Colite Ulcerativa: Muito Além de uma Inflamação Intestinal

Para quem está mergulhando no universo da gastroenterologia durante a graduação de enfermagem, a Colite Ulcerativa (CU) aparece como um dos temas mais desafiadores e, ao mesmo tempo, essenciais.

Ela faz parte do grupo das Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), mas tem uma “personalidade” clínica muito própria que a diferencia, por exemplo, da Doença de Crohn. Enquanto a de Crohn pode afetar qualquer ponto do trato digestivo, a Colite Ulcerativa é seletiva: ela foca exclusivamente no cólon e no reto.

Entender essa doença é compreender como o sistema imunológico, por razões ainda não totalmente esclarecidas, passa a atacar a mucosa do próprio intestino. Para o paciente, isso se traduz em uma rotina de incertezas, dores e idas frequentes ao banheiro.

Para nós, profissionais de enfermagem, o desafio é oferecer um suporte que equilibre a técnica rigorosa com uma empatia profunda, já que o impacto psicossocial dessa condição é imenso.

Entendendo a Fisiopatologia e as Manifestações

A Colite Ulcerativa é caracterizada por uma inflamação contínua da mucosa e submucosa. Diferente de outras patologias que apresentam “áreas de salto” (tecidos saudáveis entre tecidos doentes), a CU começa no reto e sobe pelo cólon de forma ininterrupta. As úlceras que se formam na parede intestinal são responsáveis pelo sintoma mais clássico da doença: a diarreia com sangue e muco.

O estudante de enfermagem deve estar atento à gravidade dos sintomas, que podem variar de leves a fulminantes. Além da diarreia, o paciente frequentemente relata tenesmo (aquela vontade urgente de evacuar, mesmo que o reto esteja vazio) e dor abdominal em cólica. Em casos mais graves, podem ocorrer manifestações extraintestinais, como dores articulares, inflamações nos olhos (uveíte) e lesões na pele, mostrando que a CU é, na verdade, uma doença sistêmica.

Por que a colite ulcerativa acontece?

A causa exata da colite ulcerativa ainda não é totalmente conhecida. Atualmente, entende-se que a doença surge a partir de uma combinação de fatores genéticos, imunológicos e ambientais.

O sistema imunológico passa a reagir de forma inadequada contra a mucosa intestinal, mantendo um processo inflamatório contínuo. Essa resposta inflamatória persistente leva ao surgimento de úlceras, sangramentos e alterações na função do intestino.

Fatores como histórico familiar, alterações da microbiota intestinal, infecções prévias, uso de antibióticos e até o estilo de vida podem influenciar no desenvolvimento e na atividade da doença.

Curiosidades e Fatos Pouco Divulgados

Existem alguns pontos sobre a Colite Ulcerativa que raramente aparecem nos manuais básicos, mas que são fascinantes para quem estuda a saúde de forma detalhada. Um dos fatos mais curiosos e discutidos na literatura médica é o chamado “paradoxo do cigarro”.

Estatisticamente, a Colite Ulcerativa é mais comum em não fumantes ou ex-fumantes. Embora o tabagismo seja um veneno para a Doença de Crohn, na Colite Ulcerativa observou-se, historicamente, que alguns componentes do cigarro pareciam “proteger” a mucosa, embora o risco de outras doenças torne o fumo absolutamente contraindicado.

Outra curiosidade é o aumento drástico de casos em países em desenvolvimento. Isso nos leva à “Hipótese da Higiene”, que sugere que ambientes extremamente limpos na infância podem impedir que o sistema imunológico aprenda a lidar com bactérias, tornando-o mais propenso a atacar o próprio corpo no futuro. Além disso, a dieta ocidental, rica em ultraprocessados, tem sido apontada como um dos grandes gatilhos para as crises de exacerbação.

Principais sinais e sintomas

Os sintomas da colite ulcerativa variam conforme a extensão e a gravidade da inflamação. O quadro clássico inclui diarreia crônica, geralmente com presença de sangue e muco, urgência evacuatória e sensação de evacuação incompleta.

Dor abdominal, principalmente em cólicas, fadiga intensa e perda de peso também são frequentes. Em fases mais graves, o paciente pode apresentar anemia, febre e sinais de desidratação.

Além dos sintomas intestinais, a colite ulcerativa pode cursar com manifestações extraintestinais, como dores articulares, alterações dermatológicas, inflamações oculares e comprometimento hepático, o que reforça o caráter sistêmico da doença.

Classificação da colite ulcerativa

A colite ulcerativa pode ser classificada de acordo com a extensão do acometimento intestinal. Quando restrita ao reto, é chamada de proctite ulcerativa. Quando se estende até o cólon esquerdo, recebe o nome de colite esquerda. Já o acometimento de todo o cólon caracteriza a pancolite.

Essa classificação é importante porque influencia diretamente a escolha do tratamento e a intensidade do acompanhamento clínico e de enfermagem.

Diagnóstico: como a colite ulcerativa é confirmada?

O diagnóstico da colite ulcerativa é baseado na associação entre história clínica, exames laboratoriais, exames de imagem e, principalmente, a colonoscopia com biópsia.

A colonoscopia permite visualizar a mucosa intestinal inflamada, friável e com áreas ulceradas. A biópsia confirma o padrão inflamatório característico da doença.

Exames laboratoriais podem revelar anemia, aumento de marcadores inflamatórios e alterações nutricionais, sendo fundamentais para o acompanhamento da evolução do paciente.

Tratamento: controle, não cura

A colite ulcerativa não tem cura, mas possui tratamento eficaz para controle da inflamação e manutenção da remissão. O objetivo do tratamento é reduzir sintomas, cicatrizar a mucosa intestinal e melhorar a qualidade de vida do paciente.

Os medicamentos mais utilizados incluem aminosalicilatos, corticoides, imunossupressores e imunobiológicos. A escolha depende da gravidade da doença e da resposta individual ao tratamento.

Em casos graves ou refratários, pode ser necessária intervenção cirúrgica, com colectomia, o que exige preparo e acompanhamento rigoroso da equipe de enfermagem.

O Papel da DII Brasil e o Suporte ao Paciente

Nenhum profissional de enfermagem deve atuar isolado das redes de apoio. A DII Brasil (Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn) desempenha um papel fundamental no cenário nacional. Ela é uma organização sem fins lucrativos que une pacientes, familiares e profissionais de saúde com o objetivo de disseminar informações confiáveis e lutar por políticas públicas, como o acesso a medicamentos biológicos de alto custo pelo SUS.

Para o estudante de enfermagem, conhecer a DII Brasil é ter uma ferramenta de educação em saúde nas mãos. Muitas vezes, o paciente recebe o diagnóstico e se sente perdido. Indicar associações sérias ajuda no empoderamento do paciente, permitindo que ele entenda seus direitos e aprenda estratégias de autocuidado com quem vive o mesmo problema diariamente.

Cuidados de enfermagem na colite ulcerativa

O cuidado de enfermagem na Colite Ulcerativa é multifacetado, especialmente durante as crises. O nosso foco principal deve ser a estabilização hemodinâmica e o conforto.

  • Monitorização e Balanço Hídrico: Devido às perdas frequentes por diarreia, o risco de desidratação e desequilíbrio eletrolítico é alto. É papel da enfermagem o controle rigoroso de entradas e saídas, além da observação de sinais de hipocalemia (baixo potássio), que pode afetar o coração.
  • Cuidado com a Pele Perianal: A frequência das evacuações e a acidez das fezes podem causar lesões graves na região perianal. Devemos orientar e realizar a higiene com água e sabão neutro, evitando o uso excessivo de papel higiênico, e aplicar barreiras protetoras (pomadas ou sprays) quando necessário.
  • Manejo Dietético: Embora a dieta não cure a doença, ela é crucial no manejo das crises. Durante a fase ativa, orientamos uma dieta com baixo resíduo (pobre em fibras) para dar repouso ao intestino. O enfermeiro deve trabalhar em conjunto com o nutricionista para garantir que o paciente não entre em desnutrição proteico-calórica.
  • Suporte Emocional e Educação: A CU é uma doença “invisível” que gera muito constrangimento social. O enfermeiro deve criar um ambiente de confiança, ouvindo as angústias do paciente e orientando sobre a importância da adesão ao tratamento medicamentoso, mesmo nos períodos de remissão (quando não há sintomas).

A colite ulcerativa é uma doença complexa, crônica e de grande impacto na vida do paciente. Para a enfermagem, compreender seus aspectos clínicos, emocionais e sociais é essencial para oferecer um cuidado humanizado, seguro e baseado em evidências.

Informação, escuta ativa e acompanhamento contínuo são ferramentas poderosas no cuidado ao paciente com Doença Inflamatória Intestinal.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE COLITE ULCERATIVA E DOENÇA DE CROHN. O que são as DII. São Paulo: DII Brasil, 2024. Disponível em: https://diibrasil.org.br
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Retocolite Ulcerativa. Brasília: Secretaria de Atenção Especializada à Saúde, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  3. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  4. SMELTZER, Suzanne C.; BARE, Brenda G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020.
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Doenças Inflamatórias Intestinais: diagnóstico e tratamento. Brasília, 2022. Disponível em:
    https://www.gov.br/saude
  6. SOCIEDADE BRASILEIRA DE COLOPROCTOLOGIA. Colite ulcerativa: atualização clínica. São Paulo, 2021. Disponível em: https://sbcp.org.br
  7. KUMAR, V.; ABBAS, A. K.; ASTER, J. C. Robbins e Cotran: Patologia – Bases Patológicas das Doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021. Disponível em:
    https://www.elsevier.com
  8. SANDS, B. E. Inflammatory bowel disease: clinical aspects and management. New England Journal of Medicine, 2020. Disponível em: https://www.nejm.org

Doença de Chagas: O que o Estudante de Enfermagem Precisa Saber

A Doença de Chagas é um daqueles temas clássicos que atravessam gerações nos bancos da faculdade de enfermagem, mas que nunca perdem a relevância clínica e social. Descoberta em 1909 pelo médico brasileiro Carlos Chagas, ela representa um marco na ciência mundial, sendo um dos poucos casos na história em que um único pesquisador descreveu o ciclo completo da doença: o agente causador, o vetor e as manifestações clínicas no ser humano.

