Ácido Acetilsalicílico (AAS): Indicações, Mecanismo de Ação e Curiosidades

O ácido acetilsalicílico, conhecido popularmente como AAS, é um dos medicamentos mais antigos e utilizados na história da medicina. Presente em praticamente todos os serviços de saúde, ele possui múltiplas indicações terapêuticas, desde o alívio da dor até a prevenção de eventos cardiovasculares.

Para a enfermagem, compreender o funcionamento do AAS, suas indicações, riscos e cuidados é fundamental para garantir uma administração segura e uma assistência de qualidade ao paciente.

Do Salgueiro ao Laboratório: Uma Breve História

A história do AAS começou muito antes da síntese química em laboratório. Civilizações antigas, como os egípcios e os gregos, já utilizavam extratos da casca do salgueiro (Salix) para tratar febre e dores. Hipócrates, o pai da medicina, prescrevia infusões de casca de salgueiro para mulheres em trabalho de parto. O segredo estava na salicina, que o corpo converte em ácido salicílico.

No entanto, o ácido salicílico puro era extremamente agressivo para o estômago. Foi apenas em 1897 que o químico Felix Hoffmann, da Bayer, conseguiu sintetizar uma forma mais estável e menos irritante: o Ácido Acetilsalicílico. A partir daí, o medicamento se tornou um sucesso mundial, sendo inclusive o primeiro remédio a ser enviado ao espaço no kit de primeiros socorros da missão Apollo 11.

O que é o Ácido Acetilsalicílico (AAS)?

O ácido acetilsalicílico é um fármaco pertencente ao grupo dos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs). Ele apresenta três principais ações terapêuticas: analgésica, antipirética e anti-inflamatória. Em doses menores, possui importante efeito antiplaquetário, sendo amplamente utilizado na prevenção de doenças cardiovasculares.

Seu uso é extremamente difundido tanto em ambiente hospitalar quanto ambulatorial, estando presente em protocolos de emergência, cardiologia, neurologia e clínica médica.

Como o AAS Funciona: O Mecanismo que Todo Enfermeiro Deve Saber

Para entender o AAS, precisamos falar sobre as enzimas ciclooxigenases, as famosas COX-1 e COX-2. O AAS age inibindo essas enzimas, o que impede a cascata de produção das prostaglandinas e dos tromboxanos. As prostaglandinas são responsáveis por sensibilizar os receptores da dor e mediar o processo inflamatório e a febre.

O grande diferencial do AAS em relação a outros anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) é que a sua inibição da COX-1 nas plaquetas é irreversível. Uma vez que a plaqueta é exposta ao AAS, ela perde a capacidade de se agregar pelo resto da sua vida útil, que dura cerca de 7 a 10 dias. É por isso que o medicamento é tão eficaz na prevenção de eventos cardiovasculares, mas também é o motivo pelo qual deve ser suspenso dias antes de procedimentos cirúrgicos.

Indicações de Uso e Dosagens Clínicas

As indicações do AAS variam drasticamente conforme a dose administrada. Em doses mais elevadas, geralmente entre 500 mg e 1000 mg, ele atua como analgésico e antipirético, combatendo dores leves a moderadas e febre. Em doses ainda maiores, pode ser usado pelo seu efeito anti-inflamatório em doenças como a artrite reumatoide, embora hoje existam opções mais modernas para esse fim.

Na cardiologia, utilizamos a chamada “dose infantil” ou dose de manutenção, que varia de 75  mg a 100 mg por dia. Nessa dosagem, o objetivo não é tirar a dor, mas sim garantir o efeito antiagregante plaquetário. Ele é indicado para a prevenção secundária em pacientes que já sofreram Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) ou Acidente Vascular Cerebral (AVC), e também como protocolo imediato na suspeita de um evento isquêmico agudo.

A Síndrome de Reye: O Perigo Oculto na Pediatria

Um detalhe crucial para a enfermagem pediátrica é a contraindicação do AAS em crianças e adolescentes com sintomas virais, como gripe ou varicela. O uso do medicamento nesses casos está associado à Síndrome de Reye, uma condição rara, mas extremamente grave e potencialmente fatal, que causa edema cerebral e degeneração gordurosa do fígado.

Por esse motivo, o enfermeiro deve sempre questionar os pais sobre a administração de qualquer medicamento que contenha salicilatos em crianças febris, reforçando que o paracetamol ou a dipirona são opções muito mais seguras para essa faixa etária.

Apresentações e Vias de Administração

O AAS pode ser encontrado em diversas apresentações, como comprimidos simples, comprimidos revestidos, comprimidos efervescentes e formulações mastigáveis.

A via oral é a mais utilizada. Em situações específicas, como na emergência cardiológica, pode ser administrado por via oral mastigável para rápida absorção.

A enfermagem deve sempre observar se o paciente possui dificuldade de deglutição, risco de broncoaspiração ou restrição de via oral antes da administração.

