias de administração

Embora existam dezenas de vias descritas, algumas são muito utilizadas na prática clínica.

Via oral (VO)

É a mais utilizada no mundo. O medicamento é ingerido pela boca.

Vantagens

É confortável, possui baixo custo, permite tratamento domiciliar, não é invasiva.

Desvantagens

Absorção mais lenta, pode sofrer influência dos alimentos, alguns medicamentos são destruídos pelo ácido gástrico, e não pode ser utilizada em pacientes inconscientes.

Via sublingual

O medicamento é colocado sob a língua. A absorção ocorre através dos vasos sanguíneos da mucosa oral.

Vantagens

Ação muito rápida, evita o metabolismo de primeira passagem pelo fígado.

Exemplo clássico:

Nitroglicerina.

Via bucal

Semelhante à sublingual. O medicamento permanece entre a gengiva e a bochecha e a absorção ocorre lentamente.

Via enteral por sonda

Muito utilizada em pacientes hospitalizados.

Pode ocorrer por:

Nem todos os medicamentos podem ser triturados. Comprimidos revestidos e de liberação prolongada geralmente não devem ser esmagados.

Via intravenosa (IV)

É considerada a via de ação mais rápida, o medicamento entra diretamente na circulação. Não existe fase de absorção.

Vantagens

Resposta imediata, controle preciso da dose, permite grandes volumes, ideal para emergências.

Desvantagens

Maior risco de infecção, necessidade de acesso venoso, maior risco de eventos adversos imediatos.

Via intramuscular (IM)

O medicamento é administrado no músculo, a absorção depende da vascularização muscular. É indicada para medicamentos que necessitam absorção relativamente rápida.

Via subcutânea (SC)

O medicamento é administrado no tecido adiposo, apresenta absorção mais lenta.

Exemplos:

Via intradérmica (ID)

O medicamento permanece na derme. Utilizada principalmente para:

Via tópica

Aplicada diretamente sobre pele ou mucosas.

Exemplos:

  • pomadas;
  • cremes;
  • loções;
  • géis.

Seu objetivo geralmente é ação local.

Via transdérmica

O medicamento atravessa lentamente a pele. Utiliza adesivos medicamentosos.

Exemplos:

  • nicotina;
  • fentanil;
  • nitroglicerina;
  • estrógenos.

A ação costuma durar muitas horas ou dias.

Via oftálmica

Administrada diretamente nos olhos.

Exemplos:

  • colírios;
  • pomadas oftálmicas.

Via otológica

Administrada no ouvido.

Indicada para:

  • infecções;
  • cerume;
  • inflamações.

Via nasal

Permite ação local ou sistêmica.

Exemplos:

  • descongestionantes;
  • corticosteroides;
  • naloxona intranasal.

Via inalatória

Muito utilizada em doenças respiratórias.

Exemplos:

O medicamento alcança diretamente os pulmões.

Via retal

Utilizada quando a via oral não é possível.

Exemplos:

  • vômitos;
  • convulsões;
  • pacientes inconscientes.

Via vaginal

Empregada principalmente para ação local.

Exemplos:

  • antifúngicos;
  • antibióticos;
  • hormônios.

Via epidural e intratecal

São utilizadas em situações específicas.

Exemplos:

  • anestesia;
  • analgesia;
  • quimioterapia.

Exigem técnica altamente especializada.

O metabolismo de primeira passagem

Esse é um conceito muito importante. Quando um medicamento é administrado por via oral, ele é absorvido pelo intestino e segue inicialmente para o fígado.

Nesse trajeto, parte do medicamento pode ser metabolizada antes mesmo de alcançar a circulação sistêmica. Esse fenômeno é chamado de efeito de primeira passagem hepática. Alguns medicamentos perdem grande parte da sua concentração por esse motivo. É justamente por isso que determinados fármacos são administrados por vias alternativas, como:

  • sublingual;
  • intravenosa;
  • transdérmica.

Biodisponibilidade: quanto do medicamento realmente chega ao sangue?

Nem todo medicamento administrado é totalmente absorvido. A biodisponibilidade representa a quantidade do fármaco que realmente alcança a circulação sistêmica. Na via intravenosa ela é praticamente de 100% e nas demais vias ela costuma ser menor.

Exemplos práticos

Imagine três pacientes com dor intensa:  O primeiro recebe um comprimido,  o segundo recebe uma injeção intramuscular. O terceiro recebe um medicamento intravenoso.

Embora seja o mesmo princípio ativo, a velocidade da melhora poderá ser completamente diferente. Isso ocorre porque cada via possui uma velocidade de absorção distinta.