Apesar de ser considerada uma doença negligenciada, ela ainda afeta milhões de pessoas na América Latina. Para o futuro enfermeiro, entender Chagas vai muito além de decorar o nome do “barbeiro”. É preciso compreender a transição entre as fases aguda e crônica e, principalmente, como prestar uma assistência que garanta qualidade de vida a um paciente que pode conviver com a patologia por décadas.

O Agente, o Vetor e as Novas Formas de Transmissão

O grande protagonista biológico aqui é o Trypanosoma cruzi, um protozoário flagelado. Tradicionalmente, aprendemos que a transmissão ocorre quando o inseto triatomíneo, conhecido popularmente como barbeiro, pica a pessoa e defeca próximo ao local. Ao coçar, o indivíduo leva as fezes contaminadas para a corrente sanguínea.

Entretanto, o cenário epidemiológico mudou. Atualmente, no Brasil, a principal via de transmissão em surtos agudos é a via oral, através do consumo de alimentos contaminados por fezes ou pelo próprio inseto triturado, como no caso do açaí e do caldo de cana processados sem higiene adequada. Além disso, não podemos esquecer da transmissão congênita (da mãe para o feto), das transfusões de sangue e dos acidentes laboratoriais, que ainda exigem vigilância constante da equipe de saúde.

A Fase Aguda: O Silêncio e os Primeiros Sinais

Na fase aguda, a doença pode passar despercebida por ser muitas vezes assintomática ou apresentar sintomas inespecíficos, como febre prolongada, dor de cabeça e fraqueza. No entanto, existem dois sinais clássicos que facilitam o diagnóstico clínico quando presentes.

O primeiro é o Sinal de Romaña, caracterizado por um edema (inchaço) bipalpebral unilateral, muitas vezes acompanhado de conjuntivite e aumento de linfonodos próximos. O segundo é o Chagoma de Inoculação, uma lesão cutânea semelhante a uma furúnculo no local onde o protozoário penetrou na pele. Se não for diagnosticada e tratada rapidamente nesta fase, a carga parasitária diminui, e o paciente entra na fase crônica, onde o parasita se instala nos tecidos.

A Fase Crônica e as Complicações Orgânicas

Após anos ou décadas de silêncio (conhecida como forma indeterminada), a Doença de Chagas pode evoluir para formas graves que comprometem órgãos vitais. O comprometimento cardíaco é o mais frequente e perigoso. O coração sofre um processo inflamatório crônico que leva à cardiomegalia, o famoso “coração grande”.

O paciente pode apresentar arritmias graves, insuficiência cardíaca e bloqueios de condução elétrica, o que muitas vezes exige o implante de marcapasso. Por outro lado, temos as formas digestivas, onde a destruição da inervação do esôfago e do cólon resulta no megaesôfago e no megacólon. Esses pacientes sofrem com grandes dificuldades de deglutição (disfagia) e constipação severa, podendo passar semanas sem evacuar.

Diagnóstico

O diagnóstico varia conforme a fase da doença. Na fase aguda, é possível identificar o parasita diretamente no sangue.

Na fase crônica, utilizam-se exames sorológicos para detectar anticorpos. Exames complementares, como eletrocardiograma e ecocardiograma, são fundamentais para avaliar comprometimento cardíaco.

Tratamento

O tratamento da Doença de Chagas é feito principalmente com medicamentos antiparasitários, como:

  • benznidazol;
  • nifurtimox.

Esses medicamentos são mais eficazes na fase aguda.

Na fase crônica, o tratamento é voltado para o controle das complicações, como:

  • manejo da insuficiência cardíaca;
  • controle de arritmias;
  • acompanhamento digestivo.

Complicações

A doença pode evoluir de forma grave, principalmente na fase crônica.

As principais complicações incluem:

  • insuficiência cardíaca;
  • arritmias graves;
  • tromboembolismo;
  • desnutrição (em casos digestivos).

Cuidados de Enfermagem

O papel da enfermagem na Doença de Chagas é multifacetado, atuando desde a educação em saúde até a alta complexidade cardiovascular.

Monitorização Cardiovascular e Respiratória

Para pacientes na forma cardíaca, o enfermeiro deve estar atento a sinais de insuficiência cardíaca congestiva, como edema de membros inferiores, dispneia (falta de ar) e cansaço aos mínimos esforços. A aferição rigorosa da frequência cardíaca é vital, já que a bradicardia é comum nesses pacientes. No ambiente hospitalar, a interpretação básica de eletrocardiogramas pode ajudar a identificar arritmias antes que se tornem fatais.

Manejo das Complicações Digestivas

Nos casos de megaesôfago, a enfermagem deve orientar sobre a consistência da dieta (pastosa ou líquida) e a importância de realizar refeições fracionadas e em posição sentada para evitar aspirações broncopulmonares. Já para o megacólon, o foco é a gestão do hábito intestinal, com orientações sobre hidratação e, quando necessário, a execução de lavagens intestinais (enteróclises) conforme prescrição médica, sempre com muito cuidado para não lesionar a mucosa fragilizada.

Apoio Terapêutico e Farmacológico

O tratamento específico é feito com o Benznidazol. Este medicamento é bastante tóxico e pode causar efeitos colaterais severos, como exantemas cutâneos, náuseas e neuropatias. A enfermagem deve monitorar a adesão ao tratamento e orientar o paciente a não interromper as doses sem aviso médico, explicando os sinais de toxicidade que devem ser reportados imediatamente.

Importância para a saúde pública

A Doença de Chagas é um exemplo clássico de doença negligenciada.

Mesmo com avanços no controle do vetor, ainda existem desafios relacionados à:

  • diagnóstico precoce;
  • acesso ao tratamento;
  • acompanhamento de pacientes crônicos.

Ser enfermeiro no contexto da Doença de Chagas é entender que estamos lidando com uma condição que carrega um forte componente social e psicológico. Muitas vezes, o paciente vem de regiões rurais e possui pouco acesso à informação.

Nosso papel é ser o educador que ensina sobre a melhoria das condições habitacionais e a higiene dos alimentos, mas também o técnico habilidoso que gerencia um paciente com insuficiência cardíaca complexa. A atualização constante sobre as notas técnicas do Ministério da Saúde é o que garante que nossa assistência seja sempre segura e eficaz.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Doença de Chagas. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. OPAS. Organização Pan-Americana da Saúde. Guia para diagnóstico e tratamento da doença de Chagas. Washington, D.C.: OPAS, 2019. Disponível em: https://www.paho.org/pt
  3. ROBBINS, Stanley L.; KUMAR, Vinay; ABBAS, Abul K. Robbins & Cotran: Bases Patológicas das Doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretriz Brasileira de Cardiometropatia por Doença de Chagas. Rio de Janeiro: SBC, 2024. Disponível em: https://www.portal.cardiol.br/
  5. COURA, J. R. Doença de Chagas: aspectos clínicos e epidemiológicos. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.

O que faz um Técnico de Enfermagem no Centro de Diagnóstico por Imagem?

O setor de diagnóstico por imagem é um dos ambientes mais tecnológicos dentro de um hospital. Tomografia, ressonância magnética, raio-X e ultrassonografia fazem parte da rotina — e por trás de toda essa tecnologia existe uma equipe multiprofissional altamente integrada.

Nesse cenário, o técnico de enfermagem tem um papel essencial, que muitas vezes vai muito além do que se imagina. Não se trata apenas de “auxiliar”, mas de atuar diretamente na segurança, preparo e acompanhamento do paciente em todas as etapas do exame.

Nesta publicação, vamos entender em detalhes todas as atribuições do técnico de enfermagem nesse setor, com base na prática clínica e no Parecer COREN-SP nº 013/2020.

O que é o setor de diagnóstico por imagem?

Os Centros de Diagnóstico por Imagem (CDI) são ambientes complexos, com alto nível tecnológico e que exigem profissionais qualificados.

Eles incluem exames como:

  • radiografia (raio-X);
  • tomografia computadorizada;
  • ressonância magnética;
  • ultrassonografia;
  • procedimentos intervencionistas.

Segundo o COREN-SP, a assistência nesses setores envolve preparo físico e emocional do paciente antes, durante e após os exames.

O técnico de enfermagem dentro da equipe multiprofissional

O técnico de enfermagem atua sob supervisão do enfermeiro, conforme a legislação profissional, e integra uma equipe que inclui:

  • médicos radiologistas;
  • tecnólogos em radiologia;
  • enfermeiros;
  • equipe administrativa.

Sua atuação é centrada no cuidado direto ao paciente, garantindo segurança e qualidade durante todo o processo.

O Que Diz o Conselho: O Parecer Coren-SP 013/2020

Para atuarmos com segurança, precisamos conhecer o respaldo legal da nossa profissão. O Parecer Coren-SP 013/2020 é um documento fundamental que detalha a atuação da nossa equipe nesse setor. Ele reforça que o técnico de enfermagem atua sob a supervisão direta ou indireta do enfermeiro, participando ativamente de todas as etapas do atendimento.

Segundo o parecer, cabe à equipe de enfermagem o acolhimento, a verificação de preparos prévios e a assistência durante e após a realização dos exames. O documento deixa claro que o técnico não deve apenas “cumprir tarefas”, mas sim atuar como um agente de vigilância, identificando riscos e garantindo que o paciente receba o cuidado necessário antes de ser liberado para casa ou para sua unidade de origem.

Principais atribuições do técnico de enfermagem no diagnóstico por imagem

Preparação do paciente antes do exame

O trabalho começa muito antes de o paciente entrar na sala de exame. O técnico de enfermagem é responsável pela anamnese dirigida, que é uma entrevista focada no procedimento que será realizado. Imagine um paciente que fará uma Ressonância Magnética (RM); é nossa função aplicar o checklist de segurança de forma rigorosa.

Precisamos questionar sobre a presença de marcapassos, próteses metálicas, clipes de aneurisma ou fragmentos de metal no corpo. Além disso, verificamos o jejum e as condições alérgicas. Se o paciente tem histórico de alergia a frutos do mar ou medicamentos, o alerta deve ser imediato para a equipe médica e para o enfermeiro, pois o uso de meios de contraste pode desencadear reações adversas.

Assistência durante o exame

Uma das principais atribuições técnicas nesse setor é a punção venosa periférica. No diagnóstico por imagem, essa punção geralmente exige cateteres de calibres específicos, como o 18G ou 20G, para suportar a pressão da bomba injetora de contraste. O técnico deve garantir um acesso calibroso e pérvio, testando-o com soro fisiológico para evitar extravasamentos que podem causar danos teciduais graves.

