S1Q3T3: O ECG Está Avisando o Quê?

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Conteúdo Atualizado! Revisado e atualizado em 06/09/2026.

Um dos padrões mais lembrados nas aulas de ECG também é um dos mais mal interpretados na prática: S1Q3T3 não significa automaticamente tromboembolismo pulmonar. O achado pode aparecer quando existe sobrecarga aguda do ventrículo direito, mas sua presença isolada não confirma TEP e sua ausência também não o exclui.

Como reconhecer o padrão S1Q3T3

O nome praticamente descreve o traçado:

S1: onda S proeminente na derivação I.
Q3: onda Q na derivação III.
T3: onda T invertida na derivação III.

Esse padrão é tradicionalmente associado à sobrecarga aguda do ventrículo direito e pode aparecer no contexto de TEP. Entretanto, ele não é obrigatório e pode ocorrer em outras situações, razão pela qual o ECG precisa ser interpretado junto ao quadro clínico.

Por que o TEP pode alterar o ECG?

Quando um êmbolo obstrui a circulação pulmonar, o ventrículo direito pode sofrer aumento súbito da pós-carga. Dependendo da intensidade da obstrução e da resposta cardiovascular, podem surgir sinais eletrocardiográficos relacionados à sobrecarga direita.

Além do S1Q3T3, podem aparecer taquicardia sinusal, bloqueio de ramo direito, desvio do eixo para a direita e inversão das ondas T em V1–V4. A taquicardia sinusal é uma das alterações mais comuns, enquanto o S1Q3T3 é muito menos frequente.

O detalhe que muda a interpretação

Se o paciente apresenta dispneia súbita, dor torácica, síncope, taquicardia ou sinais de trombose venosa profunda e o ECG mostra S1Q3T3, o achado pode reforçar a suspeita de TEP.

Mas não é correto raciocinar no sentido contrário: “tem S1Q3T3, portanto é TEP”.

Da mesma forma, um ECG sem S1Q3T3 não permite descartar a doença. Estudos mostram que alterações clássicas do ECG apresentam sensibilidade limitada e podem estar ausentes mesmo em TEP clinicamente importante.

O ECG entra onde na investigação?

O diagnóstico atual do TEP começa pela avaliação clínica e pela estimativa da probabilidade pré-teste. Dependendo dessa probabilidade, podem ser utilizados instrumentos como Wells, Geneva ou PERC e, em pacientes selecionados, D-dímero, incluindo estratégias ajustadas à idade. Quando indicada a investigação por imagem, a angiotomografia computadorizada pulmonar (angio-TC) é uma das principais modalidades utilizadas.

O ECG ajuda principalmente a identificar alterações cardiovasculares associadas, avaliar o ritmo e procurar sinais de sobrecarga do ventrículo direito, além de contribuir para o diagnóstico diferencial de outras causas de dor torácica e dispneia.

Na prática, isso significa que o ECG responde uma parte da pergunta. Ele não responde sozinho à pergunta “este paciente tem TEP?”.

Um achado que pode chamar atenção na UTI

Imagine um paciente internado que passa a apresentar dispneia súbita, frequência cardíaca elevada e queda da saturação. Durante a avaliação, o ECG mostra taquicardia sinusal e alterações sugestivas de sobrecarga direita. Nesse momento, o valor do traçado está em aumentar a atenção da equipe para uma possível deterioração, enquanto a investigação diagnóstica prossegue conforme a probabilidade clínica e os recursos disponíveis.

É justamente nesse tipo de situação que o profissional de enfermagem precisa evitar a interpretação automática de um único achado. A mudança no padrão clínico do paciente é tão importante quanto aquilo que aparece na tela do monitor ou no ECG.

E se aparecer S1Q3T3 sem sintomas?

Esse é outro cenário que merece cuidado. Um paciente pode apresentar alterações eletrocardiográficas sem estar sofrendo de TEP. O S1Q3T3 não é exclusivo da embolia pulmonar, e seu valor preditivo depende do contexto clínico.

Um estudo publicado em 2026 reforçou essa questão: entre pacientes investigados por suspeita de TEP, o S1Q3T3 apresentou apenas modesto poder de aumentar a probabilidade pós-teste, reforçando que o ECG não deve ser usado isoladamente para confirmar ou excluir a doença.