Você sabia?

A insulina não pode ser administrada por via oral porque seria degradada pelas enzimas digestivas antes de ser absorvida. A nitroglicerina sublingual age em poucos minutos porque evita o metabolismo de primeira passagem no fígado.

Alguns adesivos transdérmicos conseguem liberar medicamento continuamente por até sete dias. A via intravenosa é a única que não possui etapa de absorção, pois o medicamento já é administrado diretamente na corrente sanguínea.

Nem todo medicamento disponível por via oral pode ser administrado por sonda. Formas farmacêuticas de liberação prolongada, revestidas ou gastro-resistentes podem perder sua eficácia ou causar eventos adversos se trituradas.

Cuidados de enfermagem

A administração segura de medicamentos começa antes da escolha da via e continua durante todo o processo assistencial. Entre os principais cuidados estão:

  • Confirmar a prescrição médica e verificar se a via prescrita corresponde à apresentação farmacêutica.
  • Realizar corretamente a identificação do paciente utilizando, no mínimo, dois identificadores.
  • Aplicar os princípios da administração segura de medicamentos (paciente, medicamento, dose, via, horário, registro e demais verificações institucionais).
  • Avaliar se o paciente apresenta condições para receber o medicamento pela via prescrita, como capacidade de deglutição, presença de náuseas, integridade da pele ou acesso venoso pérvio.
  • Conhecer as características farmacológicas do medicamento, incluindo tempo de ação, compatibilidade, diluição e possíveis efeitos adversos.
  • Nunca triturar comprimidos de liberação prolongada, revestidos entéricos ou cápsulas sem confirmação de que essa prática é permitida.
  • Na administração por sonda enteral, realizar lavagem da sonda antes e após cada medicamento, conforme protocolo institucional.
  • Observar possíveis reações adversas, alergias ou sinais de intolerância após a administração.
  • Registrar corretamente o procedimento no prontuário, incluindo a via utilizada, horário e intercorrências.
  • Manter-se atualizado sobre protocolos institucionais e recomendações de segurança do paciente.

A escolha da via de administração é resultado da integração entre as características do medicamento, as necessidades clínicas do paciente e o objetivo terapêutico. Embora seja comum dizer que o “fármaco escolhe sua rota”, essa é apenas uma forma didática de explicar que cada medicamento possui propriedades que o tornam mais adequado para determinadas vias de administração.

Para a enfermagem, compreender esses conceitos vai muito além da execução da técnica. Significa reconhecer por que determinado medicamento deve ser administrado por uma via específica, identificar situações que contraindicam essa administração e contribuir ativamente para a segurança do paciente. Quanto maior o conhecimento sobre farmacologia e vias de administração, maior será a qualidade da assistência prestada.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de administração de medicamentos. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. TORTORA, Gerard J.; DERRICKSON, Bryan. Princípios de Anatomia e Fisiologia. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.
  4. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos. Brasília: ANVISA, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/protocolo-de-seguranca-na-prescricao-uso-e-administracao-de-medicamentos
  5. BRUNTON, L. L.; HILAL-DANDAN, R.; KNOLLMANN, B. C. Goodman & Gilman: As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 14. ed. Porto Alegre: AMGH, 2023.
  6. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
  7. WHALEN, K. Farmacologia Ilustrada. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  8. RANG, H. P. et al. Farmacologia. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020.

Adalimumabe: tudo o que você precisa saber sobre esse imunobiológico

O adalimumabe é um dos medicamentos imunobiológicos mais utilizados no mundo para o tratamento de doenças inflamatórias e autoimunes. Desde sua aprovação no início dos anos 2000, revolucionou o tratamento de enfermidades que antes apresentavam poucas opções terapêuticas, permitindo que milhares de pacientes alcançassem remissão da doença, redução da inflamação e melhora significativa na qualidade de vida.

Na prática clínica, o adalimumabe está presente em diversas especialidades médicas, como reumatologia, gastroenterologia, dermatologia, oftalmologia e pediatria. Para a enfermagem, conhecer seu mecanismo de ação, indicações, formas de administração, cuidados durante o armazenamento e possíveis efeitos adversos é fundamental para garantir uma assistência segura.

Aqui você conhecerá detalhadamente o que é o adalimumabe, como ele funciona, para quais doenças é indicado, quais são seus nomes comerciais, seus riscos, benefícios e os principais cuidados de enfermagem.

O que é o adalimumabe?

O adalimumabe é um anticorpo monoclonal humano recombinante, pertencente à classe dos medicamentos imunobiológicos. Sua principal função é bloquear uma proteína inflamatória denominada Fator de Necrose Tumoral alfa (TNF-α – Tumor Necrosis Factor alpha).