Durante exames como Tomografia Computadorizada (TC) ou Ressonância, o técnico monitora os sinais vitais e observa qualquer mudança no comportamento do paciente. Alguns pacientes sentem calor intenso ou gosto metálico na boca durante a infusão do contraste iodado; cabe a nós explicar que isso é esperado e acalmá-los. No entanto, se surgirem sinais de urticária, tosse ou dificuldade respiratória, o técnico deve estar treinado para interromper o procedimento e auxiliar o enfermeiro e o médico nas manobras de emergência.

Administração de medicamentos e contraste

Em muitos exames, especialmente tomografia e ressonância, há uso de contraste.

O técnico pode:

  • auxiliar na punção venosa (quando habilitado e conforme protocolo);
  • administrar medicamentos sob prescrição e supervisão;
  • observar reações adversas.

A vigilância é essencial, pois reações ao contraste podem ocorrer rapidamente.

Cuidados Específicos e Biossegurança

O setor de imagem exige cuidados de enfermagem muito particulares. Em exames de Ultrassonografia com biópsia, por exemplo, o técnico auxilia na organização da mesa estéril, na coleta e identificação correta dos frascos de biópsia e no curativo compressivo pós-procedimento.

A biossegurança também é uma atribuição constante. O técnico deve realizar a limpeza concorrente dos equipamentos e macas entre um paciente e outro, garantindo a prevenção de infecções cruzadas. Além disso, em setores que utilizam radiação ionizante, o uso correto dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como o avental de chumbo e o protetor de tireoide, é indispensável para a própria saúde do profissional.

Monitorização do paciente

Pacientes críticos ou instáveis podem ser encaminhados para exames de imagem.

Nesses casos, o técnico de enfermagem atua diretamente na monitorização:

  • controle de sinais vitais;
  • observação clínica contínua;
  • suporte em intercorrências.

Essa atuação é especialmente comum em UTI e hemodinâmica.

O Pós-Exame e a Alta Segura

Após o término do exame, o cuidado não encerra. O técnico de enfermagem deve monitorar o paciente na sala de recuperação, especialmente se houve uso de sedação ou contraste. É necessário observar o local da punção em busca de hematomas e garantir que o paciente esteja orientado antes de se levantar.

As orientações de alta são cruciais. O técnico instrui o paciente a aumentar a ingestão de líquidos nas próximas 24 horas para facilitar a excreção renal do meio de contraste. Também orientamos sobre possíveis reações tardias e indicamos quando procurar um serviço de urgência. Esse fechamento do atendimento é o que garante que o ciclo de cuidado seja completo e seguro.

Organização do ambiente e materiais

O técnico também participa da organização do setor, garantindo:

  • disponibilidade de materiais;
  • preparo de equipamentos auxiliares;
  • controle de estoque básico;
  • descarte correto de resíduos.

O que o técnico de enfermagem NÃO pode fazer

O Parecer COREN-SP nº 013/2020 também traz limites importantes.

Entre eles:

  • não realizar posicionamento técnico para aquisição de imagens;
  • não executar atividades privativas de outros profissionais;
  • não atuar fora de sua competência legal.

Isso reforça a importância de respeitar os limites éticos e legais da profissão.

A importância do cuidado humanizado no setor de imagem

Muitos pacientes chegam ao setor de diagnóstico com medo, dor ou ansiedade.

O técnico de enfermagem tem um papel essencial na humanização do cuidado:

  • acolhendo o paciente;
  • explicando o procedimento;
  • transmitindo segurança.

Esse cuidado faz diferença direta na qualidade do exame e na experiência do paciente.

Cuidados de enfermagem no diagnóstico por imagem

Segurança do paciente

Garantir identificação correta, evitar erros de procedimento e checar preparo são ações fundamentais.

Prevenção de reações adversas

Principalmente em exames com contraste:

  • observar sinais alérgicos;
  • manter acesso venoso pérvio;
  • agir rapidamente em intercorrências.

Monitorização clínica

Pacientes instáveis exigem atenção constante, especialmente durante transporte e exame.

Comunicação com a equipe

A comunicação clara com enfermeiros, médicos e equipe de radiologia é essencial para evitar erros.

Registro em prontuário

Toda assistência prestada deve ser registrada de forma clara e completa, garantindo continuidade do cuidado.

Com base no Parecer COREN-SP nº 013/2020, fica claro que esse profissional é peça-chave na segurança e qualidade do atendimento, desde que respeitados os limites de sua atuação.

Para quem está na enfermagem ou deseja atuar nessa área, é um campo que exige conhecimento técnico, responsabilidade e sensibilidade no cuidado.

Referências:

  1. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO (COREN-SP). Parecer Coren-SP 013/2020: Atuação da Enfermagem em Centro de Diagnóstico por Imagem. São Paulo: Coren-SP, 2020. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br/wp-content/uploads/2020/12/Parecer-Coren-SP-013.2020-Atua%C3%A7%C3%A3o-da-Enfermagem-em-Centro-de-Diagn%C3%B3stico-por-Imagem.pdf
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 545/2017: Atualiza as normas de procedimentos para o registro de títulos de pós-graduação lato e stricto sensu concedidos a Enfermeiros. Brasília: Cofen, 2017. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/
  3. SANTOS, J. B.; SILVA, M. R. Enfermagem em Radiologia e Diagnóstico por Imagem. 2. ed. São Paulo: Editora Érica, 2022.
  4. BRASIL. Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986. Dispõe sobre a regulamentação do exercício da enfermagem. Disponível em: http://www.planalto.gov.br
  5. COREN-DF. Atribuições da enfermagem em diagnóstico por imagem. Disponível em: https://coren-df.gov.br

Martelo de Buck: tudo o que você precisa saber

No nosso universo de ferramentas clínicas, existe um instrumento simples, mas incrivelmente poderoso, que é a marca registrada da avaliação neurológica: o Martelo de Buck.

Se você já viu um médico ou enfermeiro testando os joelhos de um paciente, sabe exatamente do que estamos falando.

Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, o Martelo de Buck não é apenas um peso com uma borracha; ele é a chave para acessar o sistema nervoso de forma não invasiva.

Saber como ele funciona, suas indicações e a forma correta de utilizá-lo é fundamental para identificar alterações nos reflexos, que são o primeiro sinal de problemas neurológicos ou ortopédicos. Vamos desvendar a anatomia e a aplicação correta deste instrumento essencial?

O Que É o Martelo de Buck?

O Martelo de Buck (ou Martelo de Reflexos de Buck) é um instrumento médico projetado especificamente para avaliar os reflexos tendíneos profundos (reflexos osteotendíneos) e, em algumas versões, realizar um rápido exame sensorial. Ele é um dos modelos de martelo de reflexos mais comuns no Brasil e em várias partes do mundo.

  • Sua Anatomia: Ele geralmente possui um cabo de metal e duas cabeças de borracha de tamanhos diferentes. A parte mais interessante é que o Martelo de Buck muitas vezes contém ferramentas embutidas, tornando-o um kit de avaliação compacto:
    • Ponta Romba: Na base do cabo, pode haver uma ponta fina, usada para testar a sensibilidade da pele (estímulo doloroso, por exemplo).
    • Pincel: Em algumas versões, a parte oposta à ponta romba tem um pincel, usado para testar a sensibilidade tátil superficial.

Indicações de uso

A principal função do Martelo de Buck é testar a integridade do arco reflexo, que é a via nervosa responsável por um reflexo. Essa avaliação é crucial em diversas situações:

  1. Suspeita de Lesão Neurológica: Se o paciente apresentar sintomas como fraqueza muscular, dormência, ou histórico de trauma craniano/espinhal.
  2. Monitoramento de Condições Crônicas: Pacientes com Esclerose Múltipla, doença de Parkinson, ou neuropatias diabéticas precisam de monitoramento regular de seus reflexos.
  3. Avaliação Pediátrica: Usado para avaliar os reflexos primitivos e o desenvolvimento neurológico em crianças.
  4. Avaliação Ortopédica: Dor nas costas ou nos membros pode estar ligada a compressão de raízes nervosas (radiculopatias), e a alteração dos reflexos ajuda a localizar o nível da lesão.

Como Utilizar?

O segredo para um teste de reflexo bem-sucedido é garantir que o músculo esteja relaxado e que o golpe seja rápido e preciso. O martelo deve ser segurado pelo cabo, permitindo que a cabeça de borracha balance livremente.

Os Reflexos Mais Comumente Testados:

  1. Reflexo Patelar (Joelho):
    • Como fazer: O paciente deve estar sentado com as pernas pendentes, ou deitado com o examinador apoiando as pernas. Localize o tendão patelar (logo abaixo da rótula). Bata levemente, mas com firmeza, no tendão.
    • Resposta Esperada: Contração do músculo quadríceps e extensão da perna.
  2. Reflexo Aquileu (Tornozelo):
    • Como fazer: Com o paciente sentado, apoie o pé em uma leve dorsiflexão (apontando para cima). Bata no tendão de Aquiles (na parte de trás do tornozelo).
    • Resposta Esperada: Flexão plantar (o pé se move para baixo).
  3. Reflexo Bicipital (Braço):
    • Como fazer: O paciente deve estar com o braço dobrado (em flexão) e relaxado. O examinador coloca o polegar sobre o tendão do bíceps (na parte interna do cotovelo) e bate com o martelo no seu próprio polegar.
    • Resposta Esperada: Contração do bíceps e flexão do antebraço.

A Pontuação (Crucial para o Registro):

Os reflexos são classificados por um sistema de escore, que deve ser registrado por nós no prontuário:

  • 0: Reflexo Ausente.
  • 1+: Hiporreflexia (reflexo diminuído ou lento).
  • 2+: Reflexo Normal (ativo e esperado).
  • 3+: Hiperreflexia (reflexo exagerado ou mais vivo que o normal).
  • 4+: Clônus (reflexo repetitivo e oscilatório, patológico).

Cuidados de Enfermagem

O enfermeiro é frequentemente o primeiro a notar uma alteração sutil nos reflexos, o que exige um cuidado meticuloso.

