Notícias da Enfermagem

Insulina está em falta nas Farmácias no Brasil

O Brasil ainda não regularizou a oferta de insulina humana, hormônio que regula os níveis de glicose no sangue e que é utilizado de forma indispensável no tratamento de pacientes com diabetes tipo 1, doença que leva à não produção da substância. O cenário é reflexo de uma limitação global na oferta do medicamento.

Ainda em junho, a Novo Nordisk, principal fabricante de insulinas humanas regular e NPH, que são o alvo da escassez, anunciou o cenário de redução mundial da produção. Procurada, a empresa disse que “vem lidando com desafios significativos em sua cadeia de suprimentos” e citou que “há aumento contínuo no número de pessoas vivendo com doenças crônicas graves que dependem de nossos tratamentos”.

O laboratório é conhecido por produzir também os medicamentos Ozempic e Wegovy, utilizados para diabetes tipo 2 e obesidade, cuja procura explodiu pelo mundo nos últimos anos e também levou a cenários de escassez.

Embora a situação com as insulinas estivesse prevista para ser regularizada no fim de 2024, a empresa diz que seguirá “com uma redução na disponibilidade” e que a intermitência continuará “durante o ano de 2025”.

O laboratório orienta que pacientes que dependem do programa Farmácia Popular, que disponibiliza apenas as duas insulinas gratuitamente para pacientes com diabetes tipo 1, busquem alternativas nas unidades de saúde pública e que aqueles atendidos no mercado privado procurem seus médicos para adotar alternativas.

Em novembro, o Conselho Federal de Medicina (CFM) chegou a publicar uma nota em que manifestava “profunda preocupação com a grave falta de insulina no Brasil” e lembrava que “a interrupção no acesso pode resultar em descontrole glicêmico, emergências médicas graves e até mesmo óbitos, configurando um quadro absolutamente temerário e inadmissível”.

Procurado, o Conselho afirmou que “os médicos continuam relatando que seus pacientes estão com dificuldades para obter o produto”. Outras entidade, como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), também monitoram a situação.

— A SBEM continua atenta e mantendo contato com todos órgãos responsáveis, e orienta que na indisponibilidade de compra para algum tipo de insulina o paciente procure seu médico imediatamente para serem oferecidas opções alternativas. É muito importante frisar que os pacientes não podem ficar sem usar a medicação — diz Karen de Marca, vice-presidente da sociedade.

Na rede pública, o Ministério da Saúde

 é o responsável por adquirir e distribuir as insulinas regular e NPH aos estados.

Nesta semana, a pasta afirmou que, entre julho e dezembro, recebeu 32 milhões de unidades de insulina, incluindo 10,6 milhões que estavam previstas para 2025 de forma antecipada para evitar o desabastecimento. Disse também que aumentou o orçamento destinado aos fármacos de R$ 799 milhões para cerca de R$ 1 bilhão neste ano.

A pasta afirmou ter ampliado ainda a concorrência nas aquisições, incluindo fornecedores internacionais no processo. “Essa iniciativa seguiu os critérios estabelecidos pela RDC 203/2017 da Anvisa, que autoriza, em caráter excepcional, a importação de medicamentos registrados em agências internacionais de vigilância sanitária reconhecidas”, disse.

Uma das estratégias tem sido migrar os pacientes que utilizavam as insulinas na forma farmacêutica de frasco de 10 ml, que são as que sofrem a escassez global, para a modalidade de caneta de 3ml. As 10,6 milhões de unidades recebidas pelo Brasil no ano passado, por exemplo, foram as da caneta. Essas, no entanto, não estão disponíveis no Farmácia Popular.

O GLOBO questionou as secretarias estaduais de Saúde sobre a regularização do abastecimento de insulina, mas o cenário não é homogêneo. A Paraíba, por exemplo, disse que “não há estoque no estado”, embora haja uma previsão de entrega pelo ministério para a próxima semana. O Ceará também aguarda a nova remessa.

