O pneumotórax é uma condição clínica que pode gerar bastante preocupação nos serviços de emergência e unidades de terapia intensiva. Trata-se da presença anormal de ar na cavidade pleural — espaço entre a pleura visceral e a pleura parietal —, que pode provocar o colapso parcial ou total do pulmão.
Embora seja um tema delicado, compreender os diferentes tipos de pneumotórax e suas particularidades é essencial para o profissional de enfermagem prestar um cuidado seguro e eficaz.
O Que É Pneumotórax?
Em termos simples, pneumotórax é a presença de ar no espaço pleural, entre o pulmão e a parede torácica. Esse ar pode entrar por uma lesão no próprio pulmão (vindo de dentro) ou por uma lesão na parede do tórax (vindo de fora). Independentemente da origem, o resultado é o mesmo: o pulmão perde sua capacidade de se expandir completamente, dificultando a respiração.
A gravidade do pneumotórax depende do volume de ar que entrou e da velocidade com que isso aconteceu. Pequenos pneumotórax podem ser assintomáticos, enquanto grandes e súbitos podem ser fatais.
Os Tipos de Pneumotórax
Podemos classificar o pneumotórax de diversas formas, mas as mais comuns se baseiam na sua causa:
Pneumotórax Espontâneo: O Que Surge Sem Um Motivo Óbvio
Como o próprio nome diz, ele surge “do nada”, sem um trauma evidente ou uma intervenção médica. É uma quebra na pleura (a membrana que reveste o pulmão) que permite o vazamento de ar do pulmão para o espaço pleural.
Pneumotórax Espontâneo Primário (PEP):
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- Características: Acontece em pessoas que, aparentemente, não têm doença pulmonar subjacente. É mais comum em homens jovens e altos, magros, e em fumantes. Acredita-se que seja causado pela ruptura de pequenas bolhas (bolhas subpleurais ou blebs) na superfície do pulmão.
- Sintomas: Dor torácica súbita e aguda, que pode piorar com a respiração, e falta de ar (dispneia). A gravidade dos sintomas depende do tamanho do pneumotórax.
- Tratamento: Pequenos pneumotórax podem ser apenas observados, pois o ar pode ser reabsorvido sozinho. Maiores podem precisar de aspiração com agulha ou, mais frequentemente, drenagem torácica (colocação de um dreno no tórax para retirar o ar e permitir que o pulmão se reexpanda).
- Recorrência: É comum que aconteça novamente (recorrência) em até 50% dos casos.
Pneumotórax Espontâneo Secundário (PES):
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- Características: Ocorre em pessoas que já têm uma doença pulmonar de base, que enfraquece o tecido pulmonar e facilita a ruptura. As causas mais comuns são: Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), fibrose cística, asma grave, tuberculose, pneumonia por Pneumocystis jirovecii (em pacientes com HIV), câncer de pulmão.
- Sintomas: Os mesmos do primário (dor e dispneia), mas tendem a ser mais graves, pois o pulmão já está comprometido pela doença subjacente. O paciente pode apresentar maior desconforto respiratório.
- Tratamento: Geralmente exige intervenção (drenagem torácica) e tratamento da doença de base. O prognóstico é pior do que no pneumotórax primário, devido à condição pulmonar preexistente.
Pneumotórax Adquirido (Traumático e Iatrogênico): O Resultado de Uma Ação Externa
Esse tipo de pneumotórax é o resultado de uma causa externa, que lesiona a pleura e permite a entrada de ar.
Pneumotórax Traumático:
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- Características: Causado por algum tipo de trauma na região torácica. Pode ser:
- Trauma Aberto (Penetrante): Ferimento por arma branca (faca), arma de fogo, objeto pontiagudo que perfura a parede torácica, permitindo que o ar entre diretamente da atmosfera para o espaço pleural. O paciente pode apresentar um “som de sucção” no local do ferimento.
- Trauma Fechado (Contuso): Batidas fortes no tórax (acidentes de carro, quedas) que podem causar fraturas de costelas que perfuram o pulmão, ou uma ruptura do próprio pulmão sem perfuração da parede torácica.
- Sintomas: Dor intensa no local do trauma, falta de ar, taquipneia (respiração rápida), taquicardia (coração acelerado).
- Tratamento: Geralmente exige drenagem torácica de urgência. Em casos graves, pode evoluir para pneumotórax hipertensivo.
- Características: Causado por algum tipo de trauma na região torácica. Pode ser:
Pneumotórax Iatrogênico:
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- Características: É um pneumotórax que acontece como uma complicação de um procedimento médico. “Iatrogênico” significa “causado pelo médico/tratamento”.
- Causas Comuns: Punção de veia central (subclávia ou jugular interna), biópsia pulmonar, toracocentese (retirada de líquido pleural), ventilação mecânica com pressões elevadas, colocação de cateter de diálise.
- Sintomas: Podem ser discretos ou semelhantes aos outros tipos, dependendo do tamanho do pneumotórax.
- Tratamento: Geralmente requer drenagem torácica.
- Prevenção: É crucial que os procedimentos que podem causar pneumotórax sejam feitos com técnica adequada e monitorização constante.