  1. Preparação do Paciente: Garantir que o paciente esteja relaxado. A ansiedade ou a tensão muscular inibem os reflexos. Se necessário, utilizar a Manobra de Jendrassik (pedir ao paciente para apertar os dentes ou entrelaçar os dedos e puxar) para distraí-lo e potencializar a resposta do reflexo.
  2. Documentação Rigorosa: Registrar o escore de cada reflexo testado, lado a lado (direito e esquerdo), no prontuário. Uma diferença entre os lados (assimetria) é um sinal de alerta neurológico.
  3. Higiene: Por ser um instrumento de contato com a pele, o Martelo de Buck deve ser limpo e desinfetado entre o uso em diferentes pacientes.
  4. Comunicação: Qualquer alteração (reflexo ausente, muito exagerado ou assimétrico) deve ser imediatamente comunicada à equipe médica para uma investigação mais aprofundada.

Importância clínica

O exame com o martelo de Buck não é invasivo e fornece dados valiosos sobre o funcionamento neurológico do paciente. A alteração nos reflexos pode indicar desde lesões nervosas periféricas até doenças graves, como esclerose múltipla, neuropatias, distúrbios metabólicos ou lesões medulares. Por isso, mesmo sendo um instrumento simples, seu uso adequado é determinante para a prática clínica.

O Martelo de Buck é um símbolo da avaliação neurológica. Dominar seu uso e interpretação nos permite ser profissionais mais eficazes na detecção precoce de problemas no sistema nervoso, contribuindo diretamente para um diagnóstico mais rápido e um tratamento mais direcionado.

Referências:

  1. BICKLEY, L. S.; SZILAGYI, P. G.; HOFFMAN, R. M. Bates: Guia de Bolso para Exame Físico e História Clínica. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. (Consultar os capítulos sobre o sistema nervoso).
  2. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar os capítulos sobre exame físico neurológico).
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Exame neurológico: manual prático. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/exame_neurologico_manual_pratico.pdf
  4. MACHADO, A. B. M. Neuroanatomia funcional. 4. ed. São Paulo: Atheneu, 2014.
  5. NETTER, F. H. Atlas de Anatomia Humana. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.

Tampa Oclusora de Múltipla Ação COMBI RED: o que é, para que serve e cuidados de enfermagem

Na prática diária da enfermagem, especialmente em ambientes como pronto atendimento, enfermarias e unidades de terapia intensiva, o acesso venoso é uma das intervenções mais frequentes.

Junto a ele, surgem riscos importantes, como infecção relacionada à assistência à saúde, entrada de ar no sistema e extravasamento de fluidos. É nesse contexto que a tampa oclusora de múltipla ação COMBI RED, também chamado de “macho fêmea” ou “Combi-Stopper” ganha destaque como um dispositivo simples, mas extremamente relevante para a segurança do paciente.

Apesar de muitas vezes ser vista apenas como um “acessório” do sistema de infusão, a COMBI RED exerce funções fundamentais na manutenção do acesso vascular e na prevenção de complicações.

O que é a tampa oclusora de múltipla ação COMBI RED

A COMBI RED é um dispositivo médico estéril, descartável, utilizado para ocluir e proteger conexões de dispositivos intravenosos, como cateteres venosos periféricos, cateteres centrais, extensores e equipos. Seu design permite múltiplas funções em um único produto, reduzindo manipulações desnecessárias do sistema.

Ela é desenvolvida para atuar como uma barreira física contra microrganismos, impedir vazamentos e minimizar o risco de entrada de ar, além de permitir conexões seguras durante a administração de medicamentos ou soluções.

Por que a Combi Red é Diferente de uma Tampa Comum?

A principal característica que torna a Combi Red um padrão ouro em muitas instituições é a sua versatilidade. Em um sistema Luer-Lock padrão, temos conectores que se encaixam por rosca.

A tampa oclusora de múltipla ação apresenta as duas extremidades funcionais: de um lado, ela fecha conectores fêmea (como a ponta de um cateter ou de uma torneirinha de três vias) e, do outro, ela pode ser usada para selar conectores macho (como a ponta de uma seringa preparada que aguarda administração).

Fabricada geralmente em polietileno de alta densidade, ela é livre de látex e de DEHP, o que reduz o risco de reações alérgicas ou contaminações químicas. Além disso, sua cor vermelha vibrante não é apenas estética; ela serve como um alerta visual de que aquele lúmen está ocluído e protegido, facilitando a rápida identificação de qualquer desconexão acidental durante o exame físico do paciente.

Indicações de Uso no Cotidiano Hospitalar

O uso da Combi Red está indicado sempre que houver a necessidade de interromper temporariamente um sistema de infusão ou proteger uma via de acesso que não está sendo utilizada no momento.

Um exemplo clássico é quando um paciente precisa ser desconectado do soro para tomar banho ou realizar um exame de imagem. Para evitar que a ponta do cateter fique exposta ao ambiente — e, consequentemente, a bactérias — ou que ocorra refluxo de sangue, utilizamos a tampa para selar a via. Ela também é vital para proteger seringas que foram preparadas na farmácia ou no posto de enfermagem e precisam ser transportadas até o leito com garantia de esterilidade do bico.

Importância da COMBI RED na prevenção de infecções

Um dos maiores desafios da enfermagem moderna é a prevenção das infecções relacionadas ao uso de cateteres intravenosos. Cada conexão e desconexão do sistema representa um risco potencial de contaminação.

A COMBI RED atua como uma barreira protetora, diminuindo o contato direto do lúmen do cateter com o ambiente e com as mãos do profissional. Quando utilizada corretamente e associada às práticas de assepsia, contribui significativamente para a redução das infecções de corrente sanguínea associadas a cateter.

Esse cuidado é especialmente relevante em pacientes críticos, imunossuprimidos ou com uso prolongado de acessos venosos.

Cuidados de enfermagem no uso da COMBI RED

Apesar de ser um dispositivo simples, a tampa Combi Red exige um rigor técnico absoluto. Para um estudante de enfermagem, o domínio dessas condutas é o que separa um cuidado básico de uma prática de excelência.

Técnica Asséptica e o “Scrub the Hub”

Nunca se deve rosquear uma Combi Red em um dispositivo sem antes realizar a desinfecção da conexão. Mesmo que a tampa seja estéril ao sair da embalagem, a “boca” do cateter ou da torneirinha pode estar colonizada. O uso de álcool a 70% com fricção mecânica por pelo menos 15 segundos (o famoso scrub the hub) é obrigatório antes de fechar o sistema.

O Perigo da Reutilização

Este é, talvez, o ponto mais importante: a Combi Red é um dispositivo de uso único e estéril. Jamais reutilize uma tampa que foi retirada de um cateter. Uma vez que o sistema é aberto para conectar um equipo ou seringa, a tampa que estava lá deve ser descartada. Existe um hábito perigoso em algumas unidades de deixar a tampa “descansando” sobre a mesa de cabeceira ou dentro da embalagem aberta para reuso posterior. Isso é uma infração grave aos protocolos de segurança do paciente e um convite para a contaminação bacteriana.

Verificação de Vedação

Ao colocar a tampa, certifique-se de que ela foi rosqueada até o fim, mas sem exercer uma pressão excessiva que possa rachar o conector. A vedação deve ser perfeita para evitar o vazamento de fluidos ou a entrada de ar. Se notar qualquer rachadura na tampa ou se ela parecer “frouxa”, descarte-a imediatamente e utilize uma nova.

A Escolha Certa para a Segurança do Paciente

A utilização correta da tampa oclusora faz parte das metas internacionais de segurança do paciente. Ao manter o sistema fechado e estéril, reduzimos o tempo de internação e evitamos o uso desnecessário de antibióticos para tratar infecções que poderiam ter sido evitadas com um simples pedaço de plástico vermelho e uma técnica asséptica rigorosa.

Relação da COMBI RED com a segurança do paciente

A utilização adequada da tampa oclusora de múltipla ação está diretamente relacionada aos princípios da segurança do paciente. Ela ajuda a prevenir eventos adversos, como infecções, embolia gasosa e falhas no sistema de infusão.

Além disso, promove uma assistência mais padronizada, reduz variações na prática e fortalece a cultura de cuidado seguro dentro das instituições de saúde.

A tampa oclusora de múltipla ação COMBI RED é um dispositivo pequeno, mas de grande impacto na assistência de enfermagem. Seu uso correto contribui para a manutenção da integridade do acesso venoso, redução de infecções, segurança do paciente e otimização da rotina assistencial.

Para o estudante e para o profissional de enfermagem, compreender a função e a importância desse tipo de dispositivo é fundamental para uma prática baseada em segurança, técnica e responsabilidade.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  3. BRAUN. Combi-Stopper: Closing Cones for Male and Female Luer Connections. Disponível em: https://www.bbraun.com.br/pt/products/b0/combi-stopper.html
  4. INFUSION NURSES SOCIETY. Infusion therapy standards of practice. Journal of Infusion Nursing, 2021. Disponível em: https://www.ins1.org
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines on core components of infection prevention and control programmes. Geneva: WHO, 2016. Disponível em:
    https://www.who.int

Pós-operatório imediato, mediato e tardio: entendendo cada fase do cuidado ao paciente cirúrgico

O período pós-operatório é uma das etapas mais delicadas da assistência ao paciente cirúrgico. Para a enfermagem, compreender as diferenças entre o pós-operatório imediato, mediato e tardio não é apenas uma questão teórica — é o que orienta decisões, prioridades e intervenções que podem impactar diretamente na recuperação e até na vida do paciente.

Nesta publicação, vamos destrinchar cada uma dessas fases de forma clara, prática e aprofundada, ajudando você a entender o que acontece em cada momento, quais são os riscos e quais cuidados de enfermagem são fundamentais.

O que é o pós-operatório?

O pós-operatório corresponde ao período que se inicia logo após o término da cirurgia e se estende até a completa recuperação do paciente.

Esse período é dividido em três fases principais:

  • pós-operatório imediato;
  • pós-operatório mediato;
  • pós-operatório tardio.

Cada uma dessas fases possui características próprias, locais de assistência distintos e focos específicos de cuidado.

Pós-Operatório Imediato (POI): As Primeiras 24 Horas de Alerta

O Pós-Operatório Imediato, conhecido pela sigla POI, compreende as primeiras 24 horas após o término do procedimento cirúrgico. Este é, sem dúvida, o período mais crítico e de maior instabilidade hemodinâmica. O paciente ainda está sob o efeito de agentes anestésicos e seu organismo está tentando encontrar o equilíbrio após o estresse cirúrgico.

