
O ambiente do centro cirúrgico é altamente técnico e exige dos profissionais de enfermagem não só agilidade, mas também um conhecimento sólido sobre os medicamentos utilizados durante os procedimentos. Cada fase da cirurgia – da indução anestésica à recuperação – demanda o uso criterioso de fármacos com ações específicas, que precisam ser administrados com precisão e segurança.
Este artigo vai detalhar os principais medicamentos usados no centro cirúrgico, explicando sua função, modo de uso e cuidados de enfermagem necessários. O objetivo é tornar esse conhecimento mais acessível e prático para os estudantes de enfermagem que desejam atuar nessa área ou simplesmente entender melhor a dinâmica da farmacologia cirúrgica.
Etapas da cirurgia e os medicamentos correspondentes
Durante um procedimento cirúrgico, diferentes classes de medicamentos são utilizadas. De maneira geral, eles se distribuem entre pré-anestésicos, anestésicos gerais e locais, bloqueadores neuromusculares, analgésicos, sedativos, antieméticos e antibióticos.
Anestésicos Intravenosos: Para Induzir o Sono Rápido
Esses medicamentos são a “chave” para iniciar a anestesia, fazendo com que o paciente durma rapidamente.
- Propofol: É o queridinho dos anestesistas por sua ação rápida e despertar suave. É um líquido branco, leitoso (por isso chamado de “leite da amnésia”).
- Cuidados de Enfermagem: Administrar em veia de bom calibre (pode causar dor na injeção). Monitorar de perto a pressão arterial (pode causar hipotensão) e a frequência respiratória (pode causar depressão respiratória). Verificar se há alergia a soja/ovo (pode conter emulsificante).
- Etomidato: Usado quando o paciente tem instabilidade hemodinâmica (pressão muito baixa), pois causa pouca alteração cardiovascular.
- Cuidados de Enfermagem: Monitorar de perto os sinais vitais, especialmente em pacientes cardíacos. Pode causar náuseas e vômitos.
- Midazolam: É um benzodiazepínico, usado principalmente para sedação, ansiólise (diminuir a ansiedade) e indução anestésica em doses mais altas. Causa amnésia, o que é ótimo para o paciente não lembrar do procedimento.
- Cuidados de Enfermagem: Monitorar depressão respiratória. Pode potencializar o efeito de outros depressores do SNC.
Anestésicos Inalatórios: Para Manter o Sono Cirúrgico
Após a indução com os medicamentos intravenosos, a anestesia é geralmente mantida com gases inalatórios, que o paciente respira através de um aparelho de anestesia.
- Sevoflurano, Isoflurano, Desflurano: São os mais comuns. Mantêm o paciente dormindo e relaxado durante toda a cirurgia.
- Cuidados de Enfermagem: O enfermeiro circulante e o instrumentador não administram esses medicamentos diretamente, mas são responsáveis por monitorar o paciente (através dos monitores) e o funcionamento do aparelho de anestesia, auxiliando o anestesista. Observar a presença de hipertermia maligna (uma reação rara e grave).
Relaxantes Musculares (Bloqueadores Neuromusculares): Para Deixar os Músculos “Flácidos”
Esses medicamentos paralisam temporariamente os músculos do corpo, incluindo os respiratórios. Isso é essencial para facilitar a intubação e para que o cirurgião possa trabalhar sem os músculos do paciente contraindo.
- Rocurônio, Atracúrio, Cisatracúrio, Succinilcolina: Cada um tem um tempo de ação diferente. A Succinilcolina tem uma ação muito rápida e curta, usada para intubação de emergência.
- Cuidados de Enfermagem: É crucial monitorar a ventilação do paciente, pois ele não consegue respirar sozinho sob o efeito desses medicamentos. O paciente deve estar sempre sedado antes de receber um relaxante muscular, pois ele estará paralisado, mas consciente se não sedado! Observar a recuperação do paciente no final da cirurgia (se consegue movimentar-se e respirar sozinho antes de ser extubado).
Reversão do Bloqueio Neuromuscular: Para o Músculo Voltar a Ativar
Ao final da cirurgia, o anestesista pode usar medicamentos para reverter o efeito dos relaxantes musculares, ajudando o paciente a recuperar a força muscular mais rapidamente.
- Sugamadex, Neostigmina + Atropina/Glicopirrolato: O Sugamadex é mais moderno e específico para Rocurônio e Vecurônio.
- Cuidados de Enfermagem: Observar a recuperação da força muscular do paciente (elevação da cabeça, força de preensão). Monitorar a frequência cardíaca (a Neostigmina pode causar bradicardia).