Efeitos Adversos e Riscos do AAS

Apesar de ser um medicamento amplamente utilizado, o AAS não é isento de riscos.

Os principais efeitos adversos estão relacionados ao trato gastrointestinal, como dor epigástrica, gastrite, náuseas, vômitos e risco de sangramento digestivo.

O uso prolongado pode levar à formação de úlceras gástricas. Outro risco importante é o sangramento, devido à sua ação antiplaquetária. Pacientes em uso de AAS devem ser monitorados quanto a sinais de hemorragia, como gengivorragia, hematúria, melena e equimoses.

Em crianças e adolescentes, o AAS é contraindicado em infecções virais devido ao risco da Síndrome de Reye, uma condição rara, porém grave, que afeta o fígado e o sistema nervoso central.

Contraindicações do AAS

O AAS é contraindicado em pacientes com histórico de alergia ao medicamento ou a outros anti-inflamatórios não esteroides.

Também não deve ser utilizado em pessoas com úlcera péptica ativa, sangramentos gastrointestinais, distúrbios hemorrágicos, insuficiência renal grave e asma induzida por AINEs.

Gestantes, especialmente no terceiro trimestre, devem utilizar o medicamento apenas sob rigorosa orientação médica.

Cuidados de Enfermagem na Administração do AAS

A enfermagem possui papel essencial na administração segura do ácido acetilsalicílico:

  • Antes da administração, é fundamental verificar se o paciente possui histórico de alergias, sangramentos, uso de anticoagulantes ou doenças gástricas.
  • Deve-se observar a prescrição quanto à dose correta e finalidade terapêutica, pois doses analgésicas são diferentes das doses antiplaquetárias.
  • É importante orientar o paciente a ingerir o medicamento após as refeições, quando possível, para reduzir a irritação gástrica.
  • A equipe de enfermagem deve monitorar sinais de sangramento, dor abdominal, vômitos com sangue ou fezes escuras.
  • Em pacientes idosos, deve-se redobrar a atenção devido ao maior risco de efeitos adversos.
  • Também é necessário orientar o paciente a não fazer uso concomitante com outros anti-inflamatórios sem prescrição médica.

Uso do AAS na Emergência

Na suspeita de infarto agudo do miocárdio, o AAS é um dos primeiros medicamentos administrados, pois reduz rapidamente a agregação plaquetária e ajuda a limitar a formação do trombo coronariano.

Nesses casos, o comprimido costuma ser mastigável para acelerar a absorção.

A enfermagem deve estar atenta às contraindicações antes da administração, como histórico de sangramento ativo ou alergia.

Curiosidades sobre o Ácido Acetilsalicílico

  • O nome “aspirina” tornou-se tão popular que é frequentemente utilizado como sinônimo de AAS, embora seja uma marca comercial.
  • Estudos científicos continuam investigando possíveis benefícios do AAS na prevenção de alguns tipos de câncer, especialmente o câncer colorretal, em determinados grupos de risco.
  • É considerado um dos medicamentos mais estudados da história da farmacologia.

O ácido acetilsalicílico é um medicamento de grande importância clínica, com múltiplas aplicações terapêuticas. Apesar de ser amplamente utilizado, seu uso exige atenção quanto às doses, contraindicações e efeitos adversos.

O conhecimento da enfermagem sobre o AAS contribui diretamente para a segurança do paciente, prevenção de eventos adversos e melhor adesão ao tratamento.

Entender como ele age, quando é indicado e quais cuidados devem ser tomados é parte essencial da prática profissional responsável e baseada em evidências.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Bulário Eletrônico: Ácido Acetilsalicílico. Brasília: Anvisa, 2023. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/medicamentos/
  2. BRUNTON, Laurence L.; HILAL-DANDAN, Randa; KNOLLMANN, Björn C. As Bases Farmacológicas da Terapêutica de Goodman & Gilman. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 2019.
  3. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO (COREN-SP). Guia de Bolso de Farmacologia para Enfermagem. São Paulo: COREN-SP, 2021. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br
  4. KATZUNG, Bertram G. Farmacologia Básica e Clínica. 14. ed. Porto Alegre: AMGH, 2017.
  5. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Bulário eletrônico: ácido acetilsalicílico. Brasília: ANVISA, 2023. Disponível em:
    https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/
  6. KATZUNG, B. G.; TREVOR, A. J. Farmacologia básica e clínica. 14. ed. Porto Alegre: AMGH, 2018.
  7. RANG, H. P. et al. Farmacologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.
  8. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretriz de prevenção cardiovascular. São Paulo: SBC, 2019. Disponível em:
    https://www.portal.cardiol.br
  9. BRUNTON, L. L.; HILAL-DANDAN, R.; KNOLLMANN, B. C. Goodman & Gilman: As bases farmacológicas da terapêutica. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 2019.
  10. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Model List of Essential Medicines. Geneva: WHO, 2023. Disponível em: https://www.who.int/teams/health-product-and-policy-standards/essential-medicines

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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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