Pneumotórax Neonatal: O Colapso no Pequeno Pulmão do Recém-Nascido
O pneumotórax pode afetar até mesmo os recém-nascidos, especialmente os prematuros ou aqueles com problemas respiratórios ao nascer.
- Características: Ocorre em neonatos, geralmente devido a imaturidade pulmonar ou doenças pulmonares neonatais (ex: Doença da Membrana Hialina). A ventilação com pressão positiva (seja com bolsa-máscara ou ventilador mecânico) pode romper os alvéolos imaturos, liberando ar para o espaço pleural.
- Sintomas: Dificuldade respiratória progressiva, taquipneia, gemência, cianose (coloração azulada da pele), abaulamento do tórax, bradicardia (coração lento). Pode ser rapidamente fatal em neonatos.
- Tratamento: Em alguns casos, pode ser apenas observação se for pequeno. Grandes pneumotórax exigem aspiração com agulha ou drenagem torácica.
- Cuidados de Enfermagem: A observação contínua da função respiratória do recém-nascido é vital, pois a deterioração pode ser muito rápida.
O Tipo Mais Perigoso: Pneumotórax Hipertensivo
Embora não seja um tipo de origem, mas uma evolução grave, o pneumotórax hipertensivo merece destaque. Ele pode acontecer em qualquer um dos tipos acima, mas é mais comum em traumas e com ventilação mecânica.
- Características: Ocorre quando o ar entra no espaço pleural, mas não consegue sair. Funciona como uma válvula unidirecional: o ar entra na inspiração, mas não escapa na expiração. Isso faz com que a pressão dentro do tórax aumente rapidamente, comprimindo não só o pulmão do lado afetado, mas também empurrando o coração, grandes vasos e a traqueia para o lado oposto (desvio de mediastino).
- Sintomas: Falta de ar intensa e progressiva, dor torácica, taquicardia, hipotensão (queda da pressão), desvio da traqueia (sinal tardio e grave), distensão das veias do pescoço, cianose. O paciente entra em choque.
- Tratamento: É uma emergência médica imediata que exige descompressão urgente, geralmente com uma punção de alívio com agulha (agulha calibrosa inserida no 2º espaço intercostal na linha hemiclavicular para liberar o ar) antes da drenagem torácica definitiva. A intervenção rápida é crucial para salvar a vida.
Cuidados de Enfermagem
Em todos os tipos de pneumotórax, a enfermagem desempenha um papel fundamental:
- Reconhecimento Precoce: Estar atento aos sinais e sintomas (dor torácica, dispneia, taquipneia, queda de saturação, assimetria torácica). Ausculta pulmonar com diminuição ou ausência de murmúrio vesicular no lado afetado é um sinal importante.
- Monitorização Constante: Monitorar sinais vitais (PA, FC, FR, SpO2) continuamente.
- Avaliação Respiratória: Observar padrão respiratório, uso de musculatura acessória, cianose, nível de consciência.
- Preparação para o Procedimento: Em caso de drenagem torácica, preparar o material, auxiliar o médico no procedimento, orientar o paciente.
- Cuidados com o Dreno Torácico: Se houver dreno, monitorar o sistema de drenagem (oscilação, borbulhamento, volume e aspecto do débito), manter o selo d’água, fixar o dreno, e observar o sítio de inserção para sinais de infecção.
- Manejo da Dor: Administrar analgésicos para controlar a dor, que pode ser intensa.
- Oxigenoterapia: Administrar oxigênio conforme prescrição e necessidade do paciente.
- Educação ao Paciente: Orientar sobre a condição, o tratamento, os sinais de alerta e os cuidados em casa (principalmente para pneumotórax espontâneo e recorrência).
O pneumotórax é uma condição que nos desafia a ser rápidos, precisos e vigilantes. Conhecer seus tipos e as particularidades de cada um nos permite oferecer o melhor cuidado, garantindo que o ar esteja sempre onde deve estar: dentro dos pulmões, para que a vida possa continuar respirando.
Referências:
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA (SBPT). Diretrizes para o Manejo do Pneumotórax Espontâneo. Jornal Brasileiro de Pneumologia, Brasília, v. 37, n. 4, p. 556-578, ago. 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbpneu/a/D5H8s4zP8wG4kS9v7xT5q7/?lang=pt.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Urgências e Emergências em Enfermagem. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2010. (Disponível em sites oficiais do Ministério da Saúde ou no portal da Biblioteca Virtual em Saúde).
- SMELTZER, S. C.; BARE, B. G.; HINKLE, J. L.; CHEEVER, K. H. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. (Consultar capítulos sobre distúrbios respiratórios e trauma torácico).
- BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes para o tratamento do pneumotórax. 2020. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
- LIGHT, R. W. Pneumothorax. The New England Journal of Medicine, 2002. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMra020252
- SANTOS, A. M. et al. Pneumotórax espontâneo: revisão narrativa. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, v. 31, n. 4, p. 564-571, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbti
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TORRES, F. S. et al. Diagnóstico e manejo do pneumotórax neonatal. Jornal de Pediatria, v. 88, n. 5, p. 392-398, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jped







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