O TNF-α é uma citocina produzida pelo sistema imunológico e possui papel importante na defesa do organismo contra infecções. Entretanto, em pessoas com doenças autoimunes, essa proteína passa a ser produzida em excesso, provocando inflamação persistente e danos aos tecidos.

Ao bloquear o TNF-α, o adalimumabe reduz a resposta inflamatória exagerada, diminuindo sintomas como dor, edema, rigidez, diarreia, lesões cutâneas e destruição articular.

Como o adalimumabe age no organismo?

Para entender seu funcionamento, imagine que o TNF-α seja um “interruptor” que mantém a inflamação ligada continuamente. O adalimumabe atua como uma espécie de “chave” que se liga ao TNF-α antes que ele alcance seus receptores celulares.

Como consequência:

  • diminui a migração de células inflamatórias;
  • reduz a produção de outras citocinas;
  • controla a resposta autoimune;
  • diminui o dano aos tecidos;
  • favorece a cicatrização de áreas inflamadas.

Importante destacar que o medicamento não cura a doença autoimune, mas controla sua atividade enquanto está sendo utilizado.

O que é um imunobiológico?

Os imunobiológicos são medicamentos produzidos por técnicas de engenharia genética utilizando células vivas. Diferentemente dos medicamentos sintéticos tradicionais, eles são proteínas altamente complexas que atuam em alvos específicos do sistema imunológico.

Entre suas principais características estão:

  • elevada especificidade;
  • maior eficácia em doenças autoimunes moderadas e graves;
  • administração por via subcutânea ou intravenosa;
  • necessidade de refrigeração;
  • alto custo de produção.

Quais doenças podem ser tratadas com adalimumabe?

O adalimumabe possui diversas indicações aprovadas, embora elas possam variar conforme a legislação de cada país e a bula de cada produto. Entre as principais doenças estão:

Artrite reumatoide

Reduz:

  • dor;
  • rigidez matinal;
  • edema articular;
  • progressão das deformidades.

Artrite idiopática juvenil

Indicado em crianças com formas moderadas e graves da doença.

Artrite psoriásica

Controla tanto a inflamação articular quanto as lesões cutâneas da psoríase.

Espondilite anquilosante

Melhora:

  • dor lombar inflamatória;
  • rigidez;
  • mobilidade da coluna.

Espondiloartrite axial não radiográfica

Pode reduzir sintomas e retardar a progressão da doença em pacientes selecionados.

Psoríase em placas

É utilizado em casos moderados ou graves.

Promove redução das placas, descamação e prurido.

Hidradenite supurativa

É um dos tratamentos biológicos mais utilizados.

Reduz:

  • abscessos;
  • dor;
  • drenagem;
  • recorrências.

Doença de Crohn

É uma das principais indicações do medicamento.

Pode promover:

  • remissão clínica;
  • cicatrização da mucosa intestinal;
  • redução das fístulas;
  • diminuição da necessidade de cirurgias;
  • redução do uso prolongado de corticoides.

Retocolite ulcerativa

Auxilia no controle da inflamação intestinal e manutenção da remissão em pacientes elegíveis.

Uveíte não infecciosa

Diminui a inflamação ocular e reduz o risco de perda visual.

Quais são os nomes comerciais do adalimumabe?

Com o vencimento da patente do medicamento original, diversos biossimilares passaram a ser aprovados em vários países, incluindo o Brasil. Entre os principais nomes comerciais disponíveis estão:

Medicamento de referência

  • Humira® (AbbVie)

Biossimilares

Dependendo do país e da disponibilidade no mercado, podem ser encontrados:

  • Amgevita®
  • Hyrimoz®
  • Hadlima®
  • Yuflyma®
  • Idacio®
  • Imraldi®
  • Amsparity®
  • Hulio®
  • Abrilada®
  • Yusimry®
  • Cyltezo®
  • Simlandi®
  • Libmyris® (alguns mercados)
  • Exemptia® (alguns países)

No Brasil, a disponibilidade pode variar conforme aprovações da Anvisa, processos de incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), compras públicas e distribuição pelas operadoras de saúde. Novos biossimilares podem ser registrados ao longo do tempo.

O que é um biossimilar?

Um biossimilar não é um medicamento genérico. Ele é produzido para ser altamente semelhante ao medicamento biológico original.

Para ser aprovado, deve demonstrar:

  • eficácia equivalente;
  • segurança semelhante;
  • qualidade comparável;
  • atividade biológica equivalente.