O paciente é encaminhado para:

  • Sala de Recuperação Pós-Anestésica (SRPA);
  • Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em casos mais graves.

Foco principal

Nesse momento, o foco é manter a vida e estabilizar o paciente. É uma fase crítica, onde podem ocorrer complicações imediatas relacionadas à anestesia e ao procedimento cirúrgico.

O que acontece com o paciente

O organismo ainda está sob efeito anestésico. Podem ocorrer:

  • depressão respiratória;
  • instabilidade hemodinâmica;
  • alteração do nível de consciência;
  • dor aguda;
  • risco de sangramento.

Cuidados de enfermagem no pós-operatório imediato

A atuação da enfermagem é intensiva e contínua. A prioridade é vigilância.

Monitorar sinais vitais de forma frequente é essencial, observando pressão arterial, frequência cardíaca, saturação e padrão respiratório. A via aérea deve ser mantida pérvia, especialmente em pacientes ainda sedados.

Outro ponto crítico é a avaliação do nível de consciência, utilizando escalas quando necessário. O controle da dor deve ser iniciado precocemente, seguindo prescrição médica.

Também é fundamental observar:

  • presença de sangramentos no curativo;
  • débito de drenos;
  • coloração da pele e perfusão.

O posicionamento adequado do paciente ajuda na ventilação e previne complicações.

Pós-Operatório Mediato (POM): Da Estabilidade à Reabilitação

O Pós-Operatório Mediato (POM) inicia-se após as primeiras 24 horas e estende-se até o momento em que o paciente recebe a alta hospitalar. Se o POI foi sobre sobrevivência e estabilidade, o POM é sobre prevenção de complicações e recuperação funcional.

O paciente geralmente está em:

  • enfermarias;
  • unidades de internação.

Foco principal

Aqui, o foco muda: sai da estabilização imediata e passa para prevenção de complicações e promoção da recuperação.

O que acontece com o paciente

O paciente começa a recuperar funções fisiológicas:

  • retorno da consciência plena;
  • início da alimentação;
  • recuperação da mobilidade.

Porém, é nesse período que surgem muitas complicações importantes.

Principais riscos

Cuidados de enfermagem no pós-operatório mediato

  • A enfermagem passa a atuar de forma mais educativa e preventiva.
  • A mobilização precoce é um dos pilares mais importantes. Incentivar o paciente a sair do leito, quando possível, reduz o risco de trombose e complicações pulmonares.
  • A higiene e o cuidado com a ferida operatória devem ser rigorosos, observando sinais de infecção como hiperemia, calor, dor e secreção.
  • O controle da dor continua sendo essencial, pois a dor mal controlada pode limitar a respiração profunda e a mobilização.
  • Outro cuidado importante é o estímulo à respiração adequada, muitas vezes com uso de exercícios respiratórios ou incentivadores.
  • A função intestinal deve ser acompanhada, assim como a aceitação da dieta.

Pós-Operatório Tardio (POT): O Caminho de Volta à Rotina

O Pós-Operatório Tardio (POT) começa no momento da alta hospitalar e se prolonga até a completa recuperação do paciente e a cicatrização total dos tecidos, o que pode levar semanas ou até meses, dependendo da cirurgia.

O paciente pode estar:

  • em casa;
  • em acompanhamento ambulatorial.

Foco principal

O foco é a reabilitação completa e prevenção de complicações tardias.

O que acontece com o paciente

O organismo já está em fase de cicatrização e adaptação.

Nesse momento, o paciente retoma gradualmente suas atividades diárias.

Possíveis complicações tardias

  • infecção tardia;
  • deiscência de sutura;
  • hérnias incisionais;
  • limitações funcionais.

Cuidados de enfermagem no pós-operatório tardio

A enfermagem tem um papel fundamental na educação em saúde.

O paciente deve ser orientado sobre:

  • cuidados com a ferida cirúrgica;
  • sinais de alerta;
  • retorno às atividades;
  • adesão ao acompanhamento médico.

Também é importante reforçar a importância de hábitos saudáveis, como alimentação adequada e atividade física orientada.

O acompanhamento emocional também pode ser necessário, principalmente em cirurgias de grande impacto.

Comparando as três fases: o que realmente muda

A principal diferença entre as fases está no foco da assistência.

  • No pós-operatório imediato, o objetivo é manter o paciente vivo e estável.
  • No mediato, o foco é evitar complicações e promover recuperação.
  • No tardio, o objetivo é garantir reabilitação e qualidade de vida.

Além disso, o ambiente muda, assim como o nível de complexidade dos cuidados.

Resumo Comparativo

Fase Tempo de Duração Local Comum Foco Principal
POI 0 às 24 horas pós-cirurgia SRPA ou UTI Estabilidade hemodinâmica e despertar
POM Após 24 horas até a alta Enfermaria Prevenção de infecção e deambulação
POT Da alta até a recuperação total Domicílio ou Ambulatório Cicatrização e retorno às atividades

A importância da enfermagem em todas as fases

A enfermagem está presente em todas as etapas do pós-operatório. Desde a vigilância intensiva nas primeiras horas até a educação do paciente em casa, o cuidado contínuo faz toda a diferença. Uma observação simples, como identificar um início de infecção ou uma alteração respiratória, pode evitar complicações graves.

Entender as diferenças entre o pós-operatório imediato, mediato e tardio é essencial para qualquer estudante ou profissional de enfermagem.

Mais do que decorar tempos, é importante compreender o raciocínio por trás de cada fase:

  • o que o paciente precisa naquele momento;
  • quais são os principais riscos;
  • quais intervenções fazem diferença.

Esse olhar clínico é o que transforma a prática da enfermagem em um cuidado seguro, eficaz e humanizado.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CENTRO DE MATERIAL E ESTERILIZAÇÃO (SOBECC). Diretrizes de Práticas em Enfermagem Cirúrgica e Processamento de Produtos para a Saúde. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2023.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos de Segurança do Paciente: Cirurgia Segura. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  3. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  4. SMELTZER, Suzanne C.; BARE, Brenda G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020.
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Assistência ao paciente cirúrgico. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br
  6. SMELTZER, Suzanne C.; BARE, Brenda G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019.
  7. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.
  8. SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENFERMAGEM EM CENTRO CIRÚRGICO (SOBECC). Práticas recomendadas em centro cirúrgico. Disponível em: https://sobecc.org.br

Erisipela e Celulite: entendendo as diferenças na prática clínica

Infecções de pele são extremamente comuns na prática assistencial, especialmente em unidades de pronto atendimento, enfermarias e UTI. Entre elas, duas condições costumam gerar dúvidas frequentes, inclusive entre profissionais de saúde: a erisipela e a celulite infecciosa.

Embora muitas vezes usadas como sinônimos no dia a dia, essas duas doenças possuem diferenças importantes — tanto na profundidade da infecção quanto na apresentação clínica e no manejo.

Nesta publicação, vamos explorar de forma clara e prática tudo o que você precisa saber para diferenciar erisipela de celulite, com foco no raciocínio clínico e nos cuidados de enfermagem.

O que é a Erisipela?

A erisipela é uma infecção que atinge as camadas mais superficiais da pele, especificamente a derme superior, com um envolvimento marcante dos vasos linfáticos superficiais. O agente etiológico mais comum é o Streptococcus pyogenes. Uma das características mais marcantes da erisipela é o seu início súbito. O paciente costuma relatar que a mancha apareceu “do nada”, acompanhada de calafrios e febre alta.

O que realmente define a erisipela no exame visual são as suas bordas. Elas são nítidas e bem delimitadas. Você consegue ver exatamente onde a infecção termina e onde a pele sadia começa. A área afetada apresenta um aspecto de “casca de laranja”, é brilhante, endurecida e tem uma cor vermelho-viva, quase escarlate. É muito comum a presença de ínguas (linfonodomegalias) próximas à região, devido ao comprometimento do sistema linfático.

O que é a Celulite Infecciosa?

Diferente da erisipela, a celulite infecciosa (que não deve ser confundida com a “celulite” estética ou fibroedema geloide) atinge a derme profunda e o tecido subcutâneo, que é a nossa camada de gordura. Os vilões aqui costumam ser tanto o Streptococcus quanto o Staphylococcus aureus. Por ser uma infecção mais profunda, o processo costuma ser um pouco mais lento no início do que a erisipela, mas nem por isso menos grave.

Na celulite, as bordas da lesão são mal definidas. É difícil dizer com precisão onde a vermelhidão acaba, pois ela se “espalha” de forma gradual para os tecidos vizinhos. A cor tende a ser um vermelho mais fosco ou arroxeado, e a dor costuma ser descrita como algo mais profundo. Como a gordura está inflamada, o edema (inchaço) pode ser muito mais acentuado do que na erisipela, e o risco de formação de abscessos ou evolução para uma infecção sistêmica é considerável se não houver intervenção rápida.

Entenda suas diferenças

A diferença central entre essas duas condições está na profundidade da infecção e na aparência da lesão.

A erisipela é mais superficial e bem delimitada, enquanto a celulite é mais profunda e difusa.

Na prática clínica, isso se traduz em:

  • erisipela com bordas nítidas versus celulite com limites imprecisos;
  • erisipela mais associada ao sistema linfático;
  • celulite com maior risco de complicações locais, como abscessos.

Outra diferença importante está na evolução.

A erisipela tende a ter início mais súbito, com sintomas sistêmicos mais evidentes. Já a celulite pode ter evolução mais insidiosa.

Fatores de risco

Ambas as condições compartilham fatores de risco semelhantes, o que explica por que muitas vezes ocorrem em perfis parecidos de pacientes.

Entre os principais fatores estão:

  • diabetes mellitus;
  • insuficiência venosa crônica;
  • linfedema;
  • obesidade;
  • lesões cutâneas (fissuras, micoses, feridas).

A porta de entrada da bactéria é um ponto chave, especialmente em membros inferiores.

Diagnóstico clínico

O diagnóstico de erisipela e celulite é essencialmente clínico.

A avaliação deve considerar:

  • aspecto da lesão;
  • delimitação da área afetada;
  • profundidade aparente;
  • presença de sintomas sistêmicos.