No Espírito Santo, os estoques “estão baixos, mas não comprometem o tratamento dos pacientes”. O Paraná cita que, desde o final de 2024 a distribuição “tem sido realizada em parcelas causando desabastecimentos pontuais em alguns períodos e regiões”.

São Paulo também afirma que, desde meados do ano passado, “vem enfrentando dificuldades no abastecimento do medicamento”. Em Tocantins, os estoques foram restabelecidos nesta semana. Santa Catarina, Rio de Janeiro, Bahia, Alagoas, Minas, Pará, Amazonas e Mato Grosso afirmaram que o fornecimento está “regular”. Os demais estados não responderam.

— A SBEM reitera a necessidade de que o seu fornecimento seja uma constante sem interrupções. Falhas no suprimento, mesmo que pontuais, não podem ocorrer, pois comprometem a saúde dessas pessoas aguda e cronicamente — afirma Clayton Macedo, endocrinologista e diretor na sociedade.

Sobre as farmácias, Jaqueline Correia, fundadora e presidente do Instituto Diabetes Brasil e mãe do Levi, que tem diabetes tipo 1, conta que a instituição tem recebido constantemente denúncias de pacientes sobre a falta do medicamento:

— Há cerca de seis meses temos recebido muitas demandas de vários estados, inclusive de emergências de hospitais, sobre a falta de insulina. Tanto de pessoas que retiram pela Farmácia Popular, como pelas drogarias privadas. Agora, em dezembro, vimos aumentar as queixas de uma forma significativa. Isso é importante especialmente nos hospitais, porque o protocolo para tratar cetoacidose diabética é a insulina humana, e não existe uma alternativa.

A cetoacidose diabética é uma complicação aguda e grave que ocorre quando o organismo não produz insulina suficiente para usar a glicose do sangue e produzir energia. Enquanto para o dia a dia é possível realizar trocas da insulina humana pela análoga, por exemplo, não existe protocolo nacional de substituição no caso dessa emergência.

No Distrito Federal, a secretaria de Saúde emitiu uma nota técnica orientando a troca pelas insulinas análogas (ultra-rápida e glargina) nos casos possíveis de emergência “diante do desabastecimento de insulinas NPH e Regular de uso hospitalar”. A substituição é também recomendada pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), que emitiu um posicionamento para orientar profissionais frente à escassez.

— Até o momento, ainda não percebemos o reflexo de ações para combater a escassez. Foi noticiada a aquisição de insulinas, mas até agora não se refletiu na prática. Hoje, estar nessa situação coloca nossa comunidade em risco. A insulina é como se fosse o oxigênio dos pacientes, sem ela a pessoa morre, não tem como sobreviver — diz Jaqueline.

Solange Travassos, médica no Rio de Janeiro e vice-presidente da SBD, conta também receber relatos de pacientes que sofrem para encontrar o medicamento:

— Não é uma falta generalizada, mas há uma dificuldade de aquisição. Em 40 anos nunca vi cenário de falta de insulina em farmácia, de a pessoa ir comprar e não ter, como acontece. Eu recebi muita demanda de pacientes, especialmente no final do ano passado. Mantemos a orientação para pacientes que geralmente usam Farmácia Popular de que procure a farmácia do SUS mais próxima para tentar adquirir lá.

Ela recomenda ainda que o paciente sempre tenha uma sobra em casa para casos de não encontrar a insulina em nenhum local: — Orientamos que a pessoa compre para aquele mês e tenha uma reserva, porque a pessoa às vezes não consegue ficar nem horas sem o remédio. Faltar insulina é um problema muito grave.
Fonte: O Globo
Christiane Ribeiro
Sou Técnica de Enfermagem Intensivista há 15 anos, atuando em UTI Adulto. Além da rotina hospitalar, também sou ilustradora digital, criando conteúdos educativos para facilitar o aprendizado na enfermagem. No blog e nas redes sociais, compartilho minhas experiências e ilustrações para ajudar quem está começando na área.
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