Pequenas diferenças estruturais podem existir devido ao processo de fabricação, mas elas não devem comprometer o efeito clínico.

Como o adalimumabe é administrado?

O medicamento é administrado por injeção subcutânea.

As regiões mais utilizadas são:

  • abdômen (mantendo distância de aproximadamente 5 cm da cicatriz umbilical);
  • face anterior da coxa.

A escolha do local deve respeitar o rodízio das áreas de aplicação para reduzir irritação local.

Apresentações disponíveis

As apresentações podem variar conforme o fabricante. As mais comuns incluem:

  • seringa preenchida;
  • caneta autoinjetora (pen);
  • solução injetável pronta para uso.

As concentrações mais frequentes são:

  • 20 mg;
  • 40 mg;
  • 80 mg.

Em alguns mercados existem apresentações de alta concentração (como 100 mg/mL), desenvolvidas para reduzir o volume da injeção.

Qual é a frequência de administração?

A frequência depende da doença tratada e do protocolo adotado. Em muitas indicações utiliza-se:

  • aplicação a cada 14 dias.

Entretanto, algumas doenças exigem:

  • dose de ataque (indução);
  • aplicações semanais;
  • esquemas individualizados.

Na Doença de Crohn e na Retocolite Ulcerativa, por exemplo, é comum iniciar o tratamento com uma dose de indução mais elevada, seguida por doses de manutenção, conforme protocolo clínico e resposta do paciente.

Quanto tempo demora para fazer efeito?

Os primeiros resultados podem surgir entre 2 e 12 semanas. Entretanto, algumas doenças necessitam de vários meses para apresentar resposta completa.

O tratamento é para sempre?

Nem sempre.

A duração depende de diversos fatores:

  • doença de base;
  • resposta clínica;
  • exames laboratoriais;
  • atividade inflamatória;
  • orientação médica.

Em algumas doenças, como a Doença de Crohn, a interrupção do tratamento após alcançar remissão pode aumentar significativamente o risco de recaída. Por isso, muitos pacientes permanecem em uso prolongado, enquanto outros podem ter o esquema ajustado ou suspenso após avaliação criteriosa pelo especialista.

Quais exames devem ser realizados antes de iniciar o tratamento?

Antes da primeira dose, é essencial realizar uma investigação para reduzir o risco de complicações.

Os exames frequentemente solicitados incluem:

  • hemograma completo;
  • função hepática;
  • função renal;
  • sorologias para hepatites B e C;
  • teste para HIV, quando indicado;
  • pesquisa para tuberculose latente (PPD ou IGRA);
  • radiografia de tórax;
  • avaliação do calendário vacinal.

Dependendo do contexto clínico, o médico poderá solicitar outros exames.

Vacinas e adalimumabe

Pacientes em uso de adalimumabe podem receber diversas vacinas inativadas, conforme recomendação médica. Por outro lado, vacinas com microrganismos vivos atenuados geralmente devem ser evitadas durante o tratamento imunossupressor, salvo em situações específicas e após avaliação especializada.

Idealmente, o calendário vacinal deve ser atualizado antes do início da terapia.

Quais são os efeitos adversos?

Reações muito comuns

  • vermelhidão no local da aplicação;
  • dor;
  • prurido;
  • hematoma;
  • cefaleia;
  • infecções respiratórias leves.

Efeitos adversos importantes

  • tuberculose;
  • pneumonia;
  • herpes-zóster;
  • infecções oportunistas;
  • sepse;
  • alterações hepáticas;
  • insuficiência cardíaca (em pacientes predispostos);
  • desmielinização;
  • citopenias;
  • reações alérgicas.

Quando o medicamento deve ser suspenso temporariamente?

A decisão é sempre médica, mas geralmente pode ser necessária em situações como:

  • infecção grave;
  • febre persistente sem causa esclarecida;
  • sepse;
  • cirurgia de grande porte (em muitos casos, conforme protocolo da especialidade);
  • reações alérgicas importantes.

O paciente não deve interromper o tratamento por conta própria.

Como deve ser armazenado?

O armazenamento adequado é essencial para preservar a eficácia do medicamento.

Recomenda-se:

  • manter refrigerado entre 2 °C e 8 °C;
  • não congelar;
  • proteger da luz;
  • manter na embalagem original até o momento do uso.

Antes da aplicação, muitos fabricantes orientam retirar o medicamento da geladeira e aguardar cerca de 15 a 30 minutos para que atinja a temperatura ambiente, sem utilizar fontes externas de calor.

O adalimumabe pode aumentar o risco de câncer?