Exames laboratoriais podem auxiliar, como leucograma e PCR, mas não são específicos.

Em casos mais graves, exames de imagem podem ser necessários para descartar complicações, como abscessos ou fasciíte necrosante.

Tratamento

O tratamento de ambas as condições é baseado em antibioticoterapia.

Na erisipela, o foco costuma ser em cobertura para estreptococos. Na celulite, especialmente quando há suspeita de infecção mais profunda ou purulenta, pode ser necessário ampliar a cobertura para incluir estafilococos.

Além disso, medidas de suporte são fundamentais:

  • elevação do membro afetado;
  • controle da dor;
  • hidratação;
  • tratamento da porta de entrada.

Complicações possíveis

Se não tratadas adequadamente, tanto a erisipela quanto a celulite podem evoluir com complicações.

Entre elas:

  • abscessos;
  • sepse;
  • tromboflebite;
  • necrose tecidual.

A celulite, por ser mais profunda, apresenta maior risco de complicações locais graves.

Cuidados de Enfermagem

O papel da enfermagem no tratamento dessas infecções é fundamental para a recuperação tecidual e prevenção de recidivas. O cuidado vai muito além de apenas administrar o antibiótico nos horários corretos.

Demarcação da Lesão e Monitoramento

Um dos cuidados mais práticos e eficazes é o uso de uma caneta dermográfica para contornar a área da vermelhidão no momento da admissão. Isso permite que a equipe de enfermagem visualize, de forma objetiva, se a infecção está regredindo com o tratamento ou se está avançando. Além disso, a aferição frequente da temperatura axilar e a palpação do calor local são essenciais para monitorar a resposta inflamatória.

Posicionamento e Conforto

O repouso com o membro elevado é uma das prescrições de enfermagem mais importantes. A elevação ajuda a reduzir o edema por gravidade, o que diminui a dor e facilita a chegada dos antibióticos aos tecidos. É preciso ter cuidado para que o apoio seja sob toda a perna, evitando pontos de pressão excessiva no calcanhar que possam gerar lesões por pressão.

Cuidados com a Pele e Higiene

Manter a pele limpa e seca é vital. Se houver bolhas, o enfermeiro deve avaliar a necessidade de curativos específicos, evitando estourá-las para não criar novas portas de entrada para bactérias. Além disso, é essencial tratar a causa primária. Se o paciente tem uma micose interdigital, de nada adiantará tratar a erisipela se a porta de entrada continuar aberta. A hidratação da pele (onde não houver lesão ativa) ajuda a prevenir novas fissuras.

Erisipela e celulite são infecções comuns, mas que exigem atenção e conhecimento para um manejo adequado. Saber diferenciá-las na prática clínica é essencial para direcionar o tratamento correto e prevenir complicações.

Para a enfermagem, essa diferenciação não é apenas teórica — ela impacta diretamente na avaliação, no cuidado e na segurança do paciente.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos de manejo de infecções de partes moles. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA (SBD). Erisipela e Celulite: Diagnóstico e Tratamento. Rio de Janeiro: SBD, 2024. Disponível em: https://www.sbd.org.br/
  3. STEVENS, D. L.; BRYANT, A. E. Infectious Diseases of the Skin and Soft Tissue. In: Harrison’s Principles of Internal Medicine. 21. ed. New York: McGraw Hill, 2022.
  4. TAMEZ, Eloísa A.; SILVA, Maria Jones P. Enfermagem na Assistência em Infectologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
  5. UPTODATE. Cellulitis and erysipelas: clinical features and diagnosis. Disponível em: https://www.uptodate.com
  6. STEvens, D. L. et al. Practice guidelines for the diagnosis and management of skin and soft tissue infections. Clinical Infectious Diseases.
    Disponível em: https://academic.oup.com/cid

Azul da Prússia: do pigmento artístico ao antídoto em intoxicações radioativas

O Azul da Prússia é uma substância que chama atenção não apenas pela sua cor intensa e história na arte, mas também por um uso médico extremamente específico e importante: o tratamento de intoxicações por certos elementos radioativos. Para quem atua na área da saúde, especialmente na enfermagem, conhecer esse composto vai além da curiosidade — envolve compreender um recurso terapêutico raro, porém vital em situações críticas.

Nesta publicação, vamos explorar o que é o Azul da Prússia, como ele atua no organismo, suas indicações clínicas, curiosidades históricas e seu papel marcante no acidente com césio-137 no Brasil.

A Origem Acidental de um Ícone Visual

Tudo começou por volta de 1704, em Berlim. Um fabricante de tintas chamado Heinrich Diesbach estava tentando criar um pigmento vermelho, mas, devido a uma contaminação com sangue bovino e potássio, acabou obtendo um azul profundo e intenso. Esse foi o primeiro pigmento sintético moderno. Antes dele, o azul era extraído da pedra lápis-lazúli, o que o tornava mais caro que o ouro.

O Azul da Prússia, quimicamente conhecido como hexacianoferrato férrico, rapidamente se tornou o padrão na arte. Ele é a cor que vemos na famosa obra “A Grande Onda de Kanagawa” e nas pinturas melancólicas da fase azul de Pablo Picasso. No entanto, sua trajetória tomou um rumo médico quando cientistas descobriram que sua estrutura molecular funcionava como uma “gaiola” química, capaz de prender certos metais pesados.

Quimicamente, ele possui uma estrutura cristalina capaz de interagir com certos íons metálicos, característica que mais tarde se mostrou extremamente útil na medicina.

Como o Azul da Prússia atua no organismo

O uso medicinal do Azul da Prússia está diretamente relacionado à sua capacidade de troca iônica no trato gastrointestinal.

Quando administrado por via oral, ele não é absorvido pelo organismo. Em vez disso, permanece no intestino, onde:

  • se liga a metais pesados específicos;
  • impede sua reabsorção (circulação entero-hepática);
  • facilita a eliminação pelas fezes.

Essa ação é especialmente eficaz para elementos como:

  • césio (Cs-137);
  • tálio.

Na prática, o Azul da Prússia “aprisiona” essas substâncias no intestino, reduzindo sua meia-vida biológica e diminuindo a exposição sistêmica.

Quando administrado por via oral, não é absorvido pelo organismo; ele permanece no trato gastrointestinal. Ali, ele atua trocando seus íons de potássio pelos íons de césio. O césio fica preso na rede molecular do pigmento e é eliminado de forma segura através das fezes, impedindo que o elemento radioativo volte para o sangue.

Indicações médicas do Azul da Prússia

Intoxicação por césio radioativo

A principal indicação do Azul da Prússia é no tratamento da contaminação por césio-137, um elemento radioativo altamente perigoso.

Ele é utilizado para:

  • reduzir a carga corporal de radiação;
  • acelerar a eliminação do césio;
  • diminuir o risco de complicações sistêmicas.

Intoxicação por tálio

Outra indicação importante é a intoxicação por tálio, um metal pesado extremamente tóxico. Nesses casos, o Azul da Prússia atua de forma semelhante, promovendo a eliminação fecal do metal.

O Azul da Prússia e a Tragédia de Goiânia em 1987

Não há como falar dessa substância sem citar o maior acidente radioativo ocorrido fora de usinas nucleares: o caso do Césio-137 em Goiânia. Quando a cápsula de um aparelho de radioterapia abandonado foi aberta, o brilho azul sedutor do pó de césio encantou pessoas que, sem saber do perigo, contaminaram a si mesmas e a seus familiares.

Naquela época, o Azul da Prússia foi o grande herói farmacológico. Ele foi importado às pressas e administrado às vítimas para acelerar a eliminação do césio do corpo. Sem o antídoto, a radiação permaneceria muito mais tempo nos tecidos das vítimas, causando danos celulares ainda mais devastadores.

Os profissionais de enfermagem da época tiveram o desafio hercúleo de administrar doses elevadas do pigmento e gerenciar os efeitos de uma contaminação em larga escala que o mundo nunca tinha visto antes em ambiente urbano.

Nesse contexto, sua função foi:

  • reduzir a absorção contínua do césio;
  • acelerar a eliminação do radionuclídeo;
  • contribuir para a redução da dose interna de radiação.

Esse episódio marcou a história da saúde pública brasileira e destacou a importância de terapias específicas em situações de emergência radiológica.

Curiosidades sobre o Azul da Prússia

O Azul da Prússia possui uma trajetória bastante interessante:

Ele foi um dos primeiros pigmentos sintéticos da história, revolucionando a pintura por oferecer uma cor intensa e acessível. Artistas como Van Gogh e Hokusai utilizaram esse pigmento em suas obras, o que demonstra sua relevância cultural.

Além disso, apesar de conter o termo “cianeto” em sua composição química, o composto é estável e seguro quando utilizado corretamente, não liberando cianeto livre em condições normais.

Na medicina, ele é classificado como um antídoto específico, algo relativamente raro na prática clínica.

Outra curiosidade é o seu uso na engenharia e nos primeiros processos de cópia de documentos, conhecidos como “blueprints”. Aquelas plantas de arquitetura azuis que vemos em filmes antigos devem sua cor à mesma reação química que hoje salva pacientes contaminados por metais pesados.

Farmacologia e administração

O Azul da Prússia é administrado por via oral, geralmente em cápsulas.  A dose varia conforme o grau de intoxicação e a orientação médica, podendo ser utilizada por dias ou semanas.

Como não é absorvido, sua ação é local no trato gastrointestinal. Um ponto importante é que sua eficácia depende da presença do contaminante no ciclo entero-hepático — por isso, quanto mais precoce o uso, melhor o resultado.

Efeitos adversos

De forma geral, o Azul da Prússia é bem tolerado.

Os efeitos mais comuns incluem:

  • constipação intestinal;
  • desconforto abdominal;
  • coloração azulada das fezes.

Esses efeitos são esperados e geralmente não representam risco significativo.

Cuidados de enfermagem no uso do Azul da Prússia

A administração do Azul da Prússia (comercialmente conhecido em alguns países como Radiogardase) exige uma assistência de enfermagem vigilante. Como estudantes e futuros profissionais, é preciso estar atento a pontos específicos.

