
Vá direto ao ponto!
Na enfermagem, um detalhe muda completamente a segurança da correção de insulina: não basta olhar o número da glicemia; é preciso saber por que aquele número apareceu e qual esquema foi prescrito. As recomendações atuais deixaram mais claro que a correção deve fazer parte de uma estratégia de controle glicêmico, e não funcionar como uma resposta automática para toda glicemia elevada.
Meta glicêmica no paciente internado
Na maioria dos pacientes hospitalizados não críticos, a meta recomendada é manter a glicemia entre 100 e 180 mg/dL, desde que isso possa ser alcançado sem hipoglicemia significativa. A Diretriz da SBD 2026 atualizou o critério de hiperglicemia hospitalar para valores acima de 180 mg/dL, substituindo o corte anterior de 140 mg/dL. O tratamento farmacológico passa a ser especialmente relevante quando há hiperglicemia persistente.
, geralmente definida por duas ou mais medidas ≥180 mg/dL em 24 horas.
Em pacientes críticos, como aqueles internados na UTI, a recomendação é diferente: quando a insulinoterapia é necessária, a meta habitual fica em 140–180 mg/dL. Tentar manter valores muito baixos, como 80–110 mg/dL, aumenta o risco de hipoglicemia e não é recomendado rotineiramente.
Correção não deve ser confundida com tratamento completo
A insulina de correção serve para controlar elevações glicêmicas pontuais, mas seu uso isolado não deve ser transformado em estratégia permanente. Na hiperglicemia persistente do paciente não crítico, a Diretriz da SBD 2026 recomenda insulinoterapia basal, podendo ser associada a bolus pré-prandiais, conforme alimentação, perfil glicêmico e condição clínica. A antiga prática de simplesmente aumentar a dose de uma escala progressiva sem avaliar o esquema basal-prandial pode favorecer tanto hiperglicemia persistente quanto hipoglicemia.
O esquema também muda conforme a alimentação. Com dieta oral adequada, pode ser utilizado um regime basal-bolus com correção; quando a ingestão oral é reduzida ou o paciente está em jejum, a estratégia precisa ser ajustada. Em nutrição enteral ou parenteral contínua, a frequência e o tipo de insulinização também precisam acompanhar o padrão nutricional.
! Atenção na Prova Um ponto que costuma cair em prova
Se o paciente apresenta mais de duas glicemias ≥180 mg/dL em 24 horas, não é adequado simplesmente continuar tratando cada valor isoladamente com uma escala de correção. Esse padrão indica hiperglicemia persistente e exige reavaliação do esquema prescrito. A SBD 2026 recomenda ajustes da insulinoterapia, em geral, a cada 24–48 horas, considerando glicemias, dieta e medicamentos que interferem no controle glicêmico.
Atenção aos corticoides
O uso de glicocorticoides pode provocar um padrão característico de elevação da glicemia, muitas vezes mais evidente no período da tarde. Nessa situação, a monitorização precisa acompanhar o horário e o efeito do corticoide; a SBD admite, em situações específicas, o uso de NPH pela manhã, inclusive iniciando em 0,1 UI/kg/dia, conforme avaliação e prescrição clínica.
Vivência na prática
Em uma rotina de UTI, é comum encontrar uma glicemia elevada justamente após o paciente receber corticoide pela manhã. Já acompanhei situações em que a equipe inicialmente olhava apenas para o valor isolado da glicemia da tarde. Quando se observava o comportamento das medidas ao longo do dia, ficava evidente que não era um episódio aleatório: havia um padrão relacionado ao horário do medicamento. Essa diferença muda a conversa sobre ajuste da insulinoterapia.
Outra situação frequente acontece quando o paciente tem uma dose fixa de insulina prandial prescrita, mas, no horário da refeição, aceita apenas algumas colheradas. Nesses casos, administrar automaticamente uma dose destinada a uma refeição completa pode aumentar o risco de hipoglicemia. A recomendação atual é considerar a aceitação alimentar antes da administração e comunicar alterações relevantes à equipe responsável; em baixa aceitação da dieta, doses fixas de bolus podem precisar ser suspensas ou ajustadas conforme prescrição.
Cuidados de enfermagem
Antes de administrar a insulina, confira glicemia, tipo de insulina, dose, horário, via, relação com a alimentação e prescrição vigente. Observe se o paciente está em jejum, apresentou redução da aceitação alimentar ou recebeu medicamentos capazes de alterar a glicemia.
Após a administração, mantenha a monitorização conforme protocolo institucional e fique atento aos sinais de hipoglicemia, principalmente em pacientes idosos, com doença renal, baixa ingestão alimentar ou mudanças recentes na insulinoterapia. Em valores muito elevados associados a náuseas, vômitos, dor abdominal, alteração do nível de consciência ou outros sinais sugestivos de descompensação metabólica, a situação exige avaliação imediata e não deve ser tratada simplesmente como mais uma correção de rotina.
Correção de Insulina: O Que Mudou?
- Meta glicêmica de 100–180 mg/dL no paciente não crítico
- Hiperglicemia persistente exige reavaliação da insulinoterapia
- Escala de correção isolada não deve ser usada como estratégia permanente
- Enfermagem deve conferir glicemia, alimentação, prescrição e risco de hipoglicemia
Referências:
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Manejo da hiperglicemia hospitalar em pacientes não-críticos: Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes – Ed. 2026. São Paulo: Sociedade Brasileira de Diabetes, 2026. Disponível em: Diretriz da SBD – Hiperglicemia hospitalar no paciente não crítico.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Hiperglicemia hospitalar no paciente crítico: Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes – Ed. 2026. São Paulo: Sociedade Brasileira de Diabetes, 2026. Disponível em: Diretriz da SBD – Paciente crítico.
- AMERICAN DIABETES ASSOCIATION PROFESSIONAL PRACTICE COMMITTEE. 16. Diabetes Care in the Hospital: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care, v. 49, supl. 1, 2026. Disponível em: Diabetes Care in the Hospital – ADA 2026.
- ENDOCRINE SOCIETY. Inpatient Hyperglycemia Guideline Resources. Washington, DC: Endocrine Society, 2022. Disponível em: Endocrine Society – Inpatient Hyperglycemia.
Faltou algum tema ou procedimento?
Conta pra gente qual assunto você quer ver esmiuçado e transformado em ilustração no próximo post!
Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.



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