Essa é uma dúvida frequente. Os estudos disponíveis mostram que o risco absoluto é baixo, mas pacientes com doenças autoimunes já podem apresentar maior predisposição a algumas neoplasias independentemente do tratamento. Além disso, o uso de imunossupressores exige acompanhamento regular e avaliação individualizada dos riscos e benefícios.

A decisão de iniciar ou manter o adalimumabe deve sempre considerar o perfil clínico do paciente.

Curiosidades

O adalimumabe foi o primeiro anticorpo monoclonal totalmente humano aprovado para bloquear o TNF-α. Durante vários anos, o Humira® foi um dos medicamentos mais vendidos do mundo, tornando-se um marco na terapia biológica.

A chegada dos biossimilares ampliou o acesso ao tratamento em diversos países, reduzindo custos para sistemas públicos e privados de saúde. O medicamento não é considerado um quimioterápico, embora atue modulando o sistema imunológico.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem desempenha papel essencial na administração segura do adalimumabe e no acompanhamento dos pacientes em uso contínuo. Entre os principais cuidados estão:

  • Verificar a prescrição médica, a indicação clínica e a identificação correta do paciente antes da administração.
  • Confirmar se o medicamento foi armazenado adequadamente em refrigeração e se está dentro do prazo de validade.
  • Inspecionar visualmente a solução antes da aplicação, observando alterações de cor, partículas ou vazamentos na seringa ou caneta.
  • Orientar o paciente quanto à técnica correta de aplicação subcutânea, quando houver autoadministração domiciliar.
  • Realizar rodízio dos locais de aplicação para reduzir o risco de lipodistrofia, dor e irritação local.
  • Evitar aplicar em áreas com hematomas, cicatrizes, lesões, infecção ativa, psoríase intensa ou pele endurecida.
  • Observar o paciente quanto a possíveis reações locais ou sistêmicas após a administração.
  • Monitorar sinais e sintomas sugestivos de infecção, como febre, tosse persistente, perda de peso, sudorese noturna ou feridas de difícil cicatrização.
  • Orientar o paciente a comunicar imediatamente qualquer sinal de infecção antes da próxima dose.
  • Reforçar a importância da adesão ao tratamento e de não interromper o medicamento sem orientação médica.
  • Estimular a atualização do calendário vacinal antes do início da terapia, quando possível, e orientar sobre a necessidade de discutir qualquer vacinação durante o tratamento com a equipe de saúde.

O adalimumabe transformou o tratamento de diversas doenças inflamatórias crônicas ao proporcionar controle mais eficaz da resposta imunológica e melhorar significativamente a qualidade de vida de muitos pacientes. Seu uso exige acompanhamento cuidadoso, monitorização clínica e educação em saúde, especialmente devido ao aumento do risco de infecções e à necessidade de armazenamento e administração adequados.

Para a enfermagem, conhecer o mecanismo de ação, as indicações, os possíveis efeitos adversos e os cuidados relacionados ao medicamento é indispensável para oferecer uma assistência segura, promover a adesão ao tratamento e identificar precocemente possíveis complicações.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. FRESENIUS KABI BRASIL LTDA. Bula do profissional: IDACIO (adalimumabe). São Paulo, 2015. Disponível em: https://www.fresenius-kabi.com
  3. CONSULTA REMÉDIOS. Adalimumabe: bula, para que serve e como usar. 2020. Disponível em: https://consultaremedios.com.br/adalimumabe/bula
  4. ABBVIE. Humira® (adalimumabe): bula do profissional de saúde. Disponível em: https://www.abbvie.com
  5. EUROPEAN MEDICINES AGENCY (EMA). Adalimumab medicines. Disponível em: https://www.ema.europa.eu
  6. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Adalimumab Products. Disponível em: https://www.fda.gov
  7. KATZUNG, B. G. Farmacologia Básica e Clínica. 16. ed. Porto Alegre: AMGH, 2023.
  8. BRUNTON, L. L.; HILAL-DANDAN, R.; KNOLLMANN, B. C. Goodman & Gilman: As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 14. ed. Porto Alegre: AMGH, 2023.
  9. KASPER, D. L. et al. Medicina Interna de Harrison. 21. ed. Porto Alegre: AMGH, 2022.
  10. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P. A.; HALL, A. M. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2022.
  11. SOCIEDADE BRASILEIRA DE REUMATOLOGIA. Diretrizes para o tratamento de doenças reumáticas com imunobiológicos. Disponível em: https://www.reumatologia.org.br
  12. ORGANIZAÇÃO BRASILEIRA DE DOENÇA DE CROHN E COLITE (GEDIIB). Diretrizes clínicas e materiais educativos. Disponível em: https://gediib.org.br