Gerenciamento da Eliminação e Higiene

O efeito colateral mais óbvio é a mudança na coloração das fezes, que ficam azuladas ou esverdeadas. O enfermeiro deve orientar o paciente sobre isso para evitar pânico. Além disso, em casos de contaminação radioativa, as fezes do paciente tornam-se rejeitos radioativos. A enfermagem deve seguir protocolos rigorosos de biossegurança no manejo de excretas, utilizando EPIs adequados e recipientes de descarte específicos.

Monitorização Gastrointestinal

O Azul da Prússia pode causar constipação intestinal severa. É papel da enfermagem monitorar a frequência das evacuações e os ruídos hidroaéreos. Em muitos casos, é necessária a prescrição de laxantes ou uma dieta rica em fibras para garantir que o pigmento (carregado de césio) saia do corpo o mais rápido possível, diminuindo o tempo de exposição da mucosa intestinal à radiação.

Avaliação de Eletrólitos

Como o mecanismo de ação envolve a troca de íons, pode haver uma redução nos níveis de potássio sérico. O acompanhamento laboratorial constante e a observação de sinais de hipocalemia (como fraqueza muscular ou arritmias) são fundamentais durante o tratamento prolongado.

Controle da contaminação

Em casos de exposição radiológica, a enfermagem também deve atuar em:

  • medidas de isolamento, quando necessário;
  • uso de equipamentos de proteção individual;
  • manejo adequado de resíduos.

Importância para a prática em saúde

Embora o Azul da Prússia não seja um medicamento de uso rotineiro, seu conhecimento é essencial, especialmente para profissionais que atuam em:

  • terapia intensiva;
  • emergência;
  • saúde pública;
  • situações de desastre.

Ele representa um exemplo claro de como a química pode ser aplicada de forma prática e salvadora na medicina.

O Azul da Prússia é um excelente exemplo de como uma substância inicialmente criada para a arte pode ganhar um papel fundamental na medicina. Seu uso como antídoto em intoxicações por césio e tálio demonstra a importância do conhecimento interdisciplinar na área da saúde.

Para a enfermagem, compreender seu mecanismo, indicações e cuidados é essencial para garantir uma assistência segura e eficaz, especialmente em cenários críticos.

Referências:

  1. BRASIL. Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). O Acidente de Goiânia: 30 anos depois. Rio de Janeiro: CNEN, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/cnen/pt-br.
  2. FOULKES, A. S. Prussian Blue: from pigment to antidote. Journal of Chemical Education, v. 91, n. 3, p. 320-325, 2014. Disponível em: https://pubs.acs.org/journal/jceda8.
  3. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Protocolos de assistência às vítimas de acidentes radiológicos. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br.
  4. U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Radiogardase (Prussian blue) insoluble capsules. Silver Spring: FDA, 2022. Disponível em: https://www.fda.gov/drugs
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Acidente radiológico com césio-137 em Goiânia. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/acidente_cesio_goiania.pdf
  6. IAEA (International Atomic Energy Agency). The radiological accident in Goiânia. Viena, 1988. Disponível em: https://www.iaea.org/publications/3782/the-radiological-accident-in-goiania
  7. UNITED STATES FDA. Prussian Blue (Radiogardase) information. Disponível em: https://www.fda.gov
  8. CDC (Centers for Disease Control and Prevention). Prussian Blue factsheet. Disponível em: https://emergency.cdc.gov

Nomenclatura Internacional dos cateteres venosos centrais: atualização da ABENTI 01/2026

A forma como nomeamos os dispositivos em saúde não é apenas uma questão teórica — ela impacta diretamente a segurança do paciente, a comunicação entre equipes e a qualidade da assistência. Pensando nisso, a Nota Técnica 01/2026 da ABENTI (Associação Brasileira de Enfermagem em Terapia Intensiva) trouxe uma atualização importante: a padronização internacional da nomenclatura dos cateteres venosos centrais (CVC).

Essa mudança acompanha tendências globais, especialmente propostas por redes internacionais como a Global Vascular Access Network, e busca eliminar ambiguidades no uso de termos como “CVC”, “PICC” ou “cateter central” usados de forma genérica.

Neste artigo, você vai entender de forma clara e aprofundada essa nova padronização, incluindo termos como PICC, CICC, FICC, PORT, cateteres tunelizados (com cuff) e não tunelizados (sem cuff), além dos impactos práticos para a enfermagem.

Por que houve mudança na nomenclatura?

Durante muito tempo, a prática clínica utilizou termos de forma inconsistente. Um mesmo dispositivo podia ser chamado de diferentes formas, dependendo da instituição ou do profissional.

Isso gerava problemas como:

  • falhas de comunicação entre equipes;
  • erros na prescrição e administração de terapias;
  • dificuldade na padronização de protocolos;
  • aumento do risco de eventos adversos.

A ABENTI propõe uma mudança baseada em um princípio simples: nomear o cateter de forma descritiva, técnica e padronizada internacionalmente.

O conceito central: CVAD (Central Venous Access Device)

A base da nova nomenclatura é o termo:

CVAD (Central Venous Access Device) — Dispositivo de Acesso Venoso Central

Esse termo passa a englobar todos os dispositivos cuja ponta esteja posicionada na circulação central (veia cava ou átrio direito).

A partir dele, os cateteres são classificados conforme:

  • local de inserção;
  • trajeto;
  • presença de túnel ou cuff;
  • tipo de implantação.

Classificação atual dos cateteres venosos centrais

PICC (Peripherally Inserted Central Catheter)

O PICC continua sendo um dos dispositivos mais utilizados na prática.

Ele é definido como:

  • inserido por veia periférica (geralmente braço)
  • com ponta em posição central
  • indicado para terapias prolongadas

É amplamente utilizado para antibioticoterapia, nutrição parenteral e quimioterapia, com boa segurança e menor taxa de complicações em relação a outros acessos.

Na nova nomenclatura, o PICC é um tipo específico de CVAD.

CICC (Centrally Inserted Central Catheter)

O CICC corresponde ao que tradicionalmente era chamado de “CVC clássico”.

Características:

  • inserção direta em veias centrais (jugular, subclávia ou femoral)
  • geralmente de uso mais agudo
  • comum em pacientes críticos

A mudança aqui é importante: o termo “CVC” genérico deve ser evitado — o correto passa a ser CICC, especificando o tipo de inserção.

FICC (Femoral Inserted Central Catheter)

O FICC é um subtipo específico de CICC.

Características:

  • inserção pela veia femoral
  • muito utilizado em situações emergenciais
  • maior risco de infecção e trombose em comparação a outros acessos

A padronização permite diferenciar claramente esse acesso dos demais, o que antes nem sempre acontecia.

Cateteres tunelizados (com cuff)

Esses cateteres possuem um trajeto subcutâneo antes de entrar na circulação venosa.

O cuff (manguito) é um componente importante:

  • atua como barreira contra infecção
  • promove fixação do cateter
  • reduz risco de deslocamento

São indicados para terapias prolongadas, como:

  • hemodiálise
  • quimioterapia
  • nutrição parenteral de longa duração

Cateteres não tunelizados (sem cuff)

São os mais utilizados em ambiente hospitalar agudo.

Características:

  • inserção direta na veia
  • sem túnel subcutâneo
  • maior risco de infecção com uso prolongado

São frequentemente utilizados em UTIs e emergências.

PORT (dispositivo totalmente implantável)

Os PORTs, também conhecidos como port-a-cath, são dispositivos implantáveis.

Características:

  • totalmente sob a pele
  • acesso por punção com agulha específica
  • menor risco de infecção externa
  • maior conforto para o paciente

São amplamente utilizados em pacientes oncológicos.

O que muda na prática com a nova nomenclatura

A principal mudança não está no dispositivo em si, mas na forma de comunicar.

Agora, ao invés de dizer:

“Paciente com CVC”

O correto será algo como:

“Paciente com CICC não tunelizado, duplo lúmen, em jugular direita”

Essa especificidade melhora:

  • segurança na administração de medicamentos;
  • organização da terapia infusional;
  • comunicação entre equipes;
  • rastreabilidade do cuidado.

Relação com segurança do paciente

A padronização da nomenclatura está diretamente ligada à segurança assistencial.

A Nota Técnica reforça que erros relacionados a cateteres frequentemente envolvem:

  • uso inadequado de lúmens;
  • incompatibilidade medicamentosa;
  • falhas na manutenção;
  • infecções relacionadas ao dispositivo.

Além disso, a oclusão de cateteres como CICC e FICC pode ocorrer por trombose, refluxo sanguíneo ou precipitação de medicamentos, exigindo boas práticas de manejo.

Cuidados de enfermagem diante da nova padronização

A enfermagem tem papel central na aplicação dessa mudança.

Registro correto e completo

É essencial documentar:

  • tipo de cateter (PICC, CICC, FICC, etc.);
  • presença de cuff;
  • número de lúmens;
  • local de inserção.

Isso garante continuidade do cuidado e segurança.

Vigilância do Curativo e Sítio de Inserção

Em cateteres não tunelizados, o uso de coberturas transparentes é o padrão ouro, pois permite a inspeção visual diária sem a necessidade de manipular o dispositivo. No caso dos tunelizados (com cuff), após a cicatrização do túnel, o curativo pode ser dispensado em alguns protocolos, mas a palpação do trajeto subcutâneo deve ser feita em busca de sinais de logradouro (dor, calor ou secreção).

Manutenção da Patência: Flush e Lock

Independente de ser um PICC, CICC ou FICC, a lavagem do lúmen deve ser feita com soro fisiológico 0,9% utilizando a técnica de pressão positiva (pulsátil). O volume deve ser generoso (mínimo de 10ml ou duas vezes o priming do cateter) para evitar o acúmulo de fibrina e a obstrução do lúmen. Em cateteres PORT, após o uso, o “lock” (selo) deve ser realizado conforme o protocolo institucional para garantir que o sangue não retorne para dentro da agulha.

O Conceito de Scrub the Hub

A infecção é a maior inimiga dos cateteres centrais. A nova diretriz reforça a necessidade da desinfecção ativa dos conectores valvulados (hubs). O enfermeiro deve realizar a fricção vigorosa com álcool 70% por pelo menos 15 segundos antes de qualquer infusão ou coleta de sangue. Esse gesto simples é capaz de reduzir drasticamente as taxas de Infecção Primária de Corrente Sanguínea (IPCS).

Comunicação efetiva

Durante passagem de plantão e discussão clínica, deve-se utilizar a terminologia padronizada.