Outros achados que podem aparecer no TEP

Além do S1Q3T3, fique atento a:

  • Taquicardia sinusal: é uma das alterações mais frequentes.
  • Inversão de T em V1–V3/V4: pode refletir sobrecarga do ventrículo direito e aparece com maior frequência em quadros mais graves.
  • Bloqueio de ramo direito: pode ser completo ou incompleto.
  • Desvio do eixo para a direita: pode acompanhar sobrecarga ventricular direita.
  • Alterações de ST-T: podem ocorrer, especialmente quando existe maior repercussão sobre o ventrículo direito.

Nenhum desses achados, isoladamente, estabelece o diagnóstico de TEP. Alguns deles podem ser particularmente úteis para sugerir sobrecarga do ventrículo direito e maior gravidade, mas precisam ser correlacionados com avaliação clínica, biomarcadores e métodos de imagem.

Quando a situação exige resposta rápida

Dispneia súbita acompanhada de dor torácica, síncope, taquicardia, hipoxemia, hipotensão ou sinais de trombose venosa profunda deve ser encarada com atenção. Em pacientes instáveis, a avaliação precisa ser rápida e direcionada, porque a repercussão hemodinâmica do TEP pode ser grave.

A diretriz de 2026 reforça que a avaliação deve integrar história, exame físico, probabilidade clínica, exames laboratoriais e métodos de imagem, além da avaliação de risco quando o diagnóstico é estabelecido.

Na assistência, um momento muito concreto é aquele em que o paciente inicialmente está conversando normalmente e, durante uma mudança de decúbito ou após deambulação, passa a referir falta de ar intensa, fica taquicárdico e apresenta queda da saturação. O dado mais importante não é esperar aparecer o “S1Q3T3 clássico”, mas reconhecer a mudança súbita do estado clínico, comunicar a equipe e iniciar a avaliação conforme o protocolo institucional.

Cuidados de enfermagem

Na suspeita de TEP, a enfermagem deve acompanhar de perto frequência cardíaca, frequência respiratória, SpO₂, pressão arterial, nível de consciência, dor e evolução dos sintomas, mantendo monitorização quando indicada.

O ECG deve ser realizado e interpretado como parte da avaliação, sem atribuir ao S1Q3T3 um poder diagnóstico que ele não possui. Também é importante observar alterações súbitas no traçado e correlacioná-las com o estado do paciente.

Se houver instabilidade clínica, a comunicação deve ser imediata e o atendimento seguir o protocolo institucional para deterioração aguda e suspeita de TEP. A nova diretriz enfatiza justamente a integração entre avaliação clínica, exames complementares e estratificação de risco.

Para guardar na prova

! Atenção na Prova S1Q3T3 = S em I + Q em III + T invertida em III.

É um achado clássico, mas pouco sensível, associado principalmente à sobrecarga aguda do ventrículo direito.

Não confirma TEP.
Não exclui TEP.
Não substitui a avaliação clínica nem os exames diagnósticos.

Se a questão de prova apresentar um paciente com dispneia súbita + taquicardia + fatores de risco para tromboembolismo + S1Q3T3, o padrão deve ser entendido como um achado que reforça a suspeita, e não como diagnóstico definitivo.

Resumo para salvar

S1Q3T3: O ECG Está Avisando o Quê?

  • S1Q3T3 significa onda S em I, onda Q em III e onda T invertida em III
  • O padrão pode aparecer no TEP por sobrecarga aguda do ventrículo direito
  • S1Q3T3 é pouco sensível e não confirma nem exclui TEP isoladamente
  • A investigação do TEP combina probabilidade clínica, exames laboratoriais e imagem conforme o risco

Referências:

  1. CREAGER, Mark A. et al. 2026 AHA/ACC/ACCP/ACEP/CHEST/SCAI/SHM/SIR/SVM/SVN Guideline for the Evaluation and Management of Acute Pulmonary Embolism in Adults. Circulation, v. 153, p. e977-e1051, 2026. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001415. Disponível em: AHA/ACC/ACCP/ACEP/CHEST/SCAI/SHM/SIR/SVM/SVN – Diretriz de TEP 2026.
  2. SMANIOTTO, Marcos Ferranti et al. Classical ECG findings in pulmonary embolism have minimal diagnostic accuracy: A cross-sectional study. Journal of Investigative Medicine, 2026. Disponível em: PubMed – Classical ECG findings in pulmonary embolism.
  3. KABRHEL, C. et al. ECG in suspected pulmonary embolism. Emergency Medicine Journal, 2019. Disponível em: PubMed – ECG in suspected pulmonary embolism.

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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
✓ 16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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