Analgésicos: Para Controlar a Dor Antes, Durante e Depois
A dor é uma preocupação constante. Os analgésicos são usados em diferentes momentos.
- Opioides (Narcóticos): Potentes para dor intensa.
- Fentanil, Remifentanil, Sufentanil, Morfina: Usados durante a cirurgia para controle da dor e no pós-operatório.
- Cuidados de Enfermagem: Monitorar de perto a depressão respiratória (principal efeito adverso grave). Observar sedação excessiva, náuseas, vômitos e constipação. Atentar para a dose e o intervalo.
- AINEs (Anti-inflamatórios Não Esteroides): Diclofenaco, Cetoprofeno, Tenoxicam. Usados para dor leve a moderada e inflamação, geralmente no final da cirurgia ou no pós-operatório.
- Cuidados de Enfermagem: Observar risco de sangramento, efeitos gastrointestinais e renais.
- Paracetamol (Acetaminofeno): Analgésico e antipirético, usado para dor leve a moderada.
- Cuidados de Enfermagem: Observar doses máximas para evitar toxicidade hepática.
Anestésicos Locais: Para Bloquear a Dor em Áreas Específicas
Usados para anestesia regional (ex: raquianestesia, peridural) ou para infiltrar o local da incisão.
- Bupivacaína, Lidocaína, Ropivacaína: Bloqueiam os nervos, impedindo a transmissão da dor.
- Cuidados de Enfermagem: Monitorar sinais de toxicidade (tontura, zumbido no ouvido, convulsões, cardiotoxicidade). Observar bloqueio motor e sensitivo. Se usados em raqui/peridural, monitorar a pressão arterial (podem causar hipotensão) e a frequência cardíaca.
Anti-eméticos: Para Evitar Náuseas e Vômitos
Náuseas e vômitos pós-operatórios são comuns e muito incômodos.
- Ondansetrona, Dexametasona, Bromoprida: Usados para prevenir ou tratar esses sintomas.
- Cuidados de Enfermagem: Administrar antes que as náuseas fiquem intensas. Observar sonolência.
Vasopressores e Inotrópicos: Para Manter a Pressão e a Força do Coração
Em algumas cirurgias, pode haver queda da pressão arterial ou necessidade de suporte ao coração.
- Noradrenalina, Dopamina, Dobutamina: Usados para elevar a pressão ou aumentar a força de contração do coração.
- Cuidados de Enfermagem: São medicamentos de alta vigilância. Administrar via acesso venoso central (preferencialmente). Monitorar rigorosamente a pressão arterial (de preferência invasiva), frequência cardíaca e débito urinário. Têm alto risco de efeitos colaterais.
Antibióticos: Para Prevenir Infecções
Administrados antes do início da cirurgia para prevenir infecções do sítio cirúrgico.
- Cefazolina, Cefoxitina, Gentamicina, Vancomicina: A escolha depende do tipo de cirurgia e do perfil de risco do paciente.
- Cuidados de Enfermagem: Administrar no tempo correto antes da incisão (geralmente até 60 minutos antes). Observar reações alérgicas.
Considerações sobre a prática da enfermagem no centro cirúrgico
O papel da enfermagem no centro cirúrgico vai além da administração dos medicamentos. É preciso entender o que cada fármaco faz, seus efeitos colaterais, interações e riscos. O profissional deve estar capacitado para:
- Confirmar as medicações com a equipe médica e anestésica.
- Conhecer os tempos corretos de administração.
- Observar e relatar sinais de reações adversas.
- Garantir a segurança do paciente durante todo o processo cirúrgico.
A comunicação com a equipe, a atenção ao detalhe e a preparação adequada fazem toda a diferença para o sucesso da cirurgia e a recuperação do paciente.
Referências:
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https://www.elsevier.com.br/farmacologia-8-edicao-9788535285153.html - BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Boas práticas em anestesia – Guia de segurança do paciente. Brasília: ANVISA, 2017.
https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/publicacoes/anestesia.pdf - BARASH, P. G.; CULLEN, B. F.; STOELTING, R. K.; CAUDA, E. V.; LANDELL, B. F. Anestesia Clínica de Stoelting e Miller. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021. (Consultar capítulos sobre farmacologia anestésica).
- RANG, H. P.; DALE, M. M.; RITTER, J. M.; FLOWER, R. J.; HENDERSON, G. Farmacologia. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020. (Consultar capítulos específicos sobre anestésicos, analgésicos, relaxantes musculares).
-
SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. (Consultar capítulo sobre farmacologia no centro cirúrgico).