Isso reduz erros e melhora o trabalho em equipe.

Manejo adequado dos lúmens

Cada lúmen deve ter uma finalidade definida, respeitando:

  • compatibilidade de soluções;
  • protocolos institucionais;
  • risco de infecção.

Prevenção de infecção

A identificação correta do tipo de cateter orienta:

  • técnica de curativo;
  • frequência de troca;
  • cuidados na manipulação.

Educação permanente

A equipe de enfermagem também atua como multiplicadora do conhecimento, ajudando a implementar a nova linguagem na prática clínica.

A mudança na nomenclatura dos cateteres venosos centrais proposta pela ABENTI em 2026 representa um avanço importante na prática da terapia intensiva.

Mais do que uma atualização terminológica, trata-se de uma estratégia de:

  • padronização da comunicação;
  • melhoria da segurança do paciente;
  • qualificação da assistência.

Para a enfermagem, compreender e aplicar essa nova nomenclatura é essencial, pois o cuidado com o acesso venoso central está diretamente ligado à prática diária.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMAGEM EM TERAPIA INTENSIVA (ABENTI). NT-ABENTI-0126: Padronização da nomenclatura internacional de dispositivos de acesso vascular. São Paulo: ABENTI, 2026. Disponível em: https://abenti.org.br/wp-content/uploads/2026/03/NT-ABENTI-0126.pdf
  2. INFUSION NURSES SOCIETY (INS). Infusion Therapy Standards of Practice. 9. ed. Journal of Infusion Nursing, 2024. Disponível em: https://www.ins1.org
  3. PITTS, S. J. et al. Global vascular access terminology: A consensus for clinical practice. World Congress on Vascular Access (WoCoVA), 2025. Disponível em: https://www.wocova.com
  4. TAMEZ, Eloísa A.; SILVA, Maria Jones P. Enfermagem na Terapia Intensiva: Prática Baseada em Evidências. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2025.
  5. ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA (AMIB). Nota Técnica ABENTI-AMIB 01/2026. 2026. Disponível em: https://amib.org.br/nota-tecnica-01-2026-abenti-amib/ 
  6. DI SANTO, M. K. et al. Cateteres venosos centrais de inserção periférica. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5915858/

Doença de Parkinson: Compreensão clínica, evolução e cuidados de enfermagem

A Doença de Parkinson é uma condição neurológica crônica e progressiva que afeta milhões de pessoas no mundo. Embora seja mais comum em idosos, também pode acometer adultos mais jovens, trazendo impactos importantes na mobilidade, na autonomia e na qualidade de vida. Para a enfermagem, compreender o Parkinson vai muito além de reconhecer o tremor: envolve entender sua fisiopatologia, evolução, tratamento e, principalmente, o cuidado integral ao paciente.

Neste artigo, abordaremos a Doença de Parkinson de forma clara e detalhada, com foco na prática da enfermagem e no cuidado humanizado.

O que é a Doença de Parkinson?

A Doença de Parkinson é um distúrbio neurodegenerativo que afeta principalmente o sistema nervoso central, caracterizado pela perda progressiva de neurônios produtores de dopamina na substância negra do cérebro.

A dopamina é um neurotransmissor essencial para o controle dos movimentos voluntários. À medida que sua produção diminui, o cérebro passa a ter dificuldade em coordenar movimentos suaves e precisos, resultando nos sinais e sintomas clássicos da doença.

Trata-se de uma doença crônica, sem cura até o momento, mas com tratamento capaz de controlar sintomas e melhorar significativamente a qualidade de vida.

Fisiopatologia da Doença de Parkinson

Na Doença de Parkinson ocorre a degeneração dos neurônios dopaminérgicos da substância negra pars compacta. Essa perda leva a um desequilíbrio entre dopamina e acetilcolina nos gânglios da base, estruturas responsáveis pelo controle motor.

Além disso, há acúmulo anormal de proteínas no interior dos neurônios, formando os chamados corpos de Lewy, considerados um dos marcadores patológicos da doença.

Esse processo neurodegenerativo é lento e progressivo, o que explica a evolução gradual dos sintomas ao longo dos anos.

Principais causas e fatores de risco

A causa exata da Doença de Parkinson ainda não é totalmente conhecida. Acredita-se que seja resultado da interação entre fatores genéticos e ambientais.

Entre os principais fatores associados estão o envelhecimento, histórico familiar da doença, exposição a pesticidas e toxinas ambientais, além de fatores genéticos específicos em alguns casos. O sexo masculino também apresenta maior incidência quando comparado ao feminino.

Sinais e sintomas da Doença de Parkinson

Os sintomas do Parkinson são classificados em motores e não motores, sendo estes últimos muitas vezes subestimados, mas extremamente relevantes para a enfermagem.

Sintomas motores

Os sintomas motores clássicos incluem o tremor de repouso, geralmente iniciado de forma unilateral, a rigidez muscular, a bradicinesia (lentidão dos movimentos) e a instabilidade postural, que aumenta o risco de quedas.

Com a progressão da doença, o paciente pode apresentar marcha arrastada, passos curtos, postura curvada e diminuição do balanço dos braços ao caminhar.

Sintomas não motores

Os sintomas não motores podem surgir precocemente e incluem alterações do sono, constipação intestinal, depressão, ansiedade, alterações cognitivas, distúrbios autonômicos (como hipotensão ortostática), alterações urinárias e disfagia.

Esses sintomas impactam profundamente a qualidade de vida e exigem atenção constante da equipe de enfermagem.

Diagnóstico da Doença de Parkinson

O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história do paciente e no exame neurológico. Não existe um exame laboratorial específico que confirme a doença.

Exames de imagem, como a ressonância magnética, são utilizados principalmente para excluir outras patologias neurológicas. A boa resposta à levodopa também auxilia na confirmação diagnóstica.

Tratamento da Doença de Parkinson

O tratamento é sintomático e individualizado, tendo como principal objetivo melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida do paciente.

O medicamento mais utilizado é a levodopa, que atua como precursor da dopamina. Outros fármacos incluem agonistas dopaminérgicos, inibidores da MAO-B e inibidores da COMT.

Em casos selecionados, pode-se indicar tratamento cirúrgico, como a estimulação cerebral profunda. Além disso, terapias não farmacológicas, como fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, são fundamentais.

Cuidados de enfermagem ao paciente com Doença de Parkinson

A enfermagem tem papel central no cuidado ao paciente com Parkinson, acompanhando desde o diagnóstico até as fases mais avançadas da doença.

Segurança e Mobilidade

A prevenção de quedas é a nossa prioridade número um. Devemos orientar a família a retirar tapetes, melhorar a iluminação da casa e, se necessário, instalar barras de apoio. No ambiente hospitalar, o uso de calçados fechados e antiderrapantes é obrigatório. Incentivar a deambulação com passos largos e o levantamento dos pés do chão ajuda a combater a “marcha festinante” (passos curtos e rápidos).

É essencial realizar avaliação contínua da mobilidade, risco de quedas e capacidade funcional, implementando medidas de segurança no ambiente hospitalar e domiciliar.

Gestão da Farmacoterapia e o Fenômeno On-Off

A Levodopa é o padrão-ouro no tratamento. O maior cuidado de enfermagem aqui é o rigor com o horário. O paciente com Parkinson vive o fenômeno “on-off”: quando a medicação está fazendo efeito (on), ele se movimenta bem; quando o nível sanguíneo cai (off), ele pode “congelar” subitamente. O atraso de apenas 15 minutos na medicação pode significar horas de imobilidade para o paciente. Além disso, devemos orientar que a medicação não seja tomada junto com refeições ricas em proteínas, pois elas competem com a absorção da Levodopa no intestino.

O aprazamento correto das medicações merece atenção especial, pois atrasos ou omissões podem levar à piora importante dos sintomas motores. A enfermagem deve observar efeitos adversos, como discinesias, náuseas, hipotensão postural e alterações cognitivas.

Cuidados com a Nutrição e Eliminações

Devido à disfagia, a dieta deve ter sua consistência avaliada (pastosa, se necessário). O enfermeiro deve observar sinais de tosse durante a alimentação. Quanto à constipação, o incentivo à ingestão hídrica e dietas ricas em fibras deve ser constante. É importante também monitorar a função urinária, já que a urgência miccional é comum, aumentando o risco de quedas em idas apressadas ao banheiro durante a noite.

O cuidado com a deglutição é fundamental, principalmente em fases avançadas, devido ao risco de aspiração. Orientar sobre consistência alimentar adequada e postura durante as refeições é uma intervenção importante.

A enfermagem também atua no apoio emocional, tanto ao paciente quanto à família, auxiliando no enfrentamento de uma doença crônica e progressiva.

Educação em saúde, incentivo à adesão ao tratamento e orientação sobre autocuidado fazem parte do cuidado integral.

Impacto da Doença de Parkinson na vida do paciente

Com a progressão da doença, o paciente pode apresentar perda gradual da autonomia, necessitando de ajuda para atividades básicas. Esse processo pode gerar frustração, ansiedade e isolamento social.

A atuação da enfermagem, com olhar humanizado e empático, contribui significativamente para preservar a dignidade, a autonomia possível e a qualidade de vida do paciente.

A Doença de Parkinson é uma condição complexa, que exige conhecimento técnico e sensibilidade no cuidado. Para o estudante e o profissional de enfermagem, compreender seus mecanismos, sintomas e tratamento é essencial para oferecer uma assistência segura, eficaz e humanizada.

Mais do que controlar sintomas, o cuidado ao paciente com Parkinson envolve acolher, orientar e acompanhar cada fase da doença com respeito e empatia.

Referências:

  1. ACADEMIA BRASILEIRA DE NEUROLOGIA. Consenso sobre o Tratamento da Doença de Parkinson. Disponível em: https://www.abneuro.org.br
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Doença de Parkinson. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/protocolos-clinicos-e-diretrizes-terapeuticas-pcdt
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  4. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020.
  5. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em:
    https://www.grupogen.com.br
  6. SMELTZER, S. C. et al. Enfermagem médico-cirúrgica. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019. Disponível em: https://www.grupogen.com.br
  7. BRASIL. Ministério da Saúde. Doença de Parkinson: protocolo clínico e diretrizes terapêuticas. Brasília, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  8. UPTODATE. Parkinson disease: clinical features and management. Disponível em: https://www.